Amamentação: 8 meses and counting…

Eis que passaram os seis meses de amamentação exclusiva. Eis que começou a diversificação alimentar. E então eu li por esses dias três coisas que me fizeram pensar que estava na hora de desentalar esse texto aqui e mais uns outros bem desaforados que, espero, virão em seguida.

Comecemos pelo pior, que foi uma discussão em um grupo privativo da Leche League sobre uma mulher aqui na França que ouviu de sua advogada que, caso ela não pare de amamentar seu filho de três anos até a próxima audiência, a guarda da criança será atribuída ao pai. Sim, você não leu errado, uma mãe é ameaçada de perder a guarda do filho porque ainda o amamenta aos três anos de idade e isso, aqui na França, é considerado como algo absurdo, uma espécie de manipulação da mãe, que visa apenas manter a dependência da criança e afastá-la do convívio com o pai. Nos comentários dessa discussão, dezenas de casos parecidos, em que juízes e juízas decidem por uma guarda compartilhada – o que é praxe nos casos de divórcio por aqui – independentemente da idade da criança e independentemente do fato dela ser amamentada. Em muitos casos, inclusive, a amamentação funcionou como argumento contra a mãe.

Devo confessar que esse tipo de situação me deixa em um misto de tristeza infinita e revolta furiosa porque, vamos combinar, é algo incompreensível para além do terreno da perversidade pura e simples. O que me faz pensar que em algum momento vou conseguir escrever sobre como é ser mulher aqui na França. Mas continuemos aqui apenas no tema da amamentação.

Pois é, por aqui amamentar um bebê é algo opcional e ninguém acha estranho que você decida não fazê-lo porque, segundo a mentalidade francesa, isso entra na conta das liberdades de escolha de uma mulher. A indústria alimentícia e os fabricantes de leite em pó agradecem. Ainda mais na medida em que, junto a esse discurso da liberdade da mulher em escolher se amamenta ou não, veio se agregar um discurso bastante distorcido sobre a dependência entre um filho e sua mãe. E aqui as pessoas parecem ter pavor da dependência, a tal ponto que propostas como deixar o bebê chorando até dormir desde recém nascido encontram eco e são tomadas como boas orientações de conduta.

As pessoas parecem tão assombradas com essa idéia de que a dependência é uma espécie de veneno perigoso que sua maior preocupação, desde que os bebês nascem, é garantir que eles sejam autônomos. Não parece desejável e nem mesmo suportável cogitar que esses bebês, que certamente caminharão rumo à autonomia, dado que isso faz parte da vida, precisem viver um momento de dependência absoluta que vai funcionar como aquilo que lhes traz segurança para poderem se aventurar mundo afora. Como já dizia o bom e velho Winnicott. Mas ele não era francês. Infelizmente para os franceses.

Assim, não causa espanto, em uma sociedade onde a preocupação principal quando o assunto é a infância se centra na independência a qualquer custo das crianças de qualquer idade, que um comportamento qualquer que crie e mantenha laços fortes entre duas pessoas possa ser entendido como contrário ao que se almeja e tenha que ser, consequentemente, combatido. Por isso, uma mãe que amamenta por um longo período é vista como alguém que faz isso em detrimento da criança, visando apenas manter o filho colado, dependente e, com isso, distante dos outros e da sociabilização. Uma mulher que amamenta é um mal a ser combatido aqui na França.

Nem vou entrar no mérito de todas as pesquisas que comprovam que uma amamentação longa traz benefícios importantes para o bebê e para a mãe. Nem vou detalhar as recomendações feitas pela OMS sobre o tema e a ênfase que dão em que se amamente até, no mínimo, dois anos de idade. Por aqui, o pessoal não respeita as diretrizes da OMS, como se fossem mais sábios que isso. Coisas da arrogância francesa.

Ao invés de repisar todas essas informações, ou de falar novamente sobre a importância da dependência na primeira infância justamente para criar pessoas seguras, confiantes e autônomas, prefiro dessa vez falar sobre a segunda leitura que mencionei logo acima, um texto lindo de um sociólogo defendendo a amamentação. Além do fato de ser um homem que defende o amamentar – o que é não apenas raro, mas basicamente o contrário do que a maioria dos homens fazem – seus argumentos são formulados de uma maneira muito inteligente e perspicaz. Leiam o texto, está em francês e em inglês.

Basicamente, o que o Akré mostra, a partir de dados, estudos e pesquisas, é que a questão principal para se apoiar o aleitamento materno é que não podemos realizar nosso pleno potencial se não consumirmos o primeiro alimento feito especificamente para nós, humanos. E assim ele mostra como a amamentação contribui significativamente para que o ser humano possa se desenvolver no melhor de suas capacidades. Ou seja, não é que a amamentação faz com que sejamos mais inteligentes, por exemplo. É que a não-amamentação faz com que não consigamos utilizar todo o nosso potencial de inteligência. Nas palavras de Akré: “Os bebês humanos não realizarão jamais seu potencial genético consumindo fast-food pediátrico – eu falo aqui dos leites industrializados – fabricados à partir de uma espécie que nos é estrangeira”. Em resumo, sua perspectiva é que a amamentação não nos dá um “a mais” em relação aos bebês que não são amamentados. Não faz sentido falar em vantagens da amamentação, pois isso seria como falar das vantagens de andar em pé e não sobre quatro patas. A amamentação permite apenas o desenvolvimento máximo daquilo que temos potencialmente em nós. Coisa que o leite em pó não permite. E, não, não é uma mágica ou uma crença, é questão de composição mesmo.

Vale a pena lembrar que o leite em pó surgiu para resolver uma situação de urgência, ou seja, para servir como alimento substituto nos casos em que o aleitamento materno não fosse possível. É como a cesariana, que surgiu para solucionar casos de urgência em que um parto normal não fosse possível. Não são opções, no sentido de que não são escolhas entre duas coisas equivalentes. São alternativas piores para os casos em que aquilo que é o melhor, o mais indicado e, por que não, o mais natural, não funciona. Têm uma função de remédio e não de algo para ser utilizado rotineiramente.

Em uma sociedade em que amamentar tornou-se questão de escolha sob o falacioso argumento em prol da liberdade da mulher (porque isso não tem necessariamente a ver com liberdade, mas explico num outro texto, prometo) e em que amamentar tornou-se perigo de cultivar uma dependência perniciosa para as crianças em relação às suas mães, ninguém parece preocupado com aquilo que se perde – ou que se impede – quando se adota esse descaso pela amamentação como regra. E essa perda é não apenas emocional, psicológica, mas também cognitiva, imunológica e em vários outros níveis.

Então, chega o terceiro texto, os resultados de uma pesquisa brasileira mostrando o perfil das mulheres que amamentam por dois anos ou mais. Segundo as pesquisadoras, existem algumas características comuns às mulheres que conseguem amamentar de maneira prolongada. Entre elas estão permanecer em casa por pelo menos seis meses de licença maternidade, não dar bicos artificiais como chupetas ou mamadeira ao bebê, fazer a diversificação alimentar apenas à partir do sexto mês e, vejam só, não viverem com o pai da criança.

Retornamos ao início, por um outro viés. O que quer dizer isso de que as mulheres que amamentam prolongadamente (em geral, né, gente, não é a regra absoluta) serem mulheres que não vivem com o pai da criança? Podemos interpretar, seguindo a linha francesa, de que são provavelmente mães que superinvestem os vínculos com seus bebês e os mantém em uma relação de dependência, infantilizando-os tanto quanto possível através da amamentação. Ou podemos pensar, seguindo a linha do Akré, que um dos maiores obstáculos para a amamentação e para o sucesso da amamentação prolongada consiste na falta de apoio das pessoas próximas da mãe e de bebê, principalmente o marido.

No mundo não tão cor-de-rosa da maternidade tem muita mulher tendo que batalhar sozinha para conseguir amamentar. Já ouvi um número desolador de relatos de pais enciumados, que entram em competição com a cria, que se mostram infantis e contrariados por deixarem de ser o centro das atenções daquela relação do que era antes apenas um casal, ou daqueles seios que eram anteriormente apenas “dele”. Já ouvi pais argumentarem que o fato da esposa amamentar impede que eles possam também construir uma relação com o bebê. Sim, exatamente como no argumento usado por pais, advogados e juízes para impor um final de amamentação forçado para uma criança sob risco da mãe perder a guarda, lembram? Já ouvi mães cogitarem dar mamadeira para seus bebês por acreditarem nesse argumento do interesse dos pais em criarem um vínculo com seus filhos e de que esse seria o melhor e mesmo o único modo de fazerem isso. Dar mamadeira seria a única forma de se aproximarem de um bebê, que tal? Já ouvi homens e mulheres argumentando que amamentar é um ato de egoísmo da mulher que tenta, assim, conservar o bebê apenas “para ela”. Conclusão: muitas vezes, a maior dificuldade de uma mulher em amamentar seu bebê é o clima hostil e conflitual criado pelo pai da criança em torno da amamentação. Que coisa triste que uma das primeiras pessoas que deveria entender e valorizar o esforço da mulher em dar o melhor para aquele que, em última instância, é filho de ambos seja um dos maiores empecilhos justamente para que essa criança possa ter o melhor, não? Que mundo estranho e deturpado é esse em que dificultar ou impedir a amamentação é visto como salvar o filho de uma ameaçadora dependência, esse mal terrível encarnado pela mãe?

Aqui nesse mundo estranho, chegamos aos 8 meses de amamentação, seis dos quais em exclusividade. A segunda vez foi mais fácil, pois teve o apoio da experiência da primeira. O que fez com que eu já soubesse quem pode realmente ajudar, a quem realmente dar ouvidos e a quem jamais procurar em busca de conselhos quando o assunto é amamentação.

Ainda na maternidade, as enfermeiras vieram perguntar como eu alimentaria o bebê – pergunta de rotina por essas bandas quando você chega para parir. Disse que amamentaria e me perguntaram se eu precisava de ajuda ou orientação. Disse que não. Me perguntaram se tinha amamentado a primeira e eu disse que sim. Por quanto tempo? Até seus 20 meses. Ah, então você tem experiência. Sim, tenho.

O importante dessa conversa não é que eu estivesse mais ou menos emponderada em relação ao tema, mas que eu tinha mais noção dessa vez sobre com quem valia à pena conversar. O primeiro mês de vida da minha pimpolha foi um calvário de enfermeiras obstétricas, auxiliares de puericultura, sage-femmes e pediatras todos dando pitacos desencontrados sobre uma amamentação que quase foi para o beleléu por conta disso. Complementa, faz intervalo de 3 horas, acorda para dar de mamar, faz em tal posição, muda de peito, espera esvaziar um peito, deixa dormir no peito, acorda para continuar mamando… Quase enlouqueci. E a coisa só começou realmente a funcionar quando eu parei de escutar todas essas pessoas que na realidade não entendem nada de amamentação porque não possuem nenhuma formação específica sobre o assunto e falam a partir de preconceitos, senso comum e informações errôneas. E passei a me orientar com consultores de amamentação, grupos sobre o tema, o pessoal da Leche League e, especialmente, com mães que amamentaram longamente. Dali em diante foi uma experiência muito linda, tocante e rica de emoções para ambas. Aprendi muito amamentando minha filha, tanto sobre mim mesma, minhas possibilidades e meus limites quanto sobre ela, sobre como é nascer, sobre como é depender, sobre como é contar com o outro, sobre como é crescer, confiar, amar…

Nessa segunda vez já nem abri brechas para o azar. Coisa que não poderia ter feito na primeira, pois nunca tinha amamentado, não conhecia tanta gente próxima que o tivesse feito, não tinha muito em quem me espelhar – e, sim, amamentar, tanto quanto parir, é mais fácil quanto mais você tem modelos no seu entorno – e tinha toda a insegurança da primeira vez, do primeiro filho, da inexperiência. Então tive que aprender rápido, tomar as rédeas dessa história, cuidar para fazer o melhor possível com as informações que eu tinha, confiar na minha capacidade e na capacidade da minha filha… E tudo isso eu trouxe para o segundinho que, sortudo, não passou muito perrengue. Mesmo tendo uma pegada bem ruim no começo, mesmo mamando esbaforido, mesmo engolindo tanto ar que achei que ele fosse inflar e sair voando como balãozinho de gás… Eu respirava fundo, arrumava a pega do menino desesperado e acreditava piamente que ia dar tudo certo. E deu. E quem olha as dobrinhas branquicelas das perninhas desse pequeno hoje em dia nunca que iria imaginar que ele foi um bebezinho que no começo nem sabia mamar direito. E que ele aprendeu mamando e que a mamãe aprendeu como é que era para dar de mamar para ele. E que foi a confiança e a aceitação da dependência que ajudaram para que essa história de amamentação pudesse correr bem.

Vai por mim, se você busca algum conselho sobre amamentar: discuta com quem amamentou durante um longo período. Discuta sobre como a pessoa fez, sobre o que funcionou para ela e para o bebê dela. Provavelmente essa pessoa, quem quer que seja, vai te dizer quase as mesmas coisas que qualquer outra pessoa que teve a mesma longa experiência de amamentação diria: amamentar em livre demanda, seguir e confiar no ritmo do bebê, não julgar se ele está com fome ou não, se é manha ou não e dar o peito sempre que ele pedir, não dar chupeta, mamadeira, não usar bico de silicone nem nada que o valha, confiar que tem leite porque a imensa maioria do leite que o bebê mama é produzido durante a mamada e um peito mais cheio ou mais murcho não quer dizer grande coisa, descansar, deixar a casa bagunçada mesmo, deixar-se levar… confiar. Mães que amamentaram seus filhos prolongadamente sabem mais sobre o assunto do que a maior parte dos auto proclamados especialistas porque apenas nas situações de exceção a teoria importa mais do que a experiência.

 

Tem horas em que a gente simplesmente não sabe…

… o que fazer, o que dizer, para onde ir. Parece que é assim. Na maternidade e na vida, existem vários momentos em que simplesmente não sabemos.

Não que pudéssemos saber tudo, eis aí uma onipotência que é desconstruída dia a dia quando nos tornamos mães. Isso se ela já não havia sido desfeita antes pela própria vida. Não tem como saber, não tem como controlar. No final, o que podemos é muito pouco. E o cotidiano é o permanente jogo entre esse pouco que podemos e o que tentamos fazer com ele. Para ver se estica, se puxa e se chega até ali.

Escrevo com frequência sobre a saga da amamentação. Porque adoro amamentar. Porque acho importante. Porque percebo que um dos fatores que mais a dificultam é que não pensamos sobre ela, achando que é fácil, natural e que vai acontecer em um passe de mágica. Contando com essa naturalidade e mais um monte de informações desencontradas, quando não errôneas, eis uma boa receita para o bolo desandar na hora em que aparecer o primeiro grão de real nessa idealização cheia de facilidade. Enfim…

Por aqui e por aí, amamentar é um projeto de vida, daqueles que você precisa abraçar e se dedicar com afinco para que dê certo. Para aprender, para que seu filho aprenda, para que aprendam juntos, para que tudo se meta em andamento e funcione. E depois de uns dois meses você se descobre mais leve e apaziguada com a amamentação, alguma coisa entrou nos eixos e passa a caminhar por si. Bebê pede, bebê mama, tudo fica mais fácil. A meta são os seis meses, os seis meses de aleitamento exclusivo, que indicam que vocês venceram o grande desafio e podem celebrar tanta persistência e tanta dedicação. Podem mesmo. Mas não acaba aí.

Se podemos contar com a blogosfera e com uma série de referências e grupos que buscam informar e apoiar mães que querem amamentar sobre como fazer nesses primeiros meses, um silêncio enorme se faz depois disso, com a diversificação alimentar. Como é que fica amamentar depois que o bebê começa a comer outros alimentos?

No começo desses pós seis meses, fica tudo muito parecido com o que era antes, tendo em vista que o pequeno nem percebe que está comendo. Os alimentos vão para a boca como tudo o mais, numa espécie de brincadeira divertida com gostos, texturas e cores. Comida vai para a boca e é engolida eventualmente enquanto que outras coisas não. Ou espera-se que não, né? Porque tem pequenos que adoram engolir um papel aqui, uma folhinha acolá…

Mas passam-se novamente uns dois meses e comer outros alimentos entra em velocidade cruzeiro. E, como tudo mais nesse planeta maternália, basta que algo se estabilize e nos acostumemos a ele para que tudo mude novamente. Putz, não tem linha de chegada não?

Não.

Fato é que são praticamente inexistentes informações sobre como amamentar depois dos primeiros seis. Livre demanda? Continua. A menos que você queira começar a arbitrar sobre algo em que, até então, tinha optado por respeitar ritmo e necessidade do rebento. Mas e quando livre demanda significa bebê comer e mamar em seguida? E quando livre demanda significa bebê não querer comer e querer mamar? E quando significa bebê voltar a querer mamar duas ou três vezes por noite?

Pois é, você achando que quando algo engrena é sempre um movimento de progressão, onde o adquirido permanece e novos desafios surgem. Mas e se o movimento não é progressivo, evolutivo ou qualquer outro adjetivo desinvolvimentista para definir como os bebês deveriam ser? E se têm idas e vindas, retornos inesperados, isso quer dizer que há um problema? Ou é apenas assim, tão incerto como a vida?

Nesses dias, entre hipóteses de salto de desenvolvimento, dentes, angústia de separação ou fracasso na estratégia da diversificação alimentar, me dei conta do quão pouco sabemos sobre como se chega de um lugar a outro. Como é que um bebê come ou dorme a noite inteira sem o uso de técnicas de adestramento, sem imposições que desconsiderem o que ele precisa ou pode?

Isso atrapalha!

Continuando a conversa sobre amamentação nessa semana mundial do aleitamento materno, uma lista dos conselhos e orientações que, na minha experiência, mais atrapalham do que ajudam nesse projeto de amamentar nossos bebês. Porque adoramos uma lista de vez em quando, né?

  • tomar nota: dos horários em que o bebê mama, em qual peito, por quanto tempo. Traz uma falsa sensação de controle, como se conseguíssemos garantir com isso que sabemos o que está acontecendo quando, na verdade, não. Anotar para contar para o pediatra, a enfermeira, a família ou afins para que eles digam se está tudo bem cria muita confusão, porque cada qual vai ter uma opinião diferente sobre o que está escrito ali. O bebê mama muitas vezes, poucas, por tempo demais, por tempo de menos… Tudo isso se baseia sobre a idéia de que haveria um ritmo ideal de mamadas o que, por sua vez, ignora que cada bebê é um e o ritmo ideal é aquele que melhor se adapta ao que ele precisa. Passei os primeiros meses feito doida anotando tudo e tentando achar um padrão. Sinceramente, é muito estresse e sofrimento até você finalmente se dar conta de que o melhor a fazer é justamente o inverso: se deixar guiar pela livre demanda e pelas solicitações do bebê.
  • controlar peso: aqui as pessoas têm uma obsessão ainda maior que no Brasil com o ganho de peso do bebê, a ponto de sugerirem que as mães aluguem balanças para controlar o peso em casa. Já cheguei a ver mãe, na PMI, que pedia para pesarem seu filho de poucos dias antes e depois da mamada, para ver se ele tinha se alimentado bem. Novamente, o que isso garante? Claro que é tranquilizador saber que seu bebê está ganhando peso, pois ficou instituído nas nossas cabeças e nos nossos corações que esse seria um indício de que tudo vai bem. Pode realmente ser, quando somado a uma série de outros indícios, pois ganho de peso em si não garante boa saúde nem para os bebês, nem para ninguém. Se fosse o caso, todos os obesos desse mundo estariam em ótimas condições, né?
  • impor intervalos: quaisquer que sejam, tentar guiar a alimentação do bebê pelo relógio me parece um projeto fadado ao fracasso. Sim, existem bebês que se adaptam a isso e mamam a cada três horas e isso fica parecendo novamente um bom sinal de que eles estão alimentados e de que a amamentação vai bem. Mas você come com hora marcada, mesmo sem fome? Então por que aplicar essa lógica ao seu bebê? Deveria ser a fome a guiar os momentos das refeições e o quanto se come, já que ela é a fonte mais confiável de informação sobre o que se passa ali, dentro de nós, não? Ou aprendemos a ouvir e respeitar nossos corpos também quando o assunto é alimentação – e transmitimos isso a nossos filhos respeitando-os também – ou abrimos caminho para maneiras desconectadas e arbitrárias de comer.
  • substituir mamadas por refeições: no momento da introdução alimentar, quando acreditamos que o fato do bebê comer outras coisas fará com que ele mame menos ou diminua o ritmo. Sim, isso eventualmente acontece, mas não no início. No começo o bebê nem percebe muito bem que aquela brincadeira e que aquelas coisas que coloca na boca também alimentam além de divertir. Ele não associa necessariamente as refeições com alimentar-se. Por isso, não adianta dar a papinha na hora em que o pequeno chora pedindo peito porque há grandes chances de que ele continue chorando e não coma nada. Demora até que comer se torne comer e, nesse meio tempo, esteja preparada para intercalar mamadas e refeições, às vezes ao mesmo tempo.

Penso que todas essas orientações servem para nos dar uma sensação de controle, de que sabemos e governamos aquilo que acontece ali com nossos bebês, em seus corpos, em seus estômagos. Temos a impressão de que precisamos controlar para que tudo fique bem e que eles fiquem saudáveis. Acreditamos que controlar = cuidar. Nos parece muito misterioso e insondável esse modo opaco como a amamentação funciona. Peito não é mamadeira, não é transparente, não tem colher de medida, nem indicação de mililitros. Não sabemos muito bem o que está acontecendo ali, enquanto o bebê mama. Temos dúvidas instiladas perversamente há décadas de que nossos corpos sejam capazes de alimentar e de dar conta das necessidades de nossos bebês. Acreditamos mais nas orientações externas, nas medidas externas, nas propagandas e naquilo tudo que dizem que funciona muito melhor do que nós mesmos e do que nossos filhos. Então seguimos essas orientações e fazemos da alimentação um processo penoso, em que ninguém escuta o outro, em que ficamos surdos aos nossos bebês e tentamos todo tipo de violência e de imposição para garantir o que estaria garantido se simplesmente os respeitássemos e nos respeitássemos.

O mais difícil em amamentar é que sempre estamos prontas a seguir o que quer que digam que devemos fazer, morrendo de medo que nossos filhos passem fome. E ao invés de olharmos para eles para tentarmos perceber a fome, a saciedade, as necessidades e os ritmos, pegamos emprestado essas orientações furadas, como se elas fossem regras de conduta, infalíveis. Quem sabe se tentarmos o mais difícil, que é aprender a escutarmos nossos bebês, isso nos traga alguma convicção íntima e profunda de que eles estão alimentados e bem?

Outros textos sobre o tema: aqui.

O peito e o peito

Conheço ao menos três pessoas que detestaram amamentar. Quero dizer, ao menos três pessoas que detestaram amamentar e assumiram isso em voz alta. Uma delas dizia que aguentou até seis meses porque era importante e parou em seguida. Outra teve vários problemas, como ingurgitamentos, feridas e mastite e dizia que só conseguiu começar a ter uma boa relação com a filha quando abandonou a amamentação. E a terceira dizia que se sentia sugada, vampirizada pela filha, começou com a mamadeira à noite e acabou parando de amamentar pouco depois.

Estamos na Semana Mundial do Aleitamento Materno e, como em todos os anos anteriores, vejo uma série de propagandas e de ações buscando incentivar o aleitamento, apoiar as mulheres que o fazem, além de auxiliar com as dificuldades que possam encontrar as que queiram fazê-lo. Tudo extremamente pertinente e necessário se considerarmos que, no Brasil, as mulheres amamentam pouquíssimo tempo (uma média de 54 dias apenas), que são mal orientadas por médicos e profissionais de saúde, tendo informações desencontradas sobre como proceder caso encontrem dificuldades (muitas vezes a solução para qualquer problema é a sugestão do uso da mamadeira e do leite artificial) e, ainda, tendo em vista a falta de apoio que encontram nas pessoas próximas, na família, nos amigos e na sociedade em geral (mulheres sendo impedidas de amamentar em espaços públicos é apenas um dos péssimos exemplos dessa falta de suporte e acolhimento).

Na França, a coisa é ainda pior e esse é um dos países mais fracassados em termos de aleitamento materno. Nessa semana mundial do aleitamento, eles estão procurando depoimentos de mães que amamentaram mais do que uns poucos dias, para dar uma idéia da precariedade da coisa. As mulheres simplesmente não amamentam e isso não parece ser uma questão para ninguém. Os bebês saem da maternidade com chupeta, mamadeira e leite em pó, os pediatras e outros profissionais de saúde prescrevem o uso do leite artificial a qualquer época e frente a qualquer dificuldade das mães. Leite em pó que, por sua vez, fica na vitrine de qualquer farmácia e em lugar de destaque nos supermercados. Mesmo durante a gravidez, as mulheres aqui se mostram mais preocupadas em saber qual leite comprar e como preparar uma mamadeira nos cursos de preparação para o parto do que em saber como poderiam amamentar. A situação é tão precária que, apenas como exemplo, nesses onze meses de maternidade, frequentando outras mães e lugares repletos de mães e de bebês, deparei-me com apenas 5 outras mulheres amamentando. 5. Em um ano. Eles não têm problema com mulheres amamentando nos espaços públicos porque, simplesmente, ninguém amamenta. Noutro dia, em uma loja, uma mãe com um bebezinho de dois meses ficou extremamente emocionada de me ver amamentando minha filha e comentou com o pai dela. Depois veio falar comigo e me parabenizar e dizer o quanto estava feliz de encontrar outra mulher que, como ela, amamentava seu filho. Quase chorei. Entendo muito bem esse estado de solidão e de isolamento do qual ela falava, onde não se encontra nenhum semelhante, nenhum modelo, nenhuma companhia para trocar experiências. Triste.

A questão é que nesse mundo do aleitamento materno nunca ouço ninguém falar ou escrever sobre as dificuldades “psicológicas” em amamentar. As mulheres podem encontrar muitos obstáculos nessa experiência, vindo dos outros, do meio em que vivem, da relação com o bebê, da pega… enfim, obstáculos físicos, fisiológicos, sociais, interpessoais. Mas ninguém fala dos obstáculos dentro dela mesma e de tudo aquilo que temos que elaborar em nossas cabeças fumegantes para amamentar nossos filhos.

Primeiro: amamentar não é natural. Ou melhor, não é normal. No sentido de norma, daquilo que é entendido como norma, como regra, como o modo das coisas serem. Já foi assim, mas não é mais há umas boas décadas, desde que inventaram que dar mamadeira com um outro leite que não o nosso seria melhor ou, no mínimo, igual a amamentar. Bela balela fácil de ser desconstruída porque se trata disso mesmo, de uma construção, de uma invenção que atende aos interesses de muitas pessoas, dos fabricantes das mamadeiras à indústria do leite em pó. Mas que desconsideram descaradamente as necessidades do bebê, levando um monte de mulheres de várias gerações e lugares a acreditarem que “não faz diferença” e que “podem escolher”. Sim, podemos escolher. Mas, sim, faz diferença. Escolher amamentar ou dar mamadeira são opções diferentes. Não levam ao mesmo.

A amamentação desnaturalizada e equiparada a todas essas soluções outras foi se tornando optativa, desaparecendo da vista das pessoas, do campo social. Ao mesmo tempo que os discursos que falam da liberdade da mulher em relação ao seu próprio corpo chegaram para dizer que essa liberdade envolvia também seus peitos e o uso que faria deles. Nada mais justo, não?

Pois é, mas aí é que eu penso que existe uma pegadinha nessa história ou – como diria o bom e velho Freud – um ato falho, uma negação, quem sabe até uma recusa radical. Nessa construção recente sobre o amamentar e a sua anormalidade, o que ficou de fora foi o seu caráter erótico, sexual, ligado ao prazer. Ou seja: não é natural e é sexual. Putz!

Não, não precisa arrepiar os cabelos. Sexual, para Freud e para a psicanálise, é basicamente tudo o que move em direção à vida e não tem necessariamente como finalidade o ato sexual em si. Aliás, o ato sexual em si é uma mínima parcela do que seja a sexualidade humana, sem a qual não haveriam invenções, arte, ciência, civilização… Recomendo mesmo o velho Freud, é esclarecedor sobre o que seja a sexualidade que move o humano. Enfim. O que penso que fica negado nesse modo como a amamentação é percebida por nós nos tempos de hoje é justamente isso: que ela é um ato de prazer. Para a mãe e para o bebê.

O próprio Freud já dizia – sim, ele, de novo – que para o ser humano, nem o mais simples e básico ato de alimentar-se era executado apenas como uma necessidade. Bastava o humano estar cercado de outros humanos para que esse ato fosse envolvido de toda uma carga para além da necessidade pura e simples. Mesmo o bebezinho mamando vive muito mais do que saciar o incômodo que seu estômago vazio provoca. Ele vive o calor do corpo da mãe, os cheiros, o aconchego, a sensação de conforto e de proteção. Tantas outras sutilezas que vão junto com o leite para a boca e que fazem com que esse ato tão simples de alimentar-se torne-se um ato humano por natureza, complexo e ligado à experiência do prazer. Sexual, portanto.

Do outro lado desse encontro está a mãe, uma mulher que, a essa altura, já traz consigo uma infinidade de marcas do que seja para ela a experiência do prazer. Seu corpo e sua mente guardam a memória do que viveu, do que sentiu, das realizações e dos sofrimentos que deram a ela um sentido pessoal e intransferível para aquilo que vive como prazeroso, sexual. Em algum ponto de sua experiência, seus peitos foram investidos de algum modo como fonte de prazer: ou pelo social que coloca nas mulheres essa marca dos seios como atrativo ao olhar masculino, ou como zona erógena geradora de sensações prazerosas… enfim… Essa mulher que se torna mãe tem alguma história anterior à maternidade com seus peitos e eles ocupam algum lugar em seu imaginário como mulher, como zona erógena, como fonte de prazer e por aí vai.

Então o bebê nasce e essa mulher se vê, subitamente, arrancada de todos esses sentidos e de todas essas marcas que seus peitos tinham para ela e para os outros e lançada em uma via única, restritiva e oprimente: peito = leite, mulher = mamífera. E essa desvinculação do peito com o prazer é feita de forma tão abrupta e violenta e esse sentido único do peito como alimento é tão aprisionador que não é de se espantar que muitas mulheres – a maioria mesmo – reaja a tal imposição com uma recusa ainda mais violenta. Detestam amamentar, adoecem, os peitos adoecem, se ferem, sangram, elas ficam sugadas, despossuídas de si. A amamentação fracassa, elas partem para outra, os peitos retornam ao seu “devido lugar” e todos respiram aliviados. Será?

Quando digo que maternidade é tsunami e que revira a vida da gente do avesso, penso que isso se dá repetidas vezes, frente a inúmeras facetas do ser mãe. Amamentar pode ser uma delas e pode ser extremamente perturbador. E talvez esse fator, esse espanto, esse incômodo profundo, essa despossessão de si que pode ser vivida como terror quando se amamenta seja uma fonte importante de muitas dificuldades na amamentação que vem sendo negligenciada.

E aí é que está o mais profundo dessa pegadinha, a meu ver: ninguém fala disso, dessas dificuldades, desse terror porque ninguém quer mexer no vespeiro de ter que assumir que quando nos tornamos mães, não nos tornamos um bicho outro que aquele que já éramos. Ao contrário do que impõe nossa moral judaico-cristã, segundo a qual a maternidade só pode se dar em meio ao sofrimento e à dor, não é toda a verdade que as experiências da maternidade sejam apenas devoção sacrifício e entrega. Não é toda a verdade que nos tornamos mãe e nos deixamos de nós mesmas e nos doamos ao outro, nosso bebê. Não é verdade que nossos corpos erógenos e eróticos se tornam insensíveis com o parto e a maternidade. Somos jogadas na obrigação do natural – que nem existe – como se ele fosse sinônimo de a-sexual e de insensível, somos lançadas na obrigação de ter peitos que alimentam e apenas alimentam, somos empurradas para a equivalência mãe = sofrimento = sacrifício. E no dia-a-dia com nossos bebês, vemos que não é bem isso. Nem para eles, nem para nós. Nossos peitos, por exemplo: eles continuam erógenos e eróticos. E o que parece que perturba demais uma grande parte de nós, mulheres, é justamente nos darmos conta disso.

Penso que é justamente quando nos damos conta de que o parto não foi apenas sofrimento, mas foi bom. Ou que amamentar não é apenas doação e superação de obstáculos, mas que é gostoso. Talvez seja exatamente nessa constatação do prazer que muitas de nós encontremos tanta dificuldade, associando esse prazer com algo impróprio e ilegítimo. Como nos fizeram acreditar há um bom tempo. Acreditamos que ser mãe é sacrifício e que só é legítimo quando sofremos um bocado com cada aspecto da maternidade. Estamos aqui o tempo todo a falar disso, de tudo o que é difícil. Mas será que essa insistência no sofrimento e na dificuldade não servem, também, para mascarar isso que percebemos a cada vez que nossos bebês mamam, ou seja, que é um ato de prazer? Ou que é, no mínimo, ambíguo? Amor é prazer. Ou não?

Nós humanos temos uma série de tabus em relação ao prazer e penso que um dos mais intocáveis é este que envolve aquilo que podemos experimentar de bom naquilo que doamos de nós aos nossos filhos. Amamentar pode ser também prazeroso para a mãe e para o bebê. E isso é legítimo.

Outros textos sobre o tema: aqui.

Algumas confissões após seis meses de amamentação…

Amamentar…

… é como passar no vestibular, ou chegar na reta final de uma corrida, ou realizar um projeto importante. Enfim, um pouco disso tudo, só que totalmente diferente, porque amamentar não é uma prova de conhecimentos que te permite se sair bem apenas por estar bem informada, nem uma prova de habilidades físicas, que te permite conseguir por ter preparado seu corpo, nem tampouco uma competição com outras mães para ver quem amamenta mais e melhor e, menos ainda, um projeto do qual se dê conta sozinha.

Logo que a pequena nasceu, talvez como a maioria das mulheres, eu contava com a natureza e com a naturalidade da amamentação para garantir que tudo desse certo. Sabe essa história de que está nos genes e, portanto, basta deixar por conta deles que tudo se resolve? Pois bem, não é exatamente assim. Não sei se para todas as mulheres mas, pelo que vejo das queixas e das dores de tanta gente, para a grande maioria amamentar não é algo natural, instintivo e dado. Ou melhor, não do modo como concebemos algo que deveria ser natural e instintivo como dado.

Fato é que, desde que engravidamos, na medida em que tenhamos o desejo de uma gravidez, um parto e uma maternidade mais conscientes, apropriados, singulares e humanizados, vamos nos dando conta de que começa um longo e árduo trajeto de batalhas cotidianas. Sei que existem pessoas que se preparam antes e, ao engravidarem, já têm em mente com muita clareza o que querem e como querem mas, se a sua experiência for como a minha, possivelmente somos pessoas que vamos pensando conforme acontece e tentamos elaborar e entender o que queremos conforme cada situação nova se impõe. O que significa que temos que elaborar muita coisa em um tempo determinado e, ainda por cima, agira de acordo, no caso de uma gravidez, de um plano de parto ou da maternidade dos inícios da vida de nossos filhos. Não dá para ficar “esperando Godot” naquela reflexão punhetante que dura o quanto tiver que durar e nos vemos pressionadas e coletarmos informações, pensarmos e agirmos com prazo. Tarefa angustiante para uma psicanalista, sempre mergulhada no caldo das livres associações e dos tempos do inconsciente mas, nessa vida, há situações e momentos que pedem uma certa agilidade. Enfim…

Então, grávida, você descobre que precisa batalhar para viver sua gravidez com tranquilidade, sem muitas interferências, sem terrorismo e sem excesso de intervenções. Mais ainda, descobre que terá que lutar para ter um parto digno, humano, acolhedor para você e para seu bebê que chega. E que terá que brigar para ser bem tratada e para que seu filho seja bem recebido neste mundo. Terminados gravidez e parto, começam outras sagas e uma delas – ou a mais intensa delas, a meu ver – é a da amamentação. Porque você contou com a natureza ao longo da gravidez, aprendeu a confiar que seu corpo poderia abrigar bem uma vida ali dentro dele, aprendeu a não se sobressaltar, a não se inquietar com riscos e a escutar seu corpo e os sinais do bebê. Assim como você aprendeu a contar com essa mesma natureza na hora de parir, acreditando ainda uma vez que seu corpo saberia trazer seu filho ao mundo e, principalmente, que esse pequeno saberia vir ao mundo por seus próprios meios e no seu tempo. Então, como é que na hora em que começam os cuidados com o bebê essa tal de natureza não funciona assim tão bem?

Penso que temos uma idéia meio equivocada do que seja confiar na natureza, no instinto, no corpo e na sabedoria dele. Parece que isso significa que podemos relaxar e deixar tudo por conta de uma força que nos é alheia e que nada mais precisa ser feito, apenas estar entregue. Será que é mesmo isso?

Tenho minhas dúvidas. Pois se uma grande capacidade de entrega e de desconhecimento ajuda muito nesses momentos viscerais da existência, o fato de sermos nós, mulheres do século XXI, marcadas pela ciência, pela razão, pelo pensamento, pela lógica faz com que, feliz ou infelizmente, não possamos nos dar ao luxo de uma total inconsciência daquilo que vivemos nesses momentos em que a natureza tem que tomar a dianteira. Quero dizer que ficamos numa condição paradoxal de precisar se aproximar dessas experiências do jeito que somos capazes hoje em dia, ou seja, de um jeito super mediado, cheio de racionalizações, de conhecimentos, de falas, de idéias e assim por diante e, ao mesmo tempo, poder deixar tudo isso em segundo plano, a cabeça descansando em standby enquanto o corpo trabalha. Difícil, não?

Fato é que não vivemos mais gravidez, parto e maternidade como nossas avós e bisavós viviam. Não estamos mais cercadas de pessoas que pariram seus filhos, não escutamos mais suas histórias, dificilmente teremos visto um parto na vida antes do dia de viver o parto de nossos próprios filhos, assim como raramente teremos estado na companhia cotidiana de mães e seus bebês pequenos, acompanhando os cuidados e a amamentação dedicados a eles. Todas essas situações que faziam parte da vida mais banal de nossas avós, bisavós e antes delas, pelo simples fato das famílias serem grandes, das pessoas conviverem de perto com seus familiares de muitas gerações e, principalmente, do cuidado das crianças ser compartilhado entre muitas pessoas, inclusive no que diz respeito à gravidez, parto e puerpério, quando as mulheres mais experientes se encarregavam de cuidar e orientar as mais novas, bem… todo esse jeito de entender e de lidar com a maternidade deixou de existir. Ao menos para nós, mulheres ocidentais burguesas vivendo em certos cantos ditos desenvolvidos desse mundo. E, se não convivemos mais com grávidas, parturientes e mães, e se não as acompanhamos mais nesses momentos, como esperar que tenhamos de onde tirar esse conhecimento visceral que deveria agir nessas horas?

Então, na hora de contar com a natureza para amamentar, a “porca torce o rabo” e percebemos, muitas de nós, que nisso também haverá luta, esforço, batalha, busca de informação, ajuda, orientações desencontradas, violências e desrespeito. E nisso também teremos que fazer face a muitos desafios, muitas opiniões desencorajadoras, muita pressão. E muita insegurança. Ou seja, quando você acha que acabou o mais difícil e que agora pode relaxar e curtir a cria, a coisa está apenas começando.

Assim, muitos perrengues e desencontros depois, foi com muito orgulho e emoção que constatei nossa chegada aos seis meses de amamentação exclusiva. Emoção e gratidão, especialmente à minha filha, que foi quem me ensinou a amamentar. Eis aqui o grande segredo, a meu ver, dessa tal de amamentação e que ninguém conta porque pouca gente sabe: mesmo que nós, as mães, adultas, estejamos muito marcadas por toda a nossa história e nossa experiência de distanciamento de nós mesmas, de nossos corpos e de nossas potências enquanto mulheres parideiras e nutrizes, nossos bebês recém-nascidos sabem. Sabem muito mais que a gente, porque mais conectados ou menos perdidos. Então, se dermos um crédito a esses pequenos e tentarmos escutá-los, respeitá-los e seguir um pouco os ritmos e as demandas deles, muita coisa pode funcionar de um jeito surpreendente.

Claro que não é mágica. O bebê também aprende a mamar, ao mesmo tempo que aprendemos a amamentar. Ele aprende a pegar o seio, a sugar eficientemente. Mas ele tem, como nós também, todos os instrumentos para isso. Basta uma ajudinha ou outra no começo e uma boa dose de paciência que o sujeitinho faz o resto. Basta ouvi-lo, atendê-lo em suas demandas pelo seio, deixá-lo experimentar, ajustar com ele posições, buscar um conforto para ambos. Uma das coisas que aprendi, que parece tão simples de tão evidente, mas que quase me passa desapercebida, é que não se trata de você. Amamentar (como parir) não se trata de você. Não é um projeto seu, uma decisão sua, algo que diz respeito ao seu corpo, ao seu desejo e blábláblá. São dois, percebe? Você e o bebê. Existem duas pessoas aí, dois seres, dois corpos, dois desejos, duas existências que precisam se encontrar e entrar em alguma espécie de acordo sobre como viver tudo isso de uma maneira que seja boa para ambos. E de onde saiam ambos alimentados e felizes.

E, não, esse não é o fim dessa história. Ainda teremos amamentação pelo tempo que a pequerrucha precisar e eu puder. E temos introdução alimentar. Mas isso é outra saga, conto depois.

Outros textos sobre amamentação: aqui.

Amamentação: o que tem…

… e o que não tem funcionado. Para minha filha e eu, claro. Porque a singularidade dos envolvidos nesse ato certamente há de influenciar naquilo que dá certo ou não. Feita a ressalva, vamos em frente.

Acho que posso resumir em duas palavras aquilo que tem funcionado conosco: livre demanda.

No começo da amamentação, recebi as orientações mais desencontradas possíveis… E se tivesse persistido por um longo tempo nelas, certamente teria complicado ainda mais um começo tão delicado. Ou, talvez, até inviabilizado a amamentação. Então, vou falar sobre como descobrimos a duras penas o que é livre demanda através de tudo aquilo que não funcionou, ok?

Amamentar a cada 3 horas, por exemplo. Por que não funciona? Você come com hora marcada e em intervalos regulares? Pois é. E por conta desse intervalo imposto tinha choro que eu achava que não podia ser fome e ficava tentando enrolar – outra sugestão totalmente furada. E por que não dá certo enrolar e tentar seguir os horários? Porque o bebê fica chorando, com fome, estressado, pode até dormir um tempinho de cansaço e logo em seguida volta a chorar, mais estressado ainda. E quanto mais se perpetua esse ciclo, mais difícil de acalmá-lo. Uma tortura para ambos. O bichinho chorou ou começou a te cheirar, fazer boquinha, mamar o ar, a mão, o braço de quem está com ele no colo? Fome. Peito. Pronto.

Oferecer cada peito por 5 minutos, ou por 15 minutos, ou por x minutos quaisquer. Por que não funciona? Porque cada um tem seu ritmo para comer, não? Imagina se te dissessem que você deve comer em 5 minutos? Você engoliria tudo para passar mal depois? Ou seria arrancado da mesa e ficaria com fome até a refeição seguinte?Chegaram ao ponto de me orientar que x minutos era pouco, uma meia hora era bom e mais do que isso ela estaria perdendo, pelo esforço, tudo o que ganhou com a mamada. OK, então você pega um cronômetro, senta para amamentar seu bebê e reza para ele passar do ponto em que terá mamado pouco mas não ultrapassar a marca do perde tudo. Diga, alguém se alimenta assim? Penso que essa história de inventar tempo para amamentar é ranço de quem gosta mesmo é de uma mamadeirinha, onde a gente coloca uma quantidade determinada e o rebento que se vire para engolir o tanto que é o certo. Daí, basta tirar a média de tempo que os bebês levam para tomar a tal quantidade ideal e… voilà! Mamãe que amamenta só precisa que seu rebentinho siga a média. Mas como peito não é mamadeira e nem transparente para a gente calcular quanto o bebê está ingerindo, o que além de deixá-lo mamar quando precisar e pelo tempo que quiser poderia garantir uma quantidade suficiente? Nada. Então, peitos pra que te quero! Na hora em que o sujeitinho largar o peito, isso quer dizer que acabou.

Outra orientação capciosa é a que tenta cercar o número de mamadas… amamentar 8 vezes, 10, 12… Se não há como controlar pelo intervalo entre mamadas, nem por sua duração, vamos tentar pela quantidade, né? Por que não funciona? Justamente porque essa quantidade não se espalha de modo uniforme pelas 24 horas. E não significa que o bebê mama a mesma quantidade a intervalos regulares. Então, o que ela garante? Nada. Percebi que esse número varia de tempos em tempos, nos picos de crescimento, em dias mais tranquilos ou mais agitados… Ficava maluca pensando que ela não tinha mamado as dez vezes. O que fazer? Acordar? Enfiar o peito na boca? Fazer mamar à força? O bebê sabe mais do que nós sobre quando sente fome, melhor confiar nele.

E quanto a essa de acordar, tanto quando passa das tais lendárias três horas de intervalo quanto quando o bebê mamou por poucos minutos? Também tentei. Carinho na cabecinha, mexer na mãozinha, trocar a fralda… Não deixar o bebê dormir enquanto não tiver mamado o suficiente. Mas quanto é o suficiente? E caímos novamente nas medidas, nas médias, nas arbitrariedades que não dizem nada. Minha bebê não estava nem aí, afastava a minha mão e dormia. Mamar cansa, e muito. Não só a mãe, mas o bebê também. Principalmente no começo, quando eles ainda não sabem fazer isso muito bem juntos. Repare no rostinho do bebê mamando. Tudo mexe, todos os músculos. É um baita exercício e um esforço enorme até o sujeitinho virar craque. Então, tem horas que tem mesmo que dar um cochilo e recomeçar logo mais. Sim, isso atrapalha o sono da gente, que quer mais é que os pequenos mamem logo, tanto quanto possível, o mais rápido possível, para a gente poder dormir um pouco. Que desespero. Mas aporrinhar o sono do seu bebê não vai resolver isso, porque ele pode mamar demais e soltar tudo depois. Ou acordar, se irritar e chorar porque está exausto e precisa dormir. Melhor deixar o pequeno em paz e resolver o cansaço de outra maneira. O que vai resolver? O tempo, o bebê começar a espaçar as mamadas na medida em que vai se tornando expert nisso e consegue o máximo de leite, sem se exaurir, podendo fazer outras coisas com o tempo e a energia que lhe sobram como… dormir!

Então vem uma das minhas orientações prediletas: dá uma mamadeirona que ela dorme a noite inteira. Por que não funciona? Eu tenho apenas um comentário: foie gras. Sabe o foie gras, aquela iguaria francesa de fígado de ganso? Sabe como é feito? Os franceses descobriram que os gansos gordos tinham fígados gordos e um pouco inflamados e que isso era DE-LI-CI-O-SO. E tiveram a brilhante idéia de forçar os tais gansos a comer, para que eles ficassem mais gordos, com fígados mais inflamados e que tivesse mais foie gras pra galera. Essa alimentação forçada tem um nome aqui: a gavage, que fez com que eu deixasse de comer a iguaria, assim como muitas outras pessoas. Então, sempre que ouço essa historinha de dar uma mamadeirona para a minha filha ficar entupida de leite artificial e precisar passar horas dormindo para digerir algo que é muito mais indigesto que o leite materno, lembro da gavage. Por que não funciona? Pois é, parece até que funciona, mas eu pessoalmente não estou a fim de garantir minhas horas de sono a esse preço. Prefiro esperar o tempo da minha bebê alcançar essas noites dormidas por meio de seu próprio desenvolvimento.

Existem inúmeras pesquisas comprovando que a introdução da mamadeira (bem como da chupeta, por sinal) causa confusão de bicos e pode favorecer um desmame precoce. Então, se a mamadeira entope eficazmente e a chupeta acalma eficazmente, penso que o preço que se paga por essas eficácias não vale o benefício. No nosso caso. Não me interessa acalmar a todo custo ou sobrealimentar minha bebê e arriscar, com isso, a amamentação. Porque o leite materno é o melhor alimento para o começo de vida de um bebê humano. E porque a relação que se constrói a partir desse cotidiano de amamentação é de extrema importância. Para ambos.

Putz, mas isso quer dizer que eu tenho que ficar ali, à disposição? Pois é, amamentar exige mesmo essa disponibilidade de estar por conta do tempo do outro. E me parece que essa é uma das maiores dificuldades do nosso tempo: estar para o outro e não para si mesmo, priorizar um outro. Esse tempo de amamentação exclusiva é tão curto. E essa dedicação não é um fardo, se você pode encará-la como um prazer e vivê-la com a surpresa das descobertas. Surpreender-se quanto ao que você pode oferecer. Ser mamífera é uma constatação espantosa para nós, mulheres ocidentais burguesas do século XXI. Surpreender-se também quanto ao que seu bebê comunica. Conhecê-lo, criar proximidade, trocar afeto. Tantas coisas lindas acontecem ao longo dos primeiros seis meses, muitas das quais enquanto amamentamos. Será que vale arriscar tudo isso por uma necessidade de controle?

Correndo atrás de seguir receita de bolo de como dar de mamar, quase botei tudo a perder pois o que descobri, a duras penas, é que essas regras de ritmos, intervalos e duração das mamadas só servem para deixar as mães tensas. Anotar o horário das mamadas, o tempo de duração, procurar nos números alguma regularidade, uma luz, algum padrão em um momento inicial em que tudo é ensaio, tudo é improviso, tudo é descoberta? Não funciona. Ficar de olho no relógio e nos números não faz com que o bebê comece a se enquadrar neles. Pois, a única coisa que tais procedimentos almejam – como todos os outros que mencionei até agora – é o controle.

Saber, com certeza, quanto o bebê come, como se isso pudesse garantir a 100% seu bem estar, sua saúde ou – medida das medidas – seu peso. Peso virou sinônimo de saúde e controlando o peso acredita-se estar controlando e garantindo a saúde do bebê. E, como a amamentação escapa a esse controle das mamadeiras, dos horários e das quantidades, tenta-se fazer com que ela funcione do mesmo modo e segundo os mesmos parâmetros do aleitamento artificial. Estipulando intervalos, tempos e ritmos, nossos “orientadores”, e nós mesmas, acreditamos que estamos garantindo alguma coisa. Mas… não funciona. Não funciona, esse é um controle que está nas mãos – e no estômago – do bebê. Ele é o único que pode saber, com certeza, se e quando tem fome. E de quanto leite precisa. Aprendi a confiar na minha filha. Se ela está reclamando para mamar é porque tem fome e/ou precisa sugar. E ambas necessidades são válidas.

Amamentar em livre demanda é, a meu ver, um gesto de respeito ao pequeno ser que acaba de chegar ao mundo. Sinaliza que estamos ali, disponíveis, para acompanhá-lo e descobrir com ele como cuidar de suas necessidades. É algo muito bom para se oferecer a alguém que faz transbordar nosso peito de amor, não?

O que aprendi sobre a amamentação…

… até agora. (ou: uma resposta a um certo post de uma certa blogueira em uma certa revista que, de tão medíocres, não merecem nem ser citados, a não ser como instigadores de respostas boas)

Digamos que ele é como um ser vivo, extremamente delicado e sensível ao entorno, o ato de amamentar. Quer dizer, é algo poroso, que se contagia de tudo que o cerca – e que nos cerca, mãe e bebê. Ambiente ruim, gente dizendo coisas desencontradas, falas sobre leite fraco, pouco leite, baixo ganho de peso… tudo isso pesa, influencia, mexe no tênue equilíbrio que exige o amamentar. Aprendi que, sem apoio e – pior ainda – com gente próxima ou distante falando contra, duvidando, criticando, persistir na amamentação é quase que um ato de heroísmo.

Antigamente, até bem poucas décadas atrás, contávamos com a sabedoria dos mais velhos. Mulheres pariam cercadas de mulheres, mulheres criavam seus filhos entre outras mulheres, mulheres amamentavam sob os olhos cuidadosos de outras mulheres. Mulheres mais experientes estavam sempre por perto, cuidando daquilo que elas sabiam muito bem por experiência própria: conceber, gestar, parir, amamentar, cuidar… Ninguém ficava sozinha, sem cuidado e sem orientação numa hora dessas. Em alguns cantos do nosso mundo, ainda existe essa rede de cuidados. Mas, infelizmente para nós, mulheres do mundo ocidental capitalista, o discurso da experiência e da rede de apoio foi desacreditado em nome de um saber médico / técnico e científico que saberia e poderia mais sobre a maternidade. E – coisa estranha – nós mesmas compramos esse discurso que, na medida em que tirava o saber da experiência de nossas avós, mães e tias, o tirava também de nós. E ficamos sozinhas e ignorantes, todo esse saber depositado nas mãos de um outro: a medicina, a ciência, a indústria. São essas as companhias que temos, hoje em dia, para gestar, parir e alimentar nossos filhos. Então, quando eles dizem que nosso corpo é falho e que não somos mais capazes de fazermos o que sempre fizemos, na falta de uma rede de apoio e de cuidado que nos ajude a contestar essa nossa pretensa incapacidade, capitulamos. Fragilizadas, aceitamos justificativas duvidosas para todo tipo de intervenção. E não parimos mais. E não amamentamos mais. E acreditamos que é assim mesmo, que é “normal”. E nos confortamos na idéia de que dar mamadeira não é tão mal assim. Não é tão mal assim quando realmente se necessita. Como uma cesariana pode ser uma benção quando realmente se necessita. Mas na medida em que ficamos sozinhas e destituídas de qualquer poder frente aos donos desse poder que servem, prioritariamente, a outros interesses opostos e conflitantes com o bem-estar da mãe e do bebê, como saber quando é que realmente se necessita? Aprendi que, hoje em dia, nosso esforço é muito maior em encontrar uma rede de apoio e de acolhimento que faça as vezes da “voz da experiência” de nossas mães, avós, bisavós e afins. Ela pode estar na internet, no encontro com outras mães, no trabalho das doulas e das enfermeiras obstetrizes, na existência de consultoras de lactação… há substitutos possíveis. Mas há que se buscar ativamente essas outras vozes discordantes que te ajudem realmente a poder amamentar.

Nada de natural existe nisso. Amamentar é natural. Tão natural como parir. Mas acontece que nós, humanos no século XXI, passamos por tantas mediações em nossa formação como humanos que estamos muito, mas muito distanciados de nossa natureza. Então, não adianta ouvir dizer que é algo instintivo e acreditar que isso significa que você vai chegar lá, na hora H, e vai conseguir fazer, tomada e possuída pela força das suas próprias entranhas. Até pode ser que seja assim. Mas pode ser também que as suas entranhas fiquem submetidas à sua razão, ao seu pensamento, ao seu medo e a tudo aquilo que acostumamos a priorizar em nossas existências mais cotidianas. Se baseamos toda a nossa vida em conhecimentos, informações, pensamentos lógicos e  afins – ou, ao menos, se acreditamos que é assim que vivemos e que fazemos escolhas – o que faria com que, na hora de parir e de amamentar pudéssemos conseguir reverter toda essa racionalidade que rege nossa experiência e nos abandonarmos ao desconhecido, confiando apenas em nossa intuição e em nossa sabedoria ancestral? Aprendi que para poder acessar essa sabedoria ancestral e poder se abandonar nessas horas em que o abandono é necessário – e quanta entrega é necessária para amamentar! – precisamos justamente jogar com todas as armas que temos a favor disso. Informação, pesquisa, conversas, preparo do corpo… tudo, todas as ferramentas podem e devem ser usadas. Ficar sentada no sofá esperando que algo em você faça todo o serviço é pedir para dar errado. Porque do mesmo modo que ali dentro das entranhas existe um instinto capaz de fazer parir, de fazer amamentar e tudo o mais, também existe o medo, as dúvidas… E quem vai ganhar nesse jogo de forças? Melhor botar todas as chances do lado que você deseja, não?

Até mesmo porque, vira e mexe precisamos discutir com os outros. Ou, ao menos, ter bons argumentos que nos fortaleçam na hora em que nos dizem para dar complemento por baixo ganho de peso ou coisas afins. Precisamos saber que bebês são diferentes, que muitos perdem peso ou ganham pouco no início e que cada qual encontra seu ritmo de mamar e de ganhar peso. E que não é apenas a curva de peso que conta na hora de avaliar o estado de saúde de um bebê. Muitos outros fatores contam. Aprendi que, se o bebê vai bem, o ritmo com o qual ele ganha peso é apenas mais um dado daquela singularidade que ele é.

Aliás, até mesmo quando a preguiça ou a ignorância falam mais alto e o médico decide avaliar seu filho apenas pelo ganho de peso – quando ele deveria é estar fazendo um belo de um exame clínico bem geral e abrangente que incluísse até mesmo informações sobre o estado da mãe e uma observação da mamada com vistas a orientar em caso de dificuldade – são poucos os que sabem interpretar que “normal” é todo o bebê que está dentro da curva, seguindo o seu desenho. Da parte mais baixa à mais alta, tudo é “normal”. Ou seja, mesmo que seu bebê não ganhe um quilo por mês e não fique explodindo de dobrinhas, está na curva, está “normal”. Aprendi a interpretar curvas de crescimento e mais um tanto de coisas que me fariam uma PhD no assunto. Como a maioria das mães que conheço que precisam brigar para poder amamentar.

Aqui na França, amamentação passou muitas décadas fora de moda. Condenada mesmo como um fardo para as mulheres. E só voltou a ser levada em consideração, segundo me explicaram, quando foi associada à diminuição do câncer de mama. Veja só: que seja o melhor e mais completo alimento para seu bebê, isso não foi argumento suficiente para as francesas, que só reabilitaram esse ato “primitivo” quando foi aventado algum benefício para elas. Digo isso apenas para dar uma idéia da mentalidade que circula por aqui. Assim, quando fui com uma amiga no simpático Le Poussette Café noutro dia, que estava lotado de pequenos e grandes rebentos, eu era a única mulher amamentando. Todas as outras pessoas sacavam suas mamadeiras de suas sacolas cedo ou tarde. Ou seja, essa história de que amamentar está na moda é um argumento bem perverso de quem prefere ignorar a realidade e se deixar levar por discursos pré-fabricados justamente para desviar daquilo que um simples olhar pode constatar no dia-a-dia: a maior parte das mulheres não amamenta. Não quer, não pode, não sei. Mas não amamenta. E causa surpresa que uma entre elas tire o peito para fora e dê de mamar à sua bebê. Surpresa discreta porque os franceses são educados demais em sua grande maioria para praguejar contra o “politicamente correto” em voz alta. Fora os caras de mente tortuosa que ficam te encarando com olhos nada generosos, num país onde o topless na praia é permitido, vai entender… Mas isso é outra conversa. A questão, aqui, é a predominância do leite artificial e da mamadeira em todos os lugares por onde circulam pimpolhos franceses e suas mães. Isso porque, nas maternidades francesas, há um incentivo quase excessivo por parte de enfermeiras, sage-femmes e auxiliares de puericultura para que as mães amamentem. Mas basta ter alta e sair para o mundo e você vai topar com muitos profissionais de saúde tentados a te indicar leite artificial na primeira consulta. Assim como seus amigos, sua família, e todas as francesas que vão sempre te dizer que você não é obrigada a amamentar. Aprendi que, para amamentar, você tem que ter uma firmeza de intenções e uma clareza a toda prova. Porque será posta à prova o tempo todo.

E leva tempo! Como leva tempo! Quando dizem que existe um tempo de adaptação entre você e o bebê para que a amamentação entre em um certo piloto automático em que ela funciona bem, você pensa que esse tempo é o tempo até sair da maternidade, ou o tempo de alguns dias. Mas podem ser semanas. Ou meses. Cada bebê é um e cada mãe é uma e o tempo que cada qual vai precisar varia muito. Mas é sempre um bom tempo. E aprendi que quanto menos pressa temos, melhor e mais rápido a coisa engrena. Porque basta ficar tomada por aquela urgência estalando no peito para o bebê se inquietar. E bebê inquieto não mama bem, não descansa enquanto mama, não se apazigua com uma mãe botando pilha ali do lado. Do mesmo jeito que menos é mais para muitas coisas na vida, acho que na amamentação mais lento vai mais rápido do que ter pressa.

Pega, posição correta, tantas posições para amamentar… livre demanda, uma atenção aos sinais do bebê, às suas necessidades. Aprendi que o bebê sabe mais sobre mamar do que nós. Não apenas porque tem um reflexo de sucção, já que isso sozinho não garante nada, uma vez que tem a mãe ali do outro lado e o pequeno vai ter que se entender com ela para poder sugar e garantir que o leite do qual precisa seja produzido. Então, a mãe tem que confiar que o pequeno sabe quando tem fome, sabe quando precisa mamar, sabe onde lhe aperta o calo e quando precisa de aconchego, de calor, de companhia, de abrigo… e de leite. Se nos disponibilizarmos a atender essas demandas de nossos bebês, a amamentação transcorre de um jeito bem mais sossegado para ambos.

Não é um jogo de forças, você irritada porque sabe como tem que ser (um peito, outro peito, tanto tempo, a cada tantas horas, uma determinada quantidade) versus um bebê irritado porque precisa se encaixar em um ritmo que não é o dele e que ele ignora totalmente. Se você se aborrece porque não está funcionando, imagina o que ele sente ao ser alimentado quando e como você quer e não como ele precisa? Aprendi que amamentar é encontro, um encontro de duas pessoas que mal se conhecem e que precisam uma da outra de um modo muito íntimo. E que precisam se entender falando línguas desconhecidas um para o outro. Ou seja, um encontro quase impossível, a não ser que cada qual confie no outro e na sua capacidade de estar ali e de dar conta. Sem essa disponibilidade, amamentar vira um martírio. O que é uma pena, pois pode ser tão prazeroso, tão bonito como são todos os encontros de alma, os encontros verdadeiros e profundos.

Fico de coração partido a cada vez que ouço alguma história de alguém que parou de amamentar e passou à mamadeira. Por má informação, por falta de informação, por pressão dos outros, por falta de apoio… ou seja, por todos os motivos “errados”. Tenho uma amiga cujos olhos se enchem de lágrimas a cada vez que ela conta como se sentiu aterrorizada com a perspectiva de que a filha estivesse passando fome e passou ao leite artificial. Conheço uma outra que, a cada vez que me vê amamentando conta com tristeza como, mesmo sendo seu segundo filho e tendo amamentado a primeira, acreditou nas palavras do pediatra sobre pouco leite e baixo peso e passou à mamadeira. E o quanto se arrepende de ter ouvido a ele e não a si mesma. Por que nos despossuímos assim?

Tem um texto lindo da Anne Rammi do Super Duper sobre amamentação em que ela começa escrevendo sobre o que nós mulheres perdemos quando renunciamos sem motivos realmente impeditivos a essa experiência. Ela posta uma foto e fala de um olhar, um olhar do bebê que mama e que é só para a mãe. É esse encontro de almas do qual escrevi há pouco. Um bebê te olha no fundo da alma e faz teu coração revirar do avesso, de tanto sentimento que pode carregar em um mero olhar. E isso não acontece no comecinho, também leva um tempo, é a recompensa a ambos pelo trabalho bem feito. E esse olhar vem um dia. Por um instante todo o cansaço, as dificuldades, os conflitos passam. Parece piegas e parece mágica e, no entanto, acontece. É o tal encontro. Será que não vale o esforço?

Leia mais a respeito da amamentação nesse blog clicando aqui.

Amamentar é…

… mais difícil que parir.

Quem diria!?

Talvez pelo fato de ser algo estendido no tempo – ao contrário do parto que, mesmo longo, é pontual – parece que amamentar é um desafio renovado a cada mamada, durante todo o tempo que dure essa experiência. Nem sempre a conquista de uma mamada se transfere para as seguintes, nem sempre o ritmo conquistado em um dia vale para o próximo. Se o parto é um sprint para o qual você se prepara como um Usain Bolt das contrações eficazes, a amamentação é uma maratona: não adianta correr feito louca para acertar tudo de cara porque isso apenas vai esgotar as suas forças. Ninguém ganha uma maratona no grito. É preciso ritmo, persistência e uma imensa dose de paciência e de… humildade.

Porque, sim, amamentar é algo que fazemos desde a aurora dos tempos, como parir. E possivelmente muitas e muitas mulheres passam por isso com tranquilidade e sem muitas questões. Mas quantas de nós enfrentam um sem número de dificuldades que acabam inviabilizando o aleitamento? Perdemos nossa capacidade de alimentar nossas crias?

Aqui na França, existem basicamente duas vertentes: uma que entende que amamentar é escolha da mãe e que tudo bem que ela possa escolher não fazê-lo e dar mamadeira para o seu bebê desde o nascimento (como se leite em pó fosse equivalente ao leite materno e não trouxesse vários prejuízos, como o aumento das alergias e a falta de anticorpos contra uma série de doenças, que são passados apenas pelo leite da mãe, para citar apenas dois exemplos…) e uma outra vertente que valoriza o aleitamento materno, que caiu em desuso por aqui, munindo-se de várias estratégias para tentar convencer as mulheres que amamentar é bom (você emagrece, previne câncer de mama – porque os argumentos em prol da saúde do bebê não parecem suficientes em nossa cultura tão hedonista). Como eu já escrevi anteriormente, busca-se incentivar a amamentação por aqui. E isso é feito nos grupos de preparação para o parto, em cursos específicos sobre amamentação, na maternidade, logo que o bebê nasce, quando se incentiva que ele mame na primeira hora de vida… E também ao longo da sua estada por lá, quando sage-femmes e auxiliares de puericultura podem ser chamadas para te ajudar, te dar sugestões sobre posições, pega do seio e etc… Mesmo depois que você recebe alta, pode solicitar uma sage-femme em visita domiciliar, que avalia como está sendo o processo de amamentar em casa. Ou você pode retornar à maternidade para discutir a respeito com a equipe. Ou pedir a ajuda de uma especialista no assunto, de uma das várias associações que trabalham com isso e que oferecem esse tipo de assistência… Enfim, a oferta de informações e de auxílio é vasta e diversificada. E isso, se por um lado ajuda, por outro é capaz de te enlouquecer.

Tenho descoberto que existem tantas posições e orientações com respeito à amamentação quanto existem mulheres no mundo que amamentaram. Em pouco mais de um mês de experiência, já recebi uma infinidade de conselhos díspares, contraditórios e excludentes capazes de confundir até mesmo a pessoa mais sã, zen e decidida desse planeta. Não é fácil. Eis aí mais uma das situações ligadas à maternidade em que as informações são úteis desde que você consiga, em um dado momento, tomar uma posição baseada naquilo que você acredita que seja importante.

O que é importante para você? O que você julga importante para seu filho? Que ele mame no peito? Que ele ganhe peso? Que ele siga o padrão médio da curva de crescimento? Que ele tenha a oportunidade de ter todos os benefícios alimentares e afetivos que apenas o leite materno e a amamentação podem oferecer? Que ele e você possam descobrir como funciona essa história de maneira singular? Ou que vocês se adequem ao que é dito como “o esperado”?

Espanto-me com a quantidade de mulheres às voltas com o mesmo problema: primeiro mês de vida do rebento e o pequeno cisma em perder peso, ou em não ganhar peso depois da saída da maternidade, ou até em ganhar, mas menos do que o que seria o “normal”… E lá vamos novamente para o maravilhoso mundo das regras e das considerações sobre o que é normal e sobre o que é esperado. E a partir dessas generalizações, cada um tira suas conclusões sobre o que deve ser feito em cada um desses casos. E, espantosamente, a orientação de pediatras e afins é quase sempre a mesma: complementar. Nome bonitinho para dar leite em pó em uma mamadeira para seu bebê. Que ele esteja muito bem de saúde segundo todos os outros critérios, que ele tenha ganho pouco peso, nenhum ou perdido, nada disso parece fazer muita diferença: saiu da curva, indica-se o complemento. E nos desesperamos com a perspectiva de nosso bebê estar passando fome. E essa insegurança nos leva, muitas vezes, a acatar as orientações sem nem mesmo parar um segundo para pensar.

Quando foi que as generalizações tomaram o lugar do famoso exame clínico e se tornaram mais importantes do que ele? Desde quando exames, curvas, medidas e afins indicam uma conduta e uma orientação médica de tamanha importância como essa de botar em risco o aleitamento materno pela introdução da mamadeira? Ao invés do exame de cada caso particular e uma orientação condizente e coerente com o que se passa com cada bebê em cada momento, por que a solução homogeneizante? Médicos e profissionais de saúde parecem não quererem mais, na sua maioria, se comprometer em tomar uma posição frente a um conjunto de dados que recebem e inferem no contato com seus pacientes. Delegam essa responsabilidade para as medidas, as normas gerais, as condutas instituídas, as médias nos resultados dos exames. Pensar com a própria cabeça fica para os pais que, se não forem totalmente aterrorizados pelo discurso circundante, talvez possam descobrir que seu filho vai, sim, muito bem, obrigada. E que existem umas tantas coisas que podem ser feitas antes de apelar para a mamadeira.

Porque mamadeira com leite artificial vai, sim, favorecer o desmame precoce. E, se você se importa com isso, melhor saber onde poderá encontrar ajuda. Aí vai uma pequena lista não exaustiva de lugares onde obter informações que te tragam alternativas ao combo gentilmente prescrito por quase todos os profissionais de saúde em todos os casos acima mencionados, sem distinção entre Brasil e França, nem entre as diferentes situações vividas por mães e bebês que enfrentaram esses problemas:

Na França:

No Brasil:

Tenho amigas paras as quais o radicalismo da amamentação à qualquer preço estragou a experiência ao torná-la obrigatória e precipitou o uso da mamadeira. Ou seja, existe rigidez de todos os lados e isso não faz bem a ninguém, especialmente às mães que estão às voltas com o delicado processo de alimentar seus filhos a partir do próprio corpo, o que é um acontecimento estranho para nós ocidentais classe média intelectual com pouco ou nenhum contato com o mais primitivo de nossos próprios corpos. Mas vejo ainda mais radicalidade do lado daqueles que rapidamente oferecem a solução da mamadeira, mesmo ali onde ela não é necessária, nos privando justamente dessa experiência tão inquietante e mobilizadora.

Amamentar é bom, é prazeroso, é um contato de uma profundidade e de uma ternura inacreditáveis entre uma mãe e um bebê. Um amor em forma líquida, um olhar, uma troca. Mas é também inquietante, na medida em que você não controla a maneira como aquilo acontece. É ser alimento e isso incomoda muita gente. É ser solicitado em permanência e isso incomoda ainda mais. É ter que assumir e sustentar que a prioridade é esse ato e não as mil outras coisas que você poderia e/ou gostaria de estar fazendo naquele momento. Então, é fundamental que ali haja realmente desejo, desejo de amamentar. Senão, a coisa não tem onde se sustentar.

Como o parto, mas estendido no tempo, cada dia é um dia. E você depende tanto do seu bebê quanto ele de você para que dê certo. Ambos dependem de um encontro delicado, em que vão tendo que descobrir como funcionam para que haja leite para saciar a fome do pequeno ser. Dependem de uma entrega mútua, de uma confiança que se faz apenas na medida em que a mãe consegue ter calma e segurança o suficiente para saber que pode dar certo. A opção da mamadeira mina essa confiança. As falas de pediatras e outros profissionais de saúde que advogam que nenhum bebê pode ser ele mesmo e que nenhuma dupla mãe-bebê pode tentar encontrar seu caminho, mas devem seguir as regras também minam essa confiança. Os comentários de maridos, avós, familiares e amigos que não cessam de se espantar que o bebê queira mamar toda hora, que perguntam se tem leite ali, que indagam quando o sujeitinho vai dormir mais, que anseiam pelo peso como pelo troféu no final do campeonato, que insistem que uma mamadeirinha de noite não vai mudar nada e ainda vai fazer com que o pequeno durma a noite toda e te deixe descansar… tudo isso mina essa confiança tão fundamental para que uma mãe possa amamentar seu bebê. Com tanto “apoio”, não é de se espantar que tantas mães relatem dificuldades de amamentação ligadas ao mito do “pouco leite”, também conhecido como “meu bebê não ganha peso porque eu não tenho leite suficiente”. Será que é mesmo assim?

Tenho pensado que do mesmo modo que necessitamos de um renascimento do parto para recolocar as coisas em perspectiva e levantar algumas questões acerca de como concebemos o nascer hoje em dia, precisaríamos também de um renascimento da amamentação que pudesse perguntar para esse status quo qual o sentido de todo esse discurso jogado aos sete ventos sobre os modos de alimentar um bebê. Imagino que a indústria de alimentos, assim como a das mamadeiras e de todas as tranqueiras necessárias que a acompanham teriam muito a dizer a seu favor. E em prol desse discurso que desestabiliza mães e bebês em um momento de fragilidade em que tudo o que eles precisam é de apoio, compreensão e tempo. E os médicos? Por que apoiariam os interesses da indústria ao invés de priorizar o bem estar dos bebês? E as pessoas em geral, por que insistiriam nesse discurso desencorajador?

Amamentar é uma batalha cotidiana contra os outros, como o parto. E é mais difícil, pois o bombardeio é incessante. Cansa mais do que o cansaço desse ritmo inicial de convivência entre mãe e bebê. Cansa mais do que acordar durante a noite para as mamadas. Na obscuridade dos seios que não trazem um marcador de medida e nem um indício de quanto um bebê mamou e na obscuridade dos choros, cocôs, xixis e outros sinais de um bebê que não pode dizer com todas as palavras que tudo vai bem para ele estão depositadas todas as chances de uma amamentação. Da cabeça e do coração de uma mulher dependem os dois para que isso funcione. Tudo tão delicado. É um aprendizado cotidiano de humildade o ato de amamentar… As pessoas ao redor dessa dupla mãe-bebê poderiam se engajar também em uma posição de mais delicadeza e humildade, não?