A mãe da mãe

Conheço pelo menos umas três mães recentes que enfrentam os maiores obstáculos com as suas próprias genitoras, as avós dos rebentos. Essas mulheres, que poderiam ser as maiores apoiadoras das suas filhas em um momento tão delicado e sensível que é esse do início da maternidade acabam se revelando críticas ferozes, desrespeitosas, destrutivas.

Gosto de pensar em um momento ideal que ficou lá no passado, ao menos para nós, mulheres ocidentais, em que engravidar, parir e maternar era coisa que não se vivia sozinha. A mãe recente estava apoiada por outras mulheres mais velhas que, com experiência e sabedoria, a acompanhavam de maneira solidária e cuidadosa. Cuidar das novas mães para que elas possam cuidar dos seus filhos, essa seria uma das tarefas dessas mulheres mais velhas, dessas avós, a fim de garantir a continuidade da vida.

Mas daí os séculos foram passando e chegamos em um período bem esquisito da nossa história em que família passou a ser apenas o núcleo familiar – pai, mãe e filhos. E ficou com esses poucos a imensa tarefa de criar as crianças. Sozinhos. Na maior parte das vezes, mães sozinhas com os seus bebês pequenos. Quase tão desamparadas quanto eles. Não consigo imaginar a que serviu esse arranjo, mas certamente desarticulou muito da vida e dos saberes comunitários, aqueles que passam de pais para filhos, desfazendo com isso uma rede de solidariedade que devia dar muito certo. E deixando tudo a cargo dos pais que, não tendo como suportar o fardo e tendo condições para isso, passaram a terceirizar os cuidados com as crianças. Enfim, pais abandonados, crianças abandonadas, todo mundo tento que aprender a se virar. Não me parece um bom jeito de cuidar e proteger a vida de quem quer que seja esse.

De todo modo, nesse jeito isolado de viver a maternidade sobrou ainda a figura dos avós e, principalmente, das avós que muitas vezes ainda comparecem para ajudar as filhas que se tornam mães. Mas é aí que, muitas vezes, a porca torce o rabo.

Laura Gutman já escreveu que não é possível tornar-se mãe sem revisitar o melhor e o pior da própria infância. É como um acerto de contas com o passado, que dura muito mais tempo que os nove meses de gestação e dá muito mais trabalho do que cuidar do pequeno rebento recém parido. É como a caixa de Pandora reaberta, ninguém sabe o que vai sair dali, quais fantasmas, quais dores, quais medos. E não sobra muita alternativa a não ser encarar. Porque quando você menos espera, já está reagindo como sua mãe, gritando os gritos, dando as respostas, refazendo a violência que viveu. Conclusão: ou você encara, ou sobra para o seu filho. Putz!

O pior é que, a meu ver, a mesma caixa de Pandora que abre para um lado abre para o outro. Não tem como uma mãe tornar-se avó sem passar por um confronto intenso com a mãe que foi para a sua filha. Quer dizer, tem, se for à distância. Mas desde que ela decida se envolver, estará fadada a ver retornar para si uma montanha de coisas do que foi sua experiência como mãe.

Existem mães que esperam ver nas filhas o espelho delas mesmas. Elas mal percebem que ali existe uma outra pessoa. E que o modo como criaram aquela outra pessoa como extensão delas, podendo dispor de seus corpos e de suas cabeças como bem entendessem, como se aquela menina fosse um direito adquirido delas, uma posse, não fez com que a criança em questão se tornasse um anexo. E essa filha cresceu e talvez tenha se tornado uma pessoa por si mesma. E então tornou-se mãe. E essa mulher torna-se avó.

De cara ela fica frente ao tempo. O tempo passou para ela, ela envelheceu. Aquela mulher soberana enfraqueceu-se e a menina tornou-se mulher. Há mães que não suportam isso… lembram da Branca de Neve? Pois é, é a história da mãe que não aguenta que a filha cresça porque vê nisso uma concorrência e uma ameaça. Então aquela menina que virou mulher e agora tornou-se mãe é uma ameaça terrível. Uma ameaça da passagem do tempo, do envelhecimento, da decadência, do ter que dar lugar à nova geração. Quantas mães massacram suas filhas logo que as mesmas para que elas não as ameacem?

E a gravidez e a maternidade tornam-se uma ameaça. Se essa filha se tornar mulher, que lugar sobra para ela, a avó? Eis que a solução para muitas delas é tentar engolir as filhas, suas subjetividades e suas experiências mais uma vez. Sabe aquelas críticas à aparência, ao jeito de ser, às companhias que aparecem de um jeito feroz durante a adolescência? Então, viram as críticas a respeito de tudo o que for relacionado à gravidez, ao parto e à criação dos filhos. Em nome da experiência que têm, dizem com tranquilidade e boca cheia que tudo o que você decide é uma porcaria, a não ser que seja igual ao que ela fez. E para algumas mães recentes, isso chega em um momento de tanta fragilidade que parece impossível se contrapor. E elas acabam se anulando, cedendo, não tendo forças para brigar, entregando os filhos às próprias mães que se perpetuam no lugar de adultas cuidadoras em detrimento das próprias filhas, que viram irmãs dos filhos.

Essa avó ameaçada por ser avó rouba para si a maternidade da filha, torna-se mãe dos netos e a dona da verdade sobre criação e educação ou… Ou ela encontra pela frente uma filha mais ou menos capaz de impor um limite e então a coisa pode ficar ainda mais complicada. Porque uma filha que consegue ser alguém e torna-se mãe será a mãe que ela quer e pode ser. E isso pode significar uma mãe bem diferente daquela que teve. O que, para as mulheres que estão acostumadas com filhas extensão delas mesmas pode querer dizer uma afronta terrível. Um espelho que não as reflete. Como na Branca de Neve…

Deve ser difícil para essas mulheres verem as filhas fazerem de outro jeito, porque a diferença soa para elas como um julgamento sobre aquilo que elas escolheram. É como se o simples fato da filha fazer diferente dela significasse que o que ela fez foi errado. A mãe vê as atitudes dessa filha como julgamento e ataque e ataca de volta com críticas e recriminações. Conclusão? A nova mãe ou fica esmagada, ou fica sozinha.

Já testemunhei muitas vezes esse tipo de crueldade. E que ela aconteça no momento em que a nova mãe mais precisa de apoio e cuidado, não deixa de ser uma tragédia. Por sorte e com um pouco de esforço, nós mulheres temos podido contar com outras mulheres mais generosas quando essa mãe falta: amigas, contatos de internet, doulas… Enfim, há esperança de entorno e de aconchego.

Como também há esperança para essas avós que cuidam ao menos um pouco de limpar o terreno dos restos e sobras da vida para receber esse novo membro da família. Ter avós é precioso para uma criança. A imensa distância de gerações pode garantir um amor e uma ternura de parte a parte, quando os julgamentos, as tensões e os conflitos deixam de fazer sentido. Uma das melhores coisas que uma mãe pode dar a um filho é essa convivência com os seus avós. Mas para isso é preciso que esses mais velhos também saibam mudar de lugar.

Tenho uma grande amiga muito mais velha do que eu que escreve histórias para a neta. Conheço outra que faz tricot, herança da própria mãe. Ser avó envolve uma grande dose de generosidade e um poder retirar-se para segundo plano. Aceitar a passagem do tempo. E saber que o melhor que pode dar é agora uma outra coisa.

Penso que nenhuma mãe recente precisa de sua mãe (ou sogra) concorrendo consigo para ver quem é a melhor mãe. Nenhuma mãe recente precisa de sua mãe dizendo o que fazer, a menos que pergunte. E muito menos o que não fazer. O que uma mãe recente precisa é de apoio, silêncio e compreensão. E paciência. Ah, e o principal, ser cuidada. Porque uma avó não vai cuidar melhor do neto do que uma mãe poderia fazer. E nem deveria ser essa a sua prioridade. Para que se oferecer para fazer no lugar da sua filha aquilo que ela pode fazer e, inclusive, precisa aprender a se sentir à vontade e confiante fazendo? Para que concorrer e podar? Por que não fazer uma comidinha, ajudar com a casa ou outras coisas tão banais que ela não vai dar conta logo que o rebento vier ao mundo? Por que não oferecer ajuda e não apoia-la naquilo que ela decidir para o bebê, mesmo que seja diferente? E, quem sabe, até ver nisso motivo de orgulho por ter criado alguém capaz de criar um outro, não?

Aqui um depoimento lindo de uma avó muito sábia encontrando o neto pela primeira vez. Em inglês.

Cada fase, uma dificuldade

Nas raras vezes em que as pessoas decidem abrir o jogo a respeito da maternidade e admitir que não é nada fácil, uma das poucas coisas que costumam admitir é que o começo é muito duro, mas que depois melhora. Eis aí uma meia verdade, como todas as meias verdades que tentam transformar experiências complexas em argumentos simples e definitivos como: é bom, é ruim.

O começo é difícil. Com um recém nascido nos braços, uma queda hormonal mais radical do que saltar de páraquedas e nenhuma experiência com aquele serzinho ali na sua frente que você acaba de conhecer fora de você, os desafios são muitos. Aprender sobre quem é essa pessoa, aprender a cuidar dela, a atender suas necessidades que são muitas, intensas e frequentes… Passar boa parte do seu tempo em torno disso, em torno desse alguém que precisa tanto, quando você mesma se sente também em um estado de grande carência e necessidade… Lidar com uma mudança de ritmo violenta, uma reorganização do tempo que não respeita relógio biológico, horas de sono, descanso e cansaço… Fora tudo o que passa pela cabeça, do estado de êxtase ao desespero, da felicidade e do sentimento de plenitude ao esgotamento… As próprias lembranças de infância, o modo como foi filha, a relação com os próprios pais, com a própria mãe… tudo volta em avalanche. Os pitacos, as informações desencontradas, as pessoas que passam, fazem tumulto e em nada ajudam… Enfim, é difícil, é duro, é delicado, é em carne viva.

Mas daí você olha aquele bebezinho pequeno mamando, olha as mãozinhas, olha o olhar dele, o modo como ele se aconchega em você, o sono tranquilo, a sensação de felicidade tranquila, respira fundo e segue em frente. O começo passa.

Uma das curiosas descobertas sobre a maternidade, para mim, foi justamente isso: que quando você começa a se acostumar ou a se encontrar em alguma rotina daquilo que se tornou sua vida depois da chegada do bebê, ele muda, as demandas mudam, as necessidades mudam e você precisa mudar novamente. Eis aí um intensivão sobre a vida: não dá para ficar parado congelado em uma posição, porque a vida é movimento.

Então o começo passa e você imagina que “o pior” já passou. Mas não é bem assim. Pois aquele bebezinho pequeno do começo cresce e vai despertando. Fica mais acordado e, com isso, quer saber mais das coisas que o cercam. Começa a enxergar melhor e quer olhar. Começa a pegar e quer tocar. Começa a se mover e quer deslocar-se. Cada conquista espantosa e maravilhosa desses primeiros tempos é, também, uma nova necessidade de que você o acompanhe, de que ofereça aquilo que ele precisa: coisas para ver, sentir, viver. Experiências. Já não dá mais para contar com as milhares de sonecas cotidianas para fazer alguma coisa, pois o bebê está ali, acordado e existe um mundo inteiro a ser apresentado para ele.

Tenho a impressão que é aí que “a porca torce o rabo”. Pois ninguém havia dito que haveriam dificuldades depois do começo difícil e, talvez, muitas mulheres tenham acreditado que era só aguentar os primeiros meses que o restante seria um navegar por águas calmas e aprazíveis. Não.

Um bebê demanda de nós presença. Que estejamos presentes, atentos e capazes de responder de algum modo. E essa resposta varia com cada mudança na demanda. Então, você que achou que o pior era ter que acordar mil vezes para amamentar vai se dar conta que agora precisa brincar com o seu bebê. Ou sair para passear com ele. Ou fazer comida e dar comida a ele. Ou ficar por perto enquanto ele tenta rolar ou sentar. Ou estar atenta quando ele começa a engatinhar e andar e chegar naquela tomada, naquela quina, naquela porta, naquele cesto de lixo. Você percebe que existem muitas coisas novas das quais ele precisa e que não vai dar para ficar sentada lendo um livro enquanto ele se vira sozinho. Bebês solicitam. Crianças solicitam. Filhos solicitam. Pode mudar o conteúdo dessas solicitações, mas elas estão ali, bem presentes. E você vai ter que fazer algo a respeito. Mesmo que seja tentar ignorar e deixar uma criança que quer se mexer amarrada numa cadeirinha ou colada em uma tela de TV, iPad e afins. Ou seja, mesmo que você escolha a opção que pareça a menos trabalhosa possível, terá que fazer uma escolha. E agir.

Quer dizer que ninguém havia dito que daria tanto trabalho, que seria tão difícil? Ninguém havia dito que seria assim sempre? Pois é, se tivessem dito, você faria diferente?

Penso que aquilo que a gente tenta jogar para debaixo do tapete é justamente que a maternidade, como tudo nessa vida, é uma experiência repleta de paradoxos. Não é difícil. Nem é um mar de rosas e uma benção sem fim. É as duas coisas, ao mesmo tempo, nos mesmos acontecimentos, todos os dias. E é essa ambiguidade que deixa muita gente perplexa consigo mesmo, como se irritar-se, cansar-se ou ter raiva de tanta demanda significasse que você é uma péssima mãe. Não é. É apenas uma mãe como outra qualquer que, quem sabe, tenha um mínimo de coragem para assumir que é ruim. Tanto quanto é bom. E que ser mãe é ambos. O que faz de nós boas ou más mães, a meu ver, não é sentirmos tantos sentimentos contraditórios, mas a culpa que temos pelo que sentimos e nossa ignorância da diferença entre sentir e agir. A ignorância de que podemos sentir tantas coisas, pois isso é do humano e é dessa experiência de ser mãe, a tentativa de dividir em bom e mau o que vivemos e de jogar o mau ali num canto em que não nos perturbe, a crença tola de que as outras mães são apenas boas e que temos um problema quando não atingimos esse nível de excelência… tudo isso que destrói as mães em seu respeito e em sua tolerância com elas mesmas. O que acaba fazendo com que sejamos igualmente exigentes com nossos filhos, igualmente intolerantes. Se nós devemos ser as mães maravilhosas em constante estado de realização com a maternidade, nada mais justo que eles sejam os filhos perfeitos, desenvolvidos, adaptados, bem comportados, limpinhos e felizes aos quais temos direito, não?

Não.