Cada fase, uma dificuldade

Nas raras vezes em que as pessoas decidem abrir o jogo a respeito da maternidade e admitir que não é nada fácil, uma das poucas coisas que costumam admitir é que o começo é muito duro, mas que depois melhora. Eis aí uma meia verdade, como todas as meias verdades que tentam transformar experiências complexas em argumentos simples e definitivos como: é bom, é ruim.

O começo é difícil. Com um recém nascido nos braços, uma queda hormonal mais radical do que saltar de páraquedas e nenhuma experiência com aquele serzinho ali na sua frente que você acaba de conhecer fora de você, os desafios são muitos. Aprender sobre quem é essa pessoa, aprender a cuidar dela, a atender suas necessidades que são muitas, intensas e frequentes… Passar boa parte do seu tempo em torno disso, em torno desse alguém que precisa tanto, quando você mesma se sente também em um estado de grande carência e necessidade… Lidar com uma mudança de ritmo violenta, uma reorganização do tempo que não respeita relógio biológico, horas de sono, descanso e cansaço… Fora tudo o que passa pela cabeça, do estado de êxtase ao desespero, da felicidade e do sentimento de plenitude ao esgotamento… As próprias lembranças de infância, o modo como foi filha, a relação com os próprios pais, com a própria mãe… tudo volta em avalanche. Os pitacos, as informações desencontradas, as pessoas que passam, fazem tumulto e em nada ajudam… Enfim, é difícil, é duro, é delicado, é em carne viva.

Mas daí você olha aquele bebezinho pequeno mamando, olha as mãozinhas, olha o olhar dele, o modo como ele se aconchega em você, o sono tranquilo, a sensação de felicidade tranquila, respira fundo e segue em frente. O começo passa.

Uma das curiosas descobertas sobre a maternidade, para mim, foi justamente isso: que quando você começa a se acostumar ou a se encontrar em alguma rotina daquilo que se tornou sua vida depois da chegada do bebê, ele muda, as demandas mudam, as necessidades mudam e você precisa mudar novamente. Eis aí um intensivão sobre a vida: não dá para ficar parado congelado em uma posição, porque a vida é movimento.

Então o começo passa e você imagina que “o pior” já passou. Mas não é bem assim. Pois aquele bebezinho pequeno do começo cresce e vai despertando. Fica mais acordado e, com isso, quer saber mais das coisas que o cercam. Começa a enxergar melhor e quer olhar. Começa a pegar e quer tocar. Começa a se mover e quer deslocar-se. Cada conquista espantosa e maravilhosa desses primeiros tempos é, também, uma nova necessidade de que você o acompanhe, de que ofereça aquilo que ele precisa: coisas para ver, sentir, viver. Experiências. Já não dá mais para contar com as milhares de sonecas cotidianas para fazer alguma coisa, pois o bebê está ali, acordado e existe um mundo inteiro a ser apresentado para ele.

Tenho a impressão que é aí que “a porca torce o rabo”. Pois ninguém havia dito que haveriam dificuldades depois do começo difícil e, talvez, muitas mulheres tenham acreditado que era só aguentar os primeiros meses que o restante seria um navegar por águas calmas e aprazíveis. Não.

Um bebê demanda de nós presença. Que estejamos presentes, atentos e capazes de responder de algum modo. E essa resposta varia com cada mudança na demanda. Então, você que achou que o pior era ter que acordar mil vezes para amamentar vai se dar conta que agora precisa brincar com o seu bebê. Ou sair para passear com ele. Ou fazer comida e dar comida a ele. Ou ficar por perto enquanto ele tenta rolar ou sentar. Ou estar atenta quando ele começa a engatinhar e andar e chegar naquela tomada, naquela quina, naquela porta, naquele cesto de lixo. Você percebe que existem muitas coisas novas das quais ele precisa e que não vai dar para ficar sentada lendo um livro enquanto ele se vira sozinho. Bebês solicitam. Crianças solicitam. Filhos solicitam. Pode mudar o conteúdo dessas solicitações, mas elas estão ali, bem presentes. E você vai ter que fazer algo a respeito. Mesmo que seja tentar ignorar e deixar uma criança que quer se mexer amarrada numa cadeirinha ou colada em uma tela de TV, iPad e afins. Ou seja, mesmo que você escolha a opção que pareça a menos trabalhosa possível, terá que fazer uma escolha. E agir.

Quer dizer que ninguém havia dito que daria tanto trabalho, que seria tão difícil? Ninguém havia dito que seria assim sempre? Pois é, se tivessem dito, você faria diferente?

Penso que aquilo que a gente tenta jogar para debaixo do tapete é justamente que a maternidade, como tudo nessa vida, é uma experiência repleta de paradoxos. Não é difícil. Nem é um mar de rosas e uma benção sem fim. É as duas coisas, ao mesmo tempo, nos mesmos acontecimentos, todos os dias. E é essa ambiguidade que deixa muita gente perplexa consigo mesmo, como se irritar-se, cansar-se ou ter raiva de tanta demanda significasse que você é uma péssima mãe. Não é. É apenas uma mãe como outra qualquer que, quem sabe, tenha um mínimo de coragem para assumir que é ruim. Tanto quanto é bom. E que ser mãe é ambos. O que faz de nós boas ou más mães, a meu ver, não é sentirmos tantos sentimentos contraditórios, mas a culpa que temos pelo que sentimos e nossa ignorância da diferença entre sentir e agir. A ignorância de que podemos sentir tantas coisas, pois isso é do humano e é dessa experiência de ser mãe, a tentativa de dividir em bom e mau o que vivemos e de jogar o mau ali num canto em que não nos perturbe, a crença tola de que as outras mães são apenas boas e que temos um problema quando não atingimos esse nível de excelência… tudo isso que destrói as mães em seu respeito e em sua tolerância com elas mesmas. O que acaba fazendo com que sejamos igualmente exigentes com nossos filhos, igualmente intolerantes. Se nós devemos ser as mães maravilhosas em constante estado de realização com a maternidade, nada mais justo que eles sejam os filhos perfeitos, desenvolvidos, adaptados, bem comportados, limpinhos e felizes aos quais temos direito, não?

Não.

 

A mãe triste e o menino

Essa é uma história que é uma colagem de muitas histórias de muitas mães e muitos meninos e meninas que conheço e de outras das quais ouvi falar também. Uma história que pode ter várias caras e vários nomes. E que, como toda boa história, tem ao menos dois lados.

O menino nasceu pendurado por um tênue fio a ela. No começo, entre mamadas e cuidados diários, parecia que o fio sustentava. Ela dava conta de estar ali para ele, empenhando nisso todos os seus esforços. Ele se empenhava em sua sede de vida e de conhecer o mundo.

Com o passar dos meses, os primeiros sinais de independência, os primeiros olhares para fora daquele dueto. Ela, exausta, viu nesses pequenos movimentos de vai-e-vem a oportunidade de ir-se. Se um bebê pequeno era possível e a ajudava mesmo a sentir-se inteira e viva, um bebê menino pequeno era demais. Demanda demais, esforço demais, decisões demais, atitudes demais, acontecimentos demais. Cada novidade exigia dela uma posição e cada posição um pensamento e um trabalho. Teve um momento em que deixou de suportar remar contra a maré e deixou-se simplesmente tragar e tragar e tragar. E deixou-o ser tragado também pelo que viesse.

O menino, confuso, não sei se entendeu muito bem porque sua mãe desistiu desse embate diário que lhe dava um contorno em forma de comida, de cocô, de fraldas, de falas, de brincadeiras, de roupas, de sono e de tudo o mais que ele necessitava. Ele não entendeu suas ausências em presença, não entendeu como é que ela poderia estar ali sem estar. Apavorou-se em vê-la desaparecer sob seus olhos, detrás do computador, de livros, de escritos… Ela se afastou mais, pois até mesmo esse olhar suplicante lhe demandava além da conta e quanto mais ele pedia, mais ela se refugiava em suas tarefas que eram tudo menos ele. Precisava dormir, precisava descansar, precisava arejar as idéias, precisava trabalhar.

O trabalho voltou e ele ficou cuidado por outros. A escola chegou para ele e esse cuidado se espalhou e se terceirizou ainda mais. Ela decidiu cada vez menos e isso parecia confortar-lhe. Não podia suportar que alguém precisasse dela tanto assim, era peso demais para ela. Melhor que outros decidissem em seu lugar, já que faziam tanta questão. Baixou os braços, entristeceu-se e apequenou-se no lugar de mãe.

O menino desorientou-se um tanto em meio a esses cuidados. Cada um faz de um jeito e pensa uma coisa diferente. Como lidar com seus pedidos? Seus momentos de cólera? Suas teimosias? Suas dificuldades? Cada um age de um jeito e isso fez o menino crescer confuso, sem saber direito até onde pode ir. Qual é o limite da sua própria pele? E, pergunta ainda mais vital para ele do que essa sobre os limites: como ter o que precisa?

As faltas que impomos aos nossos filhos, muitas vezes as compensamos com consumo. Toda aquela demanda de afeto, de presença, aquela voracidade, aquela intensidade da necessidade do menino bebê foi desviando para os lugares e os modos em que ele podia receber algo: comida, atenção, objetos, presentes, doces. Ali onde ele podia ganhar, instalou-se e tornou-se um colecionador de coisas, coisas que ingere e coisas que acumula, tampando os buracos das suas carências com aquilo tudo. Não pode se desfazer, não pode emprestar, não pode deixar nada dessas coisas circularem livremente porque isso seria perder alguma coisa. E perder alguma coisa, para ele, seria perder tudo. Do cocô ao brinquedo, nada sai.

O menino foi crescendo carente, tristonho no fundo do seu coração, sob uma máscara de risonho encanto. Agressivo nas suas exigências, nas suas reivindicações que sempre pressionam o outro para que ceda, para que lhe dê aquilo que quer, para que se submeta ao seu desejo e à sua necessidade. Estar com o outro tornou-se uma espécie de “só pode haver um”. Um desejo, um que vence e impõe ao outro o que quer. Trata-se de um braço de ferro em que ele se especializou desde menino, em que vence quem gritar mais alto, pois essa é a única forma de conseguir algo. Gritar, gritar, gritar na esperança de que ela escute, de que ela venha, de que ela se mexa. Será que um dia ela vem?

Não, ele não se tornou um delinquente, nem nenhum desses clichês que poderíamos associar como consequências óbvias de seu lugar de origem. Tornou-se um sujeito correto, bem sucedido, que trilhou um caminho bastante comum, sem dar muito trabalho nem se colocar muitas questões. Estudou, escolheu uma profissão, casou-se com a namoradinha da faculdade, teve filhos, comprou uma casa, um carro e um cachorro. Mas tudo isso foi se colando em torno de um vazio, uma casca oca encobrindo esse lugar primeiro em que algo faltou. E como ele não se deu conta de que as bases eram tão frágeis, uma hora tudo explodiu. A vida explodiu, a história explodiu, a família explodiu e ele se viu afogado novamente por aquele lodo negro, aquela dor que ele conheceu lá no começo e da qual ele tentou se afastar sem levá-la em consideração. Ele se tornou alguém muito parecido com aquela mãe triste, o olhar vazio e distante que não responde, não olha, não pode, pois tudo é pesado demais.

E ela?

Como eu disse, toda história tem ao menos dois lados. E o lado dela foi igualmente árido. Essa tristeza que a tragou não vem sem culpa, a não ser na medida em que ela se acentua e se acentua e se acentua até estar tão sufocante que não há ar para respirar ou para se sentir culpada. Eis uma espécie de libertação pelo pior, uma saída para não precisar olhar, não precisar se responsabilizar, não precisar sangrar e doer por pura impossibilidade. Ás vezes o estado de espírito é tão frágil que não há forças nem para sentir culpa.

Freud (sim, o bom e velho) escreveu em um de meus textos favoritos, o maravilhoso Luto e melancolia, lá pelos idos de 1917, que sempre que perdemos algo muito importante, somos arremessados em um processo de luto que é necessário, fundamental. Serve para ficarmos lambendo nossa ferida o tempo que dure para que ela cicatrize. Pegamos cada coisa, cada lembrança, cada memória, cada cheiro, cada lugar, cada momento associado com aquilo ou aquele que perdemos e lembramos, lambemos, choramos, doemos e… deixamos ir. Um processo de luto é um processo de renúncia ao que não podemos mais ter, visto que está perdido.

Quando não conseguimos perder, quando não aceitamos, não queremos, lutamos contra e nos rebelamos, eis aí o que ele chama de melancolia. Melancolia é tentar apegar-se com tanta força àquilo que se perdeu que o único jeito possível é engolindo aquilo. Engolindo, incorporando, tatuando na pele e nas entranhas cada pedaço de cada detalhe de cada coisa, lembrança ou situação que se relacione com o que foi perdido. Assim, por meio dessa incrustração, dessa incorporação, guardamos o que perdemos no mais fundo do nosso ser e, desse modo, vivemos como se não fosse perdido.

Só que a melancolia cobra um preço cruel por seus serviços. Você não perde nada, você não deixa partir, você não renuncia mas… passa a vida inteira impregnada de um cadáver. Sim, um cadáver morto e putrefato que você engoliu na esperança desesperada de que, com isso, ele viva e você não tenha que abdicar dele. Até o ponto que você vira esse cadáver. E cadáveres, como todos sabemos, não se movem. Eis uma vida morta e imobilizada pelo esforço em não perder.

O que será que ela não pode perder com tanta força a ponto de ter se aceitado se encarcerar nesse lugar negro e lodoso do qual não pode mais se mover, ficando prisioneira de sua própria impossibilidade de renunciar, ficando imóvel? Pelo que ela pagou o preço de sua imobilidade? O que valeu sua paralisia e de todos a seu redor, sempre pisando em ovos com medo de dizer algo que faça com que ela se feche e desapareça ainda mais? Pelo que ela entregou sua vida e aceitou renunciar a quem ela é pelos que a amam? O que fez com que amor se tornasse exigência pesada demais? Por que sua única opção é abandonar e ficar abandonada? A que serve esse estado tenebroso de imobilidade que faz de todos além dela mesma reféns? Será ela também fruto de uma história de abandono e negligência? Que é fruto de outra história de abandono e negligência e de outra e de outra, por várias gerações?

Quando ficamos grávidas, a maior parte das pessoas insiste em um discurso esquizofrênico que oscila entre as maravilhas insuperáveis da maternidade e os horrores de tudo aquilo que você vai perder e/ou do que vai ter que abdicar. Eu mesma escrevi sobre isso aqui, em uma época em que começava a estranhar essas contradições dos discursos sobre a gravidez e o ser mãe e aqui, no começo dessa vida pós-parto. Mas aquilo que quase ninguém fala é que a maternidade faz com que você se perca de você mesma. Aquela pessoa que você era, foi, construiu com mais ou menos cuidado, com mais ou menos investimento, prazer e alegria é varrida do mapa para aquele lugar chamado passado. Que você queira ou não, que saiba ou não, que lute contra ou não, está feito e qualquer que seja a relação que você construa ou não com o seu filho, o fato irremediável é que você passou por essa experiência que rasga a vida em antes e depois: ficou grávida, pariu, virou mãe. E essa onda que te arrasta e sobre a qual você não tinha pensado é inclemente e o único modo de sobreviver é fazendo o luto de quem você foi. Perdeu. Você perde você. E vai ter que construir, inventar, criar uma você outra, que pode ser mais ou menos próxima daquela que foi, mas que nunca será a mesma porque a ela foram somadas as marcas mãe e filho.

Tem gente que construiu toda uma vida antes de tornar-se mãe e que viveu anos e décadas apoiada em uma imagem de si totalmente calcada no trabalho, nas conquistas pessoais, nos feitos individuais, nas histórias amorosas ou no que quer que tenha sido central para essa pessoa até ali. E quanto mais esse percurso foi longo, forte e pontuado de grandes acontecimentos, maior é o impacto desse acontecimento maternidade. E então tem quem se desespere nesse estado primeiro de perda de si e se agarre com todas as forças ao que foi. Precisa voltar ao trabalho, precisa seguir com a carreira, precisa recuperar o corpo de antes, o sucesso de antes, o poder de antes, precisa, precisa, precisa. Precisa congelar-se no momento imediatamente anterior àquele em que tudo mudou e a vida basculou definitivamente. Congelar-se no que era e no que foi e ficar ali, quietinha, tentando levar adiante como se nada tivesse mudado. Como se mãe e filho não existissem. Ignorando solenemente tudo o que se relaciona à maternidade e suas imperiosas reivindicações.

Tem gente que precisa se congelar e se amarrar por um fio ao cadáver de si mesma. Para não mudar, para não andar sem rumo com um filho nos braços procurando um caminho, uma saída, um jeito, um lar. Ainda mais que aquele pequeno ser depende totalmente dessa que nem é ainda. E sua fragilidade e sua dependência extrema chocam tanto mais a cada vez que cutucam a ferida dessa perda. Como é que um bebê poderia cuidar de outro?

Essa é uma história que é uma colagem de muitas histórias de muitas mães e muitos meninos e meninas que conheço e de outras das quais ouvi falar também. Uma história que pode ter várias caras e vários nomes. E que, como toda boa história, tem ao menos dois lados. Dois lados sensíveis, dois lados tristes, dois lados profundamente desamparados. Mas, não se iludam, não são dois lados iguais. Não estão em pé de igualdade a mãe e o menino em relação a seus desamparos. Um já cresceu, mesmo a contragosto. O outro ainda está ali, em profunda dependência. E, a meu ver, o único modo de cuidar desse bebê que sangra em você é deixando-o ir para cuidar do outro.

Papo de mãe: qual foi a sua maior dificuldade com a maternidade até hoje?

Eu responderia sem muito pestanejar: a solidão.

É verdade que a maternidade tem muitas dificuldades. Ou melhor, prefiro dizer, pois me parece mais condizente com o que tenho vivido, que a maternidade tem muitos desafios. Uma experiência nova na vida de alguém que já viveu tantas coisas, já tem seus gostos, seus modos, suas idéias, suas manias, suas histórias, sua bagagem, suas desilusões e suas verdades é sempre algo revolucionário, que chega para bagunçar a cabeça, a rotina, o conhecido, tudo o que foi estabelecido. Maternidade tem dessas coisas, a cada dia um acontecimento novo e, com ele, a necessidade de se perguntar: como é que queremos viver isso? Como pensamos em cuidar, criar, amamentar, alimentar, ensinar, educar? Como pensamos em amar esse serzinho que chegou agora aqui?

São tantas dúvidas e tanto desconhecimento que a sensação é de vertigem. E, claro, surgem dilemas, tensões, frustrações o tempo todo. A amamentação que deveria ser evidente, por ser natural, demanda uma batalha cotidiana. A falta de sono que deveria ser minimizada pela mudança de ritmo e por seguir os tempos do bebê fica aumentada pelo fato de, no final do dia, você precisar de um tempo para você e decidir aproveitar enquanto o rebento dorme para ter esse momento pessoal. As vacinas, as consultas médicas, as curvas de peso… tudo vira motivo para pensar, para buscar compreender. E para tomar posição.

E a disponibilidade? Ou a obrigação de estar disponível, afetivo, cheio de amor para dar, cheio de tolerância e compreensão quando o bebê precisa de você, ou seja, sempre? E as cólicas, os choros, os dentes?

Sim, são mesmo muitos desafios, coisas pequenas e banais que você não imagina que poderiam dar tanto trabalho, suscitar tantas questões sobre modos de proceder ou, até, tantas discussões com quem está em volta. É trabalho, minha gente. Trabalho e mais trabalho. Daqueles grandes, daqueles sérios. Daqueles que a gente só faz quando tem muito desejo envolvido.

Mas, novamente, a meu ver esses são desafios. São as perguntas, os dilemas e as decisões que vêm junto com o bebê. E que, pelo que dizem, nos acompanham por toda a vida. Porque sempre vai haver algo em que se pensar, algo a fazer, uma decisão a tomar. Maravilhoso e turbulento mundo em que o outro nos provoca em tudo acerca de nós mesmos. Filhos são belas provocações.

O que me pareceu realmente difícil, até agora, foi a solidão dessa experiência. Foi passar por todas essas novidades cotidianas e tomadas de decisão praticamente sozinha.

OK, eu vivo em uma situação sui generis, pois vivo fora do país. Então, não tem mãe, pai, irmã, tia, amigos próximos desses amigos-irmãos por perto para dar aquela força, um abraço amigo, ou para segurar a pequena na hora em que preciso fazer pipi. Nem tenho marido que pode estar o tempo todo por perto. Mas não penso que essa solidão seja por conta dessa circunstância apenas. Penso que é uma solidão com que toda mãe se depara por mais acompanhada que ela esteja.

É uma solidão que a gente descobre logo que o bebê nasce e, quando ele chora, não tem ninguém mais capacitado que você para acudir, sabe? É quando você descobre que virou o adulto da situação e está na linha de frente e que, agora, tem que cuidar de um outro que precisa ser cuidado. É quando deixa de ser filha para ser mãe e o centro de sua vida muda de lugar. É quando tem que tomar as decisões mais banais e cotidianas pesando as informações que tem, os prós e contras e torcendo para ser realmente o melhor. É quando você sabe que, se der merda, a responsabilidade é sua e tudo o que você mais deseja é que não dê merda. É quando você sente que tornou-se um ser à flor da pele que pode se desfazer se o outro sofrer e você não puder evitar. É quando os outros não podem te aliviar dessa responsabilidade porque você sente o quanto é sério ter posto alguém nesse mundo e que, agora, tem a obrigação de oferecer a ele o melhor mundo possível. É essa consciência da dependência e da extrema fragilidade daquele bebê que te torna, você também, tão dependente, tão frágil, tão pequena. É quase desmoronar e não poder, pois sabe que alguém conta profundamente contigo.

Essa solidão que a maternidade traz e instaura na nossa vida, isso me parece o mais difícil, o mais desconcertante. Por sorte existem outras mães em suas solidões e isso nos permite partilhar. Solidão compartilhada não dói e, ainda, nos torna mais humanas. Mas isso já é outra história, talvez para outra postagem, ou talvez seja exatamente sobre o que eu falava na postagem anterior. Mas, de todo modo, já entramos noutra conversa.

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Este texto faz parte de um outro projeto de blogagem coletiva que acho muito simpático, o “Papo de mãe” proposto pela Lalah do blog Agora eu sou mãe.

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Ela e eu.

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Ela chegou no horário combinado e me perguntou o que eu queria que fizesse. Não fazia idéia. Lavar as roupas da bebê? Passar? Dar banho? Continuei sem saber. Precisava de ajuda, isso era claro. Mas uma ajuda para o que precisamente?

Seria estranho e dolorido demais falar da solidão, das dificuldades em amamentar, da necessidade de apoio, do cansaço. Ainda mais com alguém que mal conhecia. Sabia que era brasileira e que estava ilegalmente no país. Sabia também que tinha dois filhos, um deles, um bebê de sete meses que ela mesma tinha que deixar com um outro alguém para poder trabalhar.

O primeiro dia foi complicado. Quando tentei deixar a bebê com ela para ir apenas até a padaria e a farmácia, coisa rápida de 20 minutinhos no máximo, a pequena chorou sentido. E quando voltei estava chorando ainda, sem entender quem era aquela estranha e por que eu desaparecera. Nesse dia, ela foi embora e eu fiquei me perguntando, o coração doído: como é que ela poderia me ajudar, se aparentemente não seria ficando com minha filha enquanto eu fizesse outras coisas, motivo pelo qual a havia chamado antes de tudo?

Dia seguinte ela retorna. Eu bem que tentei pensar em uma lista de tarefas, mas não sabia. Ela chegou tranquila, viu que tinha uma louça na cozinha e foi arrumar. Depois lavou umas roupinhas, passou outras, ajudou com o banho. Foi fazendo uma coisa ali, outra aqui, fazendo a casa andar. O tempo passou, ela foi e voltou no dia seguinte.

Dia após dia ela foi e voltou. Sempre tranquila, falante e cheia de histórias sobre seus filhos, cuidando de pequenas coisas. Pequenas coisas essenciais, que ficavam emperradas em um cotidiano de mãe recém parida tumultuada e atropelada por essa vida nova que mal sabia por onde começar. Provavelmente as mesmas pequenas coisas que fazia na casa dela, em sua rotina de mulher e mãe que trabalha. O mesmo cuidado. A mesma atenção. Para que tudo funcione. Para que a maternagem tenha sossego para acontecer.

Não, ela não estava ali para cuidar da bebê. Ela estava ali para me ajudar para que eu pudesse cuidar da minha filha. E isso ela compreendeu bem antes de mim. E muito delicadamente foi fazendo, sem que eu soubesse o que lhe dizer sobre o que fazer.

Mãe amorosa de dois, não amamentou o segundo. Logo passou para a mamadeira. Ela recontava essa história doída a cada vez que me via dando de mamar. Dizia do quanto lamentava ter parado e do quanto tinha sido maravilhosa sua primeira experiência. O que aconteceu? Como eu, ela havia sido mal orientada por pediatras e outros profissionais da saúde que, vendo o baixo ganho de peso de seu filho no primeiro mês, concluíram – erroneamente – que ele não se alimentava o suficiente porque ela não tinha leite o suficiente e indicaram o uso da mamadeira e do leite em pó. Ela, assustada que seu pequeno pudesse passar fome, cedeu. Eu insisti, brigando com médico, pediatra e meio mundo. Tanto o bebê dela quanto a minha ganharam peso, cresceram e estão muito bem de saúde. Mas ela perdeu a amamentação. Sim, uma perda, ainda mais por ela saber muito bem o que havia perdido, baseada em suas memórias recentes do longo contato com a primeira filha. E me ver amamentando tocava nessa ferida dela, fazendo-a falar e se perguntar. Respostas que eu também não tinha.

Qual a diferença entre nós? Por que, frente à mesma situação, duas reações tão distintas? Empoderamento? Falta dele? Confiança em si mesma? Falta dela? Crença cega no saber médico?

Um pouco disso tudo e, a meu ver mais ainda, a questão da imigração. Ela e suas histórias me fizeram perceber quanta diferença havia entre nós, duas brasileiras na França. E o quanto essas diferenças passavam por estarmos aqui legal ou ilegalmente. E o quanto essa busca por uma vida melhor, por uma perspectiva de vida, por uma vida, simplesmente, uma vida que possa ser vivida com o mínimo de decência e de dignidade coloca pessoas como ela, por vezes, em situações tão doloridas. Não foi apenas o saber e o poder médico e da indústria de alimentos e produtos infantis que inviabilizaram a experiência de amamentação dela. Foi tudo isso sendo jogado sobre uma pessoa fora da sua zona de conforto, fora do seu país, da sua cidade, da sua língua, da sua família onde ela poderia, facilmente, ter se baseado em sua experiência de já ter parido, já ter amamentado, já ter maternado para simplesmente dizer: “não, não vou fazer o que vocês me dizem. Eu sei mais, eu sei que meu filho está bem e eu sei do que ele precisa”. Ela teria tido toda a garra e toda a condição de bancar assim esse segundo filho. É raçuda essa moça. Mas viver em outro país faz isso com a gente, especialmente quando se vive com medo de ser passado para trás, explorado, trabalhar sem receber, ser preso, humilhado, deportado, perder tudo. Ameaças tão comuns a tantos “sem papéis” que, no entanto, vêm aqui não apenas cuidar de fazer uma vida melhor para si mas, também, fazer o mundo girar e dar condições para que a caduca Europa não envelheça e morra sem nem conseguir renovar sua gente para pagar por sua aposentadoria. Velha Europa cheia de contradições, que maltrata os que garantem sua sobrevivência… Em uma situação de tanta precariedade, que te digam ainda que você não dá conta de alimentar o seu filho suficientemente e que ele precisa de mamadeira… bom, como não acreditar? Como não se submeter? A imigração esmaga muita gente tanto quanto o saber médico e o poder da milionária indústria de produtos para a primeira infância. E se ela fez a escolha de dar mamadeira para seu filho, essa escolha me pareceu totalmente atravessada por tais circunstâncias.

Ela não era uma inimiga por ter tomado um caminho diferente do meu na sua experiência da maternidade na medida em que optou por dar mamadeira com leite em pó ao seu filho. Do mesmo modo que eu não era sua inimiga, jogando meu seio e a amamentação na sua cara para mostrar-lhe como é que se faz, lembrando a ela o quanto “menos mãe” que eu ela seria. Minha existência não era um julgamento das escolhas dela e nem a dela dizia nada sobre as minhas. Éramos apenas, ela, eu e tantas outras, mais duas mulheres bombardeadas por informações desencontradas, equivocadas, servindo a múltiplos interesses que não os nossos e os de nossas crias. E tendo que fazer frente a isso apenas com nossos próprios desejos, as informações de que dispomos, nossas experiências de vida. Sozinhas. E em outro país.

Ela foi e voltou muitos dias. E, pouco a pouco, me vi capaz de saber o que fazer. E o que lhe pedir. De seu lado, ela deixou de ser uma estranha para a bebê e pode ficar com ela nas vezes em que precisei. Me ajudou com muitas coisas banais com extrema doçura: como limpar atrás da orelha, como cortar unha, como ver se a bebê não está com cólica… Penso tê-la ajudado a saber mais sobre os seus direitos por aqui. E sobre como conseguir fazê-los valer sem ficar dando dinheiro a exploradores inescrupulosos da necessidade alheia. Trocamos experiências, histórias e informações.

Hoje o bebê dela faz um ano. Infelizmente, a pequena e eu não pudemos ir na festinha. Mas penso com enorme carinho nesse pequeno, o menino lindo que ela deixa em casa para vir ajudar com a minha. Esse menino simpático e sorridente que ela gerou e cria com tanto cuidado. E que a encheu de experiências que ela generosamente me ofereceu. Parabéns, menino bonito do cobertor amarelo. E obrigada a ela, por ter me ensinado que a maternidade é uma experiência tão poderosa a ponto de aproximar os diferentes através daquilo que realmente conta: a vivência do cuidado silencioso, da compreensão sutil e da compaixão amorosa que aprendemos a ter com nossos filhos e que, com sorte, poderemos dedicar aos outros. A outras mães, como ela tem feito por mim. A outras pessoas, como fazem aquelas que lutam cotidianamente para que esses saberes e poderes não esmaguem nossa capacidade de sermos mães.

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Este post foi inspirado pelo belo Projeto Coração Materno: por uma maternidade em rede, criado pela Isa Kanupp, do blog Para Beatriz e pela Ananda Etges, do blog Projeto de mãe. A idéia consiste em ações para fortalecer a solidariedade entre mães, ao invés da perversa disputa entre grupos de mães que fizeram percursos diferentes na criação dos filhos. Se existe um inimigo nessa nossa atual situação frente à maternidade, ao parto, à amamentação, certamente não são as mães que fazem outras escolhas. São, a meu ver, as condições e os jogos de poderes que pressionam mães em todo canto do mundo a fazerem escolhas de posse de informações equivocadas. Ou baseadas na coação. No medo. Ou na submissão ao saber do outro.

Postagens amigas sobre o mesmo tema:

Empatia nas redes sociais, por Ananda Etges do blog Projeto de Mãe.

Vamos falar de escolha? por Isabela Kanupp do blog Para Beatriz.

Por uma maternidade sem rótulos, por Priscila Abreu do blog Ei, mamãe.

Sobre julgar x acolher: onde é que seu calo aperta? por Ana Carolina Ferreira do blog Um novo tempo.

A pior escolha que uma mãe pode fazer, por Ana Marusia Pinheiro Lima Meneguin do blog Mãe Perfeita.

Escolhas não nascem em repolhos, por Gabriela D’Andrea do blog Eu mamãe.

Blogagem coletiva: coração materno, por Carla Ferreira do blog Super Mãe de Primeira Viagem.

Blogagem coletiva projeto coração materno: por uma maternidade em rede, por Geisa Simonini do blog Na mira da mamãe.

Blogagem coletiva coração materno / escolhas, por Martha Albuquerque do blog Minha pequena e eu.

Conformação que gera letargia, por Myriam Scotti do blog Mãe no País das Maravilhas.

Pelo fim das guerras maternas, por Helena Sordili do blog Eu (Lele), ele e as crianças.

Pela liberdade e informação, por Luciana Primante do blog Meninas Plugadas.

E agora, Sofia? por Raquel Lima do blog Belly Mama.

Sobre verdades e máscaras, por Manu Mantovani do blog Feminices.