Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.