Algumas confissões após seis meses de amamentação…

Amamentar…

… é como passar no vestibular, ou chegar na reta final de uma corrida, ou realizar um projeto importante. Enfim, um pouco disso tudo, só que totalmente diferente, porque amamentar não é uma prova de conhecimentos que te permite se sair bem apenas por estar bem informada, nem uma prova de habilidades físicas, que te permite conseguir por ter preparado seu corpo, nem tampouco uma competição com outras mães para ver quem amamenta mais e melhor e, menos ainda, um projeto do qual se dê conta sozinha.

Logo que a pequena nasceu, talvez como a maioria das mulheres, eu contava com a natureza e com a naturalidade da amamentação para garantir que tudo desse certo. Sabe essa história de que está nos genes e, portanto, basta deixar por conta deles que tudo se resolve? Pois bem, não é exatamente assim. Não sei se para todas as mulheres mas, pelo que vejo das queixas e das dores de tanta gente, para a grande maioria amamentar não é algo natural, instintivo e dado. Ou melhor, não do modo como concebemos algo que deveria ser natural e instintivo como dado.

Fato é que, desde que engravidamos, na medida em que tenhamos o desejo de uma gravidez, um parto e uma maternidade mais conscientes, apropriados, singulares e humanizados, vamos nos dando conta de que começa um longo e árduo trajeto de batalhas cotidianas. Sei que existem pessoas que se preparam antes e, ao engravidarem, já têm em mente com muita clareza o que querem e como querem mas, se a sua experiência for como a minha, possivelmente somos pessoas que vamos pensando conforme acontece e tentamos elaborar e entender o que queremos conforme cada situação nova se impõe. O que significa que temos que elaborar muita coisa em um tempo determinado e, ainda por cima, agira de acordo, no caso de uma gravidez, de um plano de parto ou da maternidade dos inícios da vida de nossos filhos. Não dá para ficar “esperando Godot” naquela reflexão punhetante que dura o quanto tiver que durar e nos vemos pressionadas e coletarmos informações, pensarmos e agirmos com prazo. Tarefa angustiante para uma psicanalista, sempre mergulhada no caldo das livres associações e dos tempos do inconsciente mas, nessa vida, há situações e momentos que pedem uma certa agilidade. Enfim…

Então, grávida, você descobre que precisa batalhar para viver sua gravidez com tranquilidade, sem muitas interferências, sem terrorismo e sem excesso de intervenções. Mais ainda, descobre que terá que lutar para ter um parto digno, humano, acolhedor para você e para seu bebê que chega. E que terá que brigar para ser bem tratada e para que seu filho seja bem recebido neste mundo. Terminados gravidez e parto, começam outras sagas e uma delas – ou a mais intensa delas, a meu ver – é a da amamentação. Porque você contou com a natureza ao longo da gravidez, aprendeu a confiar que seu corpo poderia abrigar bem uma vida ali dentro dele, aprendeu a não se sobressaltar, a não se inquietar com riscos e a escutar seu corpo e os sinais do bebê. Assim como você aprendeu a contar com essa mesma natureza na hora de parir, acreditando ainda uma vez que seu corpo saberia trazer seu filho ao mundo e, principalmente, que esse pequeno saberia vir ao mundo por seus próprios meios e no seu tempo. Então, como é que na hora em que começam os cuidados com o bebê essa tal de natureza não funciona assim tão bem?

Penso que temos uma idéia meio equivocada do que seja confiar na natureza, no instinto, no corpo e na sabedoria dele. Parece que isso significa que podemos relaxar e deixar tudo por conta de uma força que nos é alheia e que nada mais precisa ser feito, apenas estar entregue. Será que é mesmo isso?

Tenho minhas dúvidas. Pois se uma grande capacidade de entrega e de desconhecimento ajuda muito nesses momentos viscerais da existência, o fato de sermos nós, mulheres do século XXI, marcadas pela ciência, pela razão, pelo pensamento, pela lógica faz com que, feliz ou infelizmente, não possamos nos dar ao luxo de uma total inconsciência daquilo que vivemos nesses momentos em que a natureza tem que tomar a dianteira. Quero dizer que ficamos numa condição paradoxal de precisar se aproximar dessas experiências do jeito que somos capazes hoje em dia, ou seja, de um jeito super mediado, cheio de racionalizações, de conhecimentos, de falas, de idéias e assim por diante e, ao mesmo tempo, poder deixar tudo isso em segundo plano, a cabeça descansando em standby enquanto o corpo trabalha. Difícil, não?

Fato é que não vivemos mais gravidez, parto e maternidade como nossas avós e bisavós viviam. Não estamos mais cercadas de pessoas que pariram seus filhos, não escutamos mais suas histórias, dificilmente teremos visto um parto na vida antes do dia de viver o parto de nossos próprios filhos, assim como raramente teremos estado na companhia cotidiana de mães e seus bebês pequenos, acompanhando os cuidados e a amamentação dedicados a eles. Todas essas situações que faziam parte da vida mais banal de nossas avós, bisavós e antes delas, pelo simples fato das famílias serem grandes, das pessoas conviverem de perto com seus familiares de muitas gerações e, principalmente, do cuidado das crianças ser compartilhado entre muitas pessoas, inclusive no que diz respeito à gravidez, parto e puerpério, quando as mulheres mais experientes se encarregavam de cuidar e orientar as mais novas, bem… todo esse jeito de entender e de lidar com a maternidade deixou de existir. Ao menos para nós, mulheres ocidentais burguesas vivendo em certos cantos ditos desenvolvidos desse mundo. E, se não convivemos mais com grávidas, parturientes e mães, e se não as acompanhamos mais nesses momentos, como esperar que tenhamos de onde tirar esse conhecimento visceral que deveria agir nessas horas?

Então, na hora de contar com a natureza para amamentar, a “porca torce o rabo” e percebemos, muitas de nós, que nisso também haverá luta, esforço, batalha, busca de informação, ajuda, orientações desencontradas, violências e desrespeito. E nisso também teremos que fazer face a muitos desafios, muitas opiniões desencorajadoras, muita pressão. E muita insegurança. Ou seja, quando você acha que acabou o mais difícil e que agora pode relaxar e curtir a cria, a coisa está apenas começando.

Assim, muitos perrengues e desencontros depois, foi com muito orgulho e emoção que constatei nossa chegada aos seis meses de amamentação exclusiva. Emoção e gratidão, especialmente à minha filha, que foi quem me ensinou a amamentar. Eis aqui o grande segredo, a meu ver, dessa tal de amamentação e que ninguém conta porque pouca gente sabe: mesmo que nós, as mães, adultas, estejamos muito marcadas por toda a nossa história e nossa experiência de distanciamento de nós mesmas, de nossos corpos e de nossas potências enquanto mulheres parideiras e nutrizes, nossos bebês recém-nascidos sabem. Sabem muito mais que a gente, porque mais conectados ou menos perdidos. Então, se dermos um crédito a esses pequenos e tentarmos escutá-los, respeitá-los e seguir um pouco os ritmos e as demandas deles, muita coisa pode funcionar de um jeito surpreendente.

Claro que não é mágica. O bebê também aprende a mamar, ao mesmo tempo que aprendemos a amamentar. Ele aprende a pegar o seio, a sugar eficientemente. Mas ele tem, como nós também, todos os instrumentos para isso. Basta uma ajudinha ou outra no começo e uma boa dose de paciência que o sujeitinho faz o resto. Basta ouvi-lo, atendê-lo em suas demandas pelo seio, deixá-lo experimentar, ajustar com ele posições, buscar um conforto para ambos. Uma das coisas que aprendi, que parece tão simples de tão evidente, mas que quase me passa desapercebida, é que não se trata de você. Amamentar (como parir) não se trata de você. Não é um projeto seu, uma decisão sua, algo que diz respeito ao seu corpo, ao seu desejo e blábláblá. São dois, percebe? Você e o bebê. Existem duas pessoas aí, dois seres, dois corpos, dois desejos, duas existências que precisam se encontrar e entrar em alguma espécie de acordo sobre como viver tudo isso de uma maneira que seja boa para ambos. E de onde saiam ambos alimentados e felizes.

E, não, esse não é o fim dessa história. Ainda teremos amamentação pelo tempo que a pequerrucha precisar e eu puder. E temos introdução alimentar. Mas isso é outra saga, conto depois.

Outros textos sobre amamentação: aqui.

Dia da mulher?

Eu realmente não sou o tipo de pessoa que gosta de datas comemorativas. Sempre achei o Natal deprimente, o Carnaval de uma alegria forçada e nunca gostei de quem tentasse me impor uma data para festejar namorado, mãe, pai ou afins. No entanto, existem datas que me irritam mais particularmente do que outras e o dia da mulher é uma delas.

Que haja um dia da mulher, a meu ver, representa que ainda não conseguimos estabelecer uma condição de igualdade e respeito. Qualquer dia dedicado a uma dita minoria é assim: dia do índio, da consciência negra, do orgulho glbt, dia da mulher. A maioria das pessoas divididas em grupos que, desconsiderados, discriminados ou destratados cotidianamente, precisam de um dia para lembrar ao restante que existem e que há ainda o que ser feito para lhes garantir condições mais dignas de existência. Ou seja, é um atestado de fracasso, não?

Durante muitos e muitos anos de vida eu não tive a preocupação em ser feminista. Nem em saber muito bem do que tratava o feminismo além das caricatas queimas de soutiens da década de 60. Não me preocupava com a questão porque, talvez, não sentisse na pele o preconceito ou, o que acho mais provável, porque não identificava certos acontecimentos da minha vida como fruto de um machismo opressor e discriminatório. A vida dá muitas voltas e numa delas eu entendi.

A França é conhecida como um dos berços do feminismo e é, certamente, um dos lugares do mundo em que ele foi levado mais à sério. Nem se compara ao nosso Brasil tão machista, tão misógino, cheio ainda de piadas e atitudes que nos denigrem, bem como de homens e muitas mulheres sempre dispostos a apontar o dedo e condenar sumariamente qualquer mulher. Pelo que quer que seja. Porque é bonita, porque é feia, porque é magra, porque é gorda, porque é bem sucedida, porque trabalha, porque tem filhos, porque não tem, porque é inteligente, porque pensa, porque transa… Qualquer motivo é válido para desqualificar uma mulher. Ainda nos dias de hoje. Simplesmente porque é mulher, coisa que poucos dos apontadores de dedo assumem assim tão claramente. O que torna a coisa toda mais subterrânea e, com isso, mais perversa.

Perversa porque hoje em dia escutamos muitas críticas ao feminismo como ideologia ultrapassada, problema superado ou coisa de mulher mal amada e mal comida. Eis aí o mesmo preconceito desqualificando quem ousa pensar que as condições de existência de metade da população desse planeta estão longe de um padrão mínimo de decência. Quem repete esse discurso, curiosamente, são aqueles que querem perpetuar o tal estado de coisas como está, pois não por coincidência são os que se beneficiam dele e, o mais triste, muitos e muitas jovens para os quais essas reivindicações de igualdade parecem distantes e sem sentido.

Acho que, como eu durante muito tempo, eles também não conseguem enxergar aquilo que vivem como produto e consequência de uma opressão que impõem às mulheres ou que elas, meninas jovens, já sentem na pele sem perceber. As piadinhas continuam as mesmas, os julgamentos e condenações de meninas por sua aparência ou por suas atitudes continuam por aí, assim como as ações sem respeito e sem cerimônia com as quais os garotos se dirigem a essas meninas. E elas aceitam. E todo mundo acha tudo isso perfeitamente normal.

Foi aqui na França, a terra dos seres pensantes, do Iluminismo e da filosofia, que descobri que o machismo e a misoginia existem. E que atuam e fazem agir homens e mulheres de forma contundente, violenta e sem piedade, ainda nos dias de hoje. A França, que se diz e que realmente fez um grande movimento em direção à igualdade entre todos os seres humanos, é surpreendentemente um país ainda extremamente machista. Basta ver como se passam as relações e os jogos de poder e de influência nas universidades e o esforço descomunal que uma mulher precisa fazer para ser levada a sério e poder fazer sua carreira ali. Basta ver os discursos denigridores das mulheres intelectuais magníficas que a França, felizmente, mesmo assim consegue produzir. Basta ver como os homens se referem às suas colegas na universidade, no mundo intelectual, na política. Não precisa ser na mesa de bar não, num fim de mundo do interior francês onde poderíamos facilmente botar a culpa no provincianismo, na falta de clareza e de abertura de espírito, ou no reacionarismo de direita que remonta. Não, se você quer saber o que é o machismo e o misoginismo postos em prática e atuando perversamente em um país que tanto fez e tanto faz para que ele deixe de existir, procure nos altos escalões, nas altas discussões, procure em Paris.

Foi aqui, percebendo que, mesmo nesse canto ideal do mundo em que tudo parecia funcionar do modo como todo mundo sonha que a vida deveria ser, ainda assim nada funcionava exatamente como parece ser que me dei conta que o feminismo e a luta pela igualdade entre homens e mulheres são questões atualíssimas. Porque se a coisa está assim em Paris, se as mulheres são tratadas dessa maneira na França, se o direito ao aborto é revogado na Espanha e se as mulheres continuam mesmo aqui a serem menosprezadas em sua inteligência, reduzidas à sua aparência, agredidas em função de seus desejos, limitadas a uma imagem estereotipada, descartadas como objetos utilizáveis ou não segundo o critério e a decisão de um outro, não é difícil imaginar que em lugares onde o feminismo nem foi levado tão a sério ou simplesmente não incidiu, a coisa deve estar muito mais tenebrosa. E está.

Noutro dia li, em uma dessas minhas muitas leituras de blogs de mães, uma postagem de uma brasileira que mora na Irlanda, em que ela dizia Eu não sou feminista, porque não preciso ser. Gostei muito do texto e gostei ainda mais de saber que existem lugares no mundo em que as mulheres podem simplesmente existir, pois o mínimo essencial – e estou dizendo que igualdade faz parte do mínimo essencial para a existência humana – está garantido. E ele me fez pensar que lutar pela igualdade da mulher deveria poder incluir todo o imenso espectro de possibilidades ofertados à sua existência.

Quero dizer, essa luta pelo direito das mulheres deveria ser uma luta para que toda e qualquer mulher tivesse igualdade de condições, para que todo ser humano tivesse em pé de igualdade com seus pares. E igualdade não quer apenas dizer poder trabalhar em qualquer função ou poder ter a mesma autonomia financeira que um homem. Reduzir a questão da opressão às mulheres apenas a uma busca profissional ou financeira é manter funcionando toda uma rede de preconceitos e de ações que a desqualificam em muitos outros lugares e situações. Buscar autonomia, independência financeira e condições de trabalho é legítimo e necessário, ainda nos dias de hoje. Mas transformar isso em sinônimo de igualdade entre homens e mulheres será o suficiente?

Lembrando da situação aqui na França, muito parecida com vários outros lugares no mundo dito desenvolvido, em que as mulheres ganham menos do que os homens nas mesmas posições e que levam muito mais tempo e têm muito mais que se esforçar para atingir os mesmos objetivos de carreira, parece que ter tais objetivos como finalidade de uma luta pela igualdade é ainda muito válido. Mas por que defender o direito de ser mãe, de cuidar dos filhos, de amamentar, de parir de parto natural humanizado não são entendidos como reivindicações feministas? Ou, pior ainda, são taxados como o oposto do feminismo, como ocorre com muita frequência em discussões acaloradas por aqui? Tem mulher intelectual feminista dizendo que a insistência na amamentação, por exemplo, é a derrota do feminismo e a volta da opressão das mulheres. Como é que é? Eis aí novamente mulheres apontando o dedo para outras mulheres porque elas querem escolher parir, amamentar ou cuidar de seus rebentos. Como se isso fosse andar para trás. Como se esses desejos e esses projetos de vida não pudessem fazer parte legitimamente do espectro tão variado daquilo que uma mulher pode querer. E como se não devessem ser apoiados e defendidos.

Tendo estado tão imersa na experiência da maternidade e tão envolvida com leituras a respeito, sinto uma grande tristeza a cada vez que vejo mulheres acusando mulheres do que quer que sejam as suas opções de vida. Parece que ainda falta um longo caminho para compreendermos que é apenas defendendo o direito à liberdade de existir como desejar e de escolher aquilo que quiser de cada mulher, com toda a diversidade que isso envolve que poderemos dizer, com a boca cheia e com conhecimento de causa, que o feminismo é uma questão ultrapassada.

As mulheres podem e devem escolher. Defendo escolhas informadas, defendo a desalienação, defendo o conhecimento e a reflexão que não aceitam de mão beijada aquilo que é dito como verdade sem ao menos se interrogarem acerca de a quem essa verdade serve. Defendo que as mulheres possam saber das forças que lhes atravessam e que atravessam esse mundo e que, com isso em mãos, escolham. E é nisso que discordo do texto ao qual me referi acima. Não penso que seja possível não ser feminista porque não é preciso ser. Mesmo vivendo na Irlanda ou em algum outro lugar onde sair com as amigas para se divertir enquanto o marido fica em casa e toma conta das crianças é tão evidente que ninguém mais pensa que isso é um grande acontecimento, ou que é estranho, ou que a mulher que faz isso é uma mãe desnaturada ou outros comentários desse tipo. Mesmo para quem tem esse privilégio de viver em um lugar em que a liberdade de existir e de ser é garantida para todos igualmente, na maior parte do mundo isso está muito, muito longe de ser uma realidade. E não existe liberdade real ou igualdade efetiva enquanto existem pessoas que padecem dos males que não te afetam mais. Porque, simplesmente, eles podem resvalar em você de um modo ou de outro, em um ou outro dia. Pode ser que alguém te desconsidere por ser mulher em uma universidade francesa, pode ser que alguém fique encarando seus peitos enquanto você amamenta em um trem europeu, pode ser que você ainda tenha dificuldades de comprar roupas de outras cores para sua filha, ou roupas cor-de-rosa para seu filho… Ou pode ser estupro, violência, agressão.

Se o que queremos é igualdade, devemos reivindicar a liberdade de sermos como quisermos, inclusive de ser bonita, de se preocupar com a aparência, de andar de minissaia, de ser feia, de ser gorda, de ser magra, de ser esportista, de não fazer esporte algum, de estar em forma, de estar com o corpo do jeito que quiser, de gostar de comer, de ter filhos, de não ter filhos, de casar, de não casar, de morar sozinha, de morar com alguém, de viajar pelo mundo todo, de ir e vir com tranquilidade e segurança, de poder andar à noite na rua sozinha, de morar em outro país, de trabalhar, de ganhar os mesmos salários pelas mesmas funções, de ocupar todo e qualquer cargo, em qualquer esfera, de cuidar da casa, de não fazer absolutamente nada, de amar um homem, de amar uma mulher, de amar várias pessoas ao mesmo tempo, de parir, de amamentar… Ser mulher, e isso sim o feminismo deveria se preocupar em garantir, e poder ser verdadeiramente livre. E que ninguém questione isso sob o argumento de que mulher não pode. E que ninguém julgue essa liberdade de maneira a aprisioná-la para garantir sua tranquilidade em não ser ameaçado por nosso desejo e por nossas escolhas. E que ninguém critique, diminua ou menospreze as infinitas possibilidades que temos, mas respeite e ajude a garantir que elas sejam viabilizadas.

Então, se no dia de hoje vierem me falar da beleza de ser mulher, com aquele monte de clichês baratos que estereotipam e aprisionam nossa existência há séculos, e se vierem me falar dos direitos das mulheres ao trabalho ou ao aborto, como se esses fossem os fins e não apenas algumas das possibilidades, ou se vierem me oferecer aquelas flores ridículas junto com aqueles poemas patéticos que comparam toda mulher a uma rosa, como se isso fosse demonstração de consideração… eu me permito, sinceramente, mandar toda essa gente para a PQP. O dia de hoje não é um dia para ser comemorado – como nenhum dia de nenhuma minoria é. Esse é um dia para termos vergonha e, quem sabe, criarmos vergonha na cara em relação a essa perversidade com que tratamos as mulheres e com que nos tratamos entre mulheres. O que devemos reivindicar? Tudo. Absolutamente tudo. E que tudo seja respeitado. Até se tornar uma evidência. E que ninguém mais precise comemorar esse dia. Nem falar em feminismo.

O que eu quero? Respeito. Por mim e por minhas escolhas. E pelas outras mulheres e suas escolhas. Nada menos do que isso.