Como se preparar para um parto normal?

Continuando esse texto aqui e tentando pensar no que ajuda a nos prepararmos para o parto. Na medida em que isso é possível, claro, pois o parto é uma experiência de total descontrole e de entrega, em que sua razão não consegue fazer nada por você enquanto seu corpo age. E um dos aprendizados é justamente deixar esse corpo agir e confiar na sua sabedoria. Então, segue uma lista de pequenos aprendizados e grandes descobertas que fiz e que talvez sejam úteis para outras mulheres que querem tentar evitar a cascata de intervenções médicas na qual se transformou o nascimento na maioria dos lugares hoje em dia:

  • Recusando a anestesia – que é reconhecidamente a porta de entrada para muitas outras intervenções que se seguem a ela, como a administração da ocitocina sintética, a episiotomia, o parir na posição ginecológica… Fato: na medida em que você abre mão de sentir boa parte do seu corpo, fica literalmente à mercê de que ele seja manipulado pelos outros como bem entenderem. Se você não sente nada da cintura para baixo, a dor das contrações não envia mensagens para seu cérebro produzir ocitocina, que não entende que tem que contrair, dilatar, produzir leite… o que leva a trabalhos de parto que empacam, contrações que cessam, dilatações que recuam, leite que demora a descer… o que leva à ocitocina sintética, que não aparece na medida do que o corpo precisa ou pode compreender, o que leva a contrações muito mais intensas e à mais dor e, às vezes, até a um sofrimento por parte do bebê… o que leva ao medo e o medo é um dos elementos mais importantes para fazer um parto parar, desandar ou acontecer de maneira sofrida e dolorosa. Ainda, anestesiada de mais da metade do seu corpo, parir será apenas na posição ginecológica, porque não há como mudar de posição sem sentir as pernas. E essa posição não facilita muito a descida do bebê… o que leva a mais dificuldades no expulsivo, o que implica em fazer mais força, o que justifica muitas vezes aquela abominação que é alguém subir na sua barriga e empurrar por você, o que significa um bebê sendo empurrado com força demais, o que significa lacerações maiores no períneo… o que justifica outra aberração que é fazer episiotomia e cortar camadas e mais camadas sob o pretexto de que isso vai doer menos e cicatrizar melhor do que uma laceração… Bom, acho que deu para entender que uma coisa puxa a outra e que quando menos se espera a gente se vê arrastado em um mecanismo do qual não consegue mais se livrar. Então, por que começar?
  • Conhecendo ao máximo o próprio corpo e aprendendo como ele funciona e quais são os métodos de alívio da dor não medicamentosos. Tenho a sorte de ter feito dança durante quase toda a minha vida, o que fez com que eu adquirisse uma boa noção de como o meu corpo funciona. Não apenas a fisiologia do parto, saber como acontece na prática para um bebê nascer mas, também, poder entender como encontrar boas posições, como bascular a bacia para frente para alinhar o corpo de modo a facilitar a saída do bebê, como variar posições de maneira confortável e, principalmente, como respirar. Respirar – como muitas vezes aprendemos em cursos de yoga – é a base para manter o equilíbrio e a tranquilidade ao longo de todo o parto. Ao menos, foi para mim. Nesse sentido, foi super importante um curso que fiz aqui de preparação para o parto, que todas as grávidas fazem, e que foi dado por uma sage-femme especialista em sofrologia. Não encontrei nenhum equivalente disso no Brasil, mas se trata de uma técnica de respiração que, no que diz respeito à gravidez, te ensina a respirar mais ou menos no mesmo ritmo das contrações. Quando elas começam você solta o ar o máximo que puder, bem devagar, como se tivesse uma vela acesa na sua frente que não pudesse apagar. E expira assim tanto quanto consiga, depois inspira. Essa expiração dura quase o mesmo tempo de contração e juntando isso com a báscula da bacia para frente, o alívio é imenso. Funciona. Eu sei porque o único momento em que senti mais dor foi durante algumas contrações que eu parei de respirar desse modo, comecei a ofegar, comecei a sentir mais dor, o que me fez ofegar mais e foi muito difícil. A ponto de eu pensar que não daria conta. O que me leva à mais uma coisa importante.
  • Relaxar é fundamental. Parece um contra-senso dizer que é preciso ou possível relaxar. Mas eu percebi que é. Entre uma contração e outra tem gente que até dorme. Até mesmo durante as contrações é possível e necessário relaxar. Quero dizer: quando sentimos dor, nossa tendência é contrair todos os músculos para nos protegermos. Só que essa tensão faz doer muito mais, qualquer um que passe muito tempo numa posição ruim ou com o corpo todo tenso por conta do frio sabe disso. Tudo trava, tudo dói. Agora imagina esse corpo todo rígido na hora do parto. Não dá para achar posição, não dá para respirar, tudo vira desconforto. Nesse curso de preparação ao parto do qual falei, a sage-femme falava muito sobre esse relaxar como uma espécie de entrega, como uma aceitação sua daquilo que está acontecendo com o seu corpo. Ou seja, ao invés de lutar contra e ficar brigando com contrações contraindo mais ainda outros músculos, o negócio é deixar que elas aconteçam. E, para isso, um dos grandes aliados, no meu caso, foi uma banheira cheia de água quentinha. Aqui na França não se pode parir na água pelo risco de infecções e afins (como se fazer mãe e bebê passarem 4 dias em ambiente hospitalar após o parto, obrigatoriamente, não fosse arriscar imensamente todo tipo de infecção hospitalar)… enfim, não se pode parir na água mas se pode ficar na banheira, ou embaixo do chuveiro. E isso, aliado à respiração e aos movimentos da bacia traz um alívio e um relaxamento grandes.
  • Poder fraquejar. Pois sempre tem um momento em que a gente pensa em desistir. Já ouvi mais de uma mulher falar a respeito. E o curioso é que esse momento anuncia que está próximo de acabar. Por isso é bom saber que ele existe e que ele chega, pois com ele chega também o final do parto. Talvez seja um misto de cansaço com medo do desconhecido com espanto por tudo aquilo que está acontecendo. Nessa hora do “não vou dar conta”, ajuda se conseguimos relaxar, respirar, sabendo que teríamos esse tipo de dúvida. Se houverem pessoas em volta que possam nos tranquilizar também quanto a isso, mostrando que estamos dando conta sim, ajuda e muito. Mas fraquejar, é importante que se saiba, não é falhar… o que me leva a um outro aprendizado importante que é…
  • Reconhecer os seus limites. No fim das contas, penso que o parto é uma profunda negociação entre você e você mesma, assim como entre você e o seu bebê. Se passamos a gravidez todas às voltas com medos, inseguranças, reflexões e toda espécie de fantasma que nos ronda a barriga redonda, vindos de nós mesmas e dos outros, acho que é na hora do parto que a gente descobre se vai dar para negociar com tudo isso ou não. Do que estou falando? De desejo. Desejo, para uma psicanalista como eu, não é aquilo que a gente diz que quer, mas aquilo que atravessa a gente como um verdadeiro querer que se impõe, às vezes até de maneira oposta ao que pensávamos que queríamos. Sabe aquela história de dizer que quer uma coisa e fazer justamente o contrário? Então… desejo. Desejo é aquilo que suas ações dizem, é aquele querer que tem tanta força que consegue virar ação. Porque sabemos o quanto é difícil agir na vida e o quanto é fácil falar. Pois é, o desejo dá testemunho daquilo que realmente queremos naquilo que conseguimos fazer. Então isso significa que se eu não tiver o parto natural que digo querer, é sinal que eu não queria? Não necessariamente. Porque existe o nosso desejo e existem os outros e as circunstâncias e entre nosso desejo e sua realização existe um muro de ideologias, de jogos de poder e de violência obstétrica que podem jogar todo o esforço na lata do lixo em dois segundos. Mas se tem algo que eu aprendi com a gravidez e com o parto é que, se não temos como controlar quase nada, nem em nós mesmos, nem nos outros, podemos ao menos fazer a nossa parte de trabalho para tentar ao máximo, naquilo que nos diz respeito, encontrar a maior coerência possível entre nosso desejo, nosso corpo e nossas ações. Se tivermos ao menos isso, tenho a impressão que metade do caminho está feita.
  • Cuidando da cabeça. Do mesmo jeito que décadas de dança me deram uma boa noção a respeito de meu corpo que muito me serviu na hora do parto, mais de uma década de análise também muito me ajudou nessa hora. Isso quer dizer que eu estava zerada, sem nenhum senão, sem nenhum porém? Imagina, tinha um monte de fantasmas na minha cabeça e eu passei a gravidez inteira trabalhando duro comigo mesma para cuidar deles. Isso não significa que a gente chega no parto resolvida, e nem que apenas quem está resolvida chega em um parto natural. Isso significa que saber do próprio corpo funciona tanto quanto saber daquilo que te assombra, justamente porque tudo isso vai contigo para a sala de parto. E é bom saber quem está na sala. Eu tinha muitos medos. Pânico de algo acontecer e eu perder a minha filha. Cheguei a sonhar com isso, que paria sozinha e que ela caia no chão, pois eu não conseguia ampará-la. Quer desamparo maior? O que penso que me ajudou foi ter uma idéia do que me assombrava, não jogar para debaixo do tapete e não ficar no deixa disso, achando que não pensar resolveria as coisas para mim. E saber que esse reconhecimento dos meus medos não me paralisava, nem me impedia de agir mas, ao contrário, me ajudava justamente a mobilizar forças para fazer aquilo que eu julgava importante.

Tive a sorte de uma gravidez tranquila. Mas não foi sorte apenas, e sim um esforço ativo em me afastar de tudo o que me parecia ir contra a possibilidade de viver a gravidez e o parto como acontecimentos naturais, humanos, para o qual estamos, no fundo de nós mesmas, preparadas. Não apenas procurando o melhor lugar possível para minha filha nascer, como tentando me cercar de uma rede de apoio – no meu caso, virtual – que pudesse fazer as vezes daquela voz amiga que precisamos em tantos momentos. Da bolsa que estourou ao nascimento dela, foram quatro horas e meia de trabalho de parto. Um parto rápido, muito rápido para um primeiro filho. Mas aprendi que partos são tão mais fáceis e mais rápidos na medida em que as condições em torno de você são mais propícias e acolhedoras. E na medida em que você seja o mais coerente possível com você mesma. Ou seja, quanto menos você tiver que brigar com você mesma na hora e quanto menos ameaçada você se sinta pelo que te cerca, mais a coisa será fluida. Respirar, movimentar-se, banho quente, tudo isso me fez perceber que eu estava dando conta, de que estava sendo possível, também para mim, parir. Depois de um intervalo de geração, lá estava eu pensando na minha avó que, como eu, tinha vivido tudo aquilo. Cada momento dessa experiência me deixava mais segura para continuar. Não contei com tanto apoio quanto gostaria mas – isso também é importante – quem estava em volta não atrapalhou. E por vezes é tudo de que precisamos, que não nos atrapalhem e nos deixem sossegadas.

Doeu? Sim. Mas muito menos do que eu imaginava e muito menos do que alardeiam por aí. É uma dor totalmente manejável a das contrações e sigo dizendo que não acho que o expulsivo doa. Primeiro porque é como uma grande caimbra, um esforço muscular imenso. Quer dizer, é esforço, não dor. Segundo porque, nessa hora, estamos em algum outro lugar e felizmente já não pensamos mais, apenas deixamos o corpo agir. Não é um sofrimento parir. Nem para você e muito menos para o bebê, que é massageado e levado ao caminho do lado de fora, para entrar nesse mundo e para, finalmente, poderem se olhar nos olhos. Te digo que é uma emoção incomparável.

E aqui vale mais uma observação. Dizem que o protagonismo do parto é da mulher. Concordo. Mas acrescentaria: é da mulher e do bebê. Precisam dois para fazer acontecer. Conversei muito com minha filha durante a gravidez. Não tenho como saber o que ficou disso, nem como foi absorvido, mas eu sabia que ela estava lá e que podia me escutar então, na medida em que ela mexia, eu falava. E entre nossos muitos papos, especialmente no final, eu explicava para ela mais ou menos como é que as coisas aconteceriam. Também não sei o quanto isso ajudou, mas tenho a lembrança de que estávamos bem sintonizadas. E ela nasceu muito calma. Sem choro, sem agitação, sem sobressalto.

O bebê não é parido, ele nasce. Ele faz uma porção de coisas enquanto estamos fazendo nosso trabalho. Ele amadurece os pulmões e envia os sinais de que está pronto, ele desce para o canal vaginal na medida em que as contrações o ajudam. Ele sai, abre os olhos, respira, olha em volta. Minha filha veio para os meus braços e ficou pousada na minha barriga por um tempo. Do lado de fora. Respirando e se recuperando daquele trabalho todo, que era o mesmo que eu fazia. Depois foi examinada na presença do pai e voltou para meu colo, onde ficamos boas horas, ela descobrindo o mamar e eu descobrindo ela. Não pensei tanto a respeito das intervenções sobre ela quanto pensei no que aconteceria comigo. E isso é algo que muitas fazemos, tanto temos que lutar para ter um parto digno que não dá tempo de pensar em como proteger também nosso bebê logo que ele sai do ventre. Uma ou duas coisas desse pós parto eu mudaria ou tentaria evitar. Não sabia na época sobre o colírio desnecessário, por exemplo. E ela teve que fazer um exame dois dias depois que, hoje, eu teria recusado. Então, se você já topou toda essa trabalheira que é parir, aproveite para dedicar um tanto do seu esforço para pensar e tentar preparar também o melhor possível o modo como seu bebê será acolhido.

 

Se fosse parir novamente, iria ao hospital ainda mais tarde do que fui, quase no expulsivo. Ou então teria em casa, no melhor estilo: “puxa, não deu tempo!”. Para burlar o jeito como as coisas são feitas por aqui, com a segurança de que saberia muito bem parir uma criança. Somos nós mesmas que temos que encontrar as brechas desse sistema e fazer valer nossa possibilidade de vivermos o parto de maneira digna e humana. E, prazerosa. Porque parir, e isso pouca gente diz, é muito bom. Tenho uma grande amiga que diz – e eu concordo – que se pudesse paria umas dez vezes. Outra história é ter que criar dez depois. Putz!

Volto amanhã com algumas leituras que muito me ajudaram durante gravidez e parto ou que descobri depois, mas que vão de encontro com tudo o que escrevi por aqui.

Um outro texto…

… sobre cesárea, parto normal e dor, que recoloca em questão as dores posteriores à cesariana e aquelas ligadas ao parto normal, muito menores, a menos que ele seja permeado de muitas intervenções médicas desnecessárias. Parece que, para evitar a dor, a medicina criou estratégias que fazem com que soframos bem mais. Vai entender, né? O link, aqui.

Parir entre sangue e dor…

(version française de ce post ici.)

Noutro dia, reunião aqui em casa, discuto com os amigos minha opção por um parto natural que, na França, felizmente, não é sinônimo de parto normal – que o parto é normal, já está dado e eles ficam de cabelo em pé com nossa mentalidade cesárea – mas diz respeito, mais especificamente, àquilo que no Brasil chamamos parto humanizado, um parto normal com direito à recusa de várias intervenções médicas que são, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias e apenas atrapalham de maneira violenta mãe e bebê. Então uma amiga minha tira da cartola, depois de dizer que seu ideal de parto seria ser sedada, apagar e acordar apenas quando o bebê tivesse sido retirado de dentro dela – que essa opção de parto natural é uma escolha católica por parir entre sangue e dor e o quanto ela é absurdamente ideológica. Minha amiga é feminista. E inteligente. Parei para pensar. E percebi que não concordo com nada do que ela disse.

Primeiro, porque toda e qualquer opção em relação a todo e qualquer tema em nossas vidas é ideológica, quer dizer, tem em si alguma ideologia, quer saibamos ou não. Ser ideológica não é argumento para uma escolha, é a constatação de uma condição do pensar humano. A questão poderia ser, então, que ideologia está por detrás de uma escolha de parto ou de outra? O que estamos apoiando ou defendendo quando preferimos isso à aquilo?

Parir entre sangue e dor foi a condenação dada por Deus a Eva depois dela comer o fruto proibido e ser expulsa do paraíso. Mas por que isso seria uma condenação? Não sou uma expert em estudos religiosos, não li a Bíblia inteira e, assim, não tenho como falar do lugar de sabichona no que diz respeito a esse tema. O que, talvez, seja bem melhor, porque permite que eu apenas faça aqui as questões e reflexões que me provocam desde o comentário dessa amiga. Vamos a elas.

Do ponto de vista de uma pretensa defesa feminista do direito a não parir entre sangue e dor e, com isso, não sucumbir ao legado machista católico que impõe às mulheres sangue, dor e sofrimento, acho o comentário dela especialmente equivocado: afinal, a Bíblia foi escrita por quem? Por homens. Até Deus, o figura, é definido no masculino, herança e testemunho dos séculos e séculos de patriarcado que estabeleceram o homem no lugar da razão e a mulher como ser menor, incapaz, relegada às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos. A Bíblia apenas prolonga uma mentalidade que era aquela dos gregos antigos, herdada pelo império romano, do homem como cidadão, centro da pólis, senhor do pensamento. Então, minha pergunta, mesmo sabendo que o Antigo Testamento não foi estabelecido pelos seguidores de Jesus, mas bem antes: a que serve que um livro desses estabeleça a mulher como pecadora e a condene a parir entre sangue e dor?

Existiam homens e mulheres antes disso, não? Bom, talvez para os católicos não, homens e mulheres tenham surgido com Adão e Eva. Mas antes do surgimento da Bíblia como livro sagrado do catolicismo que diz que homens e mulheres surgiram de Adão e Eva e que dá a opção às pessoas de acreditarem nessa versão da história como mito das origens, já existiam homens e mulheres nesse mundo, não? Que não acreditavam ou não sabiam da tal verdade que é Adão e Eva. E que nem sabiam que o modo como viviam a depender de seu trabalho e a se reproduzir e parir entre sangue e dor era consequência do pecado original. Podemos achar que eles eram apenas ignorantes da verdade que os fazia serem como são. Ou podemos pensar que essa verdade é apenas uma versão das coisas que diz mais a respeito dela mesma e do por que ela foi construída desse modo do que acerca de como as coisas realmente são.

Como as mulheres antes da Bíblia pariam? Provavelmente, naquilo que é essencial, do mesmo jeito que nós fazemos hoje. Então, não foi a Bíblia que inventou o parto entre sangue e dor, ele já existia antes dela. Ela apenas inventou que ele seria consequência de uma condenação. Quer dizer, ela associou parto, sangue e dor à um castigo. Aí é que está o problema.

Por que será que interessa a alguém associar parto com dor a um castigo? Se formos pensar em um argumento radicalmente feminista, será que não seria o caso de considerar que interessa apenas aos homens – esses mesmos que instituíram o patriarcado nesse mundo – que um ato exclusivamente feminino, em que a mulher tem todo o poder sobre o seu corpo e sobre uma vida além da dela mesma, em que ela pode dar origem a um outro ser – coisa que apenas inventando um Deus homem os homens conseguiram remediar – enfim, que esse ato exclusivamente feminino seja considerado como um castigo e, assim, desapropriado? Desqualificado? Tornado impuro, menor, feio? Apenas uma idéia que me ocorreu. E que não me pareceu tão absurda se, seguindo por essa veia mais radical e paranóica formos pensar que, milhares e milhares de anos depois, a opção que se criou para as mulheres e seu procriar e seu parir de segunda categoria foi uma em que elas se desfazem totalmente de qualquer poder sobre o seu corpo, tornando-se objetos que, voltando às palavras da minha amiga, são botadas para dormir, têm seus corpos manipulados e decididos por outros, têm seus bebês extraídos delas e devolvidos a elas quando, como belas adormecidas, elas acordam de um sonho encantado com seus filhinhos no colo, sem nenhuma participação naquilo que trouxe ao mundo essa nova vida.

Então, tá. Ser objeto, um corpo objeto das decisões de outro a respeito da vida de seu filho é a alternativa feminista para o parto condenado entre sangue e dor? Não ser sujeito, não estar ali presente no momento em que a experiência acontece é fazer valer seu direito de ser mulher, ser independente, ser autonoma e não participar? Muito bem, o feminismo nos trouxe e nos trás conquistas incontestáveis e deve ser defendido enquanto houver nesse mundo uma pessoa que pense e aja de maneira violenta contra uma mulher pelo simples fato dela ser mulher. E defendeu o nosso direito sobre nossos corpos, sobre a concepção, sobre a alternativa de não ter filhos frente à obrigação de tê-los, sobre a opção de interromper uma gestação e tantas outras coisas mais. O feminismo defendeu até nosso direito de nos alienarmos em um conjunto de atos médicos para não participarmos do momento do parto de nossos filhos. E, ok, pode ser que para muitas mulheres isso seja uma opção. E defendo o direito que elas adquiriram de escolher isso.

Mas, apenas uma questão, essa escolha, tão ideológica quanto a minha por um parto natural, defende qual ideologia mesmo?

Em nome de nosso “direito” à não ter dor, não ter sangue, não ter sofrimento, parece que entramos em uma corrida para extirpar essas experiências de nossa condição humana. Como se fosse possível uma vida sem dor, sem sangue e sem sofrimento. E como se essas coisas fossem ruins, um castigo, um calvário pelo qual temos que passar para pagarmos os pecados de sabe-se-lá-quem-ou-o-quê. As pessoas parecem que têm mais medo da dor do que ela pode doer realmente. E em nome desse medo, jogam para fora da vida muitas experiências que são tudo, menos um castigo e uma condenação.

Poder parir um filho entre sangue, dor e muitas outras coisas que ainda não consigo imaginar me parece um privilégio, uma consequência coerente de uma escolha de alguém que decide que, em sua vida, cabe o projeto de dar vida a um outro alguém. Vida, em que também existe sangue e dor. E riso, e alegria, e um mundo todo de descobertas. Vida que não foge do dito ruim para tentar ficar apenas com o que pareceria bom, como se sentir fosse perigoso, como se sofrer fosse uma ameaça, como se as dores da vida não ensinassem e não formassem tanto quanto os seus prazeres.

Eu quero parir minha filha. Não quero que outros o façam por mim.