Fala com a barriga!

Aura Satz - Ventriloqua - 2003/4
Aura Satz – Ventriloqua – 2003/4

No começo achei estranho. Como se fosse um ser delirante daqueles com os quais vivo trombando pelas ruas ou metrôs dessa cidade, lembranças de um passado no qual convivia com eles, psicóloga recém-saída das fraldas da faculdade, em um serviço público de saúde mental que praticamente formou não apenas a psicanalista que sou, mas boa parte de minhas convicções sobre os seres humanos e suas subjetividades. Bons tempos aqueles em que conviver com loucos era a construção de uma possibilidade de existir… Mas, enfim, há loucos que, em meio a seu delírio, falam sozinhos, falam com as paredes, falam com o vento, com o ar, com o céu, com sabe-se-lá-o-que. E sabe-se-lá se obtém resposta.

Então, falar com a barriga? Com essa herança forjada pela minha história profissional? Tsc, tsc, não sei não…

Mas os livros, os sites, os blogs, os experts de ocasião todos aconselham: fala com o bebê! Mais uma daquelas imposições arbitrárias que supõem que todo mundo é mãe do mesmo jeito, ama do mesmo jeito e demonstra afeto do mesmo jeito. Que mãe desnaturada não vai querer falar com o seu pequeno?

Xiii, devo ser eu, porque mantive minha hesitação.

Mas, tenho que confessar que falo com as minhas gatas. Tudo bem, elas estão aí, fora de mim, eu posso vê-las, elas reagem com um miau ou com um simples olhar de profundo desdém pelo que quer que eu esteja dizendo. E olha que eu sempre tive medo de virar aquela lendária velha dos gatos: sozinha, meio louca, meio descabelada, falando com seus gatos como se fossem gente. Putz! Entre a velha dos gatos e falar com a barriga, até que a distância nem é tão grande, não?

Esse foi um bom argumento.

Mesmo sabendo que ali está uma outra pessoa, dentro de mim, que pode estar ouvindo o que digo, já disse em algum outro canto deste blog que sou uma mulher do tempo das imagens, um São Tomé contemporâneo, que precisa ver para crer e o que eu vejo é minha barriga, o bebê escondidinho ali dentro. Então, falar com o bebê é falar com a barriga. Quase um exercício de abstração para essa que vos fala e… putz! Eu falo com leitores no blog que nem sei quem são ou se existem, falo no twitter, no facebook… eu, como a maioria de nós, seres viventes nessa era virtual, falo sozinha! Socorro!!!

Frente à constatação de que, no nosso mundo atual, já falamos mais sozinhas, com as paredes, com as telas, com os celulares do que com gente de carne e osso ali na nossa frente, tive que capitular e tentar. E, há cerca de um mês, em uma noite de insônia durante a semana em que minha barriga decidiu que ia dar mostras de sua existência, fazendo com que eu perdesse em poucos dias todo o meu guarda-roupas, comecei a falar com ela. Comecei falando com a barriga e, quando dei por mim, estava falando com o bebê, contando a ele (ou ela) quem está aqui do lado de fora esperando por ele. Eu. Papai. Minha família. Sua família. Meus amigos queridos. As gatas… Se ele (ou ela) escuta ou não, o que escuta, o que entende do que escuta, eu não faço a menor idéia. Mas é uma bela maneira de tornar ainda mais real a existência desse serzinho que se guarda ali, nos mistérios de uma barriga de mamãe grávida.

Outras sobre o conversê com a barriga: aqui.

A enxurrada.

Eu contei a ele. Ou melhor, mostrei o teste de farmácia e ele ficou bem mais calmo do que eu. Também, já tem três filhos e eu, marinheira de primeira viagem, entre o riso, o choro e a negação pura e simples. Isso é bom, isso é maravilhoso, isso é péssimo, isso é um pesadelo… E agora, o que faço das minhas viagens, trabalho, pesquisa, roupa de mergulho, balada com os amigos? O que faço dos projetos que eu tinha, ou do conforto acomodado de acreditar que eu sabia quais projetos tinha, o que iria fazer em seguida, onde estaria amanhã ou depois… o que fazer de todas essas certezas?

“Você está gestando. Está em estado de graça. É uma coisa maravilhosa.” Isso era a última coisa que eu precisava ouvir, esse chamado para o enquadramento, essa exigência da felicidade absoluta, esse fim de todas as questões. Porque antes de ficar feliz, alegre, eufórica com a notícia – ou ao mesmo tempo em que ficava feliz – eu precisava de espaço, de tempo e de autorização para ficar outras coisas também: tensa, indiferente, descrente, triste, irritada, preocupada, apavorada… Uma enxurrada de coisas, uma retrospectiva de toda a minha vida, de tantas vezes que desejei isso, de toda a minha história com ter filhos, dos tempos em que quis, não quis, quis de novo, não quis mais, tentei, desisti… E agora, justo agora?

Pois é, agora mesmo. Lembro de uma mulher que passou anos fazendo tratamento para engravidar. Anos. Ela tinha mais de 40 quando a conheci. E tentava. A vida girava em torno disso, era muito importante. Ela sofria horrores. Uma dor de alma a cada dia. E haviam dito para ela que na hora em que você relaxa, esquece, deixa para lá, a cosia acontece. E todos aqueles exemplos de mulher que não conseguia engravidar, adotou e ficou grávida no minuto seguinte. Ou daquela que separou e engravidou de uma aventura no minuto seguinte. No minuto seguinte à desistência, acaba acontecendo. Essa mulher tentava se convencer de que desistiu. Tentava desistir sem ter desistido, assim como quem tenta enganar a morte, como aquele sujeito do Sétimo Selo do Bergman… jogando xadrez, jogando xadrez, negociando. Ela tentou e tentou negociar, tentou fazer de conta, dar um truque. Não deu. O Bergman era genial, ele sabia que nunca dá, a gente nunca consegue contornar o que deseja para fazer de conta que não deseja para a vida passar distraída e nos dar o que queremos…

Levou uns bons dias para a “ficha cair”… ou melhor, umas boas provas de realidade. Don’t blame me. Vivemos em um mundo em que a imagem se substituiu a quase tudo e em que praticamente tudo pode ser e não ser ao mesmo tempo. O que garante a realidade de algo hoje em dia? Um teste de farmácia? Um exame de sangue? Enjôo? Cansaço? Eu precisei chegar até o primeiro ultrassom, oscilando entre saber e não saber, balançando entre lembrar e esquecer, entre pensar a vida como se nada fosse e pensar em como mudar a vida, entre querer, decidir querer e reclamar que não era bem assim que eu imaginava… Primeira consulta médica, primeiro ultrassom: está ali, existe. Pronto, para mim teve efeito de realidade. Estou grávida.

O Sétimo Selo - Ingmar Bergman
O Sétimo Selo – Ingmar Bergman