Dia das mães…

Pablo PIcasso - Motherhood - 1901
Pablo Picasso – Motherhood – 1901

(en français: ici)

Não, eu não gosto de datas comemorativas. Acho bobagem. E se a questão é ganhar presente, já ganhei o meu deste ano e ele vale por Natal, aniversário, dia das mães e muito mais. Um colosso. Muito melhor do que esse comércio de datas que te obriga a declarar seu amor em um dia específico, de uma maneira bem estereotipada e que, de preferência, envolva eletrodomésticos ou outros apetrechos para casa e cozinha, que é o que o mundo clichê pensa que traduz a maternidade. Sei, experimenta me dar uma batedeira de presente para você ver….

O negócio é que mãe dona-de-casa, mãe moderna (que é como se adjetiva a mãe que trabalha… Oi?), mãe esportiva, mãe isso, mãe aquilo… Tudo caminha para a conclusão de que a mulher se realiza em ser mãe. E apenas se passar por isso. Afinal, não vemos muita comemoração pelo dia da mulher que trabalha, ou pelo dia da mulher que se exercita, ou pelo dia da mulher intelectual, ou pelo dia da mulher artista… Até mesmo o dia da mulher é um só no ano. Porque sabemos bem que todos os outros, para a imensa maioria de nós, ficam bem distantes desse artifício cor-de-rosa das datas comemorativas.

Enfim… Não só temos um só dia de comemoração como, com essa equivalência entre mulher e mãe, só podemos celebrar de um jeito. Temos apenas um caminho a seguir. Uma mulher sem filhos seria uma mulher incompleta. Infeliz. Amarga. Sozinha. Sem graça. Mas o que isso quer dizer quando virado do avesso? Que um filho completa uma mulher. Judiação, já está fadado, antes mesmo de nascer, a dar conta de tudo aquilo que falta naquela pessoa tão simpática, doce e amorosa ali na sua frente. Mal começou e já está em dívida. E quando ela te dá tudo sem pedir nada em troca é porque você já está suficientemente amarrado para se sentir culpado pelo resto da sua existência caso não seja o filho perfeito, amoroso e pleno de gratidão que ela deseja. Afinal, é o mínimo que você pode fazer, né? Imagina se você se rebelar, se não gostar de viver colado, de ser extensão do outro, se quiser inpendência? Putz!

Acho que dá para entender que uma coisa leva à outra, que essa voracidade e essa violência que as mães muitas vezes têm em relação a seus filhos, que esse excesso de expectativa, que toda essa demanda, essa pressão desmesurada e sem crítica podem ser fruto de um ódio, um ressentimento, frutos dessa violência que elas mesmas sofreram ao se sentirem obrigadas a seguir a manada e tornarem-se mães. É como uma vingança que desconta no outro aquilo que ela mesma sofreu. Foi oprimida, oprime. Foi obrigada, obriga. Foi cobrada, cobra. E, com isso, participa da propagação e da perpetuação desse modo a-crítico de viver, em que todo mundo é vítima das circunstâncias e das obrigações sociais e ninguém se responsabiliza por nada. Não seria melhor perguntar o que quer e tomar as rédeas da própria vida naquilo em que é possível?

Por que não se perguntar se quer ser mãe? Por que não se perguntar o que quer com isso? Por que não se indagar sobre o seu desejo e assumi-lo? Por que não ser responsável por sua escolha, ainda mais quando ela vai trazer consequências para outra pessoa além de você?

Leio muito, atualmente, sobre a humanização do parto. Discussão extremamente importante, ainda mais em um país onde ser mãe ficou totalmente aprisionado em um ato médico e em um conjunto de ações técnicas que tiram da mulher o papel ativo em relação à gravidez, ao parto e até à experiência da maternidade, visto que tudo isso fica nas mãos de um outro que decide em seu lugar. A mulher tornada objeto, sem poder de decisão. E, para colocar em questão isso e para tentar retomar o papel de sujeito dessa mulher face à sua gravidez e seu parto, muitas vozes se levantam, na internet e fora dela. Ainda bem. (Algumas excelentes discussões aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, entre outros)

Mas queria pensar que, junto com essa discussão da humanização da gravidez e do parto, poderia ser retomada uma outra, a de uma maternidade humanizada, que possibilitasse à mulher ser também sujeito de sua escolha em ser ou não mãe. Sem clichês, sem obrigações, sem opressão ou violência em relação ao que cada uma queira inventar como caminho da vida. Ser mãe como mais uma possibilidade entre outras, um mundo inteiro aberto e digno de respeito. Para que ser mãe possa ser escolha e não falta de projeto de vida. Para que a mulher já seja sujeito antes mesmo de engravidar e parir. E para que os filhos não sofram as cobranças de sua falta de opção.

Feliz dia das mães para aquelas que desejaram ser mães. Feliz dia para aquelas que desejaram outras coisas. O meu mais profundo respeito e a minha sincera admiração por todas vocês.

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984
George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães
D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

Você vai perder…

(version française ici.)

… noites de sono, seu sossego, sua liberdade, as baladas com os amigos, as viagens, os
momentos de intimidade apaixonada quando dá na telha… Você vai perder. Muito. Engravidou, vai ter um bebê e vai perder. Já começa perdendo. É o que dizem os abutres de plantão, por vezes disfarçados de parentes, amigos, conhecidos ou desconhecidos de boa vontade, sempre com um sorriso nos lábios, te felicitando pela sua gravidez. A sua vida vai mudar totalmente.

Sempre fico na dúvida nessas horas. Será uma total falta de bom senso que impulsiona esse tipo de comentário ou apenas um gostinho de vingança mal disfarçado de que aquela pessoa ali, aquela barriguda agora vai saber o que é a tal “vida de verdade” onde pessoas perdem. Bem vinda ao clube, amiga! Subentendendo-se: mais uma para partilhar da frustração que é essa vida. Como dizem por aí: “chuta que é macumba!”

Sai para lá com seu fel disfarçado de simpatia e de experiência. Que eu não preciso disso. No momento, o que preciso é cuidar da minha vida, da nossa vida e de garantir todo o bem estar e todo o conforto para a pequenina que está aqui na barriga. Logo mais, vou precisar de outras coisas. E deixo para logo mais o que é de logo mais. Nada disso te diz respeito. E nada disso cabe na sua máxima de “você vai perder”. Uma gravidez não necessariamente se encaixa na sua lógica de perdas e ganhos, sabia?

É curioso: porque será que quando alguém engravida tanta gente assim se regozija em anunciar tudo o que você vai perder com a maternidade? Por que essas pessoas não falam do que você vai ganhar? Será que é mesmo para te preparar para o quanto é difícil? Mas o quanto é difícil?

Eu fico mesmo é com o meu querido Freud – aquele, o tal do Sigmund – que, há pelo menos cem anos, indignou as pessoas e suas mentalidades com a constatação de que boa parte de nosso sofrimento tem justamente a ver com a dificuldade que temos em perder alguma coisa. Nós, os neuróticos comuns e banais, passamos a vida tentando fazer a contabilidade da existência da maneira mais mesquinha possível. Perder o mínimo. Perder nada. Perder parece um horror. Então, cada escolha da vida que envolva uma perda gera um sofrimento quase pânico e coloca a pessoa para trabalhar, para adoecer, para tentar achar uma saída que a impeça de perder. Só que perder nada é perder tudo.

Tem gente que fica colado no que está perdendo. O tempo todo de olho naquele centavo que se esvai. Como se escolher não fosse sinônimo de renunciar, de perder algo para ganhar outro algo. Que escolha não envolve perda? Que escolha não implica abrir mão? Que escolha não é aposta na possibilidade de “x” apesar de “y”?

E tem gente que fica em situação mais aprisionada ainda, acha que descobriu a pólvora e que, se não escolher nada, não perde nada. E daí vai, obssessivamente vida afora, nessa espécie de paralisa das escolhas, acreditando que sem se comprometer está evitando qualquer renúncia. E sem se dar conta de que, não tendo escolhido, perdeu para todos os lados. E que ficou sem nada. Tempos estranhos em que a imobilidade parece uma boa opção para não optar. Tempos estranhos em que o “jeitinho” parece uma estratégia eficaz para ter tudo.

Provavelmente, quando essa pessoa inconveniente curiosa se aproxima de uma grávida dizendo tudo o que você vai perder, não se trata nem de falta de noção, nem de má fé. É apenas ela dizendo o quanto é um mal perdedor. É apenas um jeito pobre de olhar para a vida, priorizando o que se perde no lugar do que se ganha, priorizando o que não se tem no lugar daquilo que se constrói. Pobreza de espírito que não permite à pessoa perceber nem o que ganhou com suas escolhas, quanto mais que possa ver nas escolhas dos outros alguma positividade. A maior parte das pessoas, infelizmente, prefere ficar colada naquilo que lhes falta.

Não estou pregando um olhar cor-de-rosa, onde a gravidez e a maternidade sejam apenas uma propaganda de doriana que se estende por toda a sua vida. Muito menos estou dizendo que não se deve falar sobre o que é difícil, penoso, sofrido nessas experiências. Não, é justamente o contrário. Estou dizendo que levar em conta uma escolha que se faz pela maternidade com TUDO aquilo que ela implica já inclui o “bom” e o “ruim”, o que se “ganha” e o que se “perde”. Ninguém precisa nos prevenir daquilo que já sabemos (quando já sabemos, é claro): que a maternidade, como tudo o que é da vida, traz perdas e ganhos. Pois é uma escolha e, como escolha, seu limite está dado no próprio ato de escolher. E, ainda assim, isso é tão relativo…

Quem sabe o que é bom ou ruim para uma outra pessoa? Quem sabe o que é um ganho ou uma perda para alguém? Posso achar que é uma renúncia terrível não poder mais sair à noite para a balada com os amigos, mas e se a barriguda ali detesta balada? Então, essa história do você vai perder já começa furada pelos valores e pelos preconceitos de cada um, os quais aquele que fala esquece que podem não ser os valores do outro. Falta de respeito pensar que o que eu acho que você vai perder é o que você vai perder realmente e que, ainda por cima, isso é uma tremenda catástrofe para você, do mesmo jeito que foi para mim. As pessoas gostam de falar como se pregassem, como se o mundo fosse apenas o reflexo do que elas são e como se elas soubessem o que você perde e o que você ganha quando decide ter filhos.

E, ainda, parecem desconsiderar que quem fez essa opção, de um jeito ou de outro, na medida em que foi capaz de escolher, já conta com renúncias. Mas também já escolheu passar por alguma coisa, viver algo que julga importante. A menos que tenha optado pela maternidade pensando que vai dar para não perder nada, e que acredite naquele ideal de mulher moderna que é simplesmente tudo e tudo muito bem. Mas, daí, já é outra história. Ou o reverso da medalha dessa mesma história de quem adora falar do que você vai perder quando te descobre grávida. Um sujeito colado na perda que não consegue se conformar em perder nada e uma outra colada na ilusão de plenitude de que vai dar para engravidar, ter filhos e não renunciar a nada. No fundo é a mesma coisa, tanto para um quanto para outro: um assombro, um medo pânico de perder que ou te deixa fixado nisso, contando os centavos de existência e lamentando ter que pagar por ela, ou te coloca em estado de negação, achando que vai dar para escapar, que você será a exceção à regra.

Você perde, eu só ganho… Será mesmo que ter filhos se inscreve nesse binômio empobrecido de ver e de viver a vida? Qual será o sentido de botar alguém nesse mundo já de cara com o peso de que ele te tirou alguma coisa, de que ele te obrigou a renunciar, de que você se sacrificou por ele? Ou de que ele te fez completa, plena, capaz de tudo, de que ele te deu ou tem que te dar tudo? Em nome das tuas perdas, ele vai ter que te compensar? Ele vai ter que te dar o que você perdeu e fazer valer suas renúncias? Não sei não, acho que nessa lógica contábil de olhar para a maternidade apenas pelo viés das perdas e ganhos, não apenas você sai esmagada pelos abutres de plantão que te fazem acreditar que você perde muito e que perder é muito ruim como o seu filho, que nem pode se defender, sai perdendo desde antes de sair da barriga, em dívida contigo pelo simples fato de existir, tendo que te compensar de uma coisa muito ruim que foi você ter abdicado de algo… Putz, que cilada! Será mesmo que a gente quer viver nessa lógica? Eu não, obrigada.

Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França
Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França

Esse estranho sentimento.

(version française ici)

Não acredito muito nessa história de instinto materno. E ainda menos no tal do amor materno. Ser mãe – como ser pai – são construções sociais, determinadas por nossa cultura, nossa história, a época em que vivemos, aqueles que nos cercam. Ser mãe ou pai certamente não tem o mesmo significado hoje que tinha no século XVIII. Mas tomamos como uma evidência à qual tentamos nos adequar, do mesmo modo como tentamos nos adaptar a tudo aquilo que parece ser “como deve ser”.

Tem uma autora muito perspicaz que escreve frequentemente a respeito do mito do amor materno, a historiadora Elisabeth Badinter. Ela trabalha para desconstruir a idéia de que o amor materno seria instintivo, inato e natural, mostrando todas as circunstâncias que contribuem para sua existência. Vale a leitura.

Mas, voltando a esse estranho sentimento, sempre achei uma grande violência exigir que as mulheres:

  1. queiram ter filhos;
  2. sintam-se felizes e realizadas ao tê-los;
  3. os amem incondicionalmente.

Porque nada disso, ao contrário do que nos querem fazer acreditar, é natural ou evidente.  Podemos querer ter filhos ou não, podemos nos realizar com a experiência da maternidade ou não, podemos amar nossos filhos ou não. E ninguém deveria ser julgado ou culpabilizado quando não segue a conduta da massa nesse assunto. Mas a maior parte das pessoas prefere apontar o dedo e criticar quem não se adapta ao padrão, né? Como se houvesse apenas um modo de viver, de sentir e apenas um desejo legítimo de se realizar nessa vida. Que pobreza de espírito… Sigamos.

Lembro do período em que fazia meu mestrado e uma de minhas colegas escrevia, justamente, a respeito da adoção. Ela defendia a idéia de que, em caso de adoção, havia uma relação entre mãe e bebê que tinha que ser construída, um afeto que tinha que ser criado, pois eles não estavam desde sempre lá, presentes e nem garantidos, visto que o bebê não era filho daquela mãe. Era uma tese interessante, mas que caía justamente nessa suposição, que acabei de apresentar, de que um bebê e sua mãe “de sangue” não teriam nenhum trabalho a fazer, tudo estaria ali pronto e dado para eles: o laço, a ligação, o sentimento, o amor, a relação, a intimidade. Como se uma mãe “de sangue” não tivesse, ela mesma, que tornar-se mãe.

Não me parece que seja assim.

Mulheres grávidas têm as mais diversas reações a esse fato. E o mesmo acontece depois que o bebê nasce. Tem gente que esquece que está grávida, que não sente nada, nenhuma ligação com o bebê na barriga. Tem gente que não sente um laço depois que ele nasce. Tem gente que antes mesmo de engravidar já está criando uma história entre si e aquele potencial filho… Tantas possibilidades quanto existem pessoas nesse mundo. Nenhuma é melhor do que a outra.

Existe um filme magnífico do cineasta argentino Pablo Trapero chamado Leonera que fala exatamente disso, do momento em que uma mulher vira mãe. Nesse caso, uma mulher que é presa suspeita de ter assassinado o marido e que se descobre grávida na prisão, não tendo nenhum interesse nessa gravidez e nem na criança que nasce até que…

Pois é, parece que, às vezes, acontece um até que. Um momento, uma situação que faz sentido e cria a possibilidade de que uma mulher vire mãe. Em algum momento. Vemos como isso acontece no filme, já vi isso acontecer com mulheres da minha família e com pacientes em consultório. Já vi isso não acontecer também. E, por isso, por não ser uma obviedade, ficava curiosa em saber se isso aconteceria para mim. E quando aconteceria.

Que os ultrasons ajudaram a tornar real a experiência da gravidez, já contei aqui. Que falar com o bebê na barriga ajudou a inventar um diálogo com uma outra pessoa que, nesse momento, partilha intimamente do meu dia-a-dia, isso também contribuiu. Como uma construção que vai se fazendo tijolo por tijolo, um dia após o outro, as imagens, as conversas… Até saber que é uma menina e tornar tudo ainda mais real, um bebê que é uma menina, que tem um nome, que tem uma carinha que começo a ficar curiosa por conhecer… E passar a chamar de filha, um momento tão forte em que me dei conta de que, para mim, ela não apenas existe como tem um nome e um lugar… Tudo isso antes mesmo de nascer, quem diria. Quem diria que comigo seria assim?

Não sei se tive um momento único, um até que. Ou se esse caldo de momentos é que foram semeando em mim o meu até que. Sei que, noutro dia, acordei, olhei para minha barriga, dei bom dia para minha filha e sorri à toa, sentindo um amor muito profundo por uma pessoa que ainda mal conheço. Que não seja natural ou evidente apenas torna isso tudo ainda mais extraordinário.

Leonera - Pablo Trapero
Leonera – Pablo Trapero

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil…

… ou pequeno manual de sobrevivência para quem, como eu, está vivendo essa experiência na França.
          Porque aqui é o país da burocracia, da papelada, da lentidão e dos pequenos detalhes. E, também, um país em que a gravidez e o parto são muito bem cuidados. Bem mais do que no Brasil, para aquilo que é essencial.
          Assim, eis o que tenho descoberto sobre o caminho das pedras quando se decide ter um bebê por essas bandas.
          Primeira coisa, extremamente importante, para evitar todo e qualquer mal entendido: ter um filho na França NÃO te dá o direito à cidadania francesa, nem à você, nem ao pai da criança. A menos que um de vocês seja francês, ou seja naturalizado, ou tenha a cidadania francesa, isso não muda em nada sua condição de estrangeiro em território francês e você continuará sendo um estrangeiro legal ou ilegal, sujeito a todos os trâmites que os estrangeiros devem seguir por aqui. Ou seja, ter filhos na França não é saída para resolver problemas de imigração, ok? Seu filho também NÃO será francês, a menos que ele continue vivendo na França e que, aos 18 anos, faça um pedido de reconhecimento de sua nacionalidade francesa. Que leva tempo e dá trabalho e que NÃO será estendida aos pais. É fundamental esclarecer isso antes de qualquer coisa, pois se gravidez e parto são extremamente bem cuidados por aqui, quer você seja francês ou estrangeiro, em qualquer situação que você esteja, isso vale apenas para gravidez, parto e maternidade, não para questões de cidadania. Então, sigamos em frente.
          Do ponto de vista da assistência, você pode ficar mais do que sossegada. Uma mulher grávida, na França, tem direitos que são verdadeiramente garantidos. O primeiro é de ser atendida integralmente e acompanhada durante toda a gravidez, com tudo pago pela seguridade social. Para isso, não importa se ela é francesa, estrangeira, imigrante ilegal. O que quero dizer é que, do ponto de vista francês, você está aqui, está grávida e você e seu bebê têm direito à toda a assistência. É um país civilizado. Não pense, contudo, que isso vai te garantir uma cidadania francesa e que essa seria uma boa maneira de obtê-la, pois não é assim que funciona. Mas, no que diz respeito à gravidez e ao parto, você estará em boas mãos. Desde que você esteja grávida, eles cuidam de você. Mas, isso envolve uma certa burocracia que você tem que seguir, caso queira usufruir dos privilégios de um estado de bem estar social que (ainda) funciona.
          Se você está na França legalmente, deve ter algum tipo de seguro saúde, que costuma ser exigido de quem vem passar um período no país, a trabalho ou por seus estudos. É o que se chama “mutuelle” aqui, que é a assistência complementar de saúde. Pois, além dela, aqui você tem uma cobertura da seguridade social, que é a cobertura financiada pelo Estado e que demanda uma inscrição e um número que você não necessariamente terá, como estrangeira, pois isso depende do tipo de visto com o qual entrou no país, se é algo que te permite trabalhar ou apenas estudar… e por aí vai. Normalmente, se você tem direito a trabalhar, e para que você possa fazê-lo, você já deve ter passado pela burocracia de inscrição na “sécu”. Se não, é por aí que vai ter que começar.
          Para isso, o melhor é se informar no setor de alunos ou de acolhimento aos alunos estrangeiros da sua universidade ou, uma outra opção, na Caixa de Assistência à Família, a CAF. Lá é o lugar em que eles cuidam de todos os direitos que você têm enquanto grávida. Eu sugiro que você vá a uma das unidades que existem na cidade em que está, porque conversar pessoalmente é mais fácil do que por telefone. Você pode explicar sua situação: diga como chegou aqui, por que motivo, que descobriu que está grávida, explique em que ponto está com as burocracias, se tem seguridade social, mutuelle, etc. Eles vão te orientar quanto a tudo que você tem que fazer, como e onde. E é para esse setor que você enviará, depois de passar por uma consulta no ginecologista ou na maternidade, o que eles chamam de “déclaration de grossesse“, um documento que dá início aos procedimentos que garantem essa cobertura integral da gravidez e do parto pela seguridade, bem como aos benefícios a que você terá direito ao longo da gravidez, do parto e em seguida. São eles, também, que vão depositar para você um auxílio, em dinheiro, no final da gravidez, além de um auxílio mensal depois do bebê ter nascido, que será de um valor maior, se você estiver sozinha.
          Se o pai do bebê for francês ou alguém da comunidade européia, ou alguém de fora da Europa, mas que está aqui legalmente e que já possui um número de seguridade social e de mutuelle, ele pode te ajudar com isso tudo. Sendo casados ou não, ele pode te registrar como dependente para que você tenha essas inscrições e dê conta, mais rapidamente, dessa burocracia inicial.
          Se no começo da gravidez você ainda não tiver o número da seguridade social, vai ser a mutuelle que vai pagar seus examens e consultas. À partir do quinto mês, a seguridade cobre tudo, até o parto e pós parto. Mas, para isso, você terá que enviar a “déclaration de grossesse” fornecida pelo seu médico ou pela maternidade, que vem em duas vias, uma para a CAF e outra para a seguridade. É com esse documento que eles tomam conhecimento que você existe e que está grávida e se encarregam de suas garantias.
          Mas tudo isso é burocracia e burocracia aqui é complicada e lenta. Então, você vai ter que ter paciência e persistência.
          Outra coisa importante é que, mesmo ainda não tendo o seu número da seguridade social, você já vai poder começar o acompanhamento. Funciona assim: a rede pública e a rede privada trabalham do mesmo modo, não tem luxo e frescura como no Brasil e cesariana é intervenção de urgência, ok? Então, parir aqui significa que você vai ter um parto normal. Nada de marcar cesariana com antecedência, nada de escolher a data, nada de maternidade hotel de luxo, nada de buffett ou festinha na maternidade com os amigos para comemorar o nascimento. Enfim, o essencial. Que é o cuidado com a gestante, com o bebê, com que a gravidez, o parto e o pós-parto se passem bem para ambos. Ainda, o parto será feito pelas enfermeiras obstétricas e não pelo médico, a não ser em caso de complicações, o que é muito melhor, na minha opinião, porque sinaliza uma prioridade dada a um parto menos medicalizado. Mas é bem diferente do que estamos acostumadas. E, ainda, no seu acompanhamento da gravidez, você terá contato com a equipe do local onde vai parir, mas não necessariamente com a pessoa que vai estar contigo na hora do parto, mesmo que você esteja sendo acompanhada por um ginecologista e não por uma enfermeira obstétrica – a “sage-femme” – porque o parto acontece a qualquer hora e será atendido pela equipe de plantão. O médico não estará lá na grande maioria dos casos, e nem a “sage-femme” que te recebeu ao longo das consultas. É menos personalizado e é preciso se acostumar com essa não criação de laços ou de intimidade, o que é tão comum e reconfortante no nosso jeito brasileiro de cuidar da maternidade e do parto. E, certamente, uma das coisas que mais faz falta por aqui, a meu ver.
          Bom, aqui será bem diferente daí, não dá para esperar a mesma coisa. Mas, isso posto, posso dizer que para tudo o que é realmente importante, tenho achado realmente bem melhor do que no Brasil.
          Para começar seu acompanhamento, você vai a um ginecologista aqui. Ou diretamente à maternidade, se já tiver escolhido uma. Ou a um médico que atenda na maternidade em que você pretende dar à luz, se já tiver uma preferência por algum local. Normalmente, nas maternidades eles fornecem uma lista de ginecologistas com os quais trabalham para que você escolha um e marque uma primeira consulta. Isso quando são os médicos que fazem o acompanhamento. Se forem as enfermeiras, eles te indicarão uma que possa te acompanhar.
           Em tempo: uma enfermeira obstétrica, a “sage-femme”, é alguém que tem uma formação médica, que pode perfeitamente te examinar, prescrever medicamentos ou exames, te dar orientações e indicações, enfim, pode fazer todo o acompanhamento de uma gravidez como um médico faria. É algo que não existe no Brasil, mas que aqui é totalmente comum.
          Médico ou “sage-femme”, ele faz para você os primeiras exames, pede os primeiros exames, te dá as primeiras orientações e uma declaração de gravidez, que é o papel que você vai levar na CAF e na sua mutuelle, para eles cobrirem suas despesas. No caso desse primeiro contato ser através da escolha de um médico, não de uma maternidade, ele vai te dizer, também, para você procurar uma desde o começo, especialmente se estiver em Paris, para dar seguimento ao acompanhamento. Porque é na maternidade que o seguimento da gravidez acontece, para a grande maioria das consultas, dos exames e, ainda, dos workshops de informação sobre gravidez, parto e outras atividades que eles costumam propor. E, ainda, porque encontrar vaga em uma maternidade, ao menos em Paris, não é muito fácil. Há que se fazer uma lista de opções segundo os critérios do que julgar importante, ligar, ir até lá, fazer uma inscrição e esperar que eles te digam se há vagas ou não. Enquanto você não estiver inscrita, seu ginéco vai continuar com as consultas e pedindo os exames. Você vai pagar e a mutuelle vai te reembolsar depois.
          Escolhendo sua maternidade, por critério de proximidade com onde você vai morar, para não ter que atravessar a cidade na hora do parto… ou por critérios do tipo de serviço que oferecem, se são mais abertos a um parto natural ou mais medicalizadores, se são maternidades que acompanham apenas uma gravidez sem risco ou maternidades ligadas a grandes hospitais para gravidez de risco, você deve ir lá fazer sua inscrição. Depois de inscrita, vão te enviar à tesouraria da maternidade, onde você deverá apresentar seus números da seguridade e da mutuelle. Não se preocupe se ainda não tiver o número da seguridade. Eles não vão deixar de te atender por isso, vão apenas te dizer que traga assim que receber. Isso é importante, eles NUNCA vão te negar assistência, não podem, é lei aqui. Esse é também um bom momento para, caso você esteja tendo dificuldades com obter esse número, dizer a eles na maternidade. Eles podem te encaminhar ao serviço social, que vai te orientar e ajudar a fazer os pedidos e enviar a papelada.
          Por fim, depois de inscrita, seu acompanhamento passa a ser todo na maternidade. As consultas com a “sage-femme”, boa parte dos exames, fora o ultrasom. Eles também vão te propor um curso para grávidas – a “préparation à la naissance” – com várias informações, orientações e afins, tanto no que diz respeito à gravidez quanto ao parto, à amamentação, ao pós-parto… Existem lugares que oferecem curso com nutricionista, yoga e outras coisas. Tudo é bem bom, bem sério e te ajuda não apenas a tirar muitas dúvidas como, também, a ter momentos de troca com a equipe do serviço em que é atendida e com outras grávidas, o que é sempre divertido, ainda mais quando se é uma expatriada.
          Bom, tudo isso é, espero, tão reconfortante para vocês quanto tem sido para mim. A parte ruim é a burocracia e, além disso, o fato de que ninguém vai ficar te mimando por estar grávida. Aqui, as pessoas vêem a gravidez como algo normal, não fazem um circo em torno disso. Além disso, o francês é um povo bem reservado e mais frio do que a gente, o que significa que, na maternidade, nas consultas, nos exames, em todas essas situações do seu cotidiano de grávida, ninguém vai ficar te paparicando, nem sendo fofo contigo. Eles serão corretos, profissionais, gentis, educados, mas não calorosos. Está bom para você?
          Continuação desta discussão: aqui e aqui.

Bom texto sobre a episiotomia…

aqui. Porque não faz muito sentido acreditar que todo e qualquer procedimento médico durante o parto é simplesmente normal apenas porque ele foi instituído como algo comum e imprescindível nessa situação, né? Melhor pensar no que deseja e no que se dispõe a fazer ao longo de sua gravidez e parto antes que outras cabecinhas decidam por você e por seu bebê. Porque essa naturalização de gravidez e parto como atos médicos, questões médicas, mais ligadas ao risco e à patologia são uma deturpação recente de algo que sempre foi natural e fez parte da vida. E se todo esse “cuidado” traz, em alguns casos, um real benefício para mães e bebês, na grande maioria é apenas excesso aplicado a um acontecimento que poderia muito bem se passar sem ele.

Fala com a barriga!

Aura Satz - Ventriloqua - 2003/4
Aura Satz – Ventriloqua – 2003/4

No começo achei estranho. Como se fosse um ser delirante daqueles com os quais vivo trombando pelas ruas ou metrôs dessa cidade, lembranças de um passado no qual convivia com eles, psicóloga recém-saída das fraldas da faculdade, em um serviço público de saúde mental que praticamente formou não apenas a psicanalista que sou, mas boa parte de minhas convicções sobre os seres humanos e suas subjetividades. Bons tempos aqueles em que conviver com loucos era a construção de uma possibilidade de existir… Mas, enfim, há loucos que, em meio a seu delírio, falam sozinhos, falam com as paredes, falam com o vento, com o ar, com o céu, com sabe-se-lá-o-que. E sabe-se-lá se obtém resposta.

Então, falar com a barriga? Com essa herança forjada pela minha história profissional? Tsc, tsc, não sei não…

Mas os livros, os sites, os blogs, os experts de ocasião todos aconselham: fala com o bebê! Mais uma daquelas imposições arbitrárias que supõem que todo mundo é mãe do mesmo jeito, ama do mesmo jeito e demonstra afeto do mesmo jeito. Que mãe desnaturada não vai querer falar com o seu pequeno?

Xiii, devo ser eu, porque mantive minha hesitação.

Mas, tenho que confessar que falo com as minhas gatas. Tudo bem, elas estão aí, fora de mim, eu posso vê-las, elas reagem com um miau ou com um simples olhar de profundo desdém pelo que quer que eu esteja dizendo. E olha que eu sempre tive medo de virar aquela lendária velha dos gatos: sozinha, meio louca, meio descabelada, falando com seus gatos como se fossem gente. Putz! Entre a velha dos gatos e falar com a barriga, até que a distância nem é tão grande, não?

Esse foi um bom argumento.

Mesmo sabendo que ali está uma outra pessoa, dentro de mim, que pode estar ouvindo o que digo, já disse em algum outro canto deste blog que sou uma mulher do tempo das imagens, um São Tomé contemporâneo, que precisa ver para crer e o que eu vejo é minha barriga, o bebê escondidinho ali dentro. Então, falar com o bebê é falar com a barriga. Quase um exercício de abstração para essa que vos fala e… putz! Eu falo com leitores no blog que nem sei quem são ou se existem, falo no twitter, no facebook… eu, como a maioria de nós, seres viventes nessa era virtual, falo sozinha! Socorro!!!

Frente à constatação de que, no nosso mundo atual, já falamos mais sozinhas, com as paredes, com as telas, com os celulares do que com gente de carne e osso ali na nossa frente, tive que capitular e tentar. E, há cerca de um mês, em uma noite de insônia durante a semana em que minha barriga decidiu que ia dar mostras de sua existência, fazendo com que eu perdesse em poucos dias todo o meu guarda-roupas, comecei a falar com ela. Comecei falando com a barriga e, quando dei por mim, estava falando com o bebê, contando a ele (ou ela) quem está aqui do lado de fora esperando por ele. Eu. Papai. Minha família. Sua família. Meus amigos queridos. As gatas… Se ele (ou ela) escuta ou não, o que escuta, o que entende do que escuta, eu não faço a menor idéia. Mas é uma bela maneira de tornar ainda mais real a existência desse serzinho que se guarda ali, nos mistérios de uma barriga de mamãe grávida.

Outras sobre o conversê com a barriga: aqui.

Um mundo de imagens

(version française: ici)

Não há dúvidas de que vivemos em um tempo de imagens, bombardeados por todos os lados por um excesso delas. O que aparece como imagem ganha ares de verdade, tanto a imprensa quanto a publicidade sabem bem disso. Ao longo de uma gravidez, não poderia ser diferente.

Não consigo imaginar como faziam as nossas avós. Ou até mesmo as nossas mães, antes da invasão desse mundo de imagens também para o que diz respeito à maternidade. Elas descobriam que estavam grávidas – sem teste de farmácia ou de sangue, vejam bem  – e a coisa toda devia acontecer ali, dentro delas, de um jeito bem enigmático. Os sinais deveriam se limitar apenas àqueles que o corpo dá: os enjôos, o cansaço, o ganho de peso, a barriga que aparece e muda de forma. Isso até o bebê começar a se mexer e esses movimentos sinalizarem da forma mais contundente que ali tem alguém. “Alive and kicking”. Até mesmo para saber o sexo do bebê era necessário confiar nesses indícios sinuosos, opacos, corporais, intuitivos… Barriga pontuda, barriga redonda e por aí vai.

Hoje em dia isso tudo virou praticamente lenda. Toda essa opacidade, todo esse mistério de uma gestação que envia seus sinais deu lugar à clareza, à contundência das imagens, dos exames, dos resultados. Como se tivéssemos jogado um feixe de luz intenso sobre os segredos de um corpo em gestação para, no lugar das dúvidas e das suposições, instalar certezas. Menino ou menina? Saiba antes, facilita na compra do enxoval e na escolha do nome. Claro que não serve apenas para isso, para o comércio, para o mercado, para ajudar no consumo. No entanto…

Um mundo de imagens nos invade ao longo da gravidez. Testes, exames, resultados, ultrasons. Tudo em nome de verificar a saúde e o bem-estar do bebê. Descartar problemas, descartar anomalias, descartar malformações… você entra em estado de alerta permanente, cada exame um risco, cada resultado um risco afastado. Como se a gravidez fosse um perigo constante de algo dar errado quando, na imensa maioria das vezes, ela simplesmente vai bem, obrigada. O que aconteceu para transformar uma gestação em uma situação de risco, a ser monitorada permanentemente, como se uma ameaça pairasse sobre a barriga de todas as grávidas e coubesse a esse mundo de imagens nos vigiar e evitar o pior? Quando foi que gravidez virou doença?

Fui ao tal ultrasom morfológico e o médico, muito gentilmente, me bombardeia com aquele excesso de clareza: o bebê tem duas mãos, cinco dedos em cada mão, dois braços, dois pés, duas pernas, dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca… Bom, mas é assim que tem que ser, não? Não ignoro que às vezes surgem problemas e que identificá-los a tempo pode fazer uma grande diferença para o bebê e para os pais. Não se trata aqui de um discurso obscurantista contra as vantagens de nosso tempo de luzes, longe disso. Mas, convenhamos que falar do que é o mais normal dessa maneira faz qualquer pessoa ficar com o coração apertado, sentindo que tem muita sorte de tudo estar tão bem… Mas não! É assim! É assim que as coisas são, ninguém está te fazendo um favor ou uma caridade de te dizer que teu bebê é “normal”. Mas ali, na sala de exame, você sente como se tivesse que agradecer essa concessão que o médico e o mundo das imagens te fizeram por não te anunciar algum dos inúmeros perigos que ameaçam a você e ao seu pequeno.

Mas, ainda bem, não é só isso. Em meio a essa perversão toda de como se pode viver uma gestação nos dias de hoje, algumas vezes as imagens e seu facho de luz conseguem servir a coisas mais interessantes. Nesse mesmo ultrasom, depois do choque inicial de ter que agradecer aos céus pelo bebê ter duas mãos, dois pés e etc, consegui ter sangue frio o suficiente para parar de prestar atenção no que o médico estava dizendo – pode fazer isso sem culpa, depois vai tudo escrito no laudo mesmo – e começar a ver aquilo para o que estava olhando… O bebê ali, todo bonitinho, sacudindo os braços, cruzando e descruzando as pernas, jogando pernas pro alto, balbuciando, chupando os dedos… em meio ao bombardeio, eis ali o bebê, o meu bebê, o nosso bebê todo faceiro, fazendo graça, brincando e se divertindo na barriga da mamãe, que é a barriga do bebê agora. Como não se emocionar com isso?

Não tem jeito, eu sou uma mulher da época das imagens. Eu trabalho com elas, as imagens das artes, as imagens dos meus pacientes, dia após dia, de seus mundos de sonhos. A imagem do bebê traz para mim mais senso de realidade do que os enjôos, o cansaço e todos aqueles sinais insondáveis que minha mãe e minhas avós sabiam tão bem ler e que eu perdi. O excesso traz, às vezes, a exceção, o caldo de imagens que consegue fazer com que algumas dentre elas se destaquem, fiquem mais importantes do que as outras e causem uma marca indelével em quem as viu. Acontece, às vezes, na arte. Acontece, às vezes, até mesmo em um ultrasom.

Ron Mueck: "A girl" (2006)
Ron Mueck: “A girl” (2006)

Grávida em outro país?

Putz!!!

Como se não bastassem todas as dores e as delícias de morar em outro país, você ainda engravida? Onde estava com a cabeça, menina?

Essa foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando descobri que estava grávida. Porque uma coisa é se lançar em um projeto pessoal de morar fora, apoiada pelos seus estudos, por um trabalho de pesquisa que te interessa e te motiva, por um pós-doutorado em instituições que você respeita e com gente que você admira. Outra, muito diferente, é se apaixonar em outro canto do mundo e, desse amor, conceber um filho. Porque até o amor é gerenciável longe de casa e em outra língua. É, no fundo e essencialmente, como todo grande amor: um abismo que separa duas pessoas que insistem em apostar que podem se encontrar em algum lugar. Bonito o amor estrangeiro, ele escancara muitas coisas que parecem apenas sensações delirantes quando a gente ama ali, no conforto de casa: os desencontros, as dificuldades de comunicação, as diferenças de valores, culturais, de postura frente à vida. Bom esse amor estrangeiro, ele mostra claramente aquilo que todos os casais penam quotidianamente para transpor: a diferença incurável que existe entre duas pessoas. E que pode servir para separar. Ou para juntar. No nosso caso, nos juntou. Eu estava amando. E engravidei.

E estar grávida não muda o amor de figura, mas traz um mooooooonte de preocupações que não necessariamente a gente tem quando começa um amor, flanando por outro país, cuidando de inventar uma vida para si. De repente, onde morar, como se sustentar, como trabalhar viram questões urgentes. E, mais ainda, como dar à luz e cuidar de um bebê em outro lugar que no conforto do seu lar, onde você conhece – ou acredita conhecer – todos os códigos, todos os perigos, todos os caminhos? Pois nada mais contundente para te fazer perceber que você é estrangeira do que ter que dar conta das atividades mais banais da vida: a primeira vez em que precisa chamar o encanador porque entupiu o encanamento do banheiro… como faz? Como chamar o encanador? Qual é o bom encanador? Como falar de canos, de banheiro e de entupimentos? Quanto custa essa brincadeira? Ninguém ensina isso na Aliança Francesa, acreditem-me. Cada primeira vez de cada banalidade dessas é quase um pesadelo e você se desgasta por dias até criar coragem de correr atrás de cuidar do cotidiano na raça… Porque dá muito, mas muito mais trabalho do que em casa. Ah, bons tempos aqueles em que se era apenas turista! Turista passa, não fica, isso é verdade. E tantas vezes a gente sonha em ficar, né? Mas turista não precisa chamar o encanador e explicar, em francês, que o banheiro entupiu. E ninguém quer passar por isso.

Então, estar grávida em outro país, mesmo em um país tão organizado como a França, onde existe uma diferença imensa no que diz respeito à maneira como eles tratam a saúde e a maternidade – diferença essa que eu acho muito positiva e reconfortante – é um mar de ansiedade em um primeiro momento. Ir ao médico e entender quais são os protocolos que você deve seguir… durma com um barulho desses. Declaração de gravidez, escolha da maternidade, exames obrigatórios, ultrasons, reembolso, seguridade social, convênio de saúde, quem paga o quê… Eis que você se torna uma barata tonta afogada em um quantidade de papéis e de instruções inacreditáveis, correndo de um lado para o outro para resolver coisas que você não entende e que ninguém entende que você não entende e você ali, querendo mais é ficar quietinha, gestando seu bebezinho sossegada, entre uma frutinha e um copo de água, sombra e água fresca… Mas não, agora você se tornou um soldado da maternidade e, hop, hop, hop, já para o campo de batalha dar conta de todos esses papéis. Em francês.

 

Querer ter um filho…

(version française: ici)

Para mim, foi há cerca de um mês, depois do primeiro ultrasom que encarnou a realidade da gravidez na minha cabeça e no meu corpo. Todo mundo diz… ah, quantos todo mundo diz quando se está grávida, tem todo mundo diz para tudo… Enfim, todo mundo diz que é melhor não anunciar a gravidez antes do final do primeiro trimestre. Porque a maior parte dos abortos espontâneos acontecem no primeiro trimestre e, depois, você não vai querer ficar explicando até para a sua manicure o que houve. Coisas do bom senso, esperar a gravidez “pegar”… Mas você está grávida do seu primeiro filho e quer contar isso para todo mundo. Porque está feliz, porque quer poder falar disso, porque falar, partilhar dá um senso de realidade para aquilo que você está vivendo. Enquanto fica tudo ali na sua cabecinha, a sua gravidez tem a mesma consistência dos seus devaneios com qualquer outro assunto. Quando você conta, você assume o que está acontecendo com você e tudo parece mais real. Além do mais, como imaginar que você vai encontrar com os seus melhores amigos, com sua família, com as pessoas com as quais você sempre dividiu aquilo que era realmente importante para você e, quando eles te perguntarem quais as novidades, você vai falar de outra coisa? Como assim? Talvez isso funcione para as pessoas para quem a amizade e o amor não passem pela conversa, pelas palavras trocadas, pela intimidade cotidiana de dizer o que te vai fundo na alma. Eu sou psicanalista, testemunho diariamente a profundidade delicada daquilo que se compartilha falando, não posso conceber calar, para as pessoas que amo, a intimidade de algo assim.

Mas tinham me dito outra coisa, ainda no quesito quando contar sobre a gravidez. Uma outra justificativa para essa postura de esperar o final do primeiro trimestre, dessa vez dada pela cabala. Seria bom esperar porque, nesse tempo, a alma do bebê está decidindo se quer ou não ficar. Achei bonito quando ouvi isso. Poético. E também um excelente apoio para aquela forma de defesa, que todos nós temos, de não se envolver muito com alguma coisa que sabemos ter o risco de perder. Para que investir no que é incerto, né? Para que se apaixonar pelo carinha que você sabe que vai embora, para que se empolgar com uma gravidez que pode não vingar? Proteger-se de uma possível perda justifica todas as precauções, as distâncias, os investimentos pela metade, a economia de si. E nós somos craques nisso. E quando vemos alguém que se joga demais na vida, tomamos ele por um imaturo, quando não um doido varrido. Só que na vida e no amor não é bem assim que a coisa acontece, né?

Economizar-se é um ato de bom senso e de proteção, mas é também uma avareza, uma mesquinhez consigo mesmo e com a vida. Como a história do melhor vestido que a gente nunca usa que eu falei noutro dia. Essa economia de si que se guarda para o momento de poder se entregar, só que o momento vem e você não consegue porque nunca antes se entregou, passou a vida toda se evitando e evitando qualquer perigo e já não sabe mais como é que faz para fazer diferente. De tanta proteção, você não sabe mais como abrir uma brecha. E sente a dor dilacerante de estar preso em uma carapaça dura, rígida, que te impede de se envolver.

Então, há cerca de um mês, estávamos no auge do inverno aqui e fazia um frio de lascar, um dia cinza após o outro e começou a neve. A neve caindo sobre prédios, ruas e árvores cria uma cena linda. Sempre. Quando neva, tudo fica silencioso e, paradoxalmente, mais quente. Deve ser porque esquenta os olhos e esquenta a alma ver a neve cair. E os flocos têm muitas formas e se assentam delicadamente uns sobre os outros, deixando suas camadas de branco por todo lugar. Eu amo a neve. E fiquei olhando a neve cair pela janela da minha sala. E me dei conta que, se o bebê estava decidindo se queria ficar ou não eu, de minha parte, também poderia decidir. Eu quero que você fique. Eu quero ter esse bebê.

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Guillaume Nery base jumping at Dean’s Blue Hole: http://youtu.be/uQITWbAaDx0