As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil…

… ou pequeno manual de sobrevivência para quem, como eu, está vivendo essa experiência na França.
          Porque aqui é o país da burocracia, da papelada, da lentidão e dos pequenos detalhes. E, também, um país em que a gravidez e o parto são muito bem cuidados. Bem mais do que no Brasil, para aquilo que é essencial.
          Assim, eis o que tenho descoberto sobre o caminho das pedras quando se decide ter um bebê por essas bandas.
          Primeira coisa, extremamente importante, para evitar todo e qualquer mal entendido: ter um filho na França NÃO te dá o direito à cidadania francesa, nem à você, nem ao pai da criança. A menos que um de vocês seja francês, ou seja naturalizado, ou tenha a cidadania francesa, isso não muda em nada sua condição de estrangeiro em território francês e você continuará sendo um estrangeiro legal ou ilegal, sujeito a todos os trâmites que os estrangeiros devem seguir por aqui. Ou seja, ter filhos na França não é saída para resolver problemas de imigração, ok? Seu filho também NÃO será francês, a menos que ele continue vivendo na França e que, aos 18 anos, faça um pedido de reconhecimento de sua nacionalidade francesa. Que leva tempo e dá trabalho e que NÃO será estendida aos pais. É fundamental esclarecer isso antes de qualquer coisa, pois se gravidez e parto são extremamente bem cuidados por aqui, quer você seja francês ou estrangeiro, em qualquer situação que você esteja, isso vale apenas para gravidez, parto e maternidade, não para questões de cidadania. Então, sigamos em frente.
          Do ponto de vista da assistência, você pode ficar mais do que sossegada. Uma mulher grávida, na França, tem direitos que são verdadeiramente garantidos. O primeiro é de ser atendida integralmente e acompanhada durante toda a gravidez, com tudo pago pela seguridade social. Para isso, não importa se ela é francesa, estrangeira, imigrante ilegal. O que quero dizer é que, do ponto de vista francês, você está aqui, está grávida e você e seu bebê têm direito à toda a assistência. É um país civilizado. Não pense, contudo, que isso vai te garantir uma cidadania francesa e que essa seria uma boa maneira de obtê-la, pois não é assim que funciona. Mas, no que diz respeito à gravidez e ao parto, você estará em boas mãos. Desde que você esteja grávida, eles cuidam de você. Mas, isso envolve uma certa burocracia que você tem que seguir, caso queira usufruir dos privilégios de um estado de bem estar social que (ainda) funciona.
          Se você está na França legalmente, deve ter algum tipo de seguro saúde, que costuma ser exigido de quem vem passar um período no país, a trabalho ou por seus estudos. É o que se chama “mutuelle” aqui, que é a assistência complementar de saúde. Pois, além dela, aqui você tem uma cobertura da seguridade social, que é a cobertura financiada pelo Estado e que demanda uma inscrição e um número que você não necessariamente terá, como estrangeira, pois isso depende do tipo de visto com o qual entrou no país, se é algo que te permite trabalhar ou apenas estudar… e por aí vai. Normalmente, se você tem direito a trabalhar, e para que você possa fazê-lo, você já deve ter passado pela burocracia de inscrição na “sécu”. Se não, é por aí que vai ter que começar.
          Para isso, o melhor é se informar no setor de alunos ou de acolhimento aos alunos estrangeiros da sua universidade ou, uma outra opção, na Caixa de Assistência à Família, a CAF. Lá é o lugar em que eles cuidam de todos os direitos que você têm enquanto grávida. Eu sugiro que você vá a uma das unidades que existem na cidade em que está, porque conversar pessoalmente é mais fácil do que por telefone. Você pode explicar sua situação: diga como chegou aqui, por que motivo, que descobriu que está grávida, explique em que ponto está com as burocracias, se tem seguridade social, mutuelle, etc. Eles vão te orientar quanto a tudo que você tem que fazer, como e onde. E é para esse setor que você enviará, depois de passar por uma consulta no ginecologista ou na maternidade, o que eles chamam de “déclaration de grossesse“, um documento que dá início aos procedimentos que garantem essa cobertura integral da gravidez e do parto pela seguridade, bem como aos benefícios a que você terá direito ao longo da gravidez, do parto e em seguida. São eles, também, que vão depositar para você um auxílio, em dinheiro, no final da gravidez, além de um auxílio mensal depois do bebê ter nascido, que será de um valor maior, se você estiver sozinha.
          Se o pai do bebê for francês ou alguém da comunidade européia, ou alguém de fora da Europa, mas que está aqui legalmente e que já possui um número de seguridade social e de mutuelle, ele pode te ajudar com isso tudo. Sendo casados ou não, ele pode te registrar como dependente para que você tenha essas inscrições e dê conta, mais rapidamente, dessa burocracia inicial.
          Se no começo da gravidez você ainda não tiver o número da seguridade social, vai ser a mutuelle que vai pagar seus examens e consultas. À partir do quinto mês, a seguridade cobre tudo, até o parto e pós parto. Mas, para isso, você terá que enviar a “déclaration de grossesse” fornecida pelo seu médico ou pela maternidade, que vem em duas vias, uma para a CAF e outra para a seguridade. É com esse documento que eles tomam conhecimento que você existe e que está grávida e se encarregam de suas garantias.
          Mas tudo isso é burocracia e burocracia aqui é complicada e lenta. Então, você vai ter que ter paciência e persistência.
          Outra coisa importante é que, mesmo ainda não tendo o seu número da seguridade social, você já vai poder começar o acompanhamento. Funciona assim: a rede pública e a rede privada trabalham do mesmo modo, não tem luxo e frescura como no Brasil e cesariana é intervenção de urgência, ok? Então, parir aqui significa que você vai ter um parto normal. Nada de marcar cesariana com antecedência, nada de escolher a data, nada de maternidade hotel de luxo, nada de buffett ou festinha na maternidade com os amigos para comemorar o nascimento. Enfim, o essencial. Que é o cuidado com a gestante, com o bebê, com que a gravidez, o parto e o pós-parto se passem bem para ambos. Ainda, o parto será feito pelas enfermeiras obstétricas e não pelo médico, a não ser em caso de complicações, o que é muito melhor, na minha opinião, porque sinaliza uma prioridade dada a um parto menos medicalizado. Mas é bem diferente do que estamos acostumadas. E, ainda, no seu acompanhamento da gravidez, você terá contato com a equipe do local onde vai parir, mas não necessariamente com a pessoa que vai estar contigo na hora do parto, mesmo que você esteja sendo acompanhada por um ginecologista e não por uma enfermeira obstétrica – a “sage-femme” – porque o parto acontece a qualquer hora e será atendido pela equipe de plantão. O médico não estará lá na grande maioria dos casos, e nem a “sage-femme” que te recebeu ao longo das consultas. É menos personalizado e é preciso se acostumar com essa não criação de laços ou de intimidade, o que é tão comum e reconfortante no nosso jeito brasileiro de cuidar da maternidade e do parto. E, certamente, uma das coisas que mais faz falta por aqui, a meu ver.
          Bom, aqui será bem diferente daí, não dá para esperar a mesma coisa. Mas, isso posto, posso dizer que para tudo o que é realmente importante, tenho achado realmente bem melhor do que no Brasil.
          Para começar seu acompanhamento, você vai a um ginecologista aqui. Ou diretamente à maternidade, se já tiver escolhido uma. Ou a um médico que atenda na maternidade em que você pretende dar à luz, se já tiver uma preferência por algum local. Normalmente, nas maternidades eles fornecem uma lista de ginecologistas com os quais trabalham para que você escolha um e marque uma primeira consulta. Isso quando são os médicos que fazem o acompanhamento. Se forem as enfermeiras, eles te indicarão uma que possa te acompanhar.
           Em tempo: uma enfermeira obstétrica, a “sage-femme”, é alguém que tem uma formação médica, que pode perfeitamente te examinar, prescrever medicamentos ou exames, te dar orientações e indicações, enfim, pode fazer todo o acompanhamento de uma gravidez como um médico faria. É algo que não existe no Brasil, mas que aqui é totalmente comum.
          Médico ou “sage-femme”, ele faz para você os primeiras exames, pede os primeiros exames, te dá as primeiras orientações e uma declaração de gravidez, que é o papel que você vai levar na CAF e na sua mutuelle, para eles cobrirem suas despesas. No caso desse primeiro contato ser através da escolha de um médico, não de uma maternidade, ele vai te dizer, também, para você procurar uma desde o começo, especialmente se estiver em Paris, para dar seguimento ao acompanhamento. Porque é na maternidade que o seguimento da gravidez acontece, para a grande maioria das consultas, dos exames e, ainda, dos workshops de informação sobre gravidez, parto e outras atividades que eles costumam propor. E, ainda, porque encontrar vaga em uma maternidade, ao menos em Paris, não é muito fácil. Há que se fazer uma lista de opções segundo os critérios do que julgar importante, ligar, ir até lá, fazer uma inscrição e esperar que eles te digam se há vagas ou não. Enquanto você não estiver inscrita, seu ginéco vai continuar com as consultas e pedindo os exames. Você vai pagar e a mutuelle vai te reembolsar depois.
          Escolhendo sua maternidade, por critério de proximidade com onde você vai morar, para não ter que atravessar a cidade na hora do parto… ou por critérios do tipo de serviço que oferecem, se são mais abertos a um parto natural ou mais medicalizadores, se são maternidades que acompanham apenas uma gravidez sem risco ou maternidades ligadas a grandes hospitais para gravidez de risco, você deve ir lá fazer sua inscrição. Depois de inscrita, vão te enviar à tesouraria da maternidade, onde você deverá apresentar seus números da seguridade e da mutuelle. Não se preocupe se ainda não tiver o número da seguridade. Eles não vão deixar de te atender por isso, vão apenas te dizer que traga assim que receber. Isso é importante, eles NUNCA vão te negar assistência, não podem, é lei aqui. Esse é também um bom momento para, caso você esteja tendo dificuldades com obter esse número, dizer a eles na maternidade. Eles podem te encaminhar ao serviço social, que vai te orientar e ajudar a fazer os pedidos e enviar a papelada.
          Por fim, depois de inscrita, seu acompanhamento passa a ser todo na maternidade. As consultas com a “sage-femme”, boa parte dos exames, fora o ultrasom. Eles também vão te propor um curso para grávidas – a “préparation à la naissance” – com várias informações, orientações e afins, tanto no que diz respeito à gravidez quanto ao parto, à amamentação, ao pós-parto… Existem lugares que oferecem curso com nutricionista, yoga e outras coisas. Tudo é bem bom, bem sério e te ajuda não apenas a tirar muitas dúvidas como, também, a ter momentos de troca com a equipe do serviço em que é atendida e com outras grávidas, o que é sempre divertido, ainda mais quando se é uma expatriada.
          Bom, tudo isso é, espero, tão reconfortante para vocês quanto tem sido para mim. A parte ruim é a burocracia e, além disso, o fato de que ninguém vai ficar te mimando por estar grávida. Aqui, as pessoas vêem a gravidez como algo normal, não fazem um circo em torno disso. Além disso, o francês é um povo bem reservado e mais frio do que a gente, o que significa que, na maternidade, nas consultas, nos exames, em todas essas situações do seu cotidiano de grávida, ninguém vai ficar te paparicando, nem sendo fofo contigo. Eles serão corretos, profissionais, gentis, educados, mas não calorosos. Está bom para você?
          Continuação desta discussão: aqui e aqui.

Grávida em outro país?

Putz!!!

Como se não bastassem todas as dores e as delícias de morar em outro país, você ainda engravida? Onde estava com a cabeça, menina?

Essa foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando descobri que estava grávida. Porque uma coisa é se lançar em um projeto pessoal de morar fora, apoiada pelos seus estudos, por um trabalho de pesquisa que te interessa e te motiva, por um pós-doutorado em instituições que você respeita e com gente que você admira. Outra, muito diferente, é se apaixonar em outro canto do mundo e, desse amor, conceber um filho. Porque até o amor é gerenciável longe de casa e em outra língua. É, no fundo e essencialmente, como todo grande amor: um abismo que separa duas pessoas que insistem em apostar que podem se encontrar em algum lugar. Bonito o amor estrangeiro, ele escancara muitas coisas que parecem apenas sensações delirantes quando a gente ama ali, no conforto de casa: os desencontros, as dificuldades de comunicação, as diferenças de valores, culturais, de postura frente à vida. Bom esse amor estrangeiro, ele mostra claramente aquilo que todos os casais penam quotidianamente para transpor: a diferença incurável que existe entre duas pessoas. E que pode servir para separar. Ou para juntar. No nosso caso, nos juntou. Eu estava amando. E engravidei.

E estar grávida não muda o amor de figura, mas traz um mooooooonte de preocupações que não necessariamente a gente tem quando começa um amor, flanando por outro país, cuidando de inventar uma vida para si. De repente, onde morar, como se sustentar, como trabalhar viram questões urgentes. E, mais ainda, como dar à luz e cuidar de um bebê em outro lugar que no conforto do seu lar, onde você conhece – ou acredita conhecer – todos os códigos, todos os perigos, todos os caminhos? Pois nada mais contundente para te fazer perceber que você é estrangeira do que ter que dar conta das atividades mais banais da vida: a primeira vez em que precisa chamar o encanador porque entupiu o encanamento do banheiro… como faz? Como chamar o encanador? Qual é o bom encanador? Como falar de canos, de banheiro e de entupimentos? Quanto custa essa brincadeira? Ninguém ensina isso na Aliança Francesa, acreditem-me. Cada primeira vez de cada banalidade dessas é quase um pesadelo e você se desgasta por dias até criar coragem de correr atrás de cuidar do cotidiano na raça… Porque dá muito, mas muito mais trabalho do que em casa. Ah, bons tempos aqueles em que se era apenas turista! Turista passa, não fica, isso é verdade. E tantas vezes a gente sonha em ficar, né? Mas turista não precisa chamar o encanador e explicar, em francês, que o banheiro entupiu. E ninguém quer passar por isso.

Então, estar grávida em outro país, mesmo em um país tão organizado como a França, onde existe uma diferença imensa no que diz respeito à maneira como eles tratam a saúde e a maternidade – diferença essa que eu acho muito positiva e reconfortante – é um mar de ansiedade em um primeiro momento. Ir ao médico e entender quais são os protocolos que você deve seguir… durma com um barulho desses. Declaração de gravidez, escolha da maternidade, exames obrigatórios, ultrasons, reembolso, seguridade social, convênio de saúde, quem paga o quê… Eis que você se torna uma barata tonta afogada em um quantidade de papéis e de instruções inacreditáveis, correndo de um lado para o outro para resolver coisas que você não entende e que ninguém entende que você não entende e você ali, querendo mais é ficar quietinha, gestando seu bebezinho sossegada, entre uma frutinha e um copo de água, sombra e água fresca… Mas não, agora você se tornou um soldado da maternidade e, hop, hop, hop, já para o campo de batalha dar conta de todos esses papéis. Em francês.