Mas no meu tempo…

Vou começar pelo óbvio, que parece que as pessoas que adoram esse mote desconsideram: o seu tempo é hoje. Isso posto, vamos aos fatos.

Vira e mexe vejo pessoas discutindo a respeito da infância e de seus filhos utilizar esse argumento: “ah, mas no meu tempo é que era bom, era assim, era assado”. De que tempo estão falando? Podem estar se referindo ao tempo de suas infâncias. Mas esse era mesmo o seu tempo?

Quem argumenta dessa maneira desconsidera que o tempo de nossa infância é tudo menos o nosso tempo. Ele é, essencialmente, o tempo de nossos pais, de nossos avós, daqueles que são os adultos daquele tempo e que fazem com que a vida seja tal qual ela é. Aquele tempo é o tempo de quem tomou as decisões, não de quem as vive de forma passiva.

O nosso tempo é o de hoje, quando nos tornamos adultos e participamos ativamente na criação desse mundo que nos cerca. E é aí que talvez possamos entender melhor porque existem pessoas que gostam tanto de dizer “no meu tempo…”

No meu tempo te libera de qualquer responsabilidade pela vida tal qual ela é hoje, como se o mundo atual fosse um acaso que tivesse despencado sobre a sua cabeça sem que você nada tenha feito para isso. No meu tempo as crianças brincavam livres pela rua. E quem é que guarda as crianças de hoje em dia trancadas em apartamentos e condomínios fechados, coladas na TV, no tablet e no celular? Ah, mas hoje em dia é muito perigoso deixar as crianças na rua. Sim, e de quem é a responsabilidade por esse perigo, de um mundo que ficou assim a sua revelia ou de escolhas que fizemos, enquanto sociedade, por manter desigualdades e criar tensões sociais que aumentam diretamente a violência? Escolhas e decisões das quais você participa e as quais você reforça quando opta por se encastelar no seu prédio cheio de câmeras e fios de arame farpado como uma vítima impotente de um destino cruel ao invés de reivindicar a rua e de agir para que ela possa ser ocupada até mesmo pelas crianças.

A pessoa que argumenta com o famoso “no meu tempo” se exime de pensar, de se implicar no tempo em que ela é adulta e potencialmente agente da situação, se acomoda e se acovarda numa situação dada, que ela alegremente transmite aos seus filhos na maneira como os educa. Sem nenhum questionamento, sem nenhuma rebelião, apenas aceitação. Dizemos “no meu tempo” como se o passado que parece tão melhor fosse obra nossa e o presente fosse fruto de qualquer um menos de nós mesmos.

Não foram os seus filhos que fizeram o tempo de hoje, eles farão os tempos de amanhã e talvez possam fazê-lo muito melhor do que aquilo que fizemos. Mas se o tempo atual está tão pior do que o tempo da sua infância é muito provavelmente porque você trabalhou muito menos do que os seus pais para construí-lo bem. Ou porque se acomodou na idéia do “meu tempo” como um tempo sempre passado e não se deu conta que precisaria agir e fazer um grande esforço para ter um tempo que julgasse bom.

As pessoas que gostam de dizer “no meu tempo” para discutir infância e crianças são as mesmas que gostam de dizer “nós fizemos isso e sobrevivemos”. O argumento do sobrevivente é a sequência óbvia para o argumento da nostalgia do tempo que passou. E ao mesmo tempo é sua negação. Porque quem viveu num tempo tão maravilhoso não precisaria ser um sobrevivente, né? Não teria que justificar que passou por situações difíceis ou que foi o alvo de decisões questionáveis e que conseguiu ultrapassá-las. Se “o meu tempo” tivesse sido tão bom assim, por que você teria que ter “vivido e sobrevivido” a ele?

A infância é uma fase da qual guardamos lembranças que misturam realidade e ficção. Muito do que foi nossa infância nos resta como memória à partir do que nos contam os adultos. São os adultos, os verdadeiros senhores daquele tempo, que nos repetem o que aconteceu através de seus relatos, de fotos, de vídeos, de testemunhos. E nós acreditamos nessa versão porque ela é parte importante da colcha de retalhos que precisamos montar cada um de nós a fim de termos alguma referência do que foi que vivemos. Boa parte, sobretudo de nossa primeira infância, fica em algum lugar recôndito de nosso ser, esquecida, presente apenas em traços que quase não são memórias… um cheiro, um gosto, um clima, um déjà vu. Existe aquilo de que lembramos e aquilo que criamos como lembrança e tudo isso nos compõe. Muitas vezes em análise as pessoas chegam por conta de um sofrimento decorrente entre essa memória criada e alguma sensação dissonante de que algo ali não bate e o trabalho é feito no sentido de aproximar essa sensação de discrepância de algo que pareça uma memória mais coerente com aquilo que a pessoa sente ou intui. Tudo isso para dizer que “no meu tempo” desconsidera também que esse tempo tão bom é uma construção, repleta de muitas verdades e de muitas farsas, que serve para quem você é hoje mas que pode conter em si muitas áreas de desconhecimento, de sombra ou, até mesmo, de mentira.

Uma mentira possível é aquela que os advogados do “no meu tempo” também gostam muito de propagar: a de que nas suas infâncias tão felizes, seus pais eram muito mais relaxados, tranquilos e menos pressionados do que os pais de hoje em dia em relação à educação de seus filhos. Como se os pais tivessem, naquela época, a sabedoria de deixar seus filhos brincando entre si enquanto conversavam alegremente entre adultos, cada qual livre para viver sua vida de criança ou de adulto sem que um interferisse no prazer do outro. As pessoas que lançam essas memórias de pretensa liberdade de adultos em relação aos seus próprios filhos, como se nos pais sim tivessem tido a capacidade de não ficarem escravizados ou assombrados pela infância e por suas crianças, esquecem de perguntar a esses mesmos pais e, especialmente, às suas mães, como é que era realmente o cotidiano de seus cuidados.

Quem se dá ao trabalho de confrontar idealização com realidade indo falar com os próprios pais talvez perceba que, sim, eles tinham a tranquilidade de deixar os filhos brincar na rua. Ou brincar longe deles durante uma reunião entre amigos. Mas essa aparente descontração não significa que eles não estivessem repletos de preocupações ou de pressões em relação aos seus filhos e à sua criação. Se na época de nossos avós o melhor que se podia oferecer para uma criança era que ela fosse à escola e pudesse ao menos saber ler e escrever, é justamente na geração de nossos pais, aquela em que há um salto por conta dos estudos para muitas e muitas famílias, que oferecer aos filhos apenas a alfabetização não é mais suficiente. É importante ir além, é importante ir para a faculdade. E poder trabalhar e ganhar a vida decentemente. Então, possivelmente nossos pais não estavam preocupados com agrotóxicos na comida (porque isso apenas começava a existir) ou com excesso de hormônios no leite de vaca (porque o leite era melhor e menos turbinado naquela época). Mas eles se preocupavam, se estressavam, se sentiam pressionados por eles e por seus pares a nos darem o melhor daquilo que se concebia como melhor naquela época. Ou seja, a maternidade e a paternidade nunca foi algo sem pressão, sem questionamentos, sem críticas ou sem dúvidas.

Ou talvez sim, tenha sido. Historicamente, ter filhos era outra coisa até o momento em que a infância passou a ocupar o centro das atenções das famílias. Mas isso aconteceu quando a família, que era extensa e englobava várias gerações e vários graus de parentesco passou a se centrar na família nuclear. E as crianças, que eram mini adultos considerados apenas como mão de obra se tornaram, pouco a pouco, crianças na acepção que se tem do termo nos dias de hoje. Só que essa mudança não aconteceu da geração anterior para a nossa, como parecem pensar os defensores do “meu tempo”, um tempo onde a infância seria totalmente diferente do que se vê nos dias de hoje. Não, a idéia de infância como existe hoje, assim como a idéia de família e até a idéia de centralidade da infância são construções históricas que começaram mais ou menos no século XVI. Para quem tem dúvidas, basta ler Philippe Ariès. Já faz alguns séculos que a infância e as crianças estão “no centro” das atenções das famílias, mesmo que o que possa ser considerado como foco de atenção possa variar de uma geração a outra.

Então, as pessoas do “no meu tempo” e do “fiz e sobrevivi” parecem precisar desses argumentos que as colocam em um passado ideal sem nenhuma responsabilidade pelo hoje que existe para fazer frente a algo que as angustia muito, assim como angustia a qualquer que tenha filhos e que elas chamam de “centralidade dos filhos” na vida familiar atual. E, para isso, elas citam exemplos de pessoas preocupadas com educação, alimentação e todos os outros aspectos da criação dos filhos como potenciais escravos dessas crianças, que se tornariam tiranos. Além de ser um argumento de gente que não quer se mexer e que parece ficar incomodada que outros queiram, me espanta a cada vez que o escuto, principalmente quando usado para falar de nosso filhos, sua mediocridade e sua pobreza de espírito.

Se formos traduzir, esse argumento das pessoas que se irritam com quem busca informações, alternativas, referências e, em suma, se questiona permanentemente é uma espécie de elogio da ignorância e do imobilismo. Como “no meu tempo” era diferente e minha memória construída desse tempo é boa e como, corroborando o que eu acredito está o fato de que eu estou aqui, estou vivo e me julgo alguém legal, logo, no que diz respeito aos meus filhos, basta replicar o que eu vivi. Não importa que se passaram 30 anos entre a minha infância e a dos meus filhos, não importa que nesse meio tempo descobriu-se que açúcar causa obesidade, por exemplo. Se eu tomava refrigerante e estou aqui, o pimpolho também vai tomar. Porque, de que importa que as informações surjam, que pesquisas sejam feitas, que pessoas questionem, que novos modos de entender apareçam?

O que essas pessoas fazem é um elogio da ignorância e da mediocridade contra quem quer que pense ou aja diferente. E que é rapidamente taxado de excessivo, escravo dos filhos, criador de tiranos em potencial. Na sua preguiça em rever a si e aos seus conceitos, na sua inércia em agir no mundo e no tempo atuais, acomodam-se no “seu tempo” e no “eu vivi” e se regozijam uns com os outros a cada vez que aparece um novo texto sobre maternidade sem complexos, sem cobranças e sem neuras. Todos os outros ficando do lado das neuras e da cagação de regra.

Será mesmo que os pais dessas pessoas, os pais e as mães dessas pessoas que pregam a coolitude a qualquer preço em relação à maternidade e à paternidade estavam assim tão tranquilos no tempo deles? Ou será que são esses pais que estavam se esforçando em tudo aquilo que eles julgavam essencial na época para mudar o mundo, para construir um mundo melhor e para dar a esses filhos melhores condições e um ponto de partida diferente do que tiveram? Se os pais dessas pessoas tivessem ficado com essa lógica que elas adoram do “no meu tempo”, eles não teriam ido para a escola além da quarta série, nem teriam ido para a faculdade, não teriam viajado para conhecer o mundo, nem teriam ido a museus, peças de teatro ou concertos de música. Porque “no tempo” dos nossos pais, nossos avós tinham outras preocupações, outras prioridades, outras pressões e, portanto, outras ações em relação aos seus filhos.

Se toda gente ficasse acomodada nessa lógica do “meu tempo”, crianças não seriam vacinadas porque houveram gerações de pessoas para as quais não haviam vacinas e que, mesmo assim, sobreviveram. Crianças nem iriam à escola porque houveram gerações de crianças que iam diretamente ao trabalho e, quando muito, a centros de formação técnica, que é o que existia na Idade Média tardia. Crianças cujos pais foram apenas alfabetizados se preocupariam apenas que seus filhos soubessem assinar seus nomes. E pais que viveram a fome se preocupariam que seus filhos pudessem apenas comer e não comer o mais saudavelmente que cada época pode proporcionar. Apenas para viajar em alguns exemplos.

E é bom lembrar que estamos falando apenas de uma certa camada da sociedade, de uma certa parte desse país. Essa camada que mais ou menos compõe a classe média atual das grandes cidades. Porque em muitos lugares do Brasil (e até mesmo do mundo) crianças brincam nas ruas livremente, crianças brincam entre si enquanto seus pais conversam, crianças andam descalça e não ficam na frente do computador, da TV e nem cumprindo agenda de ministro. Aliás, se essas pessoas do “meu tempo” olhassem um pouco para além de seus próprios umbigos, veriam que as questões delas são também questões específicas, não generalizáveis, nem historicamente e nem ao menos em um mesmo país, em uma mesma classe social, em uma mesma cidade. São questões preguiçosas de gente que, ao invés de assumir suas escolhas por ficar na lógica do “meu tempo”, do “fiz e não morri” para se oporem às crianças tiranas que tanto as assombram, preferem ainda uma vez não assumir responsabilidade nenhuma, nem por suas posições na vida e em relação aos filhos, criticando e jogando a culpa nos outros, que são mostrados como os equivocados.

Nos tempos de hoje temos a vantagem e ao mesmo tempo a condenação de termos em mãos o acesso à muitas e desencontradas informações. E isso, em todos os domínios, inclusive no que diz respeito à infância. Para muitos de nós, isso funciona como uma espécie de fantasma, como se tivéssemos que dar conta de tudo o tempo todo sem errar. Consequências do nosso tempo, que se torna angústia e sofrimento para muitos e essa reação tosca de recusa para outros. Será mesmo que para acabar com a angústia é necessário se fechar nesse passado ideal e nessa recusa em se mexer? Se isso funcionasse para acabar com essa angústia, por que então as pessoas do “no meu tempo” se sentem tão propensas a escrever sua defesa permanente de sua posição?

Em tempo, as pessoas falam da centralidade da infância como se a criança de hoje fosse o centro do mundo e tudo girasse em torno dela. E, para defender esse argumento, usam o exemplo das crianças que fazem milhares de atividades e cujos pais passam os dias a levar e trazer e a seguir crianças em atividades e programas de crianças sem fim. Nem vou mencionar novamente o quanto isso é uma realidade parcial, localizada no tempo e no espaço e totalmente diferente do que ocorre na imensa maioria do Brasil. Limito-me à perguntar o que sempre penso quando escuto essas afirmações: será que isso é mesmo uma prova da centralidade da criança nas famílias atuais? Será isso mesmo uma demonstração da tirania das crianças e das infâncias que escravizam os adultos? Ou será que é justamente o contrário, uma demonstração de um modo de agir no qual a criança é apenas refém de um leva e traz infinito, através do qual ela é delegada a tudo e a todos, na esperança e na aposta de que toda essa ação, de que todas essas atividades, de que todas essas outras pessoas consigam preencher um vazio daquilo que justamente não podemos, não queremos ou não conseguimos dar, a condição e a importância central que essa criança deveria ter substituída por uma performance que serve de vitrine e de justificativa para os outros? Será que a criança tirana não é, na realidade, a criança que, frente a essa ausência, frente a essa falta do essencial, começa a adoecer, a se rebelar, a dar trabalho e dar problema, convulsionando frente a esse contexto que mais a violenta do que a leva em consideração?

O que será que essas crianças de hoje vão dizer do “seu tempo”?

 

Vamos falar de séquissu!

O quê? Como assim, Alessandra? Esse é um blog família, um blog sobre maternidade. Justamente. Não sou eu que vou precisar contar para vocês que maternidade e sexo têm a ver, sou? Apenas lembrando que a maioria dos casais têm filhos… olha só que loucura… transando! Eu sei, esse é o tipo de revelação que deixa a gente embasbacado quando olhamos para nossos pais e nos damos conta de que eles transaram ao menos o número equivalente ao número de filhos que têm. Mas provavelmente foram mais vezes do que isso. E provavelmente nossos filhos ficarão igualmente embasbacados quando perceberem que nós também transamos. E que esse é um dos motivos pelos quais eles existem. Enfim. Pessoas transam. Pessoas engravidam e têm filhos quando transam. Então falar de maternidade é falar de algo que tem a ver com sexo. Ok? E deixa eu fazer um spoiler aqui: esse não vai ser um texto muito simpático. Eu disse, eu disse num post anterior que ando meio desaforada. Deve ser o inferno astral ou algo assim. Whatever, vamos ao sexo.

E eu vou começar por todos os disclaimers antes de falar sobre sexo depois de nos tornarmos mães. Assim as pessoas vão parando de ler no meio do caminho e lê até o final quem realmente está preocupado com como ficam as relações sexuais de um casal após a chegada dos filhos. Sim, preocupadO porque esse post é essencialmente dirigido aos homens de plantão.

Primeiro disclaimer: passado o ultraje em ler que um blog sobre maternidade vai falar sobre sexo, a primeira coisa que as pessoas pensam é que aí vem mais um texto sobre como a mulher tem que estar inteiraça e cheia de vontade depois de parir, para não correr o risco de “perder o seu homem”. Se você pensa assim, ou se você acha que é isso que vai encontrar escrito por aqui, pára tudo, volta cinco casas e fica ali no cantinho pensando sobre o absurdo da sua presunção. Porque um dos meus primeiros argumentos é que, não, mulher não tem que nada. E não sou eu que vou escrever mais um texto para botar pressão em cima das mulheres dizendo mais umas tantas coisas que elas deveriam fazer ao mesmo tempo que parir, amamentar, aprender a ser mãe, aprender a lidar com um bebê e tudo o mais.

Segundo disclaimer, que tem tudo a ver com o primeiro e que é mais uma epifania do que qualquer outra coisa. E que é o motivo porque estou escrevendo esse post. Noutro dia estava assim meio de bobeira pensando na vida e tive um insight daqueles poderosos, que é tão óbvio que não sei como nunca antes havia pensado nisso. Descobri, olhem só, que quanto mais machista o homem – ou a mulher – pior ele é na cama. O que? Como assim? Além de falar de sexo, vai dar uma de feminista, é?

Sobre o feminismo, uma hora prometo que eu te explico como é impossível tornar-se uma mãe com o mínimo de senso crítico sem se tornar feminista por tabela. Até lá, vai lendo o que escreve gente que fala melhor de maternidade e feminismo do que eu, tipo a Isa Kanupp, do Para Beatriz.

Talvez hajam mulheres que já perceberam isso há tempos. Talvez as meninas de hoje em dia, que estão muito mais emponderadas, donas da própria voz e do próprio corpo já tenham sacado. Então, pô, por que ninguém me avisou? Teriam me poupado umas histórias bem sem graça, a mim e a uma porção de mulheres que já tiverem o desprazer de sair, ficar, transar, namorar ou casar com homem machista.

Na verdade é meio óbvio. Gente machista costuma enxergar a mulher como um objeto, como algo de que ele poderia dispor segundo seus desejos e necessidades. E algo de que se dispõe não é algo que a gente tome em consideração, algo para o qual a gente olhe, algo de que a gente cuide. Dispor significa usar, que é o que fazemos com objetos. Mulher-objeto é uma mulher para ser usada. E como a gente está cansado de saber que sexo, para ser prazeroso, tem que ter cumplicidade, um mínimo de atenção ao outro, um mínimo de empenho, de cuidado e de dedicação… Pois é, considerar o outro na hora de transar não é algo que combina com ver no outro um objeto do seu prazer, né? Aí está: machismo não rima com prazer na cama. Ao menos para uma das partes envolvidas. O que pode não querer dizer nada para o machista. Mas pode querer dizer uma vida inteira sem experimentar algo que pode ser muito bom e muito divertido para uma porção de mulheres. Homem machista é ruim de cama, minha gente. Pensa nas suas transas, faz a enquete com as amigas, vai por mim.

Então o segundo disclaimer é que se você é um sujeito machista, além de ser ruim de cama, você tem altas chances de estar aqui procurando uma receitinha ou um textinho para pressionar sua mulher a voltar a transar contigo porque, afinal, é obrigação dela. Senão, o que você não encontrar em casa vai procurar na rua. E a culpa vai ser dela. Que você tem lá suas necessidades. E ter filho não é desculpa para deixar de se cuidar, de cuidar do seu homem e de dar para ele. Não é mesmo? Não, não é. Volte trinta casas, senta ali no cantinho por uns cinco anos e vê se usa seus neurônios para aquilo que foram feitos, ou seja, pensar. Pensa um pouco, meu caro, pensa antes que o mundo ande e te deixe para trás choramingando sem entender aonde foi que você errou. Pensa antes de ficar sozinho e virar atração de zoológico como um animal em extinção. Pensa logo, porque o mundo está andando. E esse monte de mulher machista que ainda existe nesse nosso mundo de hoje, e que reforça estupidamente suas opiniões e suas certezas, o que torna sua vida confortável demais… bom, essas mulheres estão mudando bem rápido, estão percebendo muitas coisas óbvias e… Bom, pensa bem direitinho aí, cara. Deixa eu te dar uma dica de por onde começar: mulher não é objeto, é sujeito. Combinado? Em tempo: nem criança. Nem ninguém diferente de você. Todo mundo é tão gente quanto você e deve ser levado em consideração sempre que qualquer coisa que você faça os inclua ou traga consequências para eles. Inclusive transar. Ok? Se isso não é óbvio para você, então para por aqui que é game over. A gente não se vê por aí nem na próxima encarnação.

Se você chegou até aqui e não é daquele tipo de pessoa que gosta de ler algo apenas para querer puxar briga depois nos comentários e sair satisfeito consigo mesmo por julgar que humilhou, destratou ou rebaixou alguém, então deve ser porque você é um sujeito verdadeiramente preocupado com essa história de sexo depois da maternidade. Ou da paternidade. Ou porque sua mulher deixou casualmente essa página aberta ali no computador em cima do sofá e você, que não é bobo nem nada, se deu conta de que tem alguma mensagem que ela está querendo te passar… certo, amorzão? Então, ao invés de falar do que sua mulher tem que fazer para “te segurar” e das mil obrigações dela, vou quebrar o seu galho – sim o seu, porque é você que vai me agradecer depois por não ter perdido uma pessoa tão legal quanto sua esposa faendo papel de idiota por tempo demais nessa vida – e vou dizer o que você tem que fazer. Ou, pelo menos o que, na minha experiência e na experiência das mulheres que me falam sobre o assunto, nós mulheres sentimos, pensamos, vivemos e esperamos de vocês homens quando o assunto é sexo pós nascimento de filho. E isso não é uma verdade absoluta, ok? Só para complicar um pouco mais as coisas…

Bom, vai, anota a listinha aí:

  1. Tem mulher que tem mais vontade de transar quando engravida. Tem mulher que tem mais vontade de transar depois que o bebê nasce. Mas a maioria das mulheres não tem muita vontade de transar quando engravida (especialmente no final da gravidez). E tem pouca ou nenhuma vontade de transar depois que o bebê nasce. Não fique chateado com o que eu vou te dizer mas… não é pessoal. Não necessariamente. Não é contigo. Um combinado de mudanças hormonais, mudanças gigantescas de vida e de perspectiva de vida com um cansaço sem tamanho fazem com que a gente só consiga pensar em dormir. E no bebê. Não necessariamente nessa ordem.
  2. Isso é muito sério, nunca subestime o cansaço de uma mulher que acabou de ter um filho. Você pode querer transar e ela pode estar pensando em quantos minutos preciosos de sono está perdendo com aquela transa que nem está tão boa assim. Porque ela está cansada. Preocupada. Não quer fazer barulho para não acordar o bebê. Porque se ele acordar lá vai ela de novo, sem conseguir descansar nem por quinze minutinhos. E se ela está transando contigo mesmo exausta é porque, provavelmente, ela tem essa pressão social perversa dentro dela de que tem que estar disponível para o marido, tem que estar a fim, tem até que gostar. Mas ela não está afim. Ela quer dormir. E se você não percebeu é porque talvez seja um ogro. Volta para o disclaimer e senta ali no cantinho. E se você percebeu e não parou é porque ainda não entendeu que isso é um abuso. Feio, muito feio. Para já de transar com uma mulher que não está afim e deixa ela descansar, cara. Ela não deixou de te amar ou de te desejar depois que esteve filho, ela só está cansada. E com o foco no bebê.
  3. Consequência do anterior: nunca subestime a mudança de prioridades que muito provavelmente acontece para uma mulher quando ela se torna mãe. Os filhos se tornam prioridade. Ah, mas isso é motivo para ela deixar o marido de lado, se esquecer da relação, negligenciá-lo e tal? Isso não é um jeito saudável de ser mãe, isso de ficar se dedicando a cem por cento para o filho. Cara, para que está feio. Sua mulher não está fazendo nada disso. Ela não está te deixando de lado, te esquecendo, te negligenciando. Sai um pouco do seu umbigo, para de falar “eu, eu, eu” e olha para o que está acontecendo ao seu redor. Sua mulher está… cuidando do seu filho. Percebe? Ela está se dedicando ao filho de vocês. Você deveria estar feliz e orgulhoso pelo cuidado que ela tem, pela sua capacidade de se doar, pelo amor com que ela faz as coisas mais corriqueiras. Devia estar feliz, orgulhoso, admirado e agradecido de ter essa mulher que cuida assim de um filho seu. Se você ainda não sacou que isso diz muito sobre a pessoa com quem você decidiu formar uma família, acho que você também precisa voltar umas cinco casas, sentar ali no cantinho e rever alguns conceitos.
  4. “Ah, mas e eu? Eu também preciso de atenção, carinho e cuidado!”. Claro que sim. E se você ainda não notou, provavelmente ela também. Ela também deve se sentir carente, deve se sentir sozinha, deve sentir falta de um carinho, um cafuné, um colo, um sei lá o que. E só não pede porque fica preocupada de você entender que isso é um convite para vocês transarem. E ela não quer transar, cara. Ela quer carinho, cafuné, massagem nas costas. Não quer que isso termine na obrigação de dar para você. Mas como tem homem que não consegue dissociar uma coisa da outra, muita mulher fica ali com a sua carência, tendo que dar para o filho o que não tem. Que tal, ao invés de chegar junto, você ser apenas carinhoso com sua mulher? Sem segundas intenções. Ou com segundas intenções mas sem botar nenhuma pressão. Pode rolar algo, pode não rolar nada, mas pode rolar carinho, afeto, troca e isso pode ser muito bom tanto para um quanto para outro.
  5. Além do que, não sei se você já reparou, mas o seu filho… é um bebê. E você… é um adulto. E uma das diferenças entre um adulto e um bebê é que o adulto deveria saber que um bebê tem necessidades mais vitais e mais urgentes do que as dele. Um adulto deveria ter aprendido a esperar, a adiar e, até, a renunciar. Para a boa e velha psicanálise, é isso que a gente “ganha” quando passa pelo tal do complexo de Édipo. Presente de grego? Sim, literalmente. Mas é uma beleza saber disso par lidar com a vida, com as impossibilidades da vida e com as frustrações que fazem parte de estar vivo.
  6. “Ah, mas então esse pirralho que fique ali frustrado, esperando, porque ele tem que aprender desde pequeno que não pode ter tudo o que quer… tem que ter limite, não pode dispor assim de tudo e de todos em função dos seus desejos.” Assim disse o cara que vê as necessidades de um bebê como desejos e caprichos e que vê os seus desejos como necessidades tão fundamentais que deveriam passar na frente daquelas que o bebê tem. Hummm… precisa explicar onde está o problema? Senta ali e pensa mais um pouco.
  7. “Mas isso dura quanto tempo? Porque, ok, eu sou um cara legal e fico de boa aqui, durante um mês, fazendo o meu papel de pai esmerado e marido compreensivo… mas tudo tem limite, né?”. Tem, tem mesmo. Mas, infelizmente, nesse caso quem coloca o limite não é você. A não ser que queira botar limite no casamento por não respeitar esse começo fusional e importante da experiência da maternidade. Mesmo que você possa argumentar, com todo o verniz psicanalítico que te parece muito útil nesse momento, que “o pai precisa entrar na relação entre a mãe e o bebê e estabelecer um terceiro nessa relação, um corte, um limite”. Mesmo que você argumente que sua interferência e sua reivindicação são legítimas e para o bem da criança. Porque, novamente, você está usando algo para o que te convém. Do mesmo jeito que usa sua mulher-objeto, usa esse argumento do terceiro. E porque, qualquer um que considere com o mínimo de seriedade esse argumento psicanalítico sabe que as relações mãe-bebê que se tornam doentias e coladas são uma minoria. E que a dependência é uma necessidade do bebê para a qual a mãe se presta. Felizmente. E que o terceiro vai entrar de todo o jeito. Que você vai entrar de todo o jeito. Porque você existe. E o mundo existe. E se você parar de ser um babaca e for mais humano, cuidadoso, sensível e respeitoso com a sua mulher e com as necessidades do seu filho, ela não vai precisar ficar lutando contigo para proteger as necessidades básicas dele. E vai ser muito mais fácil dela deixar você estar perto. Até para transar, cara.
  8. Se ainda não ficou claro, vou dizer de outro modo: se você for infantil o suficiente para encarar a paternidade como uma competição com o seu filho recém-nascido pela atenção da sua mulher, e se você cair na besteira de ficar concorrendo com ele como se os dois estivessem no mesmo lugar, e se insistir em ficar dificultando ainda mais a vida da sua esposa nesse momento que já é tão difícil, delicado e sensível… quem vai perder é você. Anota aí em caixa alta, que essa é quase uma certeza absoluta: SE OBRIGAR UMA MULHER A ESCOLHER ENTRE VOCÊ E O FILHO DELA, ELA VAI ESCOLHER O FILHO. Quantas mulheres vocês conhecem que fizeram o oposto disso? Por pressão social, tradição cultural, instinto, ou simplesmente porque a pessoa tem o mínimo de noção para perceber que botou um ser no mundo que precisa dela e pelo qual ela é responsável… adivinha quem vai ganhar se você entrar nessa competição baixa, mesquinha e perversa? Não é você, cara.
  9. “Ah, mas então é ela quem vai perder porque eu vou procurar fora o que não tenho em casa!”. O mais triste nesse argumento, para mim, é que tem muita mulher que acredita nele. E fica com medo. Medo de perder o machistão ogro que é capaz de ameaçar mesmo que tacitamente uma mulher que acaba de gerar um filho dos dois com essa história de transar com outra. E a última coisa que uma mulher quer, logo que tem um filho, é se separar logo em seguida. Ou durante a gravidez. E é incrível como isso é mais comum do que temos notícias. E, podem anotar aí como mais uma quase certeza absoluta: para uma mulher se separar grávida ou recém parida é porque a coisa tem que ser muito, muito séria, muito grave. Porque ela certamente vai ter muito medo de ficar sozinha com tudo o que envolve ter um filho, ela vai ter tanto medo de se separar nessa hora que vai se dispor a engolir muita coisa. O que significa que um cara, para conseguir que uma mulher vá embora grávida ou com bebê nos braços precisa fazer uma asneira descomunal, tipo achar que tem razão em ir “procurar fora”.
  10. Então, colega, se você cogitou mesmo que remotamente em arrumar uma amante, uma peguete, um casinho ou mesmo uma história de uma noite no exato momento em que sua mulher está às voltas com o turbilhão que é ser mãe, deixa eu te dizer que você está correndo um risco imenso. Mesmo. Você está em sério perigo. Porque, na minha humilde opinião, traição nunca é algo bom. E porque uma mulher traída num momento desses é uma mulher que tem medo, mas também é uma mulher que tem uma coragem colossal de te mandar pastar. Os casais têm ou teriam mil maneiras de construir suas relações levando em conta que querem ter outros parceiros, poliamor, triângulo, poligamia serial ou o que quer que funcione para cada casal específico. Cada casal constrói sua relação e quanto mais abertos estejam a estar com o outro de maneira sincera e menos dispostos a adotarem qualquer clichê besta sem nem ao menos pensar se isso serve a eles, mais chance a coisa tem de dar certo. E mentir e trapacear não fazem parte do pacote. Nunca. Mentir e trapacear são coisas de gente que não assume o que quer, nem para si, nem para o outro. E que não corre o risco de construir ou encerrar uma relação por assumir o que quer. Mentir e trapacear são coisas de quem quer ter tudo, de quem não quer perder nada. E de quem não quer ter que pagar o preço de nada. O ogro lá de cima. O machista. No limite, o perversão de plantão. O narcisista. E, se além de mentir e trapacear você decide que a gravidez da sua mulher ou o pós-parto são momentos legítimos para você sair por aí exercendo o seu direito de transar com quem quiser… Bom, tudo o que posso te dizer é que na hora em que ela ficar sabendo vai ser muito difícil para ela conseguir te perdoar. Porque sempre que ela olhar para o filho, ela vai lembrar que estava sozinha enfrentando todo o perrengue do começo de vida com um bebê enquanto você se afastava, se desimplicava, se desincumbia. E se não é raro que mulheres e casamentos sobrevivam após traições do cara-metade, traições durante gravidez e puerpério raramente terminam em outra coisa que não uma separação em um péssimo momento. Com direito a muito sofrimento para todos. Volta para o início do jogo e nasce de novo. De preferência com um coração que funciona, ok?

Não se preocupe que eu volto para acalentar seu coraçãozinho perturbado com uns do & don’t mais simpáticos na continuação desse post. Que antes de poder ser simpática, generosa e construtiva era preciso esclarecer algumas coisas bem sérias que as mulheres dificilmente conseguem falar com seus parceiros quando o assunto é sexo depois de ter filhos. E que já era hora de alguém dizer.

 

Amamentação: 8 meses and counting…

Eis que passaram os seis meses de amamentação exclusiva. Eis que começou a diversificação alimentar. E então eu li por esses dias três coisas que me fizeram pensar que estava na hora de desentalar esse texto aqui e mais uns outros bem desaforados que, espero, virão em seguida.

Comecemos pelo pior, que foi uma discussão em um grupo privativo da Leche League sobre uma mulher aqui na França que ouviu de sua advogada que, caso ela não pare de amamentar seu filho de três anos até a próxima audiência, a guarda da criança será atribuída ao pai. Sim, você não leu errado, uma mãe é ameaçada de perder a guarda do filho porque ainda o amamenta aos três anos de idade e isso, aqui na França, é considerado como algo absurdo, uma espécie de manipulação da mãe, que visa apenas manter a dependência da criança e afastá-la do convívio com o pai. Nos comentários dessa discussão, dezenas de casos parecidos, em que juízes e juízas decidem por uma guarda compartilhada – o que é praxe nos casos de divórcio por aqui – independentemente da idade da criança e independentemente do fato dela ser amamentada. Em muitos casos, inclusive, a amamentação funcionou como argumento contra a mãe.

Devo confessar que esse tipo de situação me deixa em um misto de tristeza infinita e revolta furiosa porque, vamos combinar, é algo incompreensível para além do terreno da perversidade pura e simples. O que me faz pensar que em algum momento vou conseguir escrever sobre como é ser mulher aqui na França. Mas continuemos aqui apenas no tema da amamentação.

Pois é, por aqui amamentar um bebê é algo opcional e ninguém acha estranho que você decida não fazê-lo porque, segundo a mentalidade francesa, isso entra na conta das liberdades de escolha de uma mulher. A indústria alimentícia e os fabricantes de leite em pó agradecem. Ainda mais na medida em que, junto a esse discurso da liberdade da mulher em escolher se amamenta ou não, veio se agregar um discurso bastante distorcido sobre a dependência entre um filho e sua mãe. E aqui as pessoas parecem ter pavor da dependência, a tal ponto que propostas como deixar o bebê chorando até dormir desde recém nascido encontram eco e são tomadas como boas orientações de conduta.

As pessoas parecem tão assombradas com essa idéia de que a dependência é uma espécie de veneno perigoso que sua maior preocupação, desde que os bebês nascem, é garantir que eles sejam autônomos. Não parece desejável e nem mesmo suportável cogitar que esses bebês, que certamente caminharão rumo à autonomia, dado que isso faz parte da vida, precisem viver um momento de dependência absoluta que vai funcionar como aquilo que lhes traz segurança para poderem se aventurar mundo afora. Como já dizia o bom e velho Winnicott. Mas ele não era francês. Infelizmente para os franceses.

Assim, não causa espanto, em uma sociedade onde a preocupação principal quando o assunto é a infância se centra na independência a qualquer custo das crianças de qualquer idade, que um comportamento qualquer que crie e mantenha laços fortes entre duas pessoas possa ser entendido como contrário ao que se almeja e tenha que ser, consequentemente, combatido. Por isso, uma mãe que amamenta por um longo período é vista como alguém que faz isso em detrimento da criança, visando apenas manter o filho colado, dependente e, com isso, distante dos outros e da sociabilização. Uma mulher que amamenta é um mal a ser combatido aqui na França.

Nem vou entrar no mérito de todas as pesquisas que comprovam que uma amamentação longa traz benefícios importantes para o bebê e para a mãe. Nem vou detalhar as recomendações feitas pela OMS sobre o tema e a ênfase que dão em que se amamente até, no mínimo, dois anos de idade. Por aqui, o pessoal não respeita as diretrizes da OMS, como se fossem mais sábios que isso. Coisas da arrogância francesa.

Ao invés de repisar todas essas informações, ou de falar novamente sobre a importância da dependência na primeira infância justamente para criar pessoas seguras, confiantes e autônomas, prefiro dessa vez falar sobre a segunda leitura que mencionei logo acima, um texto lindo de um sociólogo defendendo a amamentação. Além do fato de ser um homem que defende o amamentar – o que é não apenas raro, mas basicamente o contrário do que a maioria dos homens fazem – seus argumentos são formulados de uma maneira muito inteligente e perspicaz. Leiam o texto, está em francês e em inglês.

Basicamente, o que o Akré mostra, a partir de dados, estudos e pesquisas, é que a questão principal para se apoiar o aleitamento materno é que não podemos realizar nosso pleno potencial se não consumirmos o primeiro alimento feito especificamente para nós, humanos. E assim ele mostra como a amamentação contribui significativamente para que o ser humano possa se desenvolver no melhor de suas capacidades. Ou seja, não é que a amamentação faz com que sejamos mais inteligentes, por exemplo. É que a não-amamentação faz com que não consigamos utilizar todo o nosso potencial de inteligência. Nas palavras de Akré: “Os bebês humanos não realizarão jamais seu potencial genético consumindo fast-food pediátrico – eu falo aqui dos leites industrializados – fabricados à partir de uma espécie que nos é estrangeira”. Em resumo, sua perspectiva é que a amamentação não nos dá um “a mais” em relação aos bebês que não são amamentados. Não faz sentido falar em vantagens da amamentação, pois isso seria como falar das vantagens de andar em pé e não sobre quatro patas. A amamentação permite apenas o desenvolvimento máximo daquilo que temos potencialmente em nós. Coisa que o leite em pó não permite. E, não, não é uma mágica ou uma crença, é questão de composição mesmo.

Vale a pena lembrar que o leite em pó surgiu para resolver uma situação de urgência, ou seja, para servir como alimento substituto nos casos em que o aleitamento materno não fosse possível. É como a cesariana, que surgiu para solucionar casos de urgência em que um parto normal não fosse possível. Não são opções, no sentido de que não são escolhas entre duas coisas equivalentes. São alternativas piores para os casos em que aquilo que é o melhor, o mais indicado e, por que não, o mais natural, não funciona. Têm uma função de remédio e não de algo para ser utilizado rotineiramente.

Em uma sociedade em que amamentar tornou-se questão de escolha sob o falacioso argumento em prol da liberdade da mulher (porque isso não tem necessariamente a ver com liberdade, mas explico num outro texto, prometo) e em que amamentar tornou-se perigo de cultivar uma dependência perniciosa para as crianças em relação às suas mães, ninguém parece preocupado com aquilo que se perde – ou que se impede – quando se adota esse descaso pela amamentação como regra. E essa perda é não apenas emocional, psicológica, mas também cognitiva, imunológica e em vários outros níveis.

Então, chega o terceiro texto, os resultados de uma pesquisa brasileira mostrando o perfil das mulheres que amamentam por dois anos ou mais. Segundo as pesquisadoras, existem algumas características comuns às mulheres que conseguem amamentar de maneira prolongada. Entre elas estão permanecer em casa por pelo menos seis meses de licença maternidade, não dar bicos artificiais como chupetas ou mamadeira ao bebê, fazer a diversificação alimentar apenas à partir do sexto mês e, vejam só, não viverem com o pai da criança.

Retornamos ao início, por um outro viés. O que quer dizer isso de que as mulheres que amamentam prolongadamente (em geral, né, gente, não é a regra absoluta) serem mulheres que não vivem com o pai da criança? Podemos interpretar, seguindo a linha francesa, de que são provavelmente mães que superinvestem os vínculos com seus bebês e os mantém em uma relação de dependência, infantilizando-os tanto quanto possível através da amamentação. Ou podemos pensar, seguindo a linha do Akré, que um dos maiores obstáculos para a amamentação e para o sucesso da amamentação prolongada consiste na falta de apoio das pessoas próximas da mãe e de bebê, principalmente o marido.

No mundo não tão cor-de-rosa da maternidade tem muita mulher tendo que batalhar sozinha para conseguir amamentar. Já ouvi um número desolador de relatos de pais enciumados, que entram em competição com a cria, que se mostram infantis e contrariados por deixarem de ser o centro das atenções daquela relação do que era antes apenas um casal, ou daqueles seios que eram anteriormente apenas “dele”. Já ouvi pais argumentarem que o fato da esposa amamentar impede que eles possam também construir uma relação com o bebê. Sim, exatamente como no argumento usado por pais, advogados e juízes para impor um final de amamentação forçado para uma criança sob risco da mãe perder a guarda, lembram? Já ouvi mães cogitarem dar mamadeira para seus bebês por acreditarem nesse argumento do interesse dos pais em criarem um vínculo com seus filhos e de que esse seria o melhor e mesmo o único modo de fazerem isso. Dar mamadeira seria a única forma de se aproximarem de um bebê, que tal? Já ouvi homens e mulheres argumentando que amamentar é um ato de egoísmo da mulher que tenta, assim, conservar o bebê apenas “para ela”. Conclusão: muitas vezes, a maior dificuldade de uma mulher em amamentar seu bebê é o clima hostil e conflitual criado pelo pai da criança em torno da amamentação. Que coisa triste que uma das primeiras pessoas que deveria entender e valorizar o esforço da mulher em dar o melhor para aquele que, em última instância, é filho de ambos seja um dos maiores empecilhos justamente para que essa criança possa ter o melhor, não? Que mundo estranho e deturpado é esse em que dificultar ou impedir a amamentação é visto como salvar o filho de uma ameaçadora dependência, esse mal terrível encarnado pela mãe?

Aqui nesse mundo estranho, chegamos aos 8 meses de amamentação, seis dos quais em exclusividade. A segunda vez foi mais fácil, pois teve o apoio da experiência da primeira. O que fez com que eu já soubesse quem pode realmente ajudar, a quem realmente dar ouvidos e a quem jamais procurar em busca de conselhos quando o assunto é amamentação.

Ainda na maternidade, as enfermeiras vieram perguntar como eu alimentaria o bebê – pergunta de rotina por essas bandas quando você chega para parir. Disse que amamentaria e me perguntaram se eu precisava de ajuda ou orientação. Disse que não. Me perguntaram se tinha amamentado a primeira e eu disse que sim. Por quanto tempo? Até seus 20 meses. Ah, então você tem experiência. Sim, tenho.

O importante dessa conversa não é que eu estivesse mais ou menos emponderada em relação ao tema, mas que eu tinha mais noção dessa vez sobre com quem valia à pena conversar. O primeiro mês de vida da minha pimpolha foi um calvário de enfermeiras obstétricas, auxiliares de puericultura, sage-femmes e pediatras todos dando pitacos desencontrados sobre uma amamentação que quase foi para o beleléu por conta disso. Complementa, faz intervalo de 3 horas, acorda para dar de mamar, faz em tal posição, muda de peito, espera esvaziar um peito, deixa dormir no peito, acorda para continuar mamando… Quase enlouqueci. E a coisa só começou realmente a funcionar quando eu parei de escutar todas essas pessoas que na realidade não entendem nada de amamentação porque não possuem nenhuma formação específica sobre o assunto e falam a partir de preconceitos, senso comum e informações errôneas. E passei a me orientar com consultores de amamentação, grupos sobre o tema, o pessoal da Leche League e, especialmente, com mães que amamentaram longamente. Dali em diante foi uma experiência muito linda, tocante e rica de emoções para ambas. Aprendi muito amamentando minha filha, tanto sobre mim mesma, minhas possibilidades e meus limites quanto sobre ela, sobre como é nascer, sobre como é depender, sobre como é contar com o outro, sobre como é crescer, confiar, amar…

Nessa segunda vez já nem abri brechas para o azar. Coisa que não poderia ter feito na primeira, pois nunca tinha amamentado, não conhecia tanta gente próxima que o tivesse feito, não tinha muito em quem me espelhar – e, sim, amamentar, tanto quanto parir, é mais fácil quanto mais você tem modelos no seu entorno – e tinha toda a insegurança da primeira vez, do primeiro filho, da inexperiência. Então tive que aprender rápido, tomar as rédeas dessa história, cuidar para fazer o melhor possível com as informações que eu tinha, confiar na minha capacidade e na capacidade da minha filha… E tudo isso eu trouxe para o segundinho que, sortudo, não passou muito perrengue. Mesmo tendo uma pegada bem ruim no começo, mesmo mamando esbaforido, mesmo engolindo tanto ar que achei que ele fosse inflar e sair voando como balãozinho de gás… Eu respirava fundo, arrumava a pega do menino desesperado e acreditava piamente que ia dar tudo certo. E deu. E quem olha as dobrinhas branquicelas das perninhas desse pequeno hoje em dia nunca que iria imaginar que ele foi um bebezinho que no começo nem sabia mamar direito. E que ele aprendeu mamando e que a mamãe aprendeu como é que era para dar de mamar para ele. E que foi a confiança e a aceitação da dependência que ajudaram para que essa história de amamentação pudesse correr bem.

Vai por mim, se você busca algum conselho sobre amamentar: discuta com quem amamentou durante um longo período. Discuta sobre como a pessoa fez, sobre o que funcionou para ela e para o bebê dela. Provavelmente essa pessoa, quem quer que seja, vai te dizer quase as mesmas coisas que qualquer outra pessoa que teve a mesma longa experiência de amamentação diria: amamentar em livre demanda, seguir e confiar no ritmo do bebê, não julgar se ele está com fome ou não, se é manha ou não e dar o peito sempre que ele pedir, não dar chupeta, mamadeira, não usar bico de silicone nem nada que o valha, confiar que tem leite porque a imensa maioria do leite que o bebê mama é produzido durante a mamada e um peito mais cheio ou mais murcho não quer dizer grande coisa, descansar, deixar a casa bagunçada mesmo, deixar-se levar… confiar. Mães que amamentaram seus filhos prolongadamente sabem mais sobre o assunto do que a maior parte dos auto proclamados especialistas porque apenas nas situações de exceção a teoria importa mais do que a experiência.

 

Desacorçoada – ou como parei de gritar com a minha filha

Algumas vezes, quando perguntava à minha avó como ela estava, ela respondia: “ah, hoje estou desacorçoada…”, o que era algo entre o desanimada e o triste e sem esperanças, sem precisar assumir nenhum deles. Desacorçoada era o bom termo para ninguém encher o saco dela dizendo que ela devia estar bem ou pedindo explicações de seu desacorçoamento. Desacorçoada ela ficava em paz para estar triste, sem esperanças ou desanimada o quanto quisesse. Ou precisasse.

Então, eu andei desacorçoada nos últimos tempos. Não o cansaço de ser mãe de dois, não a gastura do verão de dias quentes daqui do sul da França, que eu nunca gostei de verão, mesmo sendo brasileira… não, desacorçoada mesmo. Eu explico.

Nessa história de educação com apego, que é simplesmente você tentar educar os seus filhos de forma respeitosa, tratando-os como seres humanos, respeitando suas vontades, seus limites, suas necessidades e tudo o mais que o respeito a um ser humano inclui ou deveria incluir, muitas vezes nos vemos confrontadas com um desafio hercúleo que é aquele de tentar dar o que não tivemos: como educar sem violência se não temos nenhum registro disso na nossa própria experiência?

Dizem que ninguém dá aquilo que não tem e estou convencida de que aquilo que temos para dar se constrói ao longo de nossas experiências, de nossa história, de nossa vivência, especialmente da infância e da primeira infância. O que temos para dar se constrói na dependência dos outros, do que recebemos, da forma como fomos recebidos nesse mundo e a ele fomos apresentados. Então, o que podemos dar ao mundo será sempre um bom tanto em consequência disso que tivemos desde o início. O que não quer dizer uma condenação, como se uma experiência ruim pudesse colocar absolutamente tudo a perder. Felizmente, não somos apenas uma única experiência, quer ela se chame nascimento, amamentação ou qualquer outra coisa de igual importância nesse começo de vida. Mas… que conta um bocado, conta.

E daí a gente vira adulto e decide que quer dar um monte de coisas aos nossos filhos, o que significa, nesse meu contexto aqui, não materialidades, mas dar um certo tipo de criação, apresentar o mundo de uma certa maneira, receber e se relacionar com essas crianças de um certo jeito que é o que acreditamos ser o melhor para nós e para eles… o mais ético, o mais respeitoso, o mais cuidadoso, o mais amoroso… E aí a gente descobre o quanto é difícil. E um dos motivos – e atentem bem ao “um dos”, porque não é o único – é que possivelmente é nessa hora de querer oferecer algo que a gente se dá conta que não sabe muito bem de onde tirar.

Vejam bem, eu não vou fazer aqui um relato de uma infância infeliz e violenta, porque não é esse o caso. Existem infâncias muito mais radicalmente violentas e complicadas do que a que eu vivi, então é sempre importante nuançar as coisas. Digamos que, na minha história, um bom resumo estaria na frase ouvida à exaustão durante toda a minha infância “mas criança não tem querer”.

Criança não tem querer e a pessoa aqui foi virar psicanalista, sacaram? Na psicanálise, o que move o ser humano, do primeiro ao último suspiro é justamente o querer. Sem desejo, não há nada que se possa chamar de vida ou de humanidade em uma existência. Que tal? Ah, para evitar equívocos, em psicanálise, a primazia do desejo não significa dizer que o ser humano faz tudo o que ele quer, ou que ele faz tudo o que for preciso para alcançar o que quer. Seria assim – e muitas vezes é mesmo – se não fosse por conta de outra coisa linda que o ser humano tem que é a capacidade de renunciar ao todo de seu desejo realizado em prol de uma coletividade. Ou melhor, não é que cada humano generosamente renuncia ao seu desejo totalmente satisfeito em prol de satisfações parciais partilhadas por todos, que nós não somos esses seres altruístas não. Mas somos forçados a isso pelo fato de termos inteligência o suficiente para perceber que esse desejo que tenta se realizar a qualquer preço é sinônimo de vencer pela força e subjugar os mais fracos. E, nesse outro jeito de funcionar do mundo, haveria apenas um mais forte que subjugaria todos os demais, ou seja, só um que teria tudo o que deseja enquanto que os outros ficariam com aquilo que eu ouvia quando criança, sem ter querer. Freud, Totem e Tabu. Leiam, é um belo mito das origens, no sentido mítico mesmo, daquilo que fundaria um pacto civilizatório. Pois bem.

Todo mundo tem querer, até mesmo as crianças. E os velhos. E os loucos. E os deficientes de todos os tipos. Isso é, em suma, o que aceitamos quando aceitamos viver em sociedade. Todos têm querer e então não vai dar para todos terem tudo o que querem. Então vamos compartilhar esses quereres, e que cada um realize um bocadinho do seu. O que é melhor do que o domínio do mais forte sobre o mais fraco. A não ser para o mais forte que pode facilmente esquecer que mesmo no mundo dos animais bem mais inteligentes que nós, como por exemplo entre os leões, o mais forte um dia também envelhece e vai ser vencido pelo próximo mais forte e assim por diante numa tirania sem fim até o fim dos tempos. Melhor todo mundo ter um pouco e uns cuidarem dos quereres dos outros com zelo, respeito e consideração, não? Contemplando o que é possível, ajudando a lidar com o que é da ordem do interdito ou do inalcançável.

Que tal? Parece pouco? Digamos que talvez o melhor dessa nossa civilização tenha se baseado nesse acordo. Por quê? Porque se a gente não tem mais que passar a vida inteira brigando e se matando para ver quem é o mais forte e quem é que pode ter o seu querer, podemos nos dedicar a coisas, digamos, mais interessantes como, por exemplo, produzir cultura, criar história, inventar tecnologia… em suma, melhorar nossos modos e meios de vida. Sacaram? Se não precisa se matar, dá para fazer outra coisa. Inclusive amar, viajar, fazer nada, ler um livro, inventar novos modos de preparar batatas, ou criar o futebol e o rugby… you name it, amiguinho. Porque se a gente for parar para pensar que o que entendemos por civilização e cultura é uma criação humana e que isso depende de que o ser humano possa se dedicar a inventar modos e meios de vida, a gente logo se dá conta que abrir mão de um tanto da nossa realização de desejo em prol de tantas conquistas coletivas que melhoram a vida de todo mundo pode ser um baita negócio, certo?

Certo e errado. Porque infelizmente nós seres humanos não somos tão lisos e tão limpos assim. E se aceitamos de bom grado as vantagens desse pacto civilizatório e se ficamos bem contentes em poder tomar um bom vinho, em assistir o último filme do Almodovar ou em poder contar com todos os recursos da ciência e da medicina para tratar de uma doença… paradoxalmente não ficamos assim tão convencidos nem satisfeitos de que isso deva supostamente beneficiar a todos igualmente. Em outras palavras, estamos felizes que a civilização pague pelos nossos benefícios sociais, pelo nosso carro novo na garagem, pela nossa garagem, pela nossa viagem pra Zooropa nas férias de julho… mas começamos a nos sentir bem explorados se essa tal civilização começa a querer pagar também pelas cotas nas universidades, pelo bolsa família, pela demarcação das terras indígenas, pela criminalização da homofobia ou pela legalização do aborto… E de repente começamos a sentir que essa tal civilização é injusta e que deveríamos dobrar os acordos aos quais todos cederam lá em algum ponto inicial e mítico em prol de uma “justiça” mais para o nosso lado, mais a nossa maneira. Eis o retorno insidioso e sorrateiro da lei do mais forte que, na verdade, parece ter sempre funcionado para colocar um grupo de humanos contra outros, ou para federar um tanto de humanos contra o restante, como nos contam todas as guerras, conflitos e explorações de uns povos por outros ao longo da história. E como constatamos com amargura nos tempos recentes, essa tal lei da força nem tinha sido tão deixada de lado assim, ao menos quando se trata de Brasil, esse nosso país onde aparentemente o tal pacto civilizatório foi apenas de fachada, um truque, uma gambiarra qualquer que alguém fez, muitos acreditaram, mas que era “de mentirinha”. Coisa de gente sem lei. Ou coisa de quem nunca se preocupou em pagar o preço de ter uma.

Mas calma que estou me desviando sem me desviar realmente dessa história de desacorçoada, criação com apego e criança não tem querer.

Pois bem, quando começamos a tentar educar os nossos filhos de uma maneira mais respeitosa e menos violenta é quando a porca torce o rabo e quando nos damos conta do tanto de violência mais ou menos declarada, mais ou menos subterrânea à qual fomos submetidas ao longo de nossa existência, muitas vezes sem percebermos. E não sabemos de onde tirar um modo não violento de lidar com os filhos.

Criança não tem querer. Uma expressão da vontade, uma expressão do simples fato de existir que nunca teve lugar nem legitimidade. Criança não tinha nenhuma autorização para existir enquanto ser querente. Criança não tinha nenhuma autorização para simplesmente existir. Poderia ser pior e é para muitas crianças que são literalmente massacradas em suas existências de todos os modos possíveis. Física, moral e psicologicamente. Em nome de justificativas toscas como “educação” ou “amor”. My ass.

Criança não tem querer pode se tornar, num piscar de olhos, tapas, beliscões, objetos arremessados e, ainda noutro piscar de olhos, palavras duras, especialmente quando vindas de uma mãe ou de um pai, aqueles seres quase divinos que toda criança acredita serem os portadores da verdade: “você é chata”, “você é egoísta”, “você é estranha”, “como você é boba”, “você é feia”, “você não é bonita, mas é inteligente”… Daí para se olhar no espelho e começar a se achar estranha, feia é apenas mais um piscar de olhos. E que criança não chorou a dor de se ver aquilo que o adulto amado diz e de se ver de repente algo que não tem valor, algo que não serve, algo que pode ser deixado de lado? Choro, dor e medo… como é que faz para ser alguém que esse adulto ame?

Pouco a pouco, essa criança vai acostumando com esses dizeres que são ela, com essas ações dirigidas a ela. Existe algo errado e esse algo é ela. Ela é que tem que mudar, melhorar, ser alguém amável aos olhos do outro. O que acontece? A criança agora precisa ser para alguém, precisa agradar alguém para ser amada. Ou ao menos foi o que a fizeram acreditar. E quando a gente começa a precisar ser para o outro, acabou-se a nossa condição de ser coerente com a gente mesmo. Ensurdecemos para os nossos quereres, pois temos que saber o que o outro quer. Para atendê-lo e, quem sabe, termos seu amor em troca. Uma criança que não tem querer é uma criança que deveria estar conformada a apenas querer atender o querer do adulto. Como se ela tivesse sido criada para isso. No dia em que ela crescer, quem sabe, poderá querer, quem sabe até poderá querer subjugar um outro alguém que atenda aos seus quereres. Mas o que pode ela querer se ela nunca teve querer nenhum? Como ela vai saber o que quer?

O jeito como somos educados parece que nos atravessa quando temos filhos, mesmo à nossa revelia. E nos pegamos fazendo com os pequenos aquilo que fizeram conosco, repetindo os mesmos mantras, respondendo com a mesma violência. E então um dia minha filha diz que quer alguma coisa, em alto e bom tom. E uma fúria cega toma conta de mim e eu digo não apenas por dizer e ela insiste e eu grito. Grito mesmo toda a minha raiva. E penso “criança não tem querer”. E cada uma dessas palavras cheias de ódio dessa frase odiosa quase saem pela minha boca. Mas eu consigo conter cada uma e engolir cada letrinha de cada uma delas e saborear o gosto horrendo dessa sopa de letras e palavras até elas borbulharem no meu estômago, gerando um asco imenso por mim mesma, por cada uma dessas palavras, por cada um dos gritos que já escapou da minha boca em direção à minha filha, por cada vez que explodi.

E então vem a notícia podre da menina que foi estuprada por cerca de 30 homens. Não vou colocar o link aqui, todo mundo está sabendo. E ao absurdo desse acontecimento se junta o impensável dos comentários das pessoas. Das pessoas que pensam que o que quer que seja no comportamento, nas palavras, na história, nas atitudes dessa menina poderiam justificar a violência à qual ela foi submetida. Todo o espectro das obscenidades do “ela pediu”, “ela não disse não”, “ela era isso ou aquilo”… todo o desfile de horrores que os homens e mulheres podem demonstrar numa situação dessas. Homens e mulheres se comprazendo em pensar que a violência contra essa menina era merecida. E foi aí que eu fiquei realmente desacorçoada.

Eu poderia escrever uma tese aqui e talvez algum dia a escreva, mas o importante a reter é que, ao ler essa notícia, pensei imediatamente na minha filha. Poderia ser minha filha, não poderia ser minha filha… quem não pensa isso tendo uma filha num mundo como esse? Mas não apenas isso. Pior que isso. Pensei, percebi, talvez pela primeira vez, que eu poderia ser uma influência direta para que esse tipo de violência acontecesse com a minha filha. De que modo? Gritando com ela.

Nossa, Alessandra, agora você viajou, nada a ver isso que você está falando. A menina era uma vagabunda, favelada, drogada, tua filha é uma criança, um anjo, uma graça.

Pois é, minha filha é tudo de melhor que existe nesse mundo. E cada vez que eu grito com ela, o que talvez ela aprenda é que “a mamãe me ama” e “a mamãe grita comigo”. E talvez com isso ela aprenda que eu fazê-la se sentir mal e triste faz parte do amor. E talvez ela aprenda que amar e fazer sentir mal e triste são duas coisas que andam juntas. Afinal, se até a mamãe faz… Talvez ela aprenda que é normal ela ser tratada com gritos. E daí ela poderá achar normal ser tratada com outros tipos de violência. E talvez ela poderá achar normal ser xingada, menosprezada, insultada. Ou até mesmo apanhar. E poderá achar que tudo isso vem junto com o amor. Ou que se isso existe numa relação qualquer, existe nesse mesmo lugar ou nessa mesma pessoa amor também. Talvez isso faça com que ela comece a aceitar ser tratada menos bem do que poderia reivindicar, talvez ela comece a aceitar pequenas violências cotidianas, pequenas ofensas, pequenas feridas. E talvez ela comece a esperar no meio disso as manifestações do amor que viriam junto. Talvez minha pequena vá começar então a mendigar os sinais de amor das pessoas por quem ela tem carinho. E talvez ela vá aceitar qualquer pequena migalha que essas pessoas lhe ofereçam. E talvez ela não consiga mais nem perceber que são migalhas envoltas em tudo isso que é violência, mas para o que ela nem atribui mais esse nome. Pois aprendeu na pele que era assim. Que a vida era assim. Que o amor era assim. Que as relações são assim. E então quando ela souber da notícia de uma menina estuprada, talvez ela pense que nem foi estupro. Ou que a menina mereceu, porque não era boa o suficiente para ser tratada com respeito, cuidado e amor. Como ela mesma. Ou como qualquer outro ser humano.

Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com ela é normal e nem é violência? Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com o outro nem é violência, ou é uma violência justificada? Pois é, no caminho a conta-gotas que leva a essa normalização que um dia pode fazer com que minha filha ache normal que a tratem de forma violenta e que meu filho ache normal ser violento com as pessoas está, bem lá no comecinho de tudo, entre outras coisas, eu gritando com eles. Será que não? Se eu fizer um apanhado da minha vida e das pequenas violências cotidianas do “criança não tem querer” que me ajudaram a tornar-me uma pessoa que, durante muito tempo, não entendeu violência como tal e que achou normal ter sofrido vários tipos dela, sempre na espera de ser amada, então sinto dizer que minha hipótese tem um grande risco de estar correta. Se for juntar à minha própria história outras histórias de outras mulheres que passaram a vida aceitando migalhas e sofrendo abusos os mais variados sem nem ao menos entendê-los pelo que são – abuso e violência – então realmente minha hipótese parece estar bem, bem certa.

Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres que carregam na sua história um monte de insultos, de desvalorizações, de humilhações, de tapas, de abusos, de estupros dentro de relacionamentos que deveriam ser amorosos… Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres taxadas de putas, de vagabundas, de não merecedoras de cuidado, respeito e amor como se fosse qualquer coisa nelas que autorizasse a violência dos outros sobre elas. Qualquer coisa no que elas são. Ou fazem. Ou dizem. Ou vestem. Ou pensam. Ou defendem. Como se a violência fosse válida para todo mundo que não se inscreve nos parâmetros traçados por aquele que decide quem é merecedora de violência ou não: o mais forte. Isso é a barbárie. Isso é a lei sem lei da violência. Da mesma violência dos gritos, das palmadas e das humilhações. Imaginar que é isso que vai educar e proteger nossos filhos é algo que só pode parecer lógico na cabeça de um imbecil ou de alguém para quem a violência foi dada a conta-gotas, desde o berço, até essa pessoa deixar de vê-la como tal. Essa pessoa que ficou cega para a violência sou eu, é você, é toda uma geração criada dentro dessa lógica insensata de que educar é adestrar e de que um tapinha não dói. Nunca. Até o dia em que o tapinha te mata e daí é tarde demais para perceber que se tratava de um tapa.

Mas eu sobrevivi! Sei, que bom, eu também. E conheço gente que sobreviveu a coisas que talvez teriam matado a mim e a você. E qual é a sua proposta? Que criemos mais uma geração de sobreviventes que, como nós, não saibam mais como resolver as coisas a não ser no grito, na porrada, até chegar à submissão do outro? Mais uma geração que, como a nossa, seja capaz de rir e de arrumar desculpa e justificativa para 30 caras estuprando uma menina? Esse é o projeto para nossas filhas e filhos? Isso é o melhor que podemos oferecer para eles?

Olha, se esse é o seu projeto e se isso te basta, sinto muito, mas não estamos nessa juntos. Eu vou tirar alguma coisa de onde não tive e vou aprender, nem que seja nesse embate cotidiano doloroso comigo mesma e com os meus próprios limites, a poder oferecer outra coisa à minha filha. E ao meu filho, que também está crescendo e que também corre o risco dos gritos. Eu parei de gritar com a minha filha porque é impensável dar mais um passo que seja na perpetuação desse círculo vicioso de pequenas imensas violências cotidianas destruidoras de esperanças e de subjetividades inteiras. Chega, não dá mais.

Então, a partir de hoje, aqui em casa criança tem querer. Já tinha antes, mas agora digamos que a coisa se radicalizou e acabou a gritaria para tentar abafar os quereres das crianças que nos causam espécie. E a gente vai vendo o que faz com isso. Com os quereres deles e com os meus ranços de respostas violentas. Porque a violência é como um vício e para se desintoxicar tem que fazer como os alcóolicos anônimos, um dia de cada vez, uma crise de cada vez, uma situação difícil de cada vez.

Para aqueles que vão entender dessa pequena reflexão que a idéia é, consequentemente, deixar a criançada fazer o que quer até se tornarem tiranos, mimados e começarem a mandar nos adultos, sugiro uma boa encerada na cara de pau do seu cinismo, um pouco de estudo e que dêem uma olhada no excelente documentário: Si j’aurais su… je serais né en Suède. E um pequeno disclaimer, só para te ajudar.

Veja, admitir o óbvio de que toda e qualquer criança e até mesmo os bebês recém nascidos têm querer não significa dizer que todo e qualquer querer de um bebê, de uma criança, ou até mesmo de um adulto poderá ser atendido. Isso só existe nas baboseiras hollywoodianas que insistem em vender para a gente que querer é poder. Ideologia marotinha que serve apenas para você acreditar que se você quiser algo, você consegue e, se não conseguir, o defeito é seu, e não um problema de uma sociedade feita para poucos conseguirem muito e o resto morrer tentando, ok? Fora desse mundo de conto de fadas que serve para o que serve isto é, vender sonhos impossíveis, com ênfase para o verbo VENDER, a questão dos quereres e de seus limites é um tanto mais democrática.

Existem quereres possíveis e existem quereres impossíveis para todos. Ao menos em uma sociedade que se pretenda civilizada. E não estamos falando do querer ter e do querer consumir, ok? Estamos falando do querer amor, querer cuidado, querer afeto, querer proteção, querer conforto, querer beleza, querer silêncio, querer presença, querer privacidade, querer atenção, querer ajudar, querer fazer, querer saber, querer aprender, querer autonomia, querer espaço, querer proximidade, querer respeito… todos os quereres ligados ao que é mais básico e vital para cada ser humano. São esses quereres que são possíveis, impossíveis, às vezes possíveis, às vezes impossíveis, parcialmente possíveis, momentaneamente possíveis… E talvez seja isso que os pais deveriam poder ensinar aos aos filhos. Que a gente quer e precisa de muita coisa, muita coisa que no fundo parece até bem simples e óbvia. E que o Freud lá de alguns parágrafos acima resumiu em outro livro como: a gente quer, no fundo, no fundo, ser feliz. A gente quer muito, quer mesmo, com toda força. E às vezes não dá. E é um aborrecimento. E a gente aprende a fazer algo desse aborrecimento. E a continuar querendo. E a tentar outras vias. E a deslocar para outros quereres. E realizar algumas vezes esse querer. E noutras não.

E esse é o erro ou o cinismo puro e simples de quem pensa que educar é algo que se aproxima de um adestramento e que prefere se apegar no que concebe como “dar limites”, como se os limites não estivessem aí postos para toda e qualquer pessoa. Quer coisa mais limitada e limitante do que ser um bebê e ter que se haver o tempo todo com a frustração de ter seus quereres atendidos em permanência por um outro que pode estar ali para responder ou não, que pode entender ou não, que pode estar a fim ou não? Se tem alguém que sabe bem dos limites são os bebês e as crianças, acreditem. Esses pequenos que não podem nem trocar uma fralda de cocô sozinhos e se livrarem do desconforto de um bumbum molhado e assado. Então, você acha que precisa mesmo ensinar para eles que existem quereres que eles não vão poder realizar? Você acha mesmo que eles não constatam isso todos os dias, do mesmo modo que você?

Pois é, uma hora dá um insight e a gente percebe que isso não faz nenhum sentido e que qualquer ação violenta direcionada aos nossos filhos sob pretexto de “educação” deve ser urgentemente repensada. E aqui não falo apenas em palmadas, mas em gritos, humilhações, palavras ofensivas, xingamentos e todo tipo de desvalorização. Violências de vários tipos, nenhuma sem consequências. Elas fazem parte de um mundo que eu, pessoalmente, não faço nenhuma questão de transmitir para a próxima geração.

Em tempo: todo o meu respeito, meu carinho e meu cuidado a essa menina que sofreu tão abominável violência desses 30 dejetos. Você é uma pessoa tão digna de respeito, cuidado e afeição quanto eu, meus filhos e tudo quanto é gente que eu conheço e amo. Você não é mais, nem menos do que nenhum deles. E eu lamento no fundo da minha alma aquilo que você viveu. Conte comigo e com o meu apoio.

 

 

Ter irmão…

Enquanto me arrumo, a pequena sentada no chão cola adesivos em uma grande folha de papel, cantando e conversando. O pequeno ali perto, cantarola olhando um tanto as folhas agitando raios de sol pela janela, um tanto os brinquedos ao seu redor, um tanto a irmã. O tempo passa, ela concentrada em sua obra, ele se impacienta. Resmunga, resmunga, começa a querer chorar. Chora um pouco, ela concentrada. Chora mais um pouco, ela na dela. Penso em pedir para ela ir até ele levar um brinquedo, mas fico quieta e me apresso em terminar o famigerado banho.

Ela se levanta e desaparece do meu campo de visão lá para os lados dele. Silêncio. Pé ante pé vou dar uma olhada, segurando um: “o que vocês estão fazendo?” que espera alguma molecagem do outro lado. Ainda bem.

Eles não me vêem, mas eu os vejo. Ela faz um cafuné na cabeça dele, ele olha para ela chupando um dedo e dando risada, ela dá risada e um beijinho na cabeça dele, ele ri alto e se balança feliz. Ela volta para sua colagem, senta e continua falando, cantarolando e colando seus geometrismos coloridos. Ele resmunga de novo, ela vai ali para os lados dele e diz algo como: “não precisa chorar”. Ele sorri, outro cafuné, ela volta para a colagem. E decide que é divertido correr de um lado para o outro. Corre até ele, corre de volta para sua colagem. Ele decide que isso é extremamente engraçado e gargalha. Ela decide que é muito divertido fazer ele gargalhar e continua correndo. Eles se entendem.

E estão apenas no começo.

Ter irmãos é muita sorte.

Então as fraldas…

Aqui na França, o ensino é obrigatório à partir dos 6 anos de idade para todas as crianças. O que quer dizer que se seu filho não for à escola aos seis anos, vem um funcionário do equivalente do conselho tutelar bater na sua porta para saber o que está acontecendo. E eles levam isso bem a sério. Mas, na maioria dos casos, das casas e das famílias, as crianças não esperam até essa idade para começar a conviver “em coletividade”, como se diz por aqui. Muitas vezes os pequenos vão para a creche à partir dos dois meses e meio, que é a idade em que podem ser acolhidos nesses serviços ou em seus equivalentes. E a escola maternal pode ser frequentada pelos miúdos à partir dos três anos de idade.

Ok, Alessandra, você anunciou que ia falar de fraldas desde o post passado e acabou falando de se esconder no banheiro e, agora vem com essa de escolarização na França. O que é que isso tem a ver com aquilo?

Tudo.

Por aqui, quando uma criança é recebida na escola maternal aos três anos de idade, a escola tem a obrigação, por lei, de acolhê-la onde quer que ela esteja em relação ao seu desenvolvimento psicomotor. Em teoria, um criança que ainda usa fraldas pode ir à escola com as suas fraldas. Mas isso, em teoria. Porque na prática…

Na prática, antes mesmo do seu rebento completar dois anos, já começa um burburinho ao redor de vocês: e aí? Já vai no pinico? Já faz xixi na privada? Já tirou as fraldas? Como se ser criança não fosse estar submetida a um infinito de pressões e exigências, por vezes descabidas, eis que do dia para a noite todo mundo que cerca o seu pequeno parece decidido a investigar como, quando e onde ele faz aquelas coisas que são do campo da sua mais profunda intimidade.

Na prática, são muitas crianças na escola, uma professora e uma auxiliar e blá-blá-blá… é complicado dar conta de 30 pimpolhos de três anos e imagina só se ainda tiver que trocar as fraldas de todo mundo… blá-blá-blá… Está armado o cenário para uma pressão insidiosa que se torna cada vez mais explícita e invasiva quanto mais o sujeitinho se aproxima da data de início das aulas: afinal, esse pentelho vai sair das fraldas ou não?

E, sim, mesmo contra a lei, existem escolas que recusam a entrada de uma criança que ainda use fraldas no maternal. E lá se vão as mães desesperadas querendo a todo custo desfraldar seus filhos antes da famosa rentrée. Putz!

A conversa se repete mais ou menos dessa maneira:

“Estou desesperada, estou tentando tirar a fralda do fulaninho há dias, semanas, meses e não está dando certo! Não sei mais o que fazer. Ele se recusa a usar o penico, se recusa a sentar na privada, tiro a fralda e ele não faz xixi, boto a fralda e ele faz em seguida, pergunto se quer fazer xixi a cada meia hora, ele diz não e depois faz nas calças, faz xixi do lado do penico, não faz mais cocô, está há uma semana constipado… Já comprei calcinha, cueca colorida, penico que fala, canta, dança, sapateia, dou prêmio, presente, chocolate… nada funciona. Será que coloco o penico na frente da TV para quando ele estiver assistindo o desenho preferido? Será que coloco ele sentado na privada a cada meia hora?”

“Sei, mas que sinais ele deu de que estava pronto para começar o desfralde?”

“Como assim… que sinais?”

“Ele se interessa quando alguém da casa faz xixi ou cocô, quer ver, quer imitar, pede para tirar a fralda, coisas do tipo?”

“Não.”

“Ele diz que vai fazer cocô ou xixi antes de fazer?”

“Não.”

“Ele avisa depois que fez? Fica incomodado com a umidade, se irrita, pede para trocar a fralda?”

“Não.”

“Ele já corre, sobe escadas um pé depois do outro?”

“Não sei… Só sei que ele já vai fazer dois anos, vai entrar na escola daqui a um ano e eu PRECISO tirar ele das fraldas até lá.” Ou possivelmente o equivalente disso em termos de pressão social no Brasil: “Ele já tem dois anos e o fulaninho, a beltraninha e o ciclaninho amigos dele já não usam mais fralda nem para dormir, ele está ATRASADO!”

Calma. Respira.

Sério, gente, que pressa é essa? Que pressa é essa em uma sociedade que decide que uma criança passa a marca dos dois anos e um dia e assim se opera um milagre que faz com que ela largue as fraldas? E que se isso não acontecer, algo está errado?

Quando esse papo de desfralde começou a assombrar por aqui, fui fazer o que faço sempre que começa o bombardeio de clichês que não fazem muito sentido sobre coisas nas quais nunca antes havia pensado com verdadeiro cuidado e profundidade: ao invés de responder embarcando no clichê sem muita crítica, prefiro seguir minha tradição de ser a chata dos porquês e vou ler, me informar e pensar a respeito. Foi o que fiz no que diz respeito ao desfralde. E descobri uma porção de coisas.

Por exemplo: como para tudo o mais que diz respeito às crianças, como o desmame, dormir a noite inteira e outros afins igualmente importantes, o desfralde começa quando os pequenos estão prontos. Psíquica e fisicamente. O que quer dizer que o desfralde não começa quando a gente quer ou quando a escola exige, mas quando as crianças podem. Ou, ao menos, seria mais respeitoso se fosse assim.

Imagina quantas mudanças, quantas revoluções, quantas experiências inacreditáveis ocorrem na vida de nossos pequenos desde que eles nascem até alguns poucos anos depois. Cada dia deve ser algo como o equivalente a dez anos nas nossas vidas de adultos em termos de descobertas e de feitos incríveis. Nos esquecemos e achamos uma banalidade coisas como andar ou fazer xixi na privada, mas não são. E os pequenos estão aí para nos lembrar disso, do quanto cada pequena obviedade demanda um esforço extraordinário.

Fato é que, como para todos os grandes saltos, todas as grandes mudanças na intensa vida desses pequenos, ser capaz de fazer xixi e cocô no pinico ou na privada é algo para o qual eles dão sinais quando estão prontos. Começam a se interessar, querem ver, falam a respeito, começam a avisar que fizeram, ou que vão fazer, querem arrancar a fralda, dizem que não querem mais fralda, pedem para usar o pinico ou a privada… enfim. E além desses indícios bem explícitos, há também outros mais laterais, outros indícios físicos que mostram que a criança teria maturidade fisiológica para ser desfraldada. Tipo ser capaz de correr, subir escadas… Como assim?

Nascemos imaturos e inacabados nós, os humanos. E muitas das capacidades que nos tornam autônomos e aptos para sobreviver de maneira independente são adquiridas depois do nascimento. Por isso nossos bebês são tão dependentes e vulneráveis, existem muitas coisas que eles ainda não sabem fazer. E que vão aprender ao longo dos primeiros meses e anos. Até o nosso cérebro nasce imaturo e precisa de um bom tempo para funcionar no seu “máximo” de capacidade.

Para sermos capazes de fazer xixi e cocô em algum lugar ou momento pré-estabelecidos, temos que ter condições de fazer algumas coisas que não são nada evidentes como, por exemplo: nos darmos conta de que estamos com um incômodo, termos noção de que esse incômodo significa vontade de fazer xixi ou cocô, sermos capazes de segurar o xixi e o cocô até chegarmos no “lugar apropriado” para eles, sermos capazes de fazer xixi e cocô nesse lugar. Parece fácil?

Se você é mulher e esteve ou está grávida, tem grandes chances de já ter experimentado aquela desagradável experiência de espirrar, dar uma gargalhada, tossir ou mesmo andar e o xixi escapar. Principalmente no final da gravidez, isso é bastante comum. E não adianta tentar segurar, torcer as pernas, nada, é uma tristeza, escapa mesmo. E isso tem, entre outros motivos, o de que a natureza muito sábia programa nosso corpo para se preparar para parir. Os ossos da bacia mudam um pouco, o cóccix também, a musculatura se afrouxa… Pois o bebê tem que sair e ele sai mais fácil quanto menos resistência nosso corpo oferecer contra isso.

Pois é, ali embaixo, o que sustenta o nosso corpo e os nossos órgãos é o assoalho pélvico, uma rede de músculos super forte e poderosa, que vai do ânus até a uretra e que ajuda a controlar, entre outras coisas, vejam só, o nosso controle sobre xixi e cocô. Quando essa musculatura relaxa, porque ninguém quer parir brigando contra um músculo poderoso que pode fechar quando teria que abrir, o que acontece? O xixi e até o cocô escapam. E a gente não consegue controlar.

Mas o que tem isso a ver com o desfralde?

Muito. Porque o pequeno rebento também precisa aprender a controlar essa musculatura para evitar que o xixi e o cocô saiam quando começam a pressionar ali dentro. E do mesmo jeito que para as grávidas, ou para os velhos, eles podem não conseguir se segurar. Não pelos mesmos motivos da gravidez e da velhice, mas também por uma impossibilidade física. E não adianta falar “segura, fulaninho”, que se o fulaninho não for ainda capaz desse controle muscular, ele não tem como segurar. Mesmo na maior boa vontade e querendo muito agradar a mamãe.

Então, como é que faz?

Espera. A gente espera o sujeitinho amadurecer e estar pronto. Sem querer decidir no lugar dele porque não estamos no corpo dele para saber se dá. Observando os sinais (coisas como poder correr ou subir escadas são indícios porque também dependem de uma capacidade muscular vizinha dessa do controle esfincteriano… viram só,como estudei?)

E como mente e corpo andam juntas e se influenciam tanto, às vezes a criança não pode por uma imaturidade física, às vezes por uma imaturidade psíquica. Ambas são legítimas e dignas de consideração. Nenhuma delas é frescura ou sacanagem com o adulto.

Outro exemplo? Criança que está começando a pedir para ir ao banheiro para fazer xixi e para de fazer isso quando nasce o irmão mais novo. Aconteceu aqui em casa. Nada mais justo, a pequena não quer ser mais tão autônoma quando descobre um irmãozinho sendo cuidado em toda a sua dependência. Quer aquele tipo de cuidado porque identifica aquilo com amor. E ainda não viveu a experiência de ser amada de outro jeito que sendo cuidada, porque também está nisso e está começando a sair disso. E não sabe que tem muito amor depois das fraldas. Amor de outro jeito, como tem amor depois do peito. Então, quer algo mais legítimo do que voltar atrás por um tempo e não querer mais saber de pinico, privada, calcinha e afins?

O usual é que uma criança desfralde entre 2 e 4 anos. Dois a quatro anos é um mundo de tempo, são dois anos de intervalo. E isso é a média, porque pode ser antes ou depois disso. O que quer dizer que não precisa ser aos dois anos. Nem no dia seguinte ao aniversário de dois anos. Nem antes de entrar na escola aos três. Pode ser quando puder ser ao longo desse imenso lapso de tempo.

Mas então não faço nada?

Claro que pode fazer. Pode falar, pode mostrar, pode comprar calcinha e cueca lindinhas. Mas não precisa levar no banheiro a cada 30 minutos, precisa? Nem botar pinico na sala e criança no pinico na frente da TV (qualquer semelhança com dar comida pros rebentos na frente da TV, enquanto eles não percebem o que estão fazendo, não me parece ser mera coincidência).

Como você se sentiria se alguém corresse atrás de você o tempo todo te falando sobre um mesmo assunto? Por exemplo, se um cara ficasse correndo atrás de você na balada o tempo todo insistindo para te beijar? Ou se um vendedor te ligasse todo dia para te oferecer um produto X? Provavelmente você teria vontade de sair correndo para longe do sujeito e pegaria uma antipatia por aquilo que ele estaria oferecendo, não? Agora imagina alguém correndo atrás de você com um pinico toda hora, falando de xixi e cocô toda hora, tensa, brigando contigo porque você tem que fazer, tem que fazer ali, tem que fazer agora… Não dá muita vontade, né?

Pois é. Eis o que tenho pensado sobre o desfralde, enquanto a pequena começa a voltar a gostar de idéia do pinico. E vocês, como têm sido?

Em tempo: aqui um texto sobre alguns sinais que a criança pode dar quando está madura o suficiente para desfraldar. Usem com moderação e não como uma cartilha a ser seguida, tá?

Em tempo 2: durante a gravidez da minha pequena, deparei com uma técnica chamada elimination communication que tem sido usada com bebês desde o nascimento para dispensar o uso de fraldas. Basicamente, consiste em estar tão atento e tão próximo à criança a ponto de perceber os sinais que ela dá, desde o começo, quando vai fazer xixi ou cocô e colocá-la num lugar apropriado para isso. O que acontece é que, logo que nasce, a criança percebe o que está fazendo e sinaliza (é fácil perceber isso bem nos primeiros dias, o bebezinho que fica quietinho, vermelhinho, fazendo força, por exemplo). Se a mãe está atenta e age nesse momento, tanto o bebê vai aprendendo desde cedo a identificar quando precisa urinar ou defecar quanto o adulto aprende a responder a seu sinal na hora e levá-lo a algum lugar. Isso queima uma etapa enorme do desfralde que é aquela da criança aprender a perceber quando está com vontade de fazer xixi ou cocô antes de começar a fazer. Pois essa é uma percepção que ela tem logo que nasce e vai perdendo, na medida que os adultos aqui no Ocidente não ligam muito para isso. A criança também não liga e passa a não perceber quando faz xixi e cocô e vai ter que reaprender na época do desfralde. Coisa maluca como as nossas opções de criação de nossas crianças resolvem um problema (usar fraldas, por exemplo) mas cria um outro logo em seguida (desfraldar). Enfim, eu não banquei experimentar essa técnica com nenhum dos dois, pois exige uma atenção permanente que eu não poderia dedicar. Mas parece que é algo comum em outro cantos do mundo, onde fraldas não existem e as crianças andam coladas no corpo de suas mães durante uns bons anos, o que cria uma grande conexão entre ambos e uma facilidade para a mãe em perceber quando o filho precisa fazer xixi e cocô e agir de acordo com isso.

Ah, o banheiro…

… um dos melhores amigos das mães de filhos pequenos. Quem nunca correu para se refugiar ali no cubículo sob pretexto de banho, xixi ou cocô que passaram a demorar todo o tempo possível até que as crianças chorem, gritem, coloquem a casa abaixo e o maridão venha dar aquela checada discreta para ver se ainda estamos ali e se demora muito?

O banheiro, melhor rota de fuga, reduto último da sanidade mental cotidiana de cada mulher que precisa de ao menos alguns minutinhos de silêncio e solidão para se recompor, para respirar, para contar até dez. O banheiro como o lugar mais respirável da casa, quem diria?

Banheiro que só não funciona quando estamos sozinhas com as crias. Porque daí, banheiro é de porta aberta, cantando para acalmar choro de um, segurando a boneca da outra, um olho na pasta de dente que ela espreme até esparramar tudo pela pia, outro nos pezinhos equilibrando na banqueta, um ouvido no choro do pequeno, outro no telefone que parece estar tocando, uma mão segura a boneca, outra corre atrás do papel higiênico, do telefone… putz! Banheiro em momentos de dedicação exclusiva é só em último caso, naquele auge da emergência mais emergencial. Isso não inclui banhos nem dentes escovados, esses supérfluos aos quais nenhuma mãe de criança pequena pode se dar mais ao luxo.

A menos que haja outro adulto na casa. Aí sim, banheiro vira refúgio, seu melhor amigo, o lugar para ler aquele email em paz, onde é legítimo fazer o banho de gato cotidiano tornar-se uma chuveirada de meia hora. Deixa o cara metade ralar um pouco. Todo mundo sempre acostumado a apelar para a mãe quando a porca torce o rabo, como se mãe tivesse a solução mágica de todas as dores. E tem. Ou ao menos se vira. Mas tem horas que até a mãe mais xamânica da face da terra precisa de cinco minutinhos de silêncio. Para poder suspirar. Para praguejar. Se perder em devaneios. Lembrar de uma história engraçada de umas férias em 1994 na praia, quando teve que correr de camiseta e calcinha para o meio do corredor do prédio (não perguntem…). Lembrar da avó, pensar na família. Pensar na vida que tinha nessa época, em todas as mudanças que ocorreram desde então. Se perguntar uns dois ou três porquês nostálgicos. Pensar naquela festa maravilhosa de uns anos atrás. E da primeira vez que voltou a pé para casa sozinha de madrugada sem ter medo. Lembrar de tanta coisa que já viveu… E não desejar estar vivendo mais nada daquela vida. Por melhor que tenha sido. Por tanto que a tenha ensinado. Por mais que se saiba que houve ali muito de extraordinário.

Entre um xixi, um email, uma olhada no facebook, a gente se dá conta que não tem criança chorando, nem batendo na porta. Todos dormem? Saíram para dar um  volta? A gente hesita entre tirar um cochilo ali mesmo, tomar um banho longo, passar o dia todo trancafiada, com um pacote de biscoito, uma garrafa de água e um celular com carregador ou, como pesa na consciência de toda mãe preocupada, sair para dar uma olhadinha. Aquela checada básica, sabem?

Um dorme com sua carinha de anjo. Outra lê um livrinho, sentada, costas retas, atenta, contando para si mesma uma história em voz alta. Vozinha de criança cantante. Respiração pesada de bebê dormente. Paz. A gente se dá conta que ali também tem algo  de extraordinário. E que não gostaria de estar noutro lugar.

Mas que a rota de fuga para o banheiro… ah, o banheiro… que alento!

(Prometo para quem achou que esse post era sobre tirar as fraldas das crianças e ensinar a ir ao banheiro que escrevo isso logo mais, ok?)

Aquela historinha da criança francesa

Criança francesa não faz manha. E ainda por cima come de tudo? Opa, me passa a receita, me vende, onde eu assino?

           Tentei começar um post a respeito desses livros sobre as crianças francesas há uns 4 meses atrás e nunca conseguia terminar, até receber o convite de uma amiga para responder a algumas perguntas sobre ser mãe na França e, entre elas, havia justamente uma que interrogava sobre esses clichês de criança francesa que come de tudo, criança francesa que se comporta bem, criança francesa que não faz manha. Daí saiu essa resposta aqui.
           Sinceramente, eu penso que toda generalização é burra. Tudo o que eu mesma digo sobre esses assuntos aqui no blog é a verdade de como é ser mãe na França de uma certa perspectiva. Eu não conheço todas as francesas e nem a França inteira e, mesmo que conhecesse, não poderia afirmar que é assim que a maternidade acontece aqui com certeza. Posso apenas falar do que vejo e, ainda assim, segundo o meu jeito de olhar, que sempre será subjetivo, marcado pela minha história, por minhas referências, etc. Ninguém consegue falar de outro lugar que não sua posição no mundo, né? E a minha é de uma brasileira, vinda de um certo lugar, de uma certa classe social, que chega aqui na França pela porta dos estudos e da pesquisa universitária, que circula por certos lugares, encontra certas pessoas e vive uma vida que eu definiria como, mesmo por aqui, privilegiada.
          Mesmo sendo capaz de andar por diferentes ambientes, mesmo tendo amigos de muitos cenários bem distintos, ainda assim sempre tive o privilégio da minha cor (o que aqui conta um pouco menos, pois sou estrangeira e sou latina), do meu percurso profissional (a França respeita os intelectuais, coisa que não se conhece muito no Brasil), de falar bem a língua (mesmo com sotaque) e de ter um certo conforto econômico por conta do meu trabalho. Então, é desse ponto de vista que escrevo. Sempre.
          Quando esses livros da americana apareceram e viraram uma febre mundial, comecei a me perguntar: mas de que diabos ela está falando? Crianças francesas comem de tudo. Crianças francesas não fazem manha. Que crianças são essas? Tenho amigas brasileiras e francesas que são mães aqui e que também encararam esse tipo de publicação com a mesma perplexidade. Ficamos nos perguntando em que França ela viveu para chegar a tais conclusões. Talvez se ela tivesse esclarecido seu contexto logo de cara, a leitura ficaria mais honesta e mais interessante.
           Do que eu observo, acho problemático, por exemplo, dizer que criança francesa come de tudo. Pelos motivos que falei logo acima, sobre as generalizações. Mas também pelo fato de que o cardápio destinado às crianças é de uma pobreza nutricional extrema. Eu não consigo perceber onde é que elas comem de tudo.
            Paradoxalmente, não posso dizer que a maioria das crianças aqui comam bem. Nem em casa, nem na escola. Ao contrário do mito que existe sobre a boa alimentação da criança francesa, o que vejo é que o cardápio delas é bem pobre. Se você quer tirar a prova disso, chegue em qualquer restaurante na França e pergunte o que é o menu enfant (o menu infantil). Em 95% dos lugares as opções serão: hamburguer com batatas fritas, nuggets com batatas fritas e macarrão com presunto, o que significa, aqui, um macarrão cozido na água e sal que eles colocam um pouco de manteiga depois de pronto e uma fatia de presunto cozido ao lado. Isso é o que muitas crianças comem em casa também. E, nas cantinas das escolas e creches, infelizmente não é muito diferente. Já vi algumas reportagens sobre as cantinas das escolas onde eles oferecem carne com batatas fritas. Sistematicamente. Diversos tipos de carne com batatas, num molho avermelhado e engordurado bem esquisito. Nunca uma salada. Como legume, servem vagem, que é comprada enlatada, nunca fresca. Muitos doces no lanche: madeleines, bolachas, coisas do tipo. Poucas frutas. E a justificativa é a de que é isso que as crianças comem. Bom, mas quem ensinou as crianças a comerem assim? É de uma pobreza incrível, ainda mais sabendo o quanto se pode comer bem na França. Por isso falei de paradoxo.
           Outro teste que vocês podem fazer é observar as crianças saindo da escola. Normalmente, na hora da saída as mães levam um lanchinho que os pequenos comem no caminho de casa, o famoso gouter. O que é o lanchinho? Doces, bolachas doces, suco de caixinha. Ver uma criança comendo uma fruta no gouter é uma raridade. Em qualquer idade. Muita gente aqui não cozinha, compra comida pronta. Geralmente por falta de tempo. E também porque aqui é cômodo comprar comida pronta e a oferta é imensa. Isso não seria em si um problema, não fosse o fato do cardápio girar em torno de massas mal temperadas, enlatados, embutidos, nada fresco. Em lugares como Paris, onde as pessoas moram em apartamentos minúsculos com cozinhas impraticáveis, pior ainda. Enfim, para quem é mãe e se preocupa com a alimentação do seu filho, uma das maiores discussões, que se renova a cada ano, é se devemos deixar o filho almoçar na cantina da escola ou se é melhor buscar para almoçar em casa e levar de volta para a escola em seguida, para os cursos da tarde. E conheço bastante gente que opta por buscar o filho para almoçar em casa. Em um mundo corrido como o nosso. Bem o contrário do que a gente imagina quando pensa na culinária francesa e em suas delícias, né?
            Penso que crianças cujos pais cozinham mais frequentemente em casa são mais expostas a uma maior variedade de comidas e, com isso, têm mais chances de comer de tudo. Isso acontece aqui também com frequência, famílias que cozinham em casa. Como acontece de ainda se preservar o momento das refeições para que todos sentem-se à mesa.
           Eis algo que me parece importante, e que talvez contribua para as crianças comerem melhor. Não vejo por aqui crianças fazendo as refeições na frente da televisão, do tablet ou do celular. A hora de almoçar ou jantar é a hora em que desligam os aparelhos e todo mundo vem para o redor da mesa. Isso me parece fundamental, pois nada mais triste do que ver uma criança comendo e olhando uma tela, sem nem perceber o que está comendo, de uma maneira automática, sem sentir o gosto, sem descobrir a comida, sem identificar quando está saciado. Triste e contraproducente. Ainda bem, isso não acontece. Que eu saiba.
            Então, sim, eu já presenciei aqui na minha casa e na casa de amigos crianças comendo coisas que nos pareceriam difíceis ou improváveis, cheias de apetite e de curiosidade: verduras, frutas, frutos do mar, queijos, comida apimentada, salada e por aí vai. Isso é tão bonito de se ver e impressiona tanto que a gente esquece de observar o contexto em que isso pode ocorrer. E atribui o feito a causas tão absurdas como o fato da criança ser francesa. Não, meu caro. Para a criança comer de tudo, tudo tem que ser ofertado a ela e, principalmente, ela tem que ver os adultos comendo, porque é nisso que vai se espelhar para comer ou não. Então, sim, isso acontece na França. Mas, não, não é uma regra geral. Tem muita criança comendo Nutella por aqui.
             Sobre a questão das crianças se comportarem bem, não fazerem manha, acho que é uma situação análoga ao que eu acabo de dizer sobre a comida. Ou seja, depende. Se você for num parquinho qualquer, vai ver criança se jogando no chão, gritando, esperneando. Andando na rua, fora dos lugares turísticos, você também pode testemunhar uma cena dessas. Ou num restaurante, numa loja, onde for. Crianças francesas fazem manha como fazem as crianças brasileiras. Talvez a diferença esteja em como se lida com isso por aqui.
           Na França houve uma tentativa de implantar a lei da palmada, como a que existe no Brasil. Não foi aprovada. As pessoas, aqui, acreditam que educar exige uma certa dose de violência. Se você for nesses mesmos parques, restaurantes e afins, vai ver que há grandes chances da mãe ou do pai dessa criança que se joga no chão darem um tapa nela, puxarem pelo braço, gritarem, dizerem palavras bem duras. Eu já testemunhei isso várias vezes, tanto em Paris quanto no sul da França, em lugares dos mais simples aos mais sofisticados. Já vi mãe estapear filho no parquinho, já vi mãe dar cascudo na cabeça do filho de uns 10 anos no restaurante, já vi mãe dizer coisas extremamente humilhantes para um filho de uns 20 anos numa mesa de um outro restaurante, em alto e bom som… Tenho uma coleção de cenas. O que isso quer dizer? Que aqui ainda impera uma concepção de educação bastante opressora, onde o objetivo é dobrar os filhos para que eles se comportem bem. Não é raro ouvir os pais definirem a educação dos filhos por aqui como mostrar a eles quem manda, ou formulações análogas. Qualquer coisa próxima de algo como uma criação com apego – que existe também, ainda bem – é considerada como laxista, coisa de pais que não saberiam mais dar limites a seus filhos.
           Os franceses, em geral, me parecem ter um certo pavor da dependência. Os filhos nascem e eles já estão preocupados que sejam autônomos. Eles vêem qualquer situação de dependência quase com repugnância. Aqui, a idéia mais difundida é que bebê deve dormir no seu berço, no seu quarto, desde o dia em que chega da maternidade. Pode deixar chorar. Já testemunhei comentários de profissionais de saúde dizendo que a mulher é problemática porque amamenta o filho, que assim o está prejudicando, pois impede com isso sua independência. Aqui não é incomum mulheres decidirem dar mamadeira para os pais poderem participar da alimentação dos filhos (oi?). É o tempo todo um pânico de que a criança fique colada. E com isso, a meu ver, eles precipitam uma série de desgrudes que poderiam acontecer de maneira menos violenta. E que aconteceriam de todo jeito. Com raras exceções, quantos adolescentes você vê por aí pendurados nos pais ou fazendo questão da presença deles? Pois é. Os filhos desmamam, queiramos ou não e não precisamos fazer muita força para isso. Basta deixá-los seguir seu ritmo e ampará-los e amá-los ao longo do percurso.
            Pois bem, o que acontece quando vemos essas crianças francesas que falam bom dia, por favor e obrigada, que sentam à mesa, comem o que tem no prato, pedem licença, falam baixinho e que achamos tão lindo é que estamos testemunhando os efeitos dessa educação mais difundida na França de evitar a todo custo que os filhos fiquem colados aos pais. Eu, particularmente, acho isso perfeito como meta a atingir quando seu filho estiver entrando na idade adulta. Acho uma maravilha que as crianças sejam incentivadas na sua autonomia, no melhor estilo Montessori. Mas, com um bebê? Com uma criança pequena? E, o principal, onde é que incentivar a autonomia quer dizer obrigar a criança a ações e situações para as quais suas reações mostram claramente que ela ainda não está preparada? Não sei se esse resultado das crianças bem comportadas e agora invejadas no mundo inteiro vale aquilo que a criança viveu para chegar a esse nível de domesticação.
            Basta pensar que a França das crianças bem comportadas também é a França dos adultos com algumas das taxas mais elevadas de consumo de antidepressivos. Será que não existe nenhuma relação? Aqui também é um dos países em que há muitos idosos vivendo sozinhos. Mesmo quando têm família, não são amparados por ela. Será que isso também não tem relação com essa independência precipitada? Não tenho resposta para isso, mas são questões que me faço.
            Então, comparando a maneira como em geral criamos nossas crianças na França e no Brasil, eu diria que no Brasil há uma maior tolerância à dependência do que aqui. O que faz com que talvez no Brasil tenhamos mais liberdade de sermos apegados aos nossos filhos e de expressar esse apego enquanto que aqui os pais se preocupam desde muito cedo em criar os filhos para que eles sejam autônomos. Os dois têm suas vantagens e desvantagens. Acho incrível a maneira como aqui, desde que o bebê nasce, os pais se permitem sair com ele, viajar, passear, enquanto que no Brasil os pais ficam confinados durante meses com os filhos em casa, preocupados com os perigos da rua. Mas isso tem razão de ser, né? Além de ser algo cultural, tem a ver com viver em um lugar em que você pode sair na rua ou não. Ou seja, é complexo demais esse tema da criação dos filhos, pois são muitos fatores em conta. Por isso que não dá para generalizar.
           Talvez antes de elegermos nossos novos ideais de criação de filhos e de ficarmos invejando e lamentando não estarmos na França, onde tudo seria perfeito e nossos filhos que comem mal e fazem “birra” e “fazem manha” e são impossíveis seriam outros, totalmente comportados e obedientes, e ainda por cima falariam francês – uhu! – talvez, apenas talvez, fosse o caso de olharmos mais para nossos filhos e tudo o que os cerca em termos de ofertas de alimento, de diversão, de companhia, de afeto. E, talvez, pudéssemos encontrar ali mesmo, nesse entorno e nessas ofertas, as razões para as dificuldades que enfrentamos assim como as condições de fazer diferente e de fazer melhor. Sem precisarmos nos assombrar e nos sentir diminuídos por esses exemplos tolos de crianças perfeitas que NUNCA existem.
           Em tempo: a entrevista, publicada em várias partes, começa nesse link aqui. Vocês podem aproveitar para navegar pelo site do projeto Casa de Viver, uma inciativa bem bacana para mamães trabalhadoras em São Paulo.
           Em tempo 2: estou mudando o layout do blog, com a ajuda de uma super amiga mais do que talentosa. Comentários serão bem vindos.

Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.

A intolerância à infância

Daí que eu ia escrever um post engraçadinho sobre 24 horas na vida de uma mãe de 2. Daí que vocês poderiam testemunhar o meu excêntrico senso de humor. Daí caiu na minha mão – ou na minha tela – um texto infâme de um sujeito que defende que o problema das crianças de hoje em dia não é a hiperatividade, mas a falta de educação. Não, eu não vou colocar link aqui porque não dou audiência para coisas que ultrapassam o campo da discordância e entram no terreno do ultraje. E, sim, acabei ficando de mau humor e o texto divertido deu lugar a esse que se segue. Sorry, queridos. Qualquer coisa, culpem o autor do texto infame.

Não sei dizer se aumentaram os casos de hiperatividade entre crianças no mundo atualmente. Não sou especialista na área e, a bem da verdade e da justiça frente aos especialistas que conheço, teria que dizer que aumentou, certamente, o número de diagnósticos de hiperatividade. Uma coisa não é igual à outra. Podemos concluir que haviam muitos casos mascarados, dos quais não se tinha notícia e que, com a popularização do diagnóstico, puderam ser identificados e levados a tratamento. Podemos concluir que, ao contrário, a popularização do diagnóstico fez com que muitas crianças começassem a ser tratadas por algo que não têm. A meu ver, as duas conclusões estão certas e erradas.

As patologias psiquiátricas, em geral, têm uma prevalência estatística mais ou menos estável na população. Isso quer dizer que o número de esquizofrênicos, por exemplo, não varia muito. Ou o de crianças autistas. O que não para de aumentar são os casos depressão. Ou, nas crianças, os casos de hiperatividade. Coincidência?

Olha só: eu, particularmente, não entendo as pessoas como entidades fechadas, que existem com suas qualidades e defeitos nelas mesmas e antes de tudo. Ou seja, eu não entendo um diagnóstico desse tipo como algo que pode ser jogado apenas na conta da predisposição genética. Se existem questões ligadas à herança e à biologia naquilo que somos, não há como recusar o enorme papel exercido pelo mundo que nos cerca naquilo que somos, que podemos ser ou que somos impedidos de ser. E o mundo que nos cerca, atualmente, é um mundo praticamente inviável.

A intolerância tem atingido níveis inimagináveis. Ninguém mais se dispõe a suportar o que quer que seja em nome de nenhum princípio de civilidade, ou do bem comum, ou de compaixão… whatever. A violência sem precedentes que vemos nas redes sociais, em que as pessoas se escondem atrás das telas para propagar todo ódio e toda intolerância de que sejam capazes transbordam pelas ruas, onde pessoas são agredidas cotidianamente por serem negras, mulheres, homossexuais, transgênero, de tal ou qual religião… Enfim, qualquer que seja a diferença em questão, ela é o suficiente para despertar o ultraje de um qualquer que – e isso me parece recente – se sente no direito de dizer o que pensa e de agir segundo a sua indignação. Que existam preconceituosos de todo tipo, racistas, xenófobos, misóginos, fanáticos religiosos, acho que dá para dizer que é tão antigo quanto o surgimento da espécie humana. Desde que existe o humano, existe o pior do humano, o pior que ele pode ser. Mas não sei se em algum momento anterior na nossa história o ser humano se sentiu tão à vontade para agir de forma tão violenta, intolerante e brutal ao seguir essas suas piores inclinações. Sim, é claro, temos muitas marcas na história desse pior do ser humano em ação. Mas quando é que foi assim tão generalizado, tão leviano, tão sem consequências, tão covarde e tão primário? Eu não saberia dizer.

Essa intolerância que vemos na internet está nas ruas, nas relações entre as pessoas, nas situações coletivas, na política e até no debate intelectual. Ela está na maneira como encaramos nossas dificuldades, nossas falhas, nossas frustrações, nossas perdas. Está na intolerância frente aos outros e à diferença, mas também na intolerância para com nós mesmos. Daí o aumento dos casos de depressão e de ansiedade. E o consequente aumento do uso de antidepressivos e ansiolíticos. A indústria farmacêutica tem muito o que comemorar, certamente. Num mundo onde a intolerância é a regra, o sofrimento humano se torna intolerável. E intolerado. Qualquer “choramingo” e a gente já aconselha o outro a se tratar. Tomar um remedinho. Silenciar o barulho. E não nos incomodar mais.

Como é que em um mundo com uma lógica dessas haveria espaço para as crianças? As crianças, hoje em dia, são confrontadas a cada vez mais intolerância. Intolerância contra o ser criança. Intolerância contra aquilo mesmo que elas podem ser, sentir e fazer. Não existe espaço para elas existirem enquanto tal. O infantil, tanto quanto o sofrimento, são insuportáveis para a maioria das pessoas nos dias de hoje.

Por vezes tenho a impressão de que às crianças e aos adultos com bebês ou crianças pequenas caberá o mesmo destino que aos fumantes: primeiro uma ala reservada, depois um cercadinho na rua, depois a proibição total. Você é criança ou você tem uma criança pequena e, voilà, eis aí um pária social.

Estou exagerando? Crianças e adultos com crianças pequenas recebem olhares tortos, comentários tortos e más vibrações em restaurantes, bares, cinemas, teatros, concertos, lojas, museus… Nenhum lugar é considerado adequado para se ir com uma criança. A não ser os lugares “adaptados” para crianças: cinema adaptado, restaurante adaptado, loja adaptada, o espetáculo adaptado… a tal ala reservada. Ah, mas criança mexe, criança não se comporta, criança quebra, criança pula, faz barulho, atrapalha.

Parece que o problema está justamente aí: criança atrapalha. Quem? Quem não tem tolerância com o fato evidente de que criança só pode ser… criança.

Por que é que hoje em dia, quando uma criança “se comporta mal” em um lugar público, os pais olham para os lados e se apressam a dizer a desconhecidos: “ela é hiperativa”? Não, não é para arrumar uma desculpa para a falta de educação, para a incompetência deles em educar seus filhos e em dar umas boas palmadas e botar uns bons limites, como todo intolerante gosta logo de professar que deveria ser feito. Não, os pais fazem isso, eles se justificam frente a esses desconhecidos porque percebem ali o ódio, o julgamento, a condenação e a intolerância. E acreditam que um diagnóstico poderá salvá-los da execração pública e suscitar um pouco de compaixão de quem está ao redor. As pessoas expõe seus filhos, sua intimidade, sua vida por desespero, por vergonha, por constrangimento. Porque se sentem fracassadas e acreditam que dizer que é doença é melhor socialmente do que deixar passar como incompetência.

Penso que tem a ver com isso também, com essa intolerância, o fato de tantos pais procurarem um diagnóstico para seus filhos tido como hiperativos. Desde que a criança começa a dar sinais de existência, começa a querer falar, fazer, explorar, correr, brincar, rir, investigar, descobrir, reivindicar… ela se torna um problema. Um problema para os pais que, muitas vezes, não consideraram que ter filhos é botar no mundo outras pessoas que, na medida em que são outras e que são pessoas, estarão sujeitas a tudo aquilo que qualquer pessoa está: humores, vontades, indisposições. Filhos postos no mundo existem e vão manifestar essa existência. E essa existência, principalmente no início da vida, é extremamente física, corporal, visceral. A criança existe, ela conhece, ela investiga, ela expressa tudo corporalmente. Então, ela explora o espaço, as coisas, ela ocupa o espaço. Ela comunica como pode, ela demonstra as emoções que vive, ela existe com os recursos que tem. Não dá para imaginar que vai ser possível fazer uma criança desaparecer atrás de uma tela, de um tablet, de uma televisão ou de uma ritalina. Não sem graves consequências para essa criança.

Mas além de se tornarem um problema para muitos pais que não toleram a parte criança de seus filhos, esses pequenos parece que se tornam problema onde quer que estejam. Na escola, é preciso silenciá-los em nome de sabe-se-lá-o-que consideram como educação. Criança sendo criança não cabe na maior parte das escolas atualmente. E nem naquilo que se concebe como educação, que eu chamaria mais de um adestramento para se aprender a viver sem protestar contra um mundo inviável.

Em seguida, a criança não cabe em nenhum espaço coletivo, em nenhum espaço cultural, em lugar nenhum ela é bem vinda a não ser que possa se comportar como algo diferente do que é: venha ao restaurante quando puder ficar 3 horas sentada sem falar, sem reclamar, sem se mexer, sem derrubar sal na mesa ou quebrar um copo. Sinceramente, que criança suporta tamanho constrangimento corporal a ponto de ficar ali como se espera dela? Será que o que se exige de uma criança como sinônimo de boa educação é algo realmente factível?

Ah, mas antigamente… No meu tempo… as crianças eram educadas. Sabiam se comportar, diziam bom dia, por favor, obrigada. Sei, mas antes que você venha defender a palmada como tática educativa que provou sua eficácia no antigamente, deixa eu te perguntar: nessa época da palmada, dos limites e dos pais que sabiam educar, o mundo era assim intolerante com as crianças? Ou será que na sua época, ou na de seus pais, as crianças eram cuidadas onde quer que estivessem? Não tinha sempre um vizinho, o dono da padaria, o pessoal da rua, todo um monte de gente, de adultos, a dar uma olhada nos pequenos onde quer que fossem? Não tinha mais gente para dizer: cuidado com isso, menino, é perigoso, machuca, etc? Possivelmente as crianças não estavam mais inseridas nos meios sociais e nas ocasiões coletivas porque, certamente, haviam mais ocasiões a serem consideradas como “não sendo coisa de criança”. Mas onde elas apareciam, onde podiam aparecer, eram melhor recebidas, não? Ou você não lembra do seu pai ou do seu avô dizendo: “deixa… é criança”. Quantas vezes ouvimos algo parecido atualmente? Quantas vezes nos espaços coletivos as crianças são olhadas com a benevolência do deixa, é criança, o que quer que estejam fazendo?

Então como é que faz num mundo como o de hoje onde a criança não é bem vinda em lugar nenhum e onde os pais não possuem mais nenhuma rede de apoio que possa tolerar uma criança sendo criança? Ter filhos nos dias de hoje é se confinar em casa até eles completarem 18 anos? Como eles vão aprender sobre o mundo se não podem frequentá-lo?Qual a opção: forçar um comportamento em que eles se tornem invisíveis? Isso é educar? Ser invisível é o preço a pagar para poder circular pelo mundo? Bom, eis porque faz tanto sentido que o que mais se veja hoje em dia sejam diagnósticos de hiperatividade em crianças e ansiedade e depressão em adultos. Uma criança hiperativa é uma pessoa que existe em excesso. Um adulto ansioso é aquele que se aflige com o fato de existir. E um deprimido é aquele que renunciou à existência. Será que não estamos criando os deprimidos de amanhã?

Se vocês querem minha opinião, penso que existem sim crianças mal educadas. Como também existem crianças hiperativas. Mas penso que o que mais vemos nos dias de hoje são pessoas intolerantes com crianças sendo crianças. E pessoas intolerantes com os pais nos momentos em que eles estão em dificuldades com suas crianças sendo crianças. Sendo mais clara ainda: a culpa não é da doença que vira desculpa, nem dos pais que não sabem mais educar um filho. A culpa é da pessoa que, enquanto membro de uma coletividade, não suporta nada que incomode, que contrarie ou que vá contra seus desejos ou suas convicções. A “culpa” é do cara que escreve o texto dizendo que sua intolerância seria, na verdade, um defeito de uma criança mal educada e de pais que não sabem educar. Uma criança “se comportando mal” em público é apenas a triste consequência da pressão que você coloca, da intolerância que você impõe, da sua falta de acolhimento, do espaço que você não abre para que aquele sujeito possa existir.

Personal disclaimer, antes que comecem os comentários:

  • não estou dizendo aqui que não haja hiperatividade e nem crianças mal educadas. Estou apenas considerando que são a minoria dos casos e que a maioria é mais uma questão de um mundo intolerante do que das próprias crianças ou dos pais.
  • não estou dizendo aqui também que antes era melhor e que educação é dar palmada e limite (no sentido de subjugar o outro). Penso já ter escrito claramente que não entendo isso como educação. Estou apenas dizendo que, antigamente, as mesmas pessoas ou a mesma lógica que sustentava a palmada e a opressão sustentava, por incrível que pareça, que as crianças fossem mais aceitas em suas criancices naqueles lugares e momentos em que podiam aparecer.
  • também não estou dizendo que educar é não dar limites e deixar as crianças fazerem o que quiserem, quando quiserem. Ninguém faz o que quer, isso não é prerrogativa das crianças. Os limites existem e eles se impõem. Nenhuma criança ou adulto vai poder atravessar a rua correndo sem olhar para os lados, ou brincar com objetos perigosos e afins. Mas entre o que é limite e tudo o que as pessoas querem interditar porque simplesmente perturba a elas, ou atrapalha a elas, existe uma grande diferença. Se você não quer que uma criança quebre um copo num restaurante, basta não colocar um copo de vidro na frente dela à mesa. Se não quer que ela bagunce as coisas no supermercado, retire os produtos coloridos, podres e cheios de açúcar que você coloca ao alcance dos olhos e das mãos dos pequenos apenas para obrigar os pais a comprarem.
  • por fim, não estou dizendo que as crianças não teriam que se adaptar aos lugares que frequentam. Mas ter que falar baixo num museu? Sério? Ou não poder dançar num concerto? Ou não poder rir e comentar um filme? Ou não poder se sujar no restaurante, nem comer com as mãos? Francamente… Me parece que os doentes e mal educados não são as crianças não. Por que é que as crianças precisam se adaptar mais do que os lugares e as pessoas teriam que se adaptar a elas?

Finalizo com uma anedota: há pouco tempo atrás, fomos em família almoçar num restaurante. Um restaurante estrelado no guia Michelin, o que quer dizer um restaurante de comida requintada, um lugar que alguns diriam cheio de frescura e, portanto, “inadequado para crianças”. Tínhamos um de cinco, uma de dois e um de dois meses. O chef nos recebeu na porta, pois chegamos cedo ao local. Fizemos uma degustação que durou cerca de três horas. As crianças tiveram seu almoço trazido rapidamente. A comida deles era saudável e bem cuidada. A cada vez que traziam nossos pratos, tinham a delicadeza de dirigir a palavra às crianças, ou esperar que elas parassem de falar para nos servirem. O pequeno mamou. Sim. Mamou no peito duas vezes. A de dois desceu da cadeira, passeou pelo restaurante, foi olhar a adega com o pai, foi ver os cozinheiros. O de cinco foi no banheiro, puxou papo, pediu catchup. O único momento em que alguém se estressou foi quando a pequena foi mexer na cortina da janela. O maitre foi até ela e disse seriamente para ela que não podia. Ela já tinha andado, ela já tinha embaçado o vidro, ela já tinha brincado com seus adesivos, ela já tinha deixado marca de dedo no móvel ao lado da mesa. E. TUDO. BEM. No final do almoço, o chef estrelado estava novamente na entrada. E quis saber se tudo tinha corrido bem. Tudo com um sorriso no rosto. Ah, mas é porque a gente estava pagando? Será mesmo que ele precisa disso? Ou será que ele apenas considera que crianças têm todo o direito de comer sua excelente comida? Isso, meus caros, é boa educação.