Culpa, culpas, me desculpa

Então você engravida e começa a pensar sobre tudo o que se relaciona à gravidez, ao parto, à criação dos filhos. Se dá conta de que era uma alienada e que apenas tinha feito seguir a manada até então. Mas com a perspectiva de um bebê real, de um filho real, de botar realmente uma criança no mundo, não deu mais para ficar como um avestruz com a cabeça dentro de um buraco e você teve que se abrir, teve que olhar, teve que pensar a respeito de tudo o que cerca a maternidade. A sua, a desse filho esperado, aquela que você viveu.

Você passou nove meses gestando e se gestando enquanto mulher, enquanto futura mãe, enquanto pessoa crítica desse modo das coisas funcionarem nesse mundo. Passou todo esse tempo que poderia ter sido mais tranquilo, mais contemplativo, mais encasulado se preocupando com coisas que nunca antes tinha percebido: o mundo anda estranho, perigoso, as pessoas se pautam por valores que você não consegue mais endossar. Uma vida baseada no consumo, em que o importante é ter, perde o sentido frente à perspectiva da existência dessa criança. Você se sente responsável pelo mundo que está aí, sente-se responsável por ter feito tão pouco para que o mundo em que seu filho vai chegar fosse melhor. Tantos anos de indiferença, de falta de empatia, de despreocupação com o outro, de foco apenas naquilo que lhe cabe e agora eis aí você, obrigada a olhar para um outro que é esse bebê, sentindo um peso enorme que lhe cai sobre os ombros, o peso de cuidar, de proteger. Que mundo você vai apresentar para o seu filho?

Em nove meses você vira militante de todas as causas justas. Uma urgência de mudar o mundo, de que ele seja ao menos um tantinho melhor. Um medo que te invade cada vez que você pensa que sua cria não vai estar segura e que você não poderá poupar-lhe de todos os riscos. Frio na barriga constante, você não dorme mais.

E nesse processo que alguns chamam de emponderamento, você se dá conta de que pode fazer algumas coisas, de que pode ao menos cuidar da maneira como vive essa gravidez, como cuida dela, como cuida do bebê na barriga, como cuida da forma como ele virá ao mundo, como cuida da forma de criá-lo. Os nove meses de gestação produzem um bebê e produzem também uma mulher bem cansada que, no entanto, sente-se vitoriosa por ter tido a coragem de se abrir, de pensar, de criticar e de criticar-se, de tomar consciência e de indignar-se e, enfim, de lutar para fazer diferente e fazer alguma diferença. Para mudar o mundo, você percebe que um bom ponto de partida é justamente mudar a forma como gestamos, como nascemos, como parimos e como criamos nossos filhos.

Você pode fazer a sua parte, mudando o mundo precisamente ao mudar o modo de olhar para o que seja ter e criar uma criança. Menos ter, porque um outro ser não lhe pertence e mais acompanhar, descobrir, encontrar-se com esse outro que já chega com o potencial de causar uma pequena revolução. Uma mãe que muda, uma mulher que muda, se questiona, se empondera e vai buscar novos caminhos já é um mundo inteiro que se convulsiona e pode se transformar em algo melhor. Se pudermos ser melhores com nossos filhos, se pudermos criar crianças melhores para esse mundo ao mesmo tempo em que tentamos criar um mundo melhor para nossas crianças… bom, quem sabe aí haja uma real esperança para nossa espécie, não?

Então os nove meses passam e o resultado de todo esse processo de turbilhão e de emponderamento é que nasce um bebê. E você se dá conta de que o nascimento não é reta de chegada, mas ponto de partida. E que toda a sua luta por uma gravidez vivida de maneira respeitosa e por um parto e um nascimento humanizados foram apenas uma pequena ponta de um iceberg gigante. Perto do que se segue, engravidar e parir foi fácil.

A criança está ali na sua frente. O bebê. O sujeitinho. O pequeno. Você sente amor, você sente gratidão, você se emociona e chora à toa. É um acontecimento de tão grandes proporções que você não encontra palavras para isso. Não é um clichê, é mais forte do que um clichê, mais intenso, mais visceral. Você é mãe e nada do que diga dá conta de expressar o que isso significa.

Você continua naquele processo que começou durante a gravidez, você se questiona, se informa, pensa antes de tomar as decisões. A coisa se complica quando você percebe que são muitas decisões à cada dia. Vai amamentar? Em livre demanda? Vai fazer cama compartilhada? Quarto compartilhado? Como vai fazer com o bebê que acorda de noite? Como vai fazer com a criança que prefere dormir contigo? Vai colocá-la para dormir no seu quarto? Vai fazer treinamento de sono? Vai carregar no sling? No porta-bebê? Vai usar fralda? De pano ou descartável? Vai dar vacinas? Quais? Quando? Quando ficar doente, como vai tratar? Vai levar no médico? No homeopata? Vai dar antitérmico quando tiver febre ou deixar a febre agir e tratar com banhos mornos? Vai diversificar a alimentação com que idade? Vai dar papinha ou comida em pedaços? Vai cozinhar? Vai tirar o leite quando tiver que sair? Vai dar o leite no copinho ou na mamadeira? Vai lidar como quando os dentes começarem a sair? Vai dar chupeta? Vai voltar a trabalhar? Vai ficar em casa cuidando da criança? Até quando? Vai trabalhar em casa? Vai deixar a criança com a babá? Na creche? Na escolinha? Com os avós? Como vai fazer se a babá, a creche, a escolinha ou os avós não tiverem os mesmos ideais no cuidado com uma criança que você? Como vai fazer com os comentários dos amigos? Com os doces oferecidos na casa dos outros? Com os tablets, os celulares e os desenhos na televisão? Como vai fazer com as brincadeiras e os brinquedos ditos de menino e de menina? Com que idade vai colocar na escola? Que tipo de escola vai ser? Melhor uma escola para a criança passar no vestibular? Melhor uma escola para a criança ser “bem relacionada”? Melhor uma escola para a criança construir sua autonomia e sua capacidade de pensar? Vai colocar a criança no inglês? No espanhol? No curso de dança? Natação? Judô? Esportes? Vai tirar a fralda quando? E como? Vai esperar a criança desfraldar ou vai tirar a fralda aos dois anos quando dizem que é a época? Vai ensinar religião? Vai batizar a criança? Vai furar a orelha e colocar brincos? Como vai reagir quando a criança fizer algo que apresente um perigo para ela? E quando ela fizer algo que te contrariar? Quando ela não quiser fazer algo que você proponha? Ou quando gritar, chorar, se jogar no chão? E quando ela bater em alguém? E quando apanhar de um coleguinha? Como vai fazer com as coisas para as quais tiver que dizer não? Vai gritar? Vai bater? Vai colocar de castigo?

Eis a lista não exaustiva de uma parte das questões e das decisões que chegam junto com o nascimento da criança. Muito, mas muito mais difícil do que decidir ter um parto normal humanizado. Uma avalanche de questões importantes, urgentes, que se colocam a cada dia. E, para cada uma dessas questões, dependendo de qual seja a resposta, mais uma batalha pela frente. Quanto mais fora da curva forem as escolhas dessa mãe, mais trabalho ela vai ter. Para encontrar informações, para encontrar alternativas, para encontrar apoio, para tão somente fazer o que decidiu, para dar conta de sustentar essas opções e para fazer frente à imensa resistência que o mundo e as pessoas desse mundo que se portam como gado e simplesmente seguem sem pensar o que está estabelecido podem opor a quem é diferente.

E quanto mais sejam escolhas pensadas e apropriadas por essa mãe, quanto mais elas tomem em consideração a subjetividade e as necessidades do seu filho, quanto mais elas se proponham a serem respeitosas, cuidadosas, quanto mais essa mãe se proponha a escutar, a estar presente, a estar inteira, a se colocar em questão e a fazer o seu melhor, mais trabalho ela vai ter. Não apenas com o mundo, com os outros, com a resistência desse mundo ao diferente. Não, esse trabalho é pequeno perto do trabalho que ela vai ter com ela mesma e com a sua constante sensação de culpa.

Culpa porque cada uma dessas questões é imensa e tem tantas implicações que mereceria horas, dias, meses de reflexão. Culpa porque a vida acontece antes que a gente consiga pensar sobre ela e sobre como vai fazer e logo nos vemos fazendo sem pensar e pensamos depois de fazer e percebemos que fizemos algo que nada tem a ver com nossos valores e com nossas intenções. Culpa porque cada dia traz todas essas decisões a serem tomadas e cada um desses assuntos tem milhares de textos, de pesquisas, de livros, de páginas de internet, de blogs, de sites, de especialistas… Culpa de ter que decidir fazendo uma aposta, sem conseguir dar conta de tudo, de todas as informações, sem nunca chegar no “fim” ou no âmago da questão. Culpa por nutrir a ilusão permanente de que seria possível saber tudo, chegar em uma resposta, chegar em uma verdade, descobrir o que é o melhor e somente então aplicar. Decidir com 100% de certeza, isso não seria uma decisão. Decisão é o que fazemos quando temos escolha. E termos escolha significa que temos uma larga margem de erro a cada vez que vamos por um caminho e deixamos outro de lado.

Quem sabe se estamos tomando as melhores decisões? Quem pode nos garantir? Ninguém. Nem nada. E o bebê, a criança, nosso filho não é quem vai se responsabilizar pelo que decidimos por ele. Ele vai certamente arcar com isso. Mas a responsabilidade é inteiramente nossa. E isso pesa. E traz mais culpa.

Você está esgotada no final do dia, sem paciência, sem disponibilidade, querendo largar tudo e correr, pensando que estava maluca quando decidiu ter filhos? Culpa. Você se propõe a estar com seu filho, a brincar, a passar um bom momento, a estar ali com ele e acaba ficando o tempo todo com um olho no celular e outro na criança, que se irrita com a sua pseudo- presença e acaba rasgando o livro, derrubando o vaso, batendo no irmão e tudo o mais que te tira do sério até você gritar e ser aquela pessoa abominável que você jurou que nunca seria? Culpa. Você lê na internet algum texto que critica a alimentação que você dá ao seu filho? Culpa. Você tenta mudar e não consegue? Culpa. Você desiste e coloca ele na frente da televisão com um suco de caixinha numa mão, um chocolate na outra e corre para frente do computador, para o banho, para chorar debaixo do chuveiro ou para tirar uma soneca? Culpa. Culpa, culpa, culpa. Mil culpas. Mil desculpas que você pede no final do dia, com medo de ter estragado tudo em definitivo, com medo de ter estragado seu filho, de ter estragado algo para seu filho, de ter estragado o caminho que vinham fazendo.

O mundo da maternidade está cheio de culpas, de culpabilizações, de desculpas que sentimos obrigação de pedir, de desculpas que inventamos para não pensar. Culpas e desculpas que jogamos em nossos ombros. Culpas e desculpas que jogam em cima da gente. Os outros, o pai da criança, os avós, a família, os amigos, a sociedade como um todo, o tal do status quo. É sempre muito mais fácil destruir uma pessoa com críticas do que apoiá-la naquilo que ela escolhe como seu caminho.

Então algumas mães se revoltam e lançam uma “maternidade sem culpa”, que a meu ver é uma espécie de síndrome de Estocolmo do maternar, quando a vítima defende o agressor. A idéia do “eu fiz isso e não morri”, a afirmação do “meu filho comeu isso e está bem”, ou do “eu apanhei na infância e sou grata a meus pais por isso”. A culpa virada do avesso, a culpa na sua mais perversa forma de destruição: para não culpar os outros, para não culpar a mim mesma por não ter pensado e por não ter agido até agora, eu desculpo todo mundo acreditando e querendo convencer de que é bom que seja assim. Que esse mundo do jeito que está é ótimo, que o modo como se criam as crianças é saudável e amoroso, que o que nos ofereceram e o que oferecemos a nossos filhos é o melhor possível. Contra todas as evidências, a ignorância pura e simples. Para evitar a culpa que já sentimos, um milhão de desculpas esfarrapadas. Culpa, culpa, mil desculpas.

Quanto mais pensamos que sabemos o que é certo, quanto mais acreditamos que encontramos as melhores opções, mais medo temos de falharmos. Quanto mais nos dizem que existem outras opções, mais medo temos de termos falhado. Em cada uma dessas situações, sentimos culpa.

Culpa de que? De sermos humanos? De falharmos? De errarmos? De contrariarmos nossas melhores intenções? De sermos ignorantes? Mal informados? Enganados? Culpa de desistirmos? De cansarmos? De não sermos capazes de lutarmos todas as lutas com igual empenho? Culpa de não darmos conta? De precisarmos facilitar por vezes nossos caminhos e nossos cotidianos?

Em nome dessa tal culpa, penso que estamos nos martirizando demais com aquilo que é impossível, na busca de uma maternidade perfeita que não existe e que ninguém vive. E acabamos paralisadas, com dificuldades para decidir, para agir, como se cada passo tivesse que ser milimetricamente calculado. Ou então agimos o tempo todo tentando reparar alguma culpa, tentando consertar um erro que nem sabemos o que foi. Nos sacrificamos para suplantar uma falta que acreditamos que poderia ter sido evitada. Será que essa mãe que queremos tanto ser não acaba soterrando a mãe que poderíamos ser numa avalanche de exigências e de culpas?

 

Amamentando

Nem sei quantas vezes já escrevi sobre amamentação. Porque acho importante. Para o bebê e para a mãe. Porque gosto de amamentar. Ou melhor. Gostei muito. Depois desgostei. Agora gostei de novo. Mas pode acontecer que desgoste, vai saber…

No começo, não tinha nada pensado a respeito. Lia apenas uma coisa aqui, outra ali e concluía que era importante amamentar. Minha filha nasceu e assim foi. Não sem percalços.

Com ela pude constatar que de tudo aquilo que falam que ajuda a amamentação, o item mais essencial é o APOIO. Sem uma rede de apoio, amamentar um bebê se torna uma das tarefas mais penosas e estressantes que existem. E, infelizmente, apoio é o item mais escasso quando o assunto é amamentação. Temos informação, mas onde está o apoio cotidiano das pessoas que nos circundam: pai, avós, amigos, médicos, equipe de saúde?

O primeiro mês de vida da minha filha foi muito difícil no que diz respeito à amamentação. Informações desencontradas, gente dizendo para fazer intervalo de três horas, gente dizendo para dar quinze minutos cada peito, gente dizendo para anotar o horário e tempo de cada mamada, gente dizendo para pesar a bebê todo dia para ver se ganha peso, gente dizendo que ela tinha que dormir a noite toda e, consequentemente, não chorar para mamar, gente dizendo que se ela ganhou pouco peso durante um mês tinha que complementar com mamadeira… Gente dizendo. O tempo todo. Gente é capaz de deixar uma mãe completamente maluca com seus dizeres. No final desse primeiro mês, eu estava esgotada, desesperada, sem saber o que fazer. Precisei de um mês para decidir mandar todo mundo às favas e priorizar minha filha. E foi quando parei de anotar horários, parei de me preocupar com os intervalos entre as mamadas, parei de buscar saber o peso dela, adotei os melhores modos de amamentar, de descansar, as posições que funcionavam para a gente, os jeitos que davam certo para nós. Ela ganhou peso, cresceu, ficou forte e saudável. E nós ficamos nessa durante um ano e oito meses.

A cada mudança, como na época da introdução alimentar, por exemplo, havia um novo confronto com estereótipos, um novo período em que a coisa desandava e em que eu tinha que voltar a me conectar com minha filha ao invés de ficar pressionada pela enorme lista de obrigações e de jeitos de fazer que vêm junto com cada acontecimento da vida de um ser humano. Começou a comer? Quem disse que começar a colocar outros alimentos na boca significa comer? A criança come a primeira frutinha, legume, papinha ou o que seja e já vem aquela pressão para que coma uma pratada de adulto. E que pare de mamar ou diminua drasticamente, lógico. Come outras coisas? Para de mamar. Tem dentes? Para de mamar. Anda? Para de mamar. Fala? Para de mamar. A verdade cruel e perversa de nossa sociedade é que todo mundo está o tempo todo querendo desmamar as crianças. Pois mamar é sinal de dependência. E dependência é algo ruim e doentio. E o vínculo entre mãe e bebê escancarado assim na cara das pessoas é uma ofensa. Não pode existir vínculo. Nem dependência. Nem amor. Tudo parece concebido para que tenhamos filhos e os abandonemos o mais rápido possível nas mãos dos especialistas. Ai daquela que ousar querer criar o próprio filho.

Um ano e oito meses depois, a pequena mamava durante o dia. De noite já não mais, pois eu cheguei em um ponto em que me sentia exausta em acordar durante à noite, em dormir picado por tanto tempo. Meu corpo já não dava mais conta e meu humor dava mostras de impaciência e intolerância. Foi difícil decidir parar as mamadas noturnas, porque me parecia algo unilateral. E eu pensava que tinha que partir da criança essa mudança de ritmo. Ou ser, no mínimo um acordo. Nada feito. Fui eu mesma quem cheguei num limite e tive que estabelecer um, explicando a ela da melhor maneira que pude, acatando os protestos, choros e reclamações legítimos. Passou.

As mamadas diurnas por vezes eram frequentes, noutras mais espaçadas. Algumas vezes eram trocadas por outras coisas, quando dava para imaginar o que aquela mamada queria dizer. Está com fome, quer uma fruta? Está com sono, vamos tirar uma soneca? Está entediada, vamos brincar juntas? Muitas vezes ela topava essa alternativa que ia de encontro ao que queria e precisava. Noutras não, era a mamada mesmo e tudo bem.

Mas um ano e oito meses depois fiquei grávida novamente. E amamentar se tornou algo insuportável. Eu havia lido a respeito, sabia que isso acontece com algumas mulheres, que ficam com muita dor nos seios com a nova gravidez e criam uma repulsa pela amamentação. Li sobre isso mas nem liguei, minha cabeça já idealizando uma amamentação em tandem, que é quando a mãe amamenta a criança e o recém nascido. Nunca tinha imaginado fazer isso também, mas me pareceu uma evidência, com duas gravidezes tão próximas e tão determinada a fazer um desmame no ritmo da minha filha. Hehehe, meu corpo tinha outros planos.

Estou convencida de que, quando se escreve sobre as dificuldades que uma mulher pode enfrentar em relação ao parto e à amamentação, as pessoas ignoram sistematicamente as dificuldades psicológicas. Como se aquilo que atravessa nossas entranhas psíquicas fosse algo contornável, algo menor. Se você tem um impedimento físico para ter um parto normal ou para amamentar, ok. Mas e se o impedimento for psíquico? O que fazer disso?

Uma nova gravidez pode criar esse impedimento psíquico, essa barreira intransponível que só aquilo que vem da mente da gente é capaz de fazer. Aquele bloqueio que parece que você poderia resolver com um simples ato de vontade, mas que se rebela, impassível, cada vez que você tenta negociar com ele.

Eu li, reli, participei dos fóruns de discussão. Eu tentei, esperei para ver se passava, negociei comigo, negociei com ela. Reduzi as mamadas para apenas 3 vezes ao dia, tentava me convencer de que logo tudo estaria bem e seria lindo amamentar novamente. Não colou. Não era minha filha, não era nada do que ela fazia, nada havia mudado. Mas algo havia mudado em mim e eu simplesmente não conseguia amamentar. Começava, doía demais, isso me deixava num estado de irritação furiosa, tinha que interromper, ela não entendia, ficava magoada, chorava, eu me sentia péssima… uma bola de neve.

Uma hora me dei conta de que isso estava transformando uma experiência que sempre foi linda e prazerosa para nós duas em um pesadelo. E comecei a temer que minha filha ficasse com essa lembrança em mente, essa lembrança do pior momento. E que isso botasse a perder toda a beleza, o acolhimento, o carinho, a doçura do que tinha sido mamar até então. Era hora de parar. E a adulta sou eu. E o motivo era meu. Então era eu quem ia ter que fazer isso, e não esperar que ela desistisse, que cansasse, que deixasse para lá, para dividir comigo o peso dessa responsabilidade. Ou da culpa. Ou da frustração.

Uma amiga querida me disse algo que me deu força o suficiente para assumir minha decisão: amamentar, quando está ruim para uma das duas pessoas envolvidas, é porque não está funcionando para as duas. Que exemplo eu estaria dando à minha filha sobre respeitar a si mesma se eu não estava respeitando meu próprio limite? Como ela veria isso, essa mãe que tentava deixar de lado a si mesma para agradá-la, para contentá-la, para satisfazê-la? Será que com isso ela aprenderia que ela é tão importante que eu me dispunha a me sacrificar para que ela mamasse (outro clichê, aquela de que maternidade é sacrifício) ou será que aprenderia que aquilo que a gente sente e vive não conta frente ao que temos que fazer para o outro?

Expliquei para minha filha muitas vezes por que não iria amamentá-la mais. Peguei no colo, abracei, consolei. Aos poucos ela foi experimentando outro jeito de ser consolada, outros modos de receber afeto, outros cuidados, outros gestos de afeição. Passou. Passamos. Dentro de mim guardava um temor e uma esperança: o temor de que ela, quando me visse amamentar o seu irmão, pensasse que eu deixei de amamentá-la para amamentá-lo e visse isso como uma troca, um abandono. A esperança de que quando ele nascesse e começasse a mamar, que ela teria vontade de mamar também e retomaria. E daí só pararia quando decidisse. Ah, como nossa mente e nosso coração buscam reparar as feridas, né? As nossas ou as deles?

Nasceu o segundinho e, contrariamente ao que foi o primeiro mês de minha pequena, com ele nem perdi tempo em escutar quem quer que seja. Não deixei ninguém falar e quem tentou comentar qualquer coisa sobre amamentação ao meu lado ouviu respostas atravessadas e logo sossegou o facho. Muito melhor assim. Se não há apoio o suficiente, ao menos aprender a se blindar das pessoas e de seus comentários destrutivos ajuda um bocado. Nada de ouvir por educação. Nada de perder tempo com conversas inúteis que a gente já sabe onde vão parar. Uma das vantagens de ter um segundo filho é que a gente aprendeu alguma coisa com o primeiro e pode, se tiver força e coragem o bastante, usar desse aprendizado para se poupar uma série de situações dolorosas. É o que tenho feito.

Segundinho mama como se não houvesse amanhã. Como sua irmã, mas de um jeito mais estabanado, mais esfomeado, menos zen. Cada amamentação é uma, cada filho é tão diferente do outro, mesmo sendo um bebezinho que acaba de nascer. Ele gosta de mamar e eu voltei a gostar de amamentar tão logo ele nasceu e mamou. Mágica dos hormônios, mistérios das entranhas da gente.

A pequena olhou, fez que não viu, mas uma hora teve que ver. Quis mamar, tentou algumas vezes, mas não sabe mais. Ou não quis saber. Aquele saber do corpo, da boca, dos músculos… aquilo tudo se foi, virou alguma outra coisa. Fiquei triste. Talvez ela também. Ou talvez estivesse fazendo isso apenas para me agradar, vai saber… Claro, ela ficou com ciúmes de ver o pequeno mamando. E se jogou em cima da gente, e ficou pedindo colo e precisando de toda a atenção do mundo justamente nessa hora do casulo entre a mamãe e o filhote que mama. Ela sabe do que se trata, também quer isso para ela. E não para ele.

Crianças não são ciumentas e invejosas. Crianças reagem àquilo que esperamos delas. Eu esperava seu ciúmes e sua vontade de voltar a mamar. Ela tentou me presentear com os dois. Mas isso sou eu, não ela. E filho não está nesse mundo para atender nossas necessidades e expectativas, né? Então minha pequena dá de mamar a todas as suas bonecas. Noutro dia, deu um beijo no meu peito e meio que se despediu. E logo foi fazer outras coisas. Outras coisas incríveis que ela tem conquistado fazer desde então, como falar, cantar, danças. E pular em poças de água. Ela pede colo sim. E quer dengo, chamego e atenção. E fica zangada com o irmão. Que é pequeno, chora, não fala, não anda e faz muito xixi e cocô. Minha pequena ficou grande. Uma grande pequena.

Quanto ao pequeno, seguimos amamentando. Ele tem aquele olhar, faz boca de peixinho, barulhinhos enquanto mama e todo aquele combo que derrete qualquer coração e faz tudo valer à pena. Gosto muito de amamentar meu filho. Como já gostei demais de amamentar minha filha. E depois desgostei. E depois gostei de novo. Amamentar é coisa de dois. É coisa entre dois. E a gente deveria ter mais liberdade de viver a amamentação com todos os seus altos e baixos, com suas idas e vindas, com suas superações e seus limites. Sem tanta regra, sem tanta obrigação. Apenas aquilo que fazemos porque faz sentido.

Cada fase, uma dificuldade

Nas raras vezes em que as pessoas decidem abrir o jogo a respeito da maternidade e admitir que não é nada fácil, uma das poucas coisas que costumam admitir é que o começo é muito duro, mas que depois melhora. Eis aí uma meia verdade, como todas as meias verdades que tentam transformar experiências complexas em argumentos simples e definitivos como: é bom, é ruim.

O começo é difícil. Com um recém nascido nos braços, uma queda hormonal mais radical do que saltar de páraquedas e nenhuma experiência com aquele serzinho ali na sua frente que você acaba de conhecer fora de você, os desafios são muitos. Aprender sobre quem é essa pessoa, aprender a cuidar dela, a atender suas necessidades que são muitas, intensas e frequentes… Passar boa parte do seu tempo em torno disso, em torno desse alguém que precisa tanto, quando você mesma se sente também em um estado de grande carência e necessidade… Lidar com uma mudança de ritmo violenta, uma reorganização do tempo que não respeita relógio biológico, horas de sono, descanso e cansaço… Fora tudo o que passa pela cabeça, do estado de êxtase ao desespero, da felicidade e do sentimento de plenitude ao esgotamento… As próprias lembranças de infância, o modo como foi filha, a relação com os próprios pais, com a própria mãe… tudo volta em avalanche. Os pitacos, as informações desencontradas, as pessoas que passam, fazem tumulto e em nada ajudam… Enfim, é difícil, é duro, é delicado, é em carne viva.

Mas daí você olha aquele bebezinho pequeno mamando, olha as mãozinhas, olha o olhar dele, o modo como ele se aconchega em você, o sono tranquilo, a sensação de felicidade tranquila, respira fundo e segue em frente. O começo passa.

Uma das curiosas descobertas sobre a maternidade, para mim, foi justamente isso: que quando você começa a se acostumar ou a se encontrar em alguma rotina daquilo que se tornou sua vida depois da chegada do bebê, ele muda, as demandas mudam, as necessidades mudam e você precisa mudar novamente. Eis aí um intensivão sobre a vida: não dá para ficar parado congelado em uma posição, porque a vida é movimento.

Então o começo passa e você imagina que “o pior” já passou. Mas não é bem assim. Pois aquele bebezinho pequeno do começo cresce e vai despertando. Fica mais acordado e, com isso, quer saber mais das coisas que o cercam. Começa a enxergar melhor e quer olhar. Começa a pegar e quer tocar. Começa a se mover e quer deslocar-se. Cada conquista espantosa e maravilhosa desses primeiros tempos é, também, uma nova necessidade de que você o acompanhe, de que ofereça aquilo que ele precisa: coisas para ver, sentir, viver. Experiências. Já não dá mais para contar com as milhares de sonecas cotidianas para fazer alguma coisa, pois o bebê está ali, acordado e existe um mundo inteiro a ser apresentado para ele.

Tenho a impressão que é aí que “a porca torce o rabo”. Pois ninguém havia dito que haveriam dificuldades depois do começo difícil e, talvez, muitas mulheres tenham acreditado que era só aguentar os primeiros meses que o restante seria um navegar por águas calmas e aprazíveis. Não.

Um bebê demanda de nós presença. Que estejamos presentes, atentos e capazes de responder de algum modo. E essa resposta varia com cada mudança na demanda. Então, você que achou que o pior era ter que acordar mil vezes para amamentar vai se dar conta que agora precisa brincar com o seu bebê. Ou sair para passear com ele. Ou fazer comida e dar comida a ele. Ou ficar por perto enquanto ele tenta rolar ou sentar. Ou estar atenta quando ele começa a engatinhar e andar e chegar naquela tomada, naquela quina, naquela porta, naquele cesto de lixo. Você percebe que existem muitas coisas novas das quais ele precisa e que não vai dar para ficar sentada lendo um livro enquanto ele se vira sozinho. Bebês solicitam. Crianças solicitam. Filhos solicitam. Pode mudar o conteúdo dessas solicitações, mas elas estão ali, bem presentes. E você vai ter que fazer algo a respeito. Mesmo que seja tentar ignorar e deixar uma criança que quer se mexer amarrada numa cadeirinha ou colada em uma tela de TV, iPad e afins. Ou seja, mesmo que você escolha a opção que pareça a menos trabalhosa possível, terá que fazer uma escolha. E agir.

Quer dizer que ninguém havia dito que daria tanto trabalho, que seria tão difícil? Ninguém havia dito que seria assim sempre? Pois é, se tivessem dito, você faria diferente?

Penso que aquilo que a gente tenta jogar para debaixo do tapete é justamente que a maternidade, como tudo nessa vida, é uma experiência repleta de paradoxos. Não é difícil. Nem é um mar de rosas e uma benção sem fim. É as duas coisas, ao mesmo tempo, nos mesmos acontecimentos, todos os dias. E é essa ambiguidade que deixa muita gente perplexa consigo mesmo, como se irritar-se, cansar-se ou ter raiva de tanta demanda significasse que você é uma péssima mãe. Não é. É apenas uma mãe como outra qualquer que, quem sabe, tenha um mínimo de coragem para assumir que é ruim. Tanto quanto é bom. E que ser mãe é ambos. O que faz de nós boas ou más mães, a meu ver, não é sentirmos tantos sentimentos contraditórios, mas a culpa que temos pelo que sentimos e nossa ignorância da diferença entre sentir e agir. A ignorância de que podemos sentir tantas coisas, pois isso é do humano e é dessa experiência de ser mãe, a tentativa de dividir em bom e mau o que vivemos e de jogar o mau ali num canto em que não nos perturbe, a crença tola de que as outras mães são apenas boas e que temos um problema quando não atingimos esse nível de excelência… tudo isso que destrói as mães em seu respeito e em sua tolerância com elas mesmas. O que acaba fazendo com que sejamos igualmente exigentes com nossos filhos, igualmente intolerantes. Se nós devemos ser as mães maravilhosas em constante estado de realização com a maternidade, nada mais justo que eles sejam os filhos perfeitos, desenvolvidos, adaptados, bem comportados, limpinhos e felizes aos quais temos direito, não?

Não.

 

As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Continuando esse papo aqui, que pelo visto vai durar muito tempo, já que ser mãe é um festival de novidades e ser mãe “na gringa” soma ainda mais novidades ao pacote.

Concordo com um post que li noutro dia que diz que você só começa a se enveredar mesmo pelos meandros do país em que vive quando se torna mãe em outro país. Claro, essa não é a única condição, mas se tem um acontecimento que te obriga a entrar em contato com esse mundo em que vive de uma outra maneira é o tornar-se mãe.

Primeiro, ao menos aqui na França, por conta da burocracia. Os franceses que conhecem o Brasil dizem que somos extremamente burocráticos e nós dizemos o mesmo deles, é o roto falando do esfarrapado. Mas, na verdade, acho que toda burocracia é particularmente difícil quando não é a do seu país, já que você vai ter sempre muito mais trabalho tanto para entender o que precisa fazer quanto para dar conta de todos os extras que te exigem justamente pelo fato de ser estrangeiro.

Antes de engravidar eu – por sorte – não tinha precisado nem ir ao médico. Então, fui descobrir todas as maravilhas e problemas do sistema de saúde francês estando grávida. E, em seguida, tendo que buscar o acompanhamento de rotina para um bebê recém-nascido. Modos de atendimento, modos de acompanhamento, seguridade-social, coberturas de planos de saúde, reembolsos… Até sobre calendário de vacinação, que é um pouco diferente do Brasil, tive que me informar (só para constar, a BCG não é obrigatória na França. Todas as outras vacinas são basicamente as mesmas, só que dadas em épocas diferentes).

O que acho interessante é que parece que os franceses buscaram criar um roteiro prevendo todos os casos possíveis. E para cada situação prevista tem algo que pode ser feito, um serviço que é oferecido e um modo de proceder. Quero dizer que, ao contrário do Brasil, aqui eles tentam cercar toda a primeira infância de uma série de cuidados e prescrições. Meio arbitrário às vezes, mas muito tranquilizador também. Me dá a impressão de que a mentalidade francesa é de que os filhos das pessoas são filhos da França e que eles levam muito à sério isso de cuidar dos filhos “da França”. A tal ponto que pode vir alguém bater na sua porta caso você não leve seu bebê nas consultas de rotina, ou se não o levar na escola.

Tenho gostado muito desse acompanhamento de maneira geral. Tudo o que os franceses são medicalizantes quando o assunto é gravidez, por exemplo, eles não são quando se trata de bebês ou crianças. Criança com nariz escorrendo, resfriada? Soro no nariz e só. Nada de antibiótico desnecessário, nada de mil remedinhos. Vejo muita mãe brasileira doida com isso, porque parece que temos mais arraigada em nós essa cultura da medicalização da infância e desde o começo já queremos medicar bebê que é “agitado”, bebê resfriado, bebê que não engorda bastante… Enfim, médicos generalistas, pediatras ou dos serviços de atendimento à infância, que são os que cuidam de bebês e crianças, medicam bem pouco essas bobeirinhas cotidianas. E não ficam pedindo mil exames invasivos para investigar suspeitas mirabolantes de diagnósticos complicados a não ser que tenham muitos motivos para tanto. E, a meu ver, isso é bem vindo.

Por outro lado, têm verdadeira fixação pela curva de crescimento e parecem obcecados com ela a tal ponto que só se preocupam se o bebê engordou e está na curva, especialmente nos primeiros meses. Não têm nenhum pudor em indicar complemento em leite em pó, sendo completamente equivocados quando o assunto é amamentação. Acreditem, a coisa aqui é grave, a França é um dos países com as taxas de amamentação mais baixas do mundo. E os profissionais de saúde são totalmente despreparados para lidar com o assunto seguindo, no mínimo, as diretrizes da OMS. Ou seja, se o assunto for amamentação, melhor procurar ajuda especializada. E especializada não é sinônimo de “o seu médico”, ok?

Contudo, amamentar em público é muito mais tranquilo por aqui do que parece ser em terras brasilis. Não sei se por pudor, por um certo respeito à liberdade do outro, ou simplesmente porque eles não estão mesmo nem aí, poucas vezes notei algum constrangimento da parte dos franceses com o fato de amamentar. E de amamentar em lugares públicos. Nunca ouvi nenhum comentário crítico ou desdenhoso e as únicas duas vezes que senti algum constrangimento foram em viagens de trens em que homens babacas ficaram olhando de um jeito nada terno enquanto eu amamentava minha filha. E só. Ninguém me falou para me retirar, como acontece com uma vergonhosa frequência no Brasil, ninguém sugeriu que eu fosse amamentar minha filha no banheiro, aquele lugar tão apetitoso, higiênico e estimulante para se fazer uma refeição, ninguém me acusou por atentado ao pudor, como os Facebooks da vida insistem em fazer cada vez que uma mulher posta uma foto amamentando, pornografia das pornografias em um mundo repleto de indecências… Já amamentei em parque, em museu, em restaurante, em trem, em ônibus, em metrô, em loja… enfim… toda hora é hora, todo lugar é lugar. E parece que está todo mundo de boa com isso.

E para quem acha que os franceses são frios, distantes ou pouco solidários, tenho a dizer que eles se mostram, sim, muito solícitos e atenciosos quando você chega com um bebê em qualquer lugar. Confesso que tinha uma péssima impressão e uma má expectativa, especialmente depois do perrengue que vi um casal de amigos passar quando vieram para cá de férias com a filha de dois anos. E do número de vezes em que fui a única a ajudar mulheres a descerem ou subirem as infernais e intermináveis escadarias do metrô com seus bebês em seus carrinhos. Paris é uma cidade hostil para grávidas e mães de crianças pequenas. Sim, é mesmo. Mas nunca deixaram de me oferecer lugar em nenhum transporte público quando estou com a bebê. E penso que o fato de eu não andar por aí com ela no carrinho e sim no sling ajuda muito, porque boa parte do mau humor dos franceses não é com a criança e sim com o espaço que aquele trambolho do carrinho de bebê ocupa no metrô, no ônibus, no elevador, no restaurante, em todo lugar de uma cidade em que espaço não existe tanto assim.

Fila preferencial aqui não existe. Quer dizer, não existe uma indicação de fila preferencial, a não ser nos supermercados e em alguns museus. Mas você pode chegar em qualquer lugar e perguntar onde é a entrada preferencial – tanto para gestante quanto para mãe com criança de colo – e o sujeito vai te passar na frente de todo mundo. E ninguém vai reclamar. A não ser no supermercado, onde as pessoas podem usar o caixa preferencial desde que não haja nenhuma preferência ali e, por isso, quando você chega com o seu bebê ou com a sua barrigona, muitos adoram fazer de conta que não te viram. Ah, a cara de pau… parece que é universal, não?

Ela gosta de música.

Mais ainda, gosta que cantem para ela. De preferência bem alto, com sons demorados e repetitivos como mantras. Gosta tanto que abre um sorriso imenso de dois dentes na boca. E coloca as mãos no rosto de quem canta. Chega o rosto meio vesguinha, sorrindo com os dois dentinhos e mergulha naquele som, naquela voz, naquela boca. Ela quer engolir a música! Menina que tudo o que ama tenta conhecer pela boca achou que era uma boa idéia degustar a canção. E ela tenta e ri e tenta e ri e tenta e ri, sempre surpresa com esse som tão saboroso que ela não consegue pegar. Menina linda entendeu tudo. Música é coisa que alimenta.

E sai sacolejando o esqueleto que bambeia mas para em pé. E cantando mil sons novos que sempre misturam espanto e alegria.

A mãe triste e o menino

Essa é uma história que é uma colagem de muitas histórias de muitas mães e muitos meninos e meninas que conheço e de outras das quais ouvi falar também. Uma história que pode ter várias caras e vários nomes. E que, como toda boa história, tem ao menos dois lados.

O menino nasceu pendurado por um tênue fio a ela. No começo, entre mamadas e cuidados diários, parecia que o fio sustentava. Ela dava conta de estar ali para ele, empenhando nisso todos os seus esforços. Ele se empenhava em sua sede de vida e de conhecer o mundo.

Com o passar dos meses, os primeiros sinais de independência, os primeiros olhares para fora daquele dueto. Ela, exausta, viu nesses pequenos movimentos de vai-e-vem a oportunidade de ir-se. Se um bebê pequeno era possível e a ajudava mesmo a sentir-se inteira e viva, um bebê menino pequeno era demais. Demanda demais, esforço demais, decisões demais, atitudes demais, acontecimentos demais. Cada novidade exigia dela uma posição e cada posição um pensamento e um trabalho. Teve um momento em que deixou de suportar remar contra a maré e deixou-se simplesmente tragar e tragar e tragar. E deixou-o ser tragado também pelo que viesse.

O menino, confuso, não sei se entendeu muito bem porque sua mãe desistiu desse embate diário que lhe dava um contorno em forma de comida, de cocô, de fraldas, de falas, de brincadeiras, de roupas, de sono e de tudo o mais que ele necessitava. Ele não entendeu suas ausências em presença, não entendeu como é que ela poderia estar ali sem estar. Apavorou-se em vê-la desaparecer sob seus olhos, detrás do computador, de livros, de escritos… Ela se afastou mais, pois até mesmo esse olhar suplicante lhe demandava além da conta e quanto mais ele pedia, mais ela se refugiava em suas tarefas que eram tudo menos ele. Precisava dormir, precisava descansar, precisava arejar as idéias, precisava trabalhar.

O trabalho voltou e ele ficou cuidado por outros. A escola chegou para ele e esse cuidado se espalhou e se terceirizou ainda mais. Ela decidiu cada vez menos e isso parecia confortar-lhe. Não podia suportar que alguém precisasse dela tanto assim, era peso demais para ela. Melhor que outros decidissem em seu lugar, já que faziam tanta questão. Baixou os braços, entristeceu-se e apequenou-se no lugar de mãe.

O menino desorientou-se um tanto em meio a esses cuidados. Cada um faz de um jeito e pensa uma coisa diferente. Como lidar com seus pedidos? Seus momentos de cólera? Suas teimosias? Suas dificuldades? Cada um age de um jeito e isso fez o menino crescer confuso, sem saber direito até onde pode ir. Qual é o limite da sua própria pele? E, pergunta ainda mais vital para ele do que essa sobre os limites: como ter o que precisa?

As faltas que impomos aos nossos filhos, muitas vezes as compensamos com consumo. Toda aquela demanda de afeto, de presença, aquela voracidade, aquela intensidade da necessidade do menino bebê foi desviando para os lugares e os modos em que ele podia receber algo: comida, atenção, objetos, presentes, doces. Ali onde ele podia ganhar, instalou-se e tornou-se um colecionador de coisas, coisas que ingere e coisas que acumula, tampando os buracos das suas carências com aquilo tudo. Não pode se desfazer, não pode emprestar, não pode deixar nada dessas coisas circularem livremente porque isso seria perder alguma coisa. E perder alguma coisa, para ele, seria perder tudo. Do cocô ao brinquedo, nada sai.

O menino foi crescendo carente, tristonho no fundo do seu coração, sob uma máscara de risonho encanto. Agressivo nas suas exigências, nas suas reivindicações que sempre pressionam o outro para que ceda, para que lhe dê aquilo que quer, para que se submeta ao seu desejo e à sua necessidade. Estar com o outro tornou-se uma espécie de “só pode haver um”. Um desejo, um que vence e impõe ao outro o que quer. Trata-se de um braço de ferro em que ele se especializou desde menino, em que vence quem gritar mais alto, pois essa é a única forma de conseguir algo. Gritar, gritar, gritar na esperança de que ela escute, de que ela venha, de que ela se mexa. Será que um dia ela vem?

Não, ele não se tornou um delinquente, nem nenhum desses clichês que poderíamos associar como consequências óbvias de seu lugar de origem. Tornou-se um sujeito correto, bem sucedido, que trilhou um caminho bastante comum, sem dar muito trabalho nem se colocar muitas questões. Estudou, escolheu uma profissão, casou-se com a namoradinha da faculdade, teve filhos, comprou uma casa, um carro e um cachorro. Mas tudo isso foi se colando em torno de um vazio, uma casca oca encobrindo esse lugar primeiro em que algo faltou. E como ele não se deu conta de que as bases eram tão frágeis, uma hora tudo explodiu. A vida explodiu, a história explodiu, a família explodiu e ele se viu afogado novamente por aquele lodo negro, aquela dor que ele conheceu lá no começo e da qual ele tentou se afastar sem levá-la em consideração. Ele se tornou alguém muito parecido com aquela mãe triste, o olhar vazio e distante que não responde, não olha, não pode, pois tudo é pesado demais.

E ela?

Como eu disse, toda história tem ao menos dois lados. E o lado dela foi igualmente árido. Essa tristeza que a tragou não vem sem culpa, a não ser na medida em que ela se acentua e se acentua e se acentua até estar tão sufocante que não há ar para respirar ou para se sentir culpada. Eis uma espécie de libertação pelo pior, uma saída para não precisar olhar, não precisar se responsabilizar, não precisar sangrar e doer por pura impossibilidade. Ás vezes o estado de espírito é tão frágil que não há forças nem para sentir culpa.

Freud (sim, o bom e velho) escreveu em um de meus textos favoritos, o maravilhoso Luto e melancolia, lá pelos idos de 1917, que sempre que perdemos algo muito importante, somos arremessados em um processo de luto que é necessário, fundamental. Serve para ficarmos lambendo nossa ferida o tempo que dure para que ela cicatrize. Pegamos cada coisa, cada lembrança, cada memória, cada cheiro, cada lugar, cada momento associado com aquilo ou aquele que perdemos e lembramos, lambemos, choramos, doemos e… deixamos ir. Um processo de luto é um processo de renúncia ao que não podemos mais ter, visto que está perdido.

Quando não conseguimos perder, quando não aceitamos, não queremos, lutamos contra e nos rebelamos, eis aí o que ele chama de melancolia. Melancolia é tentar apegar-se com tanta força àquilo que se perdeu que o único jeito possível é engolindo aquilo. Engolindo, incorporando, tatuando na pele e nas entranhas cada pedaço de cada detalhe de cada coisa, lembrança ou situação que se relacione com o que foi perdido. Assim, por meio dessa incrustração, dessa incorporação, guardamos o que perdemos no mais fundo do nosso ser e, desse modo, vivemos como se não fosse perdido.

Só que a melancolia cobra um preço cruel por seus serviços. Você não perde nada, você não deixa partir, você não renuncia mas… passa a vida inteira impregnada de um cadáver. Sim, um cadáver morto e putrefato que você engoliu na esperança desesperada de que, com isso, ele viva e você não tenha que abdicar dele. Até o ponto que você vira esse cadáver. E cadáveres, como todos sabemos, não se movem. Eis uma vida morta e imobilizada pelo esforço em não perder.

O que será que ela não pode perder com tanta força a ponto de ter se aceitado se encarcerar nesse lugar negro e lodoso do qual não pode mais se mover, ficando prisioneira de sua própria impossibilidade de renunciar, ficando imóvel? Pelo que ela pagou o preço de sua imobilidade? O que valeu sua paralisia e de todos a seu redor, sempre pisando em ovos com medo de dizer algo que faça com que ela se feche e desapareça ainda mais? Pelo que ela entregou sua vida e aceitou renunciar a quem ela é pelos que a amam? O que fez com que amor se tornasse exigência pesada demais? Por que sua única opção é abandonar e ficar abandonada? A que serve esse estado tenebroso de imobilidade que faz de todos além dela mesma reféns? Será ela também fruto de uma história de abandono e negligência? Que é fruto de outra história de abandono e negligência e de outra e de outra, por várias gerações?

Quando ficamos grávidas, a maior parte das pessoas insiste em um discurso esquizofrênico que oscila entre as maravilhas insuperáveis da maternidade e os horrores de tudo aquilo que você vai perder e/ou do que vai ter que abdicar. Eu mesma escrevi sobre isso aqui, em uma época em que começava a estranhar essas contradições dos discursos sobre a gravidez e o ser mãe e aqui, no começo dessa vida pós-parto. Mas aquilo que quase ninguém fala é que a maternidade faz com que você se perca de você mesma. Aquela pessoa que você era, foi, construiu com mais ou menos cuidado, com mais ou menos investimento, prazer e alegria é varrida do mapa para aquele lugar chamado passado. Que você queira ou não, que saiba ou não, que lute contra ou não, está feito e qualquer que seja a relação que você construa ou não com o seu filho, o fato irremediável é que você passou por essa experiência que rasga a vida em antes e depois: ficou grávida, pariu, virou mãe. E essa onda que te arrasta e sobre a qual você não tinha pensado é inclemente e o único modo de sobreviver é fazendo o luto de quem você foi. Perdeu. Você perde você. E vai ter que construir, inventar, criar uma você outra, que pode ser mais ou menos próxima daquela que foi, mas que nunca será a mesma porque a ela foram somadas as marcas mãe e filho.

Tem gente que construiu toda uma vida antes de tornar-se mãe e que viveu anos e décadas apoiada em uma imagem de si totalmente calcada no trabalho, nas conquistas pessoais, nos feitos individuais, nas histórias amorosas ou no que quer que tenha sido central para essa pessoa até ali. E quanto mais esse percurso foi longo, forte e pontuado de grandes acontecimentos, maior é o impacto desse acontecimento maternidade. E então tem quem se desespere nesse estado primeiro de perda de si e se agarre com todas as forças ao que foi. Precisa voltar ao trabalho, precisa seguir com a carreira, precisa recuperar o corpo de antes, o sucesso de antes, o poder de antes, precisa, precisa, precisa. Precisa congelar-se no momento imediatamente anterior àquele em que tudo mudou e a vida basculou definitivamente. Congelar-se no que era e no que foi e ficar ali, quietinha, tentando levar adiante como se nada tivesse mudado. Como se mãe e filho não existissem. Ignorando solenemente tudo o que se relaciona à maternidade e suas imperiosas reivindicações.

Tem gente que precisa se congelar e se amarrar por um fio ao cadáver de si mesma. Para não mudar, para não andar sem rumo com um filho nos braços procurando um caminho, uma saída, um jeito, um lar. Ainda mais que aquele pequeno ser depende totalmente dessa que nem é ainda. E sua fragilidade e sua dependência extrema chocam tanto mais a cada vez que cutucam a ferida dessa perda. Como é que um bebê poderia cuidar de outro?

Essa é uma história que é uma colagem de muitas histórias de muitas mães e muitos meninos e meninas que conheço e de outras das quais ouvi falar também. Uma história que pode ter várias caras e vários nomes. E que, como toda boa história, tem ao menos dois lados. Dois lados sensíveis, dois lados tristes, dois lados profundamente desamparados. Mas, não se iludam, não são dois lados iguais. Não estão em pé de igualdade a mãe e o menino em relação a seus desamparos. Um já cresceu, mesmo a contragosto. O outro ainda está ali, em profunda dependência. E, a meu ver, o único modo de cuidar desse bebê que sangra em você é deixando-o ir para cuidar do outro.

Ontem e hoje…

… você engatinhou. Não assim como uma chuva em um dia ensolarado. Você vinha se preparando, levantava-se sobre os braços, apoiava-se sobre os joelhos e as mãos, testava uma rebolada, tirava os joelhos do chão e… ia de ré. De ré escorregava no chão liso, resmungando que se afastava daquilo que queria alcançar, como se estivesse constantemente em um mar cujas ondas te levassem para longe. Brava, acabou dando um jeito tortuoso de chegar de ré onde queria. Isso quando não se enroscava em pernas de cadeiras ou em outras coisas pelo caminho. Ficou até mais silenciosa por semanas, tão concentrada estava nesse exercício cotidiano. Descobriu movimentos, subiu nas pontas dos pés apoiada pelas mãos com tanta maestria que pensei que sairia em cambalhotas pelo mundo. Minha ginasta concentrada, já te vi Diane dos Santos.

… entre brinquedos a serem descobertos e exercícios, a caminhada de ré foi se aperfeiçoando até tornar-se um caminho complexo de chegar a algum lugar. Foi quando você, atingindo a maestria, decidiu que era tempo de ir também para a frente.

Não sei como foi que descobriu o segredo da coisa, mas lá estava sobre o tapete, noutro dia, sobre mãos, pés e joelhos e, desse jeito levou os braços para a frente. Seguiram-se as pernas, meio hesitantes, cambaleando como se estivesse com a vertigem de quem descobre algo extraordinário. E foi. Sem se jogar, sem se arremessar, sem dar barrigada no chão, sem deslizar, sem cair para os lados. Seu pai chegou, sentou um pouco distante e eu perguntei se você não queria ir lá dar um abraço nele. Você foi.

Minha menininha deu um passo em direção ao mundo. Com toda a autonomia. Ousada. Segura. Sorrindo e dando gritinhos de celebração.

Depois disso, tem achado boa a idéia de levar seus brinquedos favoritos consigo a cada balada pela sala, pelos quartos, pelo corredor. Não basta engatinhar, ainda dá carona, com direito a paradas pelo caminho para um merecido descanso. Olhares e sorrisos para quem estiver por perto. E muita concentração na maior parte do caminho. Fora os gritinhos.

Há tantos novos sons, expressões, caretas, carinhas, carinhos e chamegos nessa menina que engatinha… Fico aqui admirada que em seis meses se possa conquistar tantos gestos, tantas experiências, tantos gostos, tantas descobertas. Meus olhos transbordam o que meu coração nem consegue abarcar.

Os três patetas vão ao restaurante

Sabe aquelas idéias que a gente tem de vez em quando e que a gente sabe que são péssimas mas, mesmo assim, a gente encasqueta que vai dar certo e coloca em prática? Pois é. Ontem foi o momento de uma dessas epifanias, em que essa que vos fala concluiu que seria uma idéia genial sair para jantar com o cara-metade e a pequerrucha.

Vocês podem perguntar: qual é o problema?

Tenho uma conhecida que me disse, logo que a bebê nasceu, para aproveitar e sair muito no começo, que eles só dormem mesmo, porque depois teria que esperar uns bons anos para botar a cara em um restaurante novamente. Sábias palavras.

Que escolhi ignorar.

E lá fui toda pimpona, de preto sobre preto sobre preto, no melhor estilo francesa esbelta (ah, o preto, como ele nos ajuda nesse efeito trompe l’oeil, seu lindo!), cabelos ao vento, tipo mãe celebridade, cara-metade do lado, bonitão, com a pequena no canguru, toda colorida, olhos bem abertos, apreciando o passeio. Maravilha de comercial de margarina.

Então entramos no restau, somos acomodados em uma mesa simpática, olhamos ao redor com gostinho de quem está adorando sair de casa, ele pede um apéro, eu fico na água mesmo. Pedimos os pratos que parecem deliciosos, o garçon simpático nos convence que é uma boa comer uma entrada antes. E lá vamos nós, família feliz, rumo a um jantar comme il faut, com direito a entrada, prato principal e sobremesa.

L-E-D-O E-N-G-A-N-O.

Uma coisa que aprendi é que devemos respeitar os horários, ritmos e limites dos nossos bebês. A primeira infância passa muito rápido e ninguém morre de passar um tempo sem fazer baladas infinitas pelo mundo afora. Porque, simplesmente, bebês cansam, sentem sono, sentem fome, ficam inquietos e esgotados dos estímulos do dia. E isso tudo ocorre especialmente à noite. Saímos pouquíssimas vezes com a pequena de noite até agora e, quando isso ocorreu, por conta de pequenas viagens e coisa que o valha, tudo correu muito bem, ela dormindo no sling, tranquilona, como se não houvesse amanhã.

Isso até ontem à noite. Quando ela decidiu simular uma mistura explosiva entre “Alien, o oitavo passageiro” e “O Exorcista”.

Sério.

O caldo começou a entornar logo depois da entrada. Animadona com toda aquela gente, aquele burburinho, aquelas cores, aqueles cheiros, a pequena ficou dividida entre olhar para todos os lados, tentar chamar a atenção da mesa vizinha (putos, como é que nem deram atenção para uma fofura dessas?) e resmungar que estava cansada. Até que deu uma regurgitadinha. Coisa pouca, pegou num canto da sua blusa e a mãe francesa esbelta de pretinho básico posando de celebridade discretamente limpou tudo com a perícia de um escultor polindo sua criação. Partimos para a estratégia infalível: a mamada que alimenta, relaxa, faz feliz e faz dormir gostoso no restaurante, no carro, no museu, onde quer que seja. Ainda mais que já era hora do soninho. Pensei: moleza! A gatinha mama e dorme antes do prato principal chegar. SO DAMN WRONG…

Então a pequena descobre que a parede é avermelhada e rugosa e… Wow! Que demais! Yupiiiii! E dá-lhe peitola esguichando leite pelo mundo afora. Putz!

Pronto, calma, ninguém viu, vamos em frente, ela vai mamar. Só que não porque tem a parede, os vizinhos da mesa ao lado, a iluminação do bar… Eu coloco ela sentada e de repente estou com o alien nos meus braços se jogando para todo lado e por que diabos os malditos vizinhos não falam com ela e fazem careta e distraem ela um pouco, minha gente?! Então ela lembra dos meus cabelos ao vento (ela adora cabelos ao vento) e gruda neles com aquele amor que só ela tem, catando um chumaço de cada lado com vontade, que é para mostrar que está perita mesmo nesse negócio de agarrar e puxar. E puxa, puxa, puxa toda a juba para a frente do meu rosto e enfia todo o chumação dentro da boca toda, aquela boca linda sorridente desdentada que eu amo e que engole toda minha cabeleira de starlet francesa esbelta e blasé ali no restaurante. E com muito custo eu consigo negociar a liberação dos cabelos reféns e ela, de boca vazia, começa de novo a resmungar porque está cansada, com fome, cheia de interesses e tudo isso já é mega over quando chega o prato principal, o cara-metade todo lindo cortando o magret de canard para minha pessoa, que com uma mão como tentando equilibrar magret, molho, acompanhamento em uma garfada torta dessa já não tão elegante à la francesa de pretinho básico, descabelada com chumaços babados inclinada para um lado tentando achar o caminho do garfo à boca enquanto equilibra a pequena alien divertida e resmungona no outro braço com ela exercitando todos os seus movimentos recém aprendidos para tentar chamar a atenção dos malditos cretinos vizinhos de mesa que não param de conversar um segundo sequer seus desalmados que não devem ter filhos e nem devem saber como é importante sair para jantar uma vez depois de tanto tempo e nem se solidarizam com a causa, bof, bof, bof, odeio todo mundo, a humanidade é fria e egoísta quando… Gente, ela vomita. Mas não aquela regurgitadinha discreta, aquela regurgitadinha fina, tipo arrotinho que a rainha da Inglaterra deve dar nos jantares oficiais segurando o guardanapo no canto da boca. Não. Ela vira a menina do “Exorcista”. Não vira o olho, nem gira a cabeça 360°C, calma, minha gente. Mas manda aquela famosa “gorfada em jato” que…

O mundo para. Em câmera lenta essa que vos fala tenta descobrir na velocidade de um raio onde foi parar o jato de leite vencido. Antes que alguém descubra. Olho por todos os lados, não sem antes tentar alcançar o guardanapo que a pequena habilmente tinha jogado no chão e ali está… na minha calça. Sim, na minha calça preta modelito ótimo que faz de conta que estou esbelta e fina e elegante à perfeição. Ali, naquela calça jaz uma poça de leite. Poça, eu juro.

O cara-metade pega a pequena enquanto eu tento enxugar a poça antes que a calça absorva tudo, numa corrida para ver quem é mais rápido e mais esperto, ela ou eu. A bebezinha resmungona senta no colo do pai ainda resmungando, meio indignada com aquilo tudo e ele dá a ela uma folha de alface.

Hahaha, minha gente! Porque tinha esquecido de falar, têm os dentinhos nascendo agora e qualquer um vira o demônio da Tasmânia com dentes nascendo e coçando e toda essa irritação e resmungação devia-se em boa parte a isso também. Que, claro, a patetona aqui não achou que fosse influenciar tanto na hora em que decidiu fazer saída noturna com jantar descolado com direito à entrada, prato principal e sobremesa. E, sim, acabamos de começar a diversificação alimentar e fazemos tudo bonitinho, os legumes orgânicos cozidos no vapor, temperados com ervas e um pingo de azeite, aquela descoberta cotidiana, sabores, cores, texturas, tudo um sonho sem fim até que alguém teve a bendita idéia de ir jantar fora e, no meio do caos, ofereceu uma azeitona para ela roer (what? sim, azeitona) seguida de perto em sua insanidade pelo cara-metade que não contente em oferecer uma folha de alface que não obteve muito sucesso, saiu-se com um bem sucedido pedaço de pão. Sim, meus queridos, um pedaço de pão. Pão bom, que aqui na França tem pão ótimo mas… pão. Putz!

A pequena aquietou com o pão antes do cara-metade ter um momento de lucidez e concluir que era melhor irmos embora, pois não seria nada prudente mandar uma baguette na mão da menina e entregar para Deus enquanto pedíssemos a sobremesa. Conclusão: nada de provar o tal creme de chocolate branco com maracujá…

Voltamos andando para casa, a pequena sossegada no colo do pai, eu meditando sobre quem teve a idéia de Jerico de sair para jantar à noite fazendo a diva da nouvelle vague apenas para retornar com o rabinho entre as pernas, os cabelos em tufos babados e a calça vomitada, sem nem um consolo de açúcar para a situação. Chegando em casa, a pequena se agita. É hora de trocar de fralda, de roupa, mamar e dormir. Eu corro para trocar de calça. O cara-metade me pergunta se era tão urgente trocar de calça (vomitada… oi?) que eu não podia dar de mamar logo. Isso vindo de quem falava fazendo cócegas na barriga da pequena. Pois é, a maternidade e a paternidade tem seus momentos surrealistas.

Não sei se porque no meu prato tinha uma redução de cerveja ou se porque a noitada foi toda montada num cenário cômico delirante, aquela cena ali me deu um acesso de riso incontrolável. E lá fui trocar a pequena e amamentar sem conseguir parar de gargalhar. Somos absurdos. Somos ridículos. Isso tudo é divertido demais.

Claro que foi menos engraçado hoje pela manhã, quando tive que sair e constatei que minhas opções de vestimenta eram: uma calça molhada recém lavada, duas calças de antes da gravidez que haviam rasgado, uma calça de grávida gigante. Ou a calça vomitada. Putz!

Ela e eu.

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Ela chegou no horário combinado e me perguntou o que eu queria que fizesse. Não fazia idéia. Lavar as roupas da bebê? Passar? Dar banho? Continuei sem saber. Precisava de ajuda, isso era claro. Mas uma ajuda para o que precisamente?

Seria estranho e dolorido demais falar da solidão, das dificuldades em amamentar, da necessidade de apoio, do cansaço. Ainda mais com alguém que mal conhecia. Sabia que era brasileira e que estava ilegalmente no país. Sabia também que tinha dois filhos, um deles, um bebê de sete meses que ela mesma tinha que deixar com um outro alguém para poder trabalhar.

O primeiro dia foi complicado. Quando tentei deixar a bebê com ela para ir apenas até a padaria e a farmácia, coisa rápida de 20 minutinhos no máximo, a pequena chorou sentido. E quando voltei estava chorando ainda, sem entender quem era aquela estranha e por que eu desaparecera. Nesse dia, ela foi embora e eu fiquei me perguntando, o coração doído: como é que ela poderia me ajudar, se aparentemente não seria ficando com minha filha enquanto eu fizesse outras coisas, motivo pelo qual a havia chamado antes de tudo?

Dia seguinte ela retorna. Eu bem que tentei pensar em uma lista de tarefas, mas não sabia. Ela chegou tranquila, viu que tinha uma louça na cozinha e foi arrumar. Depois lavou umas roupinhas, passou outras, ajudou com o banho. Foi fazendo uma coisa ali, outra aqui, fazendo a casa andar. O tempo passou, ela foi e voltou no dia seguinte.

Dia após dia ela foi e voltou. Sempre tranquila, falante e cheia de histórias sobre seus filhos, cuidando de pequenas coisas. Pequenas coisas essenciais, que ficavam emperradas em um cotidiano de mãe recém parida tumultuada e atropelada por essa vida nova que mal sabia por onde começar. Provavelmente as mesmas pequenas coisas que fazia na casa dela, em sua rotina de mulher e mãe que trabalha. O mesmo cuidado. A mesma atenção. Para que tudo funcione. Para que a maternagem tenha sossego para acontecer.

Não, ela não estava ali para cuidar da bebê. Ela estava ali para me ajudar para que eu pudesse cuidar da minha filha. E isso ela compreendeu bem antes de mim. E muito delicadamente foi fazendo, sem que eu soubesse o que lhe dizer sobre o que fazer.

Mãe amorosa de dois, não amamentou o segundo. Logo passou para a mamadeira. Ela recontava essa história doída a cada vez que me via dando de mamar. Dizia do quanto lamentava ter parado e do quanto tinha sido maravilhosa sua primeira experiência. O que aconteceu? Como eu, ela havia sido mal orientada por pediatras e outros profissionais da saúde que, vendo o baixo ganho de peso de seu filho no primeiro mês, concluíram – erroneamente – que ele não se alimentava o suficiente porque ela não tinha leite o suficiente e indicaram o uso da mamadeira e do leite em pó. Ela, assustada que seu pequeno pudesse passar fome, cedeu. Eu insisti, brigando com médico, pediatra e meio mundo. Tanto o bebê dela quanto a minha ganharam peso, cresceram e estão muito bem de saúde. Mas ela perdeu a amamentação. Sim, uma perda, ainda mais por ela saber muito bem o que havia perdido, baseada em suas memórias recentes do longo contato com a primeira filha. E me ver amamentando tocava nessa ferida dela, fazendo-a falar e se perguntar. Respostas que eu também não tinha.

Qual a diferença entre nós? Por que, frente à mesma situação, duas reações tão distintas? Empoderamento? Falta dele? Confiança em si mesma? Falta dela? Crença cega no saber médico?

Um pouco disso tudo e, a meu ver mais ainda, a questão da imigração. Ela e suas histórias me fizeram perceber quanta diferença havia entre nós, duas brasileiras na França. E o quanto essas diferenças passavam por estarmos aqui legal ou ilegalmente. E o quanto essa busca por uma vida melhor, por uma perspectiva de vida, por uma vida, simplesmente, uma vida que possa ser vivida com o mínimo de decência e de dignidade coloca pessoas como ela, por vezes, em situações tão doloridas. Não foi apenas o saber e o poder médico e da indústria de alimentos e produtos infantis que inviabilizaram a experiência de amamentação dela. Foi tudo isso sendo jogado sobre uma pessoa fora da sua zona de conforto, fora do seu país, da sua cidade, da sua língua, da sua família onde ela poderia, facilmente, ter se baseado em sua experiência de já ter parido, já ter amamentado, já ter maternado para simplesmente dizer: “não, não vou fazer o que vocês me dizem. Eu sei mais, eu sei que meu filho está bem e eu sei do que ele precisa”. Ela teria tido toda a garra e toda a condição de bancar assim esse segundo filho. É raçuda essa moça. Mas viver em outro país faz isso com a gente, especialmente quando se vive com medo de ser passado para trás, explorado, trabalhar sem receber, ser preso, humilhado, deportado, perder tudo. Ameaças tão comuns a tantos “sem papéis” que, no entanto, vêm aqui não apenas cuidar de fazer uma vida melhor para si mas, também, fazer o mundo girar e dar condições para que a caduca Europa não envelheça e morra sem nem conseguir renovar sua gente para pagar por sua aposentadoria. Velha Europa cheia de contradições, que maltrata os que garantem sua sobrevivência… Em uma situação de tanta precariedade, que te digam ainda que você não dá conta de alimentar o seu filho suficientemente e que ele precisa de mamadeira… bom, como não acreditar? Como não se submeter? A imigração esmaga muita gente tanto quanto o saber médico e o poder da milionária indústria de produtos para a primeira infância. E se ela fez a escolha de dar mamadeira para seu filho, essa escolha me pareceu totalmente atravessada por tais circunstâncias.

Ela não era uma inimiga por ter tomado um caminho diferente do meu na sua experiência da maternidade na medida em que optou por dar mamadeira com leite em pó ao seu filho. Do mesmo modo que eu não era sua inimiga, jogando meu seio e a amamentação na sua cara para mostrar-lhe como é que se faz, lembrando a ela o quanto “menos mãe” que eu ela seria. Minha existência não era um julgamento das escolhas dela e nem a dela dizia nada sobre as minhas. Éramos apenas, ela, eu e tantas outras, mais duas mulheres bombardeadas por informações desencontradas, equivocadas, servindo a múltiplos interesses que não os nossos e os de nossas crias. E tendo que fazer frente a isso apenas com nossos próprios desejos, as informações de que dispomos, nossas experiências de vida. Sozinhas. E em outro país.

Ela foi e voltou muitos dias. E, pouco a pouco, me vi capaz de saber o que fazer. E o que lhe pedir. De seu lado, ela deixou de ser uma estranha para a bebê e pode ficar com ela nas vezes em que precisei. Me ajudou com muitas coisas banais com extrema doçura: como limpar atrás da orelha, como cortar unha, como ver se a bebê não está com cólica… Penso tê-la ajudado a saber mais sobre os seus direitos por aqui. E sobre como conseguir fazê-los valer sem ficar dando dinheiro a exploradores inescrupulosos da necessidade alheia. Trocamos experiências, histórias e informações.

Hoje o bebê dela faz um ano. Infelizmente, a pequena e eu não pudemos ir na festinha. Mas penso com enorme carinho nesse pequeno, o menino lindo que ela deixa em casa para vir ajudar com a minha. Esse menino simpático e sorridente que ela gerou e cria com tanto cuidado. E que a encheu de experiências que ela generosamente me ofereceu. Parabéns, menino bonito do cobertor amarelo. E obrigada a ela, por ter me ensinado que a maternidade é uma experiência tão poderosa a ponto de aproximar os diferentes através daquilo que realmente conta: a vivência do cuidado silencioso, da compreensão sutil e da compaixão amorosa que aprendemos a ter com nossos filhos e que, com sorte, poderemos dedicar aos outros. A outras mães, como ela tem feito por mim. A outras pessoas, como fazem aquelas que lutam cotidianamente para que esses saberes e poderes não esmaguem nossa capacidade de sermos mães.

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Este post foi inspirado pelo belo Projeto Coração Materno: por uma maternidade em rede, criado pela Isa Kanupp, do blog Para Beatriz e pela Ananda Etges, do blog Projeto de mãe. A idéia consiste em ações para fortalecer a solidariedade entre mães, ao invés da perversa disputa entre grupos de mães que fizeram percursos diferentes na criação dos filhos. Se existe um inimigo nessa nossa atual situação frente à maternidade, ao parto, à amamentação, certamente não são as mães que fazem outras escolhas. São, a meu ver, as condições e os jogos de poderes que pressionam mães em todo canto do mundo a fazerem escolhas de posse de informações equivocadas. Ou baseadas na coação. No medo. Ou na submissão ao saber do outro.

Postagens amigas sobre o mesmo tema:

Empatia nas redes sociais, por Ananda Etges do blog Projeto de Mãe.

Vamos falar de escolha? por Isabela Kanupp do blog Para Beatriz.

Por uma maternidade sem rótulos, por Priscila Abreu do blog Ei, mamãe.

Sobre julgar x acolher: onde é que seu calo aperta? por Ana Carolina Ferreira do blog Um novo tempo.

A pior escolha que uma mãe pode fazer, por Ana Marusia Pinheiro Lima Meneguin do blog Mãe Perfeita.

Escolhas não nascem em repolhos, por Gabriela D’Andrea do blog Eu mamãe.

Blogagem coletiva: coração materno, por Carla Ferreira do blog Super Mãe de Primeira Viagem.

Blogagem coletiva projeto coração materno: por uma maternidade em rede, por Geisa Simonini do blog Na mira da mamãe.

Blogagem coletiva coração materno / escolhas, por Martha Albuquerque do blog Minha pequena e eu.

Conformação que gera letargia, por Myriam Scotti do blog Mãe no País das Maravilhas.

Pelo fim das guerras maternas, por Helena Sordili do blog Eu (Lele), ele e as crianças.

Pela liberdade e informação, por Luciana Primante do blog Meninas Plugadas.

E agora, Sofia? por Raquel Lima do blog Belly Mama.

Sobre verdades e máscaras, por Manu Mantovani do blog Feminices.

Há seis meses atrás…

… eu não tinha como saber que a maternidade é assim: uma compilação de alegrias inomináveis e de medos aterradores. Seis meses de uma revolução permanente, em que cada dia traz o desafio de estar ali, presente, viva e capaz de viver, contigo, toda a surpresa que um mero dia pode conter. Seis meses de introspecção e de trabalho constante para estar disponível. Aquela força descomunal que fazemos para dilatar o colo do útero e para o bebê sair é mais ou menos a mesma força de abertura que temos que fazer todo dia, para deixá-lo existir, ser, descobrir, manifestar-se. E para ser companhia e porto seguro nesse cotidiano de descobertas.

Há seis meses atrás, eu não sabia o que poderia ser o amor, esse amor que transborda com um olhar, um sorriso banguela, um som perto de dizer mamãe, uma expressão de tranquilidade durante o sono… Esse amor que não é dado, nem óbvio, mas que se constrói nessa convivência tão íntima com tal força que não conseguimos mais lembrar de como era quando ele não existia.

Sua existência traçou uma linha divisória na minha vida, dando a tudo o que era antes o nome de passado e me mergulhando em um presente cheio de gestos, onde tudo ganhou ares de simplicidade. Como é difícil viver simples e verdadeiramente, encarnada no próprio corpo e nos acontecimentos de cada dia! Como é difícil apenas estar ali!

Seis meses de amamentação exclusiva, uma vitória para nós duas, uma vitória desse contato, dessa intimidade, desse olho no olho, desse conhecer-se mútuo que se fazem no silêncio pele-a-pele. Vitória desse tempo que corre pastoso como lava, do desconhecimento em que se tem que apostar. E confiar. Vitória de um saber visceral sobre os saberes e os poderes de outros, que nada tinham a ver com isso. Confiar em mim e em você.

Há seis meses atrás eu não sabia que a maternidade não é algo dado, nem evidente. Não sabia que podemos seguir os estereótipos e nos deixarmos levar ou tomar as rédeas da própria vida também nesse ponto e pensar com cuidado em cada decisão. Mas a sua existência me encheu de uma tal responsabilidade que não teria como seguir o vai-da-valsa como gado. E cada decisão cotidiana tornou-se uma reflexão, busca de informações e, principalmente, um combate contra os outros que prefeririam ter a facilidade de não ter que se colocar em questão. E contra eu mesma, minha preguiça, a vontade de deixar tudo quieto e não enfrentar nenhum demônio. Porque lutar, dá tanto trabalho… Mas te olhando todos os dias nos olhos e vendo o quanto você precisa e conta comigo, não pude me furtar a todas as questões, todas as tomadas de decisão, todas as apostas.

Quiseram te deixar em um berço no seu quarto desde o primeiro dia e eu tive que dizer não.

Quiseram te deixar chorar para você aprender a dormir sozinha e eu tive que dizer não.

Quiseram te dar mamadeira antes mesmo que tivéssemos a oportunidade de aprender a amamentar e a mamar. Eu tive que dizer não.

Quiseram que você vivesse em um ambiente cheio de gritos, desrespeito e hostilidade e eu tive que dizer não.

Quiseram que você não fosse prioridade. Eu disse não.

Com isso nos afastamos de muita gente. E eu enfrentei várias batalhas, muitas vezes sozinha, apoiada pelas informações que tinha, pelo meu julgamento, por minha aposta e por umas poucas pessoas, bem poucas, que estavam em sua maioria longe. Mas perto, ainda bem que elas estavam por aí, ligadas, capazes de ouvir e de falar, disponíveis. E isso trouxe muitas idas e vindas, muitas viagens, muitas decisões. E muitas mudanças. E, não, não foi um sacrifício que fiz por você, pois não acredito nisso, em carregar um fardo por você, minha pequena. Nem acredito em sacrifício. Acredito em lutar por si mesma e em lutar por alguém que precisa que lutemos por ela. Acredito ter descoberto que a maternidade também é isso, essa disposição em lutar, em virar bicho, em mostrar os dentes e em proteger a cria de tudo e de todos que representem uma ameaça. Até conseguir um lugar seguro e poder pousar. E jamais será sua a responsabilidade pelo que decidi e fiz. São minhas as decisões e minha a responsabilidade. Você terá as suas apenas no momento em que puder tê-las, nada vai te cair nos ombros antes disso. Maternidade também implica em não despejar em cima de um bebê as escolhas e os atos de uma mãe. O que eu faço por você, eu faço por mim também e por minha livre e espontânea vontade. Enquanto isso, sua responsabilidade é a de descobrir o mundo, olhar tudo com olhos curiosos, lamber o gosto do mundo e da existência. E tentar entender como seus pés e pernas funcionam para ver se consegue finalmente coordená-los com seus braços e seus quadris e, quem sabe, sair engatinhando por aí, em busca dessas coisas todas que te interessam tanto.

Há seis meses atrás eu não sabia de tantas escolhas, do medo de errar, da preocupação em fazer o melhor, dos temores que acompanham esse amor tão imenso: medo que você sofra, medo que adoeça, medo de te perder, medo que te façam mal… Medo dos perigos e das dores do mundo. Depois de mãe, pela primeira vez olhei para um garoto pedindo dinheiro no farol e chorei da dor de pensar em como seria se fosse minha filha ali e em como meu coração ficaria em pedaços se ela passasse por uma situação dessa. Não há como ser mãe e não se inquietar pela humanidade inteira, sabendo que seu filho vive nesse mundo e que, para que ele possa ser bem recebido, o mundo precisa estar tão bem cuidado quanto você cuida dele, do seu pequeno. Minha urgência por um mundo generoso e por pessoas mais éticas cresceu imensamente depois do seu nascimento.

Não sabia que ser mãe é uma das coisas mais democráticas que existe: ela te coloca, como mãe e mulher, em pé de igualdade com qualquer outra mãe. Vocês partilham uma experiência do parto, da amamentação, de cada gesto e de cada conquista do filho. Mesmo tendo vivido experiências diferentes quanto a cada uma dessas coisas. E mesmo que cada mãe tenha ideais e valores diferentes. Existe algo visceral que nos une e que permite uma conversa, uma proximidade, um encontro. Compaixão e cuidado com o outro: esses foram os gestos mais tocantes que descobri entre mães.

Não, nem tudo são flores. Tem cansaço, tem saco cheio, tem um sentimento de ser arrancada de si mesma e de perder as rédeas da própria vida, tem uma sensação de impotência, tem o desconhecimento do futuro, tem o não saber o que fazer, tem projetos que explodem, tem a vida fora do Brasil, tem solidão e incompreensão… Tem tudo isso. E tem muitas mudanças, muitas apostas e a construção de algo que nem sabemos ainda o que é. Mas, como poderia ser diferente? A vida mudou totalmente com a sua chegada e isso é bom. De verdade. E o que é bom não é viver em um comercial de margarina. O que é bom é justamente esse desconhecido diário que traz surpresas e obrigada a trabalhar, a pensar, a decidir. Ser mãe me obriga a estar viva e a viver. Bem.

Seis meses depois, minha filha, o que posso te dizer é que sinto um orgulho imenso em poder te acompanhar nessa vida e uma alegria igualmente imensa em que você exista. Você me colocou vários desafios e várias questões pelo simples fato de ter nascido. E isso me torna uma pessoa melhor. Não apenas para mim mesma mas, espero, para o mundo e, principalmente, para você. Onde vai dar nossa jornada eu não faço idéia. Mas tem sido um privilégio esses intensos seis meses juntas.