Mais por aqui do que por lá.

Esta semana, você completou oficialmente mais tempo fora do que dentro da barriga. E quando te vejo toda serelepe explorando a casa inteira com um sorriso no rosto e mil sons na boca, só consigo me abismar e pensar: “nossa!” As pessoas costumam dizer que passa muito rápido, mas tenho a impressão de que passa em um tempo bem paradoxal: rápido, pois cada dia é uma revolução de descobertas e mudanças, e devagar, pois esse começo de vida é um tempo sem tempo, ao sabor da maré das mamadas, das sonecas, das brincadeiras, dos movimentos que desconsideram relógio ou agenda. O tempo da maternidade é um tempo ditado por necessidades e ritmos dessa bebê. E isso é tão fascinante quanto difícil.

Não teria como escolher um momento favorito. A cada dia, há pelo menos um momento sublime, daqueles em que o tempo para e você se percebe totalmente presente no presente, ali, vivendo algo incrível com essa pessoa inacreditável que está ali na sua frente. E nesse momento você mal pode acreditar na sorte que tem. Poder ter uma filha, que privilégio.

Mas existem também momentos ruins, quando a paciência se esgota, o cansaço fala mais alto e a vontade é de gritar, explodir, sair correndo… Quase sempre são coisas tão banais os estopins desse esgotamento. E, quase sempre, pouco têm a ver realmente com a pequena ali na sua frente. São as consequências das suas escolhas, suas dificuldades e limites jogados ali na sua cara, como se a vida te perguntasse: “e aí, vai encarar?”. Intensa convivência e amor imenso têm esse corolário: a gente sempre tende a descontar no outro aquilo que não cabe a ninguém além de nós mesmos. E, com um bebê que precisa, que demanda, que depende, o aprendizado é cotidiano para não pesar sobre ele tudo aquilo que não lhe cabe.

As pessoas também dizem que o começo é o mais difícil. Não sei se concordo. O começo tem as dificuldades do começo: a novidade, o desconhecimento, a reviravolta na vida. Mas, pouco a pouco, o bebezinho do começo ali quietinho deitado no berço, comendo, dormindo e fazendo cocô e xixi torna-se mais e mais um bebê acordado, curioso, atento, explorador. Começa a querer se mexer, começa a querer se virar, a levantar o pescoço, a olhar o mundo. Quer pegar, quer saber que gosto tem, quer ir até lá, quer engatinhar, ficar em pé, andar, comer… As dificuldades residem em que cada conquista é um recomeço: quando você começa a se entender com aquela pessoinha ali, ela muda e você tem que se reinventar de novo como mãe.

Mãe de recém-nascido não é a mesma mãe de uma bebê de nove meses. Mãe de bebê de nove meses tem que fazer comidinha, pensar no que vai cozinhar, virar chef de cozinha e tirar receitas da memória, das amigas, dos blogs e de onde mais puder… Tem que ligar o radar para possíveis perigos em cada lugar que vai, tampar tomadas, esconder fios, sumir com objetos pequenos… Tem que pensar em roupas confortáveis que permitam à pequena explorar esse mundo todo sem se enroscar nas próprias pernas nem escorregar nas próprias meias… Tem que aguentar a angústia de saber que existem tombos, existem topadas, existem arranhões em cada móvel, em cada degrau, em cada quina e que, mesmo assim, é preciso deixar andar… Tem que antecipar portas e gavetas que fecham sobre dedos e roladas de sofás mesmo com adultos por perto… Tem que acreditar que tudo o que vai ser temperado pelo chão antes de ir parar na boca entra como conhecimento em um corpinho protegido por litros e mais litros de anticorpos de leite materno.

Acho que mãe sente mesmo na carne esse tal dilema entre querer proteger e querer que seu filho descubra a vida. E que a vida descubra seu filho de maneira generosa e feliz. Porque a cada passo dá uma sensação doída de que mais uma conquista traz consigo mais um monte de riscos. E que você não vai poder proteger essa criança de tudo. Droga.

Mas, olha só, dá também um orgulho danado. Uma alegria verdadeira que explode em lágrimas quando cada conquista aparece. O sorriso no seu rosto quando consegue se equilibrar em pé sem apoio por cinco segundos traduz toda a sua satisfação. E eu não tenho como não transbordar de amor e de ternura.

Penso em tudo o que já caminhamos em apenas nove meses. Penso nessa construção cotidiana de uma mãe e de uma filha que, além de ser filha, se constrói como pessoa, como criança, como bebê. Quantos feitos, minha filha! Espero estar sendo um aconchego para você. Um porto seguro e uma fonte de alegria e de carinho. Esse é o meu trabalho cotidiano, que batalho a cada momento com o mesmo esforço com o qual você batalha seus primeiros passos e suas primeiras palavras.

Ter uma filha dá uma vontade imensa de ser alguém melhor.

 

Ela gosta de música.

Mais ainda, gosta que cantem para ela. De preferência bem alto, com sons demorados e repetitivos como mantras. Gosta tanto que abre um sorriso imenso de dois dentes na boca. E coloca as mãos no rosto de quem canta. Chega o rosto meio vesguinha, sorrindo com os dois dentinhos e mergulha naquele som, naquela voz, naquela boca. Ela quer engolir a música! Menina que tudo o que ama tenta conhecer pela boca achou que era uma boa idéia degustar a canção. E ela tenta e ri e tenta e ri e tenta e ri, sempre surpresa com esse som tão saboroso que ela não consegue pegar. Menina linda entendeu tudo. Música é coisa que alimenta.

E sai sacolejando o esqueleto que bambeia mas para em pé. E cantando mil sons novos que sempre misturam espanto e alegria.

Ontem e hoje…

… você engatinhou. Não assim como uma chuva em um dia ensolarado. Você vinha se preparando, levantava-se sobre os braços, apoiava-se sobre os joelhos e as mãos, testava uma rebolada, tirava os joelhos do chão e… ia de ré. De ré escorregava no chão liso, resmungando que se afastava daquilo que queria alcançar, como se estivesse constantemente em um mar cujas ondas te levassem para longe. Brava, acabou dando um jeito tortuoso de chegar de ré onde queria. Isso quando não se enroscava em pernas de cadeiras ou em outras coisas pelo caminho. Ficou até mais silenciosa por semanas, tão concentrada estava nesse exercício cotidiano. Descobriu movimentos, subiu nas pontas dos pés apoiada pelas mãos com tanta maestria que pensei que sairia em cambalhotas pelo mundo. Minha ginasta concentrada, já te vi Diane dos Santos.

… entre brinquedos a serem descobertos e exercícios, a caminhada de ré foi se aperfeiçoando até tornar-se um caminho complexo de chegar a algum lugar. Foi quando você, atingindo a maestria, decidiu que era tempo de ir também para a frente.

Não sei como foi que descobriu o segredo da coisa, mas lá estava sobre o tapete, noutro dia, sobre mãos, pés e joelhos e, desse jeito levou os braços para a frente. Seguiram-se as pernas, meio hesitantes, cambaleando como se estivesse com a vertigem de quem descobre algo extraordinário. E foi. Sem se jogar, sem se arremessar, sem dar barrigada no chão, sem deslizar, sem cair para os lados. Seu pai chegou, sentou um pouco distante e eu perguntei se você não queria ir lá dar um abraço nele. Você foi.

Minha menininha deu um passo em direção ao mundo. Com toda a autonomia. Ousada. Segura. Sorrindo e dando gritinhos de celebração.

Depois disso, tem achado boa a idéia de levar seus brinquedos favoritos consigo a cada balada pela sala, pelos quartos, pelo corredor. Não basta engatinhar, ainda dá carona, com direito a paradas pelo caminho para um merecido descanso. Olhares e sorrisos para quem estiver por perto. E muita concentração na maior parte do caminho. Fora os gritinhos.

Há tantos novos sons, expressões, caretas, carinhas, carinhos e chamegos nessa menina que engatinha… Fico aqui admirada que em seis meses se possa conquistar tantos gestos, tantas experiências, tantos gostos, tantas descobertas. Meus olhos transbordam o que meu coração nem consegue abarcar.

Ontem e hoje você…

… tornou-se uma expert da virada de bruços, libera os braços e se ergue sobre eles como se fosse óbvio. Só não sabe ainda o que fazer com a buzanfa e as pernas para ir a algum lugar. Mas conseguiu dar marcha ré umas duas ou três vezes. E tornou-se uma exímia apanhadora de pacotes de algodão fora do alcance. E de mordedores que são empurrados pelos pés até chegar às mãos. Gênio! Com o corpo inteiro ajudando fica bem mais fácil.

… seus sorrisos lindos têm se tornado gargalhadas. E a expressão mais doce e terna que já vi, quando você sorri com o rosto um pouco inclinado e um olhar de amor, tentando tocar o meu rosto. O coração da mamãe transborda, o tempo para. A felicidade toda é traduzida nesse seu sorriso, nessa sua expressão e nesse seu gesto.

… tudo vai na boca babenta, sem discriminação: mãos, pés, roupas, cabelos dos outros, um queixo que esteja passando por ali, ou até mesmo uma bochecha. Os dedos dos outros servem para coçar gengivas irritadas. E você solta gritinhos e gritões, empolgada com a novidade.

… em tempo, como fala! São mais e mais sons diferentes a cada dia, de todos os tons, em todas as alturas, uns resmungões, outros delicados, uns protestando, outros contando histórias. Qual será a primeira palavra que vai dizer? E em qual língua? Eu, boba de cá, escuto sempre uns mamãe e neném… mas deve ser meu ouvido que alucina meu desejo.

… já é cheia de marra com seus quereres. Diz bem o que quer e sabe empurrar braços, mãos e rostos que te aporrinham quando prefere concentrar-se noutra coisa. Brinca entretida com brinquedos que descobre. Passa um tempo olhando, estudando, experimentando vistas, paisagens, luzes, gostos, sons, sensações com todo cuidado. Adora bater papo pela manhã, logo que acorda sorridente. Detesta que te atrapalhem enquanto mama. A hora do banho e as trocas de fralda são puro deleite…

… olha as palavras escritas como quem lê hieróglifos. Por vezes, olha no vazio, mirando ao longe e para dentro. O que será que pensa?

… e aquela dancinha que fazemos contigo sentada na minha barriga, hein? Equilíbrio, gingado, corpo que vai para todos os lados e você sorrindo expectativa, divertindo-se com cada movimento. Basta eu começar a cantar o tututuru-tututuru-tututuru-tututuru que as bochechas vão longe empurradas pela boca larga e banguela que diz tanta felicidade.

… te olhando tão linda, tão comprida, esperta, curiosa, atenta, sorridente e tranquila, sinto como se sempre tivesse sido assim. A bebezinha pequena das fotos é a bebê grande que está no meu colo. Que vontade de viver nesse tempo de hoje por muito tempo!

De repente…

… no Brasil, para a primeira viagem intercontinental da pequena, com direito a calor, samba e futebol.

Então ela decide tagarelar como todos por aqui. E decide que seus pés são a coisa mais fascinante do mundo. Pedala, minha filha!

Ah, decide também que rolar pela cama toda é o maior barato. E dançar com braços e pernas agitados. E sorrir. Muito.

Ares do Brasil?

Aguardem.

Ontem e hoje…

… você descobriu como agarrar com as mãos abertas. E com toda a vontade agarrou com as duas mãos sua abelhinha, que foi parar na boca. Essa boca que agora tem mil sorrisos e sons infinitos. Menina conversadeira, da fala suave, do olhar meigo, da curiosidade com tudo e com todos. Mundos de vermelho, amarelo e laranja te fascinam. E a manhã é sua favorita para espreguiçadas felinas, conversas ao pé do ouvido e viradas acrobáticas na hora de trocar fraldas.

A primeira vez.

Quando minha irmã deu à luz ao meu sobrinho, me fascinava olhar para aquele pequeno tão novinho e imaginar que, cada uma das milhares de coisas que fazemos cotidianamente, ele experimentaria pela primeira vez. Respirar, enxergar, as cores, a brisa no rosto, os cheiros, as texturas, os sons. Imagina poder testemunhar tantas das coisas desse mundo sendo vividas pela primeira vez por uma pessoa e suas reações à cada descoberta? Imagina poder apresentar tantas dessas coisas à alguém? Que responsabilidade e que encanto, poder oferecer a um ente querido as nossas melhores primeiras vezes e poder redescobri-las com ele, com esse olhar novo e arregalado que têm os bebês pequenos a cada vez que descobrem.

Eis-me agora às voltas novamente com as primeiras vezes, dessa vez da minha filha. E o encanto, a responsabilidade, a emoção e a redescoberta do mundo e da vida se revelam ainda mais intensos a cada dia, a cada nova experiência para ela que eu posso testemunhar ou da qual posso participar. Um privilégio poder apresentar o mundo a alguém. Um privilégio poder participar dessas primeiras vezes.

Assim, algumas das primeiras vezes tão tocantes desses poucos meses de vida da minha pequena, revistas pelo olhar de uma mãe que não sabe exatamente o que ela sentiu ou viveu, mas que estava presente e viu em seus olhos aquele encanto de uma descoberta:

  • a primeira mamada em que desceu leite ao invés de colostro, ainda na maternidade, e seus olhos arregalados de “ops… uau!”
  • a primeira vez em que a vovó te deu a mão no carro enquanto você chorava e você descobriu uma mão e a segurança que dá segurar a mão de alguém…
  • a primeira vez em que você ganhou um beijinho em cada pé e seus olhos espantados por ter pés, de sentir pés e de sentir beijinhos nos pés…
  • a primeira vez do gosto esquisito da vitamina e sua careta com a língua tocando a colher…
  • a primeira vez no jardim, com o vento batendo no rosto e um cheiro de jasmim chegando no seu nariz…
  • a primeira vez em que a vovó te cantou uma música inventada e você silenciou, cheia de atenção, e dormiu…
  • a primeira viagem de trem em que você ficou um tempo olhando pela janela, abismada com as paisagens que passam, os campos, os verdes, o céu, as nuvens, as luzes, tudo passando lá fora tão rápido e desfilando refletido em seus olhos abertos, tão abertos…
  • a primeira vez que cada pessoa de nossas famílias te pegou no colo e sua curiosidade com cheiros, vozes e sorrisos…
  • a primeira vez que você sorriu quando eu trocava sua fralda… e vai saber do que você achou tanta graça…
  • a primeira vez que você descobriu a mão na boca que o papai te ensinou a encontrar…
  • a primeira vez do cheiro de creme na minha pele e seu estranhamento com essa que nem parecia mais a mamãe…
  • tantas primeiras vezes no banho, cada encontro com a água quentinha, um reencontro, um prazer de perninhas esticadas, cabeça solta, corpo relaxado em movimento…
  • a primeira vez das luzes de Paris amareladas de noite, deslizando vistas de dentro de um carro…
  • a primeira vez em que descobriu um brinquedo em seu berço, uma abelhinha colorida e tremeliquenta que te fez sorrir e soltar gritinhos…
  • o primeiro vermelho… a explosão do primeiro vermelho…
  • o primeiro susto apavorado de quando enfiaram uma agulha no seu bracinho para um exame de sangue… porque nem todas as primeiras vezes são felizes…

Mas muitas são.

Não sei que memória um bebê pode ter dessas vivências. Talvez o mais correto seria falar em marcas, marcas inconscientes, traços…

O que quer que reste, resta em mim a lembrança dessas primeiras vezes para eu te contar. E a vontade de ter filmado, fotografado, registrado, aprisionado em algum lugar para que nunca se perca. Ou não. Tem coisas tão bonitas que é melhor viver do que registrar. E botar em palavras, essas que sempre são tão insuficientes…

A primeira vez que nos vimos e nos encontramos, na sala de parto…