Como se preparar para um parto normal?

Continuando esse texto aqui e tentando pensar no que ajuda a nos prepararmos para o parto. Na medida em que isso é possível, claro, pois o parto é uma experiência de total descontrole e de entrega, em que sua razão não consegue fazer nada por você enquanto seu corpo age. E um dos aprendizados é justamente deixar esse corpo agir e confiar na sua sabedoria. Então, segue uma lista de pequenos aprendizados e grandes descobertas que fiz e que talvez sejam úteis para outras mulheres que querem tentar evitar a cascata de intervenções médicas na qual se transformou o nascimento na maioria dos lugares hoje em dia:

  • Recusando a anestesia – que é reconhecidamente a porta de entrada para muitas outras intervenções que se seguem a ela, como a administração da ocitocina sintética, a episiotomia, o parir na posição ginecológica… Fato: na medida em que você abre mão de sentir boa parte do seu corpo, fica literalmente à mercê de que ele seja manipulado pelos outros como bem entenderem. Se você não sente nada da cintura para baixo, a dor das contrações não envia mensagens para seu cérebro produzir ocitocina, que não entende que tem que contrair, dilatar, produzir leite… o que leva a trabalhos de parto que empacam, contrações que cessam, dilatações que recuam, leite que demora a descer… o que leva à ocitocina sintética, que não aparece na medida do que o corpo precisa ou pode compreender, o que leva a contrações muito mais intensas e à mais dor e, às vezes, até a um sofrimento por parte do bebê… o que leva ao medo e o medo é um dos elementos mais importantes para fazer um parto parar, desandar ou acontecer de maneira sofrida e dolorosa. Ainda, anestesiada de mais da metade do seu corpo, parir será apenas na posição ginecológica, porque não há como mudar de posição sem sentir as pernas. E essa posição não facilita muito a descida do bebê… o que leva a mais dificuldades no expulsivo, o que implica em fazer mais força, o que justifica muitas vezes aquela abominação que é alguém subir na sua barriga e empurrar por você, o que significa um bebê sendo empurrado com força demais, o que significa lacerações maiores no períneo… o que justifica outra aberração que é fazer episiotomia e cortar camadas e mais camadas sob o pretexto de que isso vai doer menos e cicatrizar melhor do que uma laceração… Bom, acho que deu para entender que uma coisa puxa a outra e que quando menos se espera a gente se vê arrastado em um mecanismo do qual não consegue mais se livrar. Então, por que começar?
  • Conhecendo ao máximo o próprio corpo e aprendendo como ele funciona e quais são os métodos de alívio da dor não medicamentosos. Tenho a sorte de ter feito dança durante quase toda a minha vida, o que fez com que eu adquirisse uma boa noção de como o meu corpo funciona. Não apenas a fisiologia do parto, saber como acontece na prática para um bebê nascer mas, também, poder entender como encontrar boas posições, como bascular a bacia para frente para alinhar o corpo de modo a facilitar a saída do bebê, como variar posições de maneira confortável e, principalmente, como respirar. Respirar – como muitas vezes aprendemos em cursos de yoga – é a base para manter o equilíbrio e a tranquilidade ao longo de todo o parto. Ao menos, foi para mim. Nesse sentido, foi super importante um curso que fiz aqui de preparação para o parto, que todas as grávidas fazem, e que foi dado por uma sage-femme especialista em sofrologia. Não encontrei nenhum equivalente disso no Brasil, mas se trata de uma técnica de respiração que, no que diz respeito à gravidez, te ensina a respirar mais ou menos no mesmo ritmo das contrações. Quando elas começam você solta o ar o máximo que puder, bem devagar, como se tivesse uma vela acesa na sua frente que não pudesse apagar. E expira assim tanto quanto consiga, depois inspira. Essa expiração dura quase o mesmo tempo de contração e juntando isso com a báscula da bacia para frente, o alívio é imenso. Funciona. Eu sei porque o único momento em que senti mais dor foi durante algumas contrações que eu parei de respirar desse modo, comecei a ofegar, comecei a sentir mais dor, o que me fez ofegar mais e foi muito difícil. A ponto de eu pensar que não daria conta. O que me leva à mais uma coisa importante.
  • Relaxar é fundamental. Parece um contra-senso dizer que é preciso ou possível relaxar. Mas eu percebi que é. Entre uma contração e outra tem gente que até dorme. Até mesmo durante as contrações é possível e necessário relaxar. Quero dizer: quando sentimos dor, nossa tendência é contrair todos os músculos para nos protegermos. Só que essa tensão faz doer muito mais, qualquer um que passe muito tempo numa posição ruim ou com o corpo todo tenso por conta do frio sabe disso. Tudo trava, tudo dói. Agora imagina esse corpo todo rígido na hora do parto. Não dá para achar posição, não dá para respirar, tudo vira desconforto. Nesse curso de preparação ao parto do qual falei, a sage-femme falava muito sobre esse relaxar como uma espécie de entrega, como uma aceitação sua daquilo que está acontecendo com o seu corpo. Ou seja, ao invés de lutar contra e ficar brigando com contrações contraindo mais ainda outros músculos, o negócio é deixar que elas aconteçam. E, para isso, um dos grandes aliados, no meu caso, foi uma banheira cheia de água quentinha. Aqui na França não se pode parir na água pelo risco de infecções e afins (como se fazer mãe e bebê passarem 4 dias em ambiente hospitalar após o parto, obrigatoriamente, não fosse arriscar imensamente todo tipo de infecção hospitalar)… enfim, não se pode parir na água mas se pode ficar na banheira, ou embaixo do chuveiro. E isso, aliado à respiração e aos movimentos da bacia traz um alívio e um relaxamento grandes.
  • Poder fraquejar. Pois sempre tem um momento em que a gente pensa em desistir. Já ouvi mais de uma mulher falar a respeito. E o curioso é que esse momento anuncia que está próximo de acabar. Por isso é bom saber que ele existe e que ele chega, pois com ele chega também o final do parto. Talvez seja um misto de cansaço com medo do desconhecido com espanto por tudo aquilo que está acontecendo. Nessa hora do “não vou dar conta”, ajuda se conseguimos relaxar, respirar, sabendo que teríamos esse tipo de dúvida. Se houverem pessoas em volta que possam nos tranquilizar também quanto a isso, mostrando que estamos dando conta sim, ajuda e muito. Mas fraquejar, é importante que se saiba, não é falhar… o que me leva a um outro aprendizado importante que é…
  • Reconhecer os seus limites. No fim das contas, penso que o parto é uma profunda negociação entre você e você mesma, assim como entre você e o seu bebê. Se passamos a gravidez todas às voltas com medos, inseguranças, reflexões e toda espécie de fantasma que nos ronda a barriga redonda, vindos de nós mesmas e dos outros, acho que é na hora do parto que a gente descobre se vai dar para negociar com tudo isso ou não. Do que estou falando? De desejo. Desejo, para uma psicanalista como eu, não é aquilo que a gente diz que quer, mas aquilo que atravessa a gente como um verdadeiro querer que se impõe, às vezes até de maneira oposta ao que pensávamos que queríamos. Sabe aquela história de dizer que quer uma coisa e fazer justamente o contrário? Então… desejo. Desejo é aquilo que suas ações dizem, é aquele querer que tem tanta força que consegue virar ação. Porque sabemos o quanto é difícil agir na vida e o quanto é fácil falar. Pois é, o desejo dá testemunho daquilo que realmente queremos naquilo que conseguimos fazer. Então isso significa que se eu não tiver o parto natural que digo querer, é sinal que eu não queria? Não necessariamente. Porque existe o nosso desejo e existem os outros e as circunstâncias e entre nosso desejo e sua realização existe um muro de ideologias, de jogos de poder e de violência obstétrica que podem jogar todo o esforço na lata do lixo em dois segundos. Mas se tem algo que eu aprendi com a gravidez e com o parto é que, se não temos como controlar quase nada, nem em nós mesmos, nem nos outros, podemos ao menos fazer a nossa parte de trabalho para tentar ao máximo, naquilo que nos diz respeito, encontrar a maior coerência possível entre nosso desejo, nosso corpo e nossas ações. Se tivermos ao menos isso, tenho a impressão que metade do caminho está feita.
  • Cuidando da cabeça. Do mesmo jeito que décadas de dança me deram uma boa noção a respeito de meu corpo que muito me serviu na hora do parto, mais de uma década de análise também muito me ajudou nessa hora. Isso quer dizer que eu estava zerada, sem nenhum senão, sem nenhum porém? Imagina, tinha um monte de fantasmas na minha cabeça e eu passei a gravidez inteira trabalhando duro comigo mesma para cuidar deles. Isso não significa que a gente chega no parto resolvida, e nem que apenas quem está resolvida chega em um parto natural. Isso significa que saber do próprio corpo funciona tanto quanto saber daquilo que te assombra, justamente porque tudo isso vai contigo para a sala de parto. E é bom saber quem está na sala. Eu tinha muitos medos. Pânico de algo acontecer e eu perder a minha filha. Cheguei a sonhar com isso, que paria sozinha e que ela caia no chão, pois eu não conseguia ampará-la. Quer desamparo maior? O que penso que me ajudou foi ter uma idéia do que me assombrava, não jogar para debaixo do tapete e não ficar no deixa disso, achando que não pensar resolveria as coisas para mim. E saber que esse reconhecimento dos meus medos não me paralisava, nem me impedia de agir mas, ao contrário, me ajudava justamente a mobilizar forças para fazer aquilo que eu julgava importante.

Tive a sorte de uma gravidez tranquila. Mas não foi sorte apenas, e sim um esforço ativo em me afastar de tudo o que me parecia ir contra a possibilidade de viver a gravidez e o parto como acontecimentos naturais, humanos, para o qual estamos, no fundo de nós mesmas, preparadas. Não apenas procurando o melhor lugar possível para minha filha nascer, como tentando me cercar de uma rede de apoio – no meu caso, virtual – que pudesse fazer as vezes daquela voz amiga que precisamos em tantos momentos. Da bolsa que estourou ao nascimento dela, foram quatro horas e meia de trabalho de parto. Um parto rápido, muito rápido para um primeiro filho. Mas aprendi que partos são tão mais fáceis e mais rápidos na medida em que as condições em torno de você são mais propícias e acolhedoras. E na medida em que você seja o mais coerente possível com você mesma. Ou seja, quanto menos você tiver que brigar com você mesma na hora e quanto menos ameaçada você se sinta pelo que te cerca, mais a coisa será fluida. Respirar, movimentar-se, banho quente, tudo isso me fez perceber que eu estava dando conta, de que estava sendo possível, também para mim, parir. Depois de um intervalo de geração, lá estava eu pensando na minha avó que, como eu, tinha vivido tudo aquilo. Cada momento dessa experiência me deixava mais segura para continuar. Não contei com tanto apoio quanto gostaria mas – isso também é importante – quem estava em volta não atrapalhou. E por vezes é tudo de que precisamos, que não nos atrapalhem e nos deixem sossegadas.

Doeu? Sim. Mas muito menos do que eu imaginava e muito menos do que alardeiam por aí. É uma dor totalmente manejável a das contrações e sigo dizendo que não acho que o expulsivo doa. Primeiro porque é como uma grande caimbra, um esforço muscular imenso. Quer dizer, é esforço, não dor. Segundo porque, nessa hora, estamos em algum outro lugar e felizmente já não pensamos mais, apenas deixamos o corpo agir. Não é um sofrimento parir. Nem para você e muito menos para o bebê, que é massageado e levado ao caminho do lado de fora, para entrar nesse mundo e para, finalmente, poderem se olhar nos olhos. Te digo que é uma emoção incomparável.

E aqui vale mais uma observação. Dizem que o protagonismo do parto é da mulher. Concordo. Mas acrescentaria: é da mulher e do bebê. Precisam dois para fazer acontecer. Conversei muito com minha filha durante a gravidez. Não tenho como saber o que ficou disso, nem como foi absorvido, mas eu sabia que ela estava lá e que podia me escutar então, na medida em que ela mexia, eu falava. E entre nossos muitos papos, especialmente no final, eu explicava para ela mais ou menos como é que as coisas aconteceriam. Também não sei o quanto isso ajudou, mas tenho a lembrança de que estávamos bem sintonizadas. E ela nasceu muito calma. Sem choro, sem agitação, sem sobressalto.

O bebê não é parido, ele nasce. Ele faz uma porção de coisas enquanto estamos fazendo nosso trabalho. Ele amadurece os pulmões e envia os sinais de que está pronto, ele desce para o canal vaginal na medida em que as contrações o ajudam. Ele sai, abre os olhos, respira, olha em volta. Minha filha veio para os meus braços e ficou pousada na minha barriga por um tempo. Do lado de fora. Respirando e se recuperando daquele trabalho todo, que era o mesmo que eu fazia. Depois foi examinada na presença do pai e voltou para meu colo, onde ficamos boas horas, ela descobrindo o mamar e eu descobrindo ela. Não pensei tanto a respeito das intervenções sobre ela quanto pensei no que aconteceria comigo. E isso é algo que muitas fazemos, tanto temos que lutar para ter um parto digno que não dá tempo de pensar em como proteger também nosso bebê logo que ele sai do ventre. Uma ou duas coisas desse pós parto eu mudaria ou tentaria evitar. Não sabia na época sobre o colírio desnecessário, por exemplo. E ela teve que fazer um exame dois dias depois que, hoje, eu teria recusado. Então, se você já topou toda essa trabalheira que é parir, aproveite para dedicar um tanto do seu esforço para pensar e tentar preparar também o melhor possível o modo como seu bebê será acolhido.

 

Se fosse parir novamente, iria ao hospital ainda mais tarde do que fui, quase no expulsivo. Ou então teria em casa, no melhor estilo: “puxa, não deu tempo!”. Para burlar o jeito como as coisas são feitas por aqui, com a segurança de que saberia muito bem parir uma criança. Somos nós mesmas que temos que encontrar as brechas desse sistema e fazer valer nossa possibilidade de vivermos o parto de maneira digna e humana. E, prazerosa. Porque parir, e isso pouca gente diz, é muito bom. Tenho uma grande amiga que diz – e eu concordo – que se pudesse paria umas dez vezes. Outra história é ter que criar dez depois. Putz!

Volto amanhã com algumas leituras que muito me ajudaram durante gravidez e parto ou que descobri depois, mas que vão de encontro com tudo o que escrevi por aqui.

Os medos… ah, os medos…

Acho que foi minha irmã quem me disse que, uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila. Não, não se trata das noites mal dormidas por conta de amamentar, dos choros, das cólicas e afins. É mais sério que isso. Uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila porque terá sempre, como ruído de fundo, as preocupações relacionadas ao seu rebento. Lembro-me bem dela ter dito que a maternidade é como uma espécie de luto: ao lado da alegria de ter em seus braços aquele serzinho encantador, uma dor passa a te acompanhar para sempre. A dor de quem dá origem a um outro ser humano que, por ser humano, é criado para a vida e, também, para a morte. Uma vez consciente desse risco que todo humano corre pelo simples fato de estar vivo, que mãe pode dormir tranquila?

Os medos, pelo que tenho percebido, esses nos acompanham a cada momento a partir da concepção. Parece loucura, mas desde que soube que estava grávida, uma série de coisas banais que nunca me inquietaram passaram a me assombrar sobremaneira. Sair sozinha à noite, voltar para casa tarde da noite de metrô, situações em que pessoas levantam a voz próximas a mim, como se fossem brigar… Coisas que até então passavam desapercebidas, pelo fato de morar em um lugar bastante seguro, em um país bastante seguro, onde você pode andar na rua, inclusive à noite, até mesmo sendo mulher, sem que ninguém te aporrinhe. Sim, existem lugares onde se pode ir e vir e onde a rua e a cidade são, ainda, de todos.

Mas muito além desses medos e inseguranças que criaram uma grande sensação de vulnerabilidade ao surgirem lá onde não existiam, e que atribuo ao fato de me sentir responsável por proteger uma pessoa indefesa que está aqui na barriga e precisa de mim também para garantir sua segurança, a novidade maior foram esses medos relacionados à gravidez, ao parto e a essa criança propriamente dita.

Nem precisa ler muito sobre maternidade para ser inundado de assombrações permanentes: entre aquilo que publicam sobre o assunto, aquilo que os especialistas dizem e todos os palpites e “causos” que todas as pessoas “de bem” insistem em te contar, sobra material para metros e metros de medos sem fim. Cheguei a discutir isso antes, nesse post aqui. Essa mistura de cultura do risco que inunda os saberes médicos e de atração pela desgraça alheia que atravessa o senso comum dos realities shows aos relatos de catástrofe mostrados com esmero por toda a mídia, não sobram dúvidas: o que se quer é ver sangue.

Credo! Sai para lá!

Mas como isso se reflete na gravidez, no parto e na experiência da maternidade? Penso que, para além dessa sensação humana da qual falava no início, dessa aguda percepção da fragilidade e da finitude da vida, esse nosso gostinho por focalizar no pior das coisas ajuda a que nós, as grávidas e mães em questão, fiquemos alucinadas com muito mais do que o que seria necessário. Se não, vejamos o breviário de medos e inseguranças que nos acompanha feito bagagem pesada demais:

  • no começo, a gente teme estar grávida e, quando existe a suspeita, teme também achar que está e se frustrar descobrindo que não;
  • depois de confirmada a gravidez, a gente teme os temores do primeiro trimestre, que é quando todo mundo diz – putz! – que a maior parte dos abortos acontecem… e lá se vão três meses em que você passa pensando “ai, fica bem na barriga da mamãe, queridinho…”, com medo de acordar um dia e estar sangrando;
  • então surgem os primeiros exames e você passa a temer também todos os bichos e afins… toxoplasmose, listeriose, rubéola, DSTs… e lá se vão noites e noites de sono pensando em porque não tomou as vacinas direito, porque diabos comeu tanta carne mal passada, porque bebeu no ano novo…
  • o bônus dos primeiros exames, ao menos aqui na França, é a depistagem da trissomia do cromossomo 21 e de outras anomalis genéticas, que eles fazem a partir do primeiro ultrasom somado a um exame de sangue… mais um bocado de noites e dias de aflição de que o pequeno tenha algum problema genético…

O primeiro trimestre passa e você respira aliviada por não ter abortado, por todos os exames terem dado negativo, por estar bem e saudável, pelo ultrasom e os exames de depistagem não terem indicado nenhuma anomalia e você quase acredita que pode dormir sossegada… Mas não! Isso foi apenas o começo.

  • teu ganho de peso, tua pressão arterial, tua diabetes podem prejudicar o desenvolvimento do bebê, então você passa todos os seus dias preocupada com o que come, como come, para não comer demais ou de menos;
  • exercícios demais podem gerar contrações e não é nada bom ter contrações antes da época em que elas devem acontecer… Então você segura a onda;
  • mas exercícios de menos e sedentarismo demais influenciam na troca entre você e o bebê pela placenta, além de contribuírem para o ganho de peso,  e para o aumento das dores pelo corpo todo devido às mudanças corporais… então você enlouquece e começa a fazer yoga, natação e sei lá mais quantas mil atividades que são ótimas durante a gestação;
  • e, embora os casos de aborto espontâneo sejam uma questão importante no primeiro trimestre, é claro que sempre existe o risco de um óbito… então você passa suas noites de sono torcendo para isso não acontecer contigo e para que tudo continue bem ali, na barriga;
  • e, quanto mais se aproxima do terceiro trimestre, mais o risco de um bebê prematuro de tão baixa idade é um risco de um bebê que não sobreviva… então, embora tanto risco dentro da barriga te faça pensar que seria mais seguro o sujeitinho sair logo, e ainda que sua curiosidade em relação ao serzinho que te habita só faça aumentar e você queira muito saber como ele é, você insiste “fica bem aí na barriga da mamãe, queridinho…”

Passa o segundo trimestre e você respira aliviada da travessia de tantos percalços em teoria achando, já menos convicta que ao final do primeiro trimestre, que agora vai. Mas agora vão começar os assombros do terceiro trimestre, da prematuridade, do ganho de peso do bebê, da posição, do encaixe, do parto, do trabalho de parto, das dores, das contrações, da dilatação ser suficiente, de saber se deu certo de estar cercada de gente respeitosa e humana, se o bebê, teu corpo, teu marido, teu médico, tua parteira, tua maternidade vão todos conspirar para que tudo se passe da forma mais cuidadosa, respeitosa e natural possível para a chegada do pequeno… E, bebê nascido, haverão os medos de que tudo esteja bem com ele, de que seja saudável, de que mame, de que durma, de que viva bem… E da relação com os outros, dos perigos do mundo, da escola, de estar criando tão bem quanto possa, das doenças, das dificuldades, dos percalços… Putz, é preocupação sem fim, quando termina uma, começa a seguinte…

Parece tanta coisa que nem exorcista dá conta, uma condenação sem fim a um sono preocupado, inquieto, temeroso de tudo o que pode ser que… Entendo melhor minha mãe e todas aquelas mães um pouco malucas, em constante estado de alerta e tensão permanente, apostando que filho debaixo da saia é filho no lugar mais seguro desse mundo. Não deve ser nada fácil olhar para cada dia e para os desafios e riscos de cada dia e confiar que tudo vai correr bem. Mas é por isso que olho com ainda mais admiração para aquelas mães que conseguem, em meio a tantos assombros, manter uma certa calma no coração, uma certa confiança na vida e uma certa aposta de que seus filhos, na barriga e fora dela, estão e estarão bem.

Esse estranho sentimento.

(version française ici)

Não acredito muito nessa história de instinto materno. E ainda menos no tal do amor materno. Ser mãe – como ser pai – são construções sociais, determinadas por nossa cultura, nossa história, a época em que vivemos, aqueles que nos cercam. Ser mãe ou pai certamente não tem o mesmo significado hoje que tinha no século XVIII. Mas tomamos como uma evidência à qual tentamos nos adequar, do mesmo modo como tentamos nos adaptar a tudo aquilo que parece ser “como deve ser”.

Tem uma autora muito perspicaz que escreve frequentemente a respeito do mito do amor materno, a historiadora Elisabeth Badinter. Ela trabalha para desconstruir a idéia de que o amor materno seria instintivo, inato e natural, mostrando todas as circunstâncias que contribuem para sua existência. Vale a leitura.

Mas, voltando a esse estranho sentimento, sempre achei uma grande violência exigir que as mulheres:

  1. queiram ter filhos;
  2. sintam-se felizes e realizadas ao tê-los;
  3. os amem incondicionalmente.

Porque nada disso, ao contrário do que nos querem fazer acreditar, é natural ou evidente.  Podemos querer ter filhos ou não, podemos nos realizar com a experiência da maternidade ou não, podemos amar nossos filhos ou não. E ninguém deveria ser julgado ou culpabilizado quando não segue a conduta da massa nesse assunto. Mas a maior parte das pessoas prefere apontar o dedo e criticar quem não se adapta ao padrão, né? Como se houvesse apenas um modo de viver, de sentir e apenas um desejo legítimo de se realizar nessa vida. Que pobreza de espírito… Sigamos.

Lembro do período em que fazia meu mestrado e uma de minhas colegas escrevia, justamente, a respeito da adoção. Ela defendia a idéia de que, em caso de adoção, havia uma relação entre mãe e bebê que tinha que ser construída, um afeto que tinha que ser criado, pois eles não estavam desde sempre lá, presentes e nem garantidos, visto que o bebê não era filho daquela mãe. Era uma tese interessante, mas que caía justamente nessa suposição, que acabei de apresentar, de que um bebê e sua mãe “de sangue” não teriam nenhum trabalho a fazer, tudo estaria ali pronto e dado para eles: o laço, a ligação, o sentimento, o amor, a relação, a intimidade. Como se uma mãe “de sangue” não tivesse, ela mesma, que tornar-se mãe.

Não me parece que seja assim.

Mulheres grávidas têm as mais diversas reações a esse fato. E o mesmo acontece depois que o bebê nasce. Tem gente que esquece que está grávida, que não sente nada, nenhuma ligação com o bebê na barriga. Tem gente que não sente um laço depois que ele nasce. Tem gente que antes mesmo de engravidar já está criando uma história entre si e aquele potencial filho… Tantas possibilidades quanto existem pessoas nesse mundo. Nenhuma é melhor do que a outra.

Existe um filme magnífico do cineasta argentino Pablo Trapero chamado Leonera que fala exatamente disso, do momento em que uma mulher vira mãe. Nesse caso, uma mulher que é presa suspeita de ter assassinado o marido e que se descobre grávida na prisão, não tendo nenhum interesse nessa gravidez e nem na criança que nasce até que…

Pois é, parece que, às vezes, acontece um até que. Um momento, uma situação que faz sentido e cria a possibilidade de que uma mulher vire mãe. Em algum momento. Vemos como isso acontece no filme, já vi isso acontecer com mulheres da minha família e com pacientes em consultório. Já vi isso não acontecer também. E, por isso, por não ser uma obviedade, ficava curiosa em saber se isso aconteceria para mim. E quando aconteceria.

Que os ultrasons ajudaram a tornar real a experiência da gravidez, já contei aqui. Que falar com o bebê na barriga ajudou a inventar um diálogo com uma outra pessoa que, nesse momento, partilha intimamente do meu dia-a-dia, isso também contribuiu. Como uma construção que vai se fazendo tijolo por tijolo, um dia após o outro, as imagens, as conversas… Até saber que é uma menina e tornar tudo ainda mais real, um bebê que é uma menina, que tem um nome, que tem uma carinha que começo a ficar curiosa por conhecer… E passar a chamar de filha, um momento tão forte em que me dei conta de que, para mim, ela não apenas existe como tem um nome e um lugar… Tudo isso antes mesmo de nascer, quem diria. Quem diria que comigo seria assim?

Não sei se tive um momento único, um até que. Ou se esse caldo de momentos é que foram semeando em mim o meu até que. Sei que, noutro dia, acordei, olhei para minha barriga, dei bom dia para minha filha e sorri à toa, sentindo um amor muito profundo por uma pessoa que ainda mal conheço. Que não seja natural ou evidente apenas torna isso tudo ainda mais extraordinário.

Leonera - Pablo Trapero
Leonera – Pablo Trapero

Parir entre sangue e dor…

(version française de ce post ici.)

Noutro dia, reunião aqui em casa, discuto com os amigos minha opção por um parto natural que, na França, felizmente, não é sinônimo de parto normal – que o parto é normal, já está dado e eles ficam de cabelo em pé com nossa mentalidade cesárea – mas diz respeito, mais especificamente, àquilo que no Brasil chamamos parto humanizado, um parto normal com direito à recusa de várias intervenções médicas que são, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias e apenas atrapalham de maneira violenta mãe e bebê. Então uma amiga minha tira da cartola, depois de dizer que seu ideal de parto seria ser sedada, apagar e acordar apenas quando o bebê tivesse sido retirado de dentro dela – que essa opção de parto natural é uma escolha católica por parir entre sangue e dor e o quanto ela é absurdamente ideológica. Minha amiga é feminista. E inteligente. Parei para pensar. E percebi que não concordo com nada do que ela disse.

Primeiro, porque toda e qualquer opção em relação a todo e qualquer tema em nossas vidas é ideológica, quer dizer, tem em si alguma ideologia, quer saibamos ou não. Ser ideológica não é argumento para uma escolha, é a constatação de uma condição do pensar humano. A questão poderia ser, então, que ideologia está por detrás de uma escolha de parto ou de outra? O que estamos apoiando ou defendendo quando preferimos isso à aquilo?

Parir entre sangue e dor foi a condenação dada por Deus a Eva depois dela comer o fruto proibido e ser expulsa do paraíso. Mas por que isso seria uma condenação? Não sou uma expert em estudos religiosos, não li a Bíblia inteira e, assim, não tenho como falar do lugar de sabichona no que diz respeito a esse tema. O que, talvez, seja bem melhor, porque permite que eu apenas faça aqui as questões e reflexões que me provocam desde o comentário dessa amiga. Vamos a elas.

Do ponto de vista de uma pretensa defesa feminista do direito a não parir entre sangue e dor e, com isso, não sucumbir ao legado machista católico que impõe às mulheres sangue, dor e sofrimento, acho o comentário dela especialmente equivocado: afinal, a Bíblia foi escrita por quem? Por homens. Até Deus, o figura, é definido no masculino, herança e testemunho dos séculos e séculos de patriarcado que estabeleceram o homem no lugar da razão e a mulher como ser menor, incapaz, relegada às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos. A Bíblia apenas prolonga uma mentalidade que era aquela dos gregos antigos, herdada pelo império romano, do homem como cidadão, centro da pólis, senhor do pensamento. Então, minha pergunta, mesmo sabendo que o Antigo Testamento não foi estabelecido pelos seguidores de Jesus, mas bem antes: a que serve que um livro desses estabeleça a mulher como pecadora e a condene a parir entre sangue e dor?

Existiam homens e mulheres antes disso, não? Bom, talvez para os católicos não, homens e mulheres tenham surgido com Adão e Eva. Mas antes do surgimento da Bíblia como livro sagrado do catolicismo que diz que homens e mulheres surgiram de Adão e Eva e que dá a opção às pessoas de acreditarem nessa versão da história como mito das origens, já existiam homens e mulheres nesse mundo, não? Que não acreditavam ou não sabiam da tal verdade que é Adão e Eva. E que nem sabiam que o modo como viviam a depender de seu trabalho e a se reproduzir e parir entre sangue e dor era consequência do pecado original. Podemos achar que eles eram apenas ignorantes da verdade que os fazia serem como são. Ou podemos pensar que essa verdade é apenas uma versão das coisas que diz mais a respeito dela mesma e do por que ela foi construída desse modo do que acerca de como as coisas realmente são.

Como as mulheres antes da Bíblia pariam? Provavelmente, naquilo que é essencial, do mesmo jeito que nós fazemos hoje. Então, não foi a Bíblia que inventou o parto entre sangue e dor, ele já existia antes dela. Ela apenas inventou que ele seria consequência de uma condenação. Quer dizer, ela associou parto, sangue e dor à um castigo. Aí é que está o problema.

Por que será que interessa a alguém associar parto com dor a um castigo? Se formos pensar em um argumento radicalmente feminista, será que não seria o caso de considerar que interessa apenas aos homens – esses mesmos que instituíram o patriarcado nesse mundo – que um ato exclusivamente feminino, em que a mulher tem todo o poder sobre o seu corpo e sobre uma vida além da dela mesma, em que ela pode dar origem a um outro ser – coisa que apenas inventando um Deus homem os homens conseguiram remediar – enfim, que esse ato exclusivamente feminino seja considerado como um castigo e, assim, desapropriado? Desqualificado? Tornado impuro, menor, feio? Apenas uma idéia que me ocorreu. E que não me pareceu tão absurda se, seguindo por essa veia mais radical e paranóica formos pensar que, milhares e milhares de anos depois, a opção que se criou para as mulheres e seu procriar e seu parir de segunda categoria foi uma em que elas se desfazem totalmente de qualquer poder sobre o seu corpo, tornando-se objetos que, voltando às palavras da minha amiga, são botadas para dormir, têm seus corpos manipulados e decididos por outros, têm seus bebês extraídos delas e devolvidos a elas quando, como belas adormecidas, elas acordam de um sonho encantado com seus filhinhos no colo, sem nenhuma participação naquilo que trouxe ao mundo essa nova vida.

Então, tá. Ser objeto, um corpo objeto das decisões de outro a respeito da vida de seu filho é a alternativa feminista para o parto condenado entre sangue e dor? Não ser sujeito, não estar ali presente no momento em que a experiência acontece é fazer valer seu direito de ser mulher, ser independente, ser autonoma e não participar? Muito bem, o feminismo nos trouxe e nos trás conquistas incontestáveis e deve ser defendido enquanto houver nesse mundo uma pessoa que pense e aja de maneira violenta contra uma mulher pelo simples fato dela ser mulher. E defendeu o nosso direito sobre nossos corpos, sobre a concepção, sobre a alternativa de não ter filhos frente à obrigação de tê-los, sobre a opção de interromper uma gestação e tantas outras coisas mais. O feminismo defendeu até nosso direito de nos alienarmos em um conjunto de atos médicos para não participarmos do momento do parto de nossos filhos. E, ok, pode ser que para muitas mulheres isso seja uma opção. E defendo o direito que elas adquiriram de escolher isso.

Mas, apenas uma questão, essa escolha, tão ideológica quanto a minha por um parto natural, defende qual ideologia mesmo?

Em nome de nosso “direito” à não ter dor, não ter sangue, não ter sofrimento, parece que entramos em uma corrida para extirpar essas experiências de nossa condição humana. Como se fosse possível uma vida sem dor, sem sangue e sem sofrimento. E como se essas coisas fossem ruins, um castigo, um calvário pelo qual temos que passar para pagarmos os pecados de sabe-se-lá-quem-ou-o-quê. As pessoas parecem que têm mais medo da dor do que ela pode doer realmente. E em nome desse medo, jogam para fora da vida muitas experiências que são tudo, menos um castigo e uma condenação.

Poder parir um filho entre sangue, dor e muitas outras coisas que ainda não consigo imaginar me parece um privilégio, uma consequência coerente de uma escolha de alguém que decide que, em sua vida, cabe o projeto de dar vida a um outro alguém. Vida, em que também existe sangue e dor. E riso, e alegria, e um mundo todo de descobertas. Vida que não foge do dito ruim para tentar ficar apenas com o que pareceria bom, como se sentir fosse perigoso, como se sofrer fosse uma ameaça, como se as dores da vida não ensinassem e não formassem tanto quanto os seus prazeres.

Eu quero parir minha filha. Não quero que outros o façam por mim.

Fala com a barriga!

Aura Satz - Ventriloqua - 2003/4
Aura Satz – Ventriloqua – 2003/4

No começo achei estranho. Como se fosse um ser delirante daqueles com os quais vivo trombando pelas ruas ou metrôs dessa cidade, lembranças de um passado no qual convivia com eles, psicóloga recém-saída das fraldas da faculdade, em um serviço público de saúde mental que praticamente formou não apenas a psicanalista que sou, mas boa parte de minhas convicções sobre os seres humanos e suas subjetividades. Bons tempos aqueles em que conviver com loucos era a construção de uma possibilidade de existir… Mas, enfim, há loucos que, em meio a seu delírio, falam sozinhos, falam com as paredes, falam com o vento, com o ar, com o céu, com sabe-se-lá-o-que. E sabe-se-lá se obtém resposta.

Então, falar com a barriga? Com essa herança forjada pela minha história profissional? Tsc, tsc, não sei não…

Mas os livros, os sites, os blogs, os experts de ocasião todos aconselham: fala com o bebê! Mais uma daquelas imposições arbitrárias que supõem que todo mundo é mãe do mesmo jeito, ama do mesmo jeito e demonstra afeto do mesmo jeito. Que mãe desnaturada não vai querer falar com o seu pequeno?

Xiii, devo ser eu, porque mantive minha hesitação.

Mas, tenho que confessar que falo com as minhas gatas. Tudo bem, elas estão aí, fora de mim, eu posso vê-las, elas reagem com um miau ou com um simples olhar de profundo desdém pelo que quer que eu esteja dizendo. E olha que eu sempre tive medo de virar aquela lendária velha dos gatos: sozinha, meio louca, meio descabelada, falando com seus gatos como se fossem gente. Putz! Entre a velha dos gatos e falar com a barriga, até que a distância nem é tão grande, não?

Esse foi um bom argumento.

Mesmo sabendo que ali está uma outra pessoa, dentro de mim, que pode estar ouvindo o que digo, já disse em algum outro canto deste blog que sou uma mulher do tempo das imagens, um São Tomé contemporâneo, que precisa ver para crer e o que eu vejo é minha barriga, o bebê escondidinho ali dentro. Então, falar com o bebê é falar com a barriga. Quase um exercício de abstração para essa que vos fala e… putz! Eu falo com leitores no blog que nem sei quem são ou se existem, falo no twitter, no facebook… eu, como a maioria de nós, seres viventes nessa era virtual, falo sozinha! Socorro!!!

Frente à constatação de que, no nosso mundo atual, já falamos mais sozinhas, com as paredes, com as telas, com os celulares do que com gente de carne e osso ali na nossa frente, tive que capitular e tentar. E, há cerca de um mês, em uma noite de insônia durante a semana em que minha barriga decidiu que ia dar mostras de sua existência, fazendo com que eu perdesse em poucos dias todo o meu guarda-roupas, comecei a falar com ela. Comecei falando com a barriga e, quando dei por mim, estava falando com o bebê, contando a ele (ou ela) quem está aqui do lado de fora esperando por ele. Eu. Papai. Minha família. Sua família. Meus amigos queridos. As gatas… Se ele (ou ela) escuta ou não, o que escuta, o que entende do que escuta, eu não faço a menor idéia. Mas é uma bela maneira de tornar ainda mais real a existência desse serzinho que se guarda ali, nos mistérios de uma barriga de mamãe grávida.

Outras sobre o conversê com a barriga: aqui.

Mas o bebê sente tudo o que a mamãe sente?

Drawing woman surrounded by her children - Pablo Picasso - 1950
Drawing woman surrounded by her children – Pablo Picasso – 1950

 

Está aí uma boa pergunta, que sempre me deixa de cabelo em pé, ainda mais quando vem em forma de afirmação: “ah, mas fique bem porque o bebê sente tudo!” Quer dizer que, além de ter que dar conta de tudo o que acontece, eu não posso reagir emocionalmente a nada de ruim porque, caso tenha um mau pensamento ou um mau sentimento, estarei prejudicando o bebê? Sério, alguém já parou para pensar na cilada que é esse tipo de afirmação? Porque, minha filha, agora, além de não poder fazer mais nada, nem de expressar mais nada, você não pode mais nem sentir nada ou você será uma péssima, péssima, péssima mãe. E você não quer isso, né? Putz…

Acho que esse tipo de idéia entra no mesmo rol de “maternidade é uma benção”, uma posição unilateral, que não dá espaço para a pluralidade que é a vida e que prefere jogar para debaixo do tapete tudo aquilo que é rejeitado, condenável, incomodo. Estabelecemos uma idéia de como devemos ser, como devemos viver, como devemos reagir a cada experiência da vida e tudo o que foge ao padrão tem que ficar bem escondidinho. Com o agravante que, em uma gravidez, escondidinho não pode nem mais ser dentro de você, no segredo do seu silêncio ou dos seus pensamentos, porque dentro de você tem o bebê e se ele e seus segredos se encontrarem… minha nossa, que perigo! O bichinho corre o risco de ficar contaminado por toda a porcaria que você guardou ali. Euh, melhor arrancar tudo de dentro de você e jogar num lixo, daqueles lixos tóxicos de resíduos nucleares que ficam enterrados sob toneladas de concreto num fim de mundo qualquer. E do qual nunca mais se tem notícia até o dia em que ele vaza, transborda por uma rachadura da parede e todo mundo é obrigado a lembrar que não dá para o lixo ficar debaixo do tapete para sempre. O velho Freud sabia das coisas quando dizia que tudo que vai para debaixo do tapete volta para cobrar a conta.

Essas idéias unilaterais que a gente cisma em colocar como um ideal servem apenas para nos torturar por toda uma vida, cobrando e cobrando a nossa incapacidade, a nossa insuficiência em ser como se deve. Na hora de ser mãe então, em que nem o nosso íntimo é lugar seguro para guardar as nossas falhas, ficamos presas na cilada da maneira mais cruel, tendo que manter o pensamento e o sentimento em suspenso para não correr o risco de nada de ruim sair dali.

E será que o bebê sente mesmo?

Acho que seria mais realista perguntar o que é que o bebê sente. Porque supor que o bebê sente que a mamãe está irritada porque teve uma pane de gás no bairro e isso deixou a casa congelada em pleno inverno é supor que um bebê pode decodificar e atribuir os mesmos sentidos que um adulto. Para um mundo que ele ainda mal conhece. Como seria possível? Ou um bebê na barriga é uma espécie de mestre Yoda que sabe tudo, entende tudo, registra tudo, percebe tudo e que, quando nasce, perde todos os super poderes a ponto de não ser capaz nem de dizer se está com fome ou com sono, ou essa suposição de que o bebê sente, o bebê percebe, o bebê sabe é alguma coisa próxima demais da paranóia, né?

A verdade é que ninguém tem como saber o que é que um bebê sente e que marca isso faz na existência dele ali na barriga. Os cientistas pesquisam, os psicanalistas supõem, os religiosos afirmam, mas no fundo, no fundo, mesmo todo mundo achando que encontrou a verdade, é tudo mera suposição. Porque o bebê não lembra e não vai poder nos contar depois. Então, por que acreditar no pior dos casos? Será mesmo que ficar triste, desanimada, cansada, em dúvida, com medo, com raiva, ambivalente, irritada… será que tudo isso tem realmente o poder de prejudicar o bebê? Será que o bebê vai perceber tudo isso como sendo o que é e será que ele vai ficar traumatizado por que tem dias que a mamãe não sabe o que fazer, não sabe mais se quer ter filho, tem medo do que está por vir? Puxa, mas que bebê poderoso que sabe tudo e que mamãe poderosa que pode prejudicar o bebê com um mero pensamento, hein? Cruzes!

Eu gosto mesmo do Freud, porque ele sempre me ajudou a entender que, muitas vezes, isso que a gente coloca nos outros, isso que a gente pensa que é a verdade dos outros ou da vida mostra, tão somente, o jeito como a gente funciona, aquilo em que a gente acredita, nosso esqueleto, por assim dizer. E o Freud sempre dizia que temos um dom especial para acreditar que somos transparentes, como se estivéssemos desnudados frente às pessoas e como se nossos pensamentos e sentimentos mais incomodos tivessem o poder de atos e pudessem ferir, matar, destruir. Ledo engano. A gente pode muito pouco e isso é que é duro de engolir. E não somos transparentes. Nem para fora, nem para dentro. Nem para nós mesmos, nem para o bebê.

Eu gosto de imaginar – porque parece que estamos mesmo num terreno em que apenas a imaginação pode saber de alguma coisa – que o bebê sente o que eu sinto do mesmo jeito que ele sente quando eu como uma pratada de feijoada. Ou seja, que ele tem sensações, tumultos, intensidades, agitos, calmarias, confortos e desconfortos. Mas, até aí, se é tristeza, preocupação, azia ou congestão, talvez seja para ele apenas da ordem do barulho indecifrável em que ele vive com a mesma curiosidade com a qual vai viver tudo ali na barriga, porque ainda não conhece nada. Nem dividiu ainda o mundo em bem e mal. Nem sabe que existem “bons” e “maus” pensamentos e sentimentos.

Se tudo vai bem e o bebê está ali, no quentinho, talvez tristeza seja como uma barriga que se contrai feito um coração apertado, talvez raiva seja o rufar dos tambores dos dias de azia ou de gases, talvez amor seja a calmaria da respiração do sono ou os balanços compassados das horas de sexo… Talvez… Quem sabe?

Joe Sorren - Mother and child
Joe Sorren – Mother and child

Um mundo de imagens

(version française: ici)

Não há dúvidas de que vivemos em um tempo de imagens, bombardeados por todos os lados por um excesso delas. O que aparece como imagem ganha ares de verdade, tanto a imprensa quanto a publicidade sabem bem disso. Ao longo de uma gravidez, não poderia ser diferente.

Não consigo imaginar como faziam as nossas avós. Ou até mesmo as nossas mães, antes da invasão desse mundo de imagens também para o que diz respeito à maternidade. Elas descobriam que estavam grávidas – sem teste de farmácia ou de sangue, vejam bem  – e a coisa toda devia acontecer ali, dentro delas, de um jeito bem enigmático. Os sinais deveriam se limitar apenas àqueles que o corpo dá: os enjôos, o cansaço, o ganho de peso, a barriga que aparece e muda de forma. Isso até o bebê começar a se mexer e esses movimentos sinalizarem da forma mais contundente que ali tem alguém. “Alive and kicking”. Até mesmo para saber o sexo do bebê era necessário confiar nesses indícios sinuosos, opacos, corporais, intuitivos… Barriga pontuda, barriga redonda e por aí vai.

Hoje em dia isso tudo virou praticamente lenda. Toda essa opacidade, todo esse mistério de uma gestação que envia seus sinais deu lugar à clareza, à contundência das imagens, dos exames, dos resultados. Como se tivéssemos jogado um feixe de luz intenso sobre os segredos de um corpo em gestação para, no lugar das dúvidas e das suposições, instalar certezas. Menino ou menina? Saiba antes, facilita na compra do enxoval e na escolha do nome. Claro que não serve apenas para isso, para o comércio, para o mercado, para ajudar no consumo. No entanto…

Um mundo de imagens nos invade ao longo da gravidez. Testes, exames, resultados, ultrasons. Tudo em nome de verificar a saúde e o bem-estar do bebê. Descartar problemas, descartar anomalias, descartar malformações… você entra em estado de alerta permanente, cada exame um risco, cada resultado um risco afastado. Como se a gravidez fosse um perigo constante de algo dar errado quando, na imensa maioria das vezes, ela simplesmente vai bem, obrigada. O que aconteceu para transformar uma gestação em uma situação de risco, a ser monitorada permanentemente, como se uma ameaça pairasse sobre a barriga de todas as grávidas e coubesse a esse mundo de imagens nos vigiar e evitar o pior? Quando foi que gravidez virou doença?

Fui ao tal ultrasom morfológico e o médico, muito gentilmente, me bombardeia com aquele excesso de clareza: o bebê tem duas mãos, cinco dedos em cada mão, dois braços, dois pés, duas pernas, dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca… Bom, mas é assim que tem que ser, não? Não ignoro que às vezes surgem problemas e que identificá-los a tempo pode fazer uma grande diferença para o bebê e para os pais. Não se trata aqui de um discurso obscurantista contra as vantagens de nosso tempo de luzes, longe disso. Mas, convenhamos que falar do que é o mais normal dessa maneira faz qualquer pessoa ficar com o coração apertado, sentindo que tem muita sorte de tudo estar tão bem… Mas não! É assim! É assim que as coisas são, ninguém está te fazendo um favor ou uma caridade de te dizer que teu bebê é “normal”. Mas ali, na sala de exame, você sente como se tivesse que agradecer essa concessão que o médico e o mundo das imagens te fizeram por não te anunciar algum dos inúmeros perigos que ameaçam a você e ao seu pequeno.

Mas, ainda bem, não é só isso. Em meio a essa perversão toda de como se pode viver uma gestação nos dias de hoje, algumas vezes as imagens e seu facho de luz conseguem servir a coisas mais interessantes. Nesse mesmo ultrasom, depois do choque inicial de ter que agradecer aos céus pelo bebê ter duas mãos, dois pés e etc, consegui ter sangue frio o suficiente para parar de prestar atenção no que o médico estava dizendo – pode fazer isso sem culpa, depois vai tudo escrito no laudo mesmo – e começar a ver aquilo para o que estava olhando… O bebê ali, todo bonitinho, sacudindo os braços, cruzando e descruzando as pernas, jogando pernas pro alto, balbuciando, chupando os dedos… em meio ao bombardeio, eis ali o bebê, o meu bebê, o nosso bebê todo faceiro, fazendo graça, brincando e se divertindo na barriga da mamãe, que é a barriga do bebê agora. Como não se emocionar com isso?

Não tem jeito, eu sou uma mulher da época das imagens. Eu trabalho com elas, as imagens das artes, as imagens dos meus pacientes, dia após dia, de seus mundos de sonhos. A imagem do bebê traz para mim mais senso de realidade do que os enjôos, o cansaço e todos aqueles sinais insondáveis que minha mãe e minhas avós sabiam tão bem ler e que eu perdi. O excesso traz, às vezes, a exceção, o caldo de imagens que consegue fazer com que algumas dentre elas se destaquem, fiquem mais importantes do que as outras e causem uma marca indelével em quem as viu. Acontece, às vezes, na arte. Acontece, às vezes, até mesmo em um ultrasom.

Ron Mueck: "A girl" (2006)
Ron Mueck: “A girl” (2006)

Querer ter um filho…

(version française: ici)

Para mim, foi há cerca de um mês, depois do primeiro ultrasom que encarnou a realidade da gravidez na minha cabeça e no meu corpo. Todo mundo diz… ah, quantos todo mundo diz quando se está grávida, tem todo mundo diz para tudo… Enfim, todo mundo diz que é melhor não anunciar a gravidez antes do final do primeiro trimestre. Porque a maior parte dos abortos espontâneos acontecem no primeiro trimestre e, depois, você não vai querer ficar explicando até para a sua manicure o que houve. Coisas do bom senso, esperar a gravidez “pegar”… Mas você está grávida do seu primeiro filho e quer contar isso para todo mundo. Porque está feliz, porque quer poder falar disso, porque falar, partilhar dá um senso de realidade para aquilo que você está vivendo. Enquanto fica tudo ali na sua cabecinha, a sua gravidez tem a mesma consistência dos seus devaneios com qualquer outro assunto. Quando você conta, você assume o que está acontecendo com você e tudo parece mais real. Além do mais, como imaginar que você vai encontrar com os seus melhores amigos, com sua família, com as pessoas com as quais você sempre dividiu aquilo que era realmente importante para você e, quando eles te perguntarem quais as novidades, você vai falar de outra coisa? Como assim? Talvez isso funcione para as pessoas para quem a amizade e o amor não passem pela conversa, pelas palavras trocadas, pela intimidade cotidiana de dizer o que te vai fundo na alma. Eu sou psicanalista, testemunho diariamente a profundidade delicada daquilo que se compartilha falando, não posso conceber calar, para as pessoas que amo, a intimidade de algo assim.

Mas tinham me dito outra coisa, ainda no quesito quando contar sobre a gravidez. Uma outra justificativa para essa postura de esperar o final do primeiro trimestre, dessa vez dada pela cabala. Seria bom esperar porque, nesse tempo, a alma do bebê está decidindo se quer ou não ficar. Achei bonito quando ouvi isso. Poético. E também um excelente apoio para aquela forma de defesa, que todos nós temos, de não se envolver muito com alguma coisa que sabemos ter o risco de perder. Para que investir no que é incerto, né? Para que se apaixonar pelo carinha que você sabe que vai embora, para que se empolgar com uma gravidez que pode não vingar? Proteger-se de uma possível perda justifica todas as precauções, as distâncias, os investimentos pela metade, a economia de si. E nós somos craques nisso. E quando vemos alguém que se joga demais na vida, tomamos ele por um imaturo, quando não um doido varrido. Só que na vida e no amor não é bem assim que a coisa acontece, né?

Economizar-se é um ato de bom senso e de proteção, mas é também uma avareza, uma mesquinhez consigo mesmo e com a vida. Como a história do melhor vestido que a gente nunca usa que eu falei noutro dia. Essa economia de si que se guarda para o momento de poder se entregar, só que o momento vem e você não consegue porque nunca antes se entregou, passou a vida toda se evitando e evitando qualquer perigo e já não sabe mais como é que faz para fazer diferente. De tanta proteção, você não sabe mais como abrir uma brecha. E sente a dor dilacerante de estar preso em uma carapaça dura, rígida, que te impede de se envolver.

Então, há cerca de um mês, estávamos no auge do inverno aqui e fazia um frio de lascar, um dia cinza após o outro e começou a neve. A neve caindo sobre prédios, ruas e árvores cria uma cena linda. Sempre. Quando neva, tudo fica silencioso e, paradoxalmente, mais quente. Deve ser porque esquenta os olhos e esquenta a alma ver a neve cair. E os flocos têm muitas formas e se assentam delicadamente uns sobre os outros, deixando suas camadas de branco por todo lugar. Eu amo a neve. E fiquei olhando a neve cair pela janela da minha sala. E me dei conta que, se o bebê estava decidindo se queria ficar ou não eu, de minha parte, também poderia decidir. Eu quero que você fique. Eu quero ter esse bebê.

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Guillaume Nery base jumping at Dean’s Blue Hole: http://youtu.be/uQITWbAaDx0

Ser grávida é um consumo só…

Um dos meus maiores temores, quando descobri que estava grávida, era o de ser tragada pelo buraco negro das representações, dos imaginários, das ações e de todo o aparato espetacular em que se converteu o simples ato de ter um filho hoje em dia. Comecei a me lembrar de todas as amigas, parentes e conhecidas que engravidaram recentemente e de como passaram por essa experiência e, entre uma memória e outra, nada parecia corresponder à pessoa que sou, à vida que levo, aos meus valores e aos meus anseios. Que pesadelo!

Personal disclaimer: o que eu escrevo aqui vem, como só poderia ser, da minha experiência pessoal, em um contexto específico, em um país específico, em uma cidade singular, cercada de pessoas e histórias também singulares. Evidentemente, no Brasil devem existir muitos outros modos de viver a gravidez e a maternidade, possivelmente muito mais interessantes e enriquecedores do que grande parte do que eu via ao meu redor. Mas, quanto a isso, nada a fazer a não ser respeitar o fato de que eu só poderia pensar a partir da minha própria experiência. E ela me deixava preocupada.

Na cidade de São Paulo, como possivelmente em muitas outras cidades brasileiras que enriqueceram e em que uma parte de seus habitantes prosperaram, ainda mais nos últimos tempos, alavancados pelo boom otimista do próprio país, a medida de prosperidade, de sucesso e até mesmo de satisfação e alegria de um indivíduo se dá, principalmente, pelo que ele consome. Em todos os âmbitos. Vencer na vida é praticamente sinônimo de aceder ao consumo: poder ser = poder ter. Quanto mais, maior importância você tem. Para você e para os outros. Acho que é uma história antiga, em que se somam a lógica capitalista ao nosso passado de colônia. Povo colonizado e sem história, por opção e vergonha da própria história, que tem que inventar para si alguma identidade e algum valor. E o que é mais fácil inventar, aparência ou substância? Maquiagem é mais fácil e mais rápido. Imagem se constrói de maneira mais inócua que entranhas, que a gente só constrói enfiando a mão na massa mesmo. Então, criar uma imagem ou uma idéia de felicidade e realização através do consumo é mais fácil do que ter que acertar as contas com nosso passado, nós, os brasileiros de maneira geral. Os norte-americanos também entenderam rapidinho isso. Viraram os mestres da arte. Até a hora em que… ops… falhou. E a coisa toda não cessa de explodir na cara deles. Mas nós ainda não chegamos nesse ponto, ainda estamos no momento feliz e festivo, em que podemos alçar como máximo valor para cada um o máximo que ele puder consumir. Viva!

Não preciso nem mencionar, porque acho que não passa desapercebido para ninguém, que esse ar inofensivo das aparências e da valorização do consumo como definidores de cada pessoa não é tão inócuo assim. A quantidade de carros na rua que fez de São Paulo uma cidade inviável a qualquer hora do dia ou da noite está aí, assim como a assustadora massa de pessoas acima do peso, comendo o seu consumo literalmente. E todos os iPhones de uma rede de telefonia que não funciona. E todos os bens adquiridos que vão para o lixo que não tem mais onde se descarregar. E mais uma inundação de coisas, de excessos. Todo mundo governado pelo imperativo de consumir, consumir para ser. Comer, beber, comprar, fazer, ter, ter, ter, ter, ter…

E a gravidez e a maternidade não escaparam disso, infelizmente. Ter filhos tornou-se um ato de consumo, onde cada gesto, cada objeto, cada escolha sua vão dar a medida do que você tem. E, consequentemente, de quem você é. E de qual o seu valor. E, se não for alto, você está danada.

Então, a discussão sobre gravidez e maternidade logo resvala para os objetos do seu consumo: o bebê e tudo o que o cerca. Quem é o obstetra, qual a maternidade em que ele vai nascer. Maternidade que é, hoje, mais maquiada que hotel de luxo, a aparência da coisa tendo todo o destaque que merece, em um prospecto no qual ela é vendida do mesmo modo que suas próximas férias em Dubai. Ou sua casa no condomínio fechado. Faz parte da mesma lógica e a escolha é guiada pelos mesmos valores. E o enxoval? Em Miami, é claro. Porque é tãāāāāāāo mais em conta. E a babá, esse resquício descarado do nosso passado de senhor de engenho? Babá é tão necessário quanto o obstetra cinco estrelas, a maternidade cinco estrelas e o enxoval cinco estrelas. E babá cinco estrelas vem de uniforme. Branco. E trabalha mil horas por dia. Até mesmo nos finais de semana. E dorme no trabalho e tem uma folga por mês. Mas você, generosamente, até vai deixar ela almoçar no restaurante em que a família feliz se reúne para os consumos dominicais. Depois de cuidar do rebento, claro. Enfim, a lógica do consumo de onde ficam de fora alguns ínfimos detalhes como, por exemplo, o bebê em si e sua relação com ele. Putz…

Então está tudo bem, você engole o choro, as dúvidas e o desconhecimento, sorri e diz que é tudo apenas muito lindo, vai para Miami, faz o enxoval, vai para a super maternidade, com o super obstetra, leva a super babá junto com a tal malinha do bebê, na super hora marcada e… faz uma cesária, né? Porque isso também é tão acessório quanto o bebê em si. O modo como você vai tê-lo… que importa? Hora marcada é ótimo, dá para avisar os amigos, a Caras, passar na manicure, no cabeleireiro, chamar o fotógrafo, o cineasta. Assim sai tudo perfeito, como planejado. Para todo mundo ver. Bebê virou imagem, mamãe virou imagem, todo mundo sorrindo como na propaganda de margarina. Maravilha.

Só tem um problema… nada disso serve para mim. Danou-se.

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Medo de tudo.

Medo de atravessar a rua. De uma hora para outra, até medo de atravessar a rua dá. E de voltar sozinha, à pé, à noite para casa. Em Paris, onde é seguro e onde o prazer sempre foi essa liberdade de movimento reconquistada, desconhecida da paulistana que nunca pode parar em um farol vermelho após as dez da noite em seu próprio país. Mas agora, dá medo. Como se agora o mundo tivesse ficado mais perigoso e você, mais vulnerável. E para além desses medos que surgem em um final de tarde, na calçada, de olho do farol de pedestres, ainda vêm outros. Medo de ter algum problema quando estiver sozinha. Medo de ter um algum problema morando em outro país e estando grávida (como se morar em outro país já não fosse incerto o suficiente). Medo de passar mal, medo de abortar, medo que o bebê tenha algum problema, medo da trissomia do 21, medo. Medo da vida, de tudo o que pode acontecer quando se está vivo. Você está grávida e se dá conta que o risco de estar vivo agora não é apenas seu, mas também do outro que, por enquanto, depende totalmente de você. E como você sabe, enquanto o pequeno está ali no bem bom, quentinho, feliz da vida mergulhando, sem ter a menor idéia, sorte dele… como você sabe o risco que é estar vivo, as mazelas e os custos de criar para si uma vida, de repente você percebe que – caramba! – o pequeno está ali também, correndo todos esses riscos sem saber. Quantos fantasmas com os quais lidar!!!

Johann Heinrich Füssli - Le cauchemar - 1781
Johann Heinrich Füssli – Le cauchemar – 1781

E os livros, sua família, seus amigos, seu médico, o acompanhamento da sua gravidez, o que fazem? Te inundam com mais um oceano de medos. Não, não é totalmente verdade, porque amigos que te conhecem bem e família próxima, gente que te ama e te conhece de verdade não fica te atormentando nem com histórias, nem com medos, nem com um monte de fantasmas. Eles consideram que você já os têm em número suficiente e torcem para que você se saia bem. E te ajudam com o que for preciso. Que alento! Porque a maior parte das pessoas nem se toca. E os livros, então? Cada capítulo, uma ressalva acerca de algo com que você tem que se preocupar: o que come, doenças sexualmente transmissíveis, herança genética, até o final do terceiro mês é quando ocorre o maior número de abortos espontâneos, mal-formações congênitas… E os casos? Os “causos”. Todo mundo tem um “causo” para contar de alguém que conhece alguém que teve um bebê com duas cabeças, três braços ou sabe-se-lá-o-que-inspirado-de-um-filme-de-horror-da-vida-real. Sério, alguém me diga que as pessoas ao menos pensam antes de abrir a boca, ao menos de vez em quando…

O mais paradoxal é que, ao mesmo tempo em que ninguém se poupa de contar todo tipo de horror assim que descobre que você está esperando um filho, e que nenhum veículo de (des)informação se poupa de páginas e mais páginas de descrições de tudo aquilo que pode dar errado, nenhuma pessoa agüenta ouvir falar, por mais de dois minutos, (e quase nenhum livrositeeocaralho escreve por mais de uma ou duas páginas) desses seus medos, das suas inseguranças, das suas dúvidas. E o que eu faço? E se? E se? E se? As pessoas saem de fininho afinal, como você pode não estar apenas muito feliz? E os veículos transmissores de todos os saberes te dizem: você vai se fazer muitas perguntas, vai ter muitas inseguranças, mas isso é perfeitamente normal. “Ahhhhhh, então tá, valeu aí. Obrigada por me dizer que o que estou vivendo é legítimo.” Parece o discurso da mãe psicotizante descrita pela psicanalista Piera Aulagnier: de um lado, o terror, de outro, a cobrança de que você deveria estar bem, feliz, calma e segura nessa situação que o discurso mesmo do outro ameaça.

Acho estranho que ninguém diga que, quando fritamos os nossos miolos com todos esses dados, estatísticas, ressalvas, perigos, “causos”, apreensões e vulnerabilidades estamos colocando no centro das nossas preocupações aquilo que, na verdade, é a exceção. Todo mundo conhece um caso bizarro, triste, trágico porque casos bizarros, tristes e trágicos são extraordinários. São a exceção e não a regra. E se os dados dizem que uma em mil gestações tem tal ou qual complicação, isso significa que 999 não têm. A gente nem pára para pensar nisso, né? Parece que estamos tão acostumados a viver em um mundo onde tudo teria que ser extraordinário que tomamos logo a exceção pela regra. Só que a exceção pode ser tanto a menina pobre que foi descoberta e virou modelo de sucesso internacional quanto o cara que saiu de casa um dia e morreu esmagado por um piano que caiu na sua cabeça. Ficamos esperando ser uma exceção espetacular em cada acontecimento de nossas vidas. E somos bombardeados por todos os casos de exceção. Daquilo que é a exceção do ideal, do que tem que ser. E do que é a exceção da catástrofe. E a gravidez não escapa a esses anseios e temores relativos à exceção.

Pode parecer meio banal e comum demais para nossas expectativas de extraordinário mas, ao que parece, desde que o ser humano existe na face da Terra ele cuidou de perpetuar a sua espécie se reproduzindo. O que significa que mulheres engravidaram. E deram à luz a seus bebês. E que esses bebês de algum modo vingaram, cresceram, viveram e se reproduziram também. Deve ser uma fórmula eficaz porque, excetuando-se as vezes em que não deu certo, a humanidade parece que vai muito bem, obrigada, povoando o mundo até explodir, ocupando cada canto desse planeta com todas as suas idiossincrasias, contradições e muito mais. Então, depois de ler uns dois livros, navegar por uma quantidade indecente de sites, ler uma série de relatos de histórias e ouvir não sei nem quantos “causos” sobre a exceção na gravidez em tão pouco tempo, eu entendi que, sempre que alguém abre a boca ou que começo uma leitura, tento considerar, antes de mais nada, o seguinte disclaimer:

A história que se segue foi baseada em fatos reais de exceção. O que significa que ela tem quase 99% de chances de não se aplicar a você.

Agora, ao menos eu escolho se vou ficar siderada pela exceção, apenas porque a vida é um grande e desconhecido risco, ou se vou me conformar à banalidade do que está acontecendo comigo. Porque é extraordinário para mim. É surpreendente. Mas é também a coisa mais comum do mundo: ter filhos.

Mais sobre os medos ao longo da gravidez: aqui.