Querer ter um filho…

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Para mim, foi há cerca de um mês, depois do primeiro ultrasom que encarnou a realidade da gravidez na minha cabeça e no meu corpo. Todo mundo diz… ah, quantos todo mundo diz quando se está grávida, tem todo mundo diz para tudo… Enfim, todo mundo diz que é melhor não anunciar a gravidez antes do final do primeiro trimestre. Porque a maior parte dos abortos espontâneos acontecem no primeiro trimestre e, depois, você não vai querer ficar explicando até para a sua manicure o que houve. Coisas do bom senso, esperar a gravidez “pegar”… Mas você está grávida do seu primeiro filho e quer contar isso para todo mundo. Porque está feliz, porque quer poder falar disso, porque falar, partilhar dá um senso de realidade para aquilo que você está vivendo. Enquanto fica tudo ali na sua cabecinha, a sua gravidez tem a mesma consistência dos seus devaneios com qualquer outro assunto. Quando você conta, você assume o que está acontecendo com você e tudo parece mais real. Além do mais, como imaginar que você vai encontrar com os seus melhores amigos, com sua família, com as pessoas com as quais você sempre dividiu aquilo que era realmente importante para você e, quando eles te perguntarem quais as novidades, você vai falar de outra coisa? Como assim? Talvez isso funcione para as pessoas para quem a amizade e o amor não passem pela conversa, pelas palavras trocadas, pela intimidade cotidiana de dizer o que te vai fundo na alma. Eu sou psicanalista, testemunho diariamente a profundidade delicada daquilo que se compartilha falando, não posso conceber calar, para as pessoas que amo, a intimidade de algo assim.

Mas tinham me dito outra coisa, ainda no quesito quando contar sobre a gravidez. Uma outra justificativa para essa postura de esperar o final do primeiro trimestre, dessa vez dada pela cabala. Seria bom esperar porque, nesse tempo, a alma do bebê está decidindo se quer ou não ficar. Achei bonito quando ouvi isso. Poético. E também um excelente apoio para aquela forma de defesa, que todos nós temos, de não se envolver muito com alguma coisa que sabemos ter o risco de perder. Para que investir no que é incerto, né? Para que se apaixonar pelo carinha que você sabe que vai embora, para que se empolgar com uma gravidez que pode não vingar? Proteger-se de uma possível perda justifica todas as precauções, as distâncias, os investimentos pela metade, a economia de si. E nós somos craques nisso. E quando vemos alguém que se joga demais na vida, tomamos ele por um imaturo, quando não um doido varrido. Só que na vida e no amor não é bem assim que a coisa acontece, né?

Economizar-se é um ato de bom senso e de proteção, mas é também uma avareza, uma mesquinhez consigo mesmo e com a vida. Como a história do melhor vestido que a gente nunca usa que eu falei noutro dia. Essa economia de si que se guarda para o momento de poder se entregar, só que o momento vem e você não consegue porque nunca antes se entregou, passou a vida toda se evitando e evitando qualquer perigo e já não sabe mais como é que faz para fazer diferente. De tanta proteção, você não sabe mais como abrir uma brecha. E sente a dor dilacerante de estar preso em uma carapaça dura, rígida, que te impede de se envolver.

Então, há cerca de um mês, estávamos no auge do inverno aqui e fazia um frio de lascar, um dia cinza após o outro e começou a neve. A neve caindo sobre prédios, ruas e árvores cria uma cena linda. Sempre. Quando neva, tudo fica silencioso e, paradoxalmente, mais quente. Deve ser porque esquenta os olhos e esquenta a alma ver a neve cair. E os flocos têm muitas formas e se assentam delicadamente uns sobre os outros, deixando suas camadas de branco por todo lugar. Eu amo a neve. E fiquei olhando a neve cair pela janela da minha sala. E me dei conta que, se o bebê estava decidindo se queria ficar ou não eu, de minha parte, também poderia decidir. Eu quero que você fique. Eu quero ter esse bebê.

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Guillaume Nery base jumping at Dean’s Blue Hole: http://youtu.be/uQITWbAaDx0

Ser grávida é um consumo só…

Um dos meus maiores temores, quando descobri que estava grávida, era o de ser tragada pelo buraco negro das representações, dos imaginários, das ações e de todo o aparato espetacular em que se converteu o simples ato de ter um filho hoje em dia. Comecei a me lembrar de todas as amigas, parentes e conhecidas que engravidaram recentemente e de como passaram por essa experiência e, entre uma memória e outra, nada parecia corresponder à pessoa que sou, à vida que levo, aos meus valores e aos meus anseios. Que pesadelo!

Personal disclaimer: o que eu escrevo aqui vem, como só poderia ser, da minha experiência pessoal, em um contexto específico, em um país específico, em uma cidade singular, cercada de pessoas e histórias também singulares. Evidentemente, no Brasil devem existir muitos outros modos de viver a gravidez e a maternidade, possivelmente muito mais interessantes e enriquecedores do que grande parte do que eu via ao meu redor. Mas, quanto a isso, nada a fazer a não ser respeitar o fato de que eu só poderia pensar a partir da minha própria experiência. E ela me deixava preocupada.

Na cidade de São Paulo, como possivelmente em muitas outras cidades brasileiras que enriqueceram e em que uma parte de seus habitantes prosperaram, ainda mais nos últimos tempos, alavancados pelo boom otimista do próprio país, a medida de prosperidade, de sucesso e até mesmo de satisfação e alegria de um indivíduo se dá, principalmente, pelo que ele consome. Em todos os âmbitos. Vencer na vida é praticamente sinônimo de aceder ao consumo: poder ser = poder ter. Quanto mais, maior importância você tem. Para você e para os outros. Acho que é uma história antiga, em que se somam a lógica capitalista ao nosso passado de colônia. Povo colonizado e sem história, por opção e vergonha da própria história, que tem que inventar para si alguma identidade e algum valor. E o que é mais fácil inventar, aparência ou substância? Maquiagem é mais fácil e mais rápido. Imagem se constrói de maneira mais inócua que entranhas, que a gente só constrói enfiando a mão na massa mesmo. Então, criar uma imagem ou uma idéia de felicidade e realização através do consumo é mais fácil do que ter que acertar as contas com nosso passado, nós, os brasileiros de maneira geral. Os norte-americanos também entenderam rapidinho isso. Viraram os mestres da arte. Até a hora em que… ops… falhou. E a coisa toda não cessa de explodir na cara deles. Mas nós ainda não chegamos nesse ponto, ainda estamos no momento feliz e festivo, em que podemos alçar como máximo valor para cada um o máximo que ele puder consumir. Viva!

Não preciso nem mencionar, porque acho que não passa desapercebido para ninguém, que esse ar inofensivo das aparências e da valorização do consumo como definidores de cada pessoa não é tão inócuo assim. A quantidade de carros na rua que fez de São Paulo uma cidade inviável a qualquer hora do dia ou da noite está aí, assim como a assustadora massa de pessoas acima do peso, comendo o seu consumo literalmente. E todos os iPhones de uma rede de telefonia que não funciona. E todos os bens adquiridos que vão para o lixo que não tem mais onde se descarregar. E mais uma inundação de coisas, de excessos. Todo mundo governado pelo imperativo de consumir, consumir para ser. Comer, beber, comprar, fazer, ter, ter, ter, ter, ter…

E a gravidez e a maternidade não escaparam disso, infelizmente. Ter filhos tornou-se um ato de consumo, onde cada gesto, cada objeto, cada escolha sua vão dar a medida do que você tem. E, consequentemente, de quem você é. E de qual o seu valor. E, se não for alto, você está danada.

Então, a discussão sobre gravidez e maternidade logo resvala para os objetos do seu consumo: o bebê e tudo o que o cerca. Quem é o obstetra, qual a maternidade em que ele vai nascer. Maternidade que é, hoje, mais maquiada que hotel de luxo, a aparência da coisa tendo todo o destaque que merece, em um prospecto no qual ela é vendida do mesmo modo que suas próximas férias em Dubai. Ou sua casa no condomínio fechado. Faz parte da mesma lógica e a escolha é guiada pelos mesmos valores. E o enxoval? Em Miami, é claro. Porque é tãāāāāāāo mais em conta. E a babá, esse resquício descarado do nosso passado de senhor de engenho? Babá é tão necessário quanto o obstetra cinco estrelas, a maternidade cinco estrelas e o enxoval cinco estrelas. E babá cinco estrelas vem de uniforme. Branco. E trabalha mil horas por dia. Até mesmo nos finais de semana. E dorme no trabalho e tem uma folga por mês. Mas você, generosamente, até vai deixar ela almoçar no restaurante em que a família feliz se reúne para os consumos dominicais. Depois de cuidar do rebento, claro. Enfim, a lógica do consumo de onde ficam de fora alguns ínfimos detalhes como, por exemplo, o bebê em si e sua relação com ele. Putz…

Então está tudo bem, você engole o choro, as dúvidas e o desconhecimento, sorri e diz que é tudo apenas muito lindo, vai para Miami, faz o enxoval, vai para a super maternidade, com o super obstetra, leva a super babá junto com a tal malinha do bebê, na super hora marcada e… faz uma cesária, né? Porque isso também é tão acessório quanto o bebê em si. O modo como você vai tê-lo… que importa? Hora marcada é ótimo, dá para avisar os amigos, a Caras, passar na manicure, no cabeleireiro, chamar o fotógrafo, o cineasta. Assim sai tudo perfeito, como planejado. Para todo mundo ver. Bebê virou imagem, mamãe virou imagem, todo mundo sorrindo como na propaganda de margarina. Maravilha.

Só tem um problema… nada disso serve para mim. Danou-se.

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Medo de tudo.

Medo de atravessar a rua. De uma hora para outra, até medo de atravessar a rua dá. E de voltar sozinha, à pé, à noite para casa. Em Paris, onde é seguro e onde o prazer sempre foi essa liberdade de movimento reconquistada, desconhecida da paulistana que nunca pode parar em um farol vermelho após as dez da noite em seu próprio país. Mas agora, dá medo. Como se agora o mundo tivesse ficado mais perigoso e você, mais vulnerável. E para além desses medos que surgem em um final de tarde, na calçada, de olho do farol de pedestres, ainda vêm outros. Medo de ter algum problema quando estiver sozinha. Medo de ter um algum problema morando em outro país e estando grávida (como se morar em outro país já não fosse incerto o suficiente). Medo de passar mal, medo de abortar, medo que o bebê tenha algum problema, medo da trissomia do 21, medo. Medo da vida, de tudo o que pode acontecer quando se está vivo. Você está grávida e se dá conta que o risco de estar vivo agora não é apenas seu, mas também do outro que, por enquanto, depende totalmente de você. E como você sabe, enquanto o pequeno está ali no bem bom, quentinho, feliz da vida mergulhando, sem ter a menor idéia, sorte dele… como você sabe o risco que é estar vivo, as mazelas e os custos de criar para si uma vida, de repente você percebe que – caramba! – o pequeno está ali também, correndo todos esses riscos sem saber. Quantos fantasmas com os quais lidar!!!

Johann Heinrich Füssli - Le cauchemar - 1781
Johann Heinrich Füssli – Le cauchemar – 1781

E os livros, sua família, seus amigos, seu médico, o acompanhamento da sua gravidez, o que fazem? Te inundam com mais um oceano de medos. Não, não é totalmente verdade, porque amigos que te conhecem bem e família próxima, gente que te ama e te conhece de verdade não fica te atormentando nem com histórias, nem com medos, nem com um monte de fantasmas. Eles consideram que você já os têm em número suficiente e torcem para que você se saia bem. E te ajudam com o que for preciso. Que alento! Porque a maior parte das pessoas nem se toca. E os livros, então? Cada capítulo, uma ressalva acerca de algo com que você tem que se preocupar: o que come, doenças sexualmente transmissíveis, herança genética, até o final do terceiro mês é quando ocorre o maior número de abortos espontâneos, mal-formações congênitas… E os casos? Os “causos”. Todo mundo tem um “causo” para contar de alguém que conhece alguém que teve um bebê com duas cabeças, três braços ou sabe-se-lá-o-que-inspirado-de-um-filme-de-horror-da-vida-real. Sério, alguém me diga que as pessoas ao menos pensam antes de abrir a boca, ao menos de vez em quando…

O mais paradoxal é que, ao mesmo tempo em que ninguém se poupa de contar todo tipo de horror assim que descobre que você está esperando um filho, e que nenhum veículo de (des)informação se poupa de páginas e mais páginas de descrições de tudo aquilo que pode dar errado, nenhuma pessoa agüenta ouvir falar, por mais de dois minutos, (e quase nenhum livrositeeocaralho escreve por mais de uma ou duas páginas) desses seus medos, das suas inseguranças, das suas dúvidas. E o que eu faço? E se? E se? E se? As pessoas saem de fininho afinal, como você pode não estar apenas muito feliz? E os veículos transmissores de todos os saberes te dizem: você vai se fazer muitas perguntas, vai ter muitas inseguranças, mas isso é perfeitamente normal. “Ahhhhhh, então tá, valeu aí. Obrigada por me dizer que o que estou vivendo é legítimo.” Parece o discurso da mãe psicotizante descrita pela psicanalista Piera Aulagnier: de um lado, o terror, de outro, a cobrança de que você deveria estar bem, feliz, calma e segura nessa situação que o discurso mesmo do outro ameaça.

Acho estranho que ninguém diga que, quando fritamos os nossos miolos com todos esses dados, estatísticas, ressalvas, perigos, “causos”, apreensões e vulnerabilidades estamos colocando no centro das nossas preocupações aquilo que, na verdade, é a exceção. Todo mundo conhece um caso bizarro, triste, trágico porque casos bizarros, tristes e trágicos são extraordinários. São a exceção e não a regra. E se os dados dizem que uma em mil gestações tem tal ou qual complicação, isso significa que 999 não têm. A gente nem pára para pensar nisso, né? Parece que estamos tão acostumados a viver em um mundo onde tudo teria que ser extraordinário que tomamos logo a exceção pela regra. Só que a exceção pode ser tanto a menina pobre que foi descoberta e virou modelo de sucesso internacional quanto o cara que saiu de casa um dia e morreu esmagado por um piano que caiu na sua cabeça. Ficamos esperando ser uma exceção espetacular em cada acontecimento de nossas vidas. E somos bombardeados por todos os casos de exceção. Daquilo que é a exceção do ideal, do que tem que ser. E do que é a exceção da catástrofe. E a gravidez não escapa a esses anseios e temores relativos à exceção.

Pode parecer meio banal e comum demais para nossas expectativas de extraordinário mas, ao que parece, desde que o ser humano existe na face da Terra ele cuidou de perpetuar a sua espécie se reproduzindo. O que significa que mulheres engravidaram. E deram à luz a seus bebês. E que esses bebês de algum modo vingaram, cresceram, viveram e se reproduziram também. Deve ser uma fórmula eficaz porque, excetuando-se as vezes em que não deu certo, a humanidade parece que vai muito bem, obrigada, povoando o mundo até explodir, ocupando cada canto desse planeta com todas as suas idiossincrasias, contradições e muito mais. Então, depois de ler uns dois livros, navegar por uma quantidade indecente de sites, ler uma série de relatos de histórias e ouvir não sei nem quantos “causos” sobre a exceção na gravidez em tão pouco tempo, eu entendi que, sempre que alguém abre a boca ou que começo uma leitura, tento considerar, antes de mais nada, o seguinte disclaimer:

A história que se segue foi baseada em fatos reais de exceção. O que significa que ela tem quase 99% de chances de não se aplicar a você.

Agora, ao menos eu escolho se vou ficar siderada pela exceção, apenas porque a vida é um grande e desconhecido risco, ou se vou me conformar à banalidade do que está acontecendo comigo. Porque é extraordinário para mim. É surpreendente. Mas é também a coisa mais comum do mundo: ter filhos.

Mais sobre os medos ao longo da gravidez: aqui.

A nova matemática.

Street art - Vila Madalena, São Paulo, Brasil.
Street art – Vila Madalena, São Paulo, Brasil.

1+1=3 agora… matemática renovada. E não é a única conta que você vai ter que aprender a refazer.

Não interessa como você aprendeu a contar o tempo. Relógio, sol, lua, estrelas, ampulheta… horas, minutos, segundos. O tempo entre dois aniversários, dois acontecimentos importantes. O tempo entre um telefonema e um encontro. O tempo de uma sessão de análise. O tempo entre dois tweets, dois sms, uma postagem no facebook… Agora, nada disso tem mais serventia e você vai ter que contar em… semanas. Semanas, veja bem. Antes mesmo de um bebê existir dentro da sua barriga, ele já tem duas semanas. Hein? Alguém teve a brilhante idéia de contar o tempo de vida de um bebê durante a gravidez desde o momento em que ocorreu a última menstruação da sua progenitora. E alguém teve a brilhante idéia de determinar, para fins práticos, que a ovulação ocorre cerca de 15 dias depois do início dessa última menstruação. Ou seja, antes mesmo que você ovule, transe e engravide, pelas contas padrão, seu bebê tem duas semanas. Então, os livros começam todos pela terceira semana, que é quando o sujeitinho aconteceu ali, começou a existir. E colocam, para te ajudar, a idade gestacional e a idade real do bebê: a 3 semanas de gestação, bebê tem uma semana… Como assim? E essas tais de semanas, começam quando? No dia da última menstruação? Mas se você não ovulou com a precisão de um Big Ben londrino, em exatos 15 dias e se sua ovulação adiantou ou atrasou, ou se os espermatozóides do seu amorzinho ficaram ali no bem bom, curtindo uma onda, no quentinho, por um ou dois dias (pois é, bichinhos resistentes esses, quem diria!) você conta a partir de quando? Da data da última menstruação, da data calculada como o dia em que você engravidou… qual é a maldita data?

Ainda bem que alguns sites ou aplicativos – sim, eles existem também para grávidas e gravidez, senhores, tremei!!! – ainda bem que hoje em dia você pode colocar a data da última menstruação em algum lugar do cosmos digital e uma matemática programada também qualquer calcula para você em qual semana de gestação você está. Calcula, claro, sabendo que vai dar errado, porque pode ser um pouco mais para lá ou para cá, assim ou assado… enfim, as imprecisões da vida sempre nos atrapalhando quando precisamos acreditar que sabemos alguma coisa, nem que seja um reles número. E o pior é que cada pessoa com quem você falar vai te perguntar há quanto tempo você está grávida? Todos vão te perguntar com a seriedade e a propriedade de um connaisseur… E se você titubear, ou se arriscar responder: faz um mês, dois, um pouco mais de dois… nossa! Melhor acostumar-se a fazer contas, para dar a impressão que você está totalmente integrada em seu novo e agora único papel daquela que conta em semanas, em luas, em ciclos. As pessoas olham com desprezo e desconfiança para uma mãe que não conta em semanas, não fala sobre enjôos e não acaricia a barriga como quem posa para uma fotografia que retrate a imagem da pura felicidade. Horrorizadas com o “seu descaso”, parece que consideram se vão chamar o serviço social, no mínimo. Você engravidou, agora agüenta o baque, minha filha. Volta para a escola e refaça as contas da vida. E na hora da chamada oral, ao invés de responder direitinho quanto é 7×7, saiba dizer de pronto quanto é 1+1. Em semanas.

A enxurrada dos outros…

OK, a ficha caiu, você entendeu que está grávida, que é real, de verdade, encarnado nas entranhas, cotidiano, inesperado… Você percebeu que segue o curso da vida, que faz parte da vida, sem cena de filme, slow motion, música de fundo, happy ending e tudo o mais que o imaginário hollywoodiano perversamente ajudou a enfiar na sua cabeça, dando o falso nome de romantismo a todas essas expectativas infundadas… Você está quase segurando a própria onda, mas então vêm os outros. Já dizia o velho Sartre: “o inferno são os outros”. Para o melhor e para o pior. Na alegria e na tristeza. Putz…

Minhanossaparabénsquecoisalindaquemaravilhavocêquistantodeveestaremestadodegraça… (Oi? Calma, deixa eu respirar, respira um pouco também, toma um chá, fuma um cigarro.) Não, porque você não fuma, né? Porque agora, vai ter que parar. Tem que cuidar do seu bebê. Aliás, beber, não pode. Faz mal pro bebê. Comer peixe cru, é proibido, você não sabe? Carne crua então? Banida para todo o sempre amém até o fim da amamentação. Olha, esfrega os peitos com uma bucha para não rachar. Esfrega mesmo, não para ficar hidratado, mas para virar uma crosta. Você já sabe se é menino ou menina? (Dãh…) O que você prefere? Ah, que bonitinho, vai ser a cara da mãe, do pai, dos avós, dos irmãos, do cachorro, do papagaio, do padeiro. Sempre soube que você seria mãe, você nasceu para ser mãe. (Hein?) Vai ser bilíngüe, que belezinha, falando português e francês, que amor. Olha, tem que se alimentar direito, dormir bem, até mesmo porque, depois que nascer, você nunca mais vai dormir na sua vida.

Babel - Cildo Meireles - 2001
Babel – Cildo Meireles – 2001

Sério, de onde as pessoas tiram esses comentários? Elas querem comemorar com você ou te fazer se jogar pela janela? Nada pode, faça isso, faça aquilo, nunca mais, acabou sua vida de tranqüilidade, sossego, casa arrumada, viagem, festa, amigos, sono, pele boa. É o quê? Um parabéns às avessas? Uma sede de vingança? Porque eu custo a acreditar que as pessoas realmente pensem que aquilo que elas estão dizendo, as dicas, o compartilhamento de suas experiências as mais grotescas tratando de cocôs, vômitos, doenças, perebas, celulites, estrias, peitos caídos, sobrepeso, cansaço, falta de sono e mais enjôos e enjôos e enjôos… duvido que os próprios seres falantes acreditem do fundo de seus coraçõezinhos que esse conversê todo ajuda a quem está do outro lado da linha, ali, ouvindo. Deve ser uma forma de evacuar, uma catarse, um exorcismo: falar de todo o horror com um sorriso no rosto, o olhar cúmplice e o tom de voz reconfortante de um parabénsestoutãofelizporvocê… E você com olhos de terror. Pois, se você tem ouvidos e eles escutam bem, os olhos reagem de acordo e viram duas estrelas estaladas na sua cara, prontos para sair correndo junto com todo o resto do corpo se ao menos você conseguisse fazer suas pernas te levantarem e correrem, correrem, correrem para o mais longe possível.

E então vêm os livros, os sites, os blogs (ops!), os fóruns, os programas na TV, os filmes, o John Travolta, a Kirstie Alley e o bebezinho tagarela do Olha quem está falando e você se percebe mergulhada em uma Babel de falas, palavras, frases, línguas… um ruído ensurdecedor, enlouquecedor. Tentar acompanhar, seguir, se orientar em meio a isso vira uma tarefa hercúlea, fadada ao fracasso. As opiniões, conselhos, orientações, tudo se contradiz, ninguém sabe o que fazer… qual é o caminho certo? Qual é o único caminho certo, a verdade?

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Tem gente que se salva no médico e no saber médico nessas horas. Toma as palavras do médico como cânones religiosos e segue à risca tudo. Tudinho. Mas isso não garante nada, não é mesmo? Se garantisse, todos os casos de inseminação artificial – situação na qual a gravidez não poderia ser mais controlada, vigiada, manipulada e orientada pelo saber médico – seriam bem sucedidos. Se os médicos soubessem exatamente o que fazer, como fazer ou quando fazer para garantir que uma gravidez corra bem, não teríamos, em tempos de primazia do saber e do poder médico sobre os nossos corpos, nenhuma gravidez que vai mal. Mas não é bem assim. E a gente, na angústia de perceber nossa falta de garantias, nossa vulnerabilidade ao acaso em uma hora como essas, prefere se confortar imaginando que a gente não sabe, mas alguém sabe. Alguém há de saber que tudo há de correr bem: o médico, a ciência, a nutricionista, o padre, o astrólogo, o psicanalista, Deus… Outro bom e velho, o Freud, já dizia que nós, os neuróticos, quando não podemos mais negar a nossa própria insuficiência e falta de garantia sobre nossa própria vida, quando não podemos desviar mais os olhos, arrumamos ainda um último suspiro e, numa tacada de mestre, deslocamos para outra pessoa a onipotência que vamos nos vendo perder: eu não posso, mas alguém pode. A onipotência da mãe não castrada, frase difícil, mas tão simples e verdadeira como o senso comum que se apressa a dizer que sempre existe, em algum  lugar, uma festa incrível acontecendo, para a qual você não foi convidado. Você está excluído, mas alguém está lá. Então, é só questão de descobrir como fazer para estar lá você também, como tampar os buracos, como conseguir todas as garantias. Alguém já viu vida com atestado de garantia? “Se você viver assim, vai ser feliz para todo sempre…” Ah, sim, nos contos de fada e nos filmes acontece… oh, wait!

Bom, o fato é que os outros engatam a quinta marcha da verborragia e você não sabe mais nem o que pensar ou por onde começar. E tudo isso porque você tem que estar muito, muito, muito feliz. Ouvido de penico e sorriso estampado no rosto, a imagem do estado de graça. Tentando seguir todos os conselhos. E fazer tudo certo. Certo?

Não. Donald W. Winnicott, um psicanalista inglês que era, também, pediatra entendeu, para a nossa sorte – ou a minha, ao menos – que uma mãe boa é uma mãe que é suficiente. Suficiente. Não perfeita. Não total. Não inteiramente certa. Em suas consultas como pediatra e como psicanalista, ele se deparou com muitas situações envolvendo as mães e seus bebês e adiantou – visionário – o que ia se intensificar no nosso século, chegando às beiras do insuportável: temos um excesso de falas, um excesso de saberes, um excesso de ditos, uma cacofonia absurda e enlouquecedora a respeito da maternidade. Uma cobrança pela perfeição, em meio à todo esse barulho. Enquanto que, segundo ele, se deixarmos um espaço para que essa mãe exista, ela vai achar o seu caminho como mãe. Ela vai fazer o melhor. Ela vai ser suficiente. E suficiente, é bom. Menos barulho, menos informação, menos conselhos, menos dicas, talvez faça sentido o silêncio que me acomete nesse início de gravidez. Silenciar para gestar. Silenciar para encontrar o quê e como fazer. Shhhhh…

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A enxurrada.

Eu contei a ele. Ou melhor, mostrei o teste de farmácia e ele ficou bem mais calmo do que eu. Também, já tem três filhos e eu, marinheira de primeira viagem, entre o riso, o choro e a negação pura e simples. Isso é bom, isso é maravilhoso, isso é péssimo, isso é um pesadelo… E agora, o que faço das minhas viagens, trabalho, pesquisa, roupa de mergulho, balada com os amigos? O que faço dos projetos que eu tinha, ou do conforto acomodado de acreditar que eu sabia quais projetos tinha, o que iria fazer em seguida, onde estaria amanhã ou depois… o que fazer de todas essas certezas?

“Você está gestando. Está em estado de graça. É uma coisa maravilhosa.” Isso era a última coisa que eu precisava ouvir, esse chamado para o enquadramento, essa exigência da felicidade absoluta, esse fim de todas as questões. Porque antes de ficar feliz, alegre, eufórica com a notícia – ou ao mesmo tempo em que ficava feliz – eu precisava de espaço, de tempo e de autorização para ficar outras coisas também: tensa, indiferente, descrente, triste, irritada, preocupada, apavorada… Uma enxurrada de coisas, uma retrospectiva de toda a minha vida, de tantas vezes que desejei isso, de toda a minha história com ter filhos, dos tempos em que quis, não quis, quis de novo, não quis mais, tentei, desisti… E agora, justo agora?

Pois é, agora mesmo. Lembro de uma mulher que passou anos fazendo tratamento para engravidar. Anos. Ela tinha mais de 40 quando a conheci. E tentava. A vida girava em torno disso, era muito importante. Ela sofria horrores. Uma dor de alma a cada dia. E haviam dito para ela que na hora em que você relaxa, esquece, deixa para lá, a cosia acontece. E todos aqueles exemplos de mulher que não conseguia engravidar, adotou e ficou grávida no minuto seguinte. Ou daquela que separou e engravidou de uma aventura no minuto seguinte. No minuto seguinte à desistência, acaba acontecendo. Essa mulher tentava se convencer de que desistiu. Tentava desistir sem ter desistido, assim como quem tenta enganar a morte, como aquele sujeito do Sétimo Selo do Bergman… jogando xadrez, jogando xadrez, negociando. Ela tentou e tentou negociar, tentou fazer de conta, dar um truque. Não deu. O Bergman era genial, ele sabia que nunca dá, a gente nunca consegue contornar o que deseja para fazer de conta que não deseja para a vida passar distraída e nos dar o que queremos…

Levou uns bons dias para a “ficha cair”… ou melhor, umas boas provas de realidade. Don’t blame me. Vivemos em um mundo em que a imagem se substituiu a quase tudo e em que praticamente tudo pode ser e não ser ao mesmo tempo. O que garante a realidade de algo hoje em dia? Um teste de farmácia? Um exame de sangue? Enjôo? Cansaço? Eu precisei chegar até o primeiro ultrassom, oscilando entre saber e não saber, balançando entre lembrar e esquecer, entre pensar a vida como se nada fosse e pensar em como mudar a vida, entre querer, decidir querer e reclamar que não era bem assim que eu imaginava… Primeira consulta médica, primeiro ultrassom: está ali, existe. Pronto, para mim teve efeito de realidade. Estou grávida.

O Sétimo Selo - Ingmar Bergman
O Sétimo Selo – Ingmar Bergman

A descoberta.

Pregnant woman from Kostienki. - aprox. 26.000 a 22.000 anos
Pregnant woman from Kostienki. – aprox. 26.000 a 22.000 anos

(en français: ici)

Bom, em pleno século XXI, com toda informação que circula por esse mundo, me parece muito difícil que, com raras exceções, a gente não esteja totalmente implicada na responsabilidade por estar grávida. Quero dizer: em quantas situações se pode realmente dizer que não sabia? Ou que não se queria? Porque meios para evitar são mais numerosos do que os meios para fazer acontecer, muito mais numerosos. Temos mais opções para não ter filhos do que para tê-los. Nesse ponto, mesmo com os progressos impressionantes da ciência, a coisa ainda se resume a 1+1=2… o básico. Ou melhor: 1+1=3. Quem diria que Lacan, o psicanalista, sabia mais da matemática dos seres humanos e de suas subjetividades do que aquele nosso professor chato da escola?

Mas então, você descobre que está grávida. Ou melhor, confirma alguma coisa que já sabia. Pronto, tem o aval, a legitimação da ciência, da farmácia, do laboratório, do seu médico, seja-lá-do-que-for que a gente precise para assumir como verdadeiro aquilo que já era óbvio porque você estava enjoada, vomitando, cansada, inchada, irritada, com fome, com sono, com um monte de coisas… Ou apenas você simplesmente parou de menstruar e a gente sabe muito bem que menstruar é chato, mas é a nossa carta de alforria mensal, que nos  tranquiliza e nos alivia com a notícia de que todos os riscos corridos naquele mês deram em nada e aquele carinha que se revelou um mala, ainda bem, nunca mais teremos que olhar para a cara dele, quanto mais ter algum laço que nos una àquele cretino para uma vida inteira, ufa… Bom, você descobre. E agora?

Agora que nunca é como você imaginou. Porque você imaginou que seria como no comercial de margarina, tudo escorrendo liso e sem atritos pela sua boca, pela sua cabeça, pela sua vida. Você pensou que seria no dia D, quando todos os planetas estariam alinhados e você estaria pronta, em todos os níveis, para a incrível experiência da maternidade: o momento certo, o cara certo, no lugar certo, com a vida certa, o trabalho certo, a grana certa no banco, o estado de espírito certo… Tudo certo, né? Gravidez é como um daqueles vestidos fantásticos que a gente compra mesmo sem ter dinheiro e que custou os olhos da cara, aquele vestido lindo, no qual você fica magnífica e soberana e que você, por isso mesmo, guarda para usar no momento especial, O momento da sua vida, aquele em que tudo vai acontecer. E o vestido fica ali no guarda-roupa pegando poeira porque o dia D nunca chega. Você engorda, você emagrece, de vez em quando vai ali ver se o vestido ainda serve e espera o momento, o seu momento… E nada. Nunca é o grande dia, aquele da Cinderela no baile, do sapatinho de cristal, do príncipe que beija a Bela Adormecida. Mas você espera e acredita. Até que o vestido empoeira, mofa, pega traça, o tempo cuida dele melhor do que você e acabou-se. Nada de vestido. Nada de você soberana.

O tempo não espera o dia D, simplesmente porque dia D não existe. E a vida não para esperando que você se apronte e esteja na condição perfeita para viver isso ou aquilo. A vida acontece. E a gravidez acontece assim também, no meio da vida, junto com ela, ali, na banalidade de um dia em meio a outros. Mesmo tendo sido planejada, desejada, inseminada, ela acontece ou não por motivos tão insondáveis e tão inexplicáveis que nenhuma ciência consegue dar inteiramente conta. Ainda bem. Ou não, porque a gente gosta de controlar tudo e de pensar que está no comando de tudo que acontece na nossa vida, até de nosso corpo. E de uma gravidez. Se tem uma primeira coisa que engravidar desconstrói, para nosso horror e angústia, é exatamente isso: aconteceu.

Não, não é uma total contradição com o que eu escrevi no começo, quando disse que a responsabilidade e a escolha por engravidar é nossa. O que acabei de dizer significa tão somente que a responsabilidade é toda nossa, o desejo é todo nosso, ainda que aconteçam desse jeito torto, fora de controle, longe do dia D, em meio a uma manhã de domingo, em um dia nublado de Barcelona, ou em qualquer lugar e hora tão banais quanto isso. Eis a responsabilidade: não é a propaganda de margarina e não vai ser, já começou não sendo. Mas é justamente o que eu queria.Quando eu descobri que estava grávida, entendi do modo mais contundente como é a vida quem faz os caminhos. Exatamente em direção ao que a gente quer. Mas nunca – NUNCA – do jeito que se quer. A vida é misteriosa, e isso sem nenhum sentimento ou apelo religioso incluídos… apenas a constatação disso que nos atravessa, nos ultrapassa e vai criando uma coerência entre o que somos, o que queremos, o que pensamos que queremos, o que de fato fazemos acontecer, o que nos acontece… Quando olhamos ao lado desse pavor do descontrole, a coisa parece até divertida… lúdica. Uma brincadeira de criança estar grávida agora, aqui, com você, nesse tempo e nesse projeto de vida em que ter filhos parecia uma velha história…

Grávida…