Amamentação: o que tem…

… e o que não tem funcionado. Para minha filha e eu, claro. Porque a singularidade dos envolvidos nesse ato certamente há de influenciar naquilo que dá certo ou não. Feita a ressalva, vamos em frente.

Acho que posso resumir em duas palavras aquilo que tem funcionado conosco: livre demanda.

No começo da amamentação, recebi as orientações mais desencontradas possíveis… E se tivesse persistido por um longo tempo nelas, certamente teria complicado ainda mais um começo tão delicado. Ou, talvez, até inviabilizado a amamentação. Então, vou falar sobre como descobrimos a duras penas o que é livre demanda através de tudo aquilo que não funcionou, ok?

Amamentar a cada 3 horas, por exemplo. Por que não funciona? Você come com hora marcada e em intervalos regulares? Pois é. E por conta desse intervalo imposto tinha choro que eu achava que não podia ser fome e ficava tentando enrolar – outra sugestão totalmente furada. E por que não dá certo enrolar e tentar seguir os horários? Porque o bebê fica chorando, com fome, estressado, pode até dormir um tempinho de cansaço e logo em seguida volta a chorar, mais estressado ainda. E quanto mais se perpetua esse ciclo, mais difícil de acalmá-lo. Uma tortura para ambos. O bichinho chorou ou começou a te cheirar, fazer boquinha, mamar o ar, a mão, o braço de quem está com ele no colo? Fome. Peito. Pronto.

Oferecer cada peito por 5 minutos, ou por 15 minutos, ou por x minutos quaisquer. Por que não funciona? Porque cada um tem seu ritmo para comer, não? Imagina se te dissessem que você deve comer em 5 minutos? Você engoliria tudo para passar mal depois? Ou seria arrancado da mesa e ficaria com fome até a refeição seguinte?Chegaram ao ponto de me orientar que x minutos era pouco, uma meia hora era bom e mais do que isso ela estaria perdendo, pelo esforço, tudo o que ganhou com a mamada. OK, então você pega um cronômetro, senta para amamentar seu bebê e reza para ele passar do ponto em que terá mamado pouco mas não ultrapassar a marca do perde tudo. Diga, alguém se alimenta assim? Penso que essa história de inventar tempo para amamentar é ranço de quem gosta mesmo é de uma mamadeirinha, onde a gente coloca uma quantidade determinada e o rebento que se vire para engolir o tanto que é o certo. Daí, basta tirar a média de tempo que os bebês levam para tomar a tal quantidade ideal e… voilà! Mamãe que amamenta só precisa que seu rebentinho siga a média. Mas como peito não é mamadeira e nem transparente para a gente calcular quanto o bebê está ingerindo, o que além de deixá-lo mamar quando precisar e pelo tempo que quiser poderia garantir uma quantidade suficiente? Nada. Então, peitos pra que te quero! Na hora em que o sujeitinho largar o peito, isso quer dizer que acabou.

Outra orientação capciosa é a que tenta cercar o número de mamadas… amamentar 8 vezes, 10, 12… Se não há como controlar pelo intervalo entre mamadas, nem por sua duração, vamos tentar pela quantidade, né? Por que não funciona? Justamente porque essa quantidade não se espalha de modo uniforme pelas 24 horas. E não significa que o bebê mama a mesma quantidade a intervalos regulares. Então, o que ela garante? Nada. Percebi que esse número varia de tempos em tempos, nos picos de crescimento, em dias mais tranquilos ou mais agitados… Ficava maluca pensando que ela não tinha mamado as dez vezes. O que fazer? Acordar? Enfiar o peito na boca? Fazer mamar à força? O bebê sabe mais do que nós sobre quando sente fome, melhor confiar nele.

E quanto a essa de acordar, tanto quando passa das tais lendárias três horas de intervalo quanto quando o bebê mamou por poucos minutos? Também tentei. Carinho na cabecinha, mexer na mãozinha, trocar a fralda… Não deixar o bebê dormir enquanto não tiver mamado o suficiente. Mas quanto é o suficiente? E caímos novamente nas medidas, nas médias, nas arbitrariedades que não dizem nada. Minha bebê não estava nem aí, afastava a minha mão e dormia. Mamar cansa, e muito. Não só a mãe, mas o bebê também. Principalmente no começo, quando eles ainda não sabem fazer isso muito bem juntos. Repare no rostinho do bebê mamando. Tudo mexe, todos os músculos. É um baita exercício e um esforço enorme até o sujeitinho virar craque. Então, tem horas que tem mesmo que dar um cochilo e recomeçar logo mais. Sim, isso atrapalha o sono da gente, que quer mais é que os pequenos mamem logo, tanto quanto possível, o mais rápido possível, para a gente poder dormir um pouco. Que desespero. Mas aporrinhar o sono do seu bebê não vai resolver isso, porque ele pode mamar demais e soltar tudo depois. Ou acordar, se irritar e chorar porque está exausto e precisa dormir. Melhor deixar o pequeno em paz e resolver o cansaço de outra maneira. O que vai resolver? O tempo, o bebê começar a espaçar as mamadas na medida em que vai se tornando expert nisso e consegue o máximo de leite, sem se exaurir, podendo fazer outras coisas com o tempo e a energia que lhe sobram como… dormir!

Então vem uma das minhas orientações prediletas: dá uma mamadeirona que ela dorme a noite inteira. Por que não funciona? Eu tenho apenas um comentário: foie gras. Sabe o foie gras, aquela iguaria francesa de fígado de ganso? Sabe como é feito? Os franceses descobriram que os gansos gordos tinham fígados gordos e um pouco inflamados e que isso era DE-LI-CI-O-SO. E tiveram a brilhante idéia de forçar os tais gansos a comer, para que eles ficassem mais gordos, com fígados mais inflamados e que tivesse mais foie gras pra galera. Essa alimentação forçada tem um nome aqui: a gavage, que fez com que eu deixasse de comer a iguaria, assim como muitas outras pessoas. Então, sempre que ouço essa historinha de dar uma mamadeirona para a minha filha ficar entupida de leite artificial e precisar passar horas dormindo para digerir algo que é muito mais indigesto que o leite materno, lembro da gavage. Por que não funciona? Pois é, parece até que funciona, mas eu pessoalmente não estou a fim de garantir minhas horas de sono a esse preço. Prefiro esperar o tempo da minha bebê alcançar essas noites dormidas por meio de seu próprio desenvolvimento.

Existem inúmeras pesquisas comprovando que a introdução da mamadeira (bem como da chupeta, por sinal) causa confusão de bicos e pode favorecer um desmame precoce. Então, se a mamadeira entope eficazmente e a chupeta acalma eficazmente, penso que o preço que se paga por essas eficácias não vale o benefício. No nosso caso. Não me interessa acalmar a todo custo ou sobrealimentar minha bebê e arriscar, com isso, a amamentação. Porque o leite materno é o melhor alimento para o começo de vida de um bebê humano. E porque a relação que se constrói a partir desse cotidiano de amamentação é de extrema importância. Para ambos.

Putz, mas isso quer dizer que eu tenho que ficar ali, à disposição? Pois é, amamentar exige mesmo essa disponibilidade de estar por conta do tempo do outro. E me parece que essa é uma das maiores dificuldades do nosso tempo: estar para o outro e não para si mesmo, priorizar um outro. Esse tempo de amamentação exclusiva é tão curto. E essa dedicação não é um fardo, se você pode encará-la como um prazer e vivê-la com a surpresa das descobertas. Surpreender-se quanto ao que você pode oferecer. Ser mamífera é uma constatação espantosa para nós, mulheres ocidentais burguesas do século XXI. Surpreender-se também quanto ao que seu bebê comunica. Conhecê-lo, criar proximidade, trocar afeto. Tantas coisas lindas acontecem ao longo dos primeiros seis meses, muitas das quais enquanto amamentamos. Será que vale arriscar tudo isso por uma necessidade de controle?

Correndo atrás de seguir receita de bolo de como dar de mamar, quase botei tudo a perder pois o que descobri, a duras penas, é que essas regras de ritmos, intervalos e duração das mamadas só servem para deixar as mães tensas. Anotar o horário das mamadas, o tempo de duração, procurar nos números alguma regularidade, uma luz, algum padrão em um momento inicial em que tudo é ensaio, tudo é improviso, tudo é descoberta? Não funciona. Ficar de olho no relógio e nos números não faz com que o bebê comece a se enquadrar neles. Pois, a única coisa que tais procedimentos almejam – como todos os outros que mencionei até agora – é o controle.

Saber, com certeza, quanto o bebê come, como se isso pudesse garantir a 100% seu bem estar, sua saúde ou – medida das medidas – seu peso. Peso virou sinônimo de saúde e controlando o peso acredita-se estar controlando e garantindo a saúde do bebê. E, como a amamentação escapa a esse controle das mamadeiras, dos horários e das quantidades, tenta-se fazer com que ela funcione do mesmo modo e segundo os mesmos parâmetros do aleitamento artificial. Estipulando intervalos, tempos e ritmos, nossos “orientadores”, e nós mesmas, acreditamos que estamos garantindo alguma coisa. Mas… não funciona. Não funciona, esse é um controle que está nas mãos – e no estômago – do bebê. Ele é o único que pode saber, com certeza, se e quando tem fome. E de quanto leite precisa. Aprendi a confiar na minha filha. Se ela está reclamando para mamar é porque tem fome e/ou precisa sugar. E ambas necessidades são válidas.

Amamentar em livre demanda é, a meu ver, um gesto de respeito ao pequeno ser que acaba de chegar ao mundo. Sinaliza que estamos ali, disponíveis, para acompanhá-lo e descobrir com ele como cuidar de suas necessidades. É algo muito bom para se oferecer a alguém que faz transbordar nosso peito de amor, não?

Amamentar é…

… mais difícil que parir.

Quem diria!?

Talvez pelo fato de ser algo estendido no tempo – ao contrário do parto que, mesmo longo, é pontual – parece que amamentar é um desafio renovado a cada mamada, durante todo o tempo que dure essa experiência. Nem sempre a conquista de uma mamada se transfere para as seguintes, nem sempre o ritmo conquistado em um dia vale para o próximo. Se o parto é um sprint para o qual você se prepara como um Usain Bolt das contrações eficazes, a amamentação é uma maratona: não adianta correr feito louca para acertar tudo de cara porque isso apenas vai esgotar as suas forças. Ninguém ganha uma maratona no grito. É preciso ritmo, persistência e uma imensa dose de paciência e de… humildade.

Porque, sim, amamentar é algo que fazemos desde a aurora dos tempos, como parir. E possivelmente muitas e muitas mulheres passam por isso com tranquilidade e sem muitas questões. Mas quantas de nós enfrentam um sem número de dificuldades que acabam inviabilizando o aleitamento? Perdemos nossa capacidade de alimentar nossas crias?

Aqui na França, existem basicamente duas vertentes: uma que entende que amamentar é escolha da mãe e que tudo bem que ela possa escolher não fazê-lo e dar mamadeira para o seu bebê desde o nascimento (como se leite em pó fosse equivalente ao leite materno e não trouxesse vários prejuízos, como o aumento das alergias e a falta de anticorpos contra uma série de doenças, que são passados apenas pelo leite da mãe, para citar apenas dois exemplos…) e uma outra vertente que valoriza o aleitamento materno, que caiu em desuso por aqui, munindo-se de várias estratégias para tentar convencer as mulheres que amamentar é bom (você emagrece, previne câncer de mama – porque os argumentos em prol da saúde do bebê não parecem suficientes em nossa cultura tão hedonista). Como eu já escrevi anteriormente, busca-se incentivar a amamentação por aqui. E isso é feito nos grupos de preparação para o parto, em cursos específicos sobre amamentação, na maternidade, logo que o bebê nasce, quando se incentiva que ele mame na primeira hora de vida… E também ao longo da sua estada por lá, quando sage-femmes e auxiliares de puericultura podem ser chamadas para te ajudar, te dar sugestões sobre posições, pega do seio e etc… Mesmo depois que você recebe alta, pode solicitar uma sage-femme em visita domiciliar, que avalia como está sendo o processo de amamentar em casa. Ou você pode retornar à maternidade para discutir a respeito com a equipe. Ou pedir a ajuda de uma especialista no assunto, de uma das várias associações que trabalham com isso e que oferecem esse tipo de assistência… Enfim, a oferta de informações e de auxílio é vasta e diversificada. E isso, se por um lado ajuda, por outro é capaz de te enlouquecer.

Tenho descoberto que existem tantas posições e orientações com respeito à amamentação quanto existem mulheres no mundo que amamentaram. Em pouco mais de um mês de experiência, já recebi uma infinidade de conselhos díspares, contraditórios e excludentes capazes de confundir até mesmo a pessoa mais sã, zen e decidida desse planeta. Não é fácil. Eis aí mais uma das situações ligadas à maternidade em que as informações são úteis desde que você consiga, em um dado momento, tomar uma posição baseada naquilo que você acredita que seja importante.

O que é importante para você? O que você julga importante para seu filho? Que ele mame no peito? Que ele ganhe peso? Que ele siga o padrão médio da curva de crescimento? Que ele tenha a oportunidade de ter todos os benefícios alimentares e afetivos que apenas o leite materno e a amamentação podem oferecer? Que ele e você possam descobrir como funciona essa história de maneira singular? Ou que vocês se adequem ao que é dito como “o esperado”?

Espanto-me com a quantidade de mulheres às voltas com o mesmo problema: primeiro mês de vida do rebento e o pequeno cisma em perder peso, ou em não ganhar peso depois da saída da maternidade, ou até em ganhar, mas menos do que o que seria o “normal”… E lá vamos novamente para o maravilhoso mundo das regras e das considerações sobre o que é normal e sobre o que é esperado. E a partir dessas generalizações, cada um tira suas conclusões sobre o que deve ser feito em cada um desses casos. E, espantosamente, a orientação de pediatras e afins é quase sempre a mesma: complementar. Nome bonitinho para dar leite em pó em uma mamadeira para seu bebê. Que ele esteja muito bem de saúde segundo todos os outros critérios, que ele tenha ganho pouco peso, nenhum ou perdido, nada disso parece fazer muita diferença: saiu da curva, indica-se o complemento. E nos desesperamos com a perspectiva de nosso bebê estar passando fome. E essa insegurança nos leva, muitas vezes, a acatar as orientações sem nem mesmo parar um segundo para pensar.

Quando foi que as generalizações tomaram o lugar do famoso exame clínico e se tornaram mais importantes do que ele? Desde quando exames, curvas, medidas e afins indicam uma conduta e uma orientação médica de tamanha importância como essa de botar em risco o aleitamento materno pela introdução da mamadeira? Ao invés do exame de cada caso particular e uma orientação condizente e coerente com o que se passa com cada bebê em cada momento, por que a solução homogeneizante? Médicos e profissionais de saúde parecem não quererem mais, na sua maioria, se comprometer em tomar uma posição frente a um conjunto de dados que recebem e inferem no contato com seus pacientes. Delegam essa responsabilidade para as medidas, as normas gerais, as condutas instituídas, as médias nos resultados dos exames. Pensar com a própria cabeça fica para os pais que, se não forem totalmente aterrorizados pelo discurso circundante, talvez possam descobrir que seu filho vai, sim, muito bem, obrigada. E que existem umas tantas coisas que podem ser feitas antes de apelar para a mamadeira.

Porque mamadeira com leite artificial vai, sim, favorecer o desmame precoce. E, se você se importa com isso, melhor saber onde poderá encontrar ajuda. Aí vai uma pequena lista não exaustiva de lugares onde obter informações que te tragam alternativas ao combo gentilmente prescrito por quase todos os profissionais de saúde em todos os casos acima mencionados, sem distinção entre Brasil e França, nem entre as diferentes situações vividas por mães e bebês que enfrentaram esses problemas:

Na França:

No Brasil:

Tenho amigas paras as quais o radicalismo da amamentação à qualquer preço estragou a experiência ao torná-la obrigatória e precipitou o uso da mamadeira. Ou seja, existe rigidez de todos os lados e isso não faz bem a ninguém, especialmente às mães que estão às voltas com o delicado processo de alimentar seus filhos a partir do próprio corpo, o que é um acontecimento estranho para nós ocidentais classe média intelectual com pouco ou nenhum contato com o mais primitivo de nossos próprios corpos. Mas vejo ainda mais radicalidade do lado daqueles que rapidamente oferecem a solução da mamadeira, mesmo ali onde ela não é necessária, nos privando justamente dessa experiência tão inquietante e mobilizadora.

Amamentar é bom, é prazeroso, é um contato de uma profundidade e de uma ternura inacreditáveis entre uma mãe e um bebê. Um amor em forma líquida, um olhar, uma troca. Mas é também inquietante, na medida em que você não controla a maneira como aquilo acontece. É ser alimento e isso incomoda muita gente. É ser solicitado em permanência e isso incomoda ainda mais. É ter que assumir e sustentar que a prioridade é esse ato e não as mil outras coisas que você poderia e/ou gostaria de estar fazendo naquele momento. Então, é fundamental que ali haja realmente desejo, desejo de amamentar. Senão, a coisa não tem onde se sustentar.

Como o parto, mas estendido no tempo, cada dia é um dia. E você depende tanto do seu bebê quanto ele de você para que dê certo. Ambos dependem de um encontro delicado, em que vão tendo que descobrir como funcionam para que haja leite para saciar a fome do pequeno ser. Dependem de uma entrega mútua, de uma confiança que se faz apenas na medida em que a mãe consegue ter calma e segurança o suficiente para saber que pode dar certo. A opção da mamadeira mina essa confiança. As falas de pediatras e outros profissionais de saúde que advogam que nenhum bebê pode ser ele mesmo e que nenhuma dupla mãe-bebê pode tentar encontrar seu caminho, mas devem seguir as regras também minam essa confiança. Os comentários de maridos, avós, familiares e amigos que não cessam de se espantar que o bebê queira mamar toda hora, que perguntam se tem leite ali, que indagam quando o sujeitinho vai dormir mais, que anseiam pelo peso como pelo troféu no final do campeonato, que insistem que uma mamadeirinha de noite não vai mudar nada e ainda vai fazer com que o pequeno durma a noite toda e te deixe descansar… tudo isso mina essa confiança tão fundamental para que uma mãe possa amamentar seu bebê. Com tanto “apoio”, não é de se espantar que tantas mães relatem dificuldades de amamentação ligadas ao mito do “pouco leite”, também conhecido como “meu bebê não ganha peso porque eu não tenho leite suficiente”. Será que é mesmo assim?

Tenho pensado que do mesmo modo que necessitamos de um renascimento do parto para recolocar as coisas em perspectiva e levantar algumas questões acerca de como concebemos o nascer hoje em dia, precisaríamos também de um renascimento da amamentação que pudesse perguntar para esse status quo qual o sentido de todo esse discurso jogado aos sete ventos sobre os modos de alimentar um bebê. Imagino que a indústria de alimentos, assim como a das mamadeiras e de todas as tranqueiras necessárias que a acompanham teriam muito a dizer a seu favor. E em prol desse discurso que desestabiliza mães e bebês em um momento de fragilidade em que tudo o que eles precisam é de apoio, compreensão e tempo. E os médicos? Por que apoiariam os interesses da indústria ao invés de priorizar o bem estar dos bebês? E as pessoas em geral, por que insistiriam nesse discurso desencorajador?

Amamentar é uma batalha cotidiana contra os outros, como o parto. E é mais difícil, pois o bombardeio é incessante. Cansa mais do que o cansaço desse ritmo inicial de convivência entre mãe e bebê. Cansa mais do que acordar durante a noite para as mamadas. Na obscuridade dos seios que não trazem um marcador de medida e nem um indício de quanto um bebê mamou e na obscuridade dos choros, cocôs, xixis e outros sinais de um bebê que não pode dizer com todas as palavras que tudo vai bem para ele estão depositadas todas as chances de uma amamentação. Da cabeça e do coração de uma mulher dependem os dois para que isso funcione. Tudo tão delicado. É um aprendizado cotidiano de humildade o ato de amamentar… As pessoas ao redor dessa dupla mãe-bebê poderiam se engajar também em uma posição de mais delicadeza e humildade, não?