Culpa, culpas, me desculpa

Então você engravida e começa a pensar sobre tudo o que se relaciona à gravidez, ao parto, à criação dos filhos. Se dá conta de que era uma alienada e que apenas tinha feito seguir a manada até então. Mas com a perspectiva de um bebê real, de um filho real, de botar realmente uma criança no mundo, não deu mais para ficar como um avestruz com a cabeça dentro de um buraco e você teve que se abrir, teve que olhar, teve que pensar a respeito de tudo o que cerca a maternidade. A sua, a desse filho esperado, aquela que você viveu.

Você passou nove meses gestando e se gestando enquanto mulher, enquanto futura mãe, enquanto pessoa crítica desse modo das coisas funcionarem nesse mundo. Passou todo esse tempo que poderia ter sido mais tranquilo, mais contemplativo, mais encasulado se preocupando com coisas que nunca antes tinha percebido: o mundo anda estranho, perigoso, as pessoas se pautam por valores que você não consegue mais endossar. Uma vida baseada no consumo, em que o importante é ter, perde o sentido frente à perspectiva da existência dessa criança. Você se sente responsável pelo mundo que está aí, sente-se responsável por ter feito tão pouco para que o mundo em que seu filho vai chegar fosse melhor. Tantos anos de indiferença, de falta de empatia, de despreocupação com o outro, de foco apenas naquilo que lhe cabe e agora eis aí você, obrigada a olhar para um outro que é esse bebê, sentindo um peso enorme que lhe cai sobre os ombros, o peso de cuidar, de proteger. Que mundo você vai apresentar para o seu filho?

Em nove meses você vira militante de todas as causas justas. Uma urgência de mudar o mundo, de que ele seja ao menos um tantinho melhor. Um medo que te invade cada vez que você pensa que sua cria não vai estar segura e que você não poderá poupar-lhe de todos os riscos. Frio na barriga constante, você não dorme mais.

E nesse processo que alguns chamam de emponderamento, você se dá conta de que pode fazer algumas coisas, de que pode ao menos cuidar da maneira como vive essa gravidez, como cuida dela, como cuida do bebê na barriga, como cuida da forma como ele virá ao mundo, como cuida da forma de criá-lo. Os nove meses de gestação produzem um bebê e produzem também uma mulher bem cansada que, no entanto, sente-se vitoriosa por ter tido a coragem de se abrir, de pensar, de criticar e de criticar-se, de tomar consciência e de indignar-se e, enfim, de lutar para fazer diferente e fazer alguma diferença. Para mudar o mundo, você percebe que um bom ponto de partida é justamente mudar a forma como gestamos, como nascemos, como parimos e como criamos nossos filhos.

Você pode fazer a sua parte, mudando o mundo precisamente ao mudar o modo de olhar para o que seja ter e criar uma criança. Menos ter, porque um outro ser não lhe pertence e mais acompanhar, descobrir, encontrar-se com esse outro que já chega com o potencial de causar uma pequena revolução. Uma mãe que muda, uma mulher que muda, se questiona, se empondera e vai buscar novos caminhos já é um mundo inteiro que se convulsiona e pode se transformar em algo melhor. Se pudermos ser melhores com nossos filhos, se pudermos criar crianças melhores para esse mundo ao mesmo tempo em que tentamos criar um mundo melhor para nossas crianças… bom, quem sabe aí haja uma real esperança para nossa espécie, não?

Então os nove meses passam e o resultado de todo esse processo de turbilhão e de emponderamento é que nasce um bebê. E você se dá conta de que o nascimento não é reta de chegada, mas ponto de partida. E que toda a sua luta por uma gravidez vivida de maneira respeitosa e por um parto e um nascimento humanizados foram apenas uma pequena ponta de um iceberg gigante. Perto do que se segue, engravidar e parir foi fácil.

A criança está ali na sua frente. O bebê. O sujeitinho. O pequeno. Você sente amor, você sente gratidão, você se emociona e chora à toa. É um acontecimento de tão grandes proporções que você não encontra palavras para isso. Não é um clichê, é mais forte do que um clichê, mais intenso, mais visceral. Você é mãe e nada do que diga dá conta de expressar o que isso significa.

Você continua naquele processo que começou durante a gravidez, você se questiona, se informa, pensa antes de tomar as decisões. A coisa se complica quando você percebe que são muitas decisões à cada dia. Vai amamentar? Em livre demanda? Vai fazer cama compartilhada? Quarto compartilhado? Como vai fazer com o bebê que acorda de noite? Como vai fazer com a criança que prefere dormir contigo? Vai colocá-la para dormir no seu quarto? Vai fazer treinamento de sono? Vai carregar no sling? No porta-bebê? Vai usar fralda? De pano ou descartável? Vai dar vacinas? Quais? Quando? Quando ficar doente, como vai tratar? Vai levar no médico? No homeopata? Vai dar antitérmico quando tiver febre ou deixar a febre agir e tratar com banhos mornos? Vai diversificar a alimentação com que idade? Vai dar papinha ou comida em pedaços? Vai cozinhar? Vai tirar o leite quando tiver que sair? Vai dar o leite no copinho ou na mamadeira? Vai lidar como quando os dentes começarem a sair? Vai dar chupeta? Vai voltar a trabalhar? Vai ficar em casa cuidando da criança? Até quando? Vai trabalhar em casa? Vai deixar a criança com a babá? Na creche? Na escolinha? Com os avós? Como vai fazer se a babá, a creche, a escolinha ou os avós não tiverem os mesmos ideais no cuidado com uma criança que você? Como vai fazer com os comentários dos amigos? Com os doces oferecidos na casa dos outros? Com os tablets, os celulares e os desenhos na televisão? Como vai fazer com as brincadeiras e os brinquedos ditos de menino e de menina? Com que idade vai colocar na escola? Que tipo de escola vai ser? Melhor uma escola para a criança passar no vestibular? Melhor uma escola para a criança ser “bem relacionada”? Melhor uma escola para a criança construir sua autonomia e sua capacidade de pensar? Vai colocar a criança no inglês? No espanhol? No curso de dança? Natação? Judô? Esportes? Vai tirar a fralda quando? E como? Vai esperar a criança desfraldar ou vai tirar a fralda aos dois anos quando dizem que é a época? Vai ensinar religião? Vai batizar a criança? Vai furar a orelha e colocar brincos? Como vai reagir quando a criança fizer algo que apresente um perigo para ela? E quando ela fizer algo que te contrariar? Quando ela não quiser fazer algo que você proponha? Ou quando gritar, chorar, se jogar no chão? E quando ela bater em alguém? E quando apanhar de um coleguinha? Como vai fazer com as coisas para as quais tiver que dizer não? Vai gritar? Vai bater? Vai colocar de castigo?

Eis a lista não exaustiva de uma parte das questões e das decisões que chegam junto com o nascimento da criança. Muito, mas muito mais difícil do que decidir ter um parto normal humanizado. Uma avalanche de questões importantes, urgentes, que se colocam a cada dia. E, para cada uma dessas questões, dependendo de qual seja a resposta, mais uma batalha pela frente. Quanto mais fora da curva forem as escolhas dessa mãe, mais trabalho ela vai ter. Para encontrar informações, para encontrar alternativas, para encontrar apoio, para tão somente fazer o que decidiu, para dar conta de sustentar essas opções e para fazer frente à imensa resistência que o mundo e as pessoas desse mundo que se portam como gado e simplesmente seguem sem pensar o que está estabelecido podem opor a quem é diferente.

E quanto mais sejam escolhas pensadas e apropriadas por essa mãe, quanto mais elas tomem em consideração a subjetividade e as necessidades do seu filho, quanto mais elas se proponham a serem respeitosas, cuidadosas, quanto mais essa mãe se proponha a escutar, a estar presente, a estar inteira, a se colocar em questão e a fazer o seu melhor, mais trabalho ela vai ter. Não apenas com o mundo, com os outros, com a resistência desse mundo ao diferente. Não, esse trabalho é pequeno perto do trabalho que ela vai ter com ela mesma e com a sua constante sensação de culpa.

Culpa porque cada uma dessas questões é imensa e tem tantas implicações que mereceria horas, dias, meses de reflexão. Culpa porque a vida acontece antes que a gente consiga pensar sobre ela e sobre como vai fazer e logo nos vemos fazendo sem pensar e pensamos depois de fazer e percebemos que fizemos algo que nada tem a ver com nossos valores e com nossas intenções. Culpa porque cada dia traz todas essas decisões a serem tomadas e cada um desses assuntos tem milhares de textos, de pesquisas, de livros, de páginas de internet, de blogs, de sites, de especialistas… Culpa de ter que decidir fazendo uma aposta, sem conseguir dar conta de tudo, de todas as informações, sem nunca chegar no “fim” ou no âmago da questão. Culpa por nutrir a ilusão permanente de que seria possível saber tudo, chegar em uma resposta, chegar em uma verdade, descobrir o que é o melhor e somente então aplicar. Decidir com 100% de certeza, isso não seria uma decisão. Decisão é o que fazemos quando temos escolha. E termos escolha significa que temos uma larga margem de erro a cada vez que vamos por um caminho e deixamos outro de lado.

Quem sabe se estamos tomando as melhores decisões? Quem pode nos garantir? Ninguém. Nem nada. E o bebê, a criança, nosso filho não é quem vai se responsabilizar pelo que decidimos por ele. Ele vai certamente arcar com isso. Mas a responsabilidade é inteiramente nossa. E isso pesa. E traz mais culpa.

Você está esgotada no final do dia, sem paciência, sem disponibilidade, querendo largar tudo e correr, pensando que estava maluca quando decidiu ter filhos? Culpa. Você se propõe a estar com seu filho, a brincar, a passar um bom momento, a estar ali com ele e acaba ficando o tempo todo com um olho no celular e outro na criança, que se irrita com a sua pseudo- presença e acaba rasgando o livro, derrubando o vaso, batendo no irmão e tudo o mais que te tira do sério até você gritar e ser aquela pessoa abominável que você jurou que nunca seria? Culpa. Você lê na internet algum texto que critica a alimentação que você dá ao seu filho? Culpa. Você tenta mudar e não consegue? Culpa. Você desiste e coloca ele na frente da televisão com um suco de caixinha numa mão, um chocolate na outra e corre para frente do computador, para o banho, para chorar debaixo do chuveiro ou para tirar uma soneca? Culpa. Culpa, culpa, culpa. Mil culpas. Mil desculpas que você pede no final do dia, com medo de ter estragado tudo em definitivo, com medo de ter estragado seu filho, de ter estragado algo para seu filho, de ter estragado o caminho que vinham fazendo.

O mundo da maternidade está cheio de culpas, de culpabilizações, de desculpas que sentimos obrigação de pedir, de desculpas que inventamos para não pensar. Culpas e desculpas que jogamos em nossos ombros. Culpas e desculpas que jogam em cima da gente. Os outros, o pai da criança, os avós, a família, os amigos, a sociedade como um todo, o tal do status quo. É sempre muito mais fácil destruir uma pessoa com críticas do que apoiá-la naquilo que ela escolhe como seu caminho.

Então algumas mães se revoltam e lançam uma “maternidade sem culpa”, que a meu ver é uma espécie de síndrome de Estocolmo do maternar, quando a vítima defende o agressor. A idéia do “eu fiz isso e não morri”, a afirmação do “meu filho comeu isso e está bem”, ou do “eu apanhei na infância e sou grata a meus pais por isso”. A culpa virada do avesso, a culpa na sua mais perversa forma de destruição: para não culpar os outros, para não culpar a mim mesma por não ter pensado e por não ter agido até agora, eu desculpo todo mundo acreditando e querendo convencer de que é bom que seja assim. Que esse mundo do jeito que está é ótimo, que o modo como se criam as crianças é saudável e amoroso, que o que nos ofereceram e o que oferecemos a nossos filhos é o melhor possível. Contra todas as evidências, a ignorância pura e simples. Para evitar a culpa que já sentimos, um milhão de desculpas esfarrapadas. Culpa, culpa, mil desculpas.

Quanto mais pensamos que sabemos o que é certo, quanto mais acreditamos que encontramos as melhores opções, mais medo temos de falharmos. Quanto mais nos dizem que existem outras opções, mais medo temos de termos falhado. Em cada uma dessas situações, sentimos culpa.

Culpa de que? De sermos humanos? De falharmos? De errarmos? De contrariarmos nossas melhores intenções? De sermos ignorantes? Mal informados? Enganados? Culpa de desistirmos? De cansarmos? De não sermos capazes de lutarmos todas as lutas com igual empenho? Culpa de não darmos conta? De precisarmos facilitar por vezes nossos caminhos e nossos cotidianos?

Em nome dessa tal culpa, penso que estamos nos martirizando demais com aquilo que é impossível, na busca de uma maternidade perfeita que não existe e que ninguém vive. E acabamos paralisadas, com dificuldades para decidir, para agir, como se cada passo tivesse que ser milimetricamente calculado. Ou então agimos o tempo todo tentando reparar alguma culpa, tentando consertar um erro que nem sabemos o que foi. Nos sacrificamos para suplantar uma falta que acreditamos que poderia ter sido evitada. Será que essa mãe que queremos tanto ser não acaba soterrando a mãe que poderíamos ser numa avalanche de exigências e de culpas?

 

A volta da barriga

Nesse longo e nada tenebroso não inverno, uma das novidades é que a barriga voltou. Literalmente. Sim, vem aí o segundinho. Sim, é menino. Sim, já está quase na hora de parir e eu apareço com uma dessas. Gente, oi, acho que tô grávida… já nasceu! Hehehehehe. Se vocês querem saber como é estar de barriga do segundo rebento, eis aí um belo exemplo que diz quase tudo sobre o assunto: não dá tempo de elocubrar muita coisa. Quanto mais escrever. Mas, tudo bem, vamos ao tableau comparativo entre a primeira e a segunda gravidez, para dar um toque de humor à coisa:

  • Na primeira tudo é descoberta, tudo é novidade, você espera ansiosamente por cada manifestação do corpo, cada mudança, cada consulta médica, cada enjôo, cada movimento do bebê. Na segunda você se lembra, de sobressalto, que está grávida quando começa a ter azia 24 horas por dia. E lembra que não gostou nem um pouco disso na primeira vez. E fica de mau humor pensando em como vai fazer para comer e alimentar o rebentinho se tudo parece nhaca. E depois relembra que está grávida quando o pequeno começa a mexer, muitos meses depois que o enjôo e a azia passaram. E, dessa vez, você gosta disso. Como gostou na primeira.
  • Sim, o fato de já existir uma criança muda tudo. Muda sua disponibilidade, muda o seu tempo, muda os seus investimentos e a maneira como você se organiza entre gravidez e criança que já está ali saracoteando pela vida. Muda a atenção que você pode dar para essas duas experiências tão intensas, estar grávida e ter um filho. Mudam coisas em relação ao pequeno que está aí por conta da gravidez. Mas muda também sua condição de se fechar num casulo e ficar alisando a barriga o dia inteiro. Você não necessariamente fala muito com o bebê na barriga. Mas, sem neuras, porque tua filha bate ali na pança como se fosse uma porta e solta um “oi, bebê, tudo bom?” de quando em quando. E imagino que deve ser uma diversão pro miudinho ali de dentro escutar aquela farra toda ali fora da qual logo mais ele vai poder participar.
  • Em três, vocês já eram uma família. Em quatro, se ainda existiam dúvidas sobre o por acaso daquela relação que começou a dois, elas se dissipam. Mais família do que projetar um segundo filho depois de ter tido o primeiro, com a mesma pessoa, depois de todas as dificuldades e desafios que a chegada de uma criança traz para um casal e para a vida em casal… mais aposta do que isso em aprofundar a relação, em construir junto, em ser um casal, em viver essa experiência juntos, só se sair tendo um quinto, um sexto… Ou se começar a construir casa, comprar terreno, criar cachorro, abrir conta conjunta… sei lá…
  • As pessoas não têm a mesma reação que ao longo da primeira gravidez. Nada de uau, que demais, vamos comemorar, eu te paparico durante nove meses, viva! Está mais para: parabéns, que bom, pega ali aquele saco de supermercado que você esqueceu no corredor… Putz!
  • As perguntas e comentários sem noção não deixam de existir, mas pelo menos mudam, o que te dá direito a ouvir novas barbaridades e a imaginar como seria dar aquelas novas respostas que você tem ali na ponta da língua.
  • Outro? Mas já? Que coragem! Bom, pelo menos cria tudo junto, né? Pois é, a gente estava sem nada para fazer mesmo, decidimos inventar qualquer coisa para nos entreter.
  • Mas como foi isso? Foi planejado? Olha, eu já tive que te explicar na primeira vez, vou ter que contar a história da cegonha de novo agora?
  • Que loucura, agora que estava tudo melhorando, que a pequena estava crescendo, vai começar tudo de novo? Por que, é você quem vai criar?
  • Agora vai ter que parar de amamentar a mais velha, né? Talvez você não saiba, mas existe amamentação en tandem. E, não se preocupe, a mais velha não vai tomar todo o leite do pequeno e deixá-lo morrer de fome, não é assim que a coisa funciona. Mas, bom, se já te perturbava o simples fato de eu amamentar uma por um período tão longo, imagina amamentar dois? Cuidado para não dar nó na sua cabecinha e você ter que procurar um psicanalista, hein?!
  • Um menino? Que bom, vai ter um casalzinho! Sério, gente, como assim? Alguém me explica essa, por favor. Fico com medo de achar que as pessoas não percebem que o comentário delas beira o incesto.
  • Ou então: ah, um menino? Agora você vai ver o que é bom para a tosse! Poxa, obrigada por vir me dizer que minha vida vai piorar muito pelo simples fato do segundo bebê ser um menino e não uma menina, como se gênero determinasse o quão endiabrada uma criança pode ser.
  • Ah, você vai ver, menino é totalmente diferente! Espero, para o bem da psicanálise que eu prezo tanto, que sim, que exista mesmo uma diferença. Mas também espero que essa diferença não consista num estereótipo barato de como as meninas e os meninos são. São duas pessoas distintas, elas serão inevitavelmente diferentes. Nem se fossem gêmeos, não teria jeito. Ser diferente não é condenação, ou é?
  • Vai ter que brincar de carrinho, jogar bola… Minha filha brinca de carrinho. E joga bola. Meu filho vai brincar de boneca. E de casinha. De novo, são pessoas, não clichês ambulantes. Cada um vai ser como quiser e viver como lhe fizer sentido. E ambos terão iguais oportunidades de descobrir o mundo, sem barreiras de gênero.
  • E o nome? Já escolheu o nome? Já, mas dessa vez não vou te falar porque não estou afim de escutar que o Felipe é seu ex-marido, aquele crápula, que todos os Luiz que você conhece são uns chatos, que Vinícius é um capeta, que se fosse você, chamaria o rebento de François… Vá ter um filho e dê a ele o nome que você achar melhor. Ou adote um cachorro, um gatinho e chame ele de François. É fofo e super simpático.
  • Vai nascer na França de novo? Outro francesinho? Yep, outro franco-brasileiro. Por que não vem ter aqui no Brasil dessa vez? Porque quero ter meu filho ao lado do meu cara-metade. E da minha filha. E não quero ter que pagar para não ter cesariana. E pagar mais ainda para ter um parto respeitoso e humanizado. Nope, aqui é um país bem complicado em termos de gravidez, parto e pós-parto. Mas, nesse quesito, o Brasil ganha de lavada em oferecer e fazer o pior. Tô fora.
  • Por outro lado, os comentários e as intervenções arbitrárias dos médicos e eventuais outros cuidadores que acompanham a gravidez parece que se amenizam muito quando se trata de um segundo. É como se o fato de ter parido um primeiro te desse algum crédito para tomar as rédeas e fazer do seu jeito no segundo. Quando, na verdade, você deveria ter sido escutada desde o primeiro, mas isso é outro assunto. Segundão? Você tem crédito. E, não, não é o milagre da transformação da água em vinho, é apenas um mínimo de consideração e respeito vindo de um lugar que continua intervencionista, medicalizante e autoritário. Mas isso também é outro assunto. Em resumo: você já provou que pode parir, então a equipe médica te dá uma certa trégua no acompanhamento da gravidez. E quando você diz: não vou fazer isso, eles até te escutam. Ohhhh!
  • Você quer parto humanizado, sem anestesia, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem puxo dirigido e afins? Ah, você pariu assim a primeira? E correu tudo bem? Ah, então não há porque não possa ser assim novamente, né? Pois é, pedro bó. Agora me deixa aqui quietinha cozinhando o meu pãozinho e não me venha com essa de toque vaginal, depistagem da trissomia, milhares de exames, trocentos ultrasons e tudo o mais que você tem para oferecer nesse seu mercadinho das inutilidades tecnológicas para grávidas, ok?
  • Na categoria “sangue no zóio”, o mais difícil é aturar os comentários dirigidos à sua filha, que está ali de boa, vivendo a vida dela e tem que lidar com pérolas do tipo: tadinha, perdeu o trono. Ah! Agora vai ter que dividir tudo com o irmãozinho. Ah, a mamãe vai estar ocupada. Xi, perdeu a atenção. Quem é que sabe como vamos ser, minha filha e eu, com a chegada do irmãozinho dela? Shut up, people. Depois as pessoas reclamam que os mais velhos têm dificuldades em lidar com a chegada dos mais novos. Mas não pensam que os comentários super construtivos com que premiaram os ouvidos dos pequenos tenha algo a ver com isso, né?
  • E, no quesito esquizofrenia pura, ainda bombardeiam os pequenos com as pérolas opostas, no melhor estilo: vai perder o trono… mas está feliz que vai ter um irmãozinho? Você vai ter com quem brincar! Você gosta do irmãozinho? Gente, fala sério: nós que somos adultos mal conseguimos representar a existência de um outro ser enquanto ele está dentro da barriga, que loucura é essa de supor que uma criança pequena deveria entender o que significa “tem um bebê ali na barriga”? E quem disse que o bebê vai brincar com ela? Bebê recém nascido brinca, por acaso? Não dá nem para fazer de boneca, pintar a cara com canetinha, arrancar a roupa, arrastar para lá e para cá e dar comidinha. Deixem a criança descobrir no tempo dela o que isso significa. Deixem ela em paz para viver a experiência dela. Para ignorar, para perguntar, para falar, para tocar a barriga, para gostar ou não gostar, para achar o bebê um tédio quando ele nascer, para ter ciúmes ou o que quer que seja. Deixem a coisa acontecer, dêem um pouco de sossego para todos. Ah, tinha esquecido, as pessoas não resistem quando se trata de falar bobagem sem pensar.
  • De todo modo, quando você passou pela experiência de parir o primeiro filho, de maneira humanizada principalmente, isso te dá uma baita confiança em relação ao segundo. Você sabe que pode parir. Você sabe que o bebê pode nascer. Então, aqueles medos e desconhecimentos e ansiedades da primeira gravidez ficam bem distantes. Não que cada gravidez não seja diferente e que cada parto não seja único, mas a confiança em parir, no seu corpo, no seu bebê são algo que você ganha com o primeiro e leva para o resto da vida. Inclusive para os rebentos seguintes. Essa segurança te acalma durante a gravidez e te ajuda a focalizar no que é importante.
  • Preocupações? Apenas com o que você descobriu ser essencial ao longo dos últimos dois anos. Berço? Nhééé. Carrinho de bebê? Nhééé. Quartinho do bebê? Nhéééé. Chupeta, mamadeira, leite em pó? Hahahahaha. Fortuna gasta em roupinhas? Não, apenas uma coisa ou outra. Especialmente para o frio, porque esse nasce em pleno inverno. Toda a parafernália de banho? Nhéééé. Sling? Sim, sim, sim! Fraldas? Putz, verdade, tem que comprar fraldas em dois tamanhos agora, hein? Como é que era mesmo essa história de limpar o umbigo?
  • No quesito roupa de grávida, é assim: você usa suas roupas mesmo o máximo de tempo possível. E depois usa aquelas da primeira gravidez que não jogou fora porque, vai que, né? E depois bota o casaco de inverno com um cachecol de lã na frente para proteger a parte que fica aberta, porque o zíper não fecha e nem pensar que você vai comprar casaco de inverno num tamanho maior.
  • E você se acha linda. E se acha feia. E acha que a barriga está imensa, porque ela aparece mais rápido. E se irrita com aquela parte chata de andar feito pata e de não conseguir posição para dormir à noite. E se lembra que não tirou uma foto da barriga por mês e já pensa que o segundo rebento vai fazer mais tempo de análise que a primeira porque você não ficou ali, em cima, olhando o tempo todo para cada detalhe com olhares embevecidos. E depois se tranquiliza achando que ele vai te agradecer por você ter dado sossego para ele crescer em paz ali na barriga, sem ficar aporrinhando o tempo todo com um excesso de presença. Mas então isso significa que é a primeira que vai fazer anos de análise por conta do seu hiper investimento? Putz!
  • O essencial? Segunda gravidez é menos consumismo, menos superficialidade e mais consciência do que realmente importa. E mais confiança no que você viveu, no que você pode e no que você faz. E mais confiança no seu bebê. E uma convicção de que tudo corre bem na imensa maioria do tempo. E que sábias eram as nossas avós que ficavam em silêncio, tricotavam casaquinhos e viviam a vida, normalmente, sem fazer de tudo isso um espetáculo.

E o amor? Já ama os dois igual? Eu, particularmente, detesto essa obrigação do tudo igual para os dois, como se alguém pudesse sentir e agir igual, indiscriminadamente, sem levar em conta quem é a pessoa que está ali na sua frente. Quem faz tudo igual para todo mundo é, a meu ver, porque não percebe ninguém. Amor de mãe é algo que se constrói na convivência com o filho, é aquele troço que aumenta e transborda cada vez que você pensa que nem teria como amar mais. É na descoberta e na convivência que você ama. Então, você não ama o bebê? Amo, como se pode amar um bebê que ainda está na barriga. Amo a idéia dele, amo o fato dele existir, amo a curiosidade de conhecê-lo, de ver como ele é, de ver como ele vai descobrir esse mundo. Amo a perspectiva dele junto com a gente, nessa nossa família. E amo a minha filha pelo que ela é, por tudo o que vivemos até hoje, pelo jeito como ela é nesse mundo, pelas suas singularidades, por suas descobertas. É muito diferente. E não sinto a menor obrigação de amar igual essas duas pessoas tão diferentes, em momentos tão diferentes da existência e com as quais tenho uma convivência e uma relação tão distintas. Confio no amor que tenho pela minha filha. E confio no amor que vai se construir entre eu e meu filho. Ponto.

Parto da barriga

Ela foi dormir, ela e a barriga sapeca, que insistia em se alongar em formatos estranhos, dando ainda bundadas e chutinhos, mesmo estando há alguns dias mais baixa. As contrações desde a sexta-feira eram mais dolorosas, mas irregulares e esporádicas. Ela foi dormir com a barriga grande, pesada, aquela que aprendeu a amar e acariciar durante nove meses, a barriga com a qual conversou ao longo de muitos dias e noites, algumas tantas insones. A barriga que se transformou pouco a pouco até parecer que sempre esteve ali, como se nunca houvesse sido diferente. A gente se acostuma com os saltos, com os sobressaltos, com essa presença de um outro tão perto, com esse conhecer intimamente sem ver…

Uma noite como qualquer outra das mais recentes.

Às seis horas da manhã ela acorda de um susto e de uma sensação, como quem perde o ar. Ela sabe, mas mesmo assim levanta da cama e confirma: a água escorre com ela até o banheiro, trilhando um caminho que a faz sorrir. E, então, ela fica extremamente calma. Sente uma alegria profunda e silenciosa. Acorda ele que, também calmo e um pouco atordoado, tenta secar o rastro às custas de todos os Kleenex da casa. Surpresas esperadas tornam as pessoas engraçadas em suas ações.

Eles avisam a mãe dela, que chegou de longa viagem na véspera. E que se alarma no fuso horário confuso, enquanto eles tranquilamente comem algo e se preparam, jogando as últimas coisas na mala. As pessoas dizem e repetem: rompeu a bolsa, saia correndo para o hospital. Correr para que? Não se trata de uma maratona, nem de se jogar às pressas nas mãos dos experts para que eles cuidem de tudo… Não, ela e a barriga têm outros planos: nascer e fazer nascer uma bebê e sua mamãe.

Da porta ao carro, do carro à maternidade, é a última vez que fazem aquele caminho daquela maneira. Aquele caminho que não mais a reconhece e para o qual ela olha com olhos inéditos, olhos de desconhecido, de silêncio e de calma.

Na maternidade, um primeiro exame: contrações ainda fracas, subir para o quarto e aguardar um novo exame no final da manhã. Sobem ela, a barriga, ele e a mãe dela. Ele sai para voltar dali a uma hora, ela se instala aguardando um longo dia de trabalho de parto.

Uma hora depois, as contrações aumentaram muito em intensidade. Aquelas que começaram pela manhã com a ruptura da bolsa não eram tão doloridas. Ou talvez seja o intervalo entre elas que diminuiu para cerca de dois minutos o que as torna mais intensas. Ela não sabe ao certo, apenas busca respirar profundamente, mudar de posição, bascular a bacia… Pensa no curso de sofrologia que fez ao longo dos últimos meses e que a ajuda agora com isso. Pensa que o objetivo dessas contrações é preparar o útero para ajudar a pequena a sair. Pensa que cada contração aproxima mais o encontro entre elas, entre eles todos. Pensar como uma forma de se reassegurar que esse é o bom caminho. Ela luta um pouco contra si mesma, insiste em que é pensando que vai gerenciar o seu corpo que agora corre solto à sua revelia, ela que sempre dançou a vida inteira e que orgulhosamente sempre soube o alcance de cada gesto seu… Nessa uma hora depois ela percebe que seu corpo age e que ela pode brigar para manter as rédeas ou pode confiar e se deixar levar. No final das contas, essa é uma falsa questão de escolha, porque quem vai levar o jogo é ele, isso é certo. Naquilo que é vital, apenas o nosso corpo sabe o que fazer. Só ele tem a resposta, só ele sabe para onde ir, então é melhor confiar e se abandonar. Constatações desse corpo que rege a cada dois minutos…

A enfermeira aparece para levá-la novamente à sala de parto. Seu útero já se modificou muito, 1 cm de dilatação, ela vai para a banheira de água quentinha que sua mãe prepara, todos ainda aguardando muitas e boas horas de trabalho pela frente. 1 cm por hora, é o que dizem. Ainda mais para um primeiro.

Ele chega. Ela, na banheira, aliviada pelo calor da água, respira em silêncio. Não quer falar, os olho semi-abertos, apenas sensações. Sensações que escapam, que restam, que invadem… Sem pensamentos, apenas estar presente ali e viver tudo aquilo.

Outra hora e meia e aquilo que eram contrações vira outra coisa. Não se trata mais de dor, não é dor que ela sente, apenas uma força descomunal que começa a tomar conta do corpo dela a cada contração. Ela decide que tem que sair dali e se alongar em algum lugar. Ele a ajuda, olhando bonito aquilo que ela vive. Ora segura sua mão, ora lhe massageia as costas, ora partilha seu silêncio… ele espera o tempo passar lentamente. Um tempo em suspenso.

Apenas alongada e a enfermeira obstétrica constata com espanto a dilatação completa. Sai para chamar a equipe e se preparar, mas ela e a barriga já encontram-se em outro plano. Aquela força muscular sobrenatural faz tremer as pernas, faz gritar de dentro da alma… Duas… ela sente a pequena que se aproxima e a faz queimar… Três… Quatro… Ele diz: “estou vendo muitos cabelos pretos”.

A equipe mal tem tempo de entrar na sala e pegar desajeitadamente a bebê que sai por sua própria vontade, no seu tempo. Sai um ombro, sai outro, alguém dia a ela que pegue sua bebê. Ela a pega pelos ombros e traz para a barriga. O lado de fora da barriga de onde ela acaba de sair. Os olhos semi-fechados, ela não consegue acreditar na pequena ali, na sua frente. Ela olha para a bebê, ela olha para ele, ele olha para a bebê, eles se amam, eles a amam… assim… sem dor e com tanta força.

Ele corta o cordão. A pequena acaba de partir da barriga para o mundo. E o melhor é cuidá-la e amá-la para que ela tenha o melhor possível em seu mundo. Ela é cuidada e examinada ali mesmo e volta para os braços dela.

A pequena fica aninhada nos seus braços. Ela mama, ela olha para a mamãe e para o papai. Ela vai para os braços do papai. Ele a veste. Ela olha tudo em sua volta… então é isso? Então são vocês? Então, eis você! Talvez ela estivesse tão curiosa quanto eles por esse encontro, encontro de quem já se conhecia há tantos meses, encontro de quem, desde que chegou, pareceu ter estado sempre ali. Uma evidência.

5 horas e 22 minutos de um trabalho conjunto para vir ao mundo. 5 horas e 22 minutos de uma experiência inatingível para as palavras. 5 horas e 22 minutos para mudar uma barriga em mãe. Uma barriga em bebê. Um homem em pai. 5 horas e 22 minutos de respeito, de escuta, de amor e de coerência com a vida. Com o melhor da vida.

Bem vinda, pequena. Estamos aqui, presentes e em festa para você.

O que não me contaram sobre a gravidez

Uma comadre da blogosfera materna, a Carol do Meu Parasita Querido, postou sobre o tema ontem e eu gostei da idéia de fazer uma lista dessas. Aí vão as minhas 15 descobertas, com um toque de humor e outro de mau humor:

  1. Ninguém me disse que logo que você engravida você começa a sentir um cansaço monstruoso. De férias no Brasil, eu achava que tinha me desacostumado do calor, do verão, do feijão com arroz, de tanto que só conseguia pensar em dormir. E isso dura ao menos pelos três primeiros meses, quando você consegue dormir até em pé ao lado da caixa de som da boate com seu dj preferido tocando techno. Não que tenha acontecido comigo, mas… 
  2. Também não me falaram que enjôo de grávida não é como naqueles dias em que você come um pastel na feira e fica meio virada depois. Não, enjôo de grávida começa de manhã, vira azia depois que você toma o café da manhã, volta a virar enjôo depois que você consegue digerir tudo o que comeu, volta a virar azia depois do almoço, quando você comeu para tentar debelar o enjôo, e vira enjôo depois que o almoço arruma um lugar no seu corpinho combalido, e azia depois do jantar. E assim por diante. Incessantemente. Por ao menos três meses. Vai ver é por isso que se dorme tanto. Afinal, o que dá para fazer além de dormir estando tão enjoada assim?
  3. Ninguém me disse que desejo de grávida podia não fazer parte do programa. Passei todo esse tempo esperando ter alguma vontade enlouquecida de algo extremamente bizarro. Nada. Nadica de nada. Fora o dia em que devorei um pacote de Haribo (umas balas de criança que existem aqui na França e que foram o mais perto de bala de goma que consegui chegar). Mas não sei se isso conta, já que não envolveu misturas esdrúxulas, nem ninguém saindo de madrugada para tentar achar um mercado aberto. Putz, que frustrante!
  4. Ah, também não estava sabendo que gravidez dá tanto o que pensar. Antes do bebê nascer, você já deu a volta ao mundo mil vezes, tanto para o passado, revendo sua vida, suas escolhas, suas relações, sua família, quanto para o futuro, tentando imaginar o que e como fazer. Entender de onde veio, buscar projetar um futuro. Além de dormir – e mesmo dormindo e sonhando – acho que é esse o trabalho que mais nos ocupa cotidianamente.
  5. E, na categoria pensar, não imaginava que gravidez também desse tanto o que pensar sobre ela mesma. Não apenas passado e futuro, mas o presente vira questão. Tem gente que se deixa levar e vai vivendo, mas para mim tem sido a revolução cotidiana de pensar como viver essa gravidez, como cuidar dela, como ser ativa frente a essa experiência, tomando minhas decisões sobre a gestação e o parto da maneira mais consciente possível. Gravidez vivida, onde se batalha por um certo tipo de cuidado, por um certo tipo de acompanhamento e por um certo tipo de parto. Que trabalheira! E quanta responsabilidade ao perceber que é preciso tomar decisões e que não dá para se alienar e se abandonar nas mãos de ninguém quando o assunto é esse. Sob pena de acabar vivendo uma gestação e um parto que estejam muito distantes daquilo que você julgue humano. E como é trabalho com prazo limitado, a gente sai correndo atrás de informação, de alternativas, de lugares, referências e pessoas para tentar criar as melhores condições possíveis. Definitivamente, dá para entender por que é preciso dormir tanto e pensar tanto, né?
  6. Outra da categoria pensar é que ninguém te conta que, entre tantos pensamentos, revisões de vida, projetos de futuro e afins, há também um bocado de angústia, um monte de dúvidas, vários momentos de solidão e tristeza em que não se fala com ninguém. Todo mundo do lado de fora vivendo o clichê de que a gravidez é uma maravilha e te cobrando estar em estado de graça permamente. E você enjoada, com sono, pensativa, sem saber se é o melhor mesmo, com medo de que algo aconteça e você perca o bebê, com medo de ter o bebê, com medo de tanta coisa que parece que uma nuvem negra navega sobre a sua cabeça 24 horas por dia. E tendo pesadelos à noite, para completar. Tendo momentos em que lamenta estar grávida e pensa que vai perder muita coisa. E tendo momentos de culpa avassaladora por pensar nisso e não viver “como todo mundo”, achando tudo uma maravilha. Acho que uma grávida é uma pessoa dilacerada por dentro entre aquilo que dizem e cobram que ela viva – inclusive quem já passou por isso e até ela mesma – e aquilo que ela realmente vive e guarda lá dentro do coraçãozinho. Mesmo que não seja nada tão negro e obscuro assim, qualquer senão já é motivo para culpa, vergonha e autocrítica. Ah, vale dormir mais um pouco para tentar escapar dessa…
  7. Outra coisa que não sabia é que entre sono, pensamentos e ações cotidianas para dar conta de viver bem uma gravidez e o nascimento do bebê, o seu tempo fica totalmente tomado por isso. Você vira um monotema, sua cabeça vira um monotema e não é fácil desligar e fazer outras coisas. Trabalho, marido, amigos… onde? Como? Nossa, é um esforço hercúleo para se manter conectada e não se fechar totalmente. Mas você acaba se encasulando, ficando mais quietinha e na sua do que antes. A não ser quando encontra outras grávidas que querem falar das mesmas coisas que você. Daí é o paraíso e faltam horas no relógio para o tanto que se pode matraquear…
  8. Ninguém me preveniu, também, que quando a gente engravida fica meio burrinha. Não, meio desligada. Quer dizer, é tanta coisa passando na cabeça – como vocês podem constatar pelo começo dessa lista – e mais uma revolução de hormônios igualmente gigantesca, que o cérebro fica a ponto de dar bug. Não funciona direito. O meu, pelo menos, funciona bem mal e porcamente para tudo o que não seja relativo à gestação. Hehehe, é uma lerdeza seletiva, confesso. Mas o pior é que acontece. (Perguntem à minha manicure, ela certamente terá vários relatos de diálogos impossíveis para contar… putz). Esquecer coisas que acabaram de me falar é praxe. Esquecer, aliás, virou parte da vida. Confundir, então, nem se fala. Pessoas, horários, compromissos… Dar foras. Quem está ao redor já acostumou e espera pela próxima gafe ansiosamente. Eu espero apenas que meu sorriso amarelo e minha frase: “desculpe, sabe como grávida é distraída, né?” continue angariando a simpatia de todos com quem tenho tido que lidar ultimamente.
  9. Ah, e essa história de revolução hormonal, então? Por que é que ninguém diz que é mais ou menos como uma TPM que dura nove meses e que é elevada à milésima potência? Não, você não fica instável emocionalmente, você vira uma mistura de Darth Vader com Felícia (sim, gente, aquela do Pernalonga, que adora gatinhos). Você ama, você chora, você se emociona com tudo. Você quer engolir de tanto amor. Mas quando se irrita, não é uma irritaçãozinha não. Você tem vontade de matar alguém. Tirem as crianças da sala! Ai de quem for inconsequente o bastante para provocar uma grávida. Nós nos tornamos máquinas de respostas atravessadas (finalmente!) e de olhares fulminantes. Não, uma grávida furiosa é como o Godzilla, melhor ficar de sobreaviso e ser bem bonzinho por 9 meses, ouviu?
  10. Pior é que ninguém diz também que, mesmo uma grávida sendo esse ser em permanente estado de pré-explosão, isso não evita que a maior parte das pessoas encha o saco sempre que puderem. Os palpites… ai, os palpites. É tanta gente com tanto palpite e tanta vontade de botar a mão na sua barriga e te dizer o que fazer, que acabo acreditando que nós, grávidas, somos na verdade umas santas dignas de canonização imediata. A gente consegue gerenciar os pensamentos, as angústias, os cuidados com a gravidez, as decisões sobre a vida e a panela de pressão de hormônios sem estapear ninguém e ainda tem que aguentar os palpiteiros? Deve ser algum tipo de karma que cai automaticamente na conta de cada mulher assim que o teste de farmácia aparece positivo, não?
  11. Outra que não me disseram é que sentir o bebê mexer dentro da barriga é tão, mas tão emocionante. Já escrevi a esse respeito mil vezes e acho que nunca vou cansar de escrever. Porque, sim, todo mundo sabe que o bebê mexe, mas por que ninguém conta que é interativo? Bebê responde, chega perto da mão que acaricia a barriga, dá chute quando você vira do lado e aperta alguma parte da pança em que ele tinha se ajeitado, responde ao papai, responde à mamãe e, sapequice das sapequices, para tudo cada vez que você pega o telefone para tentar filmar as acrobacias. É ou não é incrível experimentar algo assim?
  12. Ah, ninguém te avisa também que verão e gravidez não combinam. Ainda mais se for o final da gravidez. Calor escaldante e mulher grávida, pesada, andando com dificuldade e tendo que dar conta de mil e uma tarefas antes do nascimento do bebê é pedir para o Godzilla dar as caras, minha gente. Não é humano isso não.
  13. Outra que ninguém diz: andar com uma melanciazinha na barriga é difícil. Cansa rápido se você fica em pé, e sentada ou deitada é quase milagre encontrar posição. Levantar é uma tarefa bem engraçada, que pode durar uns 10 minutos. E abaixar para pegar algo que caiu no chão… bem… para que, né? Nem está atrapalhando ou sujando tanto assim. A única hora em que você se encontra minimamente com alguma desenvoltura corporal é quando nada. Daí o peso some e você se sente novamente bailarina, podendo saltitar pela piscina como se pesasse poucos quilos… Maravilha!
  14. Essa ninguém diz mas todo mundo sabe. Acho que é um silêncio solidário, porque, convenhamos, roupa de grávida é muito feia, vai?! Eu uso bem contente de que existam calças e shorts com elástico que sirvam em mim. Mas, putz! Sair vestida de barril o tempo todo não ajuda muito na auto-estima não. Ou você consegue estar muito bem com as mudanças do seu corpo, se sentindo poderosa, bonita e orgulhosa da sua barriga, ou acaba passando ao menos a parte final da gravidez escondida dentro de casa, deixando o marido se aproximar apenas de noite, com a luz apagada. Bônus extra que descobri com essa crise fashion: vestidinhos. Vestidinhos de não grávida em corte envelope, por exemplo, são muito dignos e vestem super bem. Nessas horas, tive que agradecer o verão, estão vendo como a gente é paradoxal?
  15. E a última da minha lista de coisas que não me disseram sobre a gravidez é que, mesmo antes de acabar, dá aquela vontadezinha de começar tudo de novo. Putz!

 

Amamente!

(en français)

Essa é a Semana Mundial da Amamentação. Aqui na França, as mulheres têm uma relação bem estranha com o amamentar e a maioria escolhe não fazê-lo, pelos motivos os mais variados. Acho paradoxal como em um país onde o parto normal é a regra, amamentar seu bebê possa parecer algo tão extraordinário. Parece, para mim, um análogo do que é a cesariana no Brasil, que ganhou uma máscara de escolha da mulher, quando não se trata disso. Amamentar, mais aqui do que aí, parece descolado da maternidade, uma opção em que questões como peitos flácidos e caídos (oi?) ou uma certa repulsa a um ato considerado como mais animal e, por vezes, até degradante para a mulher (!!!) engrossam o caldo cultural que faz com que a maioria, nos cursos de preparação ao longo da gestação, estejam mais interessadas em saber qual mamadeira comprar e qual marca de leite dar. Triste. Tanto que existem campanhas muito fortes de amamentação nas maternidades daqui.

Penso que amamentar faz parte da maternidade. Assim como gestar e parir. São coisas que não deveriam acontecer quando existe um real impedimento para as mesmas. Não são escolhas, ou melhor, são escolhas que são assumidas no exato momento em que aquela mulher decide ter um bebê. Ter um bebê implica certas consequências, como gestar (se não for o caso de uma adoção mas, ainda assim, há um gestar da mãe adotiva também), parir, amamentar. Ou seja, ter um bebê implica um compromisso e uma boa dose de dedicação. Não dá para ter filhos e seguir a vida sem mudar nada. Isso, a meu ver, não é ter filhos. É apenas seguir o “vai da valsa”, como se fosse algo obrigatório a se viver… uma decisão padrão que tem muito de padrão e pouco de decisão. Ou, pior ainda, um gesto de consumo: viajar, comprar casa, apartamento, ter cachorro, ter filhos… tudo na mesma lógica de consumo, tudo no mesmo balaio. Nisso, perde-se o pé e deixa-se de lado o fato de que existe ali um outro, uma pessoa, um ser humano que não é produto de consumo, mas alguém que precisa de cuidado, amor e carinho. Que sentido faz ter filhos sem muita implicação com esse outro que está ali e depende de quem o cria para viver e, mais ainda, para viver com alegria, dignidade e tranquilidade? Que sentido faz ter filhos sem assumir as consequências, as mudanças e as implicações desse ato? Não compreendo essa distorção tão presente em nosso tempo e em nossa cultura. Ou melhor, compreendo que ela é fruto de nossa ideologia de consumo atual. Mas não aceito.

Enfim, tudo isso para dizer que amamentar faz parte do projeto “ter filhos” e que penso que, no Brasil, estamos muito mais conscientes disso do que na França. Ainda bem!

Mas hoje, principalmente, quero deixar vocês com o excelente texto da Ligia do blog Cientista que virou mãe sobre a importância do apoio à amamentação por parte do marido, da família e dos próximos. Mãe parida é mulher que precisa de apoio, reconforto, ajuda e incentivo. Não palpite, crítica e desencorajamento, viu, minha gente? Leiam o texto, vale a pena.

Então, amamentem. E, quem está ao redor, cuide tão bem dessa mãe quanto dessa criança que acaba de chegar. A gente agradece.

*** Em tempo, encontrei recentemente um post antigo da Renata Penna no blog Mamíferas tratando do mesmo assunto, sob perspectiva bem semelhante àquela que discuto aqui. A amamentação como um dever que faz parte do pacote da escolha de ser mãe. Muito bem escrito. Vale a leitura!

Oito meses, barrigão e verão europeu…

… socorro! Fujam para as montanhas! Ou não, porque até nas montanhas o sol está de lascar. Ninguém deveria estar em final de gravidez em pleno verão. Ou ninguém em sã consciência. Mas queria o que, né? Fazer contas e calcular a melhor época do ano para ter o bebê, consultando a previsão do tempo, os astros, a programação cultural e a agenda dos movimentos sociais? Não, a vida não se calcula dessa maneira. Ainda bem. Sempre é bom constatar que existe lugar para o que foge ao controle, ao plano, ao pré-estabelecido. Não somos máquinas e a vida não segue o nosso script pré-formatado. Mas, putz!

Temperaturas acima dos 30°C + barrigão gigante = inchaço, cansaço, dificuldades mil. Como proceder?

Não sei, os miolos derreteram… Aliás, essa é uma das maravilhas da gravidez: os miolos derretem e você deixa de prestar atenção em uma porção de coisas. Bobas ou não. Especialmente no final, quando bate o cansaço e a cabeça se volta inteira para a expectativa frente aos próximos capítulos. Esquece o que te dizem antes de terminarem a frase. A tal da esquizofrenia da gravidez, da qual falei noutro post. Benção das bençãos.

Outra maravilha: a pequena decidiu virar atleta e faz alongamento toda hora na barriga. Tem horas em que acerta as costelas, tem horas em que amassa a bexiga, e noutras faz cócegas na cintura. Ok, ok, ela está se aperfeiçoando. Parece estranho, como uma cena qualquer daquele Alien que me aterrorizava tanto quanto a cara de terror da Sigourney Weaver mas, na verdade, é tão incrível! Sentir os movimentos de uma outra pessoa no seu corpo, movimentos alheios à sua vontade e completamente estrangeiros às possibilidades contidas nos seus movimentos, para alguém que fez todo o tipo de dança a vida inteira e que sempre prestou muita atenção àquilo que o corpo pode fazer, é algo da ordem do extraordinário. Extraterreno. Alien mesmo. É o momento em que a pequena dá sinais de vida e revela que, mesmo junto, já existe separada da mamãe e da barriga. Já tem lá sua singularidade, já faz seus gestos, já inventa suas coreografias, já procura seu espaço num barrigão que vai ficando pequeno para tanta vontade de ser, de existir, de se mover… Creio que, para mim, os movimentos da bebê e os momentos de encontro por meio da imagem do ultrasom foram os mais importantes para trazer realidade e corpo a essa pequena, tornando sua existência palpável, verdadeira, substancial. Um efeito colateral positivo da tecnologia, em um caso, uma das banalidades dessa experiência desde que o mundo é mundo e que mulheres engravidam, no outro. Dois extremos de um acontecimento que, hoje em dia, é permeado de natureza tanto quanto de técnica.

Ah, e não podemos nos esquecer do conversê, né? Falar com a barriga, aquilo que eu fazia de modo constrangido no começo, tornou-se a obviedade mais cotidiana desses meses. A bebê mexe, a gente conversa. Ou melhor, eu falo, ela faz sua dancinha. Pode ser no ônibus, no restaurante, na praia, no conforto do sofá. A gente se entende, naquele estado de loucura particular que é a gravidez, tão necessário para que a mãe e o bebê se conectem e que ela possa atender às necessidades do seu rebento, que vai depender tanto dela no início. Como diria o bom e velho Winnicott: existe uma loucura necessária à maternidade, que faz a mãe poder supor aquilo de que o bebê precisa. E entre essa aposta, os acertos e os erros, ela termina por compreender melhor esse bebê, assim como ele termina por saber comunicar melhor aquilo de que precisa. Conversa que começa assim, meio maluca, até que um consegue desvendar melhor o outro e um tanto de encontro entre esses dois diferentes se torna possível.

Junto com as maravilhas que fazem todo esse percurso ter momentos de muita alegria, emoção e deslumbramento – os movimentos, os papos, as imagens, o desencanar geral e até a conquista da possibilidade de dizer um dane-se e de fazer uma faxina em pessoas, projetos e valores que não contribuem mais em nada para a vida, – vem também a parte menos divertida: os temores de cada mês, de cada exame, de cada consulta, as ameaças de cada risco que médicos, leituras ou amigos da onça colocam na sua cabeça, o sobressalto com cada mudança, cada coisinha que acontece ou não acontece, os medos e inseguranças, o desconhecido, o peso que pesa no corpo e dificulta o movimento assim como o peso que pesa na alma e que traz a responsabilidade, a preocupação, o tentar antecipar e prever todos os perigos, a necessidade de proteger e cuidar, a busca de fazer o melhor. Inchaço, barriga grande, calor não são nada frente a tantas preocupações que decidem crescer na mesma proporção que o final da gravidez se aproxima e que você sabe que algo vai mudar, tudo vai mudar, em uma direção que você desconhece e para a qual nunca se preparou. Penso que não existe leitura que chegue, não existe preparação para o parto que dê conta, não existe curso que esclareça, não existe sonho que antecipe o que vem ali adiante, quando o barrigão virar bebê e a barriguda virar mãe.

Entre anseios, expectativas e risadas com pés nas costelas, o que resta é aproveitar o tempo. Esse tempo malemolente e arrastado de verão quente que deixa tudo lento, lesmento, gosmento, suado. Sol nos miolos dando ares de irrealidade ao tempo que passa, dando tempo ao tempo para que a pequena se prepare. E para que a mamãe se esqueça de tudo o que aprendeu e possa, enfim, viver o que só pode ser vivido.

Mas, sim, existe uma diferença.

Li hoje um dos excelentes posts da comadre de blogosfera, a Carol do Meu Parasita Querido, em que ela fala sobre parto. Vale a pena dar uma olhada.

O que achei curioso, e é algo que eu percebo cada vez que alguém escreve sobre parto natural, parto humanizado e defende como posição própria o direito de fazer essa escolha, é que sempre aparecem os comentários de pessoas que passaram por uma cesárea dizendo que não são menos mães por isso, que elas têm o direito de escolher e por aí vai. Como se a escolha de uma mulher pelo parto normal fosse uma crítica e um desmerecimento a quem fez uma cesariana. Mas aí eu me pergunto: por que será que para algumas pessoas a carapuça serve e elas se sentem atacadas assim?

Eu acho que é porque o simples fato de existirem pessoas que pensam diferente e defendem posições diferentes revela que, sim, existe mesmo uma diferença entre parto normal e cesárea. E que exista uma diferença e que isso faça com que outras mães escolham caminhos diferentes de uma cesariana, isso automaticamente parece colocar quem optou por isso para repensar suas decisões. Mesmo a contragosto.

Antes de ir adiante, é importante esclarecer que estou falando aqui das cesarianas desnecessárias, e não daquelas que existem e salvam vidas. Isso é óbvio. E também estou falando das pessoas que, frente à própria experiência com uma cesariana ou com a escolha de uma cesariana se incomodam quando alguém defende o parto normal. Isso também é óbvio. Porque tem um monte de gente que fez ou escolheu fazer uma cesariana e que está bem com isso. Maravilha. Então, estou me questionando sobre quem se sente diminuída por ter feito ou escolhido uma cesárea a cada vez que surge outra mãe defendendo o parto normal e humanizado, ok? Porque é isso que acho curioso. (Acho curioso quem não se questiona também, mas isso é vício de profissão e incapacidade de conceber que tem gente que consegue viver sem pensar a respeito do que faz com a própria vida… enfim…)

Ser mais ou menos mãe?

Quando as pessoas falam que são mãe igual, que argumento é esse? Mulheres adotam crianças e são mães dessas crianças. Assim como, por vezes, mulheres têm filhos e não são mães deles. Ser mãe é algo que se constrói na delicada, cotidiana e singular relação com cada filho, é um processo que pode começar na barriga, antes da barriga, depois da barriga… Enfim, pode começar, nem sempre começa, mas muitas vezes começa e para cada uma começa de um jeito diferente. Então, parto normal, cesariana, adoção ou sei lá quais outras maneiras de maternar se encontre ou se invente, não é o jeito como a criança veio ao mundo que te faz mãe ou não mãe. Mas, de todo modo, você não é mãe igual a ela porque, simplesmente, essa história de que mãe é tudo igual é uma balela sem tamanho. Mãe é tudo diferente. Tão diferente quanto existem pessoas diferentes nesse mundo.

Mesmo passando por tantas coisas semelhantes – afinal, não existem tantas questões existenciais assim para nós humanos e nem sofrimentos tão variados – acho fascinante como cada pessoa é capaz de criar uma solução única, um percurso singular, um mix, uma colagem, uma junção de tantas coisas para inventar o seu jeito de lidar com aquilo. E penso que é assim também com ser mãe: no geral, as coisas se passam mais ou menos do mesmo modo e os desafios são aqueles que se colocam para nós todas. Mas como é que cada uma inventa a si mesma e a seu jeito de maternar? Singularmente.

Então, você não é menos mãe ou mais mãe do que aquela mãe que defende o parto normal. Você é mãe diferente. E a escolha do modo como se coloca uma criança no mundo pode fazer parte dessa diferença. E isso não é um julgamento de valor, é a constatação da diferença. Por que isso ofende? Por que deveríamos todos passar pelas coisas da mesma maneira?

Eu penso que temos um medo imenso de tudo aquilo que foge à regra, à homogeneização das pessoas e de suas experiências que é tão típica dos nossos tempos. Saiu do padrão, já nos incomoda. Porque quando alguém sai do padrão, automaticamente bota em questão tudo aquilo que é considerado normal. Não é assim? A gente achava normal até uns tempos atrás matar uma mulher que traísse o marido e isso se chamava “legítima defesa da honra” e justificava assassinato. Até que alguém começou a pensar diferente, ou a se perguntar por que seria assim. E quando um pergunta, mesmo quem estava acomodado nessa situação anterior acaba tendo que se mexer. O diferente obriga a gente a pensar.

Talvez aconteça o mesmo em relação ao parto. Ironicamente, o parto que é chamado normal não tem mais nada de normal no Brasil. E isso não é porque descobriu-se que outro tipo de parto é melhor do que esse. Porque não é. E esse é um dos fatores que parece que incomodam tanto a tanta gente: para a grande maioria das mulheres e seus bebês, na imensa maioria dos casos, o melhor parto é o parto normal. Não existe nenhuma pesquisa que contradiga isso. E se os números de cesarianas só faz aumentar em nosso país, indo na contramão do que afirmam todas as pesquisas acerca do tema, é porque deve ter algo errado nisso, não?

Questão de escolha?

Aliás, é estranho demais que no Brasil a cesariana seja escolha e seja defendida como uma escolha, como se fosse um direito adquirido pela mulher. Você pode escolher ter parto normal ou cesariana? Como assim? Na grande maioria dos países, isso não é questão de escolha. Parto equivale a parto normal, com mais ou menos intervenções médicas, mais ou menos humanizados, mais ou menos respeitosos dos meios e das condições de cada mãe e de cada bebê. Cesariana não é nem chamada de parto, ela é uma intervenção médica de urgência quando um parto não é possível. Então, o que acontece que cesariana vira parto e vira escolha no Brasil? E isso serve para que? Será mesmo uma grande conquista e uma imensa vantagem a ponto de podermos nos vangloriar de “escolher” uma cesariana? Se fosse um procedimento assim, tão excelente que merecesse ser estendido para todas as situações em que não é necessário, acho que vários países do mundo estariam agora nos copiando e a OMS não nos criticaria tanto nesse ponto, não? Não sei não, mas acho que aí tem uma lógica bem perversa agindo e que nos impede de ver que nosso discurso defende uma posição que não se sustenta em praticamente nenhum outro lugar do mundo e em nenhuma outra época. E se, como indivíduos, estamos defendendo essa mesma posição e a nossa escolha por uma cesariana, será que não vale mesmo nenhuma reflexão a respeito?

Quando uma mulher defende publicamente o parto normal e humanizado, num país como o nosso, ela certamente deve ter percorrido um longo caminho para chegar até essa decisão. Justamente porque ela não tem mais nada de normal, justamente porque ela virou a exceção e não a regra. E essa pessoa passa a incomodar porque, possivelmente, ela pensou muito mais a respeito do que a imensa maioria das mulheres que seguem o fluxo da cesariana. Porque, sim, é mais fácil seguir o fluxo, não se questionar e deixar as coisas acontecerem, sendo guiada por alguém a quem você delega as decisões a respeito de você, do seu bebê e do seu parto. Não digo que é melhor ou pior. Mas é certamente mais fácil do que parar e pensar. Daí, quando chegam essas mulheres cheias de idéias, de informações e de alternativas, isso dá um chacoalhão e obriga à indagação: o que é que estou fazendo? Será que é realmente o melhor? Mas se eu for botar isso em questão agora, onde fico com  minhas decisões? Fico sem chão, fico sem referências, nem sei por onde começar… Pânico. Sofrimento. E ataque como resposta.

Penso que ignorar as diferenças é a melhor maneira de se isentar de pensar sobre as coisas. E de ter que se responsabilizar pelas escolhas que fazemos. E de ter o trabalho de agir a partir delas, assumindo-as ou mudando de rumo.

Então, sim, existe uma diferença. Um parto normal é diferente de uma cesariana que é diferente de uma adoção. Nenhuma dessas escolhas garante em nada que haverá uma mãe e um bebê depois. Nenhuma delas garante o que vem em seguida. Nenhuma delas diz de quem será mais ou menos mãe. Mas são escolhas diferentes e dentro de cada uma delas ainda existe uma imensidão de diferenças. E penso que, sim, infelizmente, nos dias de hoje, no Brasil, da forma como gravidez e parto são tratados, escolher uma cesariana é algo que merece muita reflexão. Muita. Sobre o que está sendo escolhido quando se decide por isso. Sobre o porque está sendo escolhido. Porque não é uma escolha inócua – como também não é uma escolha de parto normal – e vai trazer, sim, consequências para você, para seu filho, para a história de vocês. Você está ciente disso?

Isso é uma coisa ruim? Que suas escolhas tenham consequências na sua vida e na dos seus filhos? Espero que não porque, quaisquer que sejam elas, pelo que tenho aprendido e ouvido acerca da gravidez e da maternidade, ficamos para sempre assombradas com a dúvida sobre se fizemos mesmo o melhor. E essa interrogação não vai sair da sua cabeça se você atacar alguém que escolheu diferente de você. Em relação aos nossos fantasmas, só nos resta encará-los.

Pelo direito de gestar

Logo que me descobri grávida, em conversas com um grande amigo, confidenciei que andava tendo muita dificuldade em manter minha rotina de trabalho, pesquisa, escrita, estudo. Todos esses afazeres obrigatórios para quem tem uma ocupação intelectual se tornaram mais lentos, mais penosos, menos interessantes. Os hormônios, o início da gestação, as mudanças… putz, quanta coisa! Trabalhadora que sou e que sempre fui, “workaholic” orgulhosa e convicta, isso que eu entendia como uma “leseira” me angustiava. Esse amigo acrescentou ainda mais lenha no fogareiro que andava a minha cabeça, me dizendo que eu tinha que conseguir fazer todas aquelas coisas, naquele ritmo, especialmente agora que estava esperando um filho e que ele dependeria de mim. Conclusão da conversa: às minhas dificuldades somou-se o peso imenso de me sentir relapsa frente ao bebê pelo qual sou, desde que foi concebido, responsável.

E lá vai a pessoa aflita tentando fazer, tentando ler, tentando pensar, tentando escrever, tentando cumprir prazos e ritmos que tornaram-se, a partir dessa mudança em minha vida, uma violência contra mim e contra o que eu estava vivendo. Não, no meu caso não deu certo forçar a barra não. Mas me fez pensar. Muito. Pensar sobre essa lógica estranha em que vivemos e que nos impõe dar conta de absolutamente tudo. E que rotula como preguiça, descaso ou irresponsabilidade cada atitude que uma pessoa tome contra o fazer tudo ao mesmo tempo agora.

Putz, vamos contra a corrente então. O que gostaria de defender aqui é exatamente isso: o direito de mudar de ritmo, o direito de mudar de prioridade, o direito de gestar. E o direito de que isso tudo seja tão valorizado quanto ser “workaholic”, intelectual ou qualquer outro valor de nossa sociedade atual. Me explico.

Tenho a impressão que alguma coisa do discurso feminista se engessou e se virou contra nós, mulheres. E passou a servir a um discurso dominante que busca, antes de mais nada, não favorecer e respeitar as escolhas e as singularidades mas, ao contrário, sujeitar todos a um mesmo caminho comum. Acéfalo, a-crítico, impotente. Caminho que, não por acaso, anula todos para o proveito de uns poucos. Sim, estou falando do discurso capitalista e do feminismo tendo sido cooptado por esse discurso capitalista e por outros tantos discursos dominantes bastante cruéis e perversos. Pois, se a luta do feminismo foi e é a dos direitos iguais, da igualdade de oportunidades e de condições, como é que isso tornou-se, em algum momento, uma pressão sobre as mulheres que se vangloria em ditar que algumas escolhas são melhores do que outras?

Então é assim hoje em dia: você trabalha, constrói uma carreira, dá o sangue, faz aquilo que gosta e tudo isso é extremamente valorizado socialmente pelos seus pares, pelas outras mulheres, pela sociedade (…ops, nem tanto, que ainda somos bem machistas, mas em vários meios é, sim, bastante valorizante a mulher intelectual, a mulher que pensa, a mulher que trabalha). Você é livre, exerce seus direitos, faz valer sua condição. Parabéns para você.

Em relação ao amor, você escolhe seus parceiros, você constrói junto com cada um deles maneiras singulares de estar junto, você exerce sua sexualidade com liberdade, você se bate contra os tabus da sua cabeça, dá de costas ao conservadorismo circundante e se permite ter prazer. Seu corpo, suas escolhas. Bom, muitos torcem o nariz, mas um tanto de gente te valoriza justamente por aquilo que muitos condenam. Outra estrelinha.

Então você encontra alguém, constrói uma relação amorosa, ou apenas vive uma relação de amor da qual engravida. Pouco importa para você essas definições, mesmo que para os outros isso tenha muita importância e os admiradores de toda aquela liberdade e daquela autonomia já estejam quase todos de cara amarrada que você tenha levado a sério essa idéia de construir um caminho pessoal, próprio, seu. Mas, mesmo assim, você ainda terá algum valor: mulher, livre, bem sucedida, com uma profissão, autônoma, viável financeiramente e, agora, com amor e com filhos. Way to go, girl! Você chegou no topo. Todo mundo te aplaude e te inveja.

Ou melhor. Depende.

Tudo isso é admirável e valorizado se, e somente se você for capaz de fazer a mulher biônica e der conta de todos esses investimentos ao mesmo tempo, num lapso de segundo da sua vida onde tudo conflui. Trabalho, amor, filhos. Você tem que arcar com isso tudo. E com brilhantismo. Afinal, não queria ter todos os direitos, oportunidades, condições?

Putz, aí vem a cilada. E quanto mais você é bem sucedida, quanto mais tenha construído um percurso que tenha, aos olhos dos outros, algum valor, mais as pessoas vão te tomar como uma traidora da causa no momento em que você cogitar fazer algo que, para elas, seja altamente suspeito de atentar contra esses tais valores.

O que, reduzir o seu trabalho, seu ritmo, sua produções para cuidar de filho? Que retrocesso!

Aqui na França, um dos berços do feminismo que deu certo, é quase uma heresia ousar pensar em algo parecido. Se der muita importância a isso, pode passar por iludida ou equivocada. Ingênua, no melhor dos casos. Vendida, no caso das radicalizações mais xiitas. Se disser que é prazeroso e realizador estar grávida ou ser mãe, então, capaz de ser apedrejada. Ou, ao menos, perder uma boa parte dos seus amigos. No Brasil, em muitos círculos, digamos, mais “intelectuais” e esclarecidos da nossa sociedade, não é muito diferente. Maternidade? Ok, mas sem muito engajamento. Não sei não, essa mentalidade esquisita me deixa com a pulga atrás da orelha…

Quando foi que uma defesa pelo direito de escolha tornou-se obrigação de uma única escolha? Quando foi que o discurso feminista tornou-se um radicalismo xiita que julga, desrespeitosamente, as mulheres como sendo melhores ou piores a partir do que elas, legitimamente, escolham para si? Um discurso que deveria ser o primeiro a validar que mulheres possam escolher não apenas não ser mãe, como também desejar sê-lo, não apenas trabalhar e conquistar autonomia intelectual e financeira como também priorizar outras coisas que não o trabalho? Onde foi que essa defesa de uma liberdade tornou-se uma prisão em uma única forma de ser mulher e de dar prova de que você é livre, esclarecida, bem-sucedida e feliz?

E desde quando a maternidade não é e não dá trabalho? Desde quando isso vale menos do que um trabalho formal? Talvez desde o momento em que fomos, feministas ou não, engolidas pelo discurso capitalista no qual o que vale é apenas o que é útil, produtivo, rentável. Ao defender mulheres que dão conta de tudo e ao condenar mulheres que escolham dar conta apenas de algumas coisas em detrimento de outras, cá estamos a legitimar o discurso de que pessoas – homens e mulheres – servem apenas quando são peças bem azeitadas de uma máquina cujo objetivo é produzir. Lucro. Veja bem: lucro vale mais do que gente. Produzir gente para continuar dando lucro, maravilha. Parabéns por ter filhos. Produzir gente e se preocupar em participar ativamente para que essa gente seja gente boa, pensante, afetuosa, amante, amada, cuidadosa, generosa, interessada, singular, ética… bom, aí você está produzindo problema, né? Relaxa, vai cuidar “das tuas coisas”, da tua carreira, do teu sucesso profissional. Isso tudo é que é importante. Deixa que a gente cuida do rebentinho para você. Hein?

Se você for uma mulher bem independente e autônoma e bem inserida nessa engrenagem na qual o seu trabalho, qualquer que seja, alimenta o poder nas mãos de um outro, nem pense em tentar se safar com essa idéia de dedicar-se à maternidade e de dedicar-se ao seu filho. Isso é absurdo, é andar para trás, é anti-feminista, é machista, é reacionário. Certo mesmo é não baixar a guarda, não abrir mão, não recuar naquilo que conquistou. Se não você vai perder tudo, viu? Mas a pergunta importante, nesse momento, seria: perder o que? Em nome do que?

Veja bem, se quer mesmo tanto ser mãe, vá lá. Mas faça do jeito certo: concilie tudo. Seja ainda mais máquina. Seja um automato pensando que é um autônomo… Todos vão te dar a maior força: vai, é assim, você consegue. E, o pior, você também acredita. E se o investimento no trabalho muda… culpa. E se não consegue, em meio à sua rotina insana, ainda dedicar-se à gravidez, curtir, estar feliz ou, depois, ser o que dizem que é “uma boa mãe”… culpa. A culpa é sua, minha senhora, que não está fazendo bem o bastante. Não ajustou as peças da maquininha que é você para funcionar direito. Você acredita que é possível, que tem que dar conta e, mais grave ainda, que é exatamente isso o que quer para você, para sua vida e para a do seu filho. Será mesmo que quer? Você parou para pensar o que quer com ser mãe?

Ao invés de dar conta, por que não dar as contas para essa lógica perversa?

Depois de mais de 15 anos trabalhando de sol a sol, depois de um percurso profissional muito bem sucedido, depois de duas especializações, uma formação, um mestrado, um doutorado, dois pós-doutorados, um fora do Brasil, artigos publicados, livros, palestras e afins… Depois de tanto trabalho e de tanta conquista, quando eu me descobri grávida e percebi que todas essas coisas ganhavam um outro lugar agora… (e olha que nem foi uma idéia de desistir, de largar tudo, apenas a constatação de que coisas, projetos e investimentos mudam de lugar…). Depois de todo esse percurso, tornei-me uma ameaça para várias pessoas apenas por cogitar viver minha gravidez, aproveitá-la, experimentá-la, descobrir com ela. Uma ameaça de retrocesso por pensar que isso, essa experiência, ter um filho pode ser tão bom e tão valioso quanto tudo o que fiz. E por querer me dedicar a isso do mesmo modo como sempre me dediquei a tudo, ou seja, intensamente.

Ainda bem que sempre têm algumas poucas pessoas que conseguem sair da caixinha pré-formatada e pensar com a própria cabeça e que são capazes de dizer: “viva isso, é legítimo tanto quanto tudo o mais que você já viveu” para te dar um alento, não? Parece que vira e mexe resvalamos em um clichê: do “a maternidade é uma benção” para o “seja mãe, mas não seja apenas isso” para o “seja independente e invista em você, na sua carreira, no seu futuro”… Arremessadas de um lado para o outro, sempre às voltas com algum imperativo sobre o que fazer, como fazer, como ser, como sentir, o que viver. Putz, alto lá!

Então, se eu posso dizer alguma coisa de útil é: “viva isso”. Não deixe de viver sua gravidez porque todo mundo, inclusive você, enfiaram na sua cabeça que é preciso dar conta de tudo, que não pode parar, diminuir, recuar, que tem que continuar independente, trabalhadora, bem-sucedida, o que quer que essas palavras signifiquem. Trabalhe, se isso faz sentido. Trabalhe mais, menos, mude de rumo. Mas não caia no engodo de que isso que você está vivendo é uma coisa banal e sem importância que não deveria alterar sua rotina, nem mudar seus projetos que, esses sim, são fundamentais. Pensar assim, a meu ver, é negar a realidade de que uma gestação muda sim seus planos, seus projetos, sua rotina, seus desejos, suas prioridades. Para o melhor e para o pior. De todo modo, algo muda. E qual o problema? Por que é que a maternidade não pode ser importante a ponto de mudar uma pessoa?

Talvez, para essa cultura do sucesso, do êxito, do reconhecimento a qualquer preço seja realmente um problema que, em algum ponto, as pessoas passem a se questionar se é isso mesmo o que importa. Mas, afinal, o que você prioriza na sua vida: ser aquilo que dizem que é o que vai te realizar e te fazer feliz ou tentar descobrir o que, na sua vida singular, te traz realmente alguma realização e alguma felicidade?

Os medos… ah, os medos…

Acho que foi minha irmã quem me disse que, uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila. Não, não se trata das noites mal dormidas por conta de amamentar, dos choros, das cólicas e afins. É mais sério que isso. Uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila porque terá sempre, como ruído de fundo, as preocupações relacionadas ao seu rebento. Lembro-me bem dela ter dito que a maternidade é como uma espécie de luto: ao lado da alegria de ter em seus braços aquele serzinho encantador, uma dor passa a te acompanhar para sempre. A dor de quem dá origem a um outro ser humano que, por ser humano, é criado para a vida e, também, para a morte. Uma vez consciente desse risco que todo humano corre pelo simples fato de estar vivo, que mãe pode dormir tranquila?

Os medos, pelo que tenho percebido, esses nos acompanham a cada momento a partir da concepção. Parece loucura, mas desde que soube que estava grávida, uma série de coisas banais que nunca me inquietaram passaram a me assombrar sobremaneira. Sair sozinha à noite, voltar para casa tarde da noite de metrô, situações em que pessoas levantam a voz próximas a mim, como se fossem brigar… Coisas que até então passavam desapercebidas, pelo fato de morar em um lugar bastante seguro, em um país bastante seguro, onde você pode andar na rua, inclusive à noite, até mesmo sendo mulher, sem que ninguém te aporrinhe. Sim, existem lugares onde se pode ir e vir e onde a rua e a cidade são, ainda, de todos.

Mas muito além desses medos e inseguranças que criaram uma grande sensação de vulnerabilidade ao surgirem lá onde não existiam, e que atribuo ao fato de me sentir responsável por proteger uma pessoa indefesa que está aqui na barriga e precisa de mim também para garantir sua segurança, a novidade maior foram esses medos relacionados à gravidez, ao parto e a essa criança propriamente dita.

Nem precisa ler muito sobre maternidade para ser inundado de assombrações permanentes: entre aquilo que publicam sobre o assunto, aquilo que os especialistas dizem e todos os palpites e “causos” que todas as pessoas “de bem” insistem em te contar, sobra material para metros e metros de medos sem fim. Cheguei a discutir isso antes, nesse post aqui. Essa mistura de cultura do risco que inunda os saberes médicos e de atração pela desgraça alheia que atravessa o senso comum dos realities shows aos relatos de catástrofe mostrados com esmero por toda a mídia, não sobram dúvidas: o que se quer é ver sangue.

Credo! Sai para lá!

Mas como isso se reflete na gravidez, no parto e na experiência da maternidade? Penso que, para além dessa sensação humana da qual falava no início, dessa aguda percepção da fragilidade e da finitude da vida, esse nosso gostinho por focalizar no pior das coisas ajuda a que nós, as grávidas e mães em questão, fiquemos alucinadas com muito mais do que o que seria necessário. Se não, vejamos o breviário de medos e inseguranças que nos acompanha feito bagagem pesada demais:

  • no começo, a gente teme estar grávida e, quando existe a suspeita, teme também achar que está e se frustrar descobrindo que não;
  • depois de confirmada a gravidez, a gente teme os temores do primeiro trimestre, que é quando todo mundo diz – putz! – que a maior parte dos abortos acontecem… e lá se vão três meses em que você passa pensando “ai, fica bem na barriga da mamãe, queridinho…”, com medo de acordar um dia e estar sangrando;
  • então surgem os primeiros exames e você passa a temer também todos os bichos e afins… toxoplasmose, listeriose, rubéola, DSTs… e lá se vão noites e noites de sono pensando em porque não tomou as vacinas direito, porque diabos comeu tanta carne mal passada, porque bebeu no ano novo…
  • o bônus dos primeiros exames, ao menos aqui na França, é a depistagem da trissomia do cromossomo 21 e de outras anomalis genéticas, que eles fazem a partir do primeiro ultrasom somado a um exame de sangue… mais um bocado de noites e dias de aflição de que o pequeno tenha algum problema genético…

O primeiro trimestre passa e você respira aliviada por não ter abortado, por todos os exames terem dado negativo, por estar bem e saudável, pelo ultrasom e os exames de depistagem não terem indicado nenhuma anomalia e você quase acredita que pode dormir sossegada… Mas não! Isso foi apenas o começo.

  • teu ganho de peso, tua pressão arterial, tua diabetes podem prejudicar o desenvolvimento do bebê, então você passa todos os seus dias preocupada com o que come, como come, para não comer demais ou de menos;
  • exercícios demais podem gerar contrações e não é nada bom ter contrações antes da época em que elas devem acontecer… Então você segura a onda;
  • mas exercícios de menos e sedentarismo demais influenciam na troca entre você e o bebê pela placenta, além de contribuírem para o ganho de peso,  e para o aumento das dores pelo corpo todo devido às mudanças corporais… então você enlouquece e começa a fazer yoga, natação e sei lá mais quantas mil atividades que são ótimas durante a gestação;
  • e, embora os casos de aborto espontâneo sejam uma questão importante no primeiro trimestre, é claro que sempre existe o risco de um óbito… então você passa suas noites de sono torcendo para isso não acontecer contigo e para que tudo continue bem ali, na barriga;
  • e, quanto mais se aproxima do terceiro trimestre, mais o risco de um bebê prematuro de tão baixa idade é um risco de um bebê que não sobreviva… então, embora tanto risco dentro da barriga te faça pensar que seria mais seguro o sujeitinho sair logo, e ainda que sua curiosidade em relação ao serzinho que te habita só faça aumentar e você queira muito saber como ele é, você insiste “fica bem aí na barriga da mamãe, queridinho…”

Passa o segundo trimestre e você respira aliviada da travessia de tantos percalços em teoria achando, já menos convicta que ao final do primeiro trimestre, que agora vai. Mas agora vão começar os assombros do terceiro trimestre, da prematuridade, do ganho de peso do bebê, da posição, do encaixe, do parto, do trabalho de parto, das dores, das contrações, da dilatação ser suficiente, de saber se deu certo de estar cercada de gente respeitosa e humana, se o bebê, teu corpo, teu marido, teu médico, tua parteira, tua maternidade vão todos conspirar para que tudo se passe da forma mais cuidadosa, respeitosa e natural possível para a chegada do pequeno… E, bebê nascido, haverão os medos de que tudo esteja bem com ele, de que seja saudável, de que mame, de que durma, de que viva bem… E da relação com os outros, dos perigos do mundo, da escola, de estar criando tão bem quanto possa, das doenças, das dificuldades, dos percalços… Putz, é preocupação sem fim, quando termina uma, começa a seguinte…

Parece tanta coisa que nem exorcista dá conta, uma condenação sem fim a um sono preocupado, inquieto, temeroso de tudo o que pode ser que… Entendo melhor minha mãe e todas aquelas mães um pouco malucas, em constante estado de alerta e tensão permanente, apostando que filho debaixo da saia é filho no lugar mais seguro desse mundo. Não deve ser nada fácil olhar para cada dia e para os desafios e riscos de cada dia e confiar que tudo vai correr bem. Mas é por isso que olho com ainda mais admiração para aquelas mães que conseguem, em meio a tantos assombros, manter uma certa calma no coração, uma certa confiança na vida e uma certa aposta de que seus filhos, na barriga e fora dela, estão e estarão bem.