O quarteto

Todo mundo diz que cada gravidez é uma e que cada parto é um parto. É verdade. Mas é aquele tipo de verdade que mesmo que você saiba, só entende mesmo na prática. Do nascimento da minha filha há dois anos e meio atrás até o nascimento do meu filho há alguns dias, um mundo de experiências, de descobertas, de alegrias e dificuldades se descortinou. Minha vida tornou-se outra, uma vida reinventada, em que a alegria de ser mãe da minha pequena, dessa minha “pequena ela mesma”, surpreendeu-me em cada mínimo detalhe do mais simples acontecimento cotidiano. Ser mãe dessa menina… que sorte, que privilégio. Poderia ter passado a vida sem ter filhos e nunca saberia o que teria perdido. E talvez isso não fosse um problema. Mas depois que ela chegou, impossível conceber a vida sem que minha menina faça parte dos planos, dos pensamentos e dos anseios. Parte fundamental, daquelas como um coração, ou um cérebro, ou um fígado. Você não vive sem.

Então, com o fim da segunda gravidez se aproximando, para minha surpresa comecei a sentir medo. Medo da mudança dessa vida tão repleta de alegrias, medo dessa “ordem” que eu sabia que iria desaparecer tão logo o rebentinho botasse a cabeça para fora do seu cafofo e começasse a respirar. Porque, sim, todo mundo diz que muda. E muda. E quem é que não vai ter medo de mudar algo que está tão bom? Quem mexe em time que está ganhando, né?

Nós mexemos e o pequenino ia ter que sair cedo ou tarde, de um jeito ou de outro. Causa, consequência. A não ser que ele decidisse ficar por ali até completar 18 anos e saísse direto para a faculdade mas, tendo em vista que eu e minha pancinha de 8 meses estávamos pedindo água, melhor que fosse logo.

Quando as contrações começaram no final da madrugada, passei um longo tempo olhando a pequena e o cara-metade que dormiam sem saber que aquela nossa vida tinha terminado. Para eles ainda era ontem, enquanto que para mim havia chegado o amanhã. Coisa estranha essa diferença de tempos. Coisa estranha colocar uma criança no mundo em tempos tão difíceis para onde quer que se olhe. Coisa estranha ficar feliz e triste ao mesmo tempo.

Quando o cara-metade acordou e me perguntou o que havia, me olhou bem e disse: “do jeito que você está calma, vai parir é hoje mesmo”. Aquela calma que invade a gente no dia do parto, quantas de nós a sentimos? Uma serenidade, um sorriso no rosto, aquela confiança de que tudo vai correr bem. Isso tudo é mais presente que o medo, a nostalgia, as preocupações. E é o que faz a gente confiar até o fim.

Como o segundo é diferente do primeiro, não tinha mala da maternidade preparada (hahaha, olha a “menas main” aí). Foi negligência ou uma vontade que durou até o finalzinho de ter o bebê ali em casa mesmo, apenas com a família, sem acompanhamento de nenhum profissional, já que isso se revelou impossível nesse canto onde moramos? Até o fim a esperança de um parto domiciliar. Para que sair de casa? Para que ir à maternidade? Para que colocar complicações em algo que pode ser tão simples? Perguntas que nunca pude responder totalmente e, sem poder ter certeza, e sem que o cara-metade bancasse junto para criar uma certeza forte e consistente, naquela madrugada decidi que na maternidade seria.

Uma das artes de parir nos nossos tempos e nas nossas condições, a meu ver, é conseguir o delicado equilíbrio entre saber e desconhecer. A partir do momento em que você decide fazer algo fora do padrão, precisa se informar. Pois são as informações que garantem aumentar suas chances de conseguir o parto humanizado que julga ser o melhor para o bebê e para você. Então, você passa o tempo todo coletando informações, aprendendo, pensando nas possibilidades, em onde ir, em como argumentar, em como fazer. Todo um trabalho cotidiano do que as pessoas chamam hoje em dia de “emponderamento”, que significa tomar decisões consciente do que está implicado nelas.

Mas, ao mesmo tempo, parir implica em se deixar levar por outra coisa em si que não o pensamento. Não é o que sabemos que faz o parto, não é o raciocínio, não é o que controlamos. É o que acontece ali, na brecha do que sabemos, na forma de uma ação que nos escapa. Ou seja, é preciso saber para poder parir e é preciso esquecer ou desconhecer para poder parir. Como é que faz, né?

Enquanto a noite ainda deixava tudo escuro lá fora e o silêncio das respirações dos sonolentos ali de casa faziam barulho de fundo, teve mala feita, teve banho, teve até café da manhã. E mais um longo cochilo. Até que o dia clareou e a pequena acordou. “Hoje é o dia em que seu irmão vai sair da barriga”. Lá foi ela para a casa da melhor amiga comendo um pãozinho. Lá fomos para a maternidade.

Domingão, dia de plantão. Não era o meu médico quem estava de guarda nesse dia, alguém que escolhi com muito cuidado porque aqui onde estamos são os obstetras que aparecem no final do parto, para o expulsivo apenas, enquanto as sage-femmes fazem todo o acompanhamento. Escolhi um sujeito bastante flexível e ao longo do pré-natal fui contando para ele em doses homeopáticas como gostaria que as coisas fossem no dia D. Ele pareceu aberto e disposto a deixar bebê e eu tranquilos, o que já é bastante coisa. O médico de plantão era, como disse gentilmente a enfermeira obstétrica que nos recebeu, “o oposto do Dr. Gente Boa”. Jeito suave de dizer que era o plantão de um obstetra que adora ser ator principal do parto alheio, adora romper bolsa, dar ocitocina sintética para acelerar trabalho de parto que corre bem, fazer fórceps… Eu fiquei tensa, com medo desse sujeito surgir na sala de parto e de eu ter que ter forças de brigar com ele, de dizer não. Conclusão: essa preocupação ficou ali junto com as informações e os saberes como um ruído de fundo que me acompanhou praticamente ao longo do parto inteiro, dificultando essa entrega para o desconhecido tão necessária.

sage-femme, pelo contrário, foi o anjo da guarda que caiu do céu para cuidar da gente. Um misto de enfermeira obstétrica comme il faut com doula por intuição, ela entendeu rapidamente e muito bem como queríamos viver esse parto e nos deu o que precisávamos: tomou para si a responsabilidade de não avisar o plantonista até depois do parto terminado, deixou-nos em paz, tranquilos, na sala de parto natural, sem luz hospitalar, com banheira, bola e copo d’água, sem monitoramento, sem nenhuma intervenção. Passou para nos ver duas vezes e depois voltou apenas quando chamamos… ah, a sorte dá uma mãozinha às vezes, não?

Dentro da barriga, o pequeno trabalhou como um valente. Descendo pouquinho a pouquinho a cada contração, lá foi ele se aproximando da hora de nos encontrarmos. Sem saber, sem conhecer, vivendo tudo pela primeira vez. Essa coisa incrível da primeira vez de tudo… como são corajosos os bebês que se lançam nessa de nascer sem terem lido um calhau de referências bibliográficas antes.

Respirar, abrir-se, deixar o bebê descer, deixar acontecer. Banheira, água quente, respiração… eis a magia de um parto sem anestesia e com dor no limite do suportável. Ou a magia do que funcionou nas duas vezes para mim. Isso e o milagre da posição deitada de lado…

Deitada de lado, quem diria que essa seria uma posição maravilhosa para fazer o bebê descer e nascer? Como a bolsa não rompeu até o último minuto, o pequeno desceu aos pouquinhos, bem malemolente, ao contrário da irmã com quem a bolsa rompeu de cara e ela logo desceu para apoiar a cabeça direto no meu colo. O pequeno não, ele veio na maciota, as contrações mais leves, o trabalho mais longo… Tudo diferente, assim eu não sabia parir.

É engraçado como a gente sempre precisa se apoiar em alguma coisa para brigar um pouco contra o desconhecido. Se não é nos saberes e nas informações, é no que viveu. A bolsa não rompeu, há que se confiar às contrações. Bebê desce aos poucos? Há que se confiar às contrações. E se abrir.

Sim, cada parto é um confronto entre você e seus próprios demônios. O bebê e você. E seus fantasmas. Do parto anterior, dos ideais, dos saberes…

Eu respirava, basculava a bacia e me abria. E pensava que o médico poderia chegar e querer usar um fórceps e tinha medo e me fechava. O pequeno descendo e eu no abre e fecha. Vem pra vida, meu filho, não vem não. Quem bota um filho num mundo desses?

Lá pelos 8 de dilatação as contrações mudam. O pequeno está ali embaixo, apoiado na bolsa que apóia no meu colo. Chamamos a sage-femme, ela sugere que eu sente no balão para ajudá-lo a descer. Cadê essa bolsa que não estoura? Estoura, explode, medo vai, medo vem, chega aquele momento do qual todo mundo fala, mas que a gente só entende quando vive. E depois esquece para lembrar no parto seguinte. Cansei, quero desistir, tira esse menino daí, quem teve a brilhante idéia de não querer anestesia, quero dormir, tô cansada, só quero que isso acabe, não chega não, seu plantonista, cara-metade, me faz um cafuné aqui, tô cansada, esse menino não vem não, chama o plantonista, por favor, tô delegando, lavo minhas mãos, quero nem saber… Tudo isso dentro da cabeça, por fora eu parecia a expressão mais perfeita da calma, da beatitude e da respiração profunda.

sage-femme anjo vem novamente e sugere um segundo milagre, deitar de lado sobre o lado esquerdo e respirar. Eu, querendo tirar um cochilo, topo experimentar. Deito de lado, três contrações no máximo e… tchibum… lá se vai a bolsa e, com ela, todos os medos, freios e afins.

Como é libertador berrar o filho que nasce. É o fundo mais profundo de quem você é, suas entranhas, sua vida. A vida que renasce e recomeça.

Ele nasce direto para os meus braços. Ele grita. Ele é… lindo. Aquele amor que inunda as narinas do cheiro do seu rebento, aquele que agora parece que sempre esteve ali. Aquele que você acaba de conhecer. Ele procura o peito e já começa a testar aquele delicioso encontro tão apaziguante de cheiros, de pele, de boca e peito, de calores, de leite. Tudo pela primeira vez.

Médico chegou depois que até mesmo a placenta já tinha saído. Quis reclamar com a sage-femme que deu uma resposta atravessada para ele. Como adoro essa capacidade tão francesa de responder à altura e sem subserviência…

8 horas de trabalho de parto. 5 para a minha pequena. Não é tanta diferença assim, mas o tempo é tão elástico, não? Ele se dobra e se desdobra com nossos sentimentos, nossos medos, nossos anseios, nossos freios e nossas aberturas. Um tempo tão diferente, um parto tão diferente. Mas igualmente maravilhoso. E igualmente desconhecido. E assustador. E maravilhoso. E maravilhoso. E maravilhoso.

Foi assim que a vida que parece valer tão pouco em nossos dias recomeçou aqui em casa. Provando que o amor e a vida persistem, insistem, existem. Há que se lutar por um mundo que faça jus a essa vida e a receba com generosidade, cuidado, carinho e respeito. Há que se lutar por que essas vidas façam jus a um mundo melhor e participem da criação dele. Muitas lutas ainda por vir, numa vida que esses dois pequenos fazem valer à pena.

O trio virou quarteto. Bem vindo, filho!

 

Bibliografia básica para parto humanizado

Hehehehehe, quem tem vício de trabalho acadêmico adora uma bibliografia no final, né? Mas, sem querer intelectualizar demais a coisa, aqui vão algumas leituras que descobri ao longo desse tempo e que me ajudaram muito na época da gravidez ou até mesmo depois, para entender melhor o que havia vivido. Depois dos textos sobre parto de anteontem e ontem, é o último da série. Por enquanto.

Tem uma enfermeira obstétrica americana, chamada Ina May Gaskin, que foi minha primeira grande descoberta nesse mundo do parto humanizado. Ela é incrível, muito sábia e experiente e fala muito bem sobre o parto, o medo no parto, as dores, o que atrapalha, o que ajuda. Acho que foi quem mais me esclareceu sobre o quanto o medo é importante para delimitar o que você vai viver na experiência de parto. Então, se você entende bem inglês, eu assisti uma série de palestras dela via internet que adorei. Aqui, alguns dos episódios: sobre a ocitocinasobre o medo no partosobre a dor no parto. Você pode ver toda a série de videos pelo youtube, eu recomendo.

Outra “leitura” obrigatória é o documentário O renascimento do parto. Desse eu participei do crowdfunding, mas só fui ver o filme mesmo depois que a pequena tinha nascido. É muito esclarecedor e ajuda a pensar na importância para nossos filhos e para o mundo de cuidarmos da forma como eles vêm ao mundo. Tem até uma palhinha no youtube. Ou você pode comprar o DVD. Funciona como um livro de cabeceira e é um dos meus melhores argumentos para gente que defende a cesárea porque “se as famosas fazem, a gente quer também” (juro, já ouvi isso). Esse filme, a Gisele Bündchen e a Kate Middleton, claro.

Outra autora de quem gosto muito, para pensar a maternidade e o parto, é a Laura Gutman. Pena que só fui ler há uns dois meses, mas ela traduz maravilhosamente muitas das nossas vivências durante a gestação, o parto e o puerpério. Vários lugares na net publicam trechos dos livros dela, eis aqui alguns que têm mais a ver com a questão do parto e que acho que podem ajudar a pensar: no site Mamatraca e no livro dela “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, em que o capitulo 2 é sobre o parto. E caso se interesse por essa abordagem mais psicanalítica da maternidade, recomendo vivamente a leitura da obra de Françoise Dolto, com quem a Gutman se formou e do bom e velho D.W.Winnicott, minha referência de coração e mente para pensar a maternagem.

Esse site é muito bom em informações também. Tem ótimas informações sobre parto no Brasil, além de sobre trabalho de parto, parto humanizado, o papel do pai…

Um texto bem interessante sobre a dor do parto.

Esse texto aqui, da Melania Amorim, virou rapidamente minha referência para as justificativas fajutas para uma cesariana. Não que isso ocorra tanto aqui na França, mas acho importante saber. Porque ela nos ajuda a perceber que a maior parte dos motivos dados para cesariana são falsos e, com isso, nos ajuda a perceber que são poucos os verdadeiros motivos para algo dar errado e um médico ter que intervir no parto. Isso traz mais segurança sobre o quanto somos capazes de parir, o quanto os riscos, perigos e problemas são a exceção e não a regra e o quanto são imensas as chances de que tudo simplesmente corra bem.

No âmbito dos relatos de parto – que eu adorava ler enquanto estava grávida, porque me enchiam de coragem e continuo gostande de ler hoje porque me emocionam, invariavelmente – o pessoal do GAMA, um grupo de São Paulo que apoia o parto humanizado, tem vários relatos de parto bem interessantes. Outros relatos de parto aqui, no Vila Mamífera. Tem o meu próprio relato, claro. Noutro dia li esse relato lindo, também, que fala de um parto rápido, consciente e apropriado… E esse outro bastante sensível, falando das coisas que não sabemos e deveríamos, para sermos mais senhoras de nossas escolhas. Enfim, tem para todos os gostos, é muita inspiração na web.

Outra referência quando o assunto é parto, o Michel Odent, que coloca as coisas em termos bem simples e claros. Além dos livros dele, há várias entrevistas e pequenos textos espalhados pela web, vale a busca.

Por fim, tem a bela iniciativa do Projeto Clarear, da Ceila Santos do Desabafo de Mãe, que lançou uma “campanha” no portal Mamatraca perguntando o que as grávidas querem saber agora. Uma porta aberta para a troca de informações que sejam coerentes com aquilo que realmente pensamos, sentimos e nos perguntamos durante a gravidez, bem distante da maioria dos pitacos inoportunos que ouvimos ao longo de todo o período. Visite o portal e dê sua contribuição!

Quem tiver mais dicas de leituras, vídeos, sites e afins, coloca nos comentários, por favor.

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Em tempo: a Gabi Ramalho lembrou, nos comentários, dos grupos no Facebook, verdadeiras redes de informação e solidariedade para grávidas, parturientes, mães e afins. Indicou o Cesárea? Não, obrigada! que eu coloco em link aqui, para quem se interessar. Valeu, Gabi!

 

Como se preparar para um parto normal?

Continuando esse texto aqui e tentando pensar no que ajuda a nos prepararmos para o parto. Na medida em que isso é possível, claro, pois o parto é uma experiência de total descontrole e de entrega, em que sua razão não consegue fazer nada por você enquanto seu corpo age. E um dos aprendizados é justamente deixar esse corpo agir e confiar na sua sabedoria. Então, segue uma lista de pequenos aprendizados e grandes descobertas que fiz e que talvez sejam úteis para outras mulheres que querem tentar evitar a cascata de intervenções médicas na qual se transformou o nascimento na maioria dos lugares hoje em dia:

  • Recusando a anestesia – que é reconhecidamente a porta de entrada para muitas outras intervenções que se seguem a ela, como a administração da ocitocina sintética, a episiotomia, o parir na posição ginecológica… Fato: na medida em que você abre mão de sentir boa parte do seu corpo, fica literalmente à mercê de que ele seja manipulado pelos outros como bem entenderem. Se você não sente nada da cintura para baixo, a dor das contrações não envia mensagens para seu cérebro produzir ocitocina, que não entende que tem que contrair, dilatar, produzir leite… o que leva a trabalhos de parto que empacam, contrações que cessam, dilatações que recuam, leite que demora a descer… o que leva à ocitocina sintética, que não aparece na medida do que o corpo precisa ou pode compreender, o que leva a contrações muito mais intensas e à mais dor e, às vezes, até a um sofrimento por parte do bebê… o que leva ao medo e o medo é um dos elementos mais importantes para fazer um parto parar, desandar ou acontecer de maneira sofrida e dolorosa. Ainda, anestesiada de mais da metade do seu corpo, parir será apenas na posição ginecológica, porque não há como mudar de posição sem sentir as pernas. E essa posição não facilita muito a descida do bebê… o que leva a mais dificuldades no expulsivo, o que implica em fazer mais força, o que justifica muitas vezes aquela abominação que é alguém subir na sua barriga e empurrar por você, o que significa um bebê sendo empurrado com força demais, o que significa lacerações maiores no períneo… o que justifica outra aberração que é fazer episiotomia e cortar camadas e mais camadas sob o pretexto de que isso vai doer menos e cicatrizar melhor do que uma laceração… Bom, acho que deu para entender que uma coisa puxa a outra e que quando menos se espera a gente se vê arrastado em um mecanismo do qual não consegue mais se livrar. Então, por que começar?
  • Conhecendo ao máximo o próprio corpo e aprendendo como ele funciona e quais são os métodos de alívio da dor não medicamentosos. Tenho a sorte de ter feito dança durante quase toda a minha vida, o que fez com que eu adquirisse uma boa noção de como o meu corpo funciona. Não apenas a fisiologia do parto, saber como acontece na prática para um bebê nascer mas, também, poder entender como encontrar boas posições, como bascular a bacia para frente para alinhar o corpo de modo a facilitar a saída do bebê, como variar posições de maneira confortável e, principalmente, como respirar. Respirar – como muitas vezes aprendemos em cursos de yoga – é a base para manter o equilíbrio e a tranquilidade ao longo de todo o parto. Ao menos, foi para mim. Nesse sentido, foi super importante um curso que fiz aqui de preparação para o parto, que todas as grávidas fazem, e que foi dado por uma sage-femme especialista em sofrologia. Não encontrei nenhum equivalente disso no Brasil, mas se trata de uma técnica de respiração que, no que diz respeito à gravidez, te ensina a respirar mais ou menos no mesmo ritmo das contrações. Quando elas começam você solta o ar o máximo que puder, bem devagar, como se tivesse uma vela acesa na sua frente que não pudesse apagar. E expira assim tanto quanto consiga, depois inspira. Essa expiração dura quase o mesmo tempo de contração e juntando isso com a báscula da bacia para frente, o alívio é imenso. Funciona. Eu sei porque o único momento em que senti mais dor foi durante algumas contrações que eu parei de respirar desse modo, comecei a ofegar, comecei a sentir mais dor, o que me fez ofegar mais e foi muito difícil. A ponto de eu pensar que não daria conta. O que me leva à mais uma coisa importante.
  • Relaxar é fundamental. Parece um contra-senso dizer que é preciso ou possível relaxar. Mas eu percebi que é. Entre uma contração e outra tem gente que até dorme. Até mesmo durante as contrações é possível e necessário relaxar. Quero dizer: quando sentimos dor, nossa tendência é contrair todos os músculos para nos protegermos. Só que essa tensão faz doer muito mais, qualquer um que passe muito tempo numa posição ruim ou com o corpo todo tenso por conta do frio sabe disso. Tudo trava, tudo dói. Agora imagina esse corpo todo rígido na hora do parto. Não dá para achar posição, não dá para respirar, tudo vira desconforto. Nesse curso de preparação ao parto do qual falei, a sage-femme falava muito sobre esse relaxar como uma espécie de entrega, como uma aceitação sua daquilo que está acontecendo com o seu corpo. Ou seja, ao invés de lutar contra e ficar brigando com contrações contraindo mais ainda outros músculos, o negócio é deixar que elas aconteçam. E, para isso, um dos grandes aliados, no meu caso, foi uma banheira cheia de água quentinha. Aqui na França não se pode parir na água pelo risco de infecções e afins (como se fazer mãe e bebê passarem 4 dias em ambiente hospitalar após o parto, obrigatoriamente, não fosse arriscar imensamente todo tipo de infecção hospitalar)… enfim, não se pode parir na água mas se pode ficar na banheira, ou embaixo do chuveiro. E isso, aliado à respiração e aos movimentos da bacia traz um alívio e um relaxamento grandes.
  • Poder fraquejar. Pois sempre tem um momento em que a gente pensa em desistir. Já ouvi mais de uma mulher falar a respeito. E o curioso é que esse momento anuncia que está próximo de acabar. Por isso é bom saber que ele existe e que ele chega, pois com ele chega também o final do parto. Talvez seja um misto de cansaço com medo do desconhecido com espanto por tudo aquilo que está acontecendo. Nessa hora do “não vou dar conta”, ajuda se conseguimos relaxar, respirar, sabendo que teríamos esse tipo de dúvida. Se houverem pessoas em volta que possam nos tranquilizar também quanto a isso, mostrando que estamos dando conta sim, ajuda e muito. Mas fraquejar, é importante que se saiba, não é falhar… o que me leva a um outro aprendizado importante que é…
  • Reconhecer os seus limites. No fim das contas, penso que o parto é uma profunda negociação entre você e você mesma, assim como entre você e o seu bebê. Se passamos a gravidez todas às voltas com medos, inseguranças, reflexões e toda espécie de fantasma que nos ronda a barriga redonda, vindos de nós mesmas e dos outros, acho que é na hora do parto que a gente descobre se vai dar para negociar com tudo isso ou não. Do que estou falando? De desejo. Desejo, para uma psicanalista como eu, não é aquilo que a gente diz que quer, mas aquilo que atravessa a gente como um verdadeiro querer que se impõe, às vezes até de maneira oposta ao que pensávamos que queríamos. Sabe aquela história de dizer que quer uma coisa e fazer justamente o contrário? Então… desejo. Desejo é aquilo que suas ações dizem, é aquele querer que tem tanta força que consegue virar ação. Porque sabemos o quanto é difícil agir na vida e o quanto é fácil falar. Pois é, o desejo dá testemunho daquilo que realmente queremos naquilo que conseguimos fazer. Então isso significa que se eu não tiver o parto natural que digo querer, é sinal que eu não queria? Não necessariamente. Porque existe o nosso desejo e existem os outros e as circunstâncias e entre nosso desejo e sua realização existe um muro de ideologias, de jogos de poder e de violência obstétrica que podem jogar todo o esforço na lata do lixo em dois segundos. Mas se tem algo que eu aprendi com a gravidez e com o parto é que, se não temos como controlar quase nada, nem em nós mesmos, nem nos outros, podemos ao menos fazer a nossa parte de trabalho para tentar ao máximo, naquilo que nos diz respeito, encontrar a maior coerência possível entre nosso desejo, nosso corpo e nossas ações. Se tivermos ao menos isso, tenho a impressão que metade do caminho está feita.
  • Cuidando da cabeça. Do mesmo jeito que décadas de dança me deram uma boa noção a respeito de meu corpo que muito me serviu na hora do parto, mais de uma década de análise também muito me ajudou nessa hora. Isso quer dizer que eu estava zerada, sem nenhum senão, sem nenhum porém? Imagina, tinha um monte de fantasmas na minha cabeça e eu passei a gravidez inteira trabalhando duro comigo mesma para cuidar deles. Isso não significa que a gente chega no parto resolvida, e nem que apenas quem está resolvida chega em um parto natural. Isso significa que saber do próprio corpo funciona tanto quanto saber daquilo que te assombra, justamente porque tudo isso vai contigo para a sala de parto. E é bom saber quem está na sala. Eu tinha muitos medos. Pânico de algo acontecer e eu perder a minha filha. Cheguei a sonhar com isso, que paria sozinha e que ela caia no chão, pois eu não conseguia ampará-la. Quer desamparo maior? O que penso que me ajudou foi ter uma idéia do que me assombrava, não jogar para debaixo do tapete e não ficar no deixa disso, achando que não pensar resolveria as coisas para mim. E saber que esse reconhecimento dos meus medos não me paralisava, nem me impedia de agir mas, ao contrário, me ajudava justamente a mobilizar forças para fazer aquilo que eu julgava importante.

Tive a sorte de uma gravidez tranquila. Mas não foi sorte apenas, e sim um esforço ativo em me afastar de tudo o que me parecia ir contra a possibilidade de viver a gravidez e o parto como acontecimentos naturais, humanos, para o qual estamos, no fundo de nós mesmas, preparadas. Não apenas procurando o melhor lugar possível para minha filha nascer, como tentando me cercar de uma rede de apoio – no meu caso, virtual – que pudesse fazer as vezes daquela voz amiga que precisamos em tantos momentos. Da bolsa que estourou ao nascimento dela, foram quatro horas e meia de trabalho de parto. Um parto rápido, muito rápido para um primeiro filho. Mas aprendi que partos são tão mais fáceis e mais rápidos na medida em que as condições em torno de você são mais propícias e acolhedoras. E na medida em que você seja o mais coerente possível com você mesma. Ou seja, quanto menos você tiver que brigar com você mesma na hora e quanto menos ameaçada você se sinta pelo que te cerca, mais a coisa será fluida. Respirar, movimentar-se, banho quente, tudo isso me fez perceber que eu estava dando conta, de que estava sendo possível, também para mim, parir. Depois de um intervalo de geração, lá estava eu pensando na minha avó que, como eu, tinha vivido tudo aquilo. Cada momento dessa experiência me deixava mais segura para continuar. Não contei com tanto apoio quanto gostaria mas – isso também é importante – quem estava em volta não atrapalhou. E por vezes é tudo de que precisamos, que não nos atrapalhem e nos deixem sossegadas.

Doeu? Sim. Mas muito menos do que eu imaginava e muito menos do que alardeiam por aí. É uma dor totalmente manejável a das contrações e sigo dizendo que não acho que o expulsivo doa. Primeiro porque é como uma grande caimbra, um esforço muscular imenso. Quer dizer, é esforço, não dor. Segundo porque, nessa hora, estamos em algum outro lugar e felizmente já não pensamos mais, apenas deixamos o corpo agir. Não é um sofrimento parir. Nem para você e muito menos para o bebê, que é massageado e levado ao caminho do lado de fora, para entrar nesse mundo e para, finalmente, poderem se olhar nos olhos. Te digo que é uma emoção incomparável.

E aqui vale mais uma observação. Dizem que o protagonismo do parto é da mulher. Concordo. Mas acrescentaria: é da mulher e do bebê. Precisam dois para fazer acontecer. Conversei muito com minha filha durante a gravidez. Não tenho como saber o que ficou disso, nem como foi absorvido, mas eu sabia que ela estava lá e que podia me escutar então, na medida em que ela mexia, eu falava. E entre nossos muitos papos, especialmente no final, eu explicava para ela mais ou menos como é que as coisas aconteceriam. Também não sei o quanto isso ajudou, mas tenho a lembrança de que estávamos bem sintonizadas. E ela nasceu muito calma. Sem choro, sem agitação, sem sobressalto.

O bebê não é parido, ele nasce. Ele faz uma porção de coisas enquanto estamos fazendo nosso trabalho. Ele amadurece os pulmões e envia os sinais de que está pronto, ele desce para o canal vaginal na medida em que as contrações o ajudam. Ele sai, abre os olhos, respira, olha em volta. Minha filha veio para os meus braços e ficou pousada na minha barriga por um tempo. Do lado de fora. Respirando e se recuperando daquele trabalho todo, que era o mesmo que eu fazia. Depois foi examinada na presença do pai e voltou para meu colo, onde ficamos boas horas, ela descobrindo o mamar e eu descobrindo ela. Não pensei tanto a respeito das intervenções sobre ela quanto pensei no que aconteceria comigo. E isso é algo que muitas fazemos, tanto temos que lutar para ter um parto digno que não dá tempo de pensar em como proteger também nosso bebê logo que ele sai do ventre. Uma ou duas coisas desse pós parto eu mudaria ou tentaria evitar. Não sabia na época sobre o colírio desnecessário, por exemplo. E ela teve que fazer um exame dois dias depois que, hoje, eu teria recusado. Então, se você já topou toda essa trabalheira que é parir, aproveite para dedicar um tanto do seu esforço para pensar e tentar preparar também o melhor possível o modo como seu bebê será acolhido.

 

Se fosse parir novamente, iria ao hospital ainda mais tarde do que fui, quase no expulsivo. Ou então teria em casa, no melhor estilo: “puxa, não deu tempo!”. Para burlar o jeito como as coisas são feitas por aqui, com a segurança de que saberia muito bem parir uma criança. Somos nós mesmas que temos que encontrar as brechas desse sistema e fazer valer nossa possibilidade de vivermos o parto de maneira digna e humana. E, prazerosa. Porque parir, e isso pouca gente diz, é muito bom. Tenho uma grande amiga que diz – e eu concordo – que se pudesse paria umas dez vezes. Outra história é ter que criar dez depois. Putz!

Volto amanhã com algumas leituras que muito me ajudaram durante gravidez e parto ou que descobri depois, mas que vão de encontro com tudo o que escrevi por aqui.

Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

Parto da barriga

Ela foi dormir, ela e a barriga sapeca, que insistia em se alongar em formatos estranhos, dando ainda bundadas e chutinhos, mesmo estando há alguns dias mais baixa. As contrações desde a sexta-feira eram mais dolorosas, mas irregulares e esporádicas. Ela foi dormir com a barriga grande, pesada, aquela que aprendeu a amar e acariciar durante nove meses, a barriga com a qual conversou ao longo de muitos dias e noites, algumas tantas insones. A barriga que se transformou pouco a pouco até parecer que sempre esteve ali, como se nunca houvesse sido diferente. A gente se acostuma com os saltos, com os sobressaltos, com essa presença de um outro tão perto, com esse conhecer intimamente sem ver…

Uma noite como qualquer outra das mais recentes.

Às seis horas da manhã ela acorda de um susto e de uma sensação, como quem perde o ar. Ela sabe, mas mesmo assim levanta da cama e confirma: a água escorre com ela até o banheiro, trilhando um caminho que a faz sorrir. E, então, ela fica extremamente calma. Sente uma alegria profunda e silenciosa. Acorda ele que, também calmo e um pouco atordoado, tenta secar o rastro às custas de todos os Kleenex da casa. Surpresas esperadas tornam as pessoas engraçadas em suas ações.

Eles avisam a mãe dela, que chegou de longa viagem na véspera. E que se alarma no fuso horário confuso, enquanto eles tranquilamente comem algo e se preparam, jogando as últimas coisas na mala. As pessoas dizem e repetem: rompeu a bolsa, saia correndo para o hospital. Correr para que? Não se trata de uma maratona, nem de se jogar às pressas nas mãos dos experts para que eles cuidem de tudo… Não, ela e a barriga têm outros planos: nascer e fazer nascer uma bebê e sua mamãe.

Da porta ao carro, do carro à maternidade, é a última vez que fazem aquele caminho daquela maneira. Aquele caminho que não mais a reconhece e para o qual ela olha com olhos inéditos, olhos de desconhecido, de silêncio e de calma.

Na maternidade, um primeiro exame: contrações ainda fracas, subir para o quarto e aguardar um novo exame no final da manhã. Sobem ela, a barriga, ele e a mãe dela. Ele sai para voltar dali a uma hora, ela se instala aguardando um longo dia de trabalho de parto.

Uma hora depois, as contrações aumentaram muito em intensidade. Aquelas que começaram pela manhã com a ruptura da bolsa não eram tão doloridas. Ou talvez seja o intervalo entre elas que diminuiu para cerca de dois minutos o que as torna mais intensas. Ela não sabe ao certo, apenas busca respirar profundamente, mudar de posição, bascular a bacia… Pensa no curso de sofrologia que fez ao longo dos últimos meses e que a ajuda agora com isso. Pensa que o objetivo dessas contrações é preparar o útero para ajudar a pequena a sair. Pensa que cada contração aproxima mais o encontro entre elas, entre eles todos. Pensar como uma forma de se reassegurar que esse é o bom caminho. Ela luta um pouco contra si mesma, insiste em que é pensando que vai gerenciar o seu corpo que agora corre solto à sua revelia, ela que sempre dançou a vida inteira e que orgulhosamente sempre soube o alcance de cada gesto seu… Nessa uma hora depois ela percebe que seu corpo age e que ela pode brigar para manter as rédeas ou pode confiar e se deixar levar. No final das contas, essa é uma falsa questão de escolha, porque quem vai levar o jogo é ele, isso é certo. Naquilo que é vital, apenas o nosso corpo sabe o que fazer. Só ele tem a resposta, só ele sabe para onde ir, então é melhor confiar e se abandonar. Constatações desse corpo que rege a cada dois minutos…

A enfermeira aparece para levá-la novamente à sala de parto. Seu útero já se modificou muito, 1 cm de dilatação, ela vai para a banheira de água quentinha que sua mãe prepara, todos ainda aguardando muitas e boas horas de trabalho pela frente. 1 cm por hora, é o que dizem. Ainda mais para um primeiro.

Ele chega. Ela, na banheira, aliviada pelo calor da água, respira em silêncio. Não quer falar, os olho semi-abertos, apenas sensações. Sensações que escapam, que restam, que invadem… Sem pensamentos, apenas estar presente ali e viver tudo aquilo.

Outra hora e meia e aquilo que eram contrações vira outra coisa. Não se trata mais de dor, não é dor que ela sente, apenas uma força descomunal que começa a tomar conta do corpo dela a cada contração. Ela decide que tem que sair dali e se alongar em algum lugar. Ele a ajuda, olhando bonito aquilo que ela vive. Ora segura sua mão, ora lhe massageia as costas, ora partilha seu silêncio… ele espera o tempo passar lentamente. Um tempo em suspenso.

Apenas alongada e a enfermeira obstétrica constata com espanto a dilatação completa. Sai para chamar a equipe e se preparar, mas ela e a barriga já encontram-se em outro plano. Aquela força muscular sobrenatural faz tremer as pernas, faz gritar de dentro da alma… Duas… ela sente a pequena que se aproxima e a faz queimar… Três… Quatro… Ele diz: “estou vendo muitos cabelos pretos”.

A equipe mal tem tempo de entrar na sala e pegar desajeitadamente a bebê que sai por sua própria vontade, no seu tempo. Sai um ombro, sai outro, alguém dia a ela que pegue sua bebê. Ela a pega pelos ombros e traz para a barriga. O lado de fora da barriga de onde ela acaba de sair. Os olhos semi-fechados, ela não consegue acreditar na pequena ali, na sua frente. Ela olha para a bebê, ela olha para ele, ele olha para a bebê, eles se amam, eles a amam… assim… sem dor e com tanta força.

Ele corta o cordão. A pequena acaba de partir da barriga para o mundo. E o melhor é cuidá-la e amá-la para que ela tenha o melhor possível em seu mundo. Ela é cuidada e examinada ali mesmo e volta para os braços dela.

A pequena fica aninhada nos seus braços. Ela mama, ela olha para a mamãe e para o papai. Ela vai para os braços do papai. Ele a veste. Ela olha tudo em sua volta… então é isso? Então são vocês? Então, eis você! Talvez ela estivesse tão curiosa quanto eles por esse encontro, encontro de quem já se conhecia há tantos meses, encontro de quem, desde que chegou, pareceu ter estado sempre ali. Uma evidência.

5 horas e 22 minutos de um trabalho conjunto para vir ao mundo. 5 horas e 22 minutos de uma experiência inatingível para as palavras. 5 horas e 22 minutos para mudar uma barriga em mãe. Uma barriga em bebê. Um homem em pai. 5 horas e 22 minutos de respeito, de escuta, de amor e de coerência com a vida. Com o melhor da vida.

Bem vinda, pequena. Estamos aqui, presentes e em festa para você.

O que não me contaram sobre a gravidez

Uma comadre da blogosfera materna, a Carol do Meu Parasita Querido, postou sobre o tema ontem e eu gostei da idéia de fazer uma lista dessas. Aí vão as minhas 15 descobertas, com um toque de humor e outro de mau humor:

  1. Ninguém me disse que logo que você engravida você começa a sentir um cansaço monstruoso. De férias no Brasil, eu achava que tinha me desacostumado do calor, do verão, do feijão com arroz, de tanto que só conseguia pensar em dormir. E isso dura ao menos pelos três primeiros meses, quando você consegue dormir até em pé ao lado da caixa de som da boate com seu dj preferido tocando techno. Não que tenha acontecido comigo, mas… 
  2. Também não me falaram que enjôo de grávida não é como naqueles dias em que você come um pastel na feira e fica meio virada depois. Não, enjôo de grávida começa de manhã, vira azia depois que você toma o café da manhã, volta a virar enjôo depois que você consegue digerir tudo o que comeu, volta a virar azia depois do almoço, quando você comeu para tentar debelar o enjôo, e vira enjôo depois que o almoço arruma um lugar no seu corpinho combalido, e azia depois do jantar. E assim por diante. Incessantemente. Por ao menos três meses. Vai ver é por isso que se dorme tanto. Afinal, o que dá para fazer além de dormir estando tão enjoada assim?
  3. Ninguém me disse que desejo de grávida podia não fazer parte do programa. Passei todo esse tempo esperando ter alguma vontade enlouquecida de algo extremamente bizarro. Nada. Nadica de nada. Fora o dia em que devorei um pacote de Haribo (umas balas de criança que existem aqui na França e que foram o mais perto de bala de goma que consegui chegar). Mas não sei se isso conta, já que não envolveu misturas esdrúxulas, nem ninguém saindo de madrugada para tentar achar um mercado aberto. Putz, que frustrante!
  4. Ah, também não estava sabendo que gravidez dá tanto o que pensar. Antes do bebê nascer, você já deu a volta ao mundo mil vezes, tanto para o passado, revendo sua vida, suas escolhas, suas relações, sua família, quanto para o futuro, tentando imaginar o que e como fazer. Entender de onde veio, buscar projetar um futuro. Além de dormir – e mesmo dormindo e sonhando – acho que é esse o trabalho que mais nos ocupa cotidianamente.
  5. E, na categoria pensar, não imaginava que gravidez também desse tanto o que pensar sobre ela mesma. Não apenas passado e futuro, mas o presente vira questão. Tem gente que se deixa levar e vai vivendo, mas para mim tem sido a revolução cotidiana de pensar como viver essa gravidez, como cuidar dela, como ser ativa frente a essa experiência, tomando minhas decisões sobre a gestação e o parto da maneira mais consciente possível. Gravidez vivida, onde se batalha por um certo tipo de cuidado, por um certo tipo de acompanhamento e por um certo tipo de parto. Que trabalheira! E quanta responsabilidade ao perceber que é preciso tomar decisões e que não dá para se alienar e se abandonar nas mãos de ninguém quando o assunto é esse. Sob pena de acabar vivendo uma gestação e um parto que estejam muito distantes daquilo que você julgue humano. E como é trabalho com prazo limitado, a gente sai correndo atrás de informação, de alternativas, de lugares, referências e pessoas para tentar criar as melhores condições possíveis. Definitivamente, dá para entender por que é preciso dormir tanto e pensar tanto, né?
  6. Outra da categoria pensar é que ninguém te conta que, entre tantos pensamentos, revisões de vida, projetos de futuro e afins, há também um bocado de angústia, um monte de dúvidas, vários momentos de solidão e tristeza em que não se fala com ninguém. Todo mundo do lado de fora vivendo o clichê de que a gravidez é uma maravilha e te cobrando estar em estado de graça permamente. E você enjoada, com sono, pensativa, sem saber se é o melhor mesmo, com medo de que algo aconteça e você perca o bebê, com medo de ter o bebê, com medo de tanta coisa que parece que uma nuvem negra navega sobre a sua cabeça 24 horas por dia. E tendo pesadelos à noite, para completar. Tendo momentos em que lamenta estar grávida e pensa que vai perder muita coisa. E tendo momentos de culpa avassaladora por pensar nisso e não viver “como todo mundo”, achando tudo uma maravilha. Acho que uma grávida é uma pessoa dilacerada por dentro entre aquilo que dizem e cobram que ela viva – inclusive quem já passou por isso e até ela mesma – e aquilo que ela realmente vive e guarda lá dentro do coraçãozinho. Mesmo que não seja nada tão negro e obscuro assim, qualquer senão já é motivo para culpa, vergonha e autocrítica. Ah, vale dormir mais um pouco para tentar escapar dessa…
  7. Outra coisa que não sabia é que entre sono, pensamentos e ações cotidianas para dar conta de viver bem uma gravidez e o nascimento do bebê, o seu tempo fica totalmente tomado por isso. Você vira um monotema, sua cabeça vira um monotema e não é fácil desligar e fazer outras coisas. Trabalho, marido, amigos… onde? Como? Nossa, é um esforço hercúleo para se manter conectada e não se fechar totalmente. Mas você acaba se encasulando, ficando mais quietinha e na sua do que antes. A não ser quando encontra outras grávidas que querem falar das mesmas coisas que você. Daí é o paraíso e faltam horas no relógio para o tanto que se pode matraquear…
  8. Ninguém me preveniu, também, que quando a gente engravida fica meio burrinha. Não, meio desligada. Quer dizer, é tanta coisa passando na cabeça – como vocês podem constatar pelo começo dessa lista – e mais uma revolução de hormônios igualmente gigantesca, que o cérebro fica a ponto de dar bug. Não funciona direito. O meu, pelo menos, funciona bem mal e porcamente para tudo o que não seja relativo à gestação. Hehehe, é uma lerdeza seletiva, confesso. Mas o pior é que acontece. (Perguntem à minha manicure, ela certamente terá vários relatos de diálogos impossíveis para contar… putz). Esquecer coisas que acabaram de me falar é praxe. Esquecer, aliás, virou parte da vida. Confundir, então, nem se fala. Pessoas, horários, compromissos… Dar foras. Quem está ao redor já acostumou e espera pela próxima gafe ansiosamente. Eu espero apenas que meu sorriso amarelo e minha frase: “desculpe, sabe como grávida é distraída, né?” continue angariando a simpatia de todos com quem tenho tido que lidar ultimamente.
  9. Ah, e essa história de revolução hormonal, então? Por que é que ninguém diz que é mais ou menos como uma TPM que dura nove meses e que é elevada à milésima potência? Não, você não fica instável emocionalmente, você vira uma mistura de Darth Vader com Felícia (sim, gente, aquela do Pernalonga, que adora gatinhos). Você ama, você chora, você se emociona com tudo. Você quer engolir de tanto amor. Mas quando se irrita, não é uma irritaçãozinha não. Você tem vontade de matar alguém. Tirem as crianças da sala! Ai de quem for inconsequente o bastante para provocar uma grávida. Nós nos tornamos máquinas de respostas atravessadas (finalmente!) e de olhares fulminantes. Não, uma grávida furiosa é como o Godzilla, melhor ficar de sobreaviso e ser bem bonzinho por 9 meses, ouviu?
  10. Pior é que ninguém diz também que, mesmo uma grávida sendo esse ser em permanente estado de pré-explosão, isso não evita que a maior parte das pessoas encha o saco sempre que puderem. Os palpites… ai, os palpites. É tanta gente com tanto palpite e tanta vontade de botar a mão na sua barriga e te dizer o que fazer, que acabo acreditando que nós, grávidas, somos na verdade umas santas dignas de canonização imediata. A gente consegue gerenciar os pensamentos, as angústias, os cuidados com a gravidez, as decisões sobre a vida e a panela de pressão de hormônios sem estapear ninguém e ainda tem que aguentar os palpiteiros? Deve ser algum tipo de karma que cai automaticamente na conta de cada mulher assim que o teste de farmácia aparece positivo, não?
  11. Outra que não me disseram é que sentir o bebê mexer dentro da barriga é tão, mas tão emocionante. Já escrevi a esse respeito mil vezes e acho que nunca vou cansar de escrever. Porque, sim, todo mundo sabe que o bebê mexe, mas por que ninguém conta que é interativo? Bebê responde, chega perto da mão que acaricia a barriga, dá chute quando você vira do lado e aperta alguma parte da pança em que ele tinha se ajeitado, responde ao papai, responde à mamãe e, sapequice das sapequices, para tudo cada vez que você pega o telefone para tentar filmar as acrobacias. É ou não é incrível experimentar algo assim?
  12. Ah, ninguém te avisa também que verão e gravidez não combinam. Ainda mais se for o final da gravidez. Calor escaldante e mulher grávida, pesada, andando com dificuldade e tendo que dar conta de mil e uma tarefas antes do nascimento do bebê é pedir para o Godzilla dar as caras, minha gente. Não é humano isso não.
  13. Outra que ninguém diz: andar com uma melanciazinha na barriga é difícil. Cansa rápido se você fica em pé, e sentada ou deitada é quase milagre encontrar posição. Levantar é uma tarefa bem engraçada, que pode durar uns 10 minutos. E abaixar para pegar algo que caiu no chão… bem… para que, né? Nem está atrapalhando ou sujando tanto assim. A única hora em que você se encontra minimamente com alguma desenvoltura corporal é quando nada. Daí o peso some e você se sente novamente bailarina, podendo saltitar pela piscina como se pesasse poucos quilos… Maravilha!
  14. Essa ninguém diz mas todo mundo sabe. Acho que é um silêncio solidário, porque, convenhamos, roupa de grávida é muito feia, vai?! Eu uso bem contente de que existam calças e shorts com elástico que sirvam em mim. Mas, putz! Sair vestida de barril o tempo todo não ajuda muito na auto-estima não. Ou você consegue estar muito bem com as mudanças do seu corpo, se sentindo poderosa, bonita e orgulhosa da sua barriga, ou acaba passando ao menos a parte final da gravidez escondida dentro de casa, deixando o marido se aproximar apenas de noite, com a luz apagada. Bônus extra que descobri com essa crise fashion: vestidinhos. Vestidinhos de não grávida em corte envelope, por exemplo, são muito dignos e vestem super bem. Nessas horas, tive que agradecer o verão, estão vendo como a gente é paradoxal?
  15. E a última da minha lista de coisas que não me disseram sobre a gravidez é que, mesmo antes de acabar, dá aquela vontadezinha de começar tudo de novo. Putz!

 

Amamente!

(en français)

Essa é a Semana Mundial da Amamentação. Aqui na França, as mulheres têm uma relação bem estranha com o amamentar e a maioria escolhe não fazê-lo, pelos motivos os mais variados. Acho paradoxal como em um país onde o parto normal é a regra, amamentar seu bebê possa parecer algo tão extraordinário. Parece, para mim, um análogo do que é a cesariana no Brasil, que ganhou uma máscara de escolha da mulher, quando não se trata disso. Amamentar, mais aqui do que aí, parece descolado da maternidade, uma opção em que questões como peitos flácidos e caídos (oi?) ou uma certa repulsa a um ato considerado como mais animal e, por vezes, até degradante para a mulher (!!!) engrossam o caldo cultural que faz com que a maioria, nos cursos de preparação ao longo da gestação, estejam mais interessadas em saber qual mamadeira comprar e qual marca de leite dar. Triste. Tanto que existem campanhas muito fortes de amamentação nas maternidades daqui.

Penso que amamentar faz parte da maternidade. Assim como gestar e parir. São coisas que não deveriam acontecer quando existe um real impedimento para as mesmas. Não são escolhas, ou melhor, são escolhas que são assumidas no exato momento em que aquela mulher decide ter um bebê. Ter um bebê implica certas consequências, como gestar (se não for o caso de uma adoção mas, ainda assim, há um gestar da mãe adotiva também), parir, amamentar. Ou seja, ter um bebê implica um compromisso e uma boa dose de dedicação. Não dá para ter filhos e seguir a vida sem mudar nada. Isso, a meu ver, não é ter filhos. É apenas seguir o “vai da valsa”, como se fosse algo obrigatório a se viver… uma decisão padrão que tem muito de padrão e pouco de decisão. Ou, pior ainda, um gesto de consumo: viajar, comprar casa, apartamento, ter cachorro, ter filhos… tudo na mesma lógica de consumo, tudo no mesmo balaio. Nisso, perde-se o pé e deixa-se de lado o fato de que existe ali um outro, uma pessoa, um ser humano que não é produto de consumo, mas alguém que precisa de cuidado, amor e carinho. Que sentido faz ter filhos sem muita implicação com esse outro que está ali e depende de quem o cria para viver e, mais ainda, para viver com alegria, dignidade e tranquilidade? Que sentido faz ter filhos sem assumir as consequências, as mudanças e as implicações desse ato? Não compreendo essa distorção tão presente em nosso tempo e em nossa cultura. Ou melhor, compreendo que ela é fruto de nossa ideologia de consumo atual. Mas não aceito.

Enfim, tudo isso para dizer que amamentar faz parte do projeto “ter filhos” e que penso que, no Brasil, estamos muito mais conscientes disso do que na França. Ainda bem!

Mas hoje, principalmente, quero deixar vocês com o excelente texto da Ligia do blog Cientista que virou mãe sobre a importância do apoio à amamentação por parte do marido, da família e dos próximos. Mãe parida é mulher que precisa de apoio, reconforto, ajuda e incentivo. Não palpite, crítica e desencorajamento, viu, minha gente? Leiam o texto, vale a pena.

Então, amamentem. E, quem está ao redor, cuide tão bem dessa mãe quanto dessa criança que acaba de chegar. A gente agradece.

*** Em tempo, encontrei recentemente um post antigo da Renata Penna no blog Mamíferas tratando do mesmo assunto, sob perspectiva bem semelhante àquela que discuto aqui. A amamentação como um dever que faz parte do pacote da escolha de ser mãe. Muito bem escrito. Vale a leitura!

Oito meses, barrigão e verão europeu…

… socorro! Fujam para as montanhas! Ou não, porque até nas montanhas o sol está de lascar. Ninguém deveria estar em final de gravidez em pleno verão. Ou ninguém em sã consciência. Mas queria o que, né? Fazer contas e calcular a melhor época do ano para ter o bebê, consultando a previsão do tempo, os astros, a programação cultural e a agenda dos movimentos sociais? Não, a vida não se calcula dessa maneira. Ainda bem. Sempre é bom constatar que existe lugar para o que foge ao controle, ao plano, ao pré-estabelecido. Não somos máquinas e a vida não segue o nosso script pré-formatado. Mas, putz!

Temperaturas acima dos 30°C + barrigão gigante = inchaço, cansaço, dificuldades mil. Como proceder?

Não sei, os miolos derreteram… Aliás, essa é uma das maravilhas da gravidez: os miolos derretem e você deixa de prestar atenção em uma porção de coisas. Bobas ou não. Especialmente no final, quando bate o cansaço e a cabeça se volta inteira para a expectativa frente aos próximos capítulos. Esquece o que te dizem antes de terminarem a frase. A tal da esquizofrenia da gravidez, da qual falei noutro post. Benção das bençãos.

Outra maravilha: a pequena decidiu virar atleta e faz alongamento toda hora na barriga. Tem horas em que acerta as costelas, tem horas em que amassa a bexiga, e noutras faz cócegas na cintura. Ok, ok, ela está se aperfeiçoando. Parece estranho, como uma cena qualquer daquele Alien que me aterrorizava tanto quanto a cara de terror da Sigourney Weaver mas, na verdade, é tão incrível! Sentir os movimentos de uma outra pessoa no seu corpo, movimentos alheios à sua vontade e completamente estrangeiros às possibilidades contidas nos seus movimentos, para alguém que fez todo o tipo de dança a vida inteira e que sempre prestou muita atenção àquilo que o corpo pode fazer, é algo da ordem do extraordinário. Extraterreno. Alien mesmo. É o momento em que a pequena dá sinais de vida e revela que, mesmo junto, já existe separada da mamãe e da barriga. Já tem lá sua singularidade, já faz seus gestos, já inventa suas coreografias, já procura seu espaço num barrigão que vai ficando pequeno para tanta vontade de ser, de existir, de se mover… Creio que, para mim, os movimentos da bebê e os momentos de encontro por meio da imagem do ultrasom foram os mais importantes para trazer realidade e corpo a essa pequena, tornando sua existência palpável, verdadeira, substancial. Um efeito colateral positivo da tecnologia, em um caso, uma das banalidades dessa experiência desde que o mundo é mundo e que mulheres engravidam, no outro. Dois extremos de um acontecimento que, hoje em dia, é permeado de natureza tanto quanto de técnica.

Ah, e não podemos nos esquecer do conversê, né? Falar com a barriga, aquilo que eu fazia de modo constrangido no começo, tornou-se a obviedade mais cotidiana desses meses. A bebê mexe, a gente conversa. Ou melhor, eu falo, ela faz sua dancinha. Pode ser no ônibus, no restaurante, na praia, no conforto do sofá. A gente se entende, naquele estado de loucura particular que é a gravidez, tão necessário para que a mãe e o bebê se conectem e que ela possa atender às necessidades do seu rebento, que vai depender tanto dela no início. Como diria o bom e velho Winnicott: existe uma loucura necessária à maternidade, que faz a mãe poder supor aquilo de que o bebê precisa. E entre essa aposta, os acertos e os erros, ela termina por compreender melhor esse bebê, assim como ele termina por saber comunicar melhor aquilo de que precisa. Conversa que começa assim, meio maluca, até que um consegue desvendar melhor o outro e um tanto de encontro entre esses dois diferentes se torna possível.

Junto com as maravilhas que fazem todo esse percurso ter momentos de muita alegria, emoção e deslumbramento – os movimentos, os papos, as imagens, o desencanar geral e até a conquista da possibilidade de dizer um dane-se e de fazer uma faxina em pessoas, projetos e valores que não contribuem mais em nada para a vida, – vem também a parte menos divertida: os temores de cada mês, de cada exame, de cada consulta, as ameaças de cada risco que médicos, leituras ou amigos da onça colocam na sua cabeça, o sobressalto com cada mudança, cada coisinha que acontece ou não acontece, os medos e inseguranças, o desconhecido, o peso que pesa no corpo e dificulta o movimento assim como o peso que pesa na alma e que traz a responsabilidade, a preocupação, o tentar antecipar e prever todos os perigos, a necessidade de proteger e cuidar, a busca de fazer o melhor. Inchaço, barriga grande, calor não são nada frente a tantas preocupações que decidem crescer na mesma proporção que o final da gravidez se aproxima e que você sabe que algo vai mudar, tudo vai mudar, em uma direção que você desconhece e para a qual nunca se preparou. Penso que não existe leitura que chegue, não existe preparação para o parto que dê conta, não existe curso que esclareça, não existe sonho que antecipe o que vem ali adiante, quando o barrigão virar bebê e a barriguda virar mãe.

Entre anseios, expectativas e risadas com pés nas costelas, o que resta é aproveitar o tempo. Esse tempo malemolente e arrastado de verão quente que deixa tudo lento, lesmento, gosmento, suado. Sol nos miolos dando ares de irrealidade ao tempo que passa, dando tempo ao tempo para que a pequena se prepare. E para que a mamãe se esqueça de tudo o que aprendeu e possa, enfim, viver o que só pode ser vivido.

As boas do dia.

Para engrossar o caldo da discussão, aqui vão alguns ótimos textos que encontrei recentemente e que ajudam a pensar a respeito desse embate entre parto normal e cesárea:

– o irônico post do Marco Antonio, depois do nascimento do bebê real ontem;

– o necessário e esclarecedor post da Melania Amorim sobre os reais motivos que demandam uma cesariana e a lista infindável de equívocos e desculpas esfarrapadas que promovem cirurgias desnecessárias;

– o também esclarecedor post do Eu quero parto normal, mostrando as indicações da OMS a respeito do que é recomendável ou não fazer, quais as boas e más condutas, do ponto de vista médico, a se tomar ao longo de um parto (e que os médicos ignoram, curiosamente);

– o excelente texto da Thaís Fernandes sobre os riscos da cesariana publicado pelo Instituto Ciência Hoje.

São apenas alguns em um caldo imenso de bons textos a respeito. Mas que valem à pena. Boa leitura!

 

Mas, sim, existe uma diferença.

Li hoje um dos excelentes posts da comadre de blogosfera, a Carol do Meu Parasita Querido, em que ela fala sobre parto. Vale a pena dar uma olhada.

O que achei curioso, e é algo que eu percebo cada vez que alguém escreve sobre parto natural, parto humanizado e defende como posição própria o direito de fazer essa escolha, é que sempre aparecem os comentários de pessoas que passaram por uma cesárea dizendo que não são menos mães por isso, que elas têm o direito de escolher e por aí vai. Como se a escolha de uma mulher pelo parto normal fosse uma crítica e um desmerecimento a quem fez uma cesariana. Mas aí eu me pergunto: por que será que para algumas pessoas a carapuça serve e elas se sentem atacadas assim?

Eu acho que é porque o simples fato de existirem pessoas que pensam diferente e defendem posições diferentes revela que, sim, existe mesmo uma diferença entre parto normal e cesárea. E que exista uma diferença e que isso faça com que outras mães escolham caminhos diferentes de uma cesariana, isso automaticamente parece colocar quem optou por isso para repensar suas decisões. Mesmo a contragosto.

Antes de ir adiante, é importante esclarecer que estou falando aqui das cesarianas desnecessárias, e não daquelas que existem e salvam vidas. Isso é óbvio. E também estou falando das pessoas que, frente à própria experiência com uma cesariana ou com a escolha de uma cesariana se incomodam quando alguém defende o parto normal. Isso também é óbvio. Porque tem um monte de gente que fez ou escolheu fazer uma cesariana e que está bem com isso. Maravilha. Então, estou me questionando sobre quem se sente diminuída por ter feito ou escolhido uma cesárea a cada vez que surge outra mãe defendendo o parto normal e humanizado, ok? Porque é isso que acho curioso. (Acho curioso quem não se questiona também, mas isso é vício de profissão e incapacidade de conceber que tem gente que consegue viver sem pensar a respeito do que faz com a própria vida… enfim…)

Ser mais ou menos mãe?

Quando as pessoas falam que são mãe igual, que argumento é esse? Mulheres adotam crianças e são mães dessas crianças. Assim como, por vezes, mulheres têm filhos e não são mães deles. Ser mãe é algo que se constrói na delicada, cotidiana e singular relação com cada filho, é um processo que pode começar na barriga, antes da barriga, depois da barriga… Enfim, pode começar, nem sempre começa, mas muitas vezes começa e para cada uma começa de um jeito diferente. Então, parto normal, cesariana, adoção ou sei lá quais outras maneiras de maternar se encontre ou se invente, não é o jeito como a criança veio ao mundo que te faz mãe ou não mãe. Mas, de todo modo, você não é mãe igual a ela porque, simplesmente, essa história de que mãe é tudo igual é uma balela sem tamanho. Mãe é tudo diferente. Tão diferente quanto existem pessoas diferentes nesse mundo.

Mesmo passando por tantas coisas semelhantes – afinal, não existem tantas questões existenciais assim para nós humanos e nem sofrimentos tão variados – acho fascinante como cada pessoa é capaz de criar uma solução única, um percurso singular, um mix, uma colagem, uma junção de tantas coisas para inventar o seu jeito de lidar com aquilo. E penso que é assim também com ser mãe: no geral, as coisas se passam mais ou menos do mesmo modo e os desafios são aqueles que se colocam para nós todas. Mas como é que cada uma inventa a si mesma e a seu jeito de maternar? Singularmente.

Então, você não é menos mãe ou mais mãe do que aquela mãe que defende o parto normal. Você é mãe diferente. E a escolha do modo como se coloca uma criança no mundo pode fazer parte dessa diferença. E isso não é um julgamento de valor, é a constatação da diferença. Por que isso ofende? Por que deveríamos todos passar pelas coisas da mesma maneira?

Eu penso que temos um medo imenso de tudo aquilo que foge à regra, à homogeneização das pessoas e de suas experiências que é tão típica dos nossos tempos. Saiu do padrão, já nos incomoda. Porque quando alguém sai do padrão, automaticamente bota em questão tudo aquilo que é considerado normal. Não é assim? A gente achava normal até uns tempos atrás matar uma mulher que traísse o marido e isso se chamava “legítima defesa da honra” e justificava assassinato. Até que alguém começou a pensar diferente, ou a se perguntar por que seria assim. E quando um pergunta, mesmo quem estava acomodado nessa situação anterior acaba tendo que se mexer. O diferente obriga a gente a pensar.

Talvez aconteça o mesmo em relação ao parto. Ironicamente, o parto que é chamado normal não tem mais nada de normal no Brasil. E isso não é porque descobriu-se que outro tipo de parto é melhor do que esse. Porque não é. E esse é um dos fatores que parece que incomodam tanto a tanta gente: para a grande maioria das mulheres e seus bebês, na imensa maioria dos casos, o melhor parto é o parto normal. Não existe nenhuma pesquisa que contradiga isso. E se os números de cesarianas só faz aumentar em nosso país, indo na contramão do que afirmam todas as pesquisas acerca do tema, é porque deve ter algo errado nisso, não?

Questão de escolha?

Aliás, é estranho demais que no Brasil a cesariana seja escolha e seja defendida como uma escolha, como se fosse um direito adquirido pela mulher. Você pode escolher ter parto normal ou cesariana? Como assim? Na grande maioria dos países, isso não é questão de escolha. Parto equivale a parto normal, com mais ou menos intervenções médicas, mais ou menos humanizados, mais ou menos respeitosos dos meios e das condições de cada mãe e de cada bebê. Cesariana não é nem chamada de parto, ela é uma intervenção médica de urgência quando um parto não é possível. Então, o que acontece que cesariana vira parto e vira escolha no Brasil? E isso serve para que? Será mesmo uma grande conquista e uma imensa vantagem a ponto de podermos nos vangloriar de “escolher” uma cesariana? Se fosse um procedimento assim, tão excelente que merecesse ser estendido para todas as situações em que não é necessário, acho que vários países do mundo estariam agora nos copiando e a OMS não nos criticaria tanto nesse ponto, não? Não sei não, mas acho que aí tem uma lógica bem perversa agindo e que nos impede de ver que nosso discurso defende uma posição que não se sustenta em praticamente nenhum outro lugar do mundo e em nenhuma outra época. E se, como indivíduos, estamos defendendo essa mesma posição e a nossa escolha por uma cesariana, será que não vale mesmo nenhuma reflexão a respeito?

Quando uma mulher defende publicamente o parto normal e humanizado, num país como o nosso, ela certamente deve ter percorrido um longo caminho para chegar até essa decisão. Justamente porque ela não tem mais nada de normal, justamente porque ela virou a exceção e não a regra. E essa pessoa passa a incomodar porque, possivelmente, ela pensou muito mais a respeito do que a imensa maioria das mulheres que seguem o fluxo da cesariana. Porque, sim, é mais fácil seguir o fluxo, não se questionar e deixar as coisas acontecerem, sendo guiada por alguém a quem você delega as decisões a respeito de você, do seu bebê e do seu parto. Não digo que é melhor ou pior. Mas é certamente mais fácil do que parar e pensar. Daí, quando chegam essas mulheres cheias de idéias, de informações e de alternativas, isso dá um chacoalhão e obriga à indagação: o que é que estou fazendo? Será que é realmente o melhor? Mas se eu for botar isso em questão agora, onde fico com  minhas decisões? Fico sem chão, fico sem referências, nem sei por onde começar… Pânico. Sofrimento. E ataque como resposta.

Penso que ignorar as diferenças é a melhor maneira de se isentar de pensar sobre as coisas. E de ter que se responsabilizar pelas escolhas que fazemos. E de ter o trabalho de agir a partir delas, assumindo-as ou mudando de rumo.

Então, sim, existe uma diferença. Um parto normal é diferente de uma cesariana que é diferente de uma adoção. Nenhuma dessas escolhas garante em nada que haverá uma mãe e um bebê depois. Nenhuma delas garante o que vem em seguida. Nenhuma delas diz de quem será mais ou menos mãe. Mas são escolhas diferentes e dentro de cada uma delas ainda existe uma imensidão de diferenças. E penso que, sim, infelizmente, nos dias de hoje, no Brasil, da forma como gravidez e parto são tratados, escolher uma cesariana é algo que merece muita reflexão. Muita. Sobre o que está sendo escolhido quando se decide por isso. Sobre o porque está sendo escolhido. Porque não é uma escolha inócua – como também não é uma escolha de parto normal – e vai trazer, sim, consequências para você, para seu filho, para a história de vocês. Você está ciente disso?

Isso é uma coisa ruim? Que suas escolhas tenham consequências na sua vida e na dos seus filhos? Espero que não porque, quaisquer que sejam elas, pelo que tenho aprendido e ouvido acerca da gravidez e da maternidade, ficamos para sempre assombradas com a dúvida sobre se fizemos mesmo o melhor. E essa interrogação não vai sair da sua cabeça se você atacar alguém que escolheu diferente de você. Em relação aos nossos fantasmas, só nos resta encará-los.