Gravidez na França… ainda

Ao longo da minha primeira gravidez, escrevi uma série de posts sobre como é estar grávida na França, abordando minhas descobertas dos meandros mais banais dessa experiência. De lá para cá, posso dizer que nada mudou em termos objetivos e práticos. Mas minha visão tornou-se muito mais crítica de como as coisas se dão por aqui. Então vamos a uma nova série das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil. Porque tem gente que pensa que é só luxo, poder e glamour pelas ruas de Paris. E que até cogita vir para cá parir seu rebentinho em terras charmosas do Velho Continente. Então, antes de fazer as malas, leve em conta o que se segue, tá?

Não entendo muito bem o porquê, mas parece existir algo da mentalidade francesa que tem a ver com uma irresistível atração por navegar contra a corrente. Basta algo de interessante existir noutro lugar que não na França para que se encontre a maior resistência em experimentá-lo por essas bandas. Como se os franceses tivessem que ser os inventores de tudo o que é bom, correto e digno de consideração nesse mundo. Naquilo que diz respeito à maternidade em geral, não é diferente. E é onde enxergo essa espécie de teimosia arrogante com mais força. Chega a ser exasperante conversar com a grande maioria dos franceses e, mais ainda, com os profissionais de saúde daqui sobre o assunto, tamanha é a recusa em se abrir para pensar e tamanhas são as certezas baseadas em clichês, em estereótipos e em informações ultrapassadas e questionáveis. Afffff, que fastio!

Senão vejamos. As recomendações da OMS para gravidez, parto, amamentação? Eles praticamente riem da sua cara. O que vale não é o que uma organização internacional de saúde propõe a partir de dados científicos recolhidos da maneira mais isenta possível e sempre atualizados. O que vale é o que propõem as instituições francesas, os conselhos de medicina, de ginecologia, de obstetrícia, de pediatria daqui. Patrocinados, claro, pela indústria farmacêutica, pela indústria de alimentos para a primeira infância e por outros atores poderosos dessa lógica que transforma saúde em mercado. O que vale é o que essas instituições dizem e não se vê quase nenhum questionamento sobre os interesses por trás daquilo que dizem.

Não interessa por aqui que todos os vizinhos da França que possuem índices melhores de todos os indicadores de saúde ligados à gravidez, parto, puerpério e amamentação tenham em comum algumas diretrizes como favorecer parto natural humanizado, diminuir drasticamente as intervenções durante o parto, diminuir drasticamente a medicalização da gravidez, o número de exames, o uso de ultrassom, favorecer parto domiciliar, desaconselhar ou abolir episiotomia, incentivar formas alternativas de controle da dor, privilegiar o parto com equipe paramedical, favorecer e incentivar a amamentação, desaconselhar o uso de mamadeira ou chupeta ou a prescrição de complemento por parte dos pediatras… Enfim, tudo isso que encontramos como pontos comuns no que diz respeito à maneira de acompanhar gravidez, parto e puerpério em países como o Reino Unido, a Holanda, a Suíça e a Alemanha são menosprezados pelos franceses. Por que eles saberiam mais ou fariam melhor do que nós, não? Doulas na França? Sim, se você fizer um parto domiciliar. Em meio hospitalar, é praticamente impossível, pois elas são consideradas as “inimigas n° 1” das enfermeiras obstétricas.

Como consequência, temos um país em que o incentivo ao parto normal não significa a favorização de um parto humanizado. Gravidez e parto são momentos extremamente medicalizados na França, cheios de intervenções, de mandos e desmandos sobre o corpo das mulheres e de muita violência obstétrica. Sim, por incrível que pareça, num país em que se diz respeitar muito o direito das mulheres, a violência obstétrica é assunto tabu, pouco nomeado e apenas recentemente tornado assunto de discussão e pesquisa, ainda bastante vinculado ao tema mais amplo da violência ginecológica, que pode acontecer ligada ou não às situações de gravidez e parto.

Nascer por aqui é nascer em meio hospitalar, com anestesia, em posição ginecológica, tendo pouco ou nenhum espaço para opinar sobre o que quer que seja. As sage-femmes (enfermeiras obstétricas) infelizmente adotam em sua maioria a postura intervencionista e ultramedicalizante do médico, optando por impor um mesmo esquema para toda e qualquer gestante, independente da sua singularidade. Justificativa? Nas grandes cidades e nos grandes centros hospitalares vocês atrapalha o andamento do trabalho quando quer “fazer diferente”. Ou, dito de outro modo: gravidez e parto devem desenrolar-se segundo o que facilita a vida de médicos, enfermeiras obstétricas e equipes, não segundo o que mãe e bebê precisam, podem ou gostariam. Você quer algo diferente? Prepare-se para o percurso do combatente.

Ainda que o parto humanizado tenha algum eco por aqui, encontrar opções de serviços um pouco mais abertos a um acompanhamento mais respeitoso e humano não é tarefa fácil. É necessário encontrar uma maternidade que tenha a opção de um parto humanizado. E elas são minoria. Existem um projeto de casas de parto que foi recentemente aprovado na França e alguns espaços-piloto que começam a funcionar. Mas, como no caso do parto domiciliar, as exigências são enormes e quase impeditivas para que a coisa avance no ritmo da necessidade e da demanda de um grupo crescente de mulheres.

Pior ainda, mesmo que o parto domiciliar exista e seja assegurado como direito das mulheres, tudo é feito para inviabilizar cada vez mais essa opção e para que ela deixe de existir. Para se ter uma idéia, as enfermeiras obstétricas que trabalham com parto domiciliar precisam, desde o começo dos anos 2000, pagar um seguro de um valor tão astronômico e desproporcional ao que elas ganham que muitas se vêem impedidas de continuar a exercer suas atividades por razões financeiras. Além disso, o que certamente acontece, do mesmo modo que em meio hospitalar, e a diferença estatisticamente nem é tão significativa e favorece o parto em casa – o que vemos é uma mídia que se inflama, processos que surgem, profissionais que são sumariamente condenadas a não mais exercerem sua profissão e todo um grupo de profissionais de saúde que quer o fim do parto domiciliar comemorando alegremente a extinção daquilo que eles dizem abertamente ser uma “aberração”, tendo em vista que temos tanta tecnologia hoje em dia para acompanhar, controlar e remediar qualquer imprevisto. Na França, contra todas as reflexões de ponta sobre o assunto e nadando ainda arrogantemente contra a maré, chegamos ao ápice da idéia de que gravidez e parto são territórios das intervenções médicas necessárias para controlar e corrigir um acontecimento que, deixado à própria sorte, só pode terminar mal. Como é que a humanidade sobreviveu até o surgimento da medicina e até o nascimento ter se tornado uma intercorrência médica, não? On se demande bien.

Não me parece que essas intervenções e usos tecnológicos tenham melhorado tanto assim os índices de intercorrências durante gravidez e parto aqui na França, assim como em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, a partir de um certo ponto, eles não funcionam mais para ajudar a diminuir intercorrências, nem mesmo a mortalidade materna ou infantil, como se têm visto no resultado de muitas pesquisas mundo afora. Servem justamente ao seu contrário. Veja essa pesquisa, por exemplo, em que o autor afirma textualmente que a mudança do local de nascimento para os hospitais e maternidades não o tornou mais seguro para mulheres que não apresentassem nenhuma condição médica pré-existente justificando tal indicação. Pelo contrário, diz o autor, as intervenções e a ênfase na tecnologia aumentaram consideravelmente o risco de intercorrências, inclusive de morte materna e neonatal.

Mas, quem é que vai processar o doutor que precisou extrair o bebê à fórceps de uma mulher que estava naquela posição ginecológica super apropriada para que um bebê que tem que descer precise fazer uma curva para cima na reta final, sendo obrigada a um puxo dirigido a cada vez que lhe diziam para fazê-lo, mesmo antes do bebê ter descido totalmente e os puxos espontâneos terem começado, não? Quem vai questionar o doutor? Ele salvou a pátria, o bebê não descia, não encaixava, ela é que era muito estreita, imagina se ele não estivesse lá. Ainda bem que essa mulher estava ali no hospital, hein? Que o bebê nasça mal e possa ter sequelas, que a mulher fique lacerada e traumatizada com a violência do parto, tudo isso parece uma consequência aceitável de algo que foi feito única e exclusivamente no melhor interesse de ambos. Ou não?

Pois então, se você engravidar na França e decidir ter o seu bebê aqui, posso te dizer com bastante segurança que há uma grande probabilidade de que seu acompanhamento da gravidez seja hipermedicalizado, que você se veja inserida em um esquema de muitos exames e que o seu parto – normal – seja cheio de intervenções. Uma decepção, sobretudo em um país que tem todas as condições de oferecer bem mais e bem melhor do que isso.

Segue abaixo uma lista não-exaustiva de links, sites e grupos para quem quiser se aventurar pelo maravilhoso mundo da “maternidade alternativa” na França:

  • Lista de sage-femmes (enfermeiras obstétricas) que ainda fazem parto domiciliar ou parto naquilo que chamam plateau technique, o que significa parto em meio hospitalar mas em condições humanizadas: aqui.
  • Recomendações da OMS para gravidez, parto puerpério e amamentação, em francês: aqui.
  • Grupos de apoio ao parto domiciliar na França: aqui, aqui e aqui.
  • Doulas de France: aqui.
  • Carta de direitos da pessoa hospitalizada na França, que garante seus direitos à informação, à decisão e à recusa de procedimentos: aqui.
  • Sinopse do recente documentário Entre leurs mains, que discute justamente essa hipermedicalização dos nascimentos na França e a caça às bruxas realizada contra o parto domiciliar: aqui
  • AFAR – Alliance francophone pour l’accouchement respecté: site aqui.

Dicas de compras…

… para grávidas que moram na França. Ou que passam por aqui de férias em período de gestação. Atendendo a pedidos, segue aqui em dois ou três posts uma pequena lista de descobertas úteis que fiz durante a gravidez.

Mas antes, dois personal disclaimers super importantes para você entender a tal lista.

Primeiro: este não é um post pago, eu não aceito e não recebo por divulgar nenhum produto aqui neste blog (sim, já me propuseram e, não, eu disse não) e qualquer indicação que você encontre neste post baseia-se apenas na minha experiência com o que tem dado certo por aqui, ok?

Segundo: gravidez e maternidade se tornaram uma mina de fazer dinheiro para uma indústria bem pouco escrupulosa em inventar milhões de necessidades que não existem. Eles querem te convencer de que você precisa de tudo aquilo que está nas listas e nas propagandas. E que toda aquela tralha é fundamental para você e seu rebento. Acredite: não é. E eu não tenho nenhuma vontade de incentivar o consumo pelo consumo ou o consumo superficial, porque não acho que isso leve a nada além do desperdício de dinheiro, de energia pessoal e de recursos do nosso planeta. Então, vou dividir essa lista em três partes: 1) como comprar na França e tirar o máximo proveito do seu dinheiro, 2) o que, nesse vasto mundo dos artigos para bebê, eu – pessoalmente – realmente utilizei e, 3) quais marcas e bom negócios encontrei por aqui.

Assim, sem mais delongas, a lista.

Como comprar:

  • Primeiro de tudo: aproveite as soldes. Aqui na França, as pessoas vêem aquilo que querem comprar nas lojas e esperam a liquidação para fazê-lo. Ninguém sai gastando rios de dinheiro sabendo que pode comprar mais barato dali a pouco tempo. As soldes são regulamentadas pelo governo (povo organizado é isso aí), sendo cinco semanas no inverno, começando na segunda quarta-feira do mês de janeiro e cinco semanas no verão, começando na última quarta-feira do mês de junho. Além disso, os comerciantes têm direito a fazer algumas outras soldes durante o ano, menores. Mas o conselho é: se puder, aproveite as liquidações, pois os preços compensam para a compra de qualquer tipo de produto.
  • Outra dica geral: aproveite as lojas de destockage, ou as lojas comuns que colocam em suas vitrines o anúncio de destockage que significa, basicamente, algo como “queima de estoque”. Também é um momento em que você pode encontrar excelentes ofertas. Fique atenta apenas para, caso pense em comprar coisas grandes, como móveis e afins, que na maior parte das vezes a destockage implica em que o cliente lev o produto. Veja com o vendedor se é possível fazer entrega, ou você corre o risco de ter que sair carregando a cômoda linda e barata do seu bebê nas costas pelo metrô afora.
  • Mais uma: aproveite os outlets. Não, aqui não é Miami e não existe um outlet em cada esquina. Mas até existem alguns. Um dos mais conhecidos, em que você encontra ótimas marcas de produtos de bebê por excelentes preços, próximo de Paris, é o de Marne-la-Vallée. Mas, novamente, vale o alerta: se estiver de carro é mais tranquilo do que ter que pegar o RER lotado para ir até lá e, especialmente, para voltar cheia de pacotes. Veja se vale à pena, se tem como contar com a ajuda de alguém para carregar peso e, principalmente, se você está em condições de enfrentar lugar lotado (são dicas para grávidas e grávidas não precisam passar perrengue, né?).
  • Outra dica geral (e minha predileta): aproveite os sites de internet. Na Europa, como nos EUA, uma infinidade de sites entregam em casa, a preços baixos, muitas vezes sem nem cobrar taxa de entrega, com segurança tanto no envio dos seus dados quanto no envio dos produtos e com a vantagem, no caso da França, de você poder comprar em toda a comunidade européia sem pagar imposto. Verifique, faça uma pesquisa. Os próprios sites de suas lojas e marcas preferidas, em sua maioria, fazem venda online e fazem inclusive promoções que só valem para compras online. Em termos de conforto e praticidade, não tem nada melhor.
  • Meus sites favoritos para compras online por sua praticidade, qualidade e seriedade: o amazon francês, que tem uma seção bébés et puériculture com tudo, tudo, tudo, de roupas a móveis, de fraldas a objetos de decoração. Resolve, entrega rápido e você encontra boa parte das boas marcas de produtos para bebês à venda ali. Se for navegar pela amazon, observe que nem todos os produtos são vendidos diretamente por eles (eles intermediam vendas com outras lojas, atualmente). Assim, logo abaixo do produto, está sempre escrito quem está vendendo. Clique sobre o vendedor apenas para dar uma olhada se ele já foi avaliado pelos consumidores e se tem boas notas. Isso ajuda a saber se é um vendedor confiável, se entrega rápido e etc. Ajuda ainda a saber de onde virá seu produto, se a loja não estiver na França e se você vai ter que pagar pelo envio e o quanto (você pode encontrar algo fantástico, a preço de banana, mas se ele vem dos EUA e você vai ter que pagar 30€ de envio, já não parece tão em conta assim, né?). Ah, veja também o prazo de entrega, que sempre aparece logo abaixo do produto e do vendedor e veja se já foi avaliado pelos consumidores. O produto em si, quero dizer. Como toda compra pela internet, ainda mais se você não conhece a marca que está comprando, nada como passar os olhos pelas opiniões de quem já adquiriu aquilo. Isso já me poupou umas tantas vezes de gastar com produto de má qualidade ou com coisa que não servia exatamente para o que eu precisava ou para a idade da minha bebê. Em tempo, a amazon francesa também faz liquidação e tira até 70% dos preços das coisas. Como são muitos os gastos nesse momento, vale aproveitar.
  • Meu outro site de compras favorito: vente-privée. Você se cadastra e, todo dia, abrem as vendas de uma série de marcas, com descontos que tiram até 50%, às vezes 70% dos preços. Eles possuem parcerias com todas as marcas de roupas de bebês e crianças européias conhecidas no Brasil (Petit Bateau, Jacadi, Tartine & Chocolat, Chicco…) e muitas outras ótimas que não são conhecidas por aí (Catimini, Vertbaudet, Noukies, Du pareil au même…). Fora as vendas de grandes estilistas que fazem roupas para os pequenos, como Agatha Ruiz de la Prada, Kenzo, John Galliano… Há também as vendas de sapatos para crianças, de carrinhos de bebê, móveis, roupa de cama, de banho, objetos de decoração, brinquedos… As vendas aparecem no site, com data para começar e terminar. Preste atenção nos tamanhos (a numeração na França é diferente da do Brasil, tanto para roupas quanto para sapatos, consulte uma tabela aqui.) Veja também a data provável da entrega, já que precisa acabar a venda e, depois disso, ainda leva um tempo para eles separarem tudo e te enviarem. Normalmente o site te envia um email quando a mercadoria é enviada e o correio te envia outro dizendo quando vai chegar. É bem eficiente e vale a pena. Basta ter paciência para aguardar as vendas que te interessam começarem e, ainda, sangue frio para não sair comprando tudo e mais um pouco, dados os preços.

Logo mais, o post sobre as coisas que têm sido úteis ou totalmente inúteis por aqui. E os achados, marcas e objetos legais que descobri nesse planeta maternidade. Boas compras e consuma com cuidado e consciência.

Esse post continua aqui.

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil parte III

Para quem não acompanhou essa saga, já escrevi um pouco a respeito da gravidez e do parto na França nesse post aqui e nesse aqui. Tem um passo-a-passo das burocracias para ter acesso ao acompanhamento médico durante esse período, mesmo sendo estrangeira, além de um bocado de considerações sobre como esse acompanhamento aqui, onde se privilegia o parto normal é, não obstante, extremamente medicalizado e baseado na idéia de risco. Não se trata de um guia exaustivo, mas do que tenho descoberto na prática sobre esse acompanhamento e que, talvez, possa ser útil a outras pessoas que também estão grávidas e tendo seus bebês por aqui.

Onde ter informação?

O que constatei ser o mais difícil, na França, é o acesso à informação. Como é tudo muito burocrático e cheio de meandros, você leva um bom tempo até entender como funcionam as coisas. Mas, uma vez conseguindo ingressar no sistema de seguridade social francês, como eu havia explicado aqui, a coisa melhora e muito. E você pode constatar que o acompanhamento à gravidez e ao parto aqui é bem cuidadoso, bem completo. Mesmo pendendo e muito para um excesso médico, o fato é que eles se ocupam bem das mulheres grávidas e dos nascimentos. Quero dizer, em comparação com o Brasil, eles se ocupam efetivamente de gestação e parto de forma universal e irrestrita, como questões de saúde pública e de dever do Estado. Tudo o que, infelizmente, a gente sabe que em nosso país se promete e não se cumpre. Bom, aqui a coisa funciona. Então, segue mais uma lista de observações que tenho feito a respeito.

O site da seguridade social tem muitas informações sobre gravidez, o acompanhamento, os procedimentos a seguir, os benefícios. Em caso de dúvida, é sempre uma boa referência: aqui. Também para o acompanhamento que eles oferecem, por meio de visita domiciliar no pós-parto, as informações estão aqui.

Outra boa fonte de informação são os inúmeros libretos que eles te fornecem em vários momentos ao longo da gravidez: quando você se inscreve na caixa de auxílio à família, a CAF, que é quem paga os benefícios aos quais as mães têm direito, você recebe um material informativo sobre procedimentos burocráticos e sobre a gestação; quando você se inscreve em uma maternidade, normalmente te entregam um material de leitura, digamos, oficial, onde explicam muitas coisas a respeito da gravidez, do parto, das mudanças, dos exames, do acompanhamento médico, dos cuidados com a alimentação, das medidas administrativas a serem tomadas. Isso pelo sistema público, pois no sistema privado também te entregam todo esse material, mas ele é um pouco diferente, mais cheio de firula, de propaganda e afins.

Essas espécies de cartilhas são interessantes, eu devo ter ao menos umas três diferentes, porque a enfermeira obstetriz que me acompanha e que trabalha como autônoma também me forneceu uma pasta de material informativo. Li todos. E constatei que têm coisas bem úteis no meio de muita coisa inútil. Mas que seria bem bom se no Brasil a gente tivesse algo do tipo, um ponto de partida para compilar todas as informações das quais você vai precisar em algum momento e que fosse dado a você na sua gravidez, para que você saiba onde e como procurar o que necessita. É como se você estivesse frente a um desses livros mais clássicos sobre gravidez e parto: não vai ter nada que fuja muito ao padrão e as informações sempre vão tender para uma ênfase bastante médica. Mas, com um pouco de discernimento, é possível aproveitar justamente para entender melhor aquilo que eles explicam sobre os procedimentos a seguir aqui na França. E algumas dicas e informações são boas e úteis. Então, dê uma olhada nesse material que receber da CAF, na maternidade ou no acompanhamento com as “sage-femmes”, tem coisa bem aproveitável no meio de um monte de publicidade de loja, de leite em pó e de todo o comércio que circunda a maternidade. Porque, claro, não vamos nos iludir, essas cartilhas e esses materiais são organizados pelo serviço público, mas eles tem patrocínio e apoio do setor privado. E apoio significa publicidade, o que significa que você recebe um quilo de papel de onde tira uma ou outra coisa que vão realmente te informar e te ajudar em algo. E mais um monte de amostra grátis de tudo o que você pode imaginar e até do que não pode. E mais uma tonelada de cupões de desconto para comprar um monte de coisas, na sua maioria inúteis. Mas toda essa papelada você pode jogar na lixeira da reciclagem. E aproveitar as boas informações.

Bom, estando garantida a informação mínima para você saber onde ir, como proceder, quem procurar, como fazer… e estando garantido o seu acompanhamento e o pagamento desse acompanhamento pela seguridade social, tudo caminha forma bem prática e eficaz. As consultas são reembolsadas, consultas, atendimentos, medicamentos e tudo o que se relaciona à gravidez passam a ter cobertura completa à partir do 5° ou 6° mês, você apresenta sua carteirinha e não coloca mais a mão no bolso… enfim, tudo corre muito bem. É realmente de se espantar, dadas as referências que temos. Penso que é o real significado da palavra assistência, ou da palavra acompanhamento: você está acompanhada. E ponto. Não precisa se preocupar em ter que garantir o que é seu direito. Isso é algo muito estranho para uma brasileira, vocês nem imaginam.

Mas, e se você for como eu que, além de um atendimento de qualidade, estiver em busca de um atendimento mais humano para a sua gestação e o seu parto?

Onde ter alternativas?

Bom, isso são outros quinhentos. E nada, nada simples. Como eu disse, aqui o acompanhamento é extremamente centralizado na idéia de que gravidez e parto são situações de risco que devem ser cuidadas enquanto tal. Muitos exames, muitas despistagens, muita medicalização da saúde, como é de praxe em boa parte do mundo. O parto normal é a norma, mas isso não significa que ele seja isento de muitas e muitas intervenções que estão cristalizadas, mas que não são exatamente necessárias, como o uso majoritário de peridural, o constrangimento de parir na posição ginecológica, o monitoramento ininterrupto do bebê e da mãe… E, para fazer frente a isso, a melhor opção é escolher muito bem a maternidade na qual pretende dar à luz.

Em Paris, a única (veja bem, eu disse única mesmo) maternidade que propõe um parto dito fisiológico, ou seja, mais humano e respeitoso do ritmo e do protagonismo da mãe e do bebê é a Maternidade “Les Bluets”. E ela esteve ameaçada recentemente de intervenção, justamente por isso, porque a qualidade dos serviços que ela oferece, a ideologia de um parto humanizado na qual se baseia, a oferta de diversos serviços, dos ateliers, dos grupos de discussão, de informação, das diferenças de acompanhamento e tudo o mais custam caro e rendem pouco. E até aqui na França a saúde fica constantemente assombrada pela questão econômica do lucro, ou de minimizar os gastos e os prejuízos. Então, a coisa é tensa, como é possível constatar nessa matéria recente. Tenho uma amiga grávida que é acompanhada lá e conheço outras pessoas que tiveram seus filhos lá e que falam muito bem dessas opções de acompanhamento ao longo da gravidez e de um parto respeitoso. Um alento.

Essa é a única maternidade que tem o selo “amiga dos bebês” em Paris, uma iniciativa francesa para incentivar e reconhecer os estabelecimentos de saúde que promovem não apenas o aleitamento materno, quanto também o respeito ao parto humanizado, ao ritmo e ao protagonismo mãe-bebê. Existem outras 17 pela França, você pode consultar aqui. São boas referências. Mas a fila de espera, na Bluets por exemplo, é imensa. Então, nem sempre você consegue garantir pela inscrição na maternidade a certeza de um parto humanizado.

E fora essas, há alternativas? Bom, pelo que pude pesquisar, o parto domiciliar é algo raríssimo, alvo de muitas críticas e ataques violentos, a ponto de as enfermeiras obstetrizes que o fazem, as sage-femmes, terem praticamente desaparecido do mapa. Veja matéria aqui. Como as sage-femmes trabalham vinculadas a um departamento, a uma região, por vezes tem lugares que ainda contam com essa possibilidade e outros não mais. É preciso procurar muito, correr muito atrás em fóruns e no boca-a-boca com outras mães. A França está na contramão de seus vizinhos, para os quais o parto domiciliar é o mais incentivado, o mais simples, menos custoso e garantido para todas as mulheres que queiram e possam tê-lo. Aqui, o melhor é começar a procurar muito cedo, no começo da gravidez se essa for sua opção. Algumas informações: aqui.

Outra possibilidade é dar sorte em encontrar as pessoas “certas”. E forçar a sorte um pouquinho também. Nas maternidades e hospitais que cuidam da gravidez e do parto por aqui, são as “sage-femmes” que acompanham toda a sua gestação, examinam, pedem os exames. Você raramente vê o médico. E também não o verá no dia do parto, a menos que algo fora do usual aconteça. E esse modo de acompanhamento é justamente o que pode contar a seu favor. Pois as enfermeiras obstetrizes francesas, as “sage-femmes”, têm formação médica mas, ao mesmo tempo, podem trabalhar como autônomas, podem cuidar de vários aspectos da gravidez e do parto. E, com isso, elas fazem várias especializações interessantes: algumas trabalham com acupuntura, homeopatia, sofrologia (que são exercícios de respiração e relaxamento), yoga e por aí vai. Já encontrei uma porção delas, porque o acompanhamento é feito de forma bem impessoal na maior parte dos serviços e posso dizer que já vi de tudo um pouco, de gente bem rígida que não topa sair do padrão a gente que não presta atenção em você e apenas segue um protocolo apressado a gente bem humana e aberta à escutar, capaz de sanar muitas dúvidas e de te tranquilizar frente a várias situações. Mas, no geral, percebo uma abertura maior por parte das “sage-femmes” para um respeito ao parto natural. E, como elas é que te recebem e te acompanham no dia do parto, a sorte está lançada de você cair nas mãos de alguém mais humana e cuidadosa.

Mas não é apenas sorte. Aqui, você pode escrever um projeto de nascimento, um projeto de parto e entregar no dia para a equipe que vai te atender, ao chegar na maternidade. Você tem o direito de escrever uma espécie de carta dizendo como gostaria de viver o seu parto. E, ao mesmo tempo, quando você chega na maternidade, você pode entregar esse documento que fica arquivado no seu prontuário, e comunicar à equipe o que tem ali (para o caso de eles não terem tempo de ler, o que é possível, pois estamos falando de estruturas grandes, que fazem 2000, 3000 partos por mês). Pelo que tenho entendido, as equipes são bem sensíveis a esse plano de parto e costumam tentar respeitá-lo. No que diz respeito à peridural, por exemplo, eles sempre acatam quando você diz que não quer tomar. Para a episiotomia pode haver um pouco mais de resistência, mas os índices são baixos por aqui e você tem como decidir. Você tem como insistir na sua decisão. Na maior parte dos casos que tenho ouvido, o mais difícil é a decisão de parir em outra posição que não a ginecológica. As intervenções e exames que se seguem com o bebê recém-nascido também parecem meio inquestionáveis. Mas isso é especialmente rígido nos locais onde o médico obstetra aparece apenas nesse momento para dar um oi e cobrar pelo procedimento. Ah, e se você quiser a peridural vai ter o monitoramento permanente e vai ficar na posição do frango assado, sem poder se mexer e encontrar opções confortáveis. Uma coisa vai se associando à outra, numa bola de neve de caminhos pré-estabelecidos. Por outro lado, a possibilidade do corpo-a-corpo e de amamentar logo após o nascimento também são mais respeitadas.  É preciso insistir nisso.

Tem “sage-femme” que não quer fazer nada de diferente porque atrapalha o esquema de trabalho dela. Como se um parto tivesse que ser calcado nisso, no que é mais prático para o médico, para a enfermeira obstétrica e para a equipe e não no que é melhor para a mãe. Ou seja, terão pessoas que vão resistir mais do que outras. Por isso é sempre bom pesquisar bastante, especialmente nos fóruns, as opiniões e experiências das mães em cada maternidade. Você logo percebe que esses relatos dão boas dicas sobre as posições das instituições quanto ao que você pode vir a pedir ou não. Mesmo não sendo posições formalizadas, elas existem. E aparecem no modo como as pessoas contam os partos e como as equipes cuidaram delas. Melhor ler nas entrelinhas. E levar seu plano de parto. E fazer questão de entregá-lo, insistir nisso. Enfim, tudo questão de negociação e conversa. E de ter um certo tato na conversa para não criar hostilidade. Até porque, no dia do parto não vai dar para ficar brigando, né? Dicas para projetos de parto bem escritos e que serão considerados: aqui.

E o que fazer com a mentalidade francesa frente à gravidez e ao parto?

Olha, é um belo de um paradoxo.

As francesas são totalmente adeptas do parto normal, mas totalmente avessas à idéia da dor do parto. Os índices de anestesia são altíssimos por aqui em todas as instituições. Muita peridural com tudo aquilo que ela acarreta em termos de intervenções posteriores. E nos cursos de preparação ao nascimento, isso é sempre abordado como uma evidência, a de que você não vai querer sentir dor e vai tomar uma anestesia. Eu falei disso aqui e aqui. Não sei até que ponto essa posição é uma consequência desse feminismo que às vezes se excede ao confundir o direito da mulher a gerir seu corpo de modo a não sentir dor, não sofrer, evitar qualquer experiência que lhe seja violenta e até não conceber com uma idéia – que é bem machista, por sinal – de que parto é sofrimento e que esse sofrimento pode e deve ser evitado pela renúncia que a mulher faça de sua participação ativa nesse momento. Ou se é justamente uma apropriação perversa que esse poder médico de controle e gerenciamento dos corpos fez dessa reivindicação feminista para fazer valer sua própria agenda. Trocar o protagonismo da mulher pela supressão da dor. E a mulherada caiu nessa sem pensar muito a respeito, sem muito senso crítico, de um modo quase ingênuo. E as francesas estão bem convictas de que isso é uma boa troca e não se colocam muitas questões a respeito. Portanto, quando você fala de parto sem anestesia, as pessoas ficam tentando te convencer que você não precisa sofrer, que não precisa sentir dor e de que isso é bom. Sem nunca falar da quantidade de intervenções médicas que virão como consequência disso, como o uso da ocitocina, todo o tipo de aceleramento artificial do parto, as posições obrigatórias e até a episiotomia. Enfim, é uma escolha de cada mulher, mas aqui isso é pouco questionado.

Outro paradoxo curioso e que revela a influência dessa medicalização forte e dessa falta de questionamento frente às condutas generalizadas para gravidez e parto aqui na França é a questão da amamentação. A grande maioria das mulheres não amamenta por opção. E isso também lhes parece o exercício de um direito sobre seus corpos. E é colocado como um direito, como uma opção, como algo que elas podem e devem decidir, mas sem muita ênfase na importância ou na diferença que isso faz para o bebê. Existe uma insistência grande para que as maternidades, os cursos de preparação para o nascimento e todos os livros e cartilhas falem da amamentação. Uma insistência em mudar um pouco dessa mentalidade que parece tão arraigada. Nos grupos dos quais fiz parte, a grande maioria das mães queria saber sobre mamadeiras, leite em pó, horários das mamadas e afins. No curso de aleitamento materno havia apenas eu e mais uma outra mãe. Me deu uma tristeza enorme. E isso também ninguém questiona. Sob pretexto da volta ao trabalho ou de não se sentir confortável, sob a desculpa da carreira, da autonomia, da deformação dos seios (oi?) ou até sob o argumento de que é um ato egoísta, porque o pai, os avós, toda a família quer ter esse contato privilegiado com o bebê  e que é um absurdo a mãe querer manter essa exclusividade (oi?)… a grande maioria das mulheres aqui não amamenta, não quer amamentar ou concebe fazê-lo apenas por um período o mais breve possível e por desencargo de consciência.

Enfim, como vocês podem ver, estamos muito longe de uma situação confortável e cuidadosa no que diz respeito à maternidade na França. Mas, isso é inegável, estamos há anos luz do Brasil em alguns pontos desse percurso.

 

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil – parte II

Diálogo de uns dias atrás, durante uma das sessões de preparação para o parto com a enfermeira-obstetra:

– Vamos falar do trabalho de parto hoje. É o momento mais medicalizado do parto. Vocês sabem me dizer por quê? Porque vocês vão tomar a peridural.

– E quem não pretende tomar peridural?

Olhares estranhos de todas as barrigudas na sala.

– Bem, 90% dos partos são feitos com analgesia peridural. E para nós, é bem complicado quando tem que fazer algo diferente. Então, provavelmente, vão te dar um soro e te colocar no monitoramento como todo mundo. E você vai ter menos mobilidade, ainda que possa se movimentar, o que não acontece com quem toma a peridural. Mas, para nós, é complicado ter que te tirar do monitoramento e te colocar novamente, a cada hora.

Silêncio.

– Então, vou falar de como acontece esse momento do trabalho de parto sob peridural, ok?

Ok, a França é bem mais respeitosa no que diz respeito ao parto do que o Brasil. Parto normal, aqui, é normal e cesariana nem é considerada como parto, mas como intervenção de urgência. E, no tal curso, eles até explicam o que pode levar a uma cesariana e são apenas dois ou três motivos. Bebê nasce sentado? Nasce por parto normal. Bebê nasce enrolado no cordão? Nasce por parto normal e eles desenrolam. Bebê, aqui, nasce. O que não quer dizer que a medicalização não passou por aqui e não normatizou algo que em nada seria patológico. Muito pelo contrário: a França é um país extremamente medicalizado e patologizante.

Essa história de patologização das subjetividades é bem antiga. Não começou com o novo DSM-V que tanta gente, com razão, está gritando que nos fez acordar todos doentes mentais (tem um texto ótimo a respeito aqui e outro aqui). Lamento, mas já acordamos doentes mentais há bem mais tempo do que isso e pouca gente havia se dado conta. Tristeza e luto tornaram-se depressão praticamente desde o momento em que os manuais psiquiátricos inventaram o conceito. Porque o que existia antes era melancolia. É muito interessante acompanhar a evolução dos diagnósticos nos manuais de psicopatologia, ver como eles foram se subdividindo, se multiplicando, se especializando até chegar às raias do detalhe, contemplando cada vez mais e mais campos da subjetividade humana. Até chegar em nossos dias, em que tudo é patologia, tudo é doença, tudo foge à regra. E o que se deve fazer com o que desvia? Endireitar, colocar nos trilhos, normalizar, adaptar. Medicalizar. Para quem se interessa pelo assunto, a melhor referência é o bom e velho Michel Foucault, que mostra magistralmente que isso começou há pelo menos 200 anos atrás, quando a loucura foi a primeira tonalidade subjetiva a se transformar em doença, abrindo espaço para tudo o que seria patologizado depois dela. Além disso, ele ajuda a entender como transformar pessoas em doentes mentais não é algo inofensivo, mas algo que serve a uma certa idéia de norma, a um certo modo de conceber normal e patológico que está – e sempre estará – a serviço de um jogo de poder. Nesse caso, o biopoder, o poder de transformar pessoas em organismos, em meros pedaços de carne dos quais podemos dispor como coisas, para melhor controlá-los. Foucault nunca foi tão atual, infelizmente.

Voltando à França.

Claro que a França, país em que existe um sistema de saúde público, universal e que funciona, não teria como escapar incólume àquilo que oferece a seus cidadãos. E existe uma maneira de pensar saúde e doença aqui – como em todos os países – que orienta suas políticas públicas e o que se oferece como assistência. E o que se oferece como assistência em saúde na França passa por uma concepção de doença bastante patologizante e normalizadora. Basta dizer que este é um dos países com um dos maiores índices de depressão no mundo e, consequentemente, um dos maiores consumidores de medicamentos antidepressivos também. Um modo de pensar o ser humano como doente, uma conduta medicalizadora desse ser humano. Não tem crise na indústria farmacêutica aqui.

E o que isso tem a ver com gravidez e parto?

Tem a ver na medida em que gravidez e parto, aqui, estão sob a jurisdição da medicina tanto quanto no Brasil. Se existe uma diferença significativa e importante na concepção dos franceses de que parto é por via vaginal, isso infelizmente não caminha junto com uma postura menos medicalizada e patologizante desse momento. O corpo da mulher ainda é capaz de parir por aqui – não é o corpo totalmente incapacitado das brasileiras que precisam ser ajudadas integralmente naquilo que se assume que elas não sabem fazer. Mas esse corpo capaz de parir é, segundo as concepções, os protocolos e as condutas de médicos e enfermeiras obstetrizes francesas em sua grande maioria, um corpo imperfeito, meio defeituoso, que precisa ser controlado em permanência durante a gravidez e auxiliado no momento do parto.

Se não, vejamos:

– exames constantes desde a constatação da gravidez buscam averiguar se seu corpo funciona bem: doenças, disfunções, irregularidades, tudo é monitorado em permanência a cada consulta, quer você seja acompanhada por uma enfermeira obstetriz – o mais comum – quer por um médico obstetra. A idéia de um perigo permanente de que algo esteja errado contigo ou com o bebê te assombra, na medida em que a ênfase das consultas é colocada exatamente em avaliar riscos, medi-los, controlá-los. Acompanhar uma gravidez, aqui na França, parece ser concebido como manejar uma ameaça constante, à qual apenas a tecnologia médica teria condições de fazer frente.

– a preparação pré-natal, que poderia ser uma alternativa a essas consultas extremamente direcionadas aos riscos de uma gravidez que pouquíssimas vezes é, de fato, arriscada, parece cair no mesmo discurso medicalizante e patologizante da insuficiência do corpo feminino em ligar com uma gestação e um parto. Esse curso, feito com uma enfermeira obstétrica da maternidade em que você está inscrita ou de forma independente, teria por objetivo explicar às gestantes o que acontece durante o trabalho de parto, o parto, o pós-parto, o aleitamento e por aí vai. Informação, oportunidade de encontrar outras grávidas, discutir, esclarecer dúvidas, descobrir possibilidades… Não é bem assim. Como mostra o diálogo do começo deste post, o que impera é aquilo que é melhor para nós. E, nesse caso, nós não somos as mães, nem nossos bebês. Nós são os funcionários de um sistema de saúde na maior parte das vezes superlotado, em que maternidades usinas devem seguir os protocolos e trazer ao mundo uma quantidade imensa de bebês do jeito que for mais prático para eles. E onde a diferença e a singularidade de cada mãe, de cada bebê, de cada parto atrapalham e devem ser uniformizadas.

Então, falemos de peridural e de todas as intervenções médicas que parecem evidentes e que ninguém coloca em questão, mesmo aqui na França. Onde o sistema de seguridade social paga por tudo isso: por seu acompanhamento, por seu parto, por sua preparação… E  ainda te ajuda nas despesas com gravidez e filhos. Desde que você não saia dos trilhos. Desde que você se encaixe docilmente naquilo que eles concebem como sendo gestar, parir ou criar filhos. Uma normalização perversa, na medida em que é aliada à questão de quem paga a conta, criando ainda mais um motivo – econômico – para você se enquadrar. Não é apenas questão de que o médico sabe mais, de que seu corpo é falho, de que você precisa de ajuda naquilo que não sabe fazer sozinha, de que existem riscos, de que existe dor, de que algo pode dar errado. É também questão de dinheiro. E o dinheiro só sai se você se portar bem.

A França é um país excelente. Isso se você se adaptar aos protocolos deles. E não fizer muitas perguntas que te façam parecer absurda. A não ser que esteja disposta a brigar. E a batalhar por alternativas e exceções que, evidentemente, existem por aqui. Ainda bem. Muitos franceses têm uma grande dificuldade em pensar fora da caixinha. Entre médicos e equipe médica, pelo que tenho constatado, são poucos os que arriscam um pensamento clínico, um raciocínio fora do que está dito que devem fazer, uma opinião. Pensar, aqui na terra das luzes, parece que se tornou perigoso. Você pode ser processado. Você pode ser responsabilizado por sua opinião. Você pode ser punido. Não é bom ser diferente, singular. Melhor seguir estatísticas, diretrizes, normas de conduta. Melhor se adaptar. Isso vale para crianças, adultos, gestantes, bebês, estrangeiros, franceses… E, caso encontre dificuldades, tome um antidepressivo no final do dia, como a maioria das pessoas que te cercam.

Outras informações e reflexões sobre gravidez e parto na França: aqui e aqui.

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil…

… ou pequeno manual de sobrevivência para quem, como eu, está vivendo essa experiência na França.
          Porque aqui é o país da burocracia, da papelada, da lentidão e dos pequenos detalhes. E, também, um país em que a gravidez e o parto são muito bem cuidados. Bem mais do que no Brasil, para aquilo que é essencial.
          Assim, eis o que tenho descoberto sobre o caminho das pedras quando se decide ter um bebê por essas bandas.
          Primeira coisa, extremamente importante, para evitar todo e qualquer mal entendido: ter um filho na França NÃO te dá o direito à cidadania francesa, nem à você, nem ao pai da criança. A menos que um de vocês seja francês, ou seja naturalizado, ou tenha a cidadania francesa, isso não muda em nada sua condição de estrangeiro em território francês e você continuará sendo um estrangeiro legal ou ilegal, sujeito a todos os trâmites que os estrangeiros devem seguir por aqui. Ou seja, ter filhos na França não é saída para resolver problemas de imigração, ok? Seu filho também NÃO será francês, a menos que ele continue vivendo na França e que, aos 18 anos, faça um pedido de reconhecimento de sua nacionalidade francesa. Que leva tempo e dá trabalho e que NÃO será estendida aos pais. É fundamental esclarecer isso antes de qualquer coisa, pois se gravidez e parto são extremamente bem cuidados por aqui, quer você seja francês ou estrangeiro, em qualquer situação que você esteja, isso vale apenas para gravidez, parto e maternidade, não para questões de cidadania. Então, sigamos em frente.
          Do ponto de vista da assistência, você pode ficar mais do que sossegada. Uma mulher grávida, na França, tem direitos que são verdadeiramente garantidos. O primeiro é de ser atendida integralmente e acompanhada durante toda a gravidez, com tudo pago pela seguridade social. Para isso, não importa se ela é francesa, estrangeira, imigrante ilegal. O que quero dizer é que, do ponto de vista francês, você está aqui, está grávida e você e seu bebê têm direito à toda a assistência. É um país civilizado. Não pense, contudo, que isso vai te garantir uma cidadania francesa e que essa seria uma boa maneira de obtê-la, pois não é assim que funciona. Mas, no que diz respeito à gravidez e ao parto, você estará em boas mãos. Desde que você esteja grávida, eles cuidam de você. Mas, isso envolve uma certa burocracia que você tem que seguir, caso queira usufruir dos privilégios de um estado de bem estar social que (ainda) funciona.
          Se você está na França legalmente, deve ter algum tipo de seguro saúde, que costuma ser exigido de quem vem passar um período no país, a trabalho ou por seus estudos. É o que se chama “mutuelle” aqui, que é a assistência complementar de saúde. Pois, além dela, aqui você tem uma cobertura da seguridade social, que é a cobertura financiada pelo Estado e que demanda uma inscrição e um número que você não necessariamente terá, como estrangeira, pois isso depende do tipo de visto com o qual entrou no país, se é algo que te permite trabalhar ou apenas estudar… e por aí vai. Normalmente, se você tem direito a trabalhar, e para que você possa fazê-lo, você já deve ter passado pela burocracia de inscrição na “sécu”. Se não, é por aí que vai ter que começar.
          Para isso, o melhor é se informar no setor de alunos ou de acolhimento aos alunos estrangeiros da sua universidade ou, uma outra opção, na Caixa de Assistência à Família, a CAF. Lá é o lugar em que eles cuidam de todos os direitos que você têm enquanto grávida. Eu sugiro que você vá a uma das unidades que existem na cidade em que está, porque conversar pessoalmente é mais fácil do que por telefone. Você pode explicar sua situação: diga como chegou aqui, por que motivo, que descobriu que está grávida, explique em que ponto está com as burocracias, se tem seguridade social, mutuelle, etc. Eles vão te orientar quanto a tudo que você tem que fazer, como e onde. E é para esse setor que você enviará, depois de passar por uma consulta no ginecologista ou na maternidade, o que eles chamam de “déclaration de grossesse“, um documento que dá início aos procedimentos que garantem essa cobertura integral da gravidez e do parto pela seguridade, bem como aos benefícios a que você terá direito ao longo da gravidez, do parto e em seguida. São eles, também, que vão depositar para você um auxílio, em dinheiro, no final da gravidez, além de um auxílio mensal depois do bebê ter nascido, que será de um valor maior, se você estiver sozinha.
          Se o pai do bebê for francês ou alguém da comunidade européia, ou alguém de fora da Europa, mas que está aqui legalmente e que já possui um número de seguridade social e de mutuelle, ele pode te ajudar com isso tudo. Sendo casados ou não, ele pode te registrar como dependente para que você tenha essas inscrições e dê conta, mais rapidamente, dessa burocracia inicial.
          Se no começo da gravidez você ainda não tiver o número da seguridade social, vai ser a mutuelle que vai pagar seus examens e consultas. À partir do quinto mês, a seguridade cobre tudo, até o parto e pós parto. Mas, para isso, você terá que enviar a “déclaration de grossesse” fornecida pelo seu médico ou pela maternidade, que vem em duas vias, uma para a CAF e outra para a seguridade. É com esse documento que eles tomam conhecimento que você existe e que está grávida e se encarregam de suas garantias.
          Mas tudo isso é burocracia e burocracia aqui é complicada e lenta. Então, você vai ter que ter paciência e persistência.
          Outra coisa importante é que, mesmo ainda não tendo o seu número da seguridade social, você já vai poder começar o acompanhamento. Funciona assim: a rede pública e a rede privada trabalham do mesmo modo, não tem luxo e frescura como no Brasil e cesariana é intervenção de urgência, ok? Então, parir aqui significa que você vai ter um parto normal. Nada de marcar cesariana com antecedência, nada de escolher a data, nada de maternidade hotel de luxo, nada de buffett ou festinha na maternidade com os amigos para comemorar o nascimento. Enfim, o essencial. Que é o cuidado com a gestante, com o bebê, com que a gravidez, o parto e o pós-parto se passem bem para ambos. Ainda, o parto será feito pelas enfermeiras obstétricas e não pelo médico, a não ser em caso de complicações, o que é muito melhor, na minha opinião, porque sinaliza uma prioridade dada a um parto menos medicalizado. Mas é bem diferente do que estamos acostumadas. E, ainda, no seu acompanhamento da gravidez, você terá contato com a equipe do local onde vai parir, mas não necessariamente com a pessoa que vai estar contigo na hora do parto, mesmo que você esteja sendo acompanhada por um ginecologista e não por uma enfermeira obstétrica – a “sage-femme” – porque o parto acontece a qualquer hora e será atendido pela equipe de plantão. O médico não estará lá na grande maioria dos casos, e nem a “sage-femme” que te recebeu ao longo das consultas. É menos personalizado e é preciso se acostumar com essa não criação de laços ou de intimidade, o que é tão comum e reconfortante no nosso jeito brasileiro de cuidar da maternidade e do parto. E, certamente, uma das coisas que mais faz falta por aqui, a meu ver.
          Bom, aqui será bem diferente daí, não dá para esperar a mesma coisa. Mas, isso posto, posso dizer que para tudo o que é realmente importante, tenho achado realmente bem melhor do que no Brasil.
          Para começar seu acompanhamento, você vai a um ginecologista aqui. Ou diretamente à maternidade, se já tiver escolhido uma. Ou a um médico que atenda na maternidade em que você pretende dar à luz, se já tiver uma preferência por algum local. Normalmente, nas maternidades eles fornecem uma lista de ginecologistas com os quais trabalham para que você escolha um e marque uma primeira consulta. Isso quando são os médicos que fazem o acompanhamento. Se forem as enfermeiras, eles te indicarão uma que possa te acompanhar.
           Em tempo: uma enfermeira obstétrica, a “sage-femme”, é alguém que tem uma formação médica, que pode perfeitamente te examinar, prescrever medicamentos ou exames, te dar orientações e indicações, enfim, pode fazer todo o acompanhamento de uma gravidez como um médico faria. É algo que não existe no Brasil, mas que aqui é totalmente comum.
          Médico ou “sage-femme”, ele faz para você os primeiras exames, pede os primeiros exames, te dá as primeiras orientações e uma declaração de gravidez, que é o papel que você vai levar na CAF e na sua mutuelle, para eles cobrirem suas despesas. No caso desse primeiro contato ser através da escolha de um médico, não de uma maternidade, ele vai te dizer, também, para você procurar uma desde o começo, especialmente se estiver em Paris, para dar seguimento ao acompanhamento. Porque é na maternidade que o seguimento da gravidez acontece, para a grande maioria das consultas, dos exames e, ainda, dos workshops de informação sobre gravidez, parto e outras atividades que eles costumam propor. E, ainda, porque encontrar vaga em uma maternidade, ao menos em Paris, não é muito fácil. Há que se fazer uma lista de opções segundo os critérios do que julgar importante, ligar, ir até lá, fazer uma inscrição e esperar que eles te digam se há vagas ou não. Enquanto você não estiver inscrita, seu ginéco vai continuar com as consultas e pedindo os exames. Você vai pagar e a mutuelle vai te reembolsar depois.
          Escolhendo sua maternidade, por critério de proximidade com onde você vai morar, para não ter que atravessar a cidade na hora do parto… ou por critérios do tipo de serviço que oferecem, se são mais abertos a um parto natural ou mais medicalizadores, se são maternidades que acompanham apenas uma gravidez sem risco ou maternidades ligadas a grandes hospitais para gravidez de risco, você deve ir lá fazer sua inscrição. Depois de inscrita, vão te enviar à tesouraria da maternidade, onde você deverá apresentar seus números da seguridade e da mutuelle. Não se preocupe se ainda não tiver o número da seguridade. Eles não vão deixar de te atender por isso, vão apenas te dizer que traga assim que receber. Isso é importante, eles NUNCA vão te negar assistência, não podem, é lei aqui. Esse é também um bom momento para, caso você esteja tendo dificuldades com obter esse número, dizer a eles na maternidade. Eles podem te encaminhar ao serviço social, que vai te orientar e ajudar a fazer os pedidos e enviar a papelada.
          Por fim, depois de inscrita, seu acompanhamento passa a ser todo na maternidade. As consultas com a “sage-femme”, boa parte dos exames, fora o ultrasom. Eles também vão te propor um curso para grávidas – a “préparation à la naissance” – com várias informações, orientações e afins, tanto no que diz respeito à gravidez quanto ao parto, à amamentação, ao pós-parto… Existem lugares que oferecem curso com nutricionista, yoga e outras coisas. Tudo é bem bom, bem sério e te ajuda não apenas a tirar muitas dúvidas como, também, a ter momentos de troca com a equipe do serviço em que é atendida e com outras grávidas, o que é sempre divertido, ainda mais quando se é uma expatriada.
          Bom, tudo isso é, espero, tão reconfortante para vocês quanto tem sido para mim. A parte ruim é a burocracia e, além disso, o fato de que ninguém vai ficar te mimando por estar grávida. Aqui, as pessoas vêem a gravidez como algo normal, não fazem um circo em torno disso. Além disso, o francês é um povo bem reservado e mais frio do que a gente, o que significa que, na maternidade, nas consultas, nos exames, em todas essas situações do seu cotidiano de grávida, ninguém vai ficar te paparicando, nem sendo fofo contigo. Eles serão corretos, profissionais, gentis, educados, mas não calorosos. Está bom para você?
          Continuação desta discussão: aqui e aqui.

Parir entre sangue e dor…

(version française de ce post ici.)

Noutro dia, reunião aqui em casa, discuto com os amigos minha opção por um parto natural que, na França, felizmente, não é sinônimo de parto normal – que o parto é normal, já está dado e eles ficam de cabelo em pé com nossa mentalidade cesárea – mas diz respeito, mais especificamente, àquilo que no Brasil chamamos parto humanizado, um parto normal com direito à recusa de várias intervenções médicas que são, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias e apenas atrapalham de maneira violenta mãe e bebê. Então uma amiga minha tira da cartola, depois de dizer que seu ideal de parto seria ser sedada, apagar e acordar apenas quando o bebê tivesse sido retirado de dentro dela – que essa opção de parto natural é uma escolha católica por parir entre sangue e dor e o quanto ela é absurdamente ideológica. Minha amiga é feminista. E inteligente. Parei para pensar. E percebi que não concordo com nada do que ela disse.

Primeiro, porque toda e qualquer opção em relação a todo e qualquer tema em nossas vidas é ideológica, quer dizer, tem em si alguma ideologia, quer saibamos ou não. Ser ideológica não é argumento para uma escolha, é a constatação de uma condição do pensar humano. A questão poderia ser, então, que ideologia está por detrás de uma escolha de parto ou de outra? O que estamos apoiando ou defendendo quando preferimos isso à aquilo?

Parir entre sangue e dor foi a condenação dada por Deus a Eva depois dela comer o fruto proibido e ser expulsa do paraíso. Mas por que isso seria uma condenação? Não sou uma expert em estudos religiosos, não li a Bíblia inteira e, assim, não tenho como falar do lugar de sabichona no que diz respeito a esse tema. O que, talvez, seja bem melhor, porque permite que eu apenas faça aqui as questões e reflexões que me provocam desde o comentário dessa amiga. Vamos a elas.

Do ponto de vista de uma pretensa defesa feminista do direito a não parir entre sangue e dor e, com isso, não sucumbir ao legado machista católico que impõe às mulheres sangue, dor e sofrimento, acho o comentário dela especialmente equivocado: afinal, a Bíblia foi escrita por quem? Por homens. Até Deus, o figura, é definido no masculino, herança e testemunho dos séculos e séculos de patriarcado que estabeleceram o homem no lugar da razão e a mulher como ser menor, incapaz, relegada às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos. A Bíblia apenas prolonga uma mentalidade que era aquela dos gregos antigos, herdada pelo império romano, do homem como cidadão, centro da pólis, senhor do pensamento. Então, minha pergunta, mesmo sabendo que o Antigo Testamento não foi estabelecido pelos seguidores de Jesus, mas bem antes: a que serve que um livro desses estabeleça a mulher como pecadora e a condene a parir entre sangue e dor?

Existiam homens e mulheres antes disso, não? Bom, talvez para os católicos não, homens e mulheres tenham surgido com Adão e Eva. Mas antes do surgimento da Bíblia como livro sagrado do catolicismo que diz que homens e mulheres surgiram de Adão e Eva e que dá a opção às pessoas de acreditarem nessa versão da história como mito das origens, já existiam homens e mulheres nesse mundo, não? Que não acreditavam ou não sabiam da tal verdade que é Adão e Eva. E que nem sabiam que o modo como viviam a depender de seu trabalho e a se reproduzir e parir entre sangue e dor era consequência do pecado original. Podemos achar que eles eram apenas ignorantes da verdade que os fazia serem como são. Ou podemos pensar que essa verdade é apenas uma versão das coisas que diz mais a respeito dela mesma e do por que ela foi construída desse modo do que acerca de como as coisas realmente são.

Como as mulheres antes da Bíblia pariam? Provavelmente, naquilo que é essencial, do mesmo jeito que nós fazemos hoje. Então, não foi a Bíblia que inventou o parto entre sangue e dor, ele já existia antes dela. Ela apenas inventou que ele seria consequência de uma condenação. Quer dizer, ela associou parto, sangue e dor à um castigo. Aí é que está o problema.

Por que será que interessa a alguém associar parto com dor a um castigo? Se formos pensar em um argumento radicalmente feminista, será que não seria o caso de considerar que interessa apenas aos homens – esses mesmos que instituíram o patriarcado nesse mundo – que um ato exclusivamente feminino, em que a mulher tem todo o poder sobre o seu corpo e sobre uma vida além da dela mesma, em que ela pode dar origem a um outro ser – coisa que apenas inventando um Deus homem os homens conseguiram remediar – enfim, que esse ato exclusivamente feminino seja considerado como um castigo e, assim, desapropriado? Desqualificado? Tornado impuro, menor, feio? Apenas uma idéia que me ocorreu. E que não me pareceu tão absurda se, seguindo por essa veia mais radical e paranóica formos pensar que, milhares e milhares de anos depois, a opção que se criou para as mulheres e seu procriar e seu parir de segunda categoria foi uma em que elas se desfazem totalmente de qualquer poder sobre o seu corpo, tornando-se objetos que, voltando às palavras da minha amiga, são botadas para dormir, têm seus corpos manipulados e decididos por outros, têm seus bebês extraídos delas e devolvidos a elas quando, como belas adormecidas, elas acordam de um sonho encantado com seus filhinhos no colo, sem nenhuma participação naquilo que trouxe ao mundo essa nova vida.

Então, tá. Ser objeto, um corpo objeto das decisões de outro a respeito da vida de seu filho é a alternativa feminista para o parto condenado entre sangue e dor? Não ser sujeito, não estar ali presente no momento em que a experiência acontece é fazer valer seu direito de ser mulher, ser independente, ser autonoma e não participar? Muito bem, o feminismo nos trouxe e nos trás conquistas incontestáveis e deve ser defendido enquanto houver nesse mundo uma pessoa que pense e aja de maneira violenta contra uma mulher pelo simples fato dela ser mulher. E defendeu o nosso direito sobre nossos corpos, sobre a concepção, sobre a alternativa de não ter filhos frente à obrigação de tê-los, sobre a opção de interromper uma gestação e tantas outras coisas mais. O feminismo defendeu até nosso direito de nos alienarmos em um conjunto de atos médicos para não participarmos do momento do parto de nossos filhos. E, ok, pode ser que para muitas mulheres isso seja uma opção. E defendo o direito que elas adquiriram de escolher isso.

Mas, apenas uma questão, essa escolha, tão ideológica quanto a minha por um parto natural, defende qual ideologia mesmo?

Em nome de nosso “direito” à não ter dor, não ter sangue, não ter sofrimento, parece que entramos em uma corrida para extirpar essas experiências de nossa condição humana. Como se fosse possível uma vida sem dor, sem sangue e sem sofrimento. E como se essas coisas fossem ruins, um castigo, um calvário pelo qual temos que passar para pagarmos os pecados de sabe-se-lá-quem-ou-o-quê. As pessoas parecem que têm mais medo da dor do que ela pode doer realmente. E em nome desse medo, jogam para fora da vida muitas experiências que são tudo, menos um castigo e uma condenação.

Poder parir um filho entre sangue, dor e muitas outras coisas que ainda não consigo imaginar me parece um privilégio, uma consequência coerente de uma escolha de alguém que decide que, em sua vida, cabe o projeto de dar vida a um outro alguém. Vida, em que também existe sangue e dor. E riso, e alegria, e um mundo todo de descobertas. Vida que não foge do dito ruim para tentar ficar apenas com o que pareceria bom, como se sentir fosse perigoso, como se sofrer fosse uma ameaça, como se as dores da vida não ensinassem e não formassem tanto quanto os seus prazeres.

Eu quero parir minha filha. Não quero que outros o façam por mim.

Grávida em outro país?

Putz!!!

Como se não bastassem todas as dores e as delícias de morar em outro país, você ainda engravida? Onde estava com a cabeça, menina?

Essa foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando descobri que estava grávida. Porque uma coisa é se lançar em um projeto pessoal de morar fora, apoiada pelos seus estudos, por um trabalho de pesquisa que te interessa e te motiva, por um pós-doutorado em instituições que você respeita e com gente que você admira. Outra, muito diferente, é se apaixonar em outro canto do mundo e, desse amor, conceber um filho. Porque até o amor é gerenciável longe de casa e em outra língua. É, no fundo e essencialmente, como todo grande amor: um abismo que separa duas pessoas que insistem em apostar que podem se encontrar em algum lugar. Bonito o amor estrangeiro, ele escancara muitas coisas que parecem apenas sensações delirantes quando a gente ama ali, no conforto de casa: os desencontros, as dificuldades de comunicação, as diferenças de valores, culturais, de postura frente à vida. Bom esse amor estrangeiro, ele mostra claramente aquilo que todos os casais penam quotidianamente para transpor: a diferença incurável que existe entre duas pessoas. E que pode servir para separar. Ou para juntar. No nosso caso, nos juntou. Eu estava amando. E engravidei.

E estar grávida não muda o amor de figura, mas traz um mooooooonte de preocupações que não necessariamente a gente tem quando começa um amor, flanando por outro país, cuidando de inventar uma vida para si. De repente, onde morar, como se sustentar, como trabalhar viram questões urgentes. E, mais ainda, como dar à luz e cuidar de um bebê em outro lugar que no conforto do seu lar, onde você conhece – ou acredita conhecer – todos os códigos, todos os perigos, todos os caminhos? Pois nada mais contundente para te fazer perceber que você é estrangeira do que ter que dar conta das atividades mais banais da vida: a primeira vez em que precisa chamar o encanador porque entupiu o encanamento do banheiro… como faz? Como chamar o encanador? Qual é o bom encanador? Como falar de canos, de banheiro e de entupimentos? Quanto custa essa brincadeira? Ninguém ensina isso na Aliança Francesa, acreditem-me. Cada primeira vez de cada banalidade dessas é quase um pesadelo e você se desgasta por dias até criar coragem de correr atrás de cuidar do cotidiano na raça… Porque dá muito, mas muito mais trabalho do que em casa. Ah, bons tempos aqueles em que se era apenas turista! Turista passa, não fica, isso é verdade. E tantas vezes a gente sonha em ficar, né? Mas turista não precisa chamar o encanador e explicar, em francês, que o banheiro entupiu. E ninguém quer passar por isso.

Então, estar grávida em outro país, mesmo em um país tão organizado como a França, onde existe uma diferença imensa no que diz respeito à maneira como eles tratam a saúde e a maternidade – diferença essa que eu acho muito positiva e reconfortante – é um mar de ansiedade em um primeiro momento. Ir ao médico e entender quais são os protocolos que você deve seguir… durma com um barulho desses. Declaração de gravidez, escolha da maternidade, exames obrigatórios, ultrasons, reembolso, seguridade social, convênio de saúde, quem paga o quê… Eis que você se torna uma barata tonta afogada em um quantidade de papéis e de instruções inacreditáveis, correndo de um lado para o outro para resolver coisas que você não entende e que ninguém entende que você não entende e você ali, querendo mais é ficar quietinha, gestando seu bebezinho sossegada, entre uma frutinha e um copo de água, sombra e água fresca… Mas não, agora você se tornou um soldado da maternidade e, hop, hop, hop, já para o campo de batalha dar conta de todos esses papéis. Em francês.