Vamos falar de séquissu!

O quê? Como assim, Alessandra? Esse é um blog família, um blog sobre maternidade. Justamente. Não sou eu que vou precisar contar para vocês que maternidade e sexo têm a ver, sou? Apenas lembrando que a maioria dos casais têm filhos… olha só que loucura… transando! Eu sei, esse é o tipo de revelação que deixa a gente embasbacado quando olhamos para nossos pais e nos damos conta de que eles transaram ao menos o número equivalente ao número de filhos que têm. Mas provavelmente foram mais vezes do que isso. E provavelmente nossos filhos ficarão igualmente embasbacados quando perceberem que nós também transamos. E que esse é um dos motivos pelos quais eles existem. Enfim. Pessoas transam. Pessoas engravidam e têm filhos quando transam. Então falar de maternidade é falar de algo que tem a ver com sexo. Ok? E deixa eu fazer um spoiler aqui: esse não vai ser um texto muito simpático. Eu disse, eu disse num post anterior que ando meio desaforada. Deve ser o inferno astral ou algo assim. Whatever, vamos ao sexo.

E eu vou começar por todos os disclaimers antes de falar sobre sexo depois de nos tornarmos mães. Assim as pessoas vão parando de ler no meio do caminho e lê até o final quem realmente está preocupado com como ficam as relações sexuais de um casal após a chegada dos filhos. Sim, preocupadO porque esse post é essencialmente dirigido aos homens de plantão.

Primeiro disclaimer: passado o ultraje em ler que um blog sobre maternidade vai falar sobre sexo, a primeira coisa que as pessoas pensam é que aí vem mais um texto sobre como a mulher tem que estar inteiraça e cheia de vontade depois de parir, para não correr o risco de “perder o seu homem”. Se você pensa assim, ou se você acha que é isso que vai encontrar escrito por aqui, pára tudo, volta cinco casas e fica ali no cantinho pensando sobre o absurdo da sua presunção. Porque um dos meus primeiros argumentos é que, não, mulher não tem que nada. E não sou eu que vou escrever mais um texto para botar pressão em cima das mulheres dizendo mais umas tantas coisas que elas deveriam fazer ao mesmo tempo que parir, amamentar, aprender a ser mãe, aprender a lidar com um bebê e tudo o mais.

Segundo disclaimer, que tem tudo a ver com o primeiro e que é mais uma epifania do que qualquer outra coisa. E que é o motivo porque estou escrevendo esse post. Noutro dia estava assim meio de bobeira pensando na vida e tive um insight daqueles poderosos, que é tão óbvio que não sei como nunca antes havia pensado nisso. Descobri, olhem só, que quanto mais machista o homem – ou a mulher – pior ele é na cama. O que? Como assim? Além de falar de sexo, vai dar uma de feminista, é?

Sobre o feminismo, uma hora prometo que eu te explico como é impossível tornar-se uma mãe com o mínimo de senso crítico sem se tornar feminista por tabela. Até lá, vai lendo o que escreve gente que fala melhor de maternidade e feminismo do que eu, tipo a Isa Kanupp, do Para Beatriz.

Talvez hajam mulheres que já perceberam isso há tempos. Talvez as meninas de hoje em dia, que estão muito mais emponderadas, donas da própria voz e do próprio corpo já tenham sacado. Então, pô, por que ninguém me avisou? Teriam me poupado umas histórias bem sem graça, a mim e a uma porção de mulheres que já tiverem o desprazer de sair, ficar, transar, namorar ou casar com homem machista.

Na verdade é meio óbvio. Gente machista costuma enxergar a mulher como um objeto, como algo de que ele poderia dispor segundo seus desejos e necessidades. E algo de que se dispõe não é algo que a gente tome em consideração, algo para o qual a gente olhe, algo de que a gente cuide. Dispor significa usar, que é o que fazemos com objetos. Mulher-objeto é uma mulher para ser usada. E como a gente está cansado de saber que sexo, para ser prazeroso, tem que ter cumplicidade, um mínimo de atenção ao outro, um mínimo de empenho, de cuidado e de dedicação… Pois é, considerar o outro na hora de transar não é algo que combina com ver no outro um objeto do seu prazer, né? Aí está: machismo não rima com prazer na cama. Ao menos para uma das partes envolvidas. O que pode não querer dizer nada para o machista. Mas pode querer dizer uma vida inteira sem experimentar algo que pode ser muito bom e muito divertido para uma porção de mulheres. Homem machista é ruim de cama, minha gente. Pensa nas suas transas, faz a enquete com as amigas, vai por mim.

Então o segundo disclaimer é que se você é um sujeito machista, além de ser ruim de cama, você tem altas chances de estar aqui procurando uma receitinha ou um textinho para pressionar sua mulher a voltar a transar contigo porque, afinal, é obrigação dela. Senão, o que você não encontrar em casa vai procurar na rua. E a culpa vai ser dela. Que você tem lá suas necessidades. E ter filho não é desculpa para deixar de se cuidar, de cuidar do seu homem e de dar para ele. Não é mesmo? Não, não é. Volte trinta casas, senta ali no cantinho por uns cinco anos e vê se usa seus neurônios para aquilo que foram feitos, ou seja, pensar. Pensa um pouco, meu caro, pensa antes que o mundo ande e te deixe para trás choramingando sem entender aonde foi que você errou. Pensa antes de ficar sozinho e virar atração de zoológico como um animal em extinção. Pensa logo, porque o mundo está andando. E esse monte de mulher machista que ainda existe nesse nosso mundo de hoje, e que reforça estupidamente suas opiniões e suas certezas, o que torna sua vida confortável demais… bom, essas mulheres estão mudando bem rápido, estão percebendo muitas coisas óbvias e… Bom, pensa bem direitinho aí, cara. Deixa eu te dar uma dica de por onde começar: mulher não é objeto, é sujeito. Combinado? Em tempo: nem criança. Nem ninguém diferente de você. Todo mundo é tão gente quanto você e deve ser levado em consideração sempre que qualquer coisa que você faça os inclua ou traga consequências para eles. Inclusive transar. Ok? Se isso não é óbvio para você, então para por aqui que é game over. A gente não se vê por aí nem na próxima encarnação.

Se você chegou até aqui e não é daquele tipo de pessoa que gosta de ler algo apenas para querer puxar briga depois nos comentários e sair satisfeito consigo mesmo por julgar que humilhou, destratou ou rebaixou alguém, então deve ser porque você é um sujeito verdadeiramente preocupado com essa história de sexo depois da maternidade. Ou da paternidade. Ou porque sua mulher deixou casualmente essa página aberta ali no computador em cima do sofá e você, que não é bobo nem nada, se deu conta de que tem alguma mensagem que ela está querendo te passar… certo, amorzão? Então, ao invés de falar do que sua mulher tem que fazer para “te segurar” e das mil obrigações dela, vou quebrar o seu galho – sim o seu, porque é você que vai me agradecer depois por não ter perdido uma pessoa tão legal quanto sua esposa faendo papel de idiota por tempo demais nessa vida – e vou dizer o que você tem que fazer. Ou, pelo menos o que, na minha experiência e na experiência das mulheres que me falam sobre o assunto, nós mulheres sentimos, pensamos, vivemos e esperamos de vocês homens quando o assunto é sexo pós nascimento de filho. E isso não é uma verdade absoluta, ok? Só para complicar um pouco mais as coisas…

Bom, vai, anota a listinha aí:

  1. Tem mulher que tem mais vontade de transar quando engravida. Tem mulher que tem mais vontade de transar depois que o bebê nasce. Mas a maioria das mulheres não tem muita vontade de transar quando engravida (especialmente no final da gravidez). E tem pouca ou nenhuma vontade de transar depois que o bebê nasce. Não fique chateado com o que eu vou te dizer mas… não é pessoal. Não necessariamente. Não é contigo. Um combinado de mudanças hormonais, mudanças gigantescas de vida e de perspectiva de vida com um cansaço sem tamanho fazem com que a gente só consiga pensar em dormir. E no bebê. Não necessariamente nessa ordem.
  2. Isso é muito sério, nunca subestime o cansaço de uma mulher que acabou de ter um filho. Você pode querer transar e ela pode estar pensando em quantos minutos preciosos de sono está perdendo com aquela transa que nem está tão boa assim. Porque ela está cansada. Preocupada. Não quer fazer barulho para não acordar o bebê. Porque se ele acordar lá vai ela de novo, sem conseguir descansar nem por quinze minutinhos. E se ela está transando contigo mesmo exausta é porque, provavelmente, ela tem essa pressão social perversa dentro dela de que tem que estar disponível para o marido, tem que estar a fim, tem até que gostar. Mas ela não está afim. Ela quer dormir. E se você não percebeu é porque talvez seja um ogro. Volta para o disclaimer e senta ali no cantinho. E se você percebeu e não parou é porque ainda não entendeu que isso é um abuso. Feio, muito feio. Para já de transar com uma mulher que não está afim e deixa ela descansar, cara. Ela não deixou de te amar ou de te desejar depois que esteve filho, ela só está cansada. E com o foco no bebê.
  3. Consequência do anterior: nunca subestime a mudança de prioridades que muito provavelmente acontece para uma mulher quando ela se torna mãe. Os filhos se tornam prioridade. Ah, mas isso é motivo para ela deixar o marido de lado, se esquecer da relação, negligenciá-lo e tal? Isso não é um jeito saudável de ser mãe, isso de ficar se dedicando a cem por cento para o filho. Cara, para que está feio. Sua mulher não está fazendo nada disso. Ela não está te deixando de lado, te esquecendo, te negligenciando. Sai um pouco do seu umbigo, para de falar “eu, eu, eu” e olha para o que está acontecendo ao seu redor. Sua mulher está… cuidando do seu filho. Percebe? Ela está se dedicando ao filho de vocês. Você deveria estar feliz e orgulhoso pelo cuidado que ela tem, pela sua capacidade de se doar, pelo amor com que ela faz as coisas mais corriqueiras. Devia estar feliz, orgulhoso, admirado e agradecido de ter essa mulher que cuida assim de um filho seu. Se você ainda não sacou que isso diz muito sobre a pessoa com quem você decidiu formar uma família, acho que você também precisa voltar umas cinco casas, sentar ali no cantinho e rever alguns conceitos.
  4. “Ah, mas e eu? Eu também preciso de atenção, carinho e cuidado!”. Claro que sim. E se você ainda não notou, provavelmente ela também. Ela também deve se sentir carente, deve se sentir sozinha, deve sentir falta de um carinho, um cafuné, um colo, um sei lá o que. E só não pede porque fica preocupada de você entender que isso é um convite para vocês transarem. E ela não quer transar, cara. Ela quer carinho, cafuné, massagem nas costas. Não quer que isso termine na obrigação de dar para você. Mas como tem homem que não consegue dissociar uma coisa da outra, muita mulher fica ali com a sua carência, tendo que dar para o filho o que não tem. Que tal, ao invés de chegar junto, você ser apenas carinhoso com sua mulher? Sem segundas intenções. Ou com segundas intenções mas sem botar nenhuma pressão. Pode rolar algo, pode não rolar nada, mas pode rolar carinho, afeto, troca e isso pode ser muito bom tanto para um quanto para outro.
  5. Além do que, não sei se você já reparou, mas o seu filho… é um bebê. E você… é um adulto. E uma das diferenças entre um adulto e um bebê é que o adulto deveria saber que um bebê tem necessidades mais vitais e mais urgentes do que as dele. Um adulto deveria ter aprendido a esperar, a adiar e, até, a renunciar. Para a boa e velha psicanálise, é isso que a gente “ganha” quando passa pelo tal do complexo de Édipo. Presente de grego? Sim, literalmente. Mas é uma beleza saber disso par lidar com a vida, com as impossibilidades da vida e com as frustrações que fazem parte de estar vivo.
  6. “Ah, mas então esse pirralho que fique ali frustrado, esperando, porque ele tem que aprender desde pequeno que não pode ter tudo o que quer… tem que ter limite, não pode dispor assim de tudo e de todos em função dos seus desejos.” Assim disse o cara que vê as necessidades de um bebê como desejos e caprichos e que vê os seus desejos como necessidades tão fundamentais que deveriam passar na frente daquelas que o bebê tem. Hummm… precisa explicar onde está o problema? Senta ali e pensa mais um pouco.
  7. “Mas isso dura quanto tempo? Porque, ok, eu sou um cara legal e fico de boa aqui, durante um mês, fazendo o meu papel de pai esmerado e marido compreensivo… mas tudo tem limite, né?”. Tem, tem mesmo. Mas, infelizmente, nesse caso quem coloca o limite não é você. A não ser que queira botar limite no casamento por não respeitar esse começo fusional e importante da experiência da maternidade. Mesmo que você possa argumentar, com todo o verniz psicanalítico que te parece muito útil nesse momento, que “o pai precisa entrar na relação entre a mãe e o bebê e estabelecer um terceiro nessa relação, um corte, um limite”. Mesmo que você argumente que sua interferência e sua reivindicação são legítimas e para o bem da criança. Porque, novamente, você está usando algo para o que te convém. Do mesmo jeito que usa sua mulher-objeto, usa esse argumento do terceiro. E porque, qualquer um que considere com o mínimo de seriedade esse argumento psicanalítico sabe que as relações mãe-bebê que se tornam doentias e coladas são uma minoria. E que a dependência é uma necessidade do bebê para a qual a mãe se presta. Felizmente. E que o terceiro vai entrar de todo o jeito. Que você vai entrar de todo o jeito. Porque você existe. E o mundo existe. E se você parar de ser um babaca e for mais humano, cuidadoso, sensível e respeitoso com a sua mulher e com as necessidades do seu filho, ela não vai precisar ficar lutando contigo para proteger as necessidades básicas dele. E vai ser muito mais fácil dela deixar você estar perto. Até para transar, cara.
  8. Se ainda não ficou claro, vou dizer de outro modo: se você for infantil o suficiente para encarar a paternidade como uma competição com o seu filho recém-nascido pela atenção da sua mulher, e se você cair na besteira de ficar concorrendo com ele como se os dois estivessem no mesmo lugar, e se insistir em ficar dificultando ainda mais a vida da sua esposa nesse momento que já é tão difícil, delicado e sensível… quem vai perder é você. Anota aí em caixa alta, que essa é quase uma certeza absoluta: SE OBRIGAR UMA MULHER A ESCOLHER ENTRE VOCÊ E O FILHO DELA, ELA VAI ESCOLHER O FILHO. Quantas mulheres vocês conhecem que fizeram o oposto disso? Por pressão social, tradição cultural, instinto, ou simplesmente porque a pessoa tem o mínimo de noção para perceber que botou um ser no mundo que precisa dela e pelo qual ela é responsável… adivinha quem vai ganhar se você entrar nessa competição baixa, mesquinha e perversa? Não é você, cara.
  9. “Ah, mas então é ela quem vai perder porque eu vou procurar fora o que não tenho em casa!”. O mais triste nesse argumento, para mim, é que tem muita mulher que acredita nele. E fica com medo. Medo de perder o machistão ogro que é capaz de ameaçar mesmo que tacitamente uma mulher que acaba de gerar um filho dos dois com essa história de transar com outra. E a última coisa que uma mulher quer, logo que tem um filho, é se separar logo em seguida. Ou durante a gravidez. E é incrível como isso é mais comum do que temos notícias. E, podem anotar aí como mais uma quase certeza absoluta: para uma mulher se separar grávida ou recém parida é porque a coisa tem que ser muito, muito séria, muito grave. Porque ela certamente vai ter muito medo de ficar sozinha com tudo o que envolve ter um filho, ela vai ter tanto medo de se separar nessa hora que vai se dispor a engolir muita coisa. O que significa que um cara, para conseguir que uma mulher vá embora grávida ou com bebê nos braços precisa fazer uma asneira descomunal, tipo achar que tem razão em ir “procurar fora”.
  10. Então, colega, se você cogitou mesmo que remotamente em arrumar uma amante, uma peguete, um casinho ou mesmo uma história de uma noite no exato momento em que sua mulher está às voltas com o turbilhão que é ser mãe, deixa eu te dizer que você está correndo um risco imenso. Mesmo. Você está em sério perigo. Porque, na minha humilde opinião, traição nunca é algo bom. E porque uma mulher traída num momento desses é uma mulher que tem medo, mas também é uma mulher que tem uma coragem colossal de te mandar pastar. Os casais têm ou teriam mil maneiras de construir suas relações levando em conta que querem ter outros parceiros, poliamor, triângulo, poligamia serial ou o que quer que funcione para cada casal específico. Cada casal constrói sua relação e quanto mais abertos estejam a estar com o outro de maneira sincera e menos dispostos a adotarem qualquer clichê besta sem nem ao menos pensar se isso serve a eles, mais chance a coisa tem de dar certo. E mentir e trapacear não fazem parte do pacote. Nunca. Mentir e trapacear são coisas de gente que não assume o que quer, nem para si, nem para o outro. E que não corre o risco de construir ou encerrar uma relação por assumir o que quer. Mentir e trapacear são coisas de quem quer ter tudo, de quem não quer perder nada. E de quem não quer ter que pagar o preço de nada. O ogro lá de cima. O machista. No limite, o perversão de plantão. O narcisista. E, se além de mentir e trapacear você decide que a gravidez da sua mulher ou o pós-parto são momentos legítimos para você sair por aí exercendo o seu direito de transar com quem quiser… Bom, tudo o que posso te dizer é que na hora em que ela ficar sabendo vai ser muito difícil para ela conseguir te perdoar. Porque sempre que ela olhar para o filho, ela vai lembrar que estava sozinha enfrentando todo o perrengue do começo de vida com um bebê enquanto você se afastava, se desimplicava, se desincumbia. E se não é raro que mulheres e casamentos sobrevivam após traições do cara-metade, traições durante gravidez e puerpério raramente terminam em outra coisa que não uma separação em um péssimo momento. Com direito a muito sofrimento para todos. Volta para o início do jogo e nasce de novo. De preferência com um coração que funciona, ok?

Não se preocupe que eu volto para acalentar seu coraçãozinho perturbado com uns do & don’t mais simpáticos na continuação desse post. Que antes de poder ser simpática, generosa e construtiva era preciso esclarecer algumas coisas bem sérias que as mulheres dificilmente conseguem falar com seus parceiros quando o assunto é sexo depois de ter filhos. E que já era hora de alguém dizer.

 

Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.

O oitavo mês

Nunca pensei que fosse usar uma imagem dessas em um post, mas acho que vocês vão me entender e perdoar minha licença poética brega assim que terminarem a leitura.

Sabe aquele malfadado filme, o Titanic, aquele mesmo do malfadado Di Caprio e da Kate diva que fez toda uma geração chorar oceanos gelados no cinema ouvindo aquela aguda daquela Celine Dion?

Então.

Sabe aquela cena um pouco antes do navio afundar de vez em que eles vão subindo feito uns malucos, escalando objetos, madeiras, gente e tudo o mais até chegar lá no topo de um navio bizarramente vertical?

Eis o oitavo mês de gestação.

É assim. É o pega pra capar. O salve-se quem puder.

Eu aceitaria feliz uma gravidez de elefante que durasse uns dois anos se a gente pudesse pular o oitavo mês. Quem em sã consciência inventou esse oitavo mês, minha gente? Foi a natureza querendo tirar uma com a nossa cara?

Explico-me.

Você acorda um dia e se olha no espelho e a sensação que tem é que a partir daquele momento, ali, em você, naquele seu corpitcho não cabe mais nem um suspiro. Não cabe mais nada ali dentro. E ainda falta um mês! Aonde é que vai caber mais um mês de bebê crescendo nessa barriga?

Aliás, você simplesmente nem mais suspira, porque o pequeno rebento, quando sente algum espacinho extra, alonga os pés nas suas costelas e daí, colega, é uma briga de foice para ver quem vai ficar com aquele vão que se desocupou quando o ar saiu de seus pulmões. É meu! Não, é meu, meus pulmões estavam aí primeiro, espertinho, eles voltam para aí assim que forem inspirar novamente!

Andar sem pensar na cena do T-Rex do Jurassic Park? E consciente de que o T-Rex é você? Oitavo mês. Pois é, eu disse que esse post estava infame em termos de referências filmográficas. Nenhum Bergman, nenhum Tarantino, nenhum Woody Allen. Só o T-Rex e você tentando pisar leve e não acordar a casa toda nas 50 vezes em que precisar fazer pipi.

Aliás, quem inventou o oitavo mês podia ter inventado o pipi que evapora ao invés de ter que sair pelas vias urinárias, né? Uma visita ao banheiro, para cada ml. de água consumido. Mas não é para ficar hidratada? Não pode mesmo tentar fazer o camelo e estocar água numa corcova qualquer para não ter que expelir? Ah, pois é, tinha esquecido, tem o bebê na corcova, não tem espaço pra estocar nenhuma água além do líquido amniótico que o rebentinho bebe e solta ali mesmo, sem ter que levantar para ir no banheiro 50 vezes por noite. Sortudo do caramba.

E fora a água, não tem mais muito o que possa entrar no corpão. Comida? Para por onde, minha gente? Entra um biscoito, seguem-se cinco horas de azia, tudo entalado na garganta, que o bebê ainda não conseguiu alongar as pernas até ali. Você já consegue se solidarizar com todos os seres com refluxo dessa terra, já considera que há alguma lógica na bulimia e tem absoluta certeza que seu estômago está mais comprimido que o ar daquele cilindro de mergulho que sempre te juraram que dava para usar por mais de uma hora, de tanto ar que tinha ali dentro compactado.

Hormônios? Hahaha, pelo menos aqui encaixo uma referência cult. Sabe o Jack do Iluminado? Ele sairia correndo de você com o rabinho entre as pernas. Oitavo mês, don’t mess with me. Nessa hora, cara-metade que for espertinho já entendeu que melhor não contrariar, melhor não argumentar, melhor nem existir muito. E continuar comprando papel higiênico, pão para o café da manhã e biscoitos. Porque, vai que, né? Dormiu bem? Conseguiu descansar, meu amor? Cuidado, você corre um sério risco de tornar-se a próxima vítima do Jack, the ripper.

E os olhares de piedade das pessoas a cada vez que te encontram? Nossa, você está enooooorme! Faz quanto tempo que a gente não se vê? Uma semana, dez dias? Sim, dez dias de oitavo mês, seus pentelhos. Aquela expressão de temor de que você exploda ali do lado a qualquer minuto e voe bebê, placenta e todos os biscoitos que ficaram entalados e que eles precisem ajudar em algo. Valeu, gente. Valeu, mesmo. Tô me sentindo bem melhor agora.

Ah, mas é o último mês… É a reta final…

Justamente, é como naquele game maneiro em que você chega na fase bonus master plus. Você é praticamente uma mestre Jedi da gravidez, já encarou enjôo, sono, ganho de peso, mudanças hormonais, desejos estranhos, exames mil, decisões importantes, apreensões desnecessárias, comentários infames? Lide com o oitavo mês, minha cara, e depois a gente conversa. Um mês sem enxergar seus artelhos, seus pentelhos, seus joelhos e vamos ver quem não pede para sair. Você pede, mas o bebê parece não estar nem um pouco apressado para sair da sua barrigota. Putz!

A loucura da faxina? Foi no sétimo mês. Você já varreu, já limpou, já montou o berço, já decorou o quarto, já lavou as roupas, secou, passou, separou por tamanho, depois tirou tudo, mediu uma por uma porque as numerações não significam nada, arrumou de novo, preparou a mala da maternidade, sentou, pensou na vida, tricotou um gorrinho, arrumou o quarto de novo que começava a pegar poeira, lembrou de umas três ou quatro coisas que faltavam… Nada mais para fazer a não ser esperar. O médico solta aquela pérola: à partir de agora, é com ele. Pois é. Oitavo mês.

Seria uma espécie de humor negro da natureza esse tal de oitavo mês? Um mês que dura uns 365 dias de 48 horas cada um não pode ser algo normal, vai…

A volta da barriga

Nesse longo e nada tenebroso não inverno, uma das novidades é que a barriga voltou. Literalmente. Sim, vem aí o segundinho. Sim, é menino. Sim, já está quase na hora de parir e eu apareço com uma dessas. Gente, oi, acho que tô grávida… já nasceu! Hehehehehe. Se vocês querem saber como é estar de barriga do segundo rebento, eis aí um belo exemplo que diz quase tudo sobre o assunto: não dá tempo de elocubrar muita coisa. Quanto mais escrever. Mas, tudo bem, vamos ao tableau comparativo entre a primeira e a segunda gravidez, para dar um toque de humor à coisa:

  • Na primeira tudo é descoberta, tudo é novidade, você espera ansiosamente por cada manifestação do corpo, cada mudança, cada consulta médica, cada enjôo, cada movimento do bebê. Na segunda você se lembra, de sobressalto, que está grávida quando começa a ter azia 24 horas por dia. E lembra que não gostou nem um pouco disso na primeira vez. E fica de mau humor pensando em como vai fazer para comer e alimentar o rebentinho se tudo parece nhaca. E depois relembra que está grávida quando o pequeno começa a mexer, muitos meses depois que o enjôo e a azia passaram. E, dessa vez, você gosta disso. Como gostou na primeira.
  • Sim, o fato de já existir uma criança muda tudo. Muda sua disponibilidade, muda o seu tempo, muda os seus investimentos e a maneira como você se organiza entre gravidez e criança que já está ali saracoteando pela vida. Muda a atenção que você pode dar para essas duas experiências tão intensas, estar grávida e ter um filho. Mudam coisas em relação ao pequeno que está aí por conta da gravidez. Mas muda também sua condição de se fechar num casulo e ficar alisando a barriga o dia inteiro. Você não necessariamente fala muito com o bebê na barriga. Mas, sem neuras, porque tua filha bate ali na pança como se fosse uma porta e solta um “oi, bebê, tudo bom?” de quando em quando. E imagino que deve ser uma diversão pro miudinho ali de dentro escutar aquela farra toda ali fora da qual logo mais ele vai poder participar.
  • Em três, vocês já eram uma família. Em quatro, se ainda existiam dúvidas sobre o por acaso daquela relação que começou a dois, elas se dissipam. Mais família do que projetar um segundo filho depois de ter tido o primeiro, com a mesma pessoa, depois de todas as dificuldades e desafios que a chegada de uma criança traz para um casal e para a vida em casal… mais aposta do que isso em aprofundar a relação, em construir junto, em ser um casal, em viver essa experiência juntos, só se sair tendo um quinto, um sexto… Ou se começar a construir casa, comprar terreno, criar cachorro, abrir conta conjunta… sei lá…
  • As pessoas não têm a mesma reação que ao longo da primeira gravidez. Nada de uau, que demais, vamos comemorar, eu te paparico durante nove meses, viva! Está mais para: parabéns, que bom, pega ali aquele saco de supermercado que você esqueceu no corredor… Putz!
  • As perguntas e comentários sem noção não deixam de existir, mas pelo menos mudam, o que te dá direito a ouvir novas barbaridades e a imaginar como seria dar aquelas novas respostas que você tem ali na ponta da língua.
  • Outro? Mas já? Que coragem! Bom, pelo menos cria tudo junto, né? Pois é, a gente estava sem nada para fazer mesmo, decidimos inventar qualquer coisa para nos entreter.
  • Mas como foi isso? Foi planejado? Olha, eu já tive que te explicar na primeira vez, vou ter que contar a história da cegonha de novo agora?
  • Que loucura, agora que estava tudo melhorando, que a pequena estava crescendo, vai começar tudo de novo? Por que, é você quem vai criar?
  • Agora vai ter que parar de amamentar a mais velha, né? Talvez você não saiba, mas existe amamentação en tandem. E, não se preocupe, a mais velha não vai tomar todo o leite do pequeno e deixá-lo morrer de fome, não é assim que a coisa funciona. Mas, bom, se já te perturbava o simples fato de eu amamentar uma por um período tão longo, imagina amamentar dois? Cuidado para não dar nó na sua cabecinha e você ter que procurar um psicanalista, hein?!
  • Um menino? Que bom, vai ter um casalzinho! Sério, gente, como assim? Alguém me explica essa, por favor. Fico com medo de achar que as pessoas não percebem que o comentário delas beira o incesto.
  • Ou então: ah, um menino? Agora você vai ver o que é bom para a tosse! Poxa, obrigada por vir me dizer que minha vida vai piorar muito pelo simples fato do segundo bebê ser um menino e não uma menina, como se gênero determinasse o quão endiabrada uma criança pode ser.
  • Ah, você vai ver, menino é totalmente diferente! Espero, para o bem da psicanálise que eu prezo tanto, que sim, que exista mesmo uma diferença. Mas também espero que essa diferença não consista num estereótipo barato de como as meninas e os meninos são. São duas pessoas distintas, elas serão inevitavelmente diferentes. Nem se fossem gêmeos, não teria jeito. Ser diferente não é condenação, ou é?
  • Vai ter que brincar de carrinho, jogar bola… Minha filha brinca de carrinho. E joga bola. Meu filho vai brincar de boneca. E de casinha. De novo, são pessoas, não clichês ambulantes. Cada um vai ser como quiser e viver como lhe fizer sentido. E ambos terão iguais oportunidades de descobrir o mundo, sem barreiras de gênero.
  • E o nome? Já escolheu o nome? Já, mas dessa vez não vou te falar porque não estou afim de escutar que o Felipe é seu ex-marido, aquele crápula, que todos os Luiz que você conhece são uns chatos, que Vinícius é um capeta, que se fosse você, chamaria o rebento de François… Vá ter um filho e dê a ele o nome que você achar melhor. Ou adote um cachorro, um gatinho e chame ele de François. É fofo e super simpático.
  • Vai nascer na França de novo? Outro francesinho? Yep, outro franco-brasileiro. Por que não vem ter aqui no Brasil dessa vez? Porque quero ter meu filho ao lado do meu cara-metade. E da minha filha. E não quero ter que pagar para não ter cesariana. E pagar mais ainda para ter um parto respeitoso e humanizado. Nope, aqui é um país bem complicado em termos de gravidez, parto e pós-parto. Mas, nesse quesito, o Brasil ganha de lavada em oferecer e fazer o pior. Tô fora.
  • Por outro lado, os comentários e as intervenções arbitrárias dos médicos e eventuais outros cuidadores que acompanham a gravidez parece que se amenizam muito quando se trata de um segundo. É como se o fato de ter parido um primeiro te desse algum crédito para tomar as rédeas e fazer do seu jeito no segundo. Quando, na verdade, você deveria ter sido escutada desde o primeiro, mas isso é outro assunto. Segundão? Você tem crédito. E, não, não é o milagre da transformação da água em vinho, é apenas um mínimo de consideração e respeito vindo de um lugar que continua intervencionista, medicalizante e autoritário. Mas isso também é outro assunto. Em resumo: você já provou que pode parir, então a equipe médica te dá uma certa trégua no acompanhamento da gravidez. E quando você diz: não vou fazer isso, eles até te escutam. Ohhhh!
  • Você quer parto humanizado, sem anestesia, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem puxo dirigido e afins? Ah, você pariu assim a primeira? E correu tudo bem? Ah, então não há porque não possa ser assim novamente, né? Pois é, pedro bó. Agora me deixa aqui quietinha cozinhando o meu pãozinho e não me venha com essa de toque vaginal, depistagem da trissomia, milhares de exames, trocentos ultrasons e tudo o mais que você tem para oferecer nesse seu mercadinho das inutilidades tecnológicas para grávidas, ok?
  • Na categoria “sangue no zóio”, o mais difícil é aturar os comentários dirigidos à sua filha, que está ali de boa, vivendo a vida dela e tem que lidar com pérolas do tipo: tadinha, perdeu o trono. Ah! Agora vai ter que dividir tudo com o irmãozinho. Ah, a mamãe vai estar ocupada. Xi, perdeu a atenção. Quem é que sabe como vamos ser, minha filha e eu, com a chegada do irmãozinho dela? Shut up, people. Depois as pessoas reclamam que os mais velhos têm dificuldades em lidar com a chegada dos mais novos. Mas não pensam que os comentários super construtivos com que premiaram os ouvidos dos pequenos tenha algo a ver com isso, né?
  • E, no quesito esquizofrenia pura, ainda bombardeiam os pequenos com as pérolas opostas, no melhor estilo: vai perder o trono… mas está feliz que vai ter um irmãozinho? Você vai ter com quem brincar! Você gosta do irmãozinho? Gente, fala sério: nós que somos adultos mal conseguimos representar a existência de um outro ser enquanto ele está dentro da barriga, que loucura é essa de supor que uma criança pequena deveria entender o que significa “tem um bebê ali na barriga”? E quem disse que o bebê vai brincar com ela? Bebê recém nascido brinca, por acaso? Não dá nem para fazer de boneca, pintar a cara com canetinha, arrancar a roupa, arrastar para lá e para cá e dar comidinha. Deixem a criança descobrir no tempo dela o que isso significa. Deixem ela em paz para viver a experiência dela. Para ignorar, para perguntar, para falar, para tocar a barriga, para gostar ou não gostar, para achar o bebê um tédio quando ele nascer, para ter ciúmes ou o que quer que seja. Deixem a coisa acontecer, dêem um pouco de sossego para todos. Ah, tinha esquecido, as pessoas não resistem quando se trata de falar bobagem sem pensar.
  • De todo modo, quando você passou pela experiência de parir o primeiro filho, de maneira humanizada principalmente, isso te dá uma baita confiança em relação ao segundo. Você sabe que pode parir. Você sabe que o bebê pode nascer. Então, aqueles medos e desconhecimentos e ansiedades da primeira gravidez ficam bem distantes. Não que cada gravidez não seja diferente e que cada parto não seja único, mas a confiança em parir, no seu corpo, no seu bebê são algo que você ganha com o primeiro e leva para o resto da vida. Inclusive para os rebentos seguintes. Essa segurança te acalma durante a gravidez e te ajuda a focalizar no que é importante.
  • Preocupações? Apenas com o que você descobriu ser essencial ao longo dos últimos dois anos. Berço? Nhééé. Carrinho de bebê? Nhééé. Quartinho do bebê? Nhéééé. Chupeta, mamadeira, leite em pó? Hahahahaha. Fortuna gasta em roupinhas? Não, apenas uma coisa ou outra. Especialmente para o frio, porque esse nasce em pleno inverno. Toda a parafernália de banho? Nhéééé. Sling? Sim, sim, sim! Fraldas? Putz, verdade, tem que comprar fraldas em dois tamanhos agora, hein? Como é que era mesmo essa história de limpar o umbigo?
  • No quesito roupa de grávida, é assim: você usa suas roupas mesmo o máximo de tempo possível. E depois usa aquelas da primeira gravidez que não jogou fora porque, vai que, né? E depois bota o casaco de inverno com um cachecol de lã na frente para proteger a parte que fica aberta, porque o zíper não fecha e nem pensar que você vai comprar casaco de inverno num tamanho maior.
  • E você se acha linda. E se acha feia. E acha que a barriga está imensa, porque ela aparece mais rápido. E se irrita com aquela parte chata de andar feito pata e de não conseguir posição para dormir à noite. E se lembra que não tirou uma foto da barriga por mês e já pensa que o segundo rebento vai fazer mais tempo de análise que a primeira porque você não ficou ali, em cima, olhando o tempo todo para cada detalhe com olhares embevecidos. E depois se tranquiliza achando que ele vai te agradecer por você ter dado sossego para ele crescer em paz ali na barriga, sem ficar aporrinhando o tempo todo com um excesso de presença. Mas então isso significa que é a primeira que vai fazer anos de análise por conta do seu hiper investimento? Putz!
  • O essencial? Segunda gravidez é menos consumismo, menos superficialidade e mais consciência do que realmente importa. E mais confiança no que você viveu, no que você pode e no que você faz. E mais confiança no seu bebê. E uma convicção de que tudo corre bem na imensa maioria do tempo. E que sábias eram as nossas avós que ficavam em silêncio, tricotavam casaquinhos e viviam a vida, normalmente, sem fazer de tudo isso um espetáculo.

E o amor? Já ama os dois igual? Eu, particularmente, detesto essa obrigação do tudo igual para os dois, como se alguém pudesse sentir e agir igual, indiscriminadamente, sem levar em conta quem é a pessoa que está ali na sua frente. Quem faz tudo igual para todo mundo é, a meu ver, porque não percebe ninguém. Amor de mãe é algo que se constrói na convivência com o filho, é aquele troço que aumenta e transborda cada vez que você pensa que nem teria como amar mais. É na descoberta e na convivência que você ama. Então, você não ama o bebê? Amo, como se pode amar um bebê que ainda está na barriga. Amo a idéia dele, amo o fato dele existir, amo a curiosidade de conhecê-lo, de ver como ele é, de ver como ele vai descobrir esse mundo. Amo a perspectiva dele junto com a gente, nessa nossa família. E amo a minha filha pelo que ela é, por tudo o que vivemos até hoje, pelo jeito como ela é nesse mundo, pelas suas singularidades, por suas descobertas. É muito diferente. E não sinto a menor obrigação de amar igual essas duas pessoas tão diferentes, em momentos tão diferentes da existência e com as quais tenho uma convivência e uma relação tão distintas. Confio no amor que tenho pela minha filha. E confio no amor que vai se construir entre eu e meu filho. Ponto.

Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.

Cagar regra ou tomar posição?

Uma das coisas que mais admiro nos franceses é a capacidade que eles têm de discordar. Foi na universidade que me dei conta disso pela primeira vez. Enquanto que, no Brasil, a grande maioria das discussões universitárias ou atividades afins se resume a uma conversinha estéril onde um elogia o outro, faz um comentário de trinta minutos para mostrar erudição e termina com uma pergunta retórica, aqui as pessoas não têm medo de discutir realmente o tema em torno do qual se agrupam. É até uma demonstração de respeito pelas idéias apresentadas, desde que você lhes dê algum valor, discuti-las e, se for o caso, discordar, argumentar, questionar. Os franceses adoram uma boa conversa e debater é com eles mesmos.

No Brasil, discordância é sinônimo de briga e já testemunhei nas mais diversas circunstâncias situações em que pessoas discordavam, ousavam dizer isso em voz alta e quem estava ao redor – e até mesmo as próprias pessoas – descreviam o acontecido como um conflito. Lembro de uma das melhores defesas de doutorado que assisti, em que um professor querido defendia sua tese e, na banca, ao menos três luminares da psicanálise debatiam com gosto suas idéias. Bem no estilo francês, coisa rara de se ver, muito longe do rapapé usual, chato e imbecilizante. Um colega que estava ao meu lado comentou, em certo momento: “mas eles estão brigando”. Respondi: “não, eles estão é se divertindo pra caramba”. E estavam. Debater idéias que julgamos serem boas dá um prazer imenso. Pensar é muito prazeroso e discutir pode ser extremamente divertido. E nada disso tem lugar na unanimidade forçada dessa nossa mentalidade cordial, em que nada é dito a não ser pelas costas.

Pois bem, essa associação entre discordância e rivalidade que eu presenciei na universidade milhares de vezes é apenas um reflexo, a meu ver, de algo que traduz bem o modo de ser usual da grande maioria de nós, brasileiros: frente à diferença, silenciamos, “deixamos quieto”. Ou, se dizemos algo, fazemos isso no nível da briga. Porque entendemos que o fato de alguém pensar diferente de nós é um ataque pessoal às nossas convicções, não uma diferença. E se o outro diz o que pensa e isso nos ataca, nossa resposta é atacarmos de volta.

A maior parte das discussões que vejo ou das quais participo nesse mundo maternália tem bem esse tom. Ou as pessoas se agrupam por seitas de iguais e cada um reforça o dito do outro com um elogio, um sorriso e mais do mesmo. Ou, pelo contrário, as pessoas de uma “seita” respondem a qualquer comentário publicado por algum diferente com um nível de violência e agressividade sem tamanho. O que foi escrito é tomado como um ataque pessoal e deve ser combatido à altura, a ponto de ser totalmente eliminado, para que a paz da igualdade volte a reinar. Assim como o silêncio.

Veja se não é estranho: uma pessoa lê um post, uma reportagem, uma publicação ou o que seja e entende que aquele sujeito – que ela nunca viu e que não a conhece – está criticando a ela, a seu modo de vida, às suas escolhas. Isso beira a prepotência, supor que uma pessoa escreva algo para te agredir, para te dizer que aquilo que você faz, o seu modo de criar seus filhos ou as suas escolhas em relação a isso são errados. Talvez não te ocorra pensar, especialmente porque nós temos muito pouca cultura e pouquíssimo hábito de debate, que a pessoa esteja apenas pensando, expondo uma idéia, qualquer que seja o valor e a relevância que ela tenha.

Então, quando mães defendem o parto normal, natural, humanizado, ou a amamentação, não estamos falando contra as mulheres que escolheram cesárea ou decidiram não amamentar os filhos. É como sempre digo: se você pensa a respeito de um assunto, se você se informa, se você tenta entender o que cada opção significa, se avalia os prós e contras e se decide por um certo caminho, parabéns. Assuma o que decidiu e vá ser feliz. Fique em paz. E tente considerar que ninguém está te condenando por suas decisões, ainda que existam pessoas nesse mundo que possam pensar que elas não são as melhores ou não são aquelas que essas pessoas fariam.

Ninguém é uma unanimidade. Nenhum modo de vida é “o certo”. O que podemos fazer de melhor é aprender a pensar, a questionar, a tentar entender o que significa aquilo que fazemos, o que decidimos, o que desejamos. Sondar o que está por trás do que acreditamos, do que defendemos, do que nos parece normal, ou melhor. E não ter medo de fazer essas perguntas. De ficar em dúvida. Nem de mudar de idéia. Essa é a posição de qualquer pensador, de todo cientista digno desse nome. E de qualquer pessoa que queira um pouco mais da vida do que passar por ela fazendo tudo no pilot automático, tomando o jeito como esse mundo é como uma obviedade, tendo certeza absoluta que tudo é do modo como pensa ser. De novo, muita prepotência acreditar que nós, em meio a tantos outros e no âmbito da imensidão que é esse mundo, esse universo e o tempo sejamos assim tão importantes para sabermos qual é a verdade. Mais realista ter um pouco de humildade, ser capaz de ouvir. E de debater.

Então, qual é a solução? Criar discursos neutros, que agradem a todos, bem leves, sem polêmica, para que ninguém se sinta atacado? É manter a nossa alma cordial reforçando o “deixa disso” e enchendo o mundo de idéias, textos e reflexões inócuas, irrelevantes e insossas? Isso equivale a dizer que sim, uma discordância é um ataque, uma diferença é uma ameaça e a melhor solução é chegarmos num pensamento único e nos pronunciarmos apenas dentro desse consenso. É dar razão para essa lógica de que debate é briga e que o pensamento é um ataque pessoal. Não conheço nada que tenha avançado num caldo da unanimidade, a não ser o fanatismo e a violência.

A solução é poder aguentar a discordância. E discutir quando achar que vale à pena. Lutar as boas batalhas. Sabendo que não é contigo ou comigo. É sobre algo que nos ultrapassa. Por isso, ao contrário do que fazemos tantas vezes quando queremos evitar conflitos, penso que o melhor seria assumir que eles existem e não vão desaparecer se formos gentis uns com os outros e falarmos apenas de assuntos superficiais. Melhor tomar posição e aprender a defendê-la. Mas o mais importante, ter em mente que, quando alguém publica algo em que defende uma posição, isso não é “cagar regra”, não é dizer como você deveria fazer, nem que aquilo que você faz é errado. Isso é, apenas, tomar uma posição. Baseada em muitas razões que talvez você desconheça mas que, possivelmente, existem. E precisamos de mais gente capaz de sair do discurso leve, elogioso e rapapé que tenta ficar “bonito na foto” com todo mundo. De mais gente capaz de dizer o que pensa e o porquê pensa assim. De mais gente que se dê ao trabalho de expor suas idéias. De mais discordâncias e mais consistência.

Não é contra você, mãe. É contra a lógica que governa muitas ações e escolhas nesse mundo da maternidade (talvez também as suas): a lógica da despossessão de si, da desvalorização da mulher, das potencialidades do seu corpo, do seu saber sobre si, sobre seu corpo, sobre seu bebê. É contra a medicalização daquilo que não é assunto médico, a não ser quando não ocorre como poderia: gravidez não é problema, nem doença, nem objeto da medicina. Isso é uma distorsão. Que aceitamos pacatamente, como se o médico pudesse mesmo saber mais do que nós mesmas sobre isso.

Assim como o parto, que também não é um assunto médico, a não ser quando há um problema. E os problemas são menores e em menor número do que dizem. Tudo isso virou assunto da medicina, por uma série de circunstâncias, mas não são assim em sua essência. Podem ser outra coisa, podem ser um espaço e uma experiência da mulher e do seu filho. Em que ambos sejam os principais agentes, os sujeitos da coisa toda.

Não é contra você, é contra a medicalização da gravidez, do parto, da maternidade, dos cuidados com o bebê, da infância. É contra mães e bebês tornados objetos de um saber que os exclui e os despreza. É contra não poder decidir e não poder saber de si.

Não é contra você, é contra a transformação da gravidez, do parto, da amamentação e da infância em uma indústria, em que o objetivo principal é gerar consumo, gastos, despesas. Em que o principal é consumir intervenções médicas, de preferência as mais caras e que pagam melhor. E leitos de hospitais. E mil e uma coisas que dizem que você precisa e que fazem melhor que você aquilo que dizem que você não tem competência para fazer. É consumir mamadeira, leite em pó, chupeta, brinquedos que deixem o bebê quietinho. É fazer a máquina rodar e mantê-la funcionando. A última prioridade é o seu bem estar. Ou o do seu filho. É contra essa inversão das prioridades.

Não há como ser cordial e defender uma posição. Defender uma posição é apresentar idéias, reflexões, informações, dados, argumentos. É assumir o risco de dizer que uma coisa é melhor que a outra. Ou que o que está por detrás de uma coisa é diferente do que parece e a torna suspeita e eticamente questionável. É correr esse risco. Não é um ataque. Não é cagar regra e tentar te dizer o que você deve fazer. Não é um julgamento da sua pessoa. É mais importante do que isso, do que eu e você. E vamos ter que lidar com essa nossa insignificância. Talvez discutindo?

A ditadura da balança…

… também nos assombra ao longo da gravidez. Putz!

E, nesse assunto, as informações são tão desencontradas que não dá para saber em que se apoiar. Há livros e textos sobre gravidez que falam de um ganho de peso entre 12 e 15 quilos. Outros falam de um ganho de, no máximo, 12 quilos. Outros ainda, de 1 quilo por mês. Mas a coisa é tão contraditória que eu tive que escutar do meu obstetra – que felizmente não é quem vai fazer o parto – ao constatar que ganhei 10 quilos, que era muito. E a enfermeira obstétrica que me acompanha, e que também achou 10 quilos demais, ainda teve a delicadeza de me dar um folheto com informações sobre como me alimentar para não ganhar mais nenhuma grama daqui até o final da gravidez. Oi? Sim, essa mesma enfermeira que achou excelente uma outra grávida que havia ganho apenas 2 ou 3 quilos até os cinco meses.

Como assim?

Não estou discutindo aqui a postura de um médico ou de uma enfermeira obstétrica específicos, mas o que isso pode traduzir de uma certa posição frente à gravidez bastante presente nos nossos tempos e que parece ser aquela premissa de que nada deve mudar tanto assim, apoiada ainda mais, nesse caso, pela ditadura da balança. Que não dá folga nem quando engravidamos. Também não estou discutindo aqui os perigos do excesso de peso durante a gravidez, tanto para quem começou com sobrepeso, quanto para quem ganha peso demais, ou de maneira súbita. Perigos para a mãe e para o bebê, tanto ao longo da gestação quanto para o parto. Esses já estão enumerados e discutidos em muitos textos, livros e blogs bem mais aptos do que este a tecer considerações sobre o tema de maneira científica. Minha questão é: dados alguns parâmetros, que se pode discutir cientificamente ou acatar, o que acontece que, mesmo estando dentro deles, existem médicos e outros profissionais de saúde que insistem em te dizer que você está engordando muito?

Penso que temos uma relação com nossos corpos e com o nosso peso que é bastante complicada antes mesmo de engravidarmos. Governadas pela imposição de que um corpo belo e desejável é um corpo magro e esculpido, temos na experiência da gravidez um momento que vem desafiar essa imagem de maneira frontal. Temos que ser magras e passamos dias e noites entre a vigilância constante desse corpo, de suas calorias, dos cuidados com a alimentação que não são exatamente cuidados, mas uma tirania que retira qualquer prazer ligado ao comer e o substitui por culpa… Então, passamos a vida inteira em torno disso e, de uma hora para a outra, por conta da gravidez, devemos nos permitir engordar?

Vejo constantemente outras grávidas falando ou escrevendo sobre seu peso, sua dieta, os exercícios que faziam e que mantiveram após a constatação da gravidez, seus ataques culpados e esfomeados à geladeira… Falas cheias de ambiguidades, como não poderia deixar de ser, visto que saímos da imposição do “seja magra e tenha um corpo escultural” para “você vai ter que engordar porque tem um bebê aí e vai ter que ter uma barriga… mas não muito, hein?”. Como não se angustiar? Ou, ainda, passamos os nove meses num estado de exceção banhado pela preocupação em “voltar à velha forma” logo depois do parto, incentivada por infinitas reportagens sobre como perder peso rapidamente depois da gravidez, como reaver a barriga tanquinho de outrora e, crueldade das crueldades, matérias repletas de imagens mostrando beldades e celebridades com seus corpos esculturais logo após terem parido.

Certamente que isso, essa tirania do corpo magro e escultural, se reforça ainda mais em um momento em que o que devemos aprender vai justamente contra tudo o que havíamos escutado até então. Durante a gravidez, não pode fazer regime, não pode perder peso e a barriga redonda só faz aumentar, aumentar, aumentar… Quem, tendo sido bombardeada até então pelos ideais de beleza e de corpos desejáveis e saudáveis não enlouquece numa hora dessas? Não espanta a corrida para voltar à forma depois, a gravidez parece que se tornou um intervalo em que o mundo concede, cada vez menos e cada vez de maneira mais intolerante, restrita e culpabilizante, um pequeno espaço em que o corpo pode respirar e tomar as formas compatíveis com a sua condição. Aí cabe o incentivo às mães que ganham cada vez menos peso. Elas vão mais rapidamente voltar ao ponto de partida, ao que é considerado perfeito. E o discurso circundante parece reforçar: não pegue muito gosto, hein? Acabam-se os nove meses e você trate de voltar ao que era antes!

Voltar ao que era antes, voltar à velha forma, do que as pessoas estão falando exatamente? Não será daquele ideal mal-dissimulado que se instituiu em nossas subjetividades hoje em dia de que gravidez, parto e maternidade devem ser experiências que não afetam muita coisa em nossas vidas? Nossos corpos mudam, mas não muito. Nossas rotinas mudam, mas nem tanto. Tudo deve ser vivido com uma leveza que beira a superficialidade, sem deixar muitas marcas, sem mudar corpo, alma, rotina, objetivos, projetos.

Por que o corpo deve “voltar ao que era antes”? Isso não seria negar que esse corpo gerou, gestou, abrigou um outro ser, mudou, adaptou-se, deformou-se, adquiriu novas formas e novos contornos? Um corpo que foi marcado pela maternidade, como ele poderia ter a forma do “como se nunca tivesse acontecido”?

Não vou entrar no mérito de que possa ser melhor ou pior, mais belo ou mais feio, maior ou menor porque não é isso o que interessa. A questão é por que compramos o ideal de que esse corpo tem que voltar a uma condição que deixou de existir? E em que medida essa ditadura da magreza, do corpo escultural que não registra nem reconhece as marcas do tempo e das experiências, e que é tão melhor e mais valorizado quanto mais ele seja capaz desse apagamento, dessa uniformização, dessa despersonalização, não é um ideal que levamos também para a gravidez, inibindo ganho de peso, redondices e afins? Ou seja, inibindo algo que faz parte da gravidez e que é até necessário para que ela transcorra bem?

Não é fácil ganhar peso e experimentar todas as mudanças do corpo, mudanças de eixo, de equilíbrio, de posição. Não é fácil para pernas e costas sustentarem quilos a mais. Nem para barrigas redondas se acomodarem na cama, no sofá, nos espaços exíguos das passagens públicas. Mas é uma das mudanças que estar grávida implica.

Mesmo mantendo uma alimentação bastante equilibrada, fazendo exercícios e tendo bastante cuidado com esse fantasma do peso, ganhei 10 quilos. E sabe que acho isso um motivo de orgulho, mais do que de constrangimento? Significa que consegui, em meio a essa pressão exercida, desde o médico às matérias de revista, guardar alguma independência e alguma distância. O suficiente para deixar o corpo adaptar-se à mudança. O suficiente para não querer evitar isso a todo custo. O suficiente para deixar-me guiar pelo bom senso, mais do que pelas imposições que se preocupam menos com saúde do que com aparências. Ainda bem.

Menção mais do que honrosa a Kate Middleton e a Kim Kardashian que, contra as tendências, imposições e ideais pré-concebidos, mostraram orgulhosamente como é um corpo que pariu (no caso de Kate) e como pode ser um corpo de grávida que não se abala com muitas tiranias (no caso de Kim).

Amamente!

(en français)

Essa é a Semana Mundial da Amamentação. Aqui na França, as mulheres têm uma relação bem estranha com o amamentar e a maioria escolhe não fazê-lo, pelos motivos os mais variados. Acho paradoxal como em um país onde o parto normal é a regra, amamentar seu bebê possa parecer algo tão extraordinário. Parece, para mim, um análogo do que é a cesariana no Brasil, que ganhou uma máscara de escolha da mulher, quando não se trata disso. Amamentar, mais aqui do que aí, parece descolado da maternidade, uma opção em que questões como peitos flácidos e caídos (oi?) ou uma certa repulsa a um ato considerado como mais animal e, por vezes, até degradante para a mulher (!!!) engrossam o caldo cultural que faz com que a maioria, nos cursos de preparação ao longo da gestação, estejam mais interessadas em saber qual mamadeira comprar e qual marca de leite dar. Triste. Tanto que existem campanhas muito fortes de amamentação nas maternidades daqui.

Penso que amamentar faz parte da maternidade. Assim como gestar e parir. São coisas que não deveriam acontecer quando existe um real impedimento para as mesmas. Não são escolhas, ou melhor, são escolhas que são assumidas no exato momento em que aquela mulher decide ter um bebê. Ter um bebê implica certas consequências, como gestar (se não for o caso de uma adoção mas, ainda assim, há um gestar da mãe adotiva também), parir, amamentar. Ou seja, ter um bebê implica um compromisso e uma boa dose de dedicação. Não dá para ter filhos e seguir a vida sem mudar nada. Isso, a meu ver, não é ter filhos. É apenas seguir o “vai da valsa”, como se fosse algo obrigatório a se viver… uma decisão padrão que tem muito de padrão e pouco de decisão. Ou, pior ainda, um gesto de consumo: viajar, comprar casa, apartamento, ter cachorro, ter filhos… tudo na mesma lógica de consumo, tudo no mesmo balaio. Nisso, perde-se o pé e deixa-se de lado o fato de que existe ali um outro, uma pessoa, um ser humano que não é produto de consumo, mas alguém que precisa de cuidado, amor e carinho. Que sentido faz ter filhos sem muita implicação com esse outro que está ali e depende de quem o cria para viver e, mais ainda, para viver com alegria, dignidade e tranquilidade? Que sentido faz ter filhos sem assumir as consequências, as mudanças e as implicações desse ato? Não compreendo essa distorção tão presente em nosso tempo e em nossa cultura. Ou melhor, compreendo que ela é fruto de nossa ideologia de consumo atual. Mas não aceito.

Enfim, tudo isso para dizer que amamentar faz parte do projeto “ter filhos” e que penso que, no Brasil, estamos muito mais conscientes disso do que na França. Ainda bem!

Mas hoje, principalmente, quero deixar vocês com o excelente texto da Ligia do blog Cientista que virou mãe sobre a importância do apoio à amamentação por parte do marido, da família e dos próximos. Mãe parida é mulher que precisa de apoio, reconforto, ajuda e incentivo. Não palpite, crítica e desencorajamento, viu, minha gente? Leiam o texto, vale a pena.

Então, amamentem. E, quem está ao redor, cuide tão bem dessa mãe quanto dessa criança que acaba de chegar. A gente agradece.

*** Em tempo, encontrei recentemente um post antigo da Renata Penna no blog Mamíferas tratando do mesmo assunto, sob perspectiva bem semelhante àquela que discuto aqui. A amamentação como um dever que faz parte do pacote da escolha de ser mãe. Muito bem escrito. Vale a leitura!