Oito meses, barrigão e verão europeu…

… socorro! Fujam para as montanhas! Ou não, porque até nas montanhas o sol está de lascar. Ninguém deveria estar em final de gravidez em pleno verão. Ou ninguém em sã consciência. Mas queria o que, né? Fazer contas e calcular a melhor época do ano para ter o bebê, consultando a previsão do tempo, os astros, a programação cultural e a agenda dos movimentos sociais? Não, a vida não se calcula dessa maneira. Ainda bem. Sempre é bom constatar que existe lugar para o que foge ao controle, ao plano, ao pré-estabelecido. Não somos máquinas e a vida não segue o nosso script pré-formatado. Mas, putz!

Temperaturas acima dos 30°C + barrigão gigante = inchaço, cansaço, dificuldades mil. Como proceder?

Não sei, os miolos derreteram… Aliás, essa é uma das maravilhas da gravidez: os miolos derretem e você deixa de prestar atenção em uma porção de coisas. Bobas ou não. Especialmente no final, quando bate o cansaço e a cabeça se volta inteira para a expectativa frente aos próximos capítulos. Esquece o que te dizem antes de terminarem a frase. A tal da esquizofrenia da gravidez, da qual falei noutro post. Benção das bençãos.

Outra maravilha: a pequena decidiu virar atleta e faz alongamento toda hora na barriga. Tem horas em que acerta as costelas, tem horas em que amassa a bexiga, e noutras faz cócegas na cintura. Ok, ok, ela está se aperfeiçoando. Parece estranho, como uma cena qualquer daquele Alien que me aterrorizava tanto quanto a cara de terror da Sigourney Weaver mas, na verdade, é tão incrível! Sentir os movimentos de uma outra pessoa no seu corpo, movimentos alheios à sua vontade e completamente estrangeiros às possibilidades contidas nos seus movimentos, para alguém que fez todo o tipo de dança a vida inteira e que sempre prestou muita atenção àquilo que o corpo pode fazer, é algo da ordem do extraordinário. Extraterreno. Alien mesmo. É o momento em que a pequena dá sinais de vida e revela que, mesmo junto, já existe separada da mamãe e da barriga. Já tem lá sua singularidade, já faz seus gestos, já inventa suas coreografias, já procura seu espaço num barrigão que vai ficando pequeno para tanta vontade de ser, de existir, de se mover… Creio que, para mim, os movimentos da bebê e os momentos de encontro por meio da imagem do ultrasom foram os mais importantes para trazer realidade e corpo a essa pequena, tornando sua existência palpável, verdadeira, substancial. Um efeito colateral positivo da tecnologia, em um caso, uma das banalidades dessa experiência desde que o mundo é mundo e que mulheres engravidam, no outro. Dois extremos de um acontecimento que, hoje em dia, é permeado de natureza tanto quanto de técnica.

Ah, e não podemos nos esquecer do conversê, né? Falar com a barriga, aquilo que eu fazia de modo constrangido no começo, tornou-se a obviedade mais cotidiana desses meses. A bebê mexe, a gente conversa. Ou melhor, eu falo, ela faz sua dancinha. Pode ser no ônibus, no restaurante, na praia, no conforto do sofá. A gente se entende, naquele estado de loucura particular que é a gravidez, tão necessário para que a mãe e o bebê se conectem e que ela possa atender às necessidades do seu rebento, que vai depender tanto dela no início. Como diria o bom e velho Winnicott: existe uma loucura necessária à maternidade, que faz a mãe poder supor aquilo de que o bebê precisa. E entre essa aposta, os acertos e os erros, ela termina por compreender melhor esse bebê, assim como ele termina por saber comunicar melhor aquilo de que precisa. Conversa que começa assim, meio maluca, até que um consegue desvendar melhor o outro e um tanto de encontro entre esses dois diferentes se torna possível.

Junto com as maravilhas que fazem todo esse percurso ter momentos de muita alegria, emoção e deslumbramento – os movimentos, os papos, as imagens, o desencanar geral e até a conquista da possibilidade de dizer um dane-se e de fazer uma faxina em pessoas, projetos e valores que não contribuem mais em nada para a vida, – vem também a parte menos divertida: os temores de cada mês, de cada exame, de cada consulta, as ameaças de cada risco que médicos, leituras ou amigos da onça colocam na sua cabeça, o sobressalto com cada mudança, cada coisinha que acontece ou não acontece, os medos e inseguranças, o desconhecido, o peso que pesa no corpo e dificulta o movimento assim como o peso que pesa na alma e que traz a responsabilidade, a preocupação, o tentar antecipar e prever todos os perigos, a necessidade de proteger e cuidar, a busca de fazer o melhor. Inchaço, barriga grande, calor não são nada frente a tantas preocupações que decidem crescer na mesma proporção que o final da gravidez se aproxima e que você sabe que algo vai mudar, tudo vai mudar, em uma direção que você desconhece e para a qual nunca se preparou. Penso que não existe leitura que chegue, não existe preparação para o parto que dê conta, não existe curso que esclareça, não existe sonho que antecipe o que vem ali adiante, quando o barrigão virar bebê e a barriguda virar mãe.

Entre anseios, expectativas e risadas com pés nas costelas, o que resta é aproveitar o tempo. Esse tempo malemolente e arrastado de verão quente que deixa tudo lento, lesmento, gosmento, suado. Sol nos miolos dando ares de irrealidade ao tempo que passa, dando tempo ao tempo para que a pequena se prepare. E para que a mamãe se esqueça de tudo o que aprendeu e possa, enfim, viver o que só pode ser vivido.

Os medos… ah, os medos…

Acho que foi minha irmã quem me disse que, uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila. Não, não se trata das noites mal dormidas por conta de amamentar, dos choros, das cólicas e afins. É mais sério que isso. Uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila porque terá sempre, como ruído de fundo, as preocupações relacionadas ao seu rebento. Lembro-me bem dela ter dito que a maternidade é como uma espécie de luto: ao lado da alegria de ter em seus braços aquele serzinho encantador, uma dor passa a te acompanhar para sempre. A dor de quem dá origem a um outro ser humano que, por ser humano, é criado para a vida e, também, para a morte. Uma vez consciente desse risco que todo humano corre pelo simples fato de estar vivo, que mãe pode dormir tranquila?

Os medos, pelo que tenho percebido, esses nos acompanham a cada momento a partir da concepção. Parece loucura, mas desde que soube que estava grávida, uma série de coisas banais que nunca me inquietaram passaram a me assombrar sobremaneira. Sair sozinha à noite, voltar para casa tarde da noite de metrô, situações em que pessoas levantam a voz próximas a mim, como se fossem brigar… Coisas que até então passavam desapercebidas, pelo fato de morar em um lugar bastante seguro, em um país bastante seguro, onde você pode andar na rua, inclusive à noite, até mesmo sendo mulher, sem que ninguém te aporrinhe. Sim, existem lugares onde se pode ir e vir e onde a rua e a cidade são, ainda, de todos.

Mas muito além desses medos e inseguranças que criaram uma grande sensação de vulnerabilidade ao surgirem lá onde não existiam, e que atribuo ao fato de me sentir responsável por proteger uma pessoa indefesa que está aqui na barriga e precisa de mim também para garantir sua segurança, a novidade maior foram esses medos relacionados à gravidez, ao parto e a essa criança propriamente dita.

Nem precisa ler muito sobre maternidade para ser inundado de assombrações permanentes: entre aquilo que publicam sobre o assunto, aquilo que os especialistas dizem e todos os palpites e “causos” que todas as pessoas “de bem” insistem em te contar, sobra material para metros e metros de medos sem fim. Cheguei a discutir isso antes, nesse post aqui. Essa mistura de cultura do risco que inunda os saberes médicos e de atração pela desgraça alheia que atravessa o senso comum dos realities shows aos relatos de catástrofe mostrados com esmero por toda a mídia, não sobram dúvidas: o que se quer é ver sangue.

Credo! Sai para lá!

Mas como isso se reflete na gravidez, no parto e na experiência da maternidade? Penso que, para além dessa sensação humana da qual falava no início, dessa aguda percepção da fragilidade e da finitude da vida, esse nosso gostinho por focalizar no pior das coisas ajuda a que nós, as grávidas e mães em questão, fiquemos alucinadas com muito mais do que o que seria necessário. Se não, vejamos o breviário de medos e inseguranças que nos acompanha feito bagagem pesada demais:

  • no começo, a gente teme estar grávida e, quando existe a suspeita, teme também achar que está e se frustrar descobrindo que não;
  • depois de confirmada a gravidez, a gente teme os temores do primeiro trimestre, que é quando todo mundo diz – putz! – que a maior parte dos abortos acontecem… e lá se vão três meses em que você passa pensando “ai, fica bem na barriga da mamãe, queridinho…”, com medo de acordar um dia e estar sangrando;
  • então surgem os primeiros exames e você passa a temer também todos os bichos e afins… toxoplasmose, listeriose, rubéola, DSTs… e lá se vão noites e noites de sono pensando em porque não tomou as vacinas direito, porque diabos comeu tanta carne mal passada, porque bebeu no ano novo…
  • o bônus dos primeiros exames, ao menos aqui na França, é a depistagem da trissomia do cromossomo 21 e de outras anomalis genéticas, que eles fazem a partir do primeiro ultrasom somado a um exame de sangue… mais um bocado de noites e dias de aflição de que o pequeno tenha algum problema genético…

O primeiro trimestre passa e você respira aliviada por não ter abortado, por todos os exames terem dado negativo, por estar bem e saudável, pelo ultrasom e os exames de depistagem não terem indicado nenhuma anomalia e você quase acredita que pode dormir sossegada… Mas não! Isso foi apenas o começo.

  • teu ganho de peso, tua pressão arterial, tua diabetes podem prejudicar o desenvolvimento do bebê, então você passa todos os seus dias preocupada com o que come, como come, para não comer demais ou de menos;
  • exercícios demais podem gerar contrações e não é nada bom ter contrações antes da época em que elas devem acontecer… Então você segura a onda;
  • mas exercícios de menos e sedentarismo demais influenciam na troca entre você e o bebê pela placenta, além de contribuírem para o ganho de peso,  e para o aumento das dores pelo corpo todo devido às mudanças corporais… então você enlouquece e começa a fazer yoga, natação e sei lá mais quantas mil atividades que são ótimas durante a gestação;
  • e, embora os casos de aborto espontâneo sejam uma questão importante no primeiro trimestre, é claro que sempre existe o risco de um óbito… então você passa suas noites de sono torcendo para isso não acontecer contigo e para que tudo continue bem ali, na barriga;
  • e, quanto mais se aproxima do terceiro trimestre, mais o risco de um bebê prematuro de tão baixa idade é um risco de um bebê que não sobreviva… então, embora tanto risco dentro da barriga te faça pensar que seria mais seguro o sujeitinho sair logo, e ainda que sua curiosidade em relação ao serzinho que te habita só faça aumentar e você queira muito saber como ele é, você insiste “fica bem aí na barriga da mamãe, queridinho…”

Passa o segundo trimestre e você respira aliviada da travessia de tantos percalços em teoria achando, já menos convicta que ao final do primeiro trimestre, que agora vai. Mas agora vão começar os assombros do terceiro trimestre, da prematuridade, do ganho de peso do bebê, da posição, do encaixe, do parto, do trabalho de parto, das dores, das contrações, da dilatação ser suficiente, de saber se deu certo de estar cercada de gente respeitosa e humana, se o bebê, teu corpo, teu marido, teu médico, tua parteira, tua maternidade vão todos conspirar para que tudo se passe da forma mais cuidadosa, respeitosa e natural possível para a chegada do pequeno… E, bebê nascido, haverão os medos de que tudo esteja bem com ele, de que seja saudável, de que mame, de que durma, de que viva bem… E da relação com os outros, dos perigos do mundo, da escola, de estar criando tão bem quanto possa, das doenças, das dificuldades, dos percalços… Putz, é preocupação sem fim, quando termina uma, começa a seguinte…

Parece tanta coisa que nem exorcista dá conta, uma condenação sem fim a um sono preocupado, inquieto, temeroso de tudo o que pode ser que… Entendo melhor minha mãe e todas aquelas mães um pouco malucas, em constante estado de alerta e tensão permanente, apostando que filho debaixo da saia é filho no lugar mais seguro desse mundo. Não deve ser nada fácil olhar para cada dia e para os desafios e riscos de cada dia e confiar que tudo vai correr bem. Mas é por isso que olho com ainda mais admiração para aquelas mães que conseguem, em meio a tantos assombros, manter uma certa calma no coração, uma certa confiança na vida e uma certa aposta de que seus filhos, na barriga e fora dela, estão e estarão bem.

Parir entre sangue e dor…

(version française de ce post ici.)

Noutro dia, reunião aqui em casa, discuto com os amigos minha opção por um parto natural que, na França, felizmente, não é sinônimo de parto normal – que o parto é normal, já está dado e eles ficam de cabelo em pé com nossa mentalidade cesárea – mas diz respeito, mais especificamente, àquilo que no Brasil chamamos parto humanizado, um parto normal com direito à recusa de várias intervenções médicas que são, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias e apenas atrapalham de maneira violenta mãe e bebê. Então uma amiga minha tira da cartola, depois de dizer que seu ideal de parto seria ser sedada, apagar e acordar apenas quando o bebê tivesse sido retirado de dentro dela – que essa opção de parto natural é uma escolha católica por parir entre sangue e dor e o quanto ela é absurdamente ideológica. Minha amiga é feminista. E inteligente. Parei para pensar. E percebi que não concordo com nada do que ela disse.

Primeiro, porque toda e qualquer opção em relação a todo e qualquer tema em nossas vidas é ideológica, quer dizer, tem em si alguma ideologia, quer saibamos ou não. Ser ideológica não é argumento para uma escolha, é a constatação de uma condição do pensar humano. A questão poderia ser, então, que ideologia está por detrás de uma escolha de parto ou de outra? O que estamos apoiando ou defendendo quando preferimos isso à aquilo?

Parir entre sangue e dor foi a condenação dada por Deus a Eva depois dela comer o fruto proibido e ser expulsa do paraíso. Mas por que isso seria uma condenação? Não sou uma expert em estudos religiosos, não li a Bíblia inteira e, assim, não tenho como falar do lugar de sabichona no que diz respeito a esse tema. O que, talvez, seja bem melhor, porque permite que eu apenas faça aqui as questões e reflexões que me provocam desde o comentário dessa amiga. Vamos a elas.

Do ponto de vista de uma pretensa defesa feminista do direito a não parir entre sangue e dor e, com isso, não sucumbir ao legado machista católico que impõe às mulheres sangue, dor e sofrimento, acho o comentário dela especialmente equivocado: afinal, a Bíblia foi escrita por quem? Por homens. Até Deus, o figura, é definido no masculino, herança e testemunho dos séculos e séculos de patriarcado que estabeleceram o homem no lugar da razão e a mulher como ser menor, incapaz, relegada às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos. A Bíblia apenas prolonga uma mentalidade que era aquela dos gregos antigos, herdada pelo império romano, do homem como cidadão, centro da pólis, senhor do pensamento. Então, minha pergunta, mesmo sabendo que o Antigo Testamento não foi estabelecido pelos seguidores de Jesus, mas bem antes: a que serve que um livro desses estabeleça a mulher como pecadora e a condene a parir entre sangue e dor?

Existiam homens e mulheres antes disso, não? Bom, talvez para os católicos não, homens e mulheres tenham surgido com Adão e Eva. Mas antes do surgimento da Bíblia como livro sagrado do catolicismo que diz que homens e mulheres surgiram de Adão e Eva e que dá a opção às pessoas de acreditarem nessa versão da história como mito das origens, já existiam homens e mulheres nesse mundo, não? Que não acreditavam ou não sabiam da tal verdade que é Adão e Eva. E que nem sabiam que o modo como viviam a depender de seu trabalho e a se reproduzir e parir entre sangue e dor era consequência do pecado original. Podemos achar que eles eram apenas ignorantes da verdade que os fazia serem como são. Ou podemos pensar que essa verdade é apenas uma versão das coisas que diz mais a respeito dela mesma e do por que ela foi construída desse modo do que acerca de como as coisas realmente são.

Como as mulheres antes da Bíblia pariam? Provavelmente, naquilo que é essencial, do mesmo jeito que nós fazemos hoje. Então, não foi a Bíblia que inventou o parto entre sangue e dor, ele já existia antes dela. Ela apenas inventou que ele seria consequência de uma condenação. Quer dizer, ela associou parto, sangue e dor à um castigo. Aí é que está o problema.

Por que será que interessa a alguém associar parto com dor a um castigo? Se formos pensar em um argumento radicalmente feminista, será que não seria o caso de considerar que interessa apenas aos homens – esses mesmos que instituíram o patriarcado nesse mundo – que um ato exclusivamente feminino, em que a mulher tem todo o poder sobre o seu corpo e sobre uma vida além da dela mesma, em que ela pode dar origem a um outro ser – coisa que apenas inventando um Deus homem os homens conseguiram remediar – enfim, que esse ato exclusivamente feminino seja considerado como um castigo e, assim, desapropriado? Desqualificado? Tornado impuro, menor, feio? Apenas uma idéia que me ocorreu. E que não me pareceu tão absurda se, seguindo por essa veia mais radical e paranóica formos pensar que, milhares e milhares de anos depois, a opção que se criou para as mulheres e seu procriar e seu parir de segunda categoria foi uma em que elas se desfazem totalmente de qualquer poder sobre o seu corpo, tornando-se objetos que, voltando às palavras da minha amiga, são botadas para dormir, têm seus corpos manipulados e decididos por outros, têm seus bebês extraídos delas e devolvidos a elas quando, como belas adormecidas, elas acordam de um sonho encantado com seus filhinhos no colo, sem nenhuma participação naquilo que trouxe ao mundo essa nova vida.

Então, tá. Ser objeto, um corpo objeto das decisões de outro a respeito da vida de seu filho é a alternativa feminista para o parto condenado entre sangue e dor? Não ser sujeito, não estar ali presente no momento em que a experiência acontece é fazer valer seu direito de ser mulher, ser independente, ser autonoma e não participar? Muito bem, o feminismo nos trouxe e nos trás conquistas incontestáveis e deve ser defendido enquanto houver nesse mundo uma pessoa que pense e aja de maneira violenta contra uma mulher pelo simples fato dela ser mulher. E defendeu o nosso direito sobre nossos corpos, sobre a concepção, sobre a alternativa de não ter filhos frente à obrigação de tê-los, sobre a opção de interromper uma gestação e tantas outras coisas mais. O feminismo defendeu até nosso direito de nos alienarmos em um conjunto de atos médicos para não participarmos do momento do parto de nossos filhos. E, ok, pode ser que para muitas mulheres isso seja uma opção. E defendo o direito que elas adquiriram de escolher isso.

Mas, apenas uma questão, essa escolha, tão ideológica quanto a minha por um parto natural, defende qual ideologia mesmo?

Em nome de nosso “direito” à não ter dor, não ter sangue, não ter sofrimento, parece que entramos em uma corrida para extirpar essas experiências de nossa condição humana. Como se fosse possível uma vida sem dor, sem sangue e sem sofrimento. E como se essas coisas fossem ruins, um castigo, um calvário pelo qual temos que passar para pagarmos os pecados de sabe-se-lá-quem-ou-o-quê. As pessoas parecem que têm mais medo da dor do que ela pode doer realmente. E em nome desse medo, jogam para fora da vida muitas experiências que são tudo, menos um castigo e uma condenação.

Poder parir um filho entre sangue, dor e muitas outras coisas que ainda não consigo imaginar me parece um privilégio, uma consequência coerente de uma escolha de alguém que decide que, em sua vida, cabe o projeto de dar vida a um outro alguém. Vida, em que também existe sangue e dor. E riso, e alegria, e um mundo todo de descobertas. Vida que não foge do dito ruim para tentar ficar apenas com o que pareceria bom, como se sentir fosse perigoso, como se sofrer fosse uma ameaça, como se as dores da vida não ensinassem e não formassem tanto quanto os seus prazeres.

Eu quero parir minha filha. Não quero que outros o façam por mim.

Bom texto sobre a episiotomia…

aqui. Porque não faz muito sentido acreditar que todo e qualquer procedimento médico durante o parto é simplesmente normal apenas porque ele foi instituído como algo comum e imprescindível nessa situação, né? Melhor pensar no que deseja e no que se dispõe a fazer ao longo de sua gravidez e parto antes que outras cabecinhas decidam por você e por seu bebê. Porque essa naturalização de gravidez e parto como atos médicos, questões médicas, mais ligadas ao risco e à patologia são uma deturpação recente de algo que sempre foi natural e fez parte da vida. E se todo esse “cuidado” traz, em alguns casos, um real benefício para mães e bebês, na grande maioria é apenas excesso aplicado a um acontecimento que poderia muito bem se passar sem ele.

Eu te digo o que é que você deve fazer.

Demorou um tempinho entre saber que estou grávida e decidir tomar as coisas em mãos. Precisamente o tempo suficiente para me lembrar de todos os amigos e familiares que tiveram filhos em um período recente. Quando comecei a pensar no que muitos deles viveram, entrei em pânico. Não quero isso para mim, nem para o meu bebê. Isso o que? Todas essas pequenas, cotidianas e violentas arbitrariedades das quais você e o pequeno são objeto a partir do momento em que se constata sua gravidez. A palavra é boa e precisa – objeto – pois é aquilo em que você se transforma quando entra em cena todo o aparato médico que vai se desdobrar para cuidar da sua condição.

A coisa já começa esquisita. Se pararmos para pensar, essa história de gravidez e parto serem associadas ao cuidado médico é bem recente. No Brasil, apenas nos anos 70 é que se institucionaliza o acompanhamento médico para gravidez e parto e a preferência para que o segundo aconteça no contexto de um hospital. Até então – e olha que temos aí para trás alguns milhares de anos de experiência – gravidez fazia parte da vida e parto era feito em casa, com a ajuda de alguém que pudesse te acompanhar nessa experiência. 

Ok, existiam riscos, existiam complicações, existiam desconhecimentos, existiam seqüelas, existiam perdas. E quem sabe a medicina ajudou eficazmente a diminuir tudo isso instituindo meios de prevenção, previsão, precaução e afins. E talvez isso tenha melhorado a qualidade de vida da mãe que dá à luz, assim como dos bebês que nascem. Que bom que seja assim.

Mas acontece que não é apenas isso que essa medicalização da gravidez traz. Sob o pretexto da prevenção e do cuidado, muitas arbitrariedades são feitas, muitas pequenas grandes violências são cometidas ao longo do percurso a ponto de tornar aquilo que sempre foi parte da vida em algo perigoso, arriscado, para o qual a mulher nunca está suficientemente preparada e em que é necessário intervir. Intervir para controlar. Intervir para corrigir um desvio de rota.

Um exemplo: a cesariana. Por que é que o Brasil tem tanta cesariana? Será que é porque tantas mulheres assim apresentam algum risco ou complicação no final da gestação? Aqui na França, se qualquer hospital ou maternidade apresentasse a porcentagem de cesarianas que os hospitais e maternidades apresentam no Brasil, ele seria imediatamente auditado, multado e o escândalo apareceria em toda a mídia. E olha que os franceses adoram um protocolo médico e são tão ou mais tomados por essa tentativa de tudo controlar e tudo prevenir do que nós. Mas não passa pela cabeça deles que uma situação como uma gestação que, na maioria das vezes, se encaminha naturalmente para seu desfecho, deva ser manipulada para servir aos interesses dos médicos, das maternidades e dos equipamentos que precisam dar lucro e se pagar. Ou não é bem estranho que em meio aos altíssimos índices de cesarianas no Brasil os recordes sejam batidos pelos hospitais e maternidades particulares dos centros mais ricos do país?

Conclusão? Das duas uma: ou o brasileiro é um povo altamente doente que precisa de intervenções médicas nesse nível, porque nem parir mais sabe, ou houve uma tal inversão de valores que transformou em normal aquilo que deveria ser – como é em muitos e muitos outros cantos desse mundo – uma exceção.

Será que é algo cultural querer fazer uma cesariana? Querer programar, escolher dia a hora, agendar o buffet, escolher o signo do bebê, a melhor conjunção astral possível? Será uma tentativa de controle, de ter o melhor possível, de forçar que o melhor aconteça? Ou será o medo inculcado na cabeça da gente pelos filmes, pelas histórias, pelos médicos de que parto normal é horrível, dói, sangra e é coisa de masoquista? Quem vai querer passar por dor e sofrimento, não é não? Junte-se a isso a história de que seu períneo rasga, afrouxa e de que o seu companheiro não vai mais gostar de transar contigo depois e… pronto! Não há argumento que vença o combo sofrimento + risco de perder o amor do outro. Até ir para a faca parece melhor do que isso.

Tenho descoberto alguns textos que falam a esse respeito e tentam desconstruir esse estado de normalidade que se tornou considerar a gravidez e o parto como objetos da intervenção médica. Um dos mais interessantes é esse aqui. Recomendo, é um alento. Mas o assunto não é novo. Há umas boas décadas um tal de Michel Foucault escreveu uma obra prima a respeito de como caminhamos, ao longo das últimas centenas de anos, para uma medicalização generalizada da existência humana. Ele mostrou como isso se deu ao transformarmos a loucura em doença mental, lá nos idos do século XVII. Primeiro momento em que uma peculiaridade humana passa a ser vista como algo a ser segregado, tratado, curado. O louco foi o pai de todas as outras segregações de características humanas que se transformaram em problema, anomalia, doença. Tristeza virou depressão, infância virou inadaptação, gravidez virou risco. Apenas alguns exemplos. Fosse vivo, possivelmente Foucault teria uma ou duas palavrinhas a nos dizer sobre a maneira como essa patologização das subjetividades e sua consequente medicalização e normalização se estenderam por todos os cantos do existir humano. Até chegar à lugares tão improváveis e insuspeitos como a gravidez e o parto. Coisa triste…

Será que não estamos endossando essa pseudo-verdade de que tudo o que é humano é doente e problemático – e deveria ser corrigido – quando aceitamos sem pensar ou questionar tudo aquilo que o médico diz que temos que fazer ao longo de uma gestação ou no momento do parto, sob o pretexto de evitar riscos, prevenir problemas e garantir um maior controle sobre todos os imprevistos? Esse controle é real? E, mais ainda, ele nos convém realmente?

Hyeronimus Bosch: "A extração da pedra da loucura" (1475-80)
Hyeronimus Bosch: “A extração da pedra da loucura” (1475-80)

Todos os tempos da gravidez…

Sempre achei que o tempo não passa de forma linear, mas em blocos. Você passa boa parte da sua vida se percebendo com uma certa idade e, de quando em quando, toma um choque frente ao espelho, ou quando alguém te chama de senhora pela primeira vez, ou quando não faz idéia de quem seja Justin Bieber, ou em qualquer situação em que seu corpo ou sua cabeça dão mostras de que não acompanham mais tão agilmente o ritmo frenético dos acontecimentos de cada dia… Enfim, algo acontece e todo o peso dos anos passados desapercebidos cai sobre suas costas de uma vez só: tudo mudou, você é quem não tinha visto.

A persistência da memória - Salvador Dali - 1931
A persistência da memória – Salvador Dali – 1931

Na gravidez o tempo parece que passa também dessa forma engraçada, aos trancos e barrancos, seguindo ritmos de luas, de semanas, de sonos e sonhos… O corpo revoluciona e convulsiona e trabalha sem parar para se adaptar à todas as mudanças e isso dá um cansaço danado que faz com que tudo ande beeeem mais devagar. O corpo corre, o corpo pára. E a cabeça faz o mesmo, borbulha todos os pensamentos os melhores e os piores e cozinha tudo ali, o tempo todo, um caldo de idéias e sensações que fica de ruído de fundo para todos os pensamentos que têm que ser pensados, todos as ações que devem ser feitas, todo o cotidiano que deve ser cuidado e que não entra em modo “pause” somente porque você está grávida e precisa de tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo… Como ganhar tempo quando se tem prazo? Porque nem o bebê vai poder esperar você arrumar a sua vida, a sua cabeça, a sua casa, a sua relação… até porque sabemos bem que se o bebê e a vida fossem esperar o nosso momento ótimo, putz, coitados, né? O bebê completaria cem anos ali na barriga e a vida teria parado no homem de Neandertal, que estaria até agora pensando se estaria pronto ou não para se misturar com o homo sapiens…

 

Bom, se o tempo urge, também é reconfortante saber que temos ainda algum um tempo. Em poucos meses as coisas vão mudar ainda mais e o bebê vai precisar de muito mais do que aquilo que dá para garantir ali no quentinho da barriga sem precisar pensar muito porque o seu corpo sabe bem o que fazer. Ufa. Mas quando o pequeno estiver ali fora, no mundo, vai precisar de um pouco mais do que necessita hoje. Ou melhor, possivelmente vai precisar das mesmas coisas, mas de um outro jeito, no qual precisará um pouco mais de você. Deve ser quando o peso todo do mundo e da vida tomba novamente sobre as suas costas e você vira mãe. Vi isso acontecer uma vez, uma cena linda e tocante, quando meu sobrinho chorou no quarto da maternidade e apenas minha irmã e eu estávamos presentes. Nos entreolhamos, como quem se pergunta: cadê a mãe desse pequeno para nos acudir? E, em menos de um segundo, minha irmã passou da dúvida ao susto e desse à constatação de que a mãe era ela, de que não havia nenhuma outra, apenas ela para ser mãe daquele bebê ali, naquele instante. E acudir. Acho que ela envelheceu uns 10 anos em poucos segundos. E virou mãe também.

 

Atlas.
Atlas.

Querer ter um filho…

(version française: ici)

Para mim, foi há cerca de um mês, depois do primeiro ultrasom que encarnou a realidade da gravidez na minha cabeça e no meu corpo. Todo mundo diz… ah, quantos todo mundo diz quando se está grávida, tem todo mundo diz para tudo… Enfim, todo mundo diz que é melhor não anunciar a gravidez antes do final do primeiro trimestre. Porque a maior parte dos abortos espontâneos acontecem no primeiro trimestre e, depois, você não vai querer ficar explicando até para a sua manicure o que houve. Coisas do bom senso, esperar a gravidez “pegar”… Mas você está grávida do seu primeiro filho e quer contar isso para todo mundo. Porque está feliz, porque quer poder falar disso, porque falar, partilhar dá um senso de realidade para aquilo que você está vivendo. Enquanto fica tudo ali na sua cabecinha, a sua gravidez tem a mesma consistência dos seus devaneios com qualquer outro assunto. Quando você conta, você assume o que está acontecendo com você e tudo parece mais real. Além do mais, como imaginar que você vai encontrar com os seus melhores amigos, com sua família, com as pessoas com as quais você sempre dividiu aquilo que era realmente importante para você e, quando eles te perguntarem quais as novidades, você vai falar de outra coisa? Como assim? Talvez isso funcione para as pessoas para quem a amizade e o amor não passem pela conversa, pelas palavras trocadas, pela intimidade cotidiana de dizer o que te vai fundo na alma. Eu sou psicanalista, testemunho diariamente a profundidade delicada daquilo que se compartilha falando, não posso conceber calar, para as pessoas que amo, a intimidade de algo assim.

Mas tinham me dito outra coisa, ainda no quesito quando contar sobre a gravidez. Uma outra justificativa para essa postura de esperar o final do primeiro trimestre, dessa vez dada pela cabala. Seria bom esperar porque, nesse tempo, a alma do bebê está decidindo se quer ou não ficar. Achei bonito quando ouvi isso. Poético. E também um excelente apoio para aquela forma de defesa, que todos nós temos, de não se envolver muito com alguma coisa que sabemos ter o risco de perder. Para que investir no que é incerto, né? Para que se apaixonar pelo carinha que você sabe que vai embora, para que se empolgar com uma gravidez que pode não vingar? Proteger-se de uma possível perda justifica todas as precauções, as distâncias, os investimentos pela metade, a economia de si. E nós somos craques nisso. E quando vemos alguém que se joga demais na vida, tomamos ele por um imaturo, quando não um doido varrido. Só que na vida e no amor não é bem assim que a coisa acontece, né?

Economizar-se é um ato de bom senso e de proteção, mas é também uma avareza, uma mesquinhez consigo mesmo e com a vida. Como a história do melhor vestido que a gente nunca usa que eu falei noutro dia. Essa economia de si que se guarda para o momento de poder se entregar, só que o momento vem e você não consegue porque nunca antes se entregou, passou a vida toda se evitando e evitando qualquer perigo e já não sabe mais como é que faz para fazer diferente. De tanta proteção, você não sabe mais como abrir uma brecha. E sente a dor dilacerante de estar preso em uma carapaça dura, rígida, que te impede de se envolver.

Então, há cerca de um mês, estávamos no auge do inverno aqui e fazia um frio de lascar, um dia cinza após o outro e começou a neve. A neve caindo sobre prédios, ruas e árvores cria uma cena linda. Sempre. Quando neva, tudo fica silencioso e, paradoxalmente, mais quente. Deve ser porque esquenta os olhos e esquenta a alma ver a neve cair. E os flocos têm muitas formas e se assentam delicadamente uns sobre os outros, deixando suas camadas de branco por todo lugar. Eu amo a neve. E fiquei olhando a neve cair pela janela da minha sala. E me dei conta que, se o bebê estava decidindo se queria ficar ou não eu, de minha parte, também poderia decidir. Eu quero que você fique. Eu quero ter esse bebê.

250042_3918008543312_646266965_n
Guillaume Nery base jumping at Dean’s Blue Hole: http://youtu.be/uQITWbAaDx0

Ser grávida é um consumo só…

Um dos meus maiores temores, quando descobri que estava grávida, era o de ser tragada pelo buraco negro das representações, dos imaginários, das ações e de todo o aparato espetacular em que se converteu o simples ato de ter um filho hoje em dia. Comecei a me lembrar de todas as amigas, parentes e conhecidas que engravidaram recentemente e de como passaram por essa experiência e, entre uma memória e outra, nada parecia corresponder à pessoa que sou, à vida que levo, aos meus valores e aos meus anseios. Que pesadelo!

Personal disclaimer: o que eu escrevo aqui vem, como só poderia ser, da minha experiência pessoal, em um contexto específico, em um país específico, em uma cidade singular, cercada de pessoas e histórias também singulares. Evidentemente, no Brasil devem existir muitos outros modos de viver a gravidez e a maternidade, possivelmente muito mais interessantes e enriquecedores do que grande parte do que eu via ao meu redor. Mas, quanto a isso, nada a fazer a não ser respeitar o fato de que eu só poderia pensar a partir da minha própria experiência. E ela me deixava preocupada.

Na cidade de São Paulo, como possivelmente em muitas outras cidades brasileiras que enriqueceram e em que uma parte de seus habitantes prosperaram, ainda mais nos últimos tempos, alavancados pelo boom otimista do próprio país, a medida de prosperidade, de sucesso e até mesmo de satisfação e alegria de um indivíduo se dá, principalmente, pelo que ele consome. Em todos os âmbitos. Vencer na vida é praticamente sinônimo de aceder ao consumo: poder ser = poder ter. Quanto mais, maior importância você tem. Para você e para os outros. Acho que é uma história antiga, em que se somam a lógica capitalista ao nosso passado de colônia. Povo colonizado e sem história, por opção e vergonha da própria história, que tem que inventar para si alguma identidade e algum valor. E o que é mais fácil inventar, aparência ou substância? Maquiagem é mais fácil e mais rápido. Imagem se constrói de maneira mais inócua que entranhas, que a gente só constrói enfiando a mão na massa mesmo. Então, criar uma imagem ou uma idéia de felicidade e realização através do consumo é mais fácil do que ter que acertar as contas com nosso passado, nós, os brasileiros de maneira geral. Os norte-americanos também entenderam rapidinho isso. Viraram os mestres da arte. Até a hora em que… ops… falhou. E a coisa toda não cessa de explodir na cara deles. Mas nós ainda não chegamos nesse ponto, ainda estamos no momento feliz e festivo, em que podemos alçar como máximo valor para cada um o máximo que ele puder consumir. Viva!

Não preciso nem mencionar, porque acho que não passa desapercebido para ninguém, que esse ar inofensivo das aparências e da valorização do consumo como definidores de cada pessoa não é tão inócuo assim. A quantidade de carros na rua que fez de São Paulo uma cidade inviável a qualquer hora do dia ou da noite está aí, assim como a assustadora massa de pessoas acima do peso, comendo o seu consumo literalmente. E todos os iPhones de uma rede de telefonia que não funciona. E todos os bens adquiridos que vão para o lixo que não tem mais onde se descarregar. E mais uma inundação de coisas, de excessos. Todo mundo governado pelo imperativo de consumir, consumir para ser. Comer, beber, comprar, fazer, ter, ter, ter, ter, ter…

E a gravidez e a maternidade não escaparam disso, infelizmente. Ter filhos tornou-se um ato de consumo, onde cada gesto, cada objeto, cada escolha sua vão dar a medida do que você tem. E, consequentemente, de quem você é. E de qual o seu valor. E, se não for alto, você está danada.

Então, a discussão sobre gravidez e maternidade logo resvala para os objetos do seu consumo: o bebê e tudo o que o cerca. Quem é o obstetra, qual a maternidade em que ele vai nascer. Maternidade que é, hoje, mais maquiada que hotel de luxo, a aparência da coisa tendo todo o destaque que merece, em um prospecto no qual ela é vendida do mesmo modo que suas próximas férias em Dubai. Ou sua casa no condomínio fechado. Faz parte da mesma lógica e a escolha é guiada pelos mesmos valores. E o enxoval? Em Miami, é claro. Porque é tãāāāāāāo mais em conta. E a babá, esse resquício descarado do nosso passado de senhor de engenho? Babá é tão necessário quanto o obstetra cinco estrelas, a maternidade cinco estrelas e o enxoval cinco estrelas. E babá cinco estrelas vem de uniforme. Branco. E trabalha mil horas por dia. Até mesmo nos finais de semana. E dorme no trabalho e tem uma folga por mês. Mas você, generosamente, até vai deixar ela almoçar no restaurante em que a família feliz se reúne para os consumos dominicais. Depois de cuidar do rebento, claro. Enfim, a lógica do consumo de onde ficam de fora alguns ínfimos detalhes como, por exemplo, o bebê em si e sua relação com ele. Putz…

Então está tudo bem, você engole o choro, as dúvidas e o desconhecimento, sorri e diz que é tudo apenas muito lindo, vai para Miami, faz o enxoval, vai para a super maternidade, com o super obstetra, leva a super babá junto com a tal malinha do bebê, na super hora marcada e… faz uma cesária, né? Porque isso também é tão acessório quanto o bebê em si. O modo como você vai tê-lo… que importa? Hora marcada é ótimo, dá para avisar os amigos, a Caras, passar na manicure, no cabeleireiro, chamar o fotógrafo, o cineasta. Assim sai tudo perfeito, como planejado. Para todo mundo ver. Bebê virou imagem, mamãe virou imagem, todo mundo sorrindo como na propaganda de margarina. Maravilha.

Só tem um problema… nada disso serve para mim. Danou-se.

imgres-8urlimgres-9imgres-10

Medo de tudo.

Medo de atravessar a rua. De uma hora para outra, até medo de atravessar a rua dá. E de voltar sozinha, à pé, à noite para casa. Em Paris, onde é seguro e onde o prazer sempre foi essa liberdade de movimento reconquistada, desconhecida da paulistana que nunca pode parar em um farol vermelho após as dez da noite em seu próprio país. Mas agora, dá medo. Como se agora o mundo tivesse ficado mais perigoso e você, mais vulnerável. E para além desses medos que surgem em um final de tarde, na calçada, de olho do farol de pedestres, ainda vêm outros. Medo de ter algum problema quando estiver sozinha. Medo de ter um algum problema morando em outro país e estando grávida (como se morar em outro país já não fosse incerto o suficiente). Medo de passar mal, medo de abortar, medo que o bebê tenha algum problema, medo da trissomia do 21, medo. Medo da vida, de tudo o que pode acontecer quando se está vivo. Você está grávida e se dá conta que o risco de estar vivo agora não é apenas seu, mas também do outro que, por enquanto, depende totalmente de você. E como você sabe, enquanto o pequeno está ali no bem bom, quentinho, feliz da vida mergulhando, sem ter a menor idéia, sorte dele… como você sabe o risco que é estar vivo, as mazelas e os custos de criar para si uma vida, de repente você percebe que – caramba! – o pequeno está ali também, correndo todos esses riscos sem saber. Quantos fantasmas com os quais lidar!!!

Johann Heinrich Füssli - Le cauchemar - 1781
Johann Heinrich Füssli – Le cauchemar – 1781

E os livros, sua família, seus amigos, seu médico, o acompanhamento da sua gravidez, o que fazem? Te inundam com mais um oceano de medos. Não, não é totalmente verdade, porque amigos que te conhecem bem e família próxima, gente que te ama e te conhece de verdade não fica te atormentando nem com histórias, nem com medos, nem com um monte de fantasmas. Eles consideram que você já os têm em número suficiente e torcem para que você se saia bem. E te ajudam com o que for preciso. Que alento! Porque a maior parte das pessoas nem se toca. E os livros, então? Cada capítulo, uma ressalva acerca de algo com que você tem que se preocupar: o que come, doenças sexualmente transmissíveis, herança genética, até o final do terceiro mês é quando ocorre o maior número de abortos espontâneos, mal-formações congênitas… E os casos? Os “causos”. Todo mundo tem um “causo” para contar de alguém que conhece alguém que teve um bebê com duas cabeças, três braços ou sabe-se-lá-o-que-inspirado-de-um-filme-de-horror-da-vida-real. Sério, alguém me diga que as pessoas ao menos pensam antes de abrir a boca, ao menos de vez em quando…

O mais paradoxal é que, ao mesmo tempo em que ninguém se poupa de contar todo tipo de horror assim que descobre que você está esperando um filho, e que nenhum veículo de (des)informação se poupa de páginas e mais páginas de descrições de tudo aquilo que pode dar errado, nenhuma pessoa agüenta ouvir falar, por mais de dois minutos, (e quase nenhum livrositeeocaralho escreve por mais de uma ou duas páginas) desses seus medos, das suas inseguranças, das suas dúvidas. E o que eu faço? E se? E se? E se? As pessoas saem de fininho afinal, como você pode não estar apenas muito feliz? E os veículos transmissores de todos os saberes te dizem: você vai se fazer muitas perguntas, vai ter muitas inseguranças, mas isso é perfeitamente normal. “Ahhhhhh, então tá, valeu aí. Obrigada por me dizer que o que estou vivendo é legítimo.” Parece o discurso da mãe psicotizante descrita pela psicanalista Piera Aulagnier: de um lado, o terror, de outro, a cobrança de que você deveria estar bem, feliz, calma e segura nessa situação que o discurso mesmo do outro ameaça.

Acho estranho que ninguém diga que, quando fritamos os nossos miolos com todos esses dados, estatísticas, ressalvas, perigos, “causos”, apreensões e vulnerabilidades estamos colocando no centro das nossas preocupações aquilo que, na verdade, é a exceção. Todo mundo conhece um caso bizarro, triste, trágico porque casos bizarros, tristes e trágicos são extraordinários. São a exceção e não a regra. E se os dados dizem que uma em mil gestações tem tal ou qual complicação, isso significa que 999 não têm. A gente nem pára para pensar nisso, né? Parece que estamos tão acostumados a viver em um mundo onde tudo teria que ser extraordinário que tomamos logo a exceção pela regra. Só que a exceção pode ser tanto a menina pobre que foi descoberta e virou modelo de sucesso internacional quanto o cara que saiu de casa um dia e morreu esmagado por um piano que caiu na sua cabeça. Ficamos esperando ser uma exceção espetacular em cada acontecimento de nossas vidas. E somos bombardeados por todos os casos de exceção. Daquilo que é a exceção do ideal, do que tem que ser. E do que é a exceção da catástrofe. E a gravidez não escapa a esses anseios e temores relativos à exceção.

Pode parecer meio banal e comum demais para nossas expectativas de extraordinário mas, ao que parece, desde que o ser humano existe na face da Terra ele cuidou de perpetuar a sua espécie se reproduzindo. O que significa que mulheres engravidaram. E deram à luz a seus bebês. E que esses bebês de algum modo vingaram, cresceram, viveram e se reproduziram também. Deve ser uma fórmula eficaz porque, excetuando-se as vezes em que não deu certo, a humanidade parece que vai muito bem, obrigada, povoando o mundo até explodir, ocupando cada canto desse planeta com todas as suas idiossincrasias, contradições e muito mais. Então, depois de ler uns dois livros, navegar por uma quantidade indecente de sites, ler uma série de relatos de histórias e ouvir não sei nem quantos “causos” sobre a exceção na gravidez em tão pouco tempo, eu entendi que, sempre que alguém abre a boca ou que começo uma leitura, tento considerar, antes de mais nada, o seguinte disclaimer:

A história que se segue foi baseada em fatos reais de exceção. O que significa que ela tem quase 99% de chances de não se aplicar a você.

Agora, ao menos eu escolho se vou ficar siderada pela exceção, apenas porque a vida é um grande e desconhecido risco, ou se vou me conformar à banalidade do que está acontecendo comigo. Porque é extraordinário para mim. É surpreendente. Mas é também a coisa mais comum do mundo: ter filhos.

Mais sobre os medos ao longo da gravidez: aqui.

A nova matemática.

Street art - Vila Madalena, São Paulo, Brasil.
Street art – Vila Madalena, São Paulo, Brasil.

1+1=3 agora… matemática renovada. E não é a única conta que você vai ter que aprender a refazer.

Não interessa como você aprendeu a contar o tempo. Relógio, sol, lua, estrelas, ampulheta… horas, minutos, segundos. O tempo entre dois aniversários, dois acontecimentos importantes. O tempo entre um telefonema e um encontro. O tempo de uma sessão de análise. O tempo entre dois tweets, dois sms, uma postagem no facebook… Agora, nada disso tem mais serventia e você vai ter que contar em… semanas. Semanas, veja bem. Antes mesmo de um bebê existir dentro da sua barriga, ele já tem duas semanas. Hein? Alguém teve a brilhante idéia de contar o tempo de vida de um bebê durante a gravidez desde o momento em que ocorreu a última menstruação da sua progenitora. E alguém teve a brilhante idéia de determinar, para fins práticos, que a ovulação ocorre cerca de 15 dias depois do início dessa última menstruação. Ou seja, antes mesmo que você ovule, transe e engravide, pelas contas padrão, seu bebê tem duas semanas. Então, os livros começam todos pela terceira semana, que é quando o sujeitinho aconteceu ali, começou a existir. E colocam, para te ajudar, a idade gestacional e a idade real do bebê: a 3 semanas de gestação, bebê tem uma semana… Como assim? E essas tais de semanas, começam quando? No dia da última menstruação? Mas se você não ovulou com a precisão de um Big Ben londrino, em exatos 15 dias e se sua ovulação adiantou ou atrasou, ou se os espermatozóides do seu amorzinho ficaram ali no bem bom, curtindo uma onda, no quentinho, por um ou dois dias (pois é, bichinhos resistentes esses, quem diria!) você conta a partir de quando? Da data da última menstruação, da data calculada como o dia em que você engravidou… qual é a maldita data?

Ainda bem que alguns sites ou aplicativos – sim, eles existem também para grávidas e gravidez, senhores, tremei!!! – ainda bem que hoje em dia você pode colocar a data da última menstruação em algum lugar do cosmos digital e uma matemática programada também qualquer calcula para você em qual semana de gestação você está. Calcula, claro, sabendo que vai dar errado, porque pode ser um pouco mais para lá ou para cá, assim ou assado… enfim, as imprecisões da vida sempre nos atrapalhando quando precisamos acreditar que sabemos alguma coisa, nem que seja um reles número. E o pior é que cada pessoa com quem você falar vai te perguntar há quanto tempo você está grávida? Todos vão te perguntar com a seriedade e a propriedade de um connaisseur… E se você titubear, ou se arriscar responder: faz um mês, dois, um pouco mais de dois… nossa! Melhor acostumar-se a fazer contas, para dar a impressão que você está totalmente integrada em seu novo e agora único papel daquela que conta em semanas, em luas, em ciclos. As pessoas olham com desprezo e desconfiança para uma mãe que não conta em semanas, não fala sobre enjôos e não acaricia a barriga como quem posa para uma fotografia que retrate a imagem da pura felicidade. Horrorizadas com o “seu descaso”, parece que consideram se vão chamar o serviço social, no mínimo. Você engravidou, agora agüenta o baque, minha filha. Volta para a escola e refaça as contas da vida. E na hora da chamada oral, ao invés de responder direitinho quanto é 7×7, saiba dizer de pronto quanto é 1+1. Em semanas.