E foi dada a largada!

Mal tivemos tempo de assoprar a velinha de um ano e comer um pedaço de bolo. A pequena mal teve tempo de começar a andar e explorar seus presentes de aniversário. E eis que surge a inevitável pergunta:

– Ainda mama?

– Mama.

– Vai mamar até quando?

– Até quando ela quiser.

– Mas então ela não vai parar nunca. Se a gente não desmama, o bebê não para sozinho.

Silêncio… Tentando imaginar de onde pode ter surgido uma idéia tão absurda que supõe que um bebê que é capaz de mamar quando precisa e não mamar quando não precisa, cotidianamente, persistiria mamando em nome de sei lá o quê até sei lá quando.

– Claro que vai.

– Sei. Mas desse jeito você vai ter que fazer uma plástica quando ela parar porque seus peitos vão ficar no chão.

Silêncio estupefato tentando imaginar um ser que vai mamar até a idade adulta em meus seios caídos varrendo o chão da sala.

Queria entender o que leva as pessoas a esse tipo de convicção. E mais ainda o que as leva a deixarem escorregar boca afora antes mesmo de pensar naquilo que vão dizer. Então um bebê não desmama sozinho, se respeitarmos seu tempo e seu ritmo, tão somente porque deixa de ser necessário, já que ele encontra outras formas de nutrição, de proteção e de afeto? Então temos que impor um fim numa data qualquer tirada da cartola e que nos parece ser a data em que bebês deveriam parar de mamar? Então somos nós que decidimos essa data?

Não vou entrar aqui na discussão a respeito das mães que decidem parar de amamentar em um determinado momento, por qualquer razão que seja. Não vou entrar no mérito das mães que acham que devem conduzir o desmame ou impor algum limite. O desmame, assim como a amamentação, é do bebê e da mãe e apenas aos dois cabe decidir. Ninguém tem nada com isso. Ou não deveria ter. Nem com peitos arrastando no chão pois, sejamos francas, não é esse o destino de todas nós? Ou quem não amamenta ou para de amamentar com medo dos peitos caírem acha que passou incólume pelas leis da gravidade? E, convenhamos, se isso é insuportável, cirurgia plástica existe e está aí para todo mundo que quiser consumir e puder pagar, né?

Por que é que a chegada do primeiro ano libera nas pessoas uma impressão de que, a partir dali, tudo é permitido? Parar de mamar? Demorou. Comer doces, chocolate, tudo o que for bem cheio de açúcar e não trouxer nenhum benefício para o bebê? Claro, porque, afinal, ele vai acabar comendo mesmo. Ver TV, vídeos no iPad, joguinhos no celular? Sim, afinal, é entretenimento de excelente qualidade e totalmente apropriado para uma criança, especialmente uma criança bem pequena que está formando todas as suas conexões cerebrais e constituindo seu modo de conhecer o mundo. Esses tapa-buraco eletrônicos estão realmente oferecendo tudo o que ela precisa nesse momento: contato, presença de outros, interação… Ah, mas ela gosta, olha só, ela fica olhando entretida. Claro, meu bem, quem não olharia entretido para algo que é feito para ser hipnotizante? Assumamos: é só um cala-a-boca, fica quieto aí, que faz as vezes de sossega-leão quando o que os adultos querem é ter sossego. E uma criança de um ano que começa a andar é tudo menos sossego. O mesmo vale para o açúcar e toda sorte de porcarias que as pessoas acreditam piamente que devem ser apresentadas à criança tão logo a primeira velinha se apague.

Funciona assim: até agora toleramos mais ou menos que você, mãe, cuide do seu filho como acredita ser o melhor. Mas agora ele não é mais um bebê e deve ser introduzido ao mundo real, aquele no qual vai viver para toda vida. E o mundo real é feito de decisões arbitrárias a seu respeito, onde a única coisa que não conta são suas necessidades e possibilidades. E muito açúcar, muita TV, muitos eletrônicos, muito consumo de coisas sem substância. Em todos os sentidos. Esse é o mundo real que aguardamos tão ansiosamente apresentar para nossos filhos que mal eles completam um ano já temos que enfiá-lo goela abaixo? Putz!

Foi dada a largada. Salve-se quem puder.

Diversificação alimentar? Putz!

Então você, mãe de primeira viagem, pariu e acreditou que esse era o maior desafio da maternidade. Veio a amamentação. Então você bravamente mergulhou nesse universo de leite, mamadas, afeto e sono e acreditou que esse era o maior desafio em ser mãe. Veio o momento da diversificação alimentar…

Pô, qual é o maior desafio em ser mãe, então? Quando é que a gente pode sentar, relaxar, pedir um aperitivo, abrir um livro e se felicitar por ter dado conta de tantas coisas que não eram nada evidentes com garra e dedicação de leoas? Hahaha, pois é… nem preciso responder, né?

A história da diversificação alimentar começa parecida com a da amamentação no seguinte sentido: do mesmo modo que você é bombardeada de informações desencontradas logo que seu bebê nasce e que vocês dois começam essa descoberta que é o momento de cada mamada, acontece uma segunda enxurrada de orientações e palpites que têm por tema a alimentação do seu bebê assim que você diz que começou a dar “papinha” para ele. Foi dada a largada, todo mundo em volta querendo saber se o sujeitinho come bem (oi?), o que come, como come, quando come, quanto come… todo mundo tem uma receita, uma dica, um método infalível. E todo mundo tem também um comentário bem simpático a fazer, de preferência na frente do seu rebento que está ali tranquilamente descobrindo uma coisa nova: “ah, bem, come mesmo, come bem direitinho porque a sua mãe – ou o seu pai, ou o seu irmão, ou o seu primo, ou quem quer que seja o termo de comparação do comentário infeliz – não comia nada”. Se minha pequena pudesse responder nesse momento, acho que ela diria algo como: “puxa, valeu pelo incentivo, hein?”. No entanto, como ela é mais esperta e mais blasée do que isso, apenas olha com indiferença enquanto continua chupando seu pedaço de legume, fruta, carne ou o que for que ela esteja explorando naquela hora.

Acho curioso como as pessoas e suas receitas, palpites e opiniões se preocupam muito pouco em observar o que está acontecendo. Não parece estranho a vocês também que as pessoas cheguem com as respostas antes mesmo que alguém faça uma pergunta? Ou que cheguem com soluções, idéias preconcebidas e diretrizes a te fornecer antes mesmo de saberem quem você é ou o que está acontecendo ali? A mim sempre pareceu muito esquisito. Talvez por isso tenha me tornado psicanalista, já que a psicanálise considera que o mais importante é aquilo que o sujeito tem a dizer e, mais ainda, aquilo que ele pode ser se dermos espaço para que ele diga e seja sem ficarmos poluindo tudo com nossas falas e nossas conclusões desconectadas da pessoa que ali está. Enfim… nesse modo arbitrário com o qual as pessoas se aproximam para falar de diversificação alimentar e de como fazê-la, parece-me que escapam algumas observações que, ao menos para mim, têm sido bem úteis nessa nova etapa:

Sua filha já está comendo? Sim, evidentemente, ela come desde que nasceu senão não estaria aqui, né?

Pois é, acho que a primeira obviedade que escapa às pessoas, inclusive à nós, mães, na hora em que começamos a nos preocupar com essa história da alimentação é que nossos filhos já comem desde que nasceram. E perceber isso diminui muito a ansiedade e a expectativa. Quero dizer: eles comem, sabem comer, estão bem alimentados, saudáveis… o que muda, a partir dos seis meses, é que nós oferecemos a eles outros alimentos além do leite.

Tenho encarado a diversificação alimentar como algumas outras coisas desse mundo que estou apresentando à minha filha: gostos que ela conhecia sutilmente porque passavam pelo leite materno e que ela reencontra agora mais intensos, em novas cores, texturas, temperaturas. E acho que essa é a segunda obviedade que nos escapa: trata-se de uma descoberta, de apresentar algo do mundo, de uma brincadeira.

Sim, pois os pequenos botam os alimentos na boca como quem coloca qualquer coisa na boca, para conhecer e explorar e, de repente, aquilo tem um gosto, uma consistência, é interessante… Parece que é assim que começa, como uma brincadeira divertida que acaba virando alimento também. Mas não é isso o principal no começo. Até mesmo porque o leite é o principal alimento de um mamífero por um bom tempo e nós somos mamíferos, mesmo que nos esqueçamos disso com frequência. Os outros alimentos vêm como complemento, como uma apresentação, como uma brincadeira de explorar que pode ser divertida, surpreendente e prazerosa. Eis aí mais uma obviedade que nos escapa, ou que insistimos em ignorar: comer tem a ver com prazer.

Comer é um ato prazeroso, e isso é tão fácil de constatar observando um bebê que mama quanto uma criança ou um adulto que comem com gosto algum alimento de que gostem muito. Por que não poderia ser assim para uma criança? Por que, de repente, tudo tem que ficar sério, baseado em quantidades pré-estabelecidas que desconsideram ritmos e vontades daquele serzinho… por que tem que ficar chato, estressante, limpo, sem botar as mãos, sem babar nem nada disso? E como podemos esperar que nossos pequenos curtam a experiência a ponto de querer repeti-la várias vezes ao dia se logo somos tragados pelo mar de palpites e orientações estapafúrdios que tentamos seguir como se fossem garantir que o bebê coma e coma bem?

Aliás, o que é comer bem? Eu não sabia até pouco tempo, mas o estômago de um bebê de seis meses tem mais ou menos o tamanho de seu punho fechado. Ou seja, é minúsculo. Ou seja, aquela pratada que você come dizendo que comeu “super bem”, aquela feijoada, aquele dogão… nada disso vai caber. Fisicamente impossível. E lá vamos nós ajustar expectativas aos fatos e aos limites da realidade de um bebê.

Primeira conclusão desse início de diversificação alimentar: temos que reaprender a comer quando começamos a variar a alimentação de nossos filhos. Segunda conclusão: temos um mergulho garantido para dentro de nossas concepções e histórias com a comida tão logo começamos a precisar decidir sobre pratos, legumes, frutas, carne, onde, quando, como, quanto… Maternidade parece que é assim: quando você pensa que conseguiu entender alguma coisa e começa a relaxar, logo surge o momento seguinte, cheio de surpresas e de questões para pensar, estudar, informar-se, decidir…

E quanto aos palpiteiros de plantão… minha gente, vamos parar de despejar caminhões de expectativas nesses pequenos? Vamos deixar eles se divertirem um pouco com o que estão vivendo? Vamos deixar as nossas neuroses, ressentimentos, manias e afins guardados para nós mesmos, ao invés de sair vomitando palpites sobre alimentação por aí, por gentileza?

Obrigada. Quem sabe então possamos falar do que interessa realmente.

Alguns posts, links e idéias que têm me ajudado:

Meu filho não come 6/7 meses (introdução alimentar) do blog As delícias do Dudu.

O grupo Alimentação Consciente do facebook.

Nutrição infantil, o blog.

Diretrizes para o blw, post do blog Nosso primeiro bebê.

A saga da introdução alimentar, post do blog Potencial Gestante.

Nossos filhos são o que comem, post do blog Cientista que virou mãe.

Baby Led Weaning, o site.