Estou ficando velha como meu avô

Filhota quebrou um abajur que ficava no seu quarto, puxando pelo fio. Quebrou apenas o pé, que era de cerâmica. Cúpula e lâmpada ficaram intactas. Cara-metade já ia jogando tudo no lixo. Guardei a cúpula e a lâmpada, para o caso de. Cara-metade ficou perplexo. Só não guardei o fio com a engenhoca toda porque me deu preguiça de ir procurar uma ferramenta para arrancar aquilo tudo dali da cerâmica em pedaços. Quem sabe possa quebrar mais a cerâmica e tentar salvar o fio? Bem, talvez não esteja tão velha quanto meu avô, que certamente teria uma solução para isso. E nenhuma preguiça. Do alto dos seus oitenta anos de idade. Consolo-me, tenho ainda uns quarenta pela frente para chegar no nível dele. E então precisarei de um depósito no fundo da casa, como ele tinha, recheado de tralhas que um dia seriam úteis e outras tralhas realmente úteis e ferramentas para todas as necessidades. O pesadelo da minha avó. O paraíso das netas, crianças, com essa caixa de Pandora de achados permanentes. Será que o cara-metade me aguenta salvando tralhas do lixo e com um depósito no fundo da casa? Quem sabe então saberei também consertar o pé do sofá com maestria de marceneiro. E aprenda a usar uma serra sem arriscar deixar para trás todos os dedos.

Filha, preciso te contar umas histórias do seu bisavô. Ele fazia aniversário dois dias depois de você. E aposto que estaria rindo à toa agora, vendo essa pequena leoazinha zanzar pela casa puxando fios e abrindo gavetas.