Aquela historinha da criança francesa

Criança francesa não faz manha. E ainda por cima come de tudo? Opa, me passa a receita, me vende, onde eu assino?

           Tentei começar um post a respeito desses livros sobre as crianças francesas há uns 4 meses atrás e nunca conseguia terminar, até receber o convite de uma amiga para responder a algumas perguntas sobre ser mãe na França e, entre elas, havia justamente uma que interrogava sobre esses clichês de criança francesa que come de tudo, criança francesa que se comporta bem, criança francesa que não faz manha. Daí saiu essa resposta aqui.
           Sinceramente, eu penso que toda generalização é burra. Tudo o que eu mesma digo sobre esses assuntos aqui no blog é a verdade de como é ser mãe na França de uma certa perspectiva. Eu não conheço todas as francesas e nem a França inteira e, mesmo que conhecesse, não poderia afirmar que é assim que a maternidade acontece aqui com certeza. Posso apenas falar do que vejo e, ainda assim, segundo o meu jeito de olhar, que sempre será subjetivo, marcado pela minha história, por minhas referências, etc. Ninguém consegue falar de outro lugar que não sua posição no mundo, né? E a minha é de uma brasileira, vinda de um certo lugar, de uma certa classe social, que chega aqui na França pela porta dos estudos e da pesquisa universitária, que circula por certos lugares, encontra certas pessoas e vive uma vida que eu definiria como, mesmo por aqui, privilegiada.
          Mesmo sendo capaz de andar por diferentes ambientes, mesmo tendo amigos de muitos cenários bem distintos, ainda assim sempre tive o privilégio da minha cor (o que aqui conta um pouco menos, pois sou estrangeira e sou latina), do meu percurso profissional (a França respeita os intelectuais, coisa que não se conhece muito no Brasil), de falar bem a língua (mesmo com sotaque) e de ter um certo conforto econômico por conta do meu trabalho. Então, é desse ponto de vista que escrevo. Sempre.
          Quando esses livros da americana apareceram e viraram uma febre mundial, comecei a me perguntar: mas de que diabos ela está falando? Crianças francesas comem de tudo. Crianças francesas não fazem manha. Que crianças são essas? Tenho amigas brasileiras e francesas que são mães aqui e que também encararam esse tipo de publicação com a mesma perplexidade. Ficamos nos perguntando em que França ela viveu para chegar a tais conclusões. Talvez se ela tivesse esclarecido seu contexto logo de cara, a leitura ficaria mais honesta e mais interessante.
           Do que eu observo, acho problemático, por exemplo, dizer que criança francesa come de tudo. Pelos motivos que falei logo acima, sobre as generalizações. Mas também pelo fato de que o cardápio destinado às crianças é de uma pobreza nutricional extrema. Eu não consigo perceber onde é que elas comem de tudo.
            Paradoxalmente, não posso dizer que a maioria das crianças aqui comam bem. Nem em casa, nem na escola. Ao contrário do mito que existe sobre a boa alimentação da criança francesa, o que vejo é que o cardápio delas é bem pobre. Se você quer tirar a prova disso, chegue em qualquer restaurante na França e pergunte o que é o menu enfant (o menu infantil). Em 95% dos lugares as opções serão: hamburguer com batatas fritas, nuggets com batatas fritas e macarrão com presunto, o que significa, aqui, um macarrão cozido na água e sal que eles colocam um pouco de manteiga depois de pronto e uma fatia de presunto cozido ao lado. Isso é o que muitas crianças comem em casa também. E, nas cantinas das escolas e creches, infelizmente não é muito diferente. Já vi algumas reportagens sobre as cantinas das escolas onde eles oferecem carne com batatas fritas. Sistematicamente. Diversos tipos de carne com batatas, num molho avermelhado e engordurado bem esquisito. Nunca uma salada. Como legume, servem vagem, que é comprada enlatada, nunca fresca. Muitos doces no lanche: madeleines, bolachas, coisas do tipo. Poucas frutas. E a justificativa é a de que é isso que as crianças comem. Bom, mas quem ensinou as crianças a comerem assim? É de uma pobreza incrível, ainda mais sabendo o quanto se pode comer bem na França. Por isso falei de paradoxo.
           Outro teste que vocês podem fazer é observar as crianças saindo da escola. Normalmente, na hora da saída as mães levam um lanchinho que os pequenos comem no caminho de casa, o famoso gouter. O que é o lanchinho? Doces, bolachas doces, suco de caixinha. Ver uma criança comendo uma fruta no gouter é uma raridade. Em qualquer idade. Muita gente aqui não cozinha, compra comida pronta. Geralmente por falta de tempo. E também porque aqui é cômodo comprar comida pronta e a oferta é imensa. Isso não seria em si um problema, não fosse o fato do cardápio girar em torno de massas mal temperadas, enlatados, embutidos, nada fresco. Em lugares como Paris, onde as pessoas moram em apartamentos minúsculos com cozinhas impraticáveis, pior ainda. Enfim, para quem é mãe e se preocupa com a alimentação do seu filho, uma das maiores discussões, que se renova a cada ano, é se devemos deixar o filho almoçar na cantina da escola ou se é melhor buscar para almoçar em casa e levar de volta para a escola em seguida, para os cursos da tarde. E conheço bastante gente que opta por buscar o filho para almoçar em casa. Em um mundo corrido como o nosso. Bem o contrário do que a gente imagina quando pensa na culinária francesa e em suas delícias, né?
            Penso que crianças cujos pais cozinham mais frequentemente em casa são mais expostas a uma maior variedade de comidas e, com isso, têm mais chances de comer de tudo. Isso acontece aqui também com frequência, famílias que cozinham em casa. Como acontece de ainda se preservar o momento das refeições para que todos sentem-se à mesa.
           Eis algo que me parece importante, e que talvez contribua para as crianças comerem melhor. Não vejo por aqui crianças fazendo as refeições na frente da televisão, do tablet ou do celular. A hora de almoçar ou jantar é a hora em que desligam os aparelhos e todo mundo vem para o redor da mesa. Isso me parece fundamental, pois nada mais triste do que ver uma criança comendo e olhando uma tela, sem nem perceber o que está comendo, de uma maneira automática, sem sentir o gosto, sem descobrir a comida, sem identificar quando está saciado. Triste e contraproducente. Ainda bem, isso não acontece. Que eu saiba.
            Então, sim, eu já presenciei aqui na minha casa e na casa de amigos crianças comendo coisas que nos pareceriam difíceis ou improváveis, cheias de apetite e de curiosidade: verduras, frutas, frutos do mar, queijos, comida apimentada, salada e por aí vai. Isso é tão bonito de se ver e impressiona tanto que a gente esquece de observar o contexto em que isso pode ocorrer. E atribui o feito a causas tão absurdas como o fato da criança ser francesa. Não, meu caro. Para a criança comer de tudo, tudo tem que ser ofertado a ela e, principalmente, ela tem que ver os adultos comendo, porque é nisso que vai se espelhar para comer ou não. Então, sim, isso acontece na França. Mas, não, não é uma regra geral. Tem muita criança comendo Nutella por aqui.
             Sobre a questão das crianças se comportarem bem, não fazerem manha, acho que é uma situação análoga ao que eu acabo de dizer sobre a comida. Ou seja, depende. Se você for num parquinho qualquer, vai ver criança se jogando no chão, gritando, esperneando. Andando na rua, fora dos lugares turísticos, você também pode testemunhar uma cena dessas. Ou num restaurante, numa loja, onde for. Crianças francesas fazem manha como fazem as crianças brasileiras. Talvez a diferença esteja em como se lida com isso por aqui.
           Na França houve uma tentativa de implantar a lei da palmada, como a que existe no Brasil. Não foi aprovada. As pessoas, aqui, acreditam que educar exige uma certa dose de violência. Se você for nesses mesmos parques, restaurantes e afins, vai ver que há grandes chances da mãe ou do pai dessa criança que se joga no chão darem um tapa nela, puxarem pelo braço, gritarem, dizerem palavras bem duras. Eu já testemunhei isso várias vezes, tanto em Paris quanto no sul da França, em lugares dos mais simples aos mais sofisticados. Já vi mãe estapear filho no parquinho, já vi mãe dar cascudo na cabeça do filho de uns 10 anos no restaurante, já vi mãe dizer coisas extremamente humilhantes para um filho de uns 20 anos numa mesa de um outro restaurante, em alto e bom som… Tenho uma coleção de cenas. O que isso quer dizer? Que aqui ainda impera uma concepção de educação bastante opressora, onde o objetivo é dobrar os filhos para que eles se comportem bem. Não é raro ouvir os pais definirem a educação dos filhos por aqui como mostrar a eles quem manda, ou formulações análogas. Qualquer coisa próxima de algo como uma criação com apego – que existe também, ainda bem – é considerada como laxista, coisa de pais que não saberiam mais dar limites a seus filhos.
           Os franceses, em geral, me parecem ter um certo pavor da dependência. Os filhos nascem e eles já estão preocupados que sejam autônomos. Eles vêem qualquer situação de dependência quase com repugnância. Aqui, a idéia mais difundida é que bebê deve dormir no seu berço, no seu quarto, desde o dia em que chega da maternidade. Pode deixar chorar. Já testemunhei comentários de profissionais de saúde dizendo que a mulher é problemática porque amamenta o filho, que assim o está prejudicando, pois impede com isso sua independência. Aqui não é incomum mulheres decidirem dar mamadeira para os pais poderem participar da alimentação dos filhos (oi?). É o tempo todo um pânico de que a criança fique colada. E com isso, a meu ver, eles precipitam uma série de desgrudes que poderiam acontecer de maneira menos violenta. E que aconteceriam de todo jeito. Com raras exceções, quantos adolescentes você vê por aí pendurados nos pais ou fazendo questão da presença deles? Pois é. Os filhos desmamam, queiramos ou não e não precisamos fazer muita força para isso. Basta deixá-los seguir seu ritmo e ampará-los e amá-los ao longo do percurso.
            Pois bem, o que acontece quando vemos essas crianças francesas que falam bom dia, por favor e obrigada, que sentam à mesa, comem o que tem no prato, pedem licença, falam baixinho e que achamos tão lindo é que estamos testemunhando os efeitos dessa educação mais difundida na França de evitar a todo custo que os filhos fiquem colados aos pais. Eu, particularmente, acho isso perfeito como meta a atingir quando seu filho estiver entrando na idade adulta. Acho uma maravilha que as crianças sejam incentivadas na sua autonomia, no melhor estilo Montessori. Mas, com um bebê? Com uma criança pequena? E, o principal, onde é que incentivar a autonomia quer dizer obrigar a criança a ações e situações para as quais suas reações mostram claramente que ela ainda não está preparada? Não sei se esse resultado das crianças bem comportadas e agora invejadas no mundo inteiro vale aquilo que a criança viveu para chegar a esse nível de domesticação.
            Basta pensar que a França das crianças bem comportadas também é a França dos adultos com algumas das taxas mais elevadas de consumo de antidepressivos. Será que não existe nenhuma relação? Aqui também é um dos países em que há muitos idosos vivendo sozinhos. Mesmo quando têm família, não são amparados por ela. Será que isso também não tem relação com essa independência precipitada? Não tenho resposta para isso, mas são questões que me faço.
            Então, comparando a maneira como em geral criamos nossas crianças na França e no Brasil, eu diria que no Brasil há uma maior tolerância à dependência do que aqui. O que faz com que talvez no Brasil tenhamos mais liberdade de sermos apegados aos nossos filhos e de expressar esse apego enquanto que aqui os pais se preocupam desde muito cedo em criar os filhos para que eles sejam autônomos. Os dois têm suas vantagens e desvantagens. Acho incrível a maneira como aqui, desde que o bebê nasce, os pais se permitem sair com ele, viajar, passear, enquanto que no Brasil os pais ficam confinados durante meses com os filhos em casa, preocupados com os perigos da rua. Mas isso tem razão de ser, né? Além de ser algo cultural, tem a ver com viver em um lugar em que você pode sair na rua ou não. Ou seja, é complexo demais esse tema da criação dos filhos, pois são muitos fatores em conta. Por isso que não dá para generalizar.
           Talvez antes de elegermos nossos novos ideais de criação de filhos e de ficarmos invejando e lamentando não estarmos na França, onde tudo seria perfeito e nossos filhos que comem mal e fazem “birra” e “fazem manha” e são impossíveis seriam outros, totalmente comportados e obedientes, e ainda por cima falariam francês – uhu! – talvez, apenas talvez, fosse o caso de olharmos mais para nossos filhos e tudo o que os cerca em termos de ofertas de alimento, de diversão, de companhia, de afeto. E, talvez, pudéssemos encontrar ali mesmo, nesse entorno e nessas ofertas, as razões para as dificuldades que enfrentamos assim como as condições de fazer diferente e de fazer melhor. Sem precisarmos nos assombrar e nos sentir diminuídos por esses exemplos tolos de crianças perfeitas que NUNCA existem.
           Em tempo: a entrevista, publicada em várias partes, começa nesse link aqui. Vocês podem aproveitar para navegar pelo site do projeto Casa de Viver, uma inciativa bem bacana para mamães trabalhadoras em São Paulo.
           Em tempo 2: estou mudando o layout do blog, com a ajuda de uma super amiga mais do que talentosa. Comentários serão bem vindos.

Lugar de bebê…

… é no colo! Pronto, falei. Ufa!

Existem duas idéias das quais não consigo deixar de desconfiar, nesse mundo novo da maternagem de uma bebê pequena: a famosa “isso é manha” e a sua nefasta consequência: “desse jeito, vai ficar mal acostumada”. Como assim?

Me espanto a cada vez que as escuto, pois para mim elas são o testemunho em alto e bom som de uma total falta de compreensão – e de compaixão – frente àquele pequeno ser que ali se encontra e que juramos querer bem.

Primeiro: não sei de onde veio essa certeza de que o bebê está fazendo manha. Não sei quanto a vocês mas eu, do alto da minha experiência de três meses, fico muitas vezes sem entender os choros e as reações da minha filha. Isso porque existe um descompasso gigantesco entre nós duas: eu sou uma mulher, adulta, falante e que aprendi ao longo dos anos mais ou menos aquilo de que necessito – e também o que desejo -, bem como os caminhos para comunicá-lo e consegui-lo. Ou, sendo psicanalítica, aprendi que pouco sei de mim para além do que julgo saber e que esse desconhecido também age, à minha revelia. Que o que comunico sempre rateia e que entre o desencontro e a falta existe, ainda assim, a alegria das parciais realizações. Pois bem, sabendo de mim mesma ou de minha ignorância, o fato é que sei muito mais do que minha filha falar das coisas desse mundo, mesmo das mais básicas. Ou, ainda que ela saiba – e eu acho que é esse o caso – de maneira um tanto precária e invadida por suas sensações e experiências, que algo vai bem ou que algo não vai nada bem, eis novamente o descompasso que faz com que ela tenha dificuldade em me comunicar o que acontece.

Ou não.

E pode ser que seja bem simples e ela simplesmente faça algo a respeito e comunique da primeira maneira que pode: chorando. Então, a pequena chora. E isso me toca, me perturba, me irrita, me entristece, me alerta e mais tantas outras coisas. E é fundamental que assim seja. E que eu me mexa e tente fazer algo a respeito. Foi assim que nossa espécie sobreviveu, não? Tendo bebês que choram e adultos que se incomodam com esse choro e tentam dar conta dele.

Onde é que entra a manha nisso tudo?

Tem gente que, novamente, numa total falta de compreensão e de compaixão pelo seu pequeno rebento, supõe que um bebê possua apenas 3 necessidades que possam inquietá-lo: fome, sono e fraldas molhadas e/ou cólicas. Vejam bem: supomos que um serzinho da nossa mesma espécie precise de apenas três coisas na vida enquanto nós, seres adultos falantes mal damos conta de enfiar nos armários tudo aquilo de que julgamos precisar quando nem sabemos do que precisamos.

Engraçado como essa sucinta lista não inclui coisas que nós, adultos, dizemos sempre necessitar e parecemos gostar tanto como, por exemplo, demonstrações de afeto, carinho, companhia, distração, entretenimento, calor humano, uma escuta atenta, cafuné… Como é que, sendo da mesma espécie que nossos bebês, acreditamos que eles precisam de tão pouco, enquanto nós precisamos de tanto? Quando é que todas essas coisas se acrescentam a comer, dormir e defecar?

Então, munidos de uma certeza questionável de que sabemos das 3 coisas que um bebê precisa e afrontados pelo seu choro tal qual língua estrangeira sentenciamos, sempre que dar comida, tentar fazer dormir e trocar fraldas não trazem o efeito desejado de que o bebê se acalme: “ah, é manha!”. Imagine se nos seus momentos de tristeza, de solidão, de carência ou de tédio as pessoas que te cercam e que dizem te amar, ao invés de te acolherem te dissessem: “deixa de manha!”.

Putz! Isso acontece! E na época de Freud chamava-se, entre outras, histeria. Que o bom e velho Sigmund reabilitou e legitimou como sofrimento real e verdadeiro, quando toda comunidade médica entendia como fingimento e manha. Curioso como as mulheres, tanto quanto as crianças, carregam desde há um bom tempo em suas ações o rótulo desqualificante da farsa, da manha, do teatro e da manipulação, não? Já pararam para pensar que, talvez, isso seja uma construção cultural e histórica que serve a alguma força que ganha em fazer pensar que mulher finge e manipula tanto quanto criança faz manha e manipula?

Enfim, voltemos aos bebês que descobrimos manhosos. E nossa reação, ao diagnosticar a manha, é ainda mais chocante do que supor que ela exista: nos permitimos, face a nossos filhos pequenos, que dependem de nós e que não podem se defender, as mais variadas indiferenças e violências. Se “não é nada”, é manha. Se é manha, deixa chorar, deixa ali, no berço, num lugar qualquer… deixa o bichinho ali até ele parar de fazer manha. Até aprender. E, sobretudo, nunca, jamais, em hipótese nenhuma fraqueje e lhe dê atenção, lhe console, lhe dê colo. Senão, ele “fica mal acostumado”.

Putz!

Sinceramente, o bebê demonstra, com os parcos recursos de que dispõe, que algo não está bem e, porque nós adultos somos limitados a ponto de supor que só pode ser fome, sono, cocô… e porque nós adultos não temos capacidade de nos colocarmos no lugar desse bebê e supor que pode ser alguma outra coisa… e porque nós adultos nos exasperamos quando nos sentimos impotentes… acusamos o bebê de “fazer manha” e deixamos ele se virar, sob pretexto de que isso vai educá-lo? Sou só eu ou tem mesmo alguma coisa muito errada aí?

Onde estão a empatia, o colocar-se no lugar do outro, a generosidade, a compaixão? A que tirania de uma educação opressiva devemos responder para deixarmos nossos filhos chorando porque é manha e porque qualquer coisa que se faça vai deixá-lo mal acostumado?

Escrevi aqui, há alguns posts atrás, que parece que as pessoas têm medo da dependência, vista como o perigo no vínculo estreito entre mãe e bebê, a ponto de quererem acabar com ela antes mesmo que ela se constitua e exerça seu papel fundamental. Penso que, nesse caso da manha e do ficar mal acostumado existe algo de análogo agindo. São frases que repetimos sem pensar, frases que ouvimos de nossos pais, de nossos avós, frases e crenças transmitidas de geração em geração sem que ninguém pare para pensar se elas fazem sentido. E que falam, em última instância, contra o fundamental papel que os adultos podem ter em confortar seus bebês. Ou seja, são falas contra o cuidado.

Pois se um bebê chora, ele deve ter um motivo. E se não entendemos, por que não procurar mais? Por que não consolá-lo, mesmo que não saibamos o que não está bem? Por que diabos não dar colo?

Meu coração fica apertado cada vez que escuto uma história de alguém que deixou, em nome de sei lá que modinha de adestramento, seu bebê chorando sem consolo. Me dói pelo bebê. E também pela pessoa que, para conseguir não responder da maneira mais espontânea que um humano responde desde que vê um outro em apuros, deve ter precisado desligar algum sinal de alarme dentro de si e entrar em um estado de indiferença frente ao sofrimento alheio que considero assustador.

Veja, não estou aqui dizendo que um bebê não pode chorar nem por um segundo, que não pode ficar contrariado, frustrado ou em estado de falta. Ele pode e ele fica, quer queiramos ou não porque essa incompletude é da condição humana. Sempre falta alguma coisa. Estou questionando o que faz com que adultos acreditem que precisam acrescentar a essa frustração que faz parte da vida um extra de sofrimento pela negativa sistemática em prestar socorro, acolher, acalentar e consolar um bebê. Acredite, ele não vai “ficar estragado” porque você o consolou e não vai ficar “fazendo manha” para te “manipular” e “conseguir tudo o que quer”. Já pensaram na força dessas palavras?

Quer dizer que um bebê tem o poder de ser esse tirano de seus pais? Tem certeza? É isso que é ficar mal acostumado e você tem que ser durão para mostrar quem manda?

Penso que estamos em uma época em que a dificuldade de impor limites tornou-se tão violenta que os adultos, desesperados, recorrem a um jogo de forças com seus filhos, os quais de modo algum estão em pé de igualdade com eles. Pais perdidos fazem pirraça para seus filhos bebês: “você pensa que vai me dominar? Pois eu te mostro quem é que manda aqui!”. Como se isso estabelecesse um limite. Como se fosse isso a tal função paterna. E como se fosse isso o educar.

Deixar bebês desamparados, já foi mostrado em diversas pesquisas, provoca desespero. Depois desistência. Depois apatia e fechamento em si mesmo. E falta de confiança no mundo e na capacidade de cuidado das pessoas. Não seria isso o verdadeiro ficar mal acostumado? Acostumar-se com o pior? Não poder esperar nada além do pior?

Eu não sei quanto a vocês, mas entre os educadores/adestradores que propagandeiam a manha, o mal costume e a distância violenta como resposta para criar um filho e as mães africanas, andinas, indígenas, asiáticas que fazem suas vidas com seus tranquilos bebês a tiracolo, eu escolho a sabedoria silenciosa das segundas.