Aquela história de ter ou não filhos…

Noutro dia fiquei sabendo que existe um movimento childfree. Foi por meio de um post do blog da Isa, que eu leio e do qual eu gosto muito. E ao mesmo tempo que fui informada sobre o movimento, descobri também uma querela entre as mulheres childfree e as mães, ofendidas pelo modo como as primeiras se referem à maternidade, às mães e a seus filhos. Não contente, dei uma olhada também em algumas dessas páginas childfree. E encontrei alguns posts bem interessantes sobre legalização do aborto, controle de natalidade, anticoncepção e sobre a dificuldade em se ter acesso à uma laqueadura, coisa da qual nem desconfiava. Mas a parte menos interessante da história foram os posts, montagens e comentários bastante agressivos, cheios de ódio às mães e às crianças, como se a culpa da obrigação em ser mãe fosse das mulheres que são mães e de seus filhos e não uma construção social, cultural, histórica a qual todos endossamos de alguma maneira. E, lógico, os contra-ataques das mães alegando que mulheres que não têm filhos não são completas, não se realizam, são mal amadas, não tem Deus no coração, vão morrer sozinhas e mais um tanto de coisas que são de um clichê, de uma falta de reflexão que nem sei se preciso explicar. Ou se quero. Fato é que lendo tudo isso me deu uma vontade de escrever algumas coisas, não sobre a parte bobinha, infantil e quase ridícula desses insultos que eu li por aí atribuídos ao movimento childfree, nem das respostas ainda mais tolas e sem inteligência alguma, mas sobre algumas coisas bem legais que essa discussão permite pensar. E que dizem respeito a poder se questionar sobre querer ou não ter um filho. Porque, sim, mulher, uma das coisas que você precisa aprender a começar a se perguntar, cada vez que a idéia passar pela sua cabeça é: por que eu quero ter um filho? Você não apenas precisa ter o direito de se colocar essa questão, como tem a obrigação de fazê-lo. E de se virar para encontrar uma resposta. Difícil? É. Então, vamos por partes.

Em uma outra vida eu fui casada. Sim, pois é, tive um casamento anterior ao meu encontro com o cara-metade, com o qual tenho dois rebentos. Então, nessa época desse primeiro casamento, passamos muitos e muitos anos sem querer ter filhos. E por que? Porque a cada vez que pensávamos e discutíamos a respeito, parecia não fazer o menor sentido.

O mundo está superpovoado, já não temos mais nenhuma obrigação de garantir a sobrevivência da espécie. E, enquanto espécie, a humanidade não tem se mostrado tão viável assim, né? Usamos, exploramos e destruímos tudo ao nosso redor, muitas vezes sem necessidade. Matamos, sujamos, poluímos, extinguimos… o planeta, a natureza, os recursos naturais, as outras espécies vivas…  E nem podemos dizer que entre nós somos melhores do que com tudo o mais que nos cerca, se considerarmos a maneira como o ser humano trata o seu semelhante. Nesse quesito também não estamos para dar exemplo de espécie que cuida ao menos da própria preservação. Violência, desonestidade, mentira, desigualdade, exploração, crueldade, humilhação, preconceito, racismo, misoginia, xenofobia, homofobia… para que impor tudo isso a um outro ser? Para que criar alguém e colocá-lo nessa fria? Apenas para compartilhar nossa própria desgraça? Colocando tudo isso na balança, com o primeiro marido, encerrávamos cada conversa com um tom de perplexidade, nos perguntando por que mesmo teríamos filhos em um contexto nefasto como esse. E não encontrávamos respostas.

Algumas vezes, amigos com filhos participavam dessa discussão. Começavam animados com ganas de nos convencer e terminavam deprimidos. Na época eu sentia uma forma de desespero dos casais amigos com filhos em tentar convencer todos ao redor a, com o perdão da palavra, chafurdar na mesma merda que eles. Porque todo mundo na mesma merda é desgraça compartilhada. E, mais do que isso, porque quando todo mundo segue os mesmos rumos que a gente, não nos sentimos obrigados a questionar nossas decisões. Se tem uma coisa que perturba essa nossa espécie humana é a diferença, porque quando alguém pensa diferente isso nos obriga a pensar na vida que levamos. E nem sempre chegamos a boas conclusões quando nos embrenhamos nessa auto-análise.

Uma época a dúvida veio. Convencidos que estávamos, abrimos uma brecha e cogitamos… e se? Ao menos para mim, bateu o medo do arrependimento. E se não tivesse filhos e mudasse de idéia depois, quando fosse tarde demais? Porque para muita coisa nessa vida a gente pode guardar a ilusão de que sempre podemos voltar atrás, mudar de idéia, mudar de rumo e essa ilusão nos dá o consolo de que nossas decisões não seriam tão definitivas, tão drásticas. Mas quando o assunto é filhos, mesmo com as aberrações e com as inovações tecnológicas que tentam empurrar esse limite cada vez mais para frente, existe um fato e existe um limite, um limite do próprio corpo da mulher que, mesmo turbinado, uma hora não dá mais conta. Fim. Acabou. Não vai acontecer. Quem segura a onda de uma decisão assim? Ah, mas sempre pode adotar. Claro que pode. Mas adotar dificilmente é a primeira opção na cabeça de qualquer pessoa que em algum momento da vida cogita ter filhos. Sigamos.

Eu por medo, ele por não sei que motivação, certamente com um monte de clichês agindo nas nossas cabeças, um monte de pressão social, familiar e o escambau para dar um up nas nossas dúvidas e nos nossos receios, enfim, tudo junto e misturado e eis que decidimos mudar de idéia e… não veio filho nenhum. Isso sim é um golpe na nossa onipotência, né? Achamos que podemos decidir se sim ou se não, por quais motivos, quando, como e com quem e daí decidimos tudo e a vida, essa danada, se encarrega de não seguir o nosso script. E a paulada foi tão grande que o casamento acabou. Não por isso, minha gente, que nenhum casamento acaba por não poder ter filhos assim como nenhum casamento fica em pé quando temos filhos apenas pelo fato deles existirem. Mas esse golpe somado a outros, à vida, às mudanças… fim de uma história. Que foi muito boa e feliz. E que não teve filhos.

Roda o filme e lá vou eu pela vida elaborando esse luto de não poder ter filhos. Não queria, depois quis e não deu. E isso doeu. A contrariedade doeu mais do que o fato em si, provavelmente. Isso de querer e não poder. Somos mimadinhos, nós humanos, né? E o tempo foi passando e eu me assentei com essa história e criei uma vida que me fazia muito feliz. Feliz mesmo, não aquela felicidade de foto em rede social para parecer a mais feliz do mundo e ganhar muitos likes. Amava meu trabalho, meus amigos, minhas gatas, minha casa, minha família, meus amores, minhas viagens… Tudo ia bem, estava bem na minha própria pele, coisa mais rara dessa vida de se conquistar. Vão por mim, eu sei do que estou falando não apenas por experiência pessoal como também por vício profissional, encontrar gente verdadeiramente bem encarnado na própria pele é mais raro que encontrar trevo de quatro folhas, ver uma estrela cadente ou ganhar na loteria.

Nessa época boa, conheci o cara-metade. E ficamos juntos. E o bonito disso foi que ficamos juntos quando eu não estava “precisando de homem”, “desesperada para casar”, “com medo de morrer solteira” nem nada dessas frases atrozes com as quais as pessoas em geral insistem em presentear qualquer mulher que, a partir de uma certa idade, não esteja casada e com filhos. Já tinha vivido essa fase, já tinha ido embora, já estava em outra. Pessoalmente, profissionalmente e, o mais importante, emocionalmente, eu já não me sentia mais na obrigação de provar nada para ninguém. Nem para mim mesma. Vim, vi, venci. Ponto. E encontrar um cara-metade nesse estado de alma é como um bônus, não é uma necessidade, nem uma busca. É um acontecimento.

Quando, certo dia, esse sujeito me disse que teria filhos comigo, acendeu uma luzinha ali dentro do meu ser: “filhos? como assim? por quê?”. A vida estava tão boa, onde os filhos se encaixavam nessa equação? E então aconteceu uma coisa meio inesperada (calma, não fiquei grávida, não nesse dia). O inesperado foi que, pela primeira vez, eu pensei que gostaria de construir uma família com esse homem. E esse motivo, que foi menos uma racionalização do que uma evidência, foi o que me serviu como resposta para a questão do por que ter um filho.

Essa é a resposta? Não, essa é a minha resposta. Poderia ter sido outra. Poderia ter sido qualquer uma que me levasse à conclusão oposta. Respostas são pessoais e não merecem ser generalizadas. Minha resposta serve apenas para ilustrar uma coisa que penso que esse movimento childfree provoca com sua postura por vezes tão agressivamente contra a maternidade: é obrigatório colocar a questão.

Para sustentarmos posições e decisões nessa vida que vão contra a maioria, contra o estereótipo, contra as convenções sociais, somos obrigadas a pensar muito, a nos munir de argumentos e, principalmente, a termos um razoável grau de conhecimento de nós mesmas e daquilo que nos mobiliza. Por quê? Porque para defender uma posição dissonante, que vai ser atacada das formas as mais baixas e por todos os lados, é preciso força. E a força vem da reflexão, do pensamento, do autoconhecimento e, ouso dizer, da coerência consigo mesma. Então, só posso supor que talvez uma boa parte das mulheres que aderem a esse movimento childfree tenham um razoável conhecimento delas mesmas, uma razoável experiência de reflexão, de luta consigo mesmas até terem chegado ao ponto de decidirem não ter filhos. Porque decidir isso, afirmar isso, na nossa sociedade e nos dias de hoje que parecem tão bizarros e obscurantistas, é quase uma heresia.

E elas deveriam apenas ter o direito de decidir não terem filhos. Sem que ninguém tenha que questionar, opinar, condenar, criticar. Ninguém tem nada com isso. É um direito das mulheres não ter filhos. Simples assim. Que elas tenham que se agrupar para se apoiar mutuamente contra essa enxurrada de condenações moralistas, cruéis e equivocadas, só prova o quanto é difícil sustentar uma posição dissonante. E o quanto precisamos de companhia para não sucumbirmos sozinhas.

As mulheres que são mães, ou as que querem ser mães, teriam muito a aprender sobre esse questionamento de si com as mulheres que não querem ter filhos. Sobre perguntar de onde veio essa vontade, sobre se indagar até que ponto somos manipuladas, condicionadas, educadas, pressionadas, seduzidas e obrigadas à maternidade, como se essa fosse a única via para uma mulher existir. Deveríamos poder nos perguntar a cada momento sobre o que condiciona nossas decisões, o que está em jogo, o que movimenta os nossos quereres. O que norteia o nosso desejo? O quanto da gente? O quanto do outro?

E aí eu penso que também as mulheres childfree poderiam e deveriam se desarmar um pouco em relação às mulheres que são mães. E orientar os ataques a quem de direito. Porque mulheres mães alienadas, que são levadas pelo mar dos acontecimentos sem pensar, sem se perguntar, achando que tem que ser assim porque disseram, porque seus pais, porque Deus, porque o filme romântico que assistiram… bom, isso tem de monte. E é muito chato mesmo ter que argumentar com quem nem ao menos se dá conta de que está fazendo papel de boneco de ventríloquo. Mas… agredir essas pessoas, serve para o que exatamente? Ironizar suas escolhas, que nem escolhas são, a quem serve essa e outras tantas guerrinhas entre as mulheres?

Na experiência da maternidade existe o insondável. Você pode se colocar em risco, pode se colocar em questão, pode decidir ter ou não ter filhos. E nada disso garante que você vai ser feliz o tempo todo com a decisão que tomou. Senão não seria a vida, seria mais um filminho bobo, né? Pode ser que mulheres que decidam não ter filhos se arrependam. Pode ser que mulheres que decidam ter filhos se arrependam. Isso não tem nada a ver com a decisão, isso pode ser apenas o curso da vida. As coisas mudam, decisões acertadas em uma época podem não fazer mais sentido depois. E, com filhos, essa mudança não faz com que se possa voltar atrás, nem para quem teve, nem para quem não teve. E tudo bem. Ou não.

Sou feliz com a decisão de ter tido filhos. Principalmente, sou feliz com a conjuntura de tê-los tido mais tarde, e de não ter a sensação de que perdi coisas, de que deixei de fazer coisas, pois vejo tudo o que fiz e não gostaria de ser aquela pessoa que tinha aquela vida mais do que gosto da vida que tenho hoje. Tem momentos difíceis? Tem. Tem perrengues? Tem. Mas fiz a melhor escolha.

O que vale para mim não precisa valer para nenhuma outra mulher. Tenho grandes amigas que não tiveram filhos. E outras tão próximas quanto e com filhos. Nenhuma delas escapa de seus momentos de dúvidas, de arrependimento, de questionamento. Nenhuma. Nenhuma delas vive uma vida sem dificuldades. Mas nenhuma delas está totalmente infeliz. Qual a dificuldade, ao menos entre mulheres, de respeitarmos e apoiarmos que cada mulher tenha o direito de ser e de viver como quiser?

 

As meninas

Essa semana foi celebrado o dia da mulher e eu sou daquelas que pensam que não temos nada que comemorar e muito ainda pelo que lutar. Acho que não é novidade para ninguém que essa data foi instituída depois que grupos de mulheres na Europa e nos EUA começaram a reivindicar melhores condições de trabalho e um tratamento mais igualitário, no final do século XIX, início do século XX. Ou seja, trata-se de um dia que deveria servir como incitação para colocarmos os holofotes sobre tudo aquilo pelo que ainda passamos, nós mulheres, em um mundo que continua machista, misógino, violento e desigual. E onde ser mulher não é fácil e sem riscos. Onde é preciso encontrar forças para olhar para além dos rótulos com que insistem em nos tachar – a menina direita, a vadia, a mãe dedicada, a profissional eficiente, a loira burra, a caminhoneira, a cougar, a lolita, entre tantos outros. Rótulos que servem apenas para impor ideais inatingíveis e criar divisões e inimizades. Falsos papéis que só tornam ainda mais difícil e solitária a vida de tantas de nós, que nos fazem incapazes de empatia por conta de um julgamento sobre as mulheres em geral e até mesmo sobre o que é ser mulher que precede o encontro com qualquer mulher de carne e osso. Um filtro que acompanha e interfere em todas as nossas relações, deixando-nos menos permeáveis umas às outras, menos capazes de demonstrar solidariedade.

Tenho a sorte de ter encontrado algumas mulheres ao longo da vida que me ensinaram muito sobre essa comunidade e sobre a importância de estarmos juntas, de nos vermos, de nos ouvirmos e de nos apoiarmos mutuamente. Como as mulheres de uma mesma aldeia, como as mulheres de uma mesma família na época de nossas bisavós, como as mulheres de uma mesma vizinhança de uma cidade pequena de antigamente. Como na época e nos lugares em que mulheres sabiam estar juntas.

Essas mulheres talvez nem saibam o quanto aprendi com elas. Por meio de palavras, gestos, ações elas me fizeram experimentar essa comunhão que desconhecia. Me ajudaram a encontrar uma certa serenidade em existir. E um bocado de orgulho em ser quem sou. São mulheres que souberam dar tempo ao tempo, que cultivaram a paciência, que perseveraram contra doenças, que confrontaram graves depressões. Que carregam consigo uma sabedoria do silêncio, uma maleabilidade na escuta e nas palavras, um cuidado com o outro. Mulheres batalhadoras, não se enganem. Mulheres autoras, com idéias, com opiniões. Mas sem o caráter belicoso e hostilizador que muitas vezes a defesa de idéias e de posições carrega. Mulheres que, talvez não por coincidência, são entre outras tantas coisas, mães.

Ao menos no que me diz respeito, parir foi um acontecimento revolucionário. Parir minha filha e meu filho me deram uma espécie de confiança que nenhum discurso bem arrematado tinha podido me trazer até então. Uma segurança vinda das entranhas, algo visceral, um saber daquilo que sou capaz. Talvez seja por isso que tanto se faça contra o parto e que tantos dos defensores da medicalização, da intervenção e da retirada do protagonismo da mulher sejam homens. Quem vai querer uma mulher que confia em si mesma, que não se sente passiva, subjugada e servil, que entende o profundo laço que a une a todas as outras, que é capaz de solidariedade e de tomar posição para defender suas crias e suas iguais?

Pois é, por isso que o feminismo é algo tão atual e tão necessário nos dias de hoje. O feminismo que coloca as mulheres juntas, não aquele que divide entre mulheres conscientes e alienadas, aquele que advoga que só existe um jeito certo de ser mulher e que todas as outras escolhas são equivocadas. Enfim, um feminismo no sentido de defender a igualdade de direitos, o fim da violência de gênero e a garantia da liberdade de ser o que quer que se deseje. Mulheres parideiras têm tudo a ver com o feminismo e têm tudo a contribuir com ele porque conhecem nas suas entranhas o quão violenta é a máquina de moer carne contra a qual tiveram que lutar para poderem simplesmente existir enquanto mulheres que botam seus filhos no mundo. E, de quebra, elas sabem a força que essa luta contra o sistema no mais íntimo momento de ter um filho traz.

Passei dias escrevendo esse texto a conta-gotas e termino-o em um dia estranho. Um dia em que muita gente vai às ruas no Brasil pedir o fim da corrupção de braços dados com um bando de corruptos, sustentando um discurso de ódio tão explícito e tão sem projeto de futuro como poucas vezes vi. Gente querendo mudança sem querer mudar. Gente querendo mudança aliada a gente que nunca mudou. Gente querendo decapitar o rei para colocar um outro tirano no mesmo lugar. Uma tristeza sem fim ver o que acontece no meu país nesse momento.

Talvez nesse momento, mais do que em tantos outros, a voz das mulheres seja ainda mais necessária. Quase não as vejo falando algo a respeito. Talvez porque, em meio a tanta violência, conseguem ainda nos manter de boca fechada? Talvez porque tenhamos que gritar tanto por questões básicas como a de garantir a nossa própria sobrevivência? Talvez porque o sistema cuide para que estejamos tão esmagadas que nos sobre poucas forças e pouca voz para gritar contra esse mundo assustadoramente pleno de ódio que parece ter se inculcado em cada poro de cada milímetro do Brasil? Mulheres capazes de empatia, de cuidado, de pensamento, de questionamento. Mulheres capazes de recusar esse discurso de ódio e essa estranha capacidade que temos em nosso país de querer fundar algo “novo” apoiados por um monte de mentiras, de querer fabricar um castelo sobre um pântano. Onde está a voz das mulheres num dia como o de hoje, tão próximo do 08 de março? Onde está nossa força descomunal em gerar algo realmente novo? Onde foram parar valores como justiça, honestidade, solidariedade, cuidado?

Para mim, pessoalmente, são essas mulheres inspiradoras que me ajudam a seguir em frente e a acreditar que ainda é possível fazer algo para deixar um mundo melhor para meus filhos. E fazer algo para deixá-los também sendo pessoas melhores para esse mundo. Mulheres inspiradoras que estão aqui nos meus pensamentos e no meu coração no dia de hoje e em todos os dias. Mulheres com as quais sinto comungar algo de profundo e de profundamente revolucionário que, quem sabe, com o nosso esforço e com nosso trabalho, se torne cada vez mais inevitável e impossível de ser recusado. Somos mulheres. Somos capazes de tudo.

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Pelo direito de gestar

Logo que me descobri grávida, em conversas com um grande amigo, confidenciei que andava tendo muita dificuldade em manter minha rotina de trabalho, pesquisa, escrita, estudo. Todos esses afazeres obrigatórios para quem tem uma ocupação intelectual se tornaram mais lentos, mais penosos, menos interessantes. Os hormônios, o início da gestação, as mudanças… putz, quanta coisa! Trabalhadora que sou e que sempre fui, “workaholic” orgulhosa e convicta, isso que eu entendia como uma “leseira” me angustiava. Esse amigo acrescentou ainda mais lenha no fogareiro que andava a minha cabeça, me dizendo que eu tinha que conseguir fazer todas aquelas coisas, naquele ritmo, especialmente agora que estava esperando um filho e que ele dependeria de mim. Conclusão da conversa: às minhas dificuldades somou-se o peso imenso de me sentir relapsa frente ao bebê pelo qual sou, desde que foi concebido, responsável.

E lá vai a pessoa aflita tentando fazer, tentando ler, tentando pensar, tentando escrever, tentando cumprir prazos e ritmos que tornaram-se, a partir dessa mudança em minha vida, uma violência contra mim e contra o que eu estava vivendo. Não, no meu caso não deu certo forçar a barra não. Mas me fez pensar. Muito. Pensar sobre essa lógica estranha em que vivemos e que nos impõe dar conta de absolutamente tudo. E que rotula como preguiça, descaso ou irresponsabilidade cada atitude que uma pessoa tome contra o fazer tudo ao mesmo tempo agora.

Putz, vamos contra a corrente então. O que gostaria de defender aqui é exatamente isso: o direito de mudar de ritmo, o direito de mudar de prioridade, o direito de gestar. E o direito de que isso tudo seja tão valorizado quanto ser “workaholic”, intelectual ou qualquer outro valor de nossa sociedade atual. Me explico.

Tenho a impressão que alguma coisa do discurso feminista se engessou e se virou contra nós, mulheres. E passou a servir a um discurso dominante que busca, antes de mais nada, não favorecer e respeitar as escolhas e as singularidades mas, ao contrário, sujeitar todos a um mesmo caminho comum. Acéfalo, a-crítico, impotente. Caminho que, não por acaso, anula todos para o proveito de uns poucos. Sim, estou falando do discurso capitalista e do feminismo tendo sido cooptado por esse discurso capitalista e por outros tantos discursos dominantes bastante cruéis e perversos. Pois, se a luta do feminismo foi e é a dos direitos iguais, da igualdade de oportunidades e de condições, como é que isso tornou-se, em algum momento, uma pressão sobre as mulheres que se vangloria em ditar que algumas escolhas são melhores do que outras?

Então é assim hoje em dia: você trabalha, constrói uma carreira, dá o sangue, faz aquilo que gosta e tudo isso é extremamente valorizado socialmente pelos seus pares, pelas outras mulheres, pela sociedade (…ops, nem tanto, que ainda somos bem machistas, mas em vários meios é, sim, bastante valorizante a mulher intelectual, a mulher que pensa, a mulher que trabalha). Você é livre, exerce seus direitos, faz valer sua condição. Parabéns para você.

Em relação ao amor, você escolhe seus parceiros, você constrói junto com cada um deles maneiras singulares de estar junto, você exerce sua sexualidade com liberdade, você se bate contra os tabus da sua cabeça, dá de costas ao conservadorismo circundante e se permite ter prazer. Seu corpo, suas escolhas. Bom, muitos torcem o nariz, mas um tanto de gente te valoriza justamente por aquilo que muitos condenam. Outra estrelinha.

Então você encontra alguém, constrói uma relação amorosa, ou apenas vive uma relação de amor da qual engravida. Pouco importa para você essas definições, mesmo que para os outros isso tenha muita importância e os admiradores de toda aquela liberdade e daquela autonomia já estejam quase todos de cara amarrada que você tenha levado a sério essa idéia de construir um caminho pessoal, próprio, seu. Mas, mesmo assim, você ainda terá algum valor: mulher, livre, bem sucedida, com uma profissão, autônoma, viável financeiramente e, agora, com amor e com filhos. Way to go, girl! Você chegou no topo. Todo mundo te aplaude e te inveja.

Ou melhor. Depende.

Tudo isso é admirável e valorizado se, e somente se você for capaz de fazer a mulher biônica e der conta de todos esses investimentos ao mesmo tempo, num lapso de segundo da sua vida onde tudo conflui. Trabalho, amor, filhos. Você tem que arcar com isso tudo. E com brilhantismo. Afinal, não queria ter todos os direitos, oportunidades, condições?

Putz, aí vem a cilada. E quanto mais você é bem sucedida, quanto mais tenha construído um percurso que tenha, aos olhos dos outros, algum valor, mais as pessoas vão te tomar como uma traidora da causa no momento em que você cogitar fazer algo que, para elas, seja altamente suspeito de atentar contra esses tais valores.

O que, reduzir o seu trabalho, seu ritmo, sua produções para cuidar de filho? Que retrocesso!

Aqui na França, um dos berços do feminismo que deu certo, é quase uma heresia ousar pensar em algo parecido. Se der muita importância a isso, pode passar por iludida ou equivocada. Ingênua, no melhor dos casos. Vendida, no caso das radicalizações mais xiitas. Se disser que é prazeroso e realizador estar grávida ou ser mãe, então, capaz de ser apedrejada. Ou, ao menos, perder uma boa parte dos seus amigos. No Brasil, em muitos círculos, digamos, mais “intelectuais” e esclarecidos da nossa sociedade, não é muito diferente. Maternidade? Ok, mas sem muito engajamento. Não sei não, essa mentalidade esquisita me deixa com a pulga atrás da orelha…

Quando foi que uma defesa pelo direito de escolha tornou-se obrigação de uma única escolha? Quando foi que o discurso feminista tornou-se um radicalismo xiita que julga, desrespeitosamente, as mulheres como sendo melhores ou piores a partir do que elas, legitimamente, escolham para si? Um discurso que deveria ser o primeiro a validar que mulheres possam escolher não apenas não ser mãe, como também desejar sê-lo, não apenas trabalhar e conquistar autonomia intelectual e financeira como também priorizar outras coisas que não o trabalho? Onde foi que essa defesa de uma liberdade tornou-se uma prisão em uma única forma de ser mulher e de dar prova de que você é livre, esclarecida, bem-sucedida e feliz?

E desde quando a maternidade não é e não dá trabalho? Desde quando isso vale menos do que um trabalho formal? Talvez desde o momento em que fomos, feministas ou não, engolidas pelo discurso capitalista no qual o que vale é apenas o que é útil, produtivo, rentável. Ao defender mulheres que dão conta de tudo e ao condenar mulheres que escolham dar conta apenas de algumas coisas em detrimento de outras, cá estamos a legitimar o discurso de que pessoas – homens e mulheres – servem apenas quando são peças bem azeitadas de uma máquina cujo objetivo é produzir. Lucro. Veja bem: lucro vale mais do que gente. Produzir gente para continuar dando lucro, maravilha. Parabéns por ter filhos. Produzir gente e se preocupar em participar ativamente para que essa gente seja gente boa, pensante, afetuosa, amante, amada, cuidadosa, generosa, interessada, singular, ética… bom, aí você está produzindo problema, né? Relaxa, vai cuidar “das tuas coisas”, da tua carreira, do teu sucesso profissional. Isso tudo é que é importante. Deixa que a gente cuida do rebentinho para você. Hein?

Se você for uma mulher bem independente e autônoma e bem inserida nessa engrenagem na qual o seu trabalho, qualquer que seja, alimenta o poder nas mãos de um outro, nem pense em tentar se safar com essa idéia de dedicar-se à maternidade e de dedicar-se ao seu filho. Isso é absurdo, é andar para trás, é anti-feminista, é machista, é reacionário. Certo mesmo é não baixar a guarda, não abrir mão, não recuar naquilo que conquistou. Se não você vai perder tudo, viu? Mas a pergunta importante, nesse momento, seria: perder o que? Em nome do que?

Veja bem, se quer mesmo tanto ser mãe, vá lá. Mas faça do jeito certo: concilie tudo. Seja ainda mais máquina. Seja um automato pensando que é um autônomo… Todos vão te dar a maior força: vai, é assim, você consegue. E, o pior, você também acredita. E se o investimento no trabalho muda… culpa. E se não consegue, em meio à sua rotina insana, ainda dedicar-se à gravidez, curtir, estar feliz ou, depois, ser o que dizem que é “uma boa mãe”… culpa. A culpa é sua, minha senhora, que não está fazendo bem o bastante. Não ajustou as peças da maquininha que é você para funcionar direito. Você acredita que é possível, que tem que dar conta e, mais grave ainda, que é exatamente isso o que quer para você, para sua vida e para a do seu filho. Será mesmo que quer? Você parou para pensar o que quer com ser mãe?

Ao invés de dar conta, por que não dar as contas para essa lógica perversa?

Depois de mais de 15 anos trabalhando de sol a sol, depois de um percurso profissional muito bem sucedido, depois de duas especializações, uma formação, um mestrado, um doutorado, dois pós-doutorados, um fora do Brasil, artigos publicados, livros, palestras e afins… Depois de tanto trabalho e de tanta conquista, quando eu me descobri grávida e percebi que todas essas coisas ganhavam um outro lugar agora… (e olha que nem foi uma idéia de desistir, de largar tudo, apenas a constatação de que coisas, projetos e investimentos mudam de lugar…). Depois de todo esse percurso, tornei-me uma ameaça para várias pessoas apenas por cogitar viver minha gravidez, aproveitá-la, experimentá-la, descobrir com ela. Uma ameaça de retrocesso por pensar que isso, essa experiência, ter um filho pode ser tão bom e tão valioso quanto tudo o que fiz. E por querer me dedicar a isso do mesmo modo como sempre me dediquei a tudo, ou seja, intensamente.

Ainda bem que sempre têm algumas poucas pessoas que conseguem sair da caixinha pré-formatada e pensar com a própria cabeça e que são capazes de dizer: “viva isso, é legítimo tanto quanto tudo o mais que você já viveu” para te dar um alento, não? Parece que vira e mexe resvalamos em um clichê: do “a maternidade é uma benção” para o “seja mãe, mas não seja apenas isso” para o “seja independente e invista em você, na sua carreira, no seu futuro”… Arremessadas de um lado para o outro, sempre às voltas com algum imperativo sobre o que fazer, como fazer, como ser, como sentir, o que viver. Putz, alto lá!

Então, se eu posso dizer alguma coisa de útil é: “viva isso”. Não deixe de viver sua gravidez porque todo mundo, inclusive você, enfiaram na sua cabeça que é preciso dar conta de tudo, que não pode parar, diminuir, recuar, que tem que continuar independente, trabalhadora, bem-sucedida, o que quer que essas palavras signifiquem. Trabalhe, se isso faz sentido. Trabalhe mais, menos, mude de rumo. Mas não caia no engodo de que isso que você está vivendo é uma coisa banal e sem importância que não deveria alterar sua rotina, nem mudar seus projetos que, esses sim, são fundamentais. Pensar assim, a meu ver, é negar a realidade de que uma gestação muda sim seus planos, seus projetos, sua rotina, seus desejos, suas prioridades. Para o melhor e para o pior. De todo modo, algo muda. E qual o problema? Por que é que a maternidade não pode ser importante a ponto de mudar uma pessoa?

Talvez, para essa cultura do sucesso, do êxito, do reconhecimento a qualquer preço seja realmente um problema que, em algum ponto, as pessoas passem a se questionar se é isso mesmo o que importa. Mas, afinal, o que você prioriza na sua vida: ser aquilo que dizem que é o que vai te realizar e te fazer feliz ou tentar descobrir o que, na sua vida singular, te traz realmente alguma realização e alguma felicidade?