Para os amigos sem filhos

Eu já fui a amiga sem filhos por muito e muito tempo. E hoje, olhando para trás, vejo como eu era sem noção no tipo de exigência e de expectativa que tinha em relação aos amigos com filhos (desculpa aí, galera). A verdade é que dificilmente a gente faz idéia de como é algo que nunca viveu e costumamos julgar as situações a partir da nossa perspectiva, que é a única da qual dispomos. Colocar-se no lugar do outro não é tarefa simples e nunca é possível de se fazer totalmente. Assim, foi apenas quando minha filha nasceu que comecei a experimentar, do lado de cá, uma série de atitudes de alguns amigos que são tão ou mais sem noção do que eu. Felizmente, não são a maioria, que mesmo sem filhos possui uma tolerância e uma sensibilidade que eu, infelizmente, não tinha. Mas sempre tem aquele mais auto-centrado que não se dá conta de muita coisa ao redor de si, né? Ou aquele amigo querido do peito que está num péssimo dia e mete os pés pelas mãos contigo ou com o seu rebento. Mas que a gente ama mesmo assim. Então, eis aqui minha modesta contribuição para tentar traduzir para os “sem filhos” uma série de atitudes dos “com filhos” a fim de que vocês não sejam tão severos, mau humorados ou estabanados com a gente, tá?

  • quando vocês nos convidam para alguma coisa e nós aceitamos, isso quer dizer que queremos muito, muito, muito mesmo fazer aquele programa junto com vocês. E vamos tentar de verdade. Mas pode ser que a gente não consiga. E as chances são grandes. Por quê? Porque com bebês e crianças pequenas a verdade é que nunca dá para saber realmente como as coisas vão acontecer. Isso é algo que a gente descobre apenas na hora de fazer cada coisa. Vai dar? Não vai dar? Suspense até o último minuto. Pode ser que o bebê tenha cólica, ou esteja num péssimo dia, ou esteja com febre porque os dentes estão nascendo, ou tenha dormido pouco à noite e decida dormir bem naquela hora, ou tenha tido um dia atípico e tumultuado que nos deixou esgotadas e não temos mais forças para botar o pé para fora de casa. Pode ser por muitos motivos mas, te juro, todos são verdadeiros. E ficamos realmente chateadas quando temos que cancelar alguma coisa no último minuto. Mas acontece. Muitas vezes. E é tão frustrante para nós quanto para vocês. Então, não deixe de nos convidar por isso. Uma hora vai.
  • até por conta do que acabei de dizer, aquilo para o que se convida faz uma enorme diferença nas chances do programa acontecer. Sair para a balada à noite? Ir para um bar tomar alguma coisa? Restaurante descolado na hora do jantar com direito a duas horas de espera? Ou qualquer tipo de programa super cool que envolva noite, muita gente, bastante barulho, fumaça de cigarro e lugares cheios? Bom, lamento te dizer mas isso é um no – no sem escalas. Não sei se têm pais que aceitam um convite desses e vão com bebê a tiracolo. Acho que sim, me lembro de amigos que faziam isso. E entendo, porque tem horas em que a gente precisa muito tomar um ar e quer muito estar com os amigos e poder falar de outros assuntos que não fraldas, mamadas e cocô. Mas cada coisa a seu tempo. Eu já digo não logo de cara. Mesmo que seja o tipo de programa que eu adore. Mesmo que seja uma festa na sua casa. Mesmo que eu queira muito ir e que sempre tenha ido. Com um bebê, é pedir para se colocar numa situação onde as chances do sujeitinho se estressar, não dormir, chorar, se irritar são imensas. Uma situação em que muitos adultos ficarão em torno de uma criança, que vai passar de braço em braço e acabará ficando tão alucinada com tanto estímulo que depois vai te dar três vezes mais trabalho para acalmá-la. E, não, amigos queridos sem filhos, um bebê super ligadão, animado e hiper eufórico não é um bebê que está se divertindo pra caramba. As maiores chances são de que ele esteja em um nível de excitação do qual ele não é capaz de dar conta e que vai fazê-lo sofrer e chorar um bocado, porque é muito desagradável. Então, se o convite for para uma balada noturna, saiba de antemão que é extremamente simpático e que a gente se dói por dentro de não poder sair, beber e voltar com o dia nascendo e a cara amassada. Mas realmente não dá. E se a festa for na sua casa e a gente cair na asneira de acreditar que é uma boa idéia, por favor, arrume um lugar quietinho e sossegado para nos trancarmos com o rebentinho na hora em que a coisa ficar feia, tá? Ou deixe-nos irmos embora sem insistir muito para ficarmos e sem ficar chateado. Nós tentamos e, provavelmente, ultrapassamos uns bons limites para estar ali.
  • mas por que não vem sem a criança, então? Pois é, meu caro, essa é a pergunta que não quer calar, tão evidente, tão banal, como é que os pais não se tocam dessa obviedade? Bom, como explicar? Nem sempre temos com quem deixar o bebê ou a criança, nem sempre existem avós por perto, por exemplo. E nem sempre a criança está em um momento em que pode ser deixada, ou os pais – e especialmente a mãe – nem sempre estão em condição de deixar. Pode ser que o bebê seja amamentado, pode ser que os pais ainda não tenham encontrado uma pessoa de confiança, ou que o bebê ainda não tenha se acostumado com a babá a ponto de ficar muitas horas sem se estressar… pode ser muita coisa. Pode ser, inclusive, que para os pais a prioridade seja a de estar com o filho enquanto ele ainda é tão pequeno e precisa de tantos cuidados e que eles não queiram delegar esses cuidados nem para ir na sua festa. Entenda, novamente, não é por mal. É apenas uma questão de prioridades e do modo como aquela família está organizando sua rotina com o bebê. Assim, será o caso de decidir simplesmente não ir para não se colocar numa situação de caos total, com um bebê estressado. Ou de ir porque a festa é de casamento, aniversário, nós te amamos e estamos topando passar perrengue para estar ali. Então, quando a gente chegar com o rebentinho chorão, meio desarrumadas e ansiosas e tensas e aflitas com a coisa toda, dêem um desconto. Estamos realmente fazendo um baita de um esforço e inventando uma puta solução de compromisso entre cuidar do nosso filho e estar contigo, do mesmo jeito que sabemos que vocês estão fazendo um baita esforço em receber criança em festa de adulto, ter que fumar na janela, guardar o beque para mais tarde, tentar ajudar, puxar papo e nos deixar o mais confortável possível, correndo o risco de ter bebida espirrada na roupa descolada, junto com o patê dos canapés, bolo esfregado nas almofadas do sofá, vômito na camisa do peguete da amiga e gritaria que impede todo mundo de terminar uma conversa inteira em uma tacada só. De fato, estaremos em dois universos que destoam por um tempo e isso é doloroso. Mas acho que o mais importante é que, dos dois lados, cada qual faça um esforço para ir na direção do outro, né?
  • mas não pode dar uma mamadeira? Deixar com a babá? Botar na creche? Deixar dormindo ali no carrinho? Don’t. De verdade, não vá por esse caminho. Quanto mais próximo você for, mais vezes já terá ouvido seus amigos pais reclamarem da quantidade de sugestões que recebem todos os dias, vindas de todos os lados e sem jamais considerar o que eles pensam, suas dificuldades e o modo como acreditam que seja importante cuidar de seus filhos. Então, a menos que a gente esteja desabafando, pedindo ajuda, pedindo opinião ou algo do tipo, você não vai querer fazer parte das estatísticas, né? Pode acreditar, nós também já pensamos em todas essas opções que você está mencionando para irmos na maldita festa, já estamos frustrados o bastante porque não poderemos ir e elaborando o fato de que a vida mudou e as prioridades são outras. Pode ser uma fase, pode ser que logo ali adiante mude a nossa maneira de organizar e lidar com a rotina, pode ser que com os filhos crescendo a gente adquira mais mobilidade. Pode ser um monte de coisas, mas nesse exato momento é assim que as coisas são. E não sabemos quanto tempo esse exato momento vai durar. Então, por favor, leve na esportiva tanto quanto possível o fato de que pensamos em tudo e concluímos que não vai dar.
  • e… putz! A gente pode atrasar! Ou ligar no último segundo dizendo que não vai. Ou mais um monte de atitudes irritantes que te deixam com a impressão de que estamos zoando com a sua cara. Não costuma ser o caso. Nem é o bebê que está zoando com a nossa, embora às vezes pareça. Mas o negócio é que um bebê é um sujeitinho mais governado que a gente por suas próprias necessidades. Ele precisa e precisa imediatamente: mamar, matar a sede, fazer xixi, cocô, ficar limpo, dormir… Ele precisa e a gente precisa atender porque essa é justamente a época em que precisamos atender muitas demandas. Não é manha de bebê mimado, não é excesso de zelo. Bebê é um serzinho desamparado que precisa de cuidados e apenas o passar do tempo e os cuidados oferecidos podem fazer com que ele precise menos e menos imediatamente e desesperadamente das coisas. Então, bom, quando ele precisa mamar na hora em que estamos prontas, com sacola, tralha toda, bebê vestido, limpo, no sling, a gente na porta de casa precisando apenas trancar a dita cuja… bom… ele está com fome e precisa mamar. E a gente volta pra dentro, tira o bebê do embrulho, tira o sling, senta no sofá e deixa ele mamar sossegado até acabar. E daí tenta de novo. Vamos te mandar um SMS e, infelizmente, não teremos como dizer exatamente quanto tempo vamos atrasar. Pode ser 15 minutos, pode ser duas horas. É foda, eu sei. Eu também detesto atraso. Mas o que você prefere? Que a gente chegue duas horas depois, bebê sorridente, mamãe descabelada porém sossegada ou que a gente chegue na hora, bebê berrando, mamãe desesperada, desgrenhada, cogitando virar dois shots de tequila?
  • por essas e outras penso que o melhor lugar para um encontro garantido é em casa. Fazer uma visita é garantia de uma maior chance de que a gente realmente se veja e realmente consiga conversar. Sim, boa parte da conversa vai girar em torno do bebê e pode ser que você se interesse tanto por bebês quanto pela geopolítica do Timbuktu. E pode ser que você sinta saudades daqueles papos interessantíssimos sobre artes, viagens e tantas outras coisas exóticas e excitantes das quais costumávamos falar. Uma notícia: provavelmente nós também sentimos falta de outros assuntos. Mas a verdade é que nosso interesse está ultra focalizado e, especialmente no começo, as chances são grandes de que passemos o tempo quase todo por conta do rebento. O jornal? Não lemos. Conflitos no oriente médio? Não sabemos. Copa do Mundo? Hein? Por vezes é falta de tempo, noutras é falta de interesse e noutras ainda é porque estamos realmente interessadas no que estamos vivendo. O que, por sinal, é o mais usual sempre, não? Que estejamos focalizados naquilo que vivemos e querendo falar disso? Então, se você tem paciência e um tanto de tolerância, dê um desconto para nossos papos sobre fraldas, leite e cocôs. Sim, é escatológico. Sim, deve ser um tédio para quem escuta. Mas pense que daqui a alguns anos poderemos rir juntos desses papos estranhos e insanos. E, pode até ser que, depois de você nos escutar um bom tanto, fiquemos muito felizes de te escutar a respeito do filme do momento, da festa divertida ou do jogo do Uruguai.

Como a vida mudou!

Sinceramente, quando dizem que a maternidade muda a sua vida, eu posso te garantir que nem que você seja a pessoa mais criativa do mundo você dará conta de imaginar o quanto isso pode ser verdadeiro e radical. E muda de maneiras inesperadas, ainda por cima. Nada a ver com dormir menos ou coisa que o valha, porque disso todo mundo fala. Falo de mudanças nas entranhas, sabe? Aquelas com as quais você não contava. Senão, vejamos.

Sempre fui uma workaholic convicta, para quem o trabalho era a principal fonte de investimento prazer e inspiração. E agora desloquei tudo isso para a maternidade, certo? Não, cara pálida, errado. Agora estou há um ano sem trabalhar, o que quase me deixou maluca, mas também me fez pensar muito sobre o sentido em ter o trabalho como centro da vida.

Sim, é gratificante demais encontrar uma profissão que te encante, que te interesse diariamente e que te traga satisfação além do dinheiro em exercê-la. Ser independente, pagar as próprias contas e, ainda mais, fazendo algo que gosta soa como o auge da realização. Pois é, eu já vivi tudo isso, já estudei muito, já trabalhei feito maluca, já investi intensamente no meu trabalho, na minha carreira, nos meus projetos, com tudo o que isso sempre implicou, inclusive, em termos de vida pessoal: minha vida era o meu trabalho e, mesmo sem perceber, tiveram umas tantas coisas bem importantes que ficaram sacrificadas ao longo do caminho.

Tudo bem, não sou a primeira e nem serei a última mulher desse mundo que farão esse caminho. E ainda que muitas de nós pareçam estar satisfeitas com os resultados, vejo uma boa pitada de amargor em gente como eu que chega nesse mesmo ponto da vida e começa a se dar conta, por um ou outro acontecimentos marcantes, que nada faz muito sentido.

A questão não é trabalhar, ter uma carreira, valorizar e ser valorizada por isso. A questão é o momento em que atravessamos uma fronteira em que isso e torna o centro de nossas vidas e tudo o mais – e existe muito mais do que isso – fica pegando poeira ali do lado, definhando lentamente.

Nasci e vivi boa parte da minha vida em São Paulo. E enquanto estive por lá, o trabalho foi praticamente tudo na minha vida. Eu trabalhava umas 50 horas por semana, inclusive aos finais de semana. E adorava isso. Adorava o estresse, a correria, o desafio. A grande maioria dos meus amigos e conhecidos de lá faz o mesmo, não importa em que área trabalhem. E parecem satisfeitos.

Mas daí eu vim para a França e, na medida em que comecei a criar aqui uma rotina e a ter contato com outras pessoas, me deparei com um modo totalmente diferente de viver a vida e de encarar o trabalho. E esse modo diferente, em que existe espaço e condições para fazer outras coisas no seu cotidiano além de trabalhar me fez questionar até que ponto meu estilo centrada na carreira era escolha ou falta de opção.

Quero dizer: será que o fato de vivermos em uma cidade hostil como São Paulo, violenta, com poucos espaços públicos e sem nenhuma cultura de usufruir da cidade… Será que uma cidade onde mal se pode andar pela rua, onde boa parte das atividades de lazer se restringem ao consumo, onde programa com os amigos é fazer compras no shopping ou ir jantar em restaurante… Será que uma cidade em que se leva duas horas para chegar ao trabalho e duas horas para voltar dele, onde ninguém consegue terminar seu dia antes das dez horas da noite… Será que uma cidade cara, centrada no consumo, onde as atividades culturais custam, em sua maioria, os olhos da cara e onde as pessoas se sentem constrangidas em museus, galerias de arte e na Sala São Paulo… Será que uma cidade onde a educação “de qualidade” é paga e custa caro, onde a saúde “de qualidade” é paga e custa uma fortuna, onde todos os serviços essenciais são pagos, assim como o condomínio, todas as despesas de ter um carro… Será que uma cidade como essa, em que a vida é tão difícil, inóspita, violenta, complicada e segregada não nos empurra a acreditar que a vida é trabalho porque, no fim das contas, é só o que dá para fazer mesmo? Porque precisamos ganhar cada vez mais para bancar essa vida nessa cidade e nesse país e, no fim do mês, a conta quase não fecha?

Não discuto aqui que trabalhar pode ser projeto de vida de muitas pessoas e que pode ser um grande prazer e uma baita injeção de adrenalina. Nem discuto que existe saúde, educação, transporte e segurança públicos em São Paulo. E discuto ainda menos a qualidade dos mesmos, pois sei que existe muito serviço público de qualidade em meio a outros tantos bem ruins. O que estou discutindo é se não criamos ou embarcamos em uma mentalidade estressada, que vive correndo atrás de não sei qual prejuízo e que vive da vida muito pouco. E exige menos ainda. E ainda acha que essa vida é normal. Descobrir que pode ser muito diferente é um choque.

A primeira vez em que voltei de uma festa de madrugada, andando, sozinha, em pleno sabadão invernal parisiense percebi que alguma coisa havia mudado essencialmente nas minhas entranhas. Eu descobri que era possível viver diferente. E viver melhor. Andar nas ruas, que são de todos, poder circular, ocupar a cidade, usufruir daquilo que é de todos. E cuidar também, porque é de todos. E usar os serviços públicos, que são bons e funcionam. E poder contar com eles. E não precisar ter despesas astronômicas com saúde e educação. Nem com transporte.

Se tudo isso já bastou para me questionar sobre o porquê focalizei tanto da minha vida em torno do trabalho, engravidar veio reforçar e acentuar ainda mais essas indagações. Que sentido faz trabalhar tanto para ganhar tanto se o que se faz é passar a vida correndo atrás do próprio rabo dos próprios gastos? Que sentido faz nutrir toda essa maquinaria para começar a embarcar nela os próprios filhos, afastando-se deles para poder cuidar deles? Não parece um contra-senso? Para cuidar preciso estar longe, trabalhando de sol a sol a fim de garantir todas as coisas, todos os serviços, todas as necessidades que o pequeno rebento possa ter… com exceção de sua necessidade da minha presença. Trocamos presença por todas as outras coisas. Quando talvez devêssemos estar reivindicando o contrário: menos coisas, uma vida mais viável justamente para estarmos mais presentes.

Eis-me aqui então nesse ano sabático, constatando essa mudança de centro que jamais poderia suspeitar que um dia ocorreria comigo. Não estou trabalhando, mas estou trabalhando muito. Sem saber exatamente qual lugar o trabalho terá para mim em seguida. E bem contente em descobrir que a vida tem bem mais coisas a viver do que aquilo em torno do que a minha sempre girou. Por aqui, boa parte dos meus amigos tentam e conseguem se ver ou se falar ao menos uma vez por semana. E as pessoas saem juntas, se visitam, se encontram no final da tarde, batem papo, escolhem um entre milhares de programas, muitos dos quais de graça, viajam nas férias e nos finais de semana. Há tempo e lugar para muitas coisas além do trabalho mas, principalmente, há tempo e lugar para pessoas e relações.

E você? Quanto custa a vida que você escolheu viver por aí?

Tsunami

Sabem aqueles medos inexplicáveis que as pessoas têm? Tipo medo de barata, de multidão ou de unha raspando no quadro negro? Então, eu tenho 3 medos pânicos desse tipo e um deles é… tsunami. Sim, muito antes do que aconteceu na Tailândia ou no Japão há tempos atrás. E antes também de Impacto Profundo, o filme. E furacão? Não. Tornado? Não. Terremoto? Não. Vulcão? Nada, meu sonho é ver um em erupção. Não, minha gente, o medo não é da força incontestável da natureza que se revela nas mais variadas catástrofes naturais. O medo é de tsunami.

Eu perdi a conta de quantas e quantas vezes fiquei pensando no que faria se visse o mar recuar – o que, todo especialista sabe, pode ser o começo da tsunami – para onde iria, se correr seria suficiente, em que lugar alto poderia me abrigar… Porque uma tsunami não é como uma ondinha irritada de um mar de ressaca que implica em arrancar seu biquini ou te fazer comer areia. Uma tsunami é um muro colossal de água sem fim que avança, avança e avança carregando você, um transatlântico, as árvores, uma carreta, um prédio de cinco andares, uma vaca e tudo o mais que encontrar pelo caminho. Detalhe: sou paulistana e, hoje em dia, moro em Paris ou seja, para chegar uma onda por aqui teria que ser o apocalipse e, nesse caso, correr não adiantaria muito e o melhor seria ficar em casa twittando e comendo um belo pacote de chocolate… mas, putz! Tsunami, minha gente!!! Quem pode ser racional numa hora dessas?

Sempre tive um sonho recorrente, ou melhor, um modo de solucionar sonhos recorrente: quando a situação no sonho começava a se tornar angustiante, amedrontadora ou desconfortável eu pensava, sem acordar, que aquilo era apenas um sonho e que eu não queria que fosse daquele jeito. E assim, magicamente, eu fazia uma espécie de rewind no sonho e começava de novo, até sair da maneira que eu queria. Sim, e isso é mais antigo que o tsunami e bem anterior ao Feitiço do tempo, outro filme.

Confiem em mim, esse post vai para algum lugar e não é apenas para fazer graça para que os psicanalistas amigos e leitores tenham o que interpretar nas rodinhas de conversa. E, sim, essas duas coisas têm relação entre si e com a maternidade. Explico.

Quando as pessoas dizem que a maternidade é difícil, normalmente usam como justificativa argumentos como choros, noites mal dormidas, perda da liberdade que se tinha antes… enfim, esse blábláblá que toda mãe já ouviu da boca de tudo quanto é amigo, conhecido, desconhecido… Putz! A acreditar nessa gente, a maternidade seria uma passagem só de ida para dentro de O exorcista, mais um filme (estou cinéfila hoje, dêem um desconto). Detalhe: essas pessoas são as mesmas que dizem que é uma maravilha ser mãe. Como assim? Se é tão ruim, como é que é bom? Ou o bom é que é ruim? Coisa de masoquista essa tal de maternidade, então? Vai entender…

Nessa altura dos acontecimentos, do alto da minha vasta experiência de 5 meses como mãe, o que eu teria para dizer a respeito é: sim, a maternidade tem algo muito difícil. E, não, não é exatamente isso que as pessoas falam. Não é cuidar do bebê que é difícil. O difícil é a intensidade da experiência. Tsunami.

Pensa bem, vamos apostar no melhor dos mundos: você é uma mulher, adulta, dona do seu nariz, independente e consciente, na medida do possível, daquilo que quer. Tem uma vida que te traz alegrias, tem amigos, amores, trabalho, carreira, diversão, viagens. Sente-se satisfeita com aquilo que construiu, e boa parte do tempo dessa sua vida é investido em viver de acordo com o que você quer e precisa. Daí vem o bebê e acontece um turbilhão: você, que era centro do seu mundo, desloca-se para a periferia. E aquele serzinho tão pequeno, delicado e frágil passa a ocupar o lugar de destaque.

Não, isso não é papo de gente egoísta, narcisista e auto-centrada que não aguenta não ser o centro das atenções. Isso é uma questão do nosso tempo, em que boa parte do foco da vida de cada pessoa foi posto na realização pessoal e na criação de um percurso singular, que faça sentido e traga alegria para si. Isso no melhor dos mundos porque, no pior, singularidade virou sinônimo de sucesso, fama e outros afins, como se o que testemunhasse a felicidade de uma pessoa fosse aquilo que ela tem mas… enfim… distorções de uma época em que tudo e todos estão muito centrados em si, para o melhor e para o pior. E, numa época como a nossa, ser arrancado do centro da própria vida tem efeito de turbilhão. Tsunami. E frente ao muro de água que avança, avança e te engole, você tem duas alternativas: ou resiste (e é tragada do mesmo jeito) ou se deixa levar.

Gente egoísta, narcisista e auto-centrada, a meu ver, quando tem filhos simplesmente continua ocupando o mesmo lugar de antes, ancorada bem no meio da sua vida que, muito rapidamente, tem que “voltar a ser o que era”, como se nada de mais tivesse acontecido. É um estado de negação que se instala: mesmo corpo, mesma vida sexual, mesmos programas, mesmos projetos… Gente que ignora a mudança colossal que acaba de ocorrer na sua vida e que coloca o bebê para gravitar em torno de si, da própria rotina, dos próprios ritmos e interesses, esperando dele que se adapte e se enquadre naquilo que já existia. Uma violência com alguém que não tem muito recurso para se defender a não ser chorar e chorar e chorar. E, quanto mais chora, mais irrita aos adultos que não querem ser incomodados e que, consequentemente, responderão com estratégias ainda mais extremas de disciplinamento e por aí vai, numa bola de neve sem fim de incompreensão, opressão e choque. Têm pais que passam como tsunami na vida dos filhos.

Quando deveria ser o contrário.

Nesse nosso tempo, a segunda opção, que gosto de acreditar que não é apenas a minha, é se deixar tragar. E remar contra a maré, paradoxalmente. Quero dizer, ir contra o esperado socialmente e, de repente, se deixar levar. Ao contrário do sonho em que seria possível discordar dos rumos da história e recomeçar até que aconteça do jeito que queremos, a tsunami da maternidade vem sem que se possa voltar atrás. O que é absolutamente aterrador. E eu me arriscaria a dizer que nos primeiros meses da maternidade, juntamente com a privação de sono – que não à toa foi usada como método de tortura em todos os tempos, regimes e situações – e com a despossessão de si – seu deslocamento do centro – essa consciência de irreversibilidade da vida é aquilo que mais desestrutura. A vida mudou, alguém que não existia antes agora existe ali, por seu desejo e responsabilidade (juntamente com o da cara metade, o que não necessariamente alivia muita coisa) e você, de um jeito ou de outro, vai ter que encarar isso sem se desviar. Sem negociações, sem tergiversar, sem tentar engambelar a morte, como no magistral O sétimo selo, do Bergman. Quem não enlouquece com isso, nesses tempos em que tudo é líquido, fluído, deslizante, incerto? Tempos de modernidade líquida, como ponderou o sagaz Bauman… serão tempos em que algo tão definitivo quanto a maternidade é possível?

Não poder voltar atrás e, ainda por cima, ser o adulto da história, aquele que tem que sair de cena para o bebê existir, para conhecer esse bebê, entender o que ele quer e, ainda mais, confortá-lo, cuidá-lo, amá-lo. O desamparo de um bebê assusta e deixa a gente tão desamparada que são quase dois bebês chorando juntos, esperando quem os salve. Mas o adulto é você e é você quem tem que salvar. Você é quem tem que ser porto seguro, em um momento em que está arrancada do que sempre foi a sua vida e já nem consegue mais direito saber quem é.

Isso é uma perda profunda de referências junto com a demanda de ser referência para alguém, como se a água avançasse, avançasse e avançasse cobrindo tudo o que marcava um território e precisássemos, ali mesmo, construir uma casa. Construir uma casa segura enquanto o tsunami passa. Construir uma casa sobre um tsunami, frágil como um barquinho arrastado naquela imensa onda e que espera – tem a esperança – de que em algum ponto vai desembocar em algum lugar. São, salvo e sem ter a casinha destruída. Talvez as tais pessoas egoístas, narcisistas e egocêntricas sejam apenas pessoas apavoradas que, frente ao pânico da onda que chegou irremediavelmente, persistam em acreditar no sonho de refazer a vida a seu modo e retornar ao que era antes, tempo confortável em que tudo parecia conhecido. Negar até que se torne verdade. Negar até que o mundo se dobre à sua vontade. Ou ao seu medo. Tarefa hercúlea, não?

Não porque, além de ser arrancada da própria vida e ter que inventar a capacidade de dar a vida a alguém, cuidar e proteger no meio da tormenta, tem mais uma coisa que se instala junto com o tornar-se mãe. O medo ainda mais tenebroso de que a vida volte ao que era antes e aquele serzinho deixe de existir.

Noutro dia, fugi e fui ao cinema. Hehehehehe, eu diria. Depois de cerca de seis meses sem nem saber quais filmes estavam em cartaz e achando essa tal de sétima arte totalmente overrated (despeito de quem não pode sair e diz que, no fundo, nem queria, me julguem), saí numa noite em que estava previsto que eu teria uma reunião de trabalho, deixei a bebê com a babá (que, aqui, não tem nada a ver com o que entendemos como babá no Brasil, mas isso é outro assunto) e, no meio do caminho, me permiti mudar de idéia. Como era antes. Eu, sozinha, andando por essa linda cidade em que se pode andar nas ruas e experimentar o gosto de ser livre. E, como se não tivesse compromisso algum e, como se vivesse ainda aquela vida um pouco flâneur e, como se não tivesse que dar satisfação a ninguém fiz como fazia vez ou outra, quando saía da biblioteca após um dia de trabalho e entrava no cinema meio assim, como quem não quer nada, para ver onde iria parar. Parei em Philomena. Pior filme para quem tem uma criança pequena em casa. Ou o melhor, quem sabe? Pois além de me lembrar do quanto é bom sair à toa pela vida e parar em um cinema num final de tarde em Paris, e além de me lembrar de como Judi Dench é uma atriz fantástica e o quanto o cinema me permite pequenas grandes viagens que ajudam a entender melhor algo de mim mesma, como toda boa forma de arte, o que aconteceu de mais importante foi eu me instalar nesse tempo estranho do antes e do hoje. Uma confluência de tempos acontecendo ali, naquele cinema. E, por conta do filme, do enredo do filme e da situação em que fui vê-lo, entendi visceralmente uma coisa: não é mais concebível uma vida em que minha filha não exista. O antes é um tempo que eu não quero mais. Nem em sonho. Porque ter todo aquele conforto de uma época sem tumulto nem tsunami custaria o preço de não existir alguém que é simplesmente a pessoa sem a qual não há como meu mundo existir. Não há como eu existir mais sem ela, não há como eu existir sem que o nome “mãe” esteja colado na minha pele e na minha vida. Isso é o mais difícil da maternidade: uma vez nela, nunca mais existirá um segundo fora dela. E você, secretamente, espera mesmo que não, pois algo nela te define profundamente. Ainda que você não seja apenas mãe. Mas algo nesse acontecimento cria um antes e um depois. Para nunca mais. Algo em ser mãe se enraíza em você e não te larga. Uma raiz nesse muro colossal de água que avança, um fato inexplicável.

Ser mãe tem isso de bom: a gente se torna raiz flutuante.