Aquela historinha da criança francesa

Criança francesa não faz manha. E ainda por cima come de tudo? Opa, me passa a receita, me vende, onde eu assino?

           Tentei começar um post a respeito desses livros sobre as crianças francesas há uns 4 meses atrás e nunca conseguia terminar, até receber o convite de uma amiga para responder a algumas perguntas sobre ser mãe na França e, entre elas, havia justamente uma que interrogava sobre esses clichês de criança francesa que come de tudo, criança francesa que se comporta bem, criança francesa que não faz manha. Daí saiu essa resposta aqui.
           Sinceramente, eu penso que toda generalização é burra. Tudo o que eu mesma digo sobre esses assuntos aqui no blog é a verdade de como é ser mãe na França de uma certa perspectiva. Eu não conheço todas as francesas e nem a França inteira e, mesmo que conhecesse, não poderia afirmar que é assim que a maternidade acontece aqui com certeza. Posso apenas falar do que vejo e, ainda assim, segundo o meu jeito de olhar, que sempre será subjetivo, marcado pela minha história, por minhas referências, etc. Ninguém consegue falar de outro lugar que não sua posição no mundo, né? E a minha é de uma brasileira, vinda de um certo lugar, de uma certa classe social, que chega aqui na França pela porta dos estudos e da pesquisa universitária, que circula por certos lugares, encontra certas pessoas e vive uma vida que eu definiria como, mesmo por aqui, privilegiada.
          Mesmo sendo capaz de andar por diferentes ambientes, mesmo tendo amigos de muitos cenários bem distintos, ainda assim sempre tive o privilégio da minha cor (o que aqui conta um pouco menos, pois sou estrangeira e sou latina), do meu percurso profissional (a França respeita os intelectuais, coisa que não se conhece muito no Brasil), de falar bem a língua (mesmo com sotaque) e de ter um certo conforto econômico por conta do meu trabalho. Então, é desse ponto de vista que escrevo. Sempre.
          Quando esses livros da americana apareceram e viraram uma febre mundial, comecei a me perguntar: mas de que diabos ela está falando? Crianças francesas comem de tudo. Crianças francesas não fazem manha. Que crianças são essas? Tenho amigas brasileiras e francesas que são mães aqui e que também encararam esse tipo de publicação com a mesma perplexidade. Ficamos nos perguntando em que França ela viveu para chegar a tais conclusões. Talvez se ela tivesse esclarecido seu contexto logo de cara, a leitura ficaria mais honesta e mais interessante.
           Do que eu observo, acho problemático, por exemplo, dizer que criança francesa come de tudo. Pelos motivos que falei logo acima, sobre as generalizações. Mas também pelo fato de que o cardápio destinado às crianças é de uma pobreza nutricional extrema. Eu não consigo perceber onde é que elas comem de tudo.
            Paradoxalmente, não posso dizer que a maioria das crianças aqui comam bem. Nem em casa, nem na escola. Ao contrário do mito que existe sobre a boa alimentação da criança francesa, o que vejo é que o cardápio delas é bem pobre. Se você quer tirar a prova disso, chegue em qualquer restaurante na França e pergunte o que é o menu enfant (o menu infantil). Em 95% dos lugares as opções serão: hamburguer com batatas fritas, nuggets com batatas fritas e macarrão com presunto, o que significa, aqui, um macarrão cozido na água e sal que eles colocam um pouco de manteiga depois de pronto e uma fatia de presunto cozido ao lado. Isso é o que muitas crianças comem em casa também. E, nas cantinas das escolas e creches, infelizmente não é muito diferente. Já vi algumas reportagens sobre as cantinas das escolas onde eles oferecem carne com batatas fritas. Sistematicamente. Diversos tipos de carne com batatas, num molho avermelhado e engordurado bem esquisito. Nunca uma salada. Como legume, servem vagem, que é comprada enlatada, nunca fresca. Muitos doces no lanche: madeleines, bolachas, coisas do tipo. Poucas frutas. E a justificativa é a de que é isso que as crianças comem. Bom, mas quem ensinou as crianças a comerem assim? É de uma pobreza incrível, ainda mais sabendo o quanto se pode comer bem na França. Por isso falei de paradoxo.
           Outro teste que vocês podem fazer é observar as crianças saindo da escola. Normalmente, na hora da saída as mães levam um lanchinho que os pequenos comem no caminho de casa, o famoso gouter. O que é o lanchinho? Doces, bolachas doces, suco de caixinha. Ver uma criança comendo uma fruta no gouter é uma raridade. Em qualquer idade. Muita gente aqui não cozinha, compra comida pronta. Geralmente por falta de tempo. E também porque aqui é cômodo comprar comida pronta e a oferta é imensa. Isso não seria em si um problema, não fosse o fato do cardápio girar em torno de massas mal temperadas, enlatados, embutidos, nada fresco. Em lugares como Paris, onde as pessoas moram em apartamentos minúsculos com cozinhas impraticáveis, pior ainda. Enfim, para quem é mãe e se preocupa com a alimentação do seu filho, uma das maiores discussões, que se renova a cada ano, é se devemos deixar o filho almoçar na cantina da escola ou se é melhor buscar para almoçar em casa e levar de volta para a escola em seguida, para os cursos da tarde. E conheço bastante gente que opta por buscar o filho para almoçar em casa. Em um mundo corrido como o nosso. Bem o contrário do que a gente imagina quando pensa na culinária francesa e em suas delícias, né?
            Penso que crianças cujos pais cozinham mais frequentemente em casa são mais expostas a uma maior variedade de comidas e, com isso, têm mais chances de comer de tudo. Isso acontece aqui também com frequência, famílias que cozinham em casa. Como acontece de ainda se preservar o momento das refeições para que todos sentem-se à mesa.
           Eis algo que me parece importante, e que talvez contribua para as crianças comerem melhor. Não vejo por aqui crianças fazendo as refeições na frente da televisão, do tablet ou do celular. A hora de almoçar ou jantar é a hora em que desligam os aparelhos e todo mundo vem para o redor da mesa. Isso me parece fundamental, pois nada mais triste do que ver uma criança comendo e olhando uma tela, sem nem perceber o que está comendo, de uma maneira automática, sem sentir o gosto, sem descobrir a comida, sem identificar quando está saciado. Triste e contraproducente. Ainda bem, isso não acontece. Que eu saiba.
            Então, sim, eu já presenciei aqui na minha casa e na casa de amigos crianças comendo coisas que nos pareceriam difíceis ou improváveis, cheias de apetite e de curiosidade: verduras, frutas, frutos do mar, queijos, comida apimentada, salada e por aí vai. Isso é tão bonito de se ver e impressiona tanto que a gente esquece de observar o contexto em que isso pode ocorrer. E atribui o feito a causas tão absurdas como o fato da criança ser francesa. Não, meu caro. Para a criança comer de tudo, tudo tem que ser ofertado a ela e, principalmente, ela tem que ver os adultos comendo, porque é nisso que vai se espelhar para comer ou não. Então, sim, isso acontece na França. Mas, não, não é uma regra geral. Tem muita criança comendo Nutella por aqui.
             Sobre a questão das crianças se comportarem bem, não fazerem manha, acho que é uma situação análoga ao que eu acabo de dizer sobre a comida. Ou seja, depende. Se você for num parquinho qualquer, vai ver criança se jogando no chão, gritando, esperneando. Andando na rua, fora dos lugares turísticos, você também pode testemunhar uma cena dessas. Ou num restaurante, numa loja, onde for. Crianças francesas fazem manha como fazem as crianças brasileiras. Talvez a diferença esteja em como se lida com isso por aqui.
           Na França houve uma tentativa de implantar a lei da palmada, como a que existe no Brasil. Não foi aprovada. As pessoas, aqui, acreditam que educar exige uma certa dose de violência. Se você for nesses mesmos parques, restaurantes e afins, vai ver que há grandes chances da mãe ou do pai dessa criança que se joga no chão darem um tapa nela, puxarem pelo braço, gritarem, dizerem palavras bem duras. Eu já testemunhei isso várias vezes, tanto em Paris quanto no sul da França, em lugares dos mais simples aos mais sofisticados. Já vi mãe estapear filho no parquinho, já vi mãe dar cascudo na cabeça do filho de uns 10 anos no restaurante, já vi mãe dizer coisas extremamente humilhantes para um filho de uns 20 anos numa mesa de um outro restaurante, em alto e bom som… Tenho uma coleção de cenas. O que isso quer dizer? Que aqui ainda impera uma concepção de educação bastante opressora, onde o objetivo é dobrar os filhos para que eles se comportem bem. Não é raro ouvir os pais definirem a educação dos filhos por aqui como mostrar a eles quem manda, ou formulações análogas. Qualquer coisa próxima de algo como uma criação com apego – que existe também, ainda bem – é considerada como laxista, coisa de pais que não saberiam mais dar limites a seus filhos.
           Os franceses, em geral, me parecem ter um certo pavor da dependência. Os filhos nascem e eles já estão preocupados que sejam autônomos. Eles vêem qualquer situação de dependência quase com repugnância. Aqui, a idéia mais difundida é que bebê deve dormir no seu berço, no seu quarto, desde o dia em que chega da maternidade. Pode deixar chorar. Já testemunhei comentários de profissionais de saúde dizendo que a mulher é problemática porque amamenta o filho, que assim o está prejudicando, pois impede com isso sua independência. Aqui não é incomum mulheres decidirem dar mamadeira para os pais poderem participar da alimentação dos filhos (oi?). É o tempo todo um pânico de que a criança fique colada. E com isso, a meu ver, eles precipitam uma série de desgrudes que poderiam acontecer de maneira menos violenta. E que aconteceriam de todo jeito. Com raras exceções, quantos adolescentes você vê por aí pendurados nos pais ou fazendo questão da presença deles? Pois é. Os filhos desmamam, queiramos ou não e não precisamos fazer muita força para isso. Basta deixá-los seguir seu ritmo e ampará-los e amá-los ao longo do percurso.
            Pois bem, o que acontece quando vemos essas crianças francesas que falam bom dia, por favor e obrigada, que sentam à mesa, comem o que tem no prato, pedem licença, falam baixinho e que achamos tão lindo é que estamos testemunhando os efeitos dessa educação mais difundida na França de evitar a todo custo que os filhos fiquem colados aos pais. Eu, particularmente, acho isso perfeito como meta a atingir quando seu filho estiver entrando na idade adulta. Acho uma maravilha que as crianças sejam incentivadas na sua autonomia, no melhor estilo Montessori. Mas, com um bebê? Com uma criança pequena? E, o principal, onde é que incentivar a autonomia quer dizer obrigar a criança a ações e situações para as quais suas reações mostram claramente que ela ainda não está preparada? Não sei se esse resultado das crianças bem comportadas e agora invejadas no mundo inteiro vale aquilo que a criança viveu para chegar a esse nível de domesticação.
            Basta pensar que a França das crianças bem comportadas também é a França dos adultos com algumas das taxas mais elevadas de consumo de antidepressivos. Será que não existe nenhuma relação? Aqui também é um dos países em que há muitos idosos vivendo sozinhos. Mesmo quando têm família, não são amparados por ela. Será que isso também não tem relação com essa independência precipitada? Não tenho resposta para isso, mas são questões que me faço.
            Então, comparando a maneira como em geral criamos nossas crianças na França e no Brasil, eu diria que no Brasil há uma maior tolerância à dependência do que aqui. O que faz com que talvez no Brasil tenhamos mais liberdade de sermos apegados aos nossos filhos e de expressar esse apego enquanto que aqui os pais se preocupam desde muito cedo em criar os filhos para que eles sejam autônomos. Os dois têm suas vantagens e desvantagens. Acho incrível a maneira como aqui, desde que o bebê nasce, os pais se permitem sair com ele, viajar, passear, enquanto que no Brasil os pais ficam confinados durante meses com os filhos em casa, preocupados com os perigos da rua. Mas isso tem razão de ser, né? Além de ser algo cultural, tem a ver com viver em um lugar em que você pode sair na rua ou não. Ou seja, é complexo demais esse tema da criação dos filhos, pois são muitos fatores em conta. Por isso que não dá para generalizar.
           Talvez antes de elegermos nossos novos ideais de criação de filhos e de ficarmos invejando e lamentando não estarmos na França, onde tudo seria perfeito e nossos filhos que comem mal e fazem “birra” e “fazem manha” e são impossíveis seriam outros, totalmente comportados e obedientes, e ainda por cima falariam francês – uhu! – talvez, apenas talvez, fosse o caso de olharmos mais para nossos filhos e tudo o que os cerca em termos de ofertas de alimento, de diversão, de companhia, de afeto. E, talvez, pudéssemos encontrar ali mesmo, nesse entorno e nessas ofertas, as razões para as dificuldades que enfrentamos assim como as condições de fazer diferente e de fazer melhor. Sem precisarmos nos assombrar e nos sentir diminuídos por esses exemplos tolos de crianças perfeitas que NUNCA existem.
           Em tempo: a entrevista, publicada em várias partes, começa nesse link aqui. Vocês podem aproveitar para navegar pelo site do projeto Casa de Viver, uma inciativa bem bacana para mamães trabalhadoras em São Paulo.
           Em tempo 2: estou mudando o layout do blog, com a ajuda de uma super amiga mais do que talentosa. Comentários serão bem vindos.

Morar fora

Feliz ano novo, meus queridos!

E aí? Já estão de malas prontas para deixar o Brasil que não começou 2016 tão diferente do que terminou 2015?

Decidi começar o ano por um post daquela série “maternidade na gringa“. Porque sempre me perguntam como é viver for do Brasil. Mais do que como é ser mãe fora do país, as pessoas parece que querem saber como é viver o “sonho de morar fora”. Então, aí vai. Vocês que pediram, hein?

Em uma época de tantas crises e decepções no Brasil, o que mais ouço são amigos e conhecidos dizendo que vão embora do país. Se em 2009, a cada vez que escutava essa intenção me prontificava imediatamente a ajudar a pessoa com mil dicas e encorajamentos, hoje apenas me limito a sorrir.

Morar fora – ou dizer que vai fazê-lo – é ter o conforto de poder contar sempre com um plano B. É a carta na manga, a insolência de poder dizer: “ah é? Então não brinco mais!”, pegar a bola do jogo e virar as costas. É manter sempre uma porta de saída imaginária no fundo da cabeça da gente, para acreditarmos que basta um estalar de dedos e podemos nos materializar numa realidade outra em que tudo seja melhor, mais bonito e mais feliz.

A verdade? A maioria esmagadora das pessoas que passam boa parte do tempo dizendo que vão embora do Brasil não vão fazê-lo. E isso pelos mais variados motivos. Motivos práticos, motivos econômicos, motivos afetivos e, principalmente, pelo simples motivo de que ir embora do seu país e reconstruir sua vida num outro lugar é para bem poucos. E aqui não há nem um cheiro de esnobismo, como se o mundo se dividisse entre os fortes, aqueles que vão embora, e os covardes, aqueles que ficam. Até porque poderíamos adjetivar justamente da maneira contrária: fortes são os que ficam, covardes os que vão. Não, não se trata de um julgamento de quem é melhor, nem de se é melhor ir ou ficar. Trata-se de uma constatação feita a duras e dolorosas penas de que, para deixar o seu país e, principalmente, para se instalar em um outro lugar, é necessário ter uma certa condição. Psíquica. Em outras palavras: é preciso ter estômago, muita determinação e nervos de aço.

Então como é morar fora? É legal? É demais? É melhor do que aqui?

Todas as pessoas que conheço que vieram morar na França endureceram. É bem estranho encontrar outros brasileiros porque todos – ou todas – qualquer que seja sua história e os motivos e meios que os trouxeram até aqui, são num primeiro contato pessoas mais duras, desconfiadas e fechadas do que os primeiros encontros que sempre tive no Brasil. Ok, o sorriso trai a brasilidade. Mas não se  engane: os brasileiros que conheço por aqui são bem mais sérios que os de lá. Durões. Circunspectos. A ponto de escutarem comentários a cada vez que visitam nosso país de origem do quanto se tornaram esnobes. Não nos tornamos esnobes. Nem tampouco franceses. Endurecemos. Criamos casca e carapaça. Como todas as outras, não consegui fugir à regra e endureci igual minhas amigas. Acabei desenvolvendo a teoria de que morar fora endurece a gente.

Não, não é isso que você escuta ou lê quando aparecem aqueles relatos lindos na internet de como morar um ano fora mudou a cabeça da pessoa, abriu os olhos, libertou, criou novas perspectivas e tudo o mais que parece tão revolucionário que faz te sentir menor apenas pelo fato de ainda não ter feito as malas e largado tudo para passear mundo afora. E ficam os sites estilo matadorhypeness e sei lá mais quais publicando listas e listas das dez razões pelas quais você precisa morar fora, ou das dez coisas que aprendi quando larguei tudo e fui morar no X (preencha aqui com o nome da sua cudade-sonho-de-consumo), grandes responsáveis por te fazer se sentir um lixo. E ficam os seus amigos que moram fora do país postando fotos da escapada de final de semana em Barcelona, ou da balada em Berlim, ou do verão numa ilha grega paradisíaca de mar azul turquesa e que te fazem passar por um bobalhão tirando férias em Ubatuba. E ainda têm os reaças de plantão ameaçando mudar para Miami a cada vez que algum acontecimento político os desagrada. Não, morar em qualquer outro lugar é sonho de consumo, é ideal, é bem melhor do que aqui, é bom demais, não? Pois é, meu caro ou minha cara, desculpa ser eu a te contar isso mas, a coisa, na verdade, não é bem assim. Ou não é apenas isso.

Quem coloca a mochila nas costas e passa um ano fora, faz um sabático, um doutorado sanduíche, um curso de línguas ou o que quer que sirva de pretexto para um período fora do país dificilmente ultrapassa a superfície em que tudo pode ser encantador, surpreendente e promotor de descobertas e mudanças. E esse encantamento pode mesmo acontecer, quando a pessoa que chega se abre para o desconhecido, se redescobre outra em novos itinerários, noutra cultura, noutros costumes, noutra língua. Que bom que é assim! Que bom poder viver isso! Mas experimente ficar um pouco mais de tempo e viver uma vida mais banal e você vai perceber que o glamour da vida na gringa não é nada glamouroso não.

Chegar e se instalar noutro país mexe demais com qualquer um. Tem gente que se vicia nessa sensação de se reinventar e nunca mais quer ter raízes em lugar nenhum. É a euforia da novidade: quem, por exemplo, não imagina que seja um imenso prazer morar em Paris e ter todos os dias aquela beleza toda ao alcance dos olhos? E poder descobrir cada cantinho, explorar cada museu, cada monumento, cada construção, cada restaurante, cada esquina, cada detalhe? Como se viver em Paris fosse o equivalente de fazer todos os dias aquilo que a gente faz durante uma semana quando vem à passeio, como turista, como se fosse turistar em Paris em férias eternas. As pessoas em geral parecem ter um sonho de Paris, um mito de Paris, um anseio de Paris como o lugar mais belo, mais chique e mais maravilhoso para se viver nesse mundo. É o sonho do turista que idealiza o lugar pelo qual passa como aquele que seria o melhor para se instalar e viver a vida. Posso dizer, com todo o amor que sinto por Paris e mesmo sem levar em consideração a ameaça terrorista que paira sobre todos indiscriminadamente desde o ano recém terminado: não é. O lugar onde a gente vive é diferente do lugar onde a gente passeia.

Experimente ter horário em Paris. Ter que correr para um compromisso sem poder olhar as maravilhas do caminho. Correr para pegar o metrô, o ônibus, o trem. Correr e perder metrô, ônibus ou trem e ter que esperar o próximo, sabendo que vai se atrasar. Correr na rua do ponto de metrô, trem, ônibus até o lugar onde vai. Correr na rua em dia de frio, debaixo de chuva e neve. Ter que botar a cara na rua em dia de frio, chuva, vento e neve porque precisa cumprir algum compromisso. Ter que pagar aluguel (caríssimo) para morar num lugar minúsculo em que não cabe nem um terço das coisas que você acumulou no Brasil. Morar num prédio sem elevador e ter que subir com malas e compras. Fazer faxina. Lavar roupa. Passar roupa. Cozinhar (quando a cozinha tem um tamanho que permite fazer algo mais do que um miojo, claro). Experimente desentupir uma privada ou limpar o sifão da pia da cozinha porque esses serviços quase não existem, não funcionam 24 horas e, quando você encontra um encanador, custa uma fábula. Experimente a fila do titre de séjour e as burocracias da previdência social e da seguridade social. Experimente preencher formulários. Ou conseguir um emprego. Experimente pagar impostos na França. Todas essas banalidades podem deixar um estrangeiro maluco, simplesmente porque ele não nasceu e cresceu ali onde as respostas para essas tarefas quotidianas não precisam ser explicadas, de tão evidente que são.

Paris é uma cidade cara, que expulsa cada vez mais para seus arredores os jovens que não conseguem morar na cidade. Existem bairros inteiros que se tornaram casas de veraneio de ricos do mundo inteiro, bairros vazios, sem vida, sem graça. Existe a Paris dos turistas, sempre lotada, tumultuada, suja, intransitável, com gente se atropelando em todas as calçadas e filas intermináveis. Existem mil lugares lindos, graciosos e interessantes nessa cidade. Mas quem vive em Paris não passa a vida passeando. E isso você descobre apenas quando mora tempo o suficiente para que o encantamento cada vez que cruza uma ponte sobre o Sena ou dá de cara com alguma de suas maravilhas se mistura aos desafios cotidianos de ser um estrangeiro nessas terras.

Não apenas Paris, mas a França como um todo endurece a gente. Ou morar fora do seu país de origem, onde quer que seja, endurece. Caleja.

Porque, não, morar em Paris, morar na França não é como turistar indefinidamente nesse país. Basta precisar de algo banal e comum para se dar conta de que a maravilha acaba onde a vida quotidiana começa.

A França é um país cheio de burocracias e preconceitos. Sim, o país das Luzes tem seu lado escuro, racista, xenófobo, cheio de piadas com estrangeiros, atos de violência contra pessoas de certos países e/ou de certas religiões, intolerâncias quotidianas contra quem não fala ou fala mal o francês, julgamentos segundo as aparências os mais diversos. Foi numa das melhores universidades francesas que ouvi, pela primeira vez, um professor universitário falar mal de uma colega, pelo simples fato dela ser mulher. E melhor sucedida intelectualmente do que ele, diga-se de passagem.

A cada vez que você precisa renovar seu titre de séjour, ou abrir uma conta em um banco, ou solicitar um papel qualquer, trocar sua carta de motorista, validar seu diploma… enfim… cada vez que você precisa fazer algo banal e quotidiano, algo que não tem nenhum glamour e não participa do mito da vida maravilhosa na França você é confrontado com a burocracia francesa, o excesso de regras, de papéis, a falta de jogo de cintura e a indisponibilidade francesa em explicar aquilo que, para eles, parece óbvio. Tem quem diga que é assim para todo mundo. Até mesmo para os franceses. Mas a essa tacanhice se soma um certo gostinho por lembrar ao estrangeiro que ele está ali por uma concessão. Quem mora fora do seu país talvez passe a vida inteira com essa sensação de que estão lhe fazendo um favor. Maneira sorrateira de subjugar o outro.

Você é alguém no seu país? Tem trabalho, profissão, diploma, pós-graduação, mil especializações? Ok, aqui nada disso vale e você vai ter que validar seu diploma, refazer seu trabalho de conclusão de curso da graduação, fazer estágio… Conheço gente que, frente a essas exigências surrealistas desistiu e ficou cuidando da casa, dos filhos, ou foi trabalhar em subemprego, mudou de área. Não sem uma boa dose de depressão e revolta. Por isso as pessoas parecem duras, frias e distantes. É porque já tomaram muito na cabeça.

Quando você é estrangeiro, nunca sabe até que ponto as dificuldades que enfrenta para dar conta das tarefas mais banais se devem à sua condição ou se é assim para todo mundo. Tem gente que fica paranóico, achando que tudo é xenofobia. Tem quem desiste de tentar. E tem quem aceite as regras do jogo e faça o que dizem que deve ser feito. Para trabalhar, para ter documentos, para ter acesso aos serviços de saúde…

Morar fora do seu país de origem te confronta a um constante desconhecimento. O lado maravilhoso disso é se redescobrir ou se reinventar em um novo cenário, com novas pessoas, em outra língua. E poder fazer diferente, melhor. Ser surpresa em cada canto, a cada dia. O lado cansativo disso é ter que reaprender a andar, a existir, a viver com outras regras, outros papéis, outros jeitos de fazer as coisas, outros códigos que só aprendemos errando, derrapando e tendo que fazer e refazer gestos os mais banais.

Tem gente que se sente muito mal frente a tanto desconhecimento e tanta diferença e se fecha logo de cara. Tem quem se vicie nessa adrenalina do novo. Em ambos os casos, essa imersão inicial de quem acaba de mudar de país, superficial porque totalmente alienada das mazelas do dia-a-dia, parece que nos coloca frente a quem somos ou poderíamos ser se pudéssemos começar tudo de novo. Tem quem goste e se jogue na experiência. Tem quem deteste e passe o tempo todo se escondendo do contato com tudo o que é desse novo país, andando apenas com brasileiros, falando português, comendo comida brasileira, lamentando não estar em casa sem, no entanto, pegar as malas e voltar. Paradoxos de ser estrangeiro que só entende quem fica tempo o suficiente para sair da posição de turista permanente.

Se você pensa realmente em mudar de país, por qualquer motivo ou projeto que seja, e se vier me pedir conselho, acho que posso resumir todo esse texto longo em algumas poucas linhas: leve em consideração que nenhum lugar nesse mundo é o melhor lugar para se viver. O melhor lugar para se viver é o lugar onde você se sente melhor, não um lugar em si. Cada país, cada cidade tem suas vantagens e desvantagens e você ser feliz em um lugar ou outro depende mais da sua disponibilidade e do que é prioridade para você do que de qualquer outra coisa. Morar na França tem inúmeras vantagens. Mas tem o terrorismo. Morar no Brasil tem inúmeras vantagens. Mas tem corrupção, violência, falta de água, retrocessos… O que é mais importante para você?

Ninguém vai facilitar sua vida em um outro país. Você é quem foi, você é quem quis. Então, cabe a você se adaptar e não exigir que sejam eles que se adaptem. Claro que cabe exigir tolerância e abertura ao outro, o contrário da xenofobia. Mas querer que os franceses sejam sorridentes como a gente, que os serviços sejam rápidos e eficazes, que tenha pão de queijo e misto quente na padaria e mais um monte de coisas que são a nossa cara é ignorar que se está em um outro país. Se é para mudar de vida, mude de fato, não fique vivendo a vida velha na nova.

Agora, se é apenas para ter o conforto do plano B, tudo bem. Todo mundo precisa da ilusão de que pode fazer qualquer coisa. Lembre-se apenas, quando vier me perguntar como é viver na França, que minha resposta reclamona vai ser bem parecida com a que você daria se eu perguntasse como é viver no Brasil. Minha vida é bem parecida com a sua, não se preocupe. Mudar de país muda muita coisa e muda muito a gente. Mas não muda a vida em algo diferente do que seja viver.

O estranho patriotismo dos expatriados

Em tempos de Copa do Mundo, a primeira morando longe de casa, tenho visto exacerbado algo que já me chamava a atenção em muitas situações cotidianas por aqui: o patriotismo exacerbado, quase fanático, de quem está longe de suas origens.

Há pessoas que saem de seus países por conta de guerras ou de conflitos violentos ou perseguições políticas. Há pessoas que saem em busca de melhores condições de vida ali onde acreditam que seja possível aquilo que não é no lugar onde nasceram. E há aquelas que saem por oportunidades de trabalho, de estudo, por um investimento profissional. Qualquer que seja o motivo que tenhamos para transitar, me parece evidente que a humanidade é essencialmente nômade. E que as fronteiras e os empecilhos a essa livre circulação não são apenas de uma violência contra esse ser do humano quanto, também, de uma ignorância descarada acerca daquilo que contribui para a riqueza de um país ou de uma região.

Enfim…

O negócio é que as pessoas partem e chegam. E, cheias de esperanças e de ideais, constatam no dia-a-dia dessa nova vida nesse novo lugar que as coisas não são assim tão simples. Sonhar com a vida em um outro país é bem mais divertido do que vivê-la. Porque no sonho não existe a burocracia, as papeladas, as dificuldades de comunicação, tudo aquilo que você não sabe como funciona, os desencontros culturais… No sonho não existe o racismo e o preconceito com o qual o estrangeiro é olhado em qualquer lugar do mundo, sempre o primeiro a ser apontado como causa de todos os problemas de qualquer ordem, em qualquer lugar.

Então, o que acontece? Acontece que, expatriados, vivemos cotidianamente esses pequenos preconceitos, essas pequenas discriminações. E, mais ainda do que isso, essas milhares de pequenas dificuldades que atribuímos ao preconceito e à discriminação e que muitas vezes não são. São apenas o modo como as coisas são. E que não entendemos. E nessa experiência dura e oprimente de tentar se integrar versus a oposição para que isso aconteça, o que vemos é muitas vezes uma reação de total inadaptação. Uma recusa mesmo em se inserir, em fazer parte.

Me explico. E juro que isso tem a ver com a maternidade, ou ao menos com a maternidade fora de seu país de origem, tá?

Quantas vezes nos deparamos no Brasil mesmo com imigrantes de primeira geração que não falam português? Não aqueles que falam com sotaque carregado, mas aqueles que simplesmente não falam uma palavra? E quantas vezes nos deparamos com comunidades inteiras que ocupam bairros inteiros que passam a ter letreiros inteiros em outra língua, produtos vendidos em supermercados totalmente estranhos, gente que não se mistura e que te olha com desconfiança se você insiste em passar por ali? Não sei vocês mas eu, vivendo em São Paulo, tive essa experiência várias vezes de me deparar com pessoas ou com comunidades tão fechadas que ficava claro que não havia brecha alguma para entrar.

Pois é, o mesmo acontece por aqui. E o mesmo acontece conosco, os brasileiros. Nós, que parecemos um povo tão aberto ao estrangeiro, que parecemos sempre tão dispostos a recebê-los bem em nossa casa, que parecemos até subservientes, encantados com a estrangeirice alheia e invejando tudo de todos como se quiséssemos ser tudo menos aquilo que somos… Bem, nós, os brasileiros, somos acometidos muitas vezes de um curioso fechamento quando vamos viver fora de nosso país.

Vejo por aqui, quase cotidianamente, situações em que brasileiros simplesmente não se misturam. Pude conviver com pessoas que vieram para a França para seus estudos e que passaram todo o período de sua estadia convivendo apenas com outros estudantes brasileiros, frequentando bares e restaurantes brasileiros, comendo comida brasileira e… reclamando de tudo o que é tão diferente do Brasil. O tempo todo. Gente que terminou a bolsa sanduíche ou o que quer que seja praguejando que os franceses são chatos, mal educados, fechados. Gente que voltou sem falar uma palavra de francês, sem nenhuma experiência de abertura, sem nenhum momento em que tenham sido tocados por essa diferença para guardar na lembrança. Nada. Foram e voltaram sem sair do lugar.

Mais do que isso, vejo outros brasileiros que estão aqui há anos, quase décadas e que não falam a língua, frequentam apenas médicos e outros tipos de prestadores de serviço que sejam brasileiros ou que falem português, saem para fazer programas brasileiros, entre brasileiros. Pedem para quem vem do Brasil trazer remédio brasileiro, comida brasileira. Esmalte brasileiro, tintura de cabelo. E só. Não. Ainda reclamam da França e dos franceses. O tempo todo.

Vocês podem me dizer: ah, mas é o “mal do país”. Ou é saudades. Sim, pode ser mesmo. Como pode ser a reação meio paranóica ao que vivemos e identificamos como uma perseguição. Nos maltratam, não nos querem aqui? Ok, então ficamos por aqui sem olhar para eles.

Tenho uma colega argentina com quem convivi por um bom tempo e que vivia falando mal do Brasil. Detalhe: ela vivia no Brasil desde bem jovem, era casada com um brasileiro, tinha filhos brasileiros, fez seus estudos ali, tinha seu trabalho, ganhava seu sustento, tudo no Brasil. Sempre achei o fim da picada, uma falta de educação, de respeito e de gratidão pelo país que a acolheu sempre e bem. Mas vendo como são as coisas por aqui, posso compreender como acontece esse inevitável desencontro em qualquer país, com qualquer estrangeiro que viva fora de casa. E como tomamos esse desencontro como algo contra nós. E como temos que viver em constante defesa contra esse país que nos acolhe e nos maltrata ao mesmo tempo. Como se não fosse assim também em nosso país de origem, que se transforma então no lugar ideal onde tudo seria mais acolhedor, simpático, saboroso e fácil. Continuo achando falta de educação, de respeito e de gratidão. Mas muitas vezes faço o mesmo.

Penso que uma das maiores dificuldades de viver em outro país é manter um espírito de abertura e conseguir distinguir entre aquilo que é preconceito, racismo e xenofobia – dos quais a França está infelizmente infestada – daquilo que é apenas a estupidez cotidiana de um país que funciona mal em muitas coisas. Mas não apenas com os estrangeiros, com todo mundo. Um bom exemplo disso por aqui: a burocracia. Tente conseguir renovar seu visto uma vez por ano e você terá a forte impressão de que fazem de tudo para que você desista. Sim, deve ser verdade. Mas pergunte para o seu marido, amigo, colega, conhecido francês como é que é cada vez que ele precisa ir resolver uma coisa na prefeitura, buscar um papel em algum lugar, resolver algo simples como mudar um endereço para a entrega de uma conta… Hahahahaha, meus caros, é uma novela. De mau gosto.

Mas, ao mesmo tempo, tem tudo aquilo que funciona e que te fez vir / ficar por aqui, não? Existem muitas situações e muitos lugares em que esse país te acolheu e cuida de você e de seus interesses, não? Pois é, prós e contras. A vida está cheia disso e não importa muito aonde você viva.

Talvez o que seja difícil de lidar mesmo seja justamente essa constatação de que “a França não quer você”. Essa descoberta de que você está ali não porque é desejado, mas porque deseja. E tem que sustentar sua estadia apenas no seu desejo. E fazer um baita esforço por ele. Sem a apaziguadora idéia de que o outro faz a maior questão da sua presença. Não suportamos muito bem essa situação de não poder dizer que é por causa do outro que fazemos isso ou aquilo, mas apenas e tão somente por nossa vontade. E viver em outro país, qualquer que seja ele, te joga na cara essa verdade inabalável: você está ali porque você quer. Então, o esforço vai ter que ser seu.

Putz.

Não estou defendendo que os países recebam mal seus imigrantes, até mesmo porque eles precisam tantos da gente quanto precisamos deles. Mas são poucos os países que lançam campanhas para você vir se instalar, a demanda é quase sempre de quem vem, não? Então, como não assumi-la e aceitar o esforço que ela implica?

Mas o que isso tem a ver com o patriotismo? E com a maternidade?

Muito, porque nesse embate entre o nosso desejo de estar em um lugar para o qual não fomos convidados e a constatação de que não somos desejados e de que temos que construir nosso lugar ali por nós mesmos, vejo acontecer muitas e muitas vezes esse fechamento, essa recusa, essa idealização do país de origem e esse ódio do lugar em que se vive, que é negado de todas as formas possíveis, a começar pela recusa da língua. “No Brasil é que é bom”. Mesmo? Tem certeza? Não vou fazer aqui o discurso inverso de que no Brasil tudo é uma porcaria, mas o Brasil também tem lá suas mazelas, não? Não é flor que se cheire, como aqui, como nenhum outro lugar. E quem disse que haveria o lugar perfeito? E por que acreditamos nisso?

O mais curioso, engraçado, paradoxal nisso, contudo, é que esse fechamento nesse patriotismo meio xiita que vejo por aqui ignora totalmente que nada disso faz sentido para os próprios filhos. E aí entra a questão da maternidade, com algo que constatei noutro dia e que me deixou perplexa: para nossos filhos, os filhos dos expatriados, quer sejam eles brasileiros ou estrangeiros ou ambos, esse patriotismo não significa nada. Por quê? Porque a pátria deles é outra.

Vocês já pararam para pensar nisso, que para nossos filhos, o lugar de origem deles é e sempre vai ser esse onde nasceram e onde vivem? Que eles terão como referência uma língua outra que será a língua deles, mesmo que falemos português em casa e que eles também falem? Que eles terão outros sabores na boca, outras paisagens na retina, outros sons, outras impressões na memória? Que nossos filhos são os estrangeiros que recusamos ao recusar o país no qual eles nasceram e vivem e com o qual possivelmente terão a mesma relação afetiva de amor e ódio que temos com o Brasil?

Pois é, me dei conta disso noutro dia. Minha filha é francesa e brasileira. Mas enquanto vivermos aqui e quanto mais vivermos aqui, mais ela será francesa, marcada pela cultura, pelos hábitos, pelos costumes, pela língua desse país em que vivemos. E, claro, ela terá traços de Brasil nela. Mas mesmo que eu me torne uma patriota xiita e que ela se vista de verde e amarelo em dia de Copa, isso corre o risco de soar nela mais como exotismo do que como a defesa de uma certa identidade. Porque não é o que ela é. Porque eu escolhi estar e ficar aqui. E isso tem como consequência que ela seja outra coisa do que eu fui nascendo e vivendo no Brasil por anos e décadas.

Então, minha gente, acho que esse patriotismo exacerbado é meio que um tiro no pé. No nosso e no de nossos filhos. É não assumir que eles são outros e não deixá-los serem quem são, mesmo que isso signifique, dolorosamente, não-brasileiros. Então é fazer o contrário, se integrar e recusar totalmente nossas origens, nossa língua, nossa cultura? Claro que não. Isso apenas refaz o problema pelo seu avesso. Mas talvez se pudermos considerar que aquilo que somos não é o que nossos filhos são também nesse ponto, o das origens ou o do sentimento de pertencer a uma ou outra pátria… talvez isso nos ajude a sermos mais abertos e tolerantes com esse estrangeiro que nos acolhe e que, em certo ponto, são nossos próprios filhos.

As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Continuando esse papo aqui, que pelo visto vai durar muito tempo, já que ser mãe é um festival de novidades e ser mãe “na gringa” soma ainda mais novidades ao pacote.

Concordo com um post que li noutro dia que diz que você só começa a se enveredar mesmo pelos meandros do país em que vive quando se torna mãe em outro país. Claro, essa não é a única condição, mas se tem um acontecimento que te obriga a entrar em contato com esse mundo em que vive de uma outra maneira é o tornar-se mãe.

Primeiro, ao menos aqui na França, por conta da burocracia. Os franceses que conhecem o Brasil dizem que somos extremamente burocráticos e nós dizemos o mesmo deles, é o roto falando do esfarrapado. Mas, na verdade, acho que toda burocracia é particularmente difícil quando não é a do seu país, já que você vai ter sempre muito mais trabalho tanto para entender o que precisa fazer quanto para dar conta de todos os extras que te exigem justamente pelo fato de ser estrangeiro.

Antes de engravidar eu – por sorte – não tinha precisado nem ir ao médico. Então, fui descobrir todas as maravilhas e problemas do sistema de saúde francês estando grávida. E, em seguida, tendo que buscar o acompanhamento de rotina para um bebê recém-nascido. Modos de atendimento, modos de acompanhamento, seguridade-social, coberturas de planos de saúde, reembolsos… Até sobre calendário de vacinação, que é um pouco diferente do Brasil, tive que me informar (só para constar, a BCG não é obrigatória na França. Todas as outras vacinas são basicamente as mesmas, só que dadas em épocas diferentes).

O que acho interessante é que parece que os franceses buscaram criar um roteiro prevendo todos os casos possíveis. E para cada situação prevista tem algo que pode ser feito, um serviço que é oferecido e um modo de proceder. Quero dizer que, ao contrário do Brasil, aqui eles tentam cercar toda a primeira infância de uma série de cuidados e prescrições. Meio arbitrário às vezes, mas muito tranquilizador também. Me dá a impressão de que a mentalidade francesa é de que os filhos das pessoas são filhos da França e que eles levam muito à sério isso de cuidar dos filhos “da França”. A tal ponto que pode vir alguém bater na sua porta caso você não leve seu bebê nas consultas de rotina, ou se não o levar na escola.

Tenho gostado muito desse acompanhamento de maneira geral. Tudo o que os franceses são medicalizantes quando o assunto é gravidez, por exemplo, eles não são quando se trata de bebês ou crianças. Criança com nariz escorrendo, resfriada? Soro no nariz e só. Nada de antibiótico desnecessário, nada de mil remedinhos. Vejo muita mãe brasileira doida com isso, porque parece que temos mais arraigada em nós essa cultura da medicalização da infância e desde o começo já queremos medicar bebê que é “agitado”, bebê resfriado, bebê que não engorda bastante… Enfim, médicos generalistas, pediatras ou dos serviços de atendimento à infância, que são os que cuidam de bebês e crianças, medicam bem pouco essas bobeirinhas cotidianas. E não ficam pedindo mil exames invasivos para investigar suspeitas mirabolantes de diagnósticos complicados a não ser que tenham muitos motivos para tanto. E, a meu ver, isso é bem vindo.

Por outro lado, têm verdadeira fixação pela curva de crescimento e parecem obcecados com ela a tal ponto que só se preocupam se o bebê engordou e está na curva, especialmente nos primeiros meses. Não têm nenhum pudor em indicar complemento em leite em pó, sendo completamente equivocados quando o assunto é amamentação. Acreditem, a coisa aqui é grave, a França é um dos países com as taxas de amamentação mais baixas do mundo. E os profissionais de saúde são totalmente despreparados para lidar com o assunto seguindo, no mínimo, as diretrizes da OMS. Ou seja, se o assunto for amamentação, melhor procurar ajuda especializada. E especializada não é sinônimo de “o seu médico”, ok?

Contudo, amamentar em público é muito mais tranquilo por aqui do que parece ser em terras brasilis. Não sei se por pudor, por um certo respeito à liberdade do outro, ou simplesmente porque eles não estão mesmo nem aí, poucas vezes notei algum constrangimento da parte dos franceses com o fato de amamentar. E de amamentar em lugares públicos. Nunca ouvi nenhum comentário crítico ou desdenhoso e as únicas duas vezes que senti algum constrangimento foram em viagens de trens em que homens babacas ficaram olhando de um jeito nada terno enquanto eu amamentava minha filha. E só. Ninguém me falou para me retirar, como acontece com uma vergonhosa frequência no Brasil, ninguém sugeriu que eu fosse amamentar minha filha no banheiro, aquele lugar tão apetitoso, higiênico e estimulante para se fazer uma refeição, ninguém me acusou por atentado ao pudor, como os Facebooks da vida insistem em fazer cada vez que uma mulher posta uma foto amamentando, pornografia das pornografias em um mundo repleto de indecências… Já amamentei em parque, em museu, em restaurante, em trem, em ônibus, em metrô, em loja… enfim… toda hora é hora, todo lugar é lugar. E parece que está todo mundo de boa com isso.

E para quem acha que os franceses são frios, distantes ou pouco solidários, tenho a dizer que eles se mostram, sim, muito solícitos e atenciosos quando você chega com um bebê em qualquer lugar. Confesso que tinha uma péssima impressão e uma má expectativa, especialmente depois do perrengue que vi um casal de amigos passar quando vieram para cá de férias com a filha de dois anos. E do número de vezes em que fui a única a ajudar mulheres a descerem ou subirem as infernais e intermináveis escadarias do metrô com seus bebês em seus carrinhos. Paris é uma cidade hostil para grávidas e mães de crianças pequenas. Sim, é mesmo. Mas nunca deixaram de me oferecer lugar em nenhum transporte público quando estou com a bebê. E penso que o fato de eu não andar por aí com ela no carrinho e sim no sling ajuda muito, porque boa parte do mau humor dos franceses não é com a criança e sim com o espaço que aquele trambolho do carrinho de bebê ocupa no metrô, no ônibus, no elevador, no restaurante, em todo lugar de uma cidade em que espaço não existe tanto assim.

Fila preferencial aqui não existe. Quer dizer, não existe uma indicação de fila preferencial, a não ser nos supermercados e em alguns museus. Mas você pode chegar em qualquer lugar e perguntar onde é a entrada preferencial – tanto para gestante quanto para mãe com criança de colo – e o sujeito vai te passar na frente de todo mundo. E ninguém vai reclamar. A não ser no supermercado, onde as pessoas podem usar o caixa preferencial desde que não haja nenhuma preferência ali e, por isso, quando você chega com o seu bebê ou com a sua barrigona, muitos adoram fazer de conta que não te viram. Ah, a cara de pau… parece que é universal, não?

Grávida em outro país?

Putz!!!

Como se não bastassem todas as dores e as delícias de morar em outro país, você ainda engravida? Onde estava com a cabeça, menina?

Essa foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando descobri que estava grávida. Porque uma coisa é se lançar em um projeto pessoal de morar fora, apoiada pelos seus estudos, por um trabalho de pesquisa que te interessa e te motiva, por um pós-doutorado em instituições que você respeita e com gente que você admira. Outra, muito diferente, é se apaixonar em outro canto do mundo e, desse amor, conceber um filho. Porque até o amor é gerenciável longe de casa e em outra língua. É, no fundo e essencialmente, como todo grande amor: um abismo que separa duas pessoas que insistem em apostar que podem se encontrar em algum lugar. Bonito o amor estrangeiro, ele escancara muitas coisas que parecem apenas sensações delirantes quando a gente ama ali, no conforto de casa: os desencontros, as dificuldades de comunicação, as diferenças de valores, culturais, de postura frente à vida. Bom esse amor estrangeiro, ele mostra claramente aquilo que todos os casais penam quotidianamente para transpor: a diferença incurável que existe entre duas pessoas. E que pode servir para separar. Ou para juntar. No nosso caso, nos juntou. Eu estava amando. E engravidei.

E estar grávida não muda o amor de figura, mas traz um mooooooonte de preocupações que não necessariamente a gente tem quando começa um amor, flanando por outro país, cuidando de inventar uma vida para si. De repente, onde morar, como se sustentar, como trabalhar viram questões urgentes. E, mais ainda, como dar à luz e cuidar de um bebê em outro lugar que no conforto do seu lar, onde você conhece – ou acredita conhecer – todos os códigos, todos os perigos, todos os caminhos? Pois nada mais contundente para te fazer perceber que você é estrangeira do que ter que dar conta das atividades mais banais da vida: a primeira vez em que precisa chamar o encanador porque entupiu o encanamento do banheiro… como faz? Como chamar o encanador? Qual é o bom encanador? Como falar de canos, de banheiro e de entupimentos? Quanto custa essa brincadeira? Ninguém ensina isso na Aliança Francesa, acreditem-me. Cada primeira vez de cada banalidade dessas é quase um pesadelo e você se desgasta por dias até criar coragem de correr atrás de cuidar do cotidiano na raça… Porque dá muito, mas muito mais trabalho do que em casa. Ah, bons tempos aqueles em que se era apenas turista! Turista passa, não fica, isso é verdade. E tantas vezes a gente sonha em ficar, né? Mas turista não precisa chamar o encanador e explicar, em francês, que o banheiro entupiu. E ninguém quer passar por isso.

Então, estar grávida em outro país, mesmo em um país tão organizado como a França, onde existe uma diferença imensa no que diz respeito à maneira como eles tratam a saúde e a maternidade – diferença essa que eu acho muito positiva e reconfortante – é um mar de ansiedade em um primeiro momento. Ir ao médico e entender quais são os protocolos que você deve seguir… durma com um barulho desses. Declaração de gravidez, escolha da maternidade, exames obrigatórios, ultrasons, reembolso, seguridade social, convênio de saúde, quem paga o quê… Eis que você se torna uma barata tonta afogada em um quantidade de papéis e de instruções inacreditáveis, correndo de um lado para o outro para resolver coisas que você não entende e que ninguém entende que você não entende e você ali, querendo mais é ficar quietinha, gestando seu bebezinho sossegada, entre uma frutinha e um copo de água, sombra e água fresca… Mas não, agora você se tornou um soldado da maternidade e, hop, hop, hop, já para o campo de batalha dar conta de todos esses papéis. Em francês.