Vida lá, vida aqui

Ou coisas que ganhamos e que perdemos vivendo fora do país. Ou as fases pelas quais passamos vivendo fora. Ou, os dilemas de ser estrangeiro. Ou… ah, chega de prolegômenos e vamos ao que interessa!

Vira e mexe aparecem uns textos de pessoas contando como é viver fora do Brasil e sobre o que aprenderam com isso. De pessoas que viveram em algum outro país por um curto período de tempo, por conta de estudos ou trabalho, ou de gente que foi por algum motivo e acabou ficando. O mais recente falava que viver fora é para os fortes. Depois de mais um período de férias no Brasil, diria que não sei. Talvez viver ali seja para os fortes. Talvez simplesmente viver seja para os fortes. Ou, talvez, viver seja apenas viver. E ninguém precisa de uma medalha de força e coragem por conta disso. É o que fazemos.

Logo que chegamos a um outro país, das duas, uma: ou nos fechamos num queixume sem fim e vivemos num gueto, fazendo programas brasileiros, entre brasileiros, falando português, comendo comida brasileira e comparando tudo sempre entre lá e cá. Ou temos a impressão de estarmos em um lugar que corresponde a algo profundo em nós mesmos, como se estivéssemos no lugar certo pela primeira vez na vida e finalmente pudéssemos viver. Conheço histórias dos dois tipos, de gente que foi e voltou sem nunca ter realmente vivido onde estava, gente que queria recriar sua realidade brasileira em um novo lugar, sem se abrir para absolutamente nada de novo. E histórias de gente que chegou e mergulhou nessa diferença que traz o delicioso sabor de uma liberdade inesperada. Uma espécie de coerência entre o lugar em que você vive e você mesmo. No meu caso específico, pertenço ao segundo grupo.

Quem vai para outro país por conta de estudos ou pesquisa parte em um contexto bastante privilegiado. As universidades, em qualquer lugar do mundo, costumam ser lugares em que a troca e a abertura ao outro é bem recebida e até incentivada. Por todo canto do mundo existem programas de intercâmbio, bolsas de estudo, pesquisadores convidados, parcerias entre universidades… Então temos uma chegada pela “porta da frente”, facilitada, bem vista, felicitada.

Mas esse modo de chegar, de início provisório, também cria uma bolha tão sectária quanto a do gueto: quem chega para passar um tempo, por maior que seja, como estudante, doutorando, pesquisador, estagiário não vai se confrontar com muitas facetas da realidade da vida em um outro país. Apenas quando você precisa lidar com tarefas muito cotidianas como declarar impostos, solicitar documentos, utilizar serviços de saúde, trabalhar é que começa a sair dessa zona de conforto de estar com um pé aqui e outro lá – estar em lugar nenhum – para se encontrar no lugar de estrangeiro vivendo noutro lugar.

Na minha experiência foi impactante a mudança desse lugar de estudante e pesquisadora convidada por uma universidade, o que me trouxe até aqui, para o lugar de alguém que iria ficar. Um choque de realidades. E ter que, de uma hora para outra, reaprender a viver.

Morar em outro país é ter que reaprender a viver. Em outra língua, em outra cultura, com outros códigos. Coisas evidentes como autenticar um documento ou chamar um encanador para desentupir um encanamento tornam-se, de um dia para outro, complicações praticamente insolúveis. Onde precisa ir? Com quem precisa falar? Como é que diz cano entupido em francês? Putz!

Então, depois dessa lua-de-mel que pode ser o começo de vida fora do seu país de origem, e que pode durar mais ou menos tempo, quanto mais sua situação pareça provisória e quanto mais seu encontro com o lugar onde vive seja superficial e não resvale muito nos aspectos difíceis… bem, depois do romance, vem a realidade. E ela parece tão menos agradável quanto menos você a compreenda.

Aquilo que você não entende e não sabe como fazer, como pedir ou como acessar esbarra, muitas vezes, na falta de abertura e na insensibilidade dos “locais”. Desencontros de costumes e linguísticos se misturam com preconceitos, racismo, xenofobia e você acaba acreditando que aquela recusa, aquele atendimento grosseiro, aquela dificuldade em fazer o óbvio são contra você. E leva muito tempo para conseguir distinguir o que é xenofobia do que é apenas um funcionamento burocrático e burro ao qual todos daquele país estão igualmente sujeitos. E isso se repete tantas vezes que você fica desencantada, com raiva, ressentida. Aquelas pessoas, aquele país, não te querem ali.

Isso é uma verdade que cedo ou tarde todo estrangeiro descobre. Quem quer estar ali é você. Então cabe à você uma boa parte do trabalho e do esforço. Isso não exime o país que te acolhe de fazê-lo de fato. E não exime as pessoas de aprenderem sobre hospitalidade. Mas você também vai ter que se mexer se quiser criar uma vida possível em outro lugar que não onde tudo era mais confortável. E, nossa, como tudo parece mais fácil e mais simples e mais bonito e mais saboroso e mais simpático e mais colorido e mais tudo de bom no Brasil desde que você não vive mais ali.

Um dia você acorda e se passaram três, quatro, cinco anos. Você finalmente percebe que o que era provisório tornou-se mais permanente do que imaginava. E então começa aquele período de arrumar a casa. Você se instala aqui, você se desinstala acolá. Casa permanente é diferente de casa provisória, onde você acampa. Você quer suas coisas, não todo aquele mundo de objetos, trecos e cacarecos que a vida fora te ensinou que são superficiais e dos quais você aprendeu a separar-se tão bem. Quer aqueles objetos de família, aquelas poucas preciosidades que deixou guardadas em algum lugar seguro, esperando que algum dia pudesse ter algo que novamente fosse próximo do que considera um lar. Quer as fotos, os papéis velhos e empoeirados, quer os livros, os quadros, os móveis da avó. Você fecha aquelas contas no banco que ficaram penduradas por lá, na esperança do “vai que”, você muda seu título de eleitor, seu domicílio fiscal e até seu domicílio no facebook. E abre conta, e declara imposto, e começa a trabalhar mais seriamente do que os “bicos” daquela vida provisória que não eram para durar mesmo.

E quando vai ao Brasil, acontece uma coisa estranha. Você se dá conta que a vida daquelas pessoas tão queridas, tão amigas, tão próximas acontece. E que você não faz parte dela. Vocês se falam, vocês trocam mensagens, e quando se encontram é uma alegria, uma celebração. Mas elas estão ali, prisioneiras do dia-a-dia que não é mais o seu. E você, pouco a pouco, passa a ter um dia-a-dia que lhes escapa também. Cursos que você não fez, encontros aos quais não foi, livros dos quais não participou, festas nas quais não esteve, mudanças, acontecimentos, oportunidades. Concursos para professor, vagas de emprego que são a sua cara… essas coisas chegam na sua caixa de mensagens quase como uma ofensa, uma lembrança daquilo que você não vai viver. E é quando você começa a se dar conta do que está perdendo.

Para morar em um outro país, é preciso perder o futuro que a gente teria no nosso país de origem. É preciso aceitar perder e, para isso, é preciso perceber que perdemos. Perdemos o que poderia ter sido se tivéssemos voltado. Perdemos onde teríamos chegado, perdemos o que poderia ter acontecido. Perdemos o famoso e angustiante “e se…”.E pouca gente se dá conta, no idílio amoroso dos começos de vida fora, ou nos meios revoltantes do choque de realidade de uma vida que se instaura que há algo que estão, constantemente, perdendo. E que cada dia a mais em um lugar estrangeiro é uma camada a mais de distância daquilo que poderia ter sido se você tivesse ficado. E então, quando você de repente se dá conta, vem a deprê.

Ou a crença no famoso plano B. Conheço gente que vive falando que está cansada do jeito como as coisas são no Brasil e que vai embora do país, sabe como é? Já falei disso antes e expliquei que esse é o alento que temos em acreditar em um plano B, em guardar a idéia de que basta estalarmos os dedos e irmos embora para reinventarmos a vida. Pois é, a crença no plano B de quem mora fora é o inverso, é aquela idéia guardada em algum lugar de que essa é uma situação provisória e que vamos voltar. Cedo ou tarde vamos voltar e vamos retomar tudo aquilo que ficou nos esperando e do qual temos lembrança.

Mas… pessoas, lugares e oportunidades não ficaram no esperando. Porque a vida não fica em standby para a gente ir ali ver se algo funciona ou se a grama do vizinho é mesmo mais verdinha. E, o que é mais difícil se dar conta e assumir, provavelmente nem vamos voltar.

Morar em um outro país é a prova de que se pode mudar a vida, mudar de lugar, criar recomeços. Então, claro que sabemos que não existe situação definitiva. E quando falo aqui de que não vamos mais voltar, isso não é um absoluto, uma certeza absoluta, uma imobilização. É apenas uma tomada de posição, uma mudança de mentalidade que acontece com todo mundo que decide, em algum momento da vida, investir seus esforços em algo tão grande ou importante quanto construir uma vida em algum canto. Porque mesmo que isso possa em algum momento mudar, seu estado de espírito ao fazer aquele investimento, ao fazer aquela aposta, é de que seria como um casamento, é de que seria “para sempre, até que a morte os separe”. E aí, você se joga. Mas antes de se jogar, ou enquanto está se jogando, ou depois mesmo de ter se jogado, olha e descobre que não vai viver umas tantas coisas. Que pareciam ser o seu destino ali onde estava. O que, por si só, é uma ilusão. Que você acalenta do mesmo modo que todo mundo acalenta em si ao menos uma certeza absoluta baseada em nada além de muita vontade: “se eu estivesse lá, seria isso ou aquilo”, “se eu tivesse ficado…”.

Quantas vezes você vai imaginar, no final do dia, como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai ter certeza de que sabe como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai acreditar que teria sido muito melhor se tivesse ficado… se embrenhando em uma espiral de constatações de perdas e de lutos e de tristezas por tudo o que perdeu e tudo o que não foi e que teria sido se tivesse ficado… Nossa, todo estrangeiro em um país outro que o seu vive, penso eu, essa fase dolorosa do “se eu tivesse ficado…”. E para alguns isso parece durar para sempre, a pessoa se fecha em um lamento e em um ressentimento sem fim, como se culpasse a vida, o mundo e todas as pessoas de uma escolha que foi só dela. Vira melancolia. Saudosismo. Outras tantas vezes, um patriotismo exagerado e fora de lugar. E nessas horas também as pessoas se fecham no gueto e se ufanam de serem brasileiras e comem e bebem e saem e falam e tudo é Brasil, Brasil de um Brasil que elas nunca viveram porque ele, simplesmente, não existe. É o Brasil ideal no lugar onde antes ficava o outro país ideal, o país dos sonhos. Que agora é bem real, cheio de paradoxos, de burocracias, de chatices e de desafios cotidianos. Infernal. Como é a vida, para aqueles que esperavam viver outra coisa que não aquilo que ela pode ser. Até que… um dia… muda.

Um dia você está voltando para casa depois do trabalho, ou de buscar as crianças na creche ou do que quer que seja e, de repente, se dá conta de que gosta dali. Você gosta daquela vida. Você gosta daquele lugar. Não, não do lugar do glamour da imagem que as pessoas fazem de onde você vive e de como é a sua vida mas do lugar mesmo, daquelas pedras ali no chão, da cor dos prédios no final da tarde quando tem sol, do gosto do pão que você come de manhã, do modo como a luz entra pelos galhos das árvores em cada estação do ano… Você gosta mais do que desgosta. E depois de pensar e acalentar e acariciar por um minuto ou dois mais uma daquelas imagens “e se” na sua cabeça, você enjoa e acha que seria muito, muito chato. Se “qualquer outra coisa”, você ainda preferiria estar ali. E é quando descobre que está voltando a habitar seu presente.

Um dos lutos mais difíceis para quem mora fora do Brasil é construir uma família em outro país e se dar conta de que seus filhos, mesmo sendo brasileiros, nunca serão realmente brasileiros como você. Eles falarão português com sotaque, no melhor dos casos. E seus gostos, seus cheiros, seus lugares, suas histórias e seus trajetos, suas cidades, seus percursos serão, para eles, apenas “as histórias da mamãe”. Não serão as marcas deles pois eles não estarão nos mesmos lugares, nos mesmos gostos, nos mesmos percursos, nas mesmas praias nas férias para terem, eles também, suas marcas e suas histórias ali, onde tudo para você foi tão importante. Talvez eles olhem tudo o que você apresenta para eles a cada viagem de férias no Brasil com o interesse, o carinho e o apreço de… um estrangeiro. Num certo ponto, eles serão sempre um pouco estrangeiros na sua casa e você na deles. Tem coisa mais estranha e difícil de lidar?

Mas você está aqui, ou ali, ou lá, ou como quer que se chame esse lugar que você escolheu. E a vida foi sendo vivida e você criou raízes. Para além da paixonite aguda e meio boba do princípio, para além da revolta dos confrontos e das diferenças, para além das perdas e dos lutos… eis você ali, ainda ali. Vivendo. E alguma coisa muda sempre que a gente decide viver o que está vivendo.

Quando fui ao Brasil dessa vez, sentia um medo de chegar lá e não encontrar o país que conhecia. Por motivos óbvios, ligados ao momento atual, à surrealidade do que se vive no meu país, ao absurdo, ao grotesco da conjuntura política, das relações violentas que se instauraram entre as pessoas, dass mentalidades podres e pobres que se desvelaram e que nunca imaginei tão podres e tão pobres… enfim… Tantas coisas aconteceram por ali que eu nem sonhava possíveis. E às quais eu só conseguia responder com perplexidade, apreensão e desesperança. Mas esse medo tinha não apenas uma justificativa macro, como também micro, pessoal, subjetiva… de chegar ali e não encontrar mais aquele futuro que eu tinha, não encontrar mais o meu “e se”. Não me encontrar mais ali.

Pois um dia, cedo ou tarde, depois que você vai embora, você não se encontra mais naquele seu lugar quando volta. Você não se encontra, pois já está em outro lugar. E tudo fica muito estranho, tudo ganha ares de despedida. Porque você foi indo, foi indo, foi indo tanto que, finalmente, foi.

“Um dia eu volto, quem sabe…” diz a música. Toda música de quem foi e um dia vai voltar é lamento. E tem uma hora que, de tanto ir e voltar, você vira de lugar nenhum. O que talvez seja um alento para algumas gentes. E uma aflição para outras.

A vida por aqui é. Bem. Normal. Com os prós e contras que todo lugar tem. Tem conta para pagar, tem casa para cuidar, tem filho para levar na escola, tem dia de chuva, tem momentos de tédio, tem passeios, tem descobertas, tem resfriado, vinho ruim, bad hair day, brincadeiras, livros, gente interessante, conversas… A vida por aqui tem um monte de saudades de quem está longe. E um pensamento para cada um deles a cada dia. E uma vontade de compartilhar umas tantas coisas. E de se queixar de outras e poder reclamar e terminar rindo junto. Porque tudo é tão besta quando se está entre amigos. E tanta coisa fica leve com a família por perto.

Então, obrigada para vocês do lado de lá por existirem, por não serem apenas memória e continuarem vivos e presentes. A distância te ensina, quando você mora em outro país, sobre o que é realmente essencial e que você não perdeu quando foi embora: as pessoas. As pessoas estão aí. E aqui. E lá. E acolá. Elas estão para você. E você para elas. E o resto não tem, na verdade, nenhuma importância.

Fui.

 

Amamentação: 8 meses and counting…

Eis que passaram os seis meses de amamentação exclusiva. Eis que começou a diversificação alimentar. E então eu li por esses dias três coisas que me fizeram pensar que estava na hora de desentalar esse texto aqui e mais uns outros bem desaforados que, espero, virão em seguida.

Comecemos pelo pior, que foi uma discussão em um grupo privativo da Leche League sobre uma mulher aqui na França que ouviu de sua advogada que, caso ela não pare de amamentar seu filho de três anos até a próxima audiência, a guarda da criança será atribuída ao pai. Sim, você não leu errado, uma mãe é ameaçada de perder a guarda do filho porque ainda o amamenta aos três anos de idade e isso, aqui na França, é considerado como algo absurdo, uma espécie de manipulação da mãe, que visa apenas manter a dependência da criança e afastá-la do convívio com o pai. Nos comentários dessa discussão, dezenas de casos parecidos, em que juízes e juízas decidem por uma guarda compartilhada – o que é praxe nos casos de divórcio por aqui – independentemente da idade da criança e independentemente do fato dela ser amamentada. Em muitos casos, inclusive, a amamentação funcionou como argumento contra a mãe.

Devo confessar que esse tipo de situação me deixa em um misto de tristeza infinita e revolta furiosa porque, vamos combinar, é algo incompreensível para além do terreno da perversidade pura e simples. O que me faz pensar que em algum momento vou conseguir escrever sobre como é ser mulher aqui na França. Mas continuemos aqui apenas no tema da amamentação.

Pois é, por aqui amamentar um bebê é algo opcional e ninguém acha estranho que você decida não fazê-lo porque, segundo a mentalidade francesa, isso entra na conta das liberdades de escolha de uma mulher. A indústria alimentícia e os fabricantes de leite em pó agradecem. Ainda mais na medida em que, junto a esse discurso da liberdade da mulher em escolher se amamenta ou não, veio se agregar um discurso bastante distorcido sobre a dependência entre um filho e sua mãe. E aqui as pessoas parecem ter pavor da dependência, a tal ponto que propostas como deixar o bebê chorando até dormir desde recém nascido encontram eco e são tomadas como boas orientações de conduta.

As pessoas parecem tão assombradas com essa idéia de que a dependência é uma espécie de veneno perigoso que sua maior preocupação, desde que os bebês nascem, é garantir que eles sejam autônomos. Não parece desejável e nem mesmo suportável cogitar que esses bebês, que certamente caminharão rumo à autonomia, dado que isso faz parte da vida, precisem viver um momento de dependência absoluta que vai funcionar como aquilo que lhes traz segurança para poderem se aventurar mundo afora. Como já dizia o bom e velho Winnicott. Mas ele não era francês. Infelizmente para os franceses.

Assim, não causa espanto, em uma sociedade onde a preocupação principal quando o assunto é a infância se centra na independência a qualquer custo das crianças de qualquer idade, que um comportamento qualquer que crie e mantenha laços fortes entre duas pessoas possa ser entendido como contrário ao que se almeja e tenha que ser, consequentemente, combatido. Por isso, uma mãe que amamenta por um longo período é vista como alguém que faz isso em detrimento da criança, visando apenas manter o filho colado, dependente e, com isso, distante dos outros e da sociabilização. Uma mulher que amamenta é um mal a ser combatido aqui na França.

Nem vou entrar no mérito de todas as pesquisas que comprovam que uma amamentação longa traz benefícios importantes para o bebê e para a mãe. Nem vou detalhar as recomendações feitas pela OMS sobre o tema e a ênfase que dão em que se amamente até, no mínimo, dois anos de idade. Por aqui, o pessoal não respeita as diretrizes da OMS, como se fossem mais sábios que isso. Coisas da arrogância francesa.

Ao invés de repisar todas essas informações, ou de falar novamente sobre a importância da dependência na primeira infância justamente para criar pessoas seguras, confiantes e autônomas, prefiro dessa vez falar sobre a segunda leitura que mencionei logo acima, um texto lindo de um sociólogo defendendo a amamentação. Além do fato de ser um homem que defende o amamentar – o que é não apenas raro, mas basicamente o contrário do que a maioria dos homens fazem – seus argumentos são formulados de uma maneira muito inteligente e perspicaz. Leiam o texto, está em francês e em inglês.

Basicamente, o que o Akré mostra, a partir de dados, estudos e pesquisas, é que a questão principal para se apoiar o aleitamento materno é que não podemos realizar nosso pleno potencial se não consumirmos o primeiro alimento feito especificamente para nós, humanos. E assim ele mostra como a amamentação contribui significativamente para que o ser humano possa se desenvolver no melhor de suas capacidades. Ou seja, não é que a amamentação faz com que sejamos mais inteligentes, por exemplo. É que a não-amamentação faz com que não consigamos utilizar todo o nosso potencial de inteligência. Nas palavras de Akré: “Os bebês humanos não realizarão jamais seu potencial genético consumindo fast-food pediátrico – eu falo aqui dos leites industrializados – fabricados à partir de uma espécie que nos é estrangeira”. Em resumo, sua perspectiva é que a amamentação não nos dá um “a mais” em relação aos bebês que não são amamentados. Não faz sentido falar em vantagens da amamentação, pois isso seria como falar das vantagens de andar em pé e não sobre quatro patas. A amamentação permite apenas o desenvolvimento máximo daquilo que temos potencialmente em nós. Coisa que o leite em pó não permite. E, não, não é uma mágica ou uma crença, é questão de composição mesmo.

Vale a pena lembrar que o leite em pó surgiu para resolver uma situação de urgência, ou seja, para servir como alimento substituto nos casos em que o aleitamento materno não fosse possível. É como a cesariana, que surgiu para solucionar casos de urgência em que um parto normal não fosse possível. Não são opções, no sentido de que não são escolhas entre duas coisas equivalentes. São alternativas piores para os casos em que aquilo que é o melhor, o mais indicado e, por que não, o mais natural, não funciona. Têm uma função de remédio e não de algo para ser utilizado rotineiramente.

Em uma sociedade em que amamentar tornou-se questão de escolha sob o falacioso argumento em prol da liberdade da mulher (porque isso não tem necessariamente a ver com liberdade, mas explico num outro texto, prometo) e em que amamentar tornou-se perigo de cultivar uma dependência perniciosa para as crianças em relação às suas mães, ninguém parece preocupado com aquilo que se perde – ou que se impede – quando se adota esse descaso pela amamentação como regra. E essa perda é não apenas emocional, psicológica, mas também cognitiva, imunológica e em vários outros níveis.

Então, chega o terceiro texto, os resultados de uma pesquisa brasileira mostrando o perfil das mulheres que amamentam por dois anos ou mais. Segundo as pesquisadoras, existem algumas características comuns às mulheres que conseguem amamentar de maneira prolongada. Entre elas estão permanecer em casa por pelo menos seis meses de licença maternidade, não dar bicos artificiais como chupetas ou mamadeira ao bebê, fazer a diversificação alimentar apenas à partir do sexto mês e, vejam só, não viverem com o pai da criança.

Retornamos ao início, por um outro viés. O que quer dizer isso de que as mulheres que amamentam prolongadamente (em geral, né, gente, não é a regra absoluta) serem mulheres que não vivem com o pai da criança? Podemos interpretar, seguindo a linha francesa, de que são provavelmente mães que superinvestem os vínculos com seus bebês e os mantém em uma relação de dependência, infantilizando-os tanto quanto possível através da amamentação. Ou podemos pensar, seguindo a linha do Akré, que um dos maiores obstáculos para a amamentação e para o sucesso da amamentação prolongada consiste na falta de apoio das pessoas próximas da mãe e de bebê, principalmente o marido.

No mundo não tão cor-de-rosa da maternidade tem muita mulher tendo que batalhar sozinha para conseguir amamentar. Já ouvi um número desolador de relatos de pais enciumados, que entram em competição com a cria, que se mostram infantis e contrariados por deixarem de ser o centro das atenções daquela relação do que era antes apenas um casal, ou daqueles seios que eram anteriormente apenas “dele”. Já ouvi pais argumentarem que o fato da esposa amamentar impede que eles possam também construir uma relação com o bebê. Sim, exatamente como no argumento usado por pais, advogados e juízes para impor um final de amamentação forçado para uma criança sob risco da mãe perder a guarda, lembram? Já ouvi mães cogitarem dar mamadeira para seus bebês por acreditarem nesse argumento do interesse dos pais em criarem um vínculo com seus filhos e de que esse seria o melhor e mesmo o único modo de fazerem isso. Dar mamadeira seria a única forma de se aproximarem de um bebê, que tal? Já ouvi homens e mulheres argumentando que amamentar é um ato de egoísmo da mulher que tenta, assim, conservar o bebê apenas “para ela”. Conclusão: muitas vezes, a maior dificuldade de uma mulher em amamentar seu bebê é o clima hostil e conflitual criado pelo pai da criança em torno da amamentação. Que coisa triste que uma das primeiras pessoas que deveria entender e valorizar o esforço da mulher em dar o melhor para aquele que, em última instância, é filho de ambos seja um dos maiores empecilhos justamente para que essa criança possa ter o melhor, não? Que mundo estranho e deturpado é esse em que dificultar ou impedir a amamentação é visto como salvar o filho de uma ameaçadora dependência, esse mal terrível encarnado pela mãe?

Aqui nesse mundo estranho, chegamos aos 8 meses de amamentação, seis dos quais em exclusividade. A segunda vez foi mais fácil, pois teve o apoio da experiência da primeira. O que fez com que eu já soubesse quem pode realmente ajudar, a quem realmente dar ouvidos e a quem jamais procurar em busca de conselhos quando o assunto é amamentação.

Ainda na maternidade, as enfermeiras vieram perguntar como eu alimentaria o bebê – pergunta de rotina por essas bandas quando você chega para parir. Disse que amamentaria e me perguntaram se eu precisava de ajuda ou orientação. Disse que não. Me perguntaram se tinha amamentado a primeira e eu disse que sim. Por quanto tempo? Até seus 20 meses. Ah, então você tem experiência. Sim, tenho.

O importante dessa conversa não é que eu estivesse mais ou menos emponderada em relação ao tema, mas que eu tinha mais noção dessa vez sobre com quem valia à pena conversar. O primeiro mês de vida da minha pimpolha foi um calvário de enfermeiras obstétricas, auxiliares de puericultura, sage-femmes e pediatras todos dando pitacos desencontrados sobre uma amamentação que quase foi para o beleléu por conta disso. Complementa, faz intervalo de 3 horas, acorda para dar de mamar, faz em tal posição, muda de peito, espera esvaziar um peito, deixa dormir no peito, acorda para continuar mamando… Quase enlouqueci. E a coisa só começou realmente a funcionar quando eu parei de escutar todas essas pessoas que na realidade não entendem nada de amamentação porque não possuem nenhuma formação específica sobre o assunto e falam a partir de preconceitos, senso comum e informações errôneas. E passei a me orientar com consultores de amamentação, grupos sobre o tema, o pessoal da Leche League e, especialmente, com mães que amamentaram longamente. Dali em diante foi uma experiência muito linda, tocante e rica de emoções para ambas. Aprendi muito amamentando minha filha, tanto sobre mim mesma, minhas possibilidades e meus limites quanto sobre ela, sobre como é nascer, sobre como é depender, sobre como é contar com o outro, sobre como é crescer, confiar, amar…

Nessa segunda vez já nem abri brechas para o azar. Coisa que não poderia ter feito na primeira, pois nunca tinha amamentado, não conhecia tanta gente próxima que o tivesse feito, não tinha muito em quem me espelhar – e, sim, amamentar, tanto quanto parir, é mais fácil quanto mais você tem modelos no seu entorno – e tinha toda a insegurança da primeira vez, do primeiro filho, da inexperiência. Então tive que aprender rápido, tomar as rédeas dessa história, cuidar para fazer o melhor possível com as informações que eu tinha, confiar na minha capacidade e na capacidade da minha filha… E tudo isso eu trouxe para o segundinho que, sortudo, não passou muito perrengue. Mesmo tendo uma pegada bem ruim no começo, mesmo mamando esbaforido, mesmo engolindo tanto ar que achei que ele fosse inflar e sair voando como balãozinho de gás… Eu respirava fundo, arrumava a pega do menino desesperado e acreditava piamente que ia dar tudo certo. E deu. E quem olha as dobrinhas branquicelas das perninhas desse pequeno hoje em dia nunca que iria imaginar que ele foi um bebezinho que no começo nem sabia mamar direito. E que ele aprendeu mamando e que a mamãe aprendeu como é que era para dar de mamar para ele. E que foi a confiança e a aceitação da dependência que ajudaram para que essa história de amamentação pudesse correr bem.

Vai por mim, se você busca algum conselho sobre amamentar: discuta com quem amamentou durante um longo período. Discuta sobre como a pessoa fez, sobre o que funcionou para ela e para o bebê dela. Provavelmente essa pessoa, quem quer que seja, vai te dizer quase as mesmas coisas que qualquer outra pessoa que teve a mesma longa experiência de amamentação diria: amamentar em livre demanda, seguir e confiar no ritmo do bebê, não julgar se ele está com fome ou não, se é manha ou não e dar o peito sempre que ele pedir, não dar chupeta, mamadeira, não usar bico de silicone nem nada que o valha, confiar que tem leite porque a imensa maioria do leite que o bebê mama é produzido durante a mamada e um peito mais cheio ou mais murcho não quer dizer grande coisa, descansar, deixar a casa bagunçada mesmo, deixar-se levar… confiar. Mães que amamentaram seus filhos prolongadamente sabem mais sobre o assunto do que a maior parte dos auto proclamados especialistas porque apenas nas situações de exceção a teoria importa mais do que a experiência.

 

Aquela historinha da criança francesa

Criança francesa não faz manha. E ainda por cima come de tudo? Opa, me passa a receita, me vende, onde eu assino?

           Tentei começar um post a respeito desses livros sobre as crianças francesas há uns 4 meses atrás e nunca conseguia terminar, até receber o convite de uma amiga para responder a algumas perguntas sobre ser mãe na França e, entre elas, havia justamente uma que interrogava sobre esses clichês de criança francesa que come de tudo, criança francesa que se comporta bem, criança francesa que não faz manha. Daí saiu essa resposta aqui.
           Sinceramente, eu penso que toda generalização é burra. Tudo o que eu mesma digo sobre esses assuntos aqui no blog é a verdade de como é ser mãe na França de uma certa perspectiva. Eu não conheço todas as francesas e nem a França inteira e, mesmo que conhecesse, não poderia afirmar que é assim que a maternidade acontece aqui com certeza. Posso apenas falar do que vejo e, ainda assim, segundo o meu jeito de olhar, que sempre será subjetivo, marcado pela minha história, por minhas referências, etc. Ninguém consegue falar de outro lugar que não sua posição no mundo, né? E a minha é de uma brasileira, vinda de um certo lugar, de uma certa classe social, que chega aqui na França pela porta dos estudos e da pesquisa universitária, que circula por certos lugares, encontra certas pessoas e vive uma vida que eu definiria como, mesmo por aqui, privilegiada.
          Mesmo sendo capaz de andar por diferentes ambientes, mesmo tendo amigos de muitos cenários bem distintos, ainda assim sempre tive o privilégio da minha cor (o que aqui conta um pouco menos, pois sou estrangeira e sou latina), do meu percurso profissional (a França respeita os intelectuais, coisa que não se conhece muito no Brasil), de falar bem a língua (mesmo com sotaque) e de ter um certo conforto econômico por conta do meu trabalho. Então, é desse ponto de vista que escrevo. Sempre.
          Quando esses livros da americana apareceram e viraram uma febre mundial, comecei a me perguntar: mas de que diabos ela está falando? Crianças francesas comem de tudo. Crianças francesas não fazem manha. Que crianças são essas? Tenho amigas brasileiras e francesas que são mães aqui e que também encararam esse tipo de publicação com a mesma perplexidade. Ficamos nos perguntando em que França ela viveu para chegar a tais conclusões. Talvez se ela tivesse esclarecido seu contexto logo de cara, a leitura ficaria mais honesta e mais interessante.
           Do que eu observo, acho problemático, por exemplo, dizer que criança francesa come de tudo. Pelos motivos que falei logo acima, sobre as generalizações. Mas também pelo fato de que o cardápio destinado às crianças é de uma pobreza nutricional extrema. Eu não consigo perceber onde é que elas comem de tudo.
            Paradoxalmente, não posso dizer que a maioria das crianças aqui comam bem. Nem em casa, nem na escola. Ao contrário do mito que existe sobre a boa alimentação da criança francesa, o que vejo é que o cardápio delas é bem pobre. Se você quer tirar a prova disso, chegue em qualquer restaurante na França e pergunte o que é o menu enfant (o menu infantil). Em 95% dos lugares as opções serão: hamburguer com batatas fritas, nuggets com batatas fritas e macarrão com presunto, o que significa, aqui, um macarrão cozido na água e sal que eles colocam um pouco de manteiga depois de pronto e uma fatia de presunto cozido ao lado. Isso é o que muitas crianças comem em casa também. E, nas cantinas das escolas e creches, infelizmente não é muito diferente. Já vi algumas reportagens sobre as cantinas das escolas onde eles oferecem carne com batatas fritas. Sistematicamente. Diversos tipos de carne com batatas, num molho avermelhado e engordurado bem esquisito. Nunca uma salada. Como legume, servem vagem, que é comprada enlatada, nunca fresca. Muitos doces no lanche: madeleines, bolachas, coisas do tipo. Poucas frutas. E a justificativa é a de que é isso que as crianças comem. Bom, mas quem ensinou as crianças a comerem assim? É de uma pobreza incrível, ainda mais sabendo o quanto se pode comer bem na França. Por isso falei de paradoxo.
           Outro teste que vocês podem fazer é observar as crianças saindo da escola. Normalmente, na hora da saída as mães levam um lanchinho que os pequenos comem no caminho de casa, o famoso gouter. O que é o lanchinho? Doces, bolachas doces, suco de caixinha. Ver uma criança comendo uma fruta no gouter é uma raridade. Em qualquer idade. Muita gente aqui não cozinha, compra comida pronta. Geralmente por falta de tempo. E também porque aqui é cômodo comprar comida pronta e a oferta é imensa. Isso não seria em si um problema, não fosse o fato do cardápio girar em torno de massas mal temperadas, enlatados, embutidos, nada fresco. Em lugares como Paris, onde as pessoas moram em apartamentos minúsculos com cozinhas impraticáveis, pior ainda. Enfim, para quem é mãe e se preocupa com a alimentação do seu filho, uma das maiores discussões, que se renova a cada ano, é se devemos deixar o filho almoçar na cantina da escola ou se é melhor buscar para almoçar em casa e levar de volta para a escola em seguida, para os cursos da tarde. E conheço bastante gente que opta por buscar o filho para almoçar em casa. Em um mundo corrido como o nosso. Bem o contrário do que a gente imagina quando pensa na culinária francesa e em suas delícias, né?
            Penso que crianças cujos pais cozinham mais frequentemente em casa são mais expostas a uma maior variedade de comidas e, com isso, têm mais chances de comer de tudo. Isso acontece aqui também com frequência, famílias que cozinham em casa. Como acontece de ainda se preservar o momento das refeições para que todos sentem-se à mesa.
           Eis algo que me parece importante, e que talvez contribua para as crianças comerem melhor. Não vejo por aqui crianças fazendo as refeições na frente da televisão, do tablet ou do celular. A hora de almoçar ou jantar é a hora em que desligam os aparelhos e todo mundo vem para o redor da mesa. Isso me parece fundamental, pois nada mais triste do que ver uma criança comendo e olhando uma tela, sem nem perceber o que está comendo, de uma maneira automática, sem sentir o gosto, sem descobrir a comida, sem identificar quando está saciado. Triste e contraproducente. Ainda bem, isso não acontece. Que eu saiba.
            Então, sim, eu já presenciei aqui na minha casa e na casa de amigos crianças comendo coisas que nos pareceriam difíceis ou improváveis, cheias de apetite e de curiosidade: verduras, frutas, frutos do mar, queijos, comida apimentada, salada e por aí vai. Isso é tão bonito de se ver e impressiona tanto que a gente esquece de observar o contexto em que isso pode ocorrer. E atribui o feito a causas tão absurdas como o fato da criança ser francesa. Não, meu caro. Para a criança comer de tudo, tudo tem que ser ofertado a ela e, principalmente, ela tem que ver os adultos comendo, porque é nisso que vai se espelhar para comer ou não. Então, sim, isso acontece na França. Mas, não, não é uma regra geral. Tem muita criança comendo Nutella por aqui.
             Sobre a questão das crianças se comportarem bem, não fazerem manha, acho que é uma situação análoga ao que eu acabo de dizer sobre a comida. Ou seja, depende. Se você for num parquinho qualquer, vai ver criança se jogando no chão, gritando, esperneando. Andando na rua, fora dos lugares turísticos, você também pode testemunhar uma cena dessas. Ou num restaurante, numa loja, onde for. Crianças francesas fazem manha como fazem as crianças brasileiras. Talvez a diferença esteja em como se lida com isso por aqui.
           Na França houve uma tentativa de implantar a lei da palmada, como a que existe no Brasil. Não foi aprovada. As pessoas, aqui, acreditam que educar exige uma certa dose de violência. Se você for nesses mesmos parques, restaurantes e afins, vai ver que há grandes chances da mãe ou do pai dessa criança que se joga no chão darem um tapa nela, puxarem pelo braço, gritarem, dizerem palavras bem duras. Eu já testemunhei isso várias vezes, tanto em Paris quanto no sul da França, em lugares dos mais simples aos mais sofisticados. Já vi mãe estapear filho no parquinho, já vi mãe dar cascudo na cabeça do filho de uns 10 anos no restaurante, já vi mãe dizer coisas extremamente humilhantes para um filho de uns 20 anos numa mesa de um outro restaurante, em alto e bom som… Tenho uma coleção de cenas. O que isso quer dizer? Que aqui ainda impera uma concepção de educação bastante opressora, onde o objetivo é dobrar os filhos para que eles se comportem bem. Não é raro ouvir os pais definirem a educação dos filhos por aqui como mostrar a eles quem manda, ou formulações análogas. Qualquer coisa próxima de algo como uma criação com apego – que existe também, ainda bem – é considerada como laxista, coisa de pais que não saberiam mais dar limites a seus filhos.
           Os franceses, em geral, me parecem ter um certo pavor da dependência. Os filhos nascem e eles já estão preocupados que sejam autônomos. Eles vêem qualquer situação de dependência quase com repugnância. Aqui, a idéia mais difundida é que bebê deve dormir no seu berço, no seu quarto, desde o dia em que chega da maternidade. Pode deixar chorar. Já testemunhei comentários de profissionais de saúde dizendo que a mulher é problemática porque amamenta o filho, que assim o está prejudicando, pois impede com isso sua independência. Aqui não é incomum mulheres decidirem dar mamadeira para os pais poderem participar da alimentação dos filhos (oi?). É o tempo todo um pânico de que a criança fique colada. E com isso, a meu ver, eles precipitam uma série de desgrudes que poderiam acontecer de maneira menos violenta. E que aconteceriam de todo jeito. Com raras exceções, quantos adolescentes você vê por aí pendurados nos pais ou fazendo questão da presença deles? Pois é. Os filhos desmamam, queiramos ou não e não precisamos fazer muita força para isso. Basta deixá-los seguir seu ritmo e ampará-los e amá-los ao longo do percurso.
            Pois bem, o que acontece quando vemos essas crianças francesas que falam bom dia, por favor e obrigada, que sentam à mesa, comem o que tem no prato, pedem licença, falam baixinho e que achamos tão lindo é que estamos testemunhando os efeitos dessa educação mais difundida na França de evitar a todo custo que os filhos fiquem colados aos pais. Eu, particularmente, acho isso perfeito como meta a atingir quando seu filho estiver entrando na idade adulta. Acho uma maravilha que as crianças sejam incentivadas na sua autonomia, no melhor estilo Montessori. Mas, com um bebê? Com uma criança pequena? E, o principal, onde é que incentivar a autonomia quer dizer obrigar a criança a ações e situações para as quais suas reações mostram claramente que ela ainda não está preparada? Não sei se esse resultado das crianças bem comportadas e agora invejadas no mundo inteiro vale aquilo que a criança viveu para chegar a esse nível de domesticação.
            Basta pensar que a França das crianças bem comportadas também é a França dos adultos com algumas das taxas mais elevadas de consumo de antidepressivos. Será que não existe nenhuma relação? Aqui também é um dos países em que há muitos idosos vivendo sozinhos. Mesmo quando têm família, não são amparados por ela. Será que isso também não tem relação com essa independência precipitada? Não tenho resposta para isso, mas são questões que me faço.
            Então, comparando a maneira como em geral criamos nossas crianças na França e no Brasil, eu diria que no Brasil há uma maior tolerância à dependência do que aqui. O que faz com que talvez no Brasil tenhamos mais liberdade de sermos apegados aos nossos filhos e de expressar esse apego enquanto que aqui os pais se preocupam desde muito cedo em criar os filhos para que eles sejam autônomos. Os dois têm suas vantagens e desvantagens. Acho incrível a maneira como aqui, desde que o bebê nasce, os pais se permitem sair com ele, viajar, passear, enquanto que no Brasil os pais ficam confinados durante meses com os filhos em casa, preocupados com os perigos da rua. Mas isso tem razão de ser, né? Além de ser algo cultural, tem a ver com viver em um lugar em que você pode sair na rua ou não. Ou seja, é complexo demais esse tema da criação dos filhos, pois são muitos fatores em conta. Por isso que não dá para generalizar.
           Talvez antes de elegermos nossos novos ideais de criação de filhos e de ficarmos invejando e lamentando não estarmos na França, onde tudo seria perfeito e nossos filhos que comem mal e fazem “birra” e “fazem manha” e são impossíveis seriam outros, totalmente comportados e obedientes, e ainda por cima falariam francês – uhu! – talvez, apenas talvez, fosse o caso de olharmos mais para nossos filhos e tudo o que os cerca em termos de ofertas de alimento, de diversão, de companhia, de afeto. E, talvez, pudéssemos encontrar ali mesmo, nesse entorno e nessas ofertas, as razões para as dificuldades que enfrentamos assim como as condições de fazer diferente e de fazer melhor. Sem precisarmos nos assombrar e nos sentir diminuídos por esses exemplos tolos de crianças perfeitas que NUNCA existem.
           Em tempo: a entrevista, publicada em várias partes, começa nesse link aqui. Vocês podem aproveitar para navegar pelo site do projeto Casa de Viver, uma inciativa bem bacana para mamães trabalhadoras em São Paulo.
           Em tempo 2: estou mudando o layout do blog, com a ajuda de uma super amiga mais do que talentosa. Comentários serão bem vindos.

Morar fora

Feliz ano novo, meus queridos!

E aí? Já estão de malas prontas para deixar o Brasil que não começou 2016 tão diferente do que terminou 2015?

Decidi começar o ano por um post daquela série “maternidade na gringa“. Porque sempre me perguntam como é viver for do Brasil. Mais do que como é ser mãe fora do país, as pessoas parece que querem saber como é viver o “sonho de morar fora”. Então, aí vai. Vocês que pediram, hein?

Em uma época de tantas crises e decepções no Brasil, o que mais ouço são amigos e conhecidos dizendo que vão embora do país. Se em 2009, a cada vez que escutava essa intenção me prontificava imediatamente a ajudar a pessoa com mil dicas e encorajamentos, hoje apenas me limito a sorrir.

Morar fora – ou dizer que vai fazê-lo – é ter o conforto de poder contar sempre com um plano B. É a carta na manga, a insolência de poder dizer: “ah é? Então não brinco mais!”, pegar a bola do jogo e virar as costas. É manter sempre uma porta de saída imaginária no fundo da cabeça da gente, para acreditarmos que basta um estalar de dedos e podemos nos materializar numa realidade outra em que tudo seja melhor, mais bonito e mais feliz.

A verdade? A maioria esmagadora das pessoas que passam boa parte do tempo dizendo que vão embora do Brasil não vão fazê-lo. E isso pelos mais variados motivos. Motivos práticos, motivos econômicos, motivos afetivos e, principalmente, pelo simples motivo de que ir embora do seu país e reconstruir sua vida num outro lugar é para bem poucos. E aqui não há nem um cheiro de esnobismo, como se o mundo se dividisse entre os fortes, aqueles que vão embora, e os covardes, aqueles que ficam. Até porque poderíamos adjetivar justamente da maneira contrária: fortes são os que ficam, covardes os que vão. Não, não se trata de um julgamento de quem é melhor, nem de se é melhor ir ou ficar. Trata-se de uma constatação feita a duras e dolorosas penas de que, para deixar o seu país e, principalmente, para se instalar em um outro lugar, é necessário ter uma certa condição. Psíquica. Em outras palavras: é preciso ter estômago, muita determinação e nervos de aço.

Então como é morar fora? É legal? É demais? É melhor do que aqui?

Todas as pessoas que conheço que vieram morar na França endureceram. É bem estranho encontrar outros brasileiros porque todos – ou todas – qualquer que seja sua história e os motivos e meios que os trouxeram até aqui, são num primeiro contato pessoas mais duras, desconfiadas e fechadas do que os primeiros encontros que sempre tive no Brasil. Ok, o sorriso trai a brasilidade. Mas não se  engane: os brasileiros que conheço por aqui são bem mais sérios que os de lá. Durões. Circunspectos. A ponto de escutarem comentários a cada vez que visitam nosso país de origem do quanto se tornaram esnobes. Não nos tornamos esnobes. Nem tampouco franceses. Endurecemos. Criamos casca e carapaça. Como todas as outras, não consegui fugir à regra e endureci igual minhas amigas. Acabei desenvolvendo a teoria de que morar fora endurece a gente.

Não, não é isso que você escuta ou lê quando aparecem aqueles relatos lindos na internet de como morar um ano fora mudou a cabeça da pessoa, abriu os olhos, libertou, criou novas perspectivas e tudo o mais que parece tão revolucionário que faz te sentir menor apenas pelo fato de ainda não ter feito as malas e largado tudo para passear mundo afora. E ficam os sites estilo matadorhypeness e sei lá mais quais publicando listas e listas das dez razões pelas quais você precisa morar fora, ou das dez coisas que aprendi quando larguei tudo e fui morar no X (preencha aqui com o nome da sua cudade-sonho-de-consumo), grandes responsáveis por te fazer se sentir um lixo. E ficam os seus amigos que moram fora do país postando fotos da escapada de final de semana em Barcelona, ou da balada em Berlim, ou do verão numa ilha grega paradisíaca de mar azul turquesa e que te fazem passar por um bobalhão tirando férias em Ubatuba. E ainda têm os reaças de plantão ameaçando mudar para Miami a cada vez que algum acontecimento político os desagrada. Não, morar em qualquer outro lugar é sonho de consumo, é ideal, é bem melhor do que aqui, é bom demais, não? Pois é, meu caro ou minha cara, desculpa ser eu a te contar isso mas, a coisa, na verdade, não é bem assim. Ou não é apenas isso.

Quem coloca a mochila nas costas e passa um ano fora, faz um sabático, um doutorado sanduíche, um curso de línguas ou o que quer que sirva de pretexto para um período fora do país dificilmente ultrapassa a superfície em que tudo pode ser encantador, surpreendente e promotor de descobertas e mudanças. E esse encantamento pode mesmo acontecer, quando a pessoa que chega se abre para o desconhecido, se redescobre outra em novos itinerários, noutra cultura, noutros costumes, noutra língua. Que bom que é assim! Que bom poder viver isso! Mas experimente ficar um pouco mais de tempo e viver uma vida mais banal e você vai perceber que o glamour da vida na gringa não é nada glamouroso não.

Chegar e se instalar noutro país mexe demais com qualquer um. Tem gente que se vicia nessa sensação de se reinventar e nunca mais quer ter raízes em lugar nenhum. É a euforia da novidade: quem, por exemplo, não imagina que seja um imenso prazer morar em Paris e ter todos os dias aquela beleza toda ao alcance dos olhos? E poder descobrir cada cantinho, explorar cada museu, cada monumento, cada construção, cada restaurante, cada esquina, cada detalhe? Como se viver em Paris fosse o equivalente de fazer todos os dias aquilo que a gente faz durante uma semana quando vem à passeio, como turista, como se fosse turistar em Paris em férias eternas. As pessoas em geral parecem ter um sonho de Paris, um mito de Paris, um anseio de Paris como o lugar mais belo, mais chique e mais maravilhoso para se viver nesse mundo. É o sonho do turista que idealiza o lugar pelo qual passa como aquele que seria o melhor para se instalar e viver a vida. Posso dizer, com todo o amor que sinto por Paris e mesmo sem levar em consideração a ameaça terrorista que paira sobre todos indiscriminadamente desde o ano recém terminado: não é. O lugar onde a gente vive é diferente do lugar onde a gente passeia.

Experimente ter horário em Paris. Ter que correr para um compromisso sem poder olhar as maravilhas do caminho. Correr para pegar o metrô, o ônibus, o trem. Correr e perder metrô, ônibus ou trem e ter que esperar o próximo, sabendo que vai se atrasar. Correr na rua do ponto de metrô, trem, ônibus até o lugar onde vai. Correr na rua em dia de frio, debaixo de chuva e neve. Ter que botar a cara na rua em dia de frio, chuva, vento e neve porque precisa cumprir algum compromisso. Ter que pagar aluguel (caríssimo) para morar num lugar minúsculo em que não cabe nem um terço das coisas que você acumulou no Brasil. Morar num prédio sem elevador e ter que subir com malas e compras. Fazer faxina. Lavar roupa. Passar roupa. Cozinhar (quando a cozinha tem um tamanho que permite fazer algo mais do que um miojo, claro). Experimente desentupir uma privada ou limpar o sifão da pia da cozinha porque esses serviços quase não existem, não funcionam 24 horas e, quando você encontra um encanador, custa uma fábula. Experimente a fila do titre de séjour e as burocracias da previdência social e da seguridade social. Experimente preencher formulários. Ou conseguir um emprego. Experimente pagar impostos na França. Todas essas banalidades podem deixar um estrangeiro maluco, simplesmente porque ele não nasceu e cresceu ali onde as respostas para essas tarefas quotidianas não precisam ser explicadas, de tão evidente que são.

Paris é uma cidade cara, que expulsa cada vez mais para seus arredores os jovens que não conseguem morar na cidade. Existem bairros inteiros que se tornaram casas de veraneio de ricos do mundo inteiro, bairros vazios, sem vida, sem graça. Existe a Paris dos turistas, sempre lotada, tumultuada, suja, intransitável, com gente se atropelando em todas as calçadas e filas intermináveis. Existem mil lugares lindos, graciosos e interessantes nessa cidade. Mas quem vive em Paris não passa a vida passeando. E isso você descobre apenas quando mora tempo o suficiente para que o encantamento cada vez que cruza uma ponte sobre o Sena ou dá de cara com alguma de suas maravilhas se mistura aos desafios cotidianos de ser um estrangeiro nessas terras.

Não apenas Paris, mas a França como um todo endurece a gente. Ou morar fora do seu país de origem, onde quer que seja, endurece. Caleja.

Porque, não, morar em Paris, morar na França não é como turistar indefinidamente nesse país. Basta precisar de algo banal e comum para se dar conta de que a maravilha acaba onde a vida quotidiana começa.

A França é um país cheio de burocracias e preconceitos. Sim, o país das Luzes tem seu lado escuro, racista, xenófobo, cheio de piadas com estrangeiros, atos de violência contra pessoas de certos países e/ou de certas religiões, intolerâncias quotidianas contra quem não fala ou fala mal o francês, julgamentos segundo as aparências os mais diversos. Foi numa das melhores universidades francesas que ouvi, pela primeira vez, um professor universitário falar mal de uma colega, pelo simples fato dela ser mulher. E melhor sucedida intelectualmente do que ele, diga-se de passagem.

A cada vez que você precisa renovar seu titre de séjour, ou abrir uma conta em um banco, ou solicitar um papel qualquer, trocar sua carta de motorista, validar seu diploma… enfim… cada vez que você precisa fazer algo banal e quotidiano, algo que não tem nenhum glamour e não participa do mito da vida maravilhosa na França você é confrontado com a burocracia francesa, o excesso de regras, de papéis, a falta de jogo de cintura e a indisponibilidade francesa em explicar aquilo que, para eles, parece óbvio. Tem quem diga que é assim para todo mundo. Até mesmo para os franceses. Mas a essa tacanhice se soma um certo gostinho por lembrar ao estrangeiro que ele está ali por uma concessão. Quem mora fora do seu país talvez passe a vida inteira com essa sensação de que estão lhe fazendo um favor. Maneira sorrateira de subjugar o outro.

Você é alguém no seu país? Tem trabalho, profissão, diploma, pós-graduação, mil especializações? Ok, aqui nada disso vale e você vai ter que validar seu diploma, refazer seu trabalho de conclusão de curso da graduação, fazer estágio… Conheço gente que, frente a essas exigências surrealistas desistiu e ficou cuidando da casa, dos filhos, ou foi trabalhar em subemprego, mudou de área. Não sem uma boa dose de depressão e revolta. Por isso as pessoas parecem duras, frias e distantes. É porque já tomaram muito na cabeça.

Quando você é estrangeiro, nunca sabe até que ponto as dificuldades que enfrenta para dar conta das tarefas mais banais se devem à sua condição ou se é assim para todo mundo. Tem gente que fica paranóico, achando que tudo é xenofobia. Tem quem desiste de tentar. E tem quem aceite as regras do jogo e faça o que dizem que deve ser feito. Para trabalhar, para ter documentos, para ter acesso aos serviços de saúde…

Morar fora do seu país de origem te confronta a um constante desconhecimento. O lado maravilhoso disso é se redescobrir ou se reinventar em um novo cenário, com novas pessoas, em outra língua. E poder fazer diferente, melhor. Ser surpresa em cada canto, a cada dia. O lado cansativo disso é ter que reaprender a andar, a existir, a viver com outras regras, outros papéis, outros jeitos de fazer as coisas, outros códigos que só aprendemos errando, derrapando e tendo que fazer e refazer gestos os mais banais.

Tem gente que se sente muito mal frente a tanto desconhecimento e tanta diferença e se fecha logo de cara. Tem quem se vicie nessa adrenalina do novo. Em ambos os casos, essa imersão inicial de quem acaba de mudar de país, superficial porque totalmente alienada das mazelas do dia-a-dia, parece que nos coloca frente a quem somos ou poderíamos ser se pudéssemos começar tudo de novo. Tem quem goste e se jogue na experiência. Tem quem deteste e passe o tempo todo se escondendo do contato com tudo o que é desse novo país, andando apenas com brasileiros, falando português, comendo comida brasileira, lamentando não estar em casa sem, no entanto, pegar as malas e voltar. Paradoxos de ser estrangeiro que só entende quem fica tempo o suficiente para sair da posição de turista permanente.

Se você pensa realmente em mudar de país, por qualquer motivo ou projeto que seja, e se vier me pedir conselho, acho que posso resumir todo esse texto longo em algumas poucas linhas: leve em consideração que nenhum lugar nesse mundo é o melhor lugar para se viver. O melhor lugar para se viver é o lugar onde você se sente melhor, não um lugar em si. Cada país, cada cidade tem suas vantagens e desvantagens e você ser feliz em um lugar ou outro depende mais da sua disponibilidade e do que é prioridade para você do que de qualquer outra coisa. Morar na França tem inúmeras vantagens. Mas tem o terrorismo. Morar no Brasil tem inúmeras vantagens. Mas tem corrupção, violência, falta de água, retrocessos… O que é mais importante para você?

Ninguém vai facilitar sua vida em um outro país. Você é quem foi, você é quem quis. Então, cabe a você se adaptar e não exigir que sejam eles que se adaptem. Claro que cabe exigir tolerância e abertura ao outro, o contrário da xenofobia. Mas querer que os franceses sejam sorridentes como a gente, que os serviços sejam rápidos e eficazes, que tenha pão de queijo e misto quente na padaria e mais um monte de coisas que são a nossa cara é ignorar que se está em um outro país. Se é para mudar de vida, mude de fato, não fique vivendo a vida velha na nova.

Agora, se é apenas para ter o conforto do plano B, tudo bem. Todo mundo precisa da ilusão de que pode fazer qualquer coisa. Lembre-se apenas, quando vier me perguntar como é viver na França, que minha resposta reclamona vai ser bem parecida com a que você daria se eu perguntasse como é viver no Brasil. Minha vida é bem parecida com a sua, não se preocupe. Mudar de país muda muita coisa e muda muito a gente. Mas não muda a vida em algo diferente do que seja viver.

Como a vida mudou!

Sinceramente, quando dizem que a maternidade muda a sua vida, eu posso te garantir que nem que você seja a pessoa mais criativa do mundo você dará conta de imaginar o quanto isso pode ser verdadeiro e radical. E muda de maneiras inesperadas, ainda por cima. Nada a ver com dormir menos ou coisa que o valha, porque disso todo mundo fala. Falo de mudanças nas entranhas, sabe? Aquelas com as quais você não contava. Senão, vejamos.

Sempre fui uma workaholic convicta, para quem o trabalho era a principal fonte de investimento prazer e inspiração. E agora desloquei tudo isso para a maternidade, certo? Não, cara pálida, errado. Agora estou há um ano sem trabalhar, o que quase me deixou maluca, mas também me fez pensar muito sobre o sentido em ter o trabalho como centro da vida.

Sim, é gratificante demais encontrar uma profissão que te encante, que te interesse diariamente e que te traga satisfação além do dinheiro em exercê-la. Ser independente, pagar as próprias contas e, ainda mais, fazendo algo que gosta soa como o auge da realização. Pois é, eu já vivi tudo isso, já estudei muito, já trabalhei feito maluca, já investi intensamente no meu trabalho, na minha carreira, nos meus projetos, com tudo o que isso sempre implicou, inclusive, em termos de vida pessoal: minha vida era o meu trabalho e, mesmo sem perceber, tiveram umas tantas coisas bem importantes que ficaram sacrificadas ao longo do caminho.

Tudo bem, não sou a primeira e nem serei a última mulher desse mundo que farão esse caminho. E ainda que muitas de nós pareçam estar satisfeitas com os resultados, vejo uma boa pitada de amargor em gente como eu que chega nesse mesmo ponto da vida e começa a se dar conta, por um ou outro acontecimentos marcantes, que nada faz muito sentido.

A questão não é trabalhar, ter uma carreira, valorizar e ser valorizada por isso. A questão é o momento em que atravessamos uma fronteira em que isso e torna o centro de nossas vidas e tudo o mais – e existe muito mais do que isso – fica pegando poeira ali do lado, definhando lentamente.

Nasci e vivi boa parte da minha vida em São Paulo. E enquanto estive por lá, o trabalho foi praticamente tudo na minha vida. Eu trabalhava umas 50 horas por semana, inclusive aos finais de semana. E adorava isso. Adorava o estresse, a correria, o desafio. A grande maioria dos meus amigos e conhecidos de lá faz o mesmo, não importa em que área trabalhem. E parecem satisfeitos.

Mas daí eu vim para a França e, na medida em que comecei a criar aqui uma rotina e a ter contato com outras pessoas, me deparei com um modo totalmente diferente de viver a vida e de encarar o trabalho. E esse modo diferente, em que existe espaço e condições para fazer outras coisas no seu cotidiano além de trabalhar me fez questionar até que ponto meu estilo centrada na carreira era escolha ou falta de opção.

Quero dizer: será que o fato de vivermos em uma cidade hostil como São Paulo, violenta, com poucos espaços públicos e sem nenhuma cultura de usufruir da cidade… Será que uma cidade onde mal se pode andar pela rua, onde boa parte das atividades de lazer se restringem ao consumo, onde programa com os amigos é fazer compras no shopping ou ir jantar em restaurante… Será que uma cidade em que se leva duas horas para chegar ao trabalho e duas horas para voltar dele, onde ninguém consegue terminar seu dia antes das dez horas da noite… Será que uma cidade cara, centrada no consumo, onde as atividades culturais custam, em sua maioria, os olhos da cara e onde as pessoas se sentem constrangidas em museus, galerias de arte e na Sala São Paulo… Será que uma cidade onde a educação “de qualidade” é paga e custa caro, onde a saúde “de qualidade” é paga e custa uma fortuna, onde todos os serviços essenciais são pagos, assim como o condomínio, todas as despesas de ter um carro… Será que uma cidade como essa, em que a vida é tão difícil, inóspita, violenta, complicada e segregada não nos empurra a acreditar que a vida é trabalho porque, no fim das contas, é só o que dá para fazer mesmo? Porque precisamos ganhar cada vez mais para bancar essa vida nessa cidade e nesse país e, no fim do mês, a conta quase não fecha?

Não discuto aqui que trabalhar pode ser projeto de vida de muitas pessoas e que pode ser um grande prazer e uma baita injeção de adrenalina. Nem discuto que existe saúde, educação, transporte e segurança públicos em São Paulo. E discuto ainda menos a qualidade dos mesmos, pois sei que existe muito serviço público de qualidade em meio a outros tantos bem ruins. O que estou discutindo é se não criamos ou embarcamos em uma mentalidade estressada, que vive correndo atrás de não sei qual prejuízo e que vive da vida muito pouco. E exige menos ainda. E ainda acha que essa vida é normal. Descobrir que pode ser muito diferente é um choque.

A primeira vez em que voltei de uma festa de madrugada, andando, sozinha, em pleno sabadão invernal parisiense percebi que alguma coisa havia mudado essencialmente nas minhas entranhas. Eu descobri que era possível viver diferente. E viver melhor. Andar nas ruas, que são de todos, poder circular, ocupar a cidade, usufruir daquilo que é de todos. E cuidar também, porque é de todos. E usar os serviços públicos, que são bons e funcionam. E poder contar com eles. E não precisar ter despesas astronômicas com saúde e educação. Nem com transporte.

Se tudo isso já bastou para me questionar sobre o porquê focalizei tanto da minha vida em torno do trabalho, engravidar veio reforçar e acentuar ainda mais essas indagações. Que sentido faz trabalhar tanto para ganhar tanto se o que se faz é passar a vida correndo atrás do próprio rabo dos próprios gastos? Que sentido faz nutrir toda essa maquinaria para começar a embarcar nela os próprios filhos, afastando-se deles para poder cuidar deles? Não parece um contra-senso? Para cuidar preciso estar longe, trabalhando de sol a sol a fim de garantir todas as coisas, todos os serviços, todas as necessidades que o pequeno rebento possa ter… com exceção de sua necessidade da minha presença. Trocamos presença por todas as outras coisas. Quando talvez devêssemos estar reivindicando o contrário: menos coisas, uma vida mais viável justamente para estarmos mais presentes.

Eis-me aqui então nesse ano sabático, constatando essa mudança de centro que jamais poderia suspeitar que um dia ocorreria comigo. Não estou trabalhando, mas estou trabalhando muito. Sem saber exatamente qual lugar o trabalho terá para mim em seguida. E bem contente em descobrir que a vida tem bem mais coisas a viver do que aquilo em torno do que a minha sempre girou. Por aqui, boa parte dos meus amigos tentam e conseguem se ver ou se falar ao menos uma vez por semana. E as pessoas saem juntas, se visitam, se encontram no final da tarde, batem papo, escolhem um entre milhares de programas, muitos dos quais de graça, viajam nas férias e nos finais de semana. Há tempo e lugar para muitas coisas além do trabalho mas, principalmente, há tempo e lugar para pessoas e relações.

E você? Quanto custa a vida que você escolheu viver por aí?

O estranho patriotismo dos expatriados

Em tempos de Copa do Mundo, a primeira morando longe de casa, tenho visto exacerbado algo que já me chamava a atenção em muitas situações cotidianas por aqui: o patriotismo exacerbado, quase fanático, de quem está longe de suas origens.

Há pessoas que saem de seus países por conta de guerras ou de conflitos violentos ou perseguições políticas. Há pessoas que saem em busca de melhores condições de vida ali onde acreditam que seja possível aquilo que não é no lugar onde nasceram. E há aquelas que saem por oportunidades de trabalho, de estudo, por um investimento profissional. Qualquer que seja o motivo que tenhamos para transitar, me parece evidente que a humanidade é essencialmente nômade. E que as fronteiras e os empecilhos a essa livre circulação não são apenas de uma violência contra esse ser do humano quanto, também, de uma ignorância descarada acerca daquilo que contribui para a riqueza de um país ou de uma região.

Enfim…

O negócio é que as pessoas partem e chegam. E, cheias de esperanças e de ideais, constatam no dia-a-dia dessa nova vida nesse novo lugar que as coisas não são assim tão simples. Sonhar com a vida em um outro país é bem mais divertido do que vivê-la. Porque no sonho não existe a burocracia, as papeladas, as dificuldades de comunicação, tudo aquilo que você não sabe como funciona, os desencontros culturais… No sonho não existe o racismo e o preconceito com o qual o estrangeiro é olhado em qualquer lugar do mundo, sempre o primeiro a ser apontado como causa de todos os problemas de qualquer ordem, em qualquer lugar.

Então, o que acontece? Acontece que, expatriados, vivemos cotidianamente esses pequenos preconceitos, essas pequenas discriminações. E, mais ainda do que isso, essas milhares de pequenas dificuldades que atribuímos ao preconceito e à discriminação e que muitas vezes não são. São apenas o modo como as coisas são. E que não entendemos. E nessa experiência dura e oprimente de tentar se integrar versus a oposição para que isso aconteça, o que vemos é muitas vezes uma reação de total inadaptação. Uma recusa mesmo em se inserir, em fazer parte.

Me explico. E juro que isso tem a ver com a maternidade, ou ao menos com a maternidade fora de seu país de origem, tá?

Quantas vezes nos deparamos no Brasil mesmo com imigrantes de primeira geração que não falam português? Não aqueles que falam com sotaque carregado, mas aqueles que simplesmente não falam uma palavra? E quantas vezes nos deparamos com comunidades inteiras que ocupam bairros inteiros que passam a ter letreiros inteiros em outra língua, produtos vendidos em supermercados totalmente estranhos, gente que não se mistura e que te olha com desconfiança se você insiste em passar por ali? Não sei vocês mas eu, vivendo em São Paulo, tive essa experiência várias vezes de me deparar com pessoas ou com comunidades tão fechadas que ficava claro que não havia brecha alguma para entrar.

Pois é, o mesmo acontece por aqui. E o mesmo acontece conosco, os brasileiros. Nós, que parecemos um povo tão aberto ao estrangeiro, que parecemos sempre tão dispostos a recebê-los bem em nossa casa, que parecemos até subservientes, encantados com a estrangeirice alheia e invejando tudo de todos como se quiséssemos ser tudo menos aquilo que somos… Bem, nós, os brasileiros, somos acometidos muitas vezes de um curioso fechamento quando vamos viver fora de nosso país.

Vejo por aqui, quase cotidianamente, situações em que brasileiros simplesmente não se misturam. Pude conviver com pessoas que vieram para a França para seus estudos e que passaram todo o período de sua estadia convivendo apenas com outros estudantes brasileiros, frequentando bares e restaurantes brasileiros, comendo comida brasileira e… reclamando de tudo o que é tão diferente do Brasil. O tempo todo. Gente que terminou a bolsa sanduíche ou o que quer que seja praguejando que os franceses são chatos, mal educados, fechados. Gente que voltou sem falar uma palavra de francês, sem nenhuma experiência de abertura, sem nenhum momento em que tenham sido tocados por essa diferença para guardar na lembrança. Nada. Foram e voltaram sem sair do lugar.

Mais do que isso, vejo outros brasileiros que estão aqui há anos, quase décadas e que não falam a língua, frequentam apenas médicos e outros tipos de prestadores de serviço que sejam brasileiros ou que falem português, saem para fazer programas brasileiros, entre brasileiros. Pedem para quem vem do Brasil trazer remédio brasileiro, comida brasileira. Esmalte brasileiro, tintura de cabelo. E só. Não. Ainda reclamam da França e dos franceses. O tempo todo.

Vocês podem me dizer: ah, mas é o “mal do país”. Ou é saudades. Sim, pode ser mesmo. Como pode ser a reação meio paranóica ao que vivemos e identificamos como uma perseguição. Nos maltratam, não nos querem aqui? Ok, então ficamos por aqui sem olhar para eles.

Tenho uma colega argentina com quem convivi por um bom tempo e que vivia falando mal do Brasil. Detalhe: ela vivia no Brasil desde bem jovem, era casada com um brasileiro, tinha filhos brasileiros, fez seus estudos ali, tinha seu trabalho, ganhava seu sustento, tudo no Brasil. Sempre achei o fim da picada, uma falta de educação, de respeito e de gratidão pelo país que a acolheu sempre e bem. Mas vendo como são as coisas por aqui, posso compreender como acontece esse inevitável desencontro em qualquer país, com qualquer estrangeiro que viva fora de casa. E como tomamos esse desencontro como algo contra nós. E como temos que viver em constante defesa contra esse país que nos acolhe e nos maltrata ao mesmo tempo. Como se não fosse assim também em nosso país de origem, que se transforma então no lugar ideal onde tudo seria mais acolhedor, simpático, saboroso e fácil. Continuo achando falta de educação, de respeito e de gratidão. Mas muitas vezes faço o mesmo.

Penso que uma das maiores dificuldades de viver em outro país é manter um espírito de abertura e conseguir distinguir entre aquilo que é preconceito, racismo e xenofobia – dos quais a França está infelizmente infestada – daquilo que é apenas a estupidez cotidiana de um país que funciona mal em muitas coisas. Mas não apenas com os estrangeiros, com todo mundo. Um bom exemplo disso por aqui: a burocracia. Tente conseguir renovar seu visto uma vez por ano e você terá a forte impressão de que fazem de tudo para que você desista. Sim, deve ser verdade. Mas pergunte para o seu marido, amigo, colega, conhecido francês como é que é cada vez que ele precisa ir resolver uma coisa na prefeitura, buscar um papel em algum lugar, resolver algo simples como mudar um endereço para a entrega de uma conta… Hahahahaha, meus caros, é uma novela. De mau gosto.

Mas, ao mesmo tempo, tem tudo aquilo que funciona e que te fez vir / ficar por aqui, não? Existem muitas situações e muitos lugares em que esse país te acolheu e cuida de você e de seus interesses, não? Pois é, prós e contras. A vida está cheia disso e não importa muito aonde você viva.

Talvez o que seja difícil de lidar mesmo seja justamente essa constatação de que “a França não quer você”. Essa descoberta de que você está ali não porque é desejado, mas porque deseja. E tem que sustentar sua estadia apenas no seu desejo. E fazer um baita esforço por ele. Sem a apaziguadora idéia de que o outro faz a maior questão da sua presença. Não suportamos muito bem essa situação de não poder dizer que é por causa do outro que fazemos isso ou aquilo, mas apenas e tão somente por nossa vontade. E viver em outro país, qualquer que seja ele, te joga na cara essa verdade inabalável: você está ali porque você quer. Então, o esforço vai ter que ser seu.

Putz.

Não estou defendendo que os países recebam mal seus imigrantes, até mesmo porque eles precisam tantos da gente quanto precisamos deles. Mas são poucos os países que lançam campanhas para você vir se instalar, a demanda é quase sempre de quem vem, não? Então, como não assumi-la e aceitar o esforço que ela implica?

Mas o que isso tem a ver com o patriotismo? E com a maternidade?

Muito, porque nesse embate entre o nosso desejo de estar em um lugar para o qual não fomos convidados e a constatação de que não somos desejados e de que temos que construir nosso lugar ali por nós mesmos, vejo acontecer muitas e muitas vezes esse fechamento, essa recusa, essa idealização do país de origem e esse ódio do lugar em que se vive, que é negado de todas as formas possíveis, a começar pela recusa da língua. “No Brasil é que é bom”. Mesmo? Tem certeza? Não vou fazer aqui o discurso inverso de que no Brasil tudo é uma porcaria, mas o Brasil também tem lá suas mazelas, não? Não é flor que se cheire, como aqui, como nenhum outro lugar. E quem disse que haveria o lugar perfeito? E por que acreditamos nisso?

O mais curioso, engraçado, paradoxal nisso, contudo, é que esse fechamento nesse patriotismo meio xiita que vejo por aqui ignora totalmente que nada disso faz sentido para os próprios filhos. E aí entra a questão da maternidade, com algo que constatei noutro dia e que me deixou perplexa: para nossos filhos, os filhos dos expatriados, quer sejam eles brasileiros ou estrangeiros ou ambos, esse patriotismo não significa nada. Por quê? Porque a pátria deles é outra.

Vocês já pararam para pensar nisso, que para nossos filhos, o lugar de origem deles é e sempre vai ser esse onde nasceram e onde vivem? Que eles terão como referência uma língua outra que será a língua deles, mesmo que falemos português em casa e que eles também falem? Que eles terão outros sabores na boca, outras paisagens na retina, outros sons, outras impressões na memória? Que nossos filhos são os estrangeiros que recusamos ao recusar o país no qual eles nasceram e vivem e com o qual possivelmente terão a mesma relação afetiva de amor e ódio que temos com o Brasil?

Pois é, me dei conta disso noutro dia. Minha filha é francesa e brasileira. Mas enquanto vivermos aqui e quanto mais vivermos aqui, mais ela será francesa, marcada pela cultura, pelos hábitos, pelos costumes, pela língua desse país em que vivemos. E, claro, ela terá traços de Brasil nela. Mas mesmo que eu me torne uma patriota xiita e que ela se vista de verde e amarelo em dia de Copa, isso corre o risco de soar nela mais como exotismo do que como a defesa de uma certa identidade. Porque não é o que ela é. Porque eu escolhi estar e ficar aqui. E isso tem como consequência que ela seja outra coisa do que eu fui nascendo e vivendo no Brasil por anos e décadas.

Então, minha gente, acho que esse patriotismo exacerbado é meio que um tiro no pé. No nosso e no de nossos filhos. É não assumir que eles são outros e não deixá-los serem quem são, mesmo que isso signifique, dolorosamente, não-brasileiros. Então é fazer o contrário, se integrar e recusar totalmente nossas origens, nossa língua, nossa cultura? Claro que não. Isso apenas refaz o problema pelo seu avesso. Mas talvez se pudermos considerar que aquilo que somos não é o que nossos filhos são também nesse ponto, o das origens ou o do sentimento de pertencer a uma ou outra pátria… talvez isso nos ajude a sermos mais abertos e tolerantes com esse estrangeiro que nos acolhe e que, em certo ponto, são nossos próprios filhos.

As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Continuando esse papo aqui, que pelo visto vai durar muito tempo, já que ser mãe é um festival de novidades e ser mãe “na gringa” soma ainda mais novidades ao pacote.

Concordo com um post que li noutro dia que diz que você só começa a se enveredar mesmo pelos meandros do país em que vive quando se torna mãe em outro país. Claro, essa não é a única condição, mas se tem um acontecimento que te obriga a entrar em contato com esse mundo em que vive de uma outra maneira é o tornar-se mãe.

Primeiro, ao menos aqui na França, por conta da burocracia. Os franceses que conhecem o Brasil dizem que somos extremamente burocráticos e nós dizemos o mesmo deles, é o roto falando do esfarrapado. Mas, na verdade, acho que toda burocracia é particularmente difícil quando não é a do seu país, já que você vai ter sempre muito mais trabalho tanto para entender o que precisa fazer quanto para dar conta de todos os extras que te exigem justamente pelo fato de ser estrangeiro.

Antes de engravidar eu – por sorte – não tinha precisado nem ir ao médico. Então, fui descobrir todas as maravilhas e problemas do sistema de saúde francês estando grávida. E, em seguida, tendo que buscar o acompanhamento de rotina para um bebê recém-nascido. Modos de atendimento, modos de acompanhamento, seguridade-social, coberturas de planos de saúde, reembolsos… Até sobre calendário de vacinação, que é um pouco diferente do Brasil, tive que me informar (só para constar, a BCG não é obrigatória na França. Todas as outras vacinas são basicamente as mesmas, só que dadas em épocas diferentes).

O que acho interessante é que parece que os franceses buscaram criar um roteiro prevendo todos os casos possíveis. E para cada situação prevista tem algo que pode ser feito, um serviço que é oferecido e um modo de proceder. Quero dizer que, ao contrário do Brasil, aqui eles tentam cercar toda a primeira infância de uma série de cuidados e prescrições. Meio arbitrário às vezes, mas muito tranquilizador também. Me dá a impressão de que a mentalidade francesa é de que os filhos das pessoas são filhos da França e que eles levam muito à sério isso de cuidar dos filhos “da França”. A tal ponto que pode vir alguém bater na sua porta caso você não leve seu bebê nas consultas de rotina, ou se não o levar na escola.

Tenho gostado muito desse acompanhamento de maneira geral. Tudo o que os franceses são medicalizantes quando o assunto é gravidez, por exemplo, eles não são quando se trata de bebês ou crianças. Criança com nariz escorrendo, resfriada? Soro no nariz e só. Nada de antibiótico desnecessário, nada de mil remedinhos. Vejo muita mãe brasileira doida com isso, porque parece que temos mais arraigada em nós essa cultura da medicalização da infância e desde o começo já queremos medicar bebê que é “agitado”, bebê resfriado, bebê que não engorda bastante… Enfim, médicos generalistas, pediatras ou dos serviços de atendimento à infância, que são os que cuidam de bebês e crianças, medicam bem pouco essas bobeirinhas cotidianas. E não ficam pedindo mil exames invasivos para investigar suspeitas mirabolantes de diagnósticos complicados a não ser que tenham muitos motivos para tanto. E, a meu ver, isso é bem vindo.

Por outro lado, têm verdadeira fixação pela curva de crescimento e parecem obcecados com ela a tal ponto que só se preocupam se o bebê engordou e está na curva, especialmente nos primeiros meses. Não têm nenhum pudor em indicar complemento em leite em pó, sendo completamente equivocados quando o assunto é amamentação. Acreditem, a coisa aqui é grave, a França é um dos países com as taxas de amamentação mais baixas do mundo. E os profissionais de saúde são totalmente despreparados para lidar com o assunto seguindo, no mínimo, as diretrizes da OMS. Ou seja, se o assunto for amamentação, melhor procurar ajuda especializada. E especializada não é sinônimo de “o seu médico”, ok?

Contudo, amamentar em público é muito mais tranquilo por aqui do que parece ser em terras brasilis. Não sei se por pudor, por um certo respeito à liberdade do outro, ou simplesmente porque eles não estão mesmo nem aí, poucas vezes notei algum constrangimento da parte dos franceses com o fato de amamentar. E de amamentar em lugares públicos. Nunca ouvi nenhum comentário crítico ou desdenhoso e as únicas duas vezes que senti algum constrangimento foram em viagens de trens em que homens babacas ficaram olhando de um jeito nada terno enquanto eu amamentava minha filha. E só. Ninguém me falou para me retirar, como acontece com uma vergonhosa frequência no Brasil, ninguém sugeriu que eu fosse amamentar minha filha no banheiro, aquele lugar tão apetitoso, higiênico e estimulante para se fazer uma refeição, ninguém me acusou por atentado ao pudor, como os Facebooks da vida insistem em fazer cada vez que uma mulher posta uma foto amamentando, pornografia das pornografias em um mundo repleto de indecências… Já amamentei em parque, em museu, em restaurante, em trem, em ônibus, em metrô, em loja… enfim… toda hora é hora, todo lugar é lugar. E parece que está todo mundo de boa com isso.

E para quem acha que os franceses são frios, distantes ou pouco solidários, tenho a dizer que eles se mostram, sim, muito solícitos e atenciosos quando você chega com um bebê em qualquer lugar. Confesso que tinha uma péssima impressão e uma má expectativa, especialmente depois do perrengue que vi um casal de amigos passar quando vieram para cá de férias com a filha de dois anos. E do número de vezes em que fui a única a ajudar mulheres a descerem ou subirem as infernais e intermináveis escadarias do metrô com seus bebês em seus carrinhos. Paris é uma cidade hostil para grávidas e mães de crianças pequenas. Sim, é mesmo. Mas nunca deixaram de me oferecer lugar em nenhum transporte público quando estou com a bebê. E penso que o fato de eu não andar por aí com ela no carrinho e sim no sling ajuda muito, porque boa parte do mau humor dos franceses não é com a criança e sim com o espaço que aquele trambolho do carrinho de bebê ocupa no metrô, no ônibus, no elevador, no restaurante, em todo lugar de uma cidade em que espaço não existe tanto assim.

Fila preferencial aqui não existe. Quer dizer, não existe uma indicação de fila preferencial, a não ser nos supermercados e em alguns museus. Mas você pode chegar em qualquer lugar e perguntar onde é a entrada preferencial – tanto para gestante quanto para mãe com criança de colo – e o sujeito vai te passar na frente de todo mundo. E ninguém vai reclamar. A não ser no supermercado, onde as pessoas podem usar o caixa preferencial desde que não haja nenhuma preferência ali e, por isso, quando você chega com o seu bebê ou com a sua barrigona, muitos adoram fazer de conta que não te viram. Ah, a cara de pau… parece que é universal, não?

Rapidinhas da maternidade

Mais descobertas sobre a maternidade entre fraldas, sonecas, banhos, sorrisos, brincadeiras e tudo o mais:

  • depois dos sorrisos dormindo, vêm os sorrisos acordada, olhando no olho, diretos para você… coisa de fazer o amor aumentar de forma exponencial, quando você imaginava que nem teria como amar mais aquele serzinho ali.
  • roupinhas se perdem de um dia para outro, nessa época em que 1cm a mais ou  menos faz uma enorme diferença.
  • quando você diz que depois da mamada vai tomar um banho, ou jantar, ou ambos, isso pode querer dizer dali a 5 horas. Ou no dia seguinte.
  • aliás, é bom relativizar tudo aquilo que você concebe como um prazo sensato para qualquer coisa: quando dizem que o bebê cria um ritmo e uma rotina, isso não significa que vai acontecer no tempo que você julga plausível para tanto, mas no tempo que o bebê precisa para isso. Quer dizer: é no ritmo dele, não no seu, ok?
  • das perguntas idiotas, “você já voltou a trabalhar?” está no meu top 3 da cretinice. De onde vêm essa necessidade das pessoas de te pressionar para que você retome uma vida que já mudou e que aja como se um acontecimento de tão grandes proporções como ter um filho pudesse ser equacionado em poucos meses a ponto de você voltar ao trabalho linda, leve e solta? Parece que acreditam que voltar ao trabalho sinalizaria que o furacão já passou e que tudo, inclusive você, já está de volta no quadradinho dos rótulos em que haviam te colocado.
  • outra do meu top 3, que normalmente segue a anterior: “mas você não se entedia? não faz alguma coisa para se ocupar?” Quer dizer que eu fico em casa de pernas pro ar o dia inteiro e preciso de ocupação, né? Pergunta que vem, usualmente, de pessoas que julgam que, já que você está em casa o dia inteiro, sem trabalhar, ao menos poderia fazer uma comidinha, dar uma adiantada na faxina, passar umas roupas… se ocupar, pô! Quer dizer, por que você não faria, não está trabalhando, está cheia de tempo livre…
  • frequentemente, as perguntas cretinas são feitas por pessoas que julgam a maternidade como um calvário que cada qual tem que suportar. Quer dizer, trabalhar é um prazer, férias são um prazer, a balada é um prazer, mas ter filhos não pode ser, entende? Assim, o sujeito fica ali testando o quanto você está tão mal nessa situação quanto ele está, ou quanto ele supõe que você deveria estar. Não passa pela cabeça desses seres que, talvez, para você ser mãe possa ser uma escolha, um prazer, uma alegria e que, mesmo descabelada e cansada, você está realmente bem com isso e não queria estar em outro lugar nesse momento.
  • aliás, diga à maior parte das pessoas, em resposta ao “como andam as coisas?”, que está cansada e ouvirá um sermão culpabilizante sobre as maravilhas da maternidade. Diga que está bem, tranquila e feliz e ouvirá um discurso sobre: 1) os erros que está cometendo, 2) tudo o que você está perdendo de legal, 3) como ter filhos é uma coisa tão chata e limitante.
  • a curva de crescimento é mais importante do que a constatação de que seu bebê está bem. Nenhuma conversa com mães escapa do momento: “ela pesa quanto?”, “ganhou quantos quilos?”, “mede quanto?”. De repente, todo mundo virou pós-doutor em estatística.
  • amamentar pode dar certo. Mas é preciso muito amor e paciência. Não só com o rebento mas, especialmente, consigo mesma. O ritmo é o dele, lembra? E, provavelmente, vai demorar mais par engrenar do que o prazo que você botou na sua cabeça. Ninguém manda ser acelerada em um mundo acelerado. A criança que acabou de chegar nem sabe disso – que bom! – e vai fazer as coisas conforme puder e precisar. Quem sabe seja uma boa oportunidade para desacelerar ritmos e expectativas, não?
  • se alguém anda precisando de argumentos pró-amamentação, e não se contenta com todos aqueles que falam em prol da saúde do bebê, só tenho uma coisa a dizer: 10 quilos perdidos em menos de 3 meses. Pense nisso.
  • o que são esses homens nojentos que ficam olhando enquanto você amamenta? Pois além dos olhares de censura, como se um peito para fora fosse mais pornográfico do que as imagens de guerra, miséria e corrupção com as quais somos bombardeados cotidianamente sem o menor pudor, existe o olhar bizarro de adultos tortuosos que babam enquanto você amamenta como se fossem psicopatas. Ainda estou tentando pensar em como Freud explicaria essa.
  • Paris é uma cidade hostil para mulheres grávidas e para mães de bebês e crianças de colo. Muitas escadas, muita gente, muito perrengue, espaço zero em restaurantes, bares, cafés, metrô, ônibus… Mas os parisienses se revelam em toda sua gentileza inesperada quando você carrega um bebê. Acho que todos sabem do perrengue que todos passamos no dia-a-dia não tão cor-de-rosa da cidade luz.
  • aliás, wrap, sling e todos os meios de portagem são essenciais por aqui (ainda vou escrever uma ode a eles). Tirando todos os benefícios que trazem em termos de reconforto e segurança par ao bebê, nada mais prático para circular por essa cidade do que algo que não triplique de tamanho o espaço que você ocupa nos lugares. Franceses parecem detestar gente muito espaçosa.
  • assim como parecem detestar bebês que choram, como se fosse uma aberração da natureza. Pois é, chorar é que é esquisito, não ter um dos maiores índices de consumo de antidepressivos do mundo. Acho que os franceses choram pouco, vai ver é isso. Excesso de discrição.
  • contudo, a França possui um sistema de acompanhamento do recém nascido durante toda a sua primeira infância que é IN-VE-JÁ-VEL. Mesmo.
  • amor de mãe só aumenta. E aumenta. E quando você acha que está no cume da montanha, aumenta ainda um pouco mais.

Outras descobertas: aqui.

As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Depois da saga sobre a gravidez na França, que apresentei nesses posts aqui, começamos a descobrir como é ser mãe no país das luzes. E, como primeira impressão, poderia dizer que é fácil, só que não.

A facilidade está em que a maternidade é tão protegida quanto a gravidez, contando com assistência e serviços de qualidade. E a complicação está aí também, pois esse cuidado acolhedor chega a ser excessivamente intrusivo e contraproducente em certos momentos. Me explico.

Na França, você passa cerca de 4 ou 5 dias na maternidade, mesmo que tenha tido um parto normal e uma excelente recuperação. Eles costumam esperar que o bebê volte a ganhar peso para dar alta. E aí vem o meu primeiro senão: os franceses são obcecados com curvas de peso. Eles pesam o bebê todos os dias e, ao sair da maternidade, aconselham os pais a pesarem seus rebentos todas as semanas. Há pessoas que chegam a alugar ou comprar balanças apenas para pesar seus bebês, como se o peso fosse o único indício palpável de que vai tudo bem com o rebento. Tanto mais se você amamenta, porque daí não tem como saber mesmo o quanto o bebê mama, se é o suficiente, se ele está bem. Então alguém teve a grande idéia de tentar controlar isso por meio do ganho de peso e deu no que deu: mães enlouquecidas com bebês que ganham pouco, nenhum ou perdem peso no começo da vida e profissionais de saúde orientando precipitada e equivocadamente essas mães a darem mamadeira e leite artificial. Em um país em que a amamentação passou anos e anos em desuso, sendo até mal vista e condenada, essa pressão toda sobre mães e seus bebês acaba sendo um desserviço a ambos.

De todo modo, em termos de serviços prestados, é importante saber que:

  • ainda na maternidade, sage-femmes e enfermeiras especializadas em puericultura te acompanham e dão todas as orientações a respeito do bebê: banho, troca de fraldas, posição correta para amamentar e etc.
  • mesmo depois da alta, você pode retornar à maternidade para conversar com puericultrices e sage-femmes sobre dúvidas que tenha em relação ao cuidado com o bebê. Muitas maternidades oferecem, ainda, uma visita domiciliar de um desses profissionais, o que é bom nos primeiros dias, pois especialmente no que diz respeito à amamentação e à rotina dos cuidados, as dúvidas mesmo começam a surgir quando você chega em casa e tem que lidar com o pequeno por conta própria.
  • uma outra possibilidade é chamar uma sage-femme que trabalhe como como autônoma para esse acompanhamento domiciliar. A seguridade social cobre essas visitas e se você fez algum curso de preparação para o parto, possivelmente terá sido com uma sage-femme que atende como profissional liberal (nem todas as maternidades oferecem esses cursos in loco, elas indicam uma lista de pessoas as quais procurar). Pois então, se você fez algum acompanhamento ou curso durante a gravidez, possivelmente conhece já uma sage-femme e, se gostou do modo como ela trabalha, pode pedir que ela faça o acompanhamento domiciliar pós-parto também. Nessas visitas domiciliares, elas examinam o bebê, seus reflexos, seu estado geral, pesam e orientam quanto à amamentação e aos cuidados.
  • se as dificuldades e dúvidas foram a respeito da amamentação, além desses recursos, você pode ir às reuniões do La Leche League ou do IBCLC. Ambas as instituições têm consultoras que, além de grupos, fazem visitas domiciliares. Eu aconselho recorrer a elas caso esteja com alguma dificuldade que sage-femmes, puericultrices e pediatras não tenham conseguido sanar, o que não é difícil, visto que esses profissionais dão informações muito desencontradas e muito centradas sobre a curva de peso, o que não equivale necessariamente a um índice de saúde do bebê. No que me diz respeito, apenas as puericultrices foram atentas ao meu desejo de amamentar e me deram sugestões nesse sentido quando tivemos dificuldades.
  • você e o bebê saem da maternidade com as prescrições necessárias para cada um e a indicação de visita ao pediatra ou generalista para a consulta de um mês do bebê e a consulta de seis semanas sua ao ginecologista.
  • na França, o acompanhamento do bebê se faz uma vez por mês, com pediatra ou clínico geral especializado em atender crianças. A vantagem do segundo é que é totalmente coberto pela seguridade social, enquanto para os pediatras, apenas as consultas mensais são integralmente cobertas, todas as outras sendo apenas parcialmente reembolsadas. Na França, a cultura do médico generalista e de família é priorizada em relação à consulta com especialistas.
  • o bebê sai da maternidade com um “carnet de santé”, onde constam todos os dados dele, do parto, das consultas e intervenções que eventualmente tenha sofrido. Ali estão orientações para todos os meses e consultas, o carnê de vacinação, as curvas de crescimento onde vão anotar peso e medidas do bebê. Cada profissional com o qual seu filho consultar vai pedir esse carnê e fazer anotações nele. É o melhor jeito de centralizar informação.
  • por fim, existe um serviço na França que é a PMI – Protection Maternelle et Infantile – em que se agrupam serviços de saúde e serviços sociais. Eles dispõem de centros, divididos por região, onde você conta com atendimentos de assistentes sociais, médicos, sage-femmes e puericultrices. É um bom lugar para fazer o acompanhamento da sua gravidez, caso não tenha um médico particular no início e/ou não queira ou não possa fazer esse acompanhamento na maternidade onde pretende dar à luz. Mesmo que não tenha feito isso, ao longo da gravidez, estando inscrita na seguridade social, eles te enviarão uma carta convite para uma reunião, em que te explicam todos os procedimentos pós-nascimento, cuidados, dicas, inscrição em creche e por aí vai. Por fim, te indicam qual o centro mais próximo do seu endereço e quais os serviços e horários que oferecem para o pós-parto: consultas médicas, consultas com a sage-femme, plantão das puericultrices para tirar dúvidas… Tudo muito organizado e eficiente. O único senão é que a PMI é um dos lugares em que dirão para ir com o bebê pesá-lo uma vez por semana (!), caso você não tenha ido na onda de alugar uma balança. E, se você topa a loucura da pesagem semanal, eles vão te aporrinhar com hora marcada caso seu bebê destoe da famigerada curva de peso. Foi o que eu disse: excessos que, por vezes, estressam e oprimem ao invés de ajudar. Você iria?

Em tempo, se você está inscrita na seguridade social, desde que seu bebê é registrado (muitas maternidades têm esse serviço no próprio local, uma maravilha) você pode mandar uma cópia da certidão de nascimento e eles incluem o rebento na sua “carte vitale“. Com isso, consultas e medicamentos são custeados total ou parcialmente pelo estado, inclusive vacinas.

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil…

… ou pequeno manual de sobrevivência para quem, como eu, está vivendo essa experiência na França.
          Porque aqui é o país da burocracia, da papelada, da lentidão e dos pequenos detalhes. E, também, um país em que a gravidez e o parto são muito bem cuidados. Bem mais do que no Brasil, para aquilo que é essencial.
          Assim, eis o que tenho descoberto sobre o caminho das pedras quando se decide ter um bebê por essas bandas.
          Primeira coisa, extremamente importante, para evitar todo e qualquer mal entendido: ter um filho na França NÃO te dá o direito à cidadania francesa, nem à você, nem ao pai da criança. A menos que um de vocês seja francês, ou seja naturalizado, ou tenha a cidadania francesa, isso não muda em nada sua condição de estrangeiro em território francês e você continuará sendo um estrangeiro legal ou ilegal, sujeito a todos os trâmites que os estrangeiros devem seguir por aqui. Ou seja, ter filhos na França não é saída para resolver problemas de imigração, ok? Seu filho também NÃO será francês, a menos que ele continue vivendo na França e que, aos 18 anos, faça um pedido de reconhecimento de sua nacionalidade francesa. Que leva tempo e dá trabalho e que NÃO será estendida aos pais. É fundamental esclarecer isso antes de qualquer coisa, pois se gravidez e parto são extremamente bem cuidados por aqui, quer você seja francês ou estrangeiro, em qualquer situação que você esteja, isso vale apenas para gravidez, parto e maternidade, não para questões de cidadania. Então, sigamos em frente.
          Do ponto de vista da assistência, você pode ficar mais do que sossegada. Uma mulher grávida, na França, tem direitos que são verdadeiramente garantidos. O primeiro é de ser atendida integralmente e acompanhada durante toda a gravidez, com tudo pago pela seguridade social. Para isso, não importa se ela é francesa, estrangeira, imigrante ilegal. O que quero dizer é que, do ponto de vista francês, você está aqui, está grávida e você e seu bebê têm direito à toda a assistência. É um país civilizado. Não pense, contudo, que isso vai te garantir uma cidadania francesa e que essa seria uma boa maneira de obtê-la, pois não é assim que funciona. Mas, no que diz respeito à gravidez e ao parto, você estará em boas mãos. Desde que você esteja grávida, eles cuidam de você. Mas, isso envolve uma certa burocracia que você tem que seguir, caso queira usufruir dos privilégios de um estado de bem estar social que (ainda) funciona.
          Se você está na França legalmente, deve ter algum tipo de seguro saúde, que costuma ser exigido de quem vem passar um período no país, a trabalho ou por seus estudos. É o que se chama “mutuelle” aqui, que é a assistência complementar de saúde. Pois, além dela, aqui você tem uma cobertura da seguridade social, que é a cobertura financiada pelo Estado e que demanda uma inscrição e um número que você não necessariamente terá, como estrangeira, pois isso depende do tipo de visto com o qual entrou no país, se é algo que te permite trabalhar ou apenas estudar… e por aí vai. Normalmente, se você tem direito a trabalhar, e para que você possa fazê-lo, você já deve ter passado pela burocracia de inscrição na “sécu”. Se não, é por aí que vai ter que começar.
          Para isso, o melhor é se informar no setor de alunos ou de acolhimento aos alunos estrangeiros da sua universidade ou, uma outra opção, na Caixa de Assistência à Família, a CAF. Lá é o lugar em que eles cuidam de todos os direitos que você têm enquanto grávida. Eu sugiro que você vá a uma das unidades que existem na cidade em que está, porque conversar pessoalmente é mais fácil do que por telefone. Você pode explicar sua situação: diga como chegou aqui, por que motivo, que descobriu que está grávida, explique em que ponto está com as burocracias, se tem seguridade social, mutuelle, etc. Eles vão te orientar quanto a tudo que você tem que fazer, como e onde. E é para esse setor que você enviará, depois de passar por uma consulta no ginecologista ou na maternidade, o que eles chamam de “déclaration de grossesse“, um documento que dá início aos procedimentos que garantem essa cobertura integral da gravidez e do parto pela seguridade, bem como aos benefícios a que você terá direito ao longo da gravidez, do parto e em seguida. São eles, também, que vão depositar para você um auxílio, em dinheiro, no final da gravidez, além de um auxílio mensal depois do bebê ter nascido, que será de um valor maior, se você estiver sozinha.
          Se o pai do bebê for francês ou alguém da comunidade européia, ou alguém de fora da Europa, mas que está aqui legalmente e que já possui um número de seguridade social e de mutuelle, ele pode te ajudar com isso tudo. Sendo casados ou não, ele pode te registrar como dependente para que você tenha essas inscrições e dê conta, mais rapidamente, dessa burocracia inicial.
          Se no começo da gravidez você ainda não tiver o número da seguridade social, vai ser a mutuelle que vai pagar seus examens e consultas. À partir do quinto mês, a seguridade cobre tudo, até o parto e pós parto. Mas, para isso, você terá que enviar a “déclaration de grossesse” fornecida pelo seu médico ou pela maternidade, que vem em duas vias, uma para a CAF e outra para a seguridade. É com esse documento que eles tomam conhecimento que você existe e que está grávida e se encarregam de suas garantias.
          Mas tudo isso é burocracia e burocracia aqui é complicada e lenta. Então, você vai ter que ter paciência e persistência.
          Outra coisa importante é que, mesmo ainda não tendo o seu número da seguridade social, você já vai poder começar o acompanhamento. Funciona assim: a rede pública e a rede privada trabalham do mesmo modo, não tem luxo e frescura como no Brasil e cesariana é intervenção de urgência, ok? Então, parir aqui significa que você vai ter um parto normal. Nada de marcar cesariana com antecedência, nada de escolher a data, nada de maternidade hotel de luxo, nada de buffett ou festinha na maternidade com os amigos para comemorar o nascimento. Enfim, o essencial. Que é o cuidado com a gestante, com o bebê, com que a gravidez, o parto e o pós-parto se passem bem para ambos. Ainda, o parto será feito pelas enfermeiras obstétricas e não pelo médico, a não ser em caso de complicações, o que é muito melhor, na minha opinião, porque sinaliza uma prioridade dada a um parto menos medicalizado. Mas é bem diferente do que estamos acostumadas. E, ainda, no seu acompanhamento da gravidez, você terá contato com a equipe do local onde vai parir, mas não necessariamente com a pessoa que vai estar contigo na hora do parto, mesmo que você esteja sendo acompanhada por um ginecologista e não por uma enfermeira obstétrica – a “sage-femme” – porque o parto acontece a qualquer hora e será atendido pela equipe de plantão. O médico não estará lá na grande maioria dos casos, e nem a “sage-femme” que te recebeu ao longo das consultas. É menos personalizado e é preciso se acostumar com essa não criação de laços ou de intimidade, o que é tão comum e reconfortante no nosso jeito brasileiro de cuidar da maternidade e do parto. E, certamente, uma das coisas que mais faz falta por aqui, a meu ver.
          Bom, aqui será bem diferente daí, não dá para esperar a mesma coisa. Mas, isso posto, posso dizer que para tudo o que é realmente importante, tenho achado realmente bem melhor do que no Brasil.
          Para começar seu acompanhamento, você vai a um ginecologista aqui. Ou diretamente à maternidade, se já tiver escolhido uma. Ou a um médico que atenda na maternidade em que você pretende dar à luz, se já tiver uma preferência por algum local. Normalmente, nas maternidades eles fornecem uma lista de ginecologistas com os quais trabalham para que você escolha um e marque uma primeira consulta. Isso quando são os médicos que fazem o acompanhamento. Se forem as enfermeiras, eles te indicarão uma que possa te acompanhar.
           Em tempo: uma enfermeira obstétrica, a “sage-femme”, é alguém que tem uma formação médica, que pode perfeitamente te examinar, prescrever medicamentos ou exames, te dar orientações e indicações, enfim, pode fazer todo o acompanhamento de uma gravidez como um médico faria. É algo que não existe no Brasil, mas que aqui é totalmente comum.
          Médico ou “sage-femme”, ele faz para você os primeiras exames, pede os primeiros exames, te dá as primeiras orientações e uma declaração de gravidez, que é o papel que você vai levar na CAF e na sua mutuelle, para eles cobrirem suas despesas. No caso desse primeiro contato ser através da escolha de um médico, não de uma maternidade, ele vai te dizer, também, para você procurar uma desde o começo, especialmente se estiver em Paris, para dar seguimento ao acompanhamento. Porque é na maternidade que o seguimento da gravidez acontece, para a grande maioria das consultas, dos exames e, ainda, dos workshops de informação sobre gravidez, parto e outras atividades que eles costumam propor. E, ainda, porque encontrar vaga em uma maternidade, ao menos em Paris, não é muito fácil. Há que se fazer uma lista de opções segundo os critérios do que julgar importante, ligar, ir até lá, fazer uma inscrição e esperar que eles te digam se há vagas ou não. Enquanto você não estiver inscrita, seu ginéco vai continuar com as consultas e pedindo os exames. Você vai pagar e a mutuelle vai te reembolsar depois.
          Escolhendo sua maternidade, por critério de proximidade com onde você vai morar, para não ter que atravessar a cidade na hora do parto… ou por critérios do tipo de serviço que oferecem, se são mais abertos a um parto natural ou mais medicalizadores, se são maternidades que acompanham apenas uma gravidez sem risco ou maternidades ligadas a grandes hospitais para gravidez de risco, você deve ir lá fazer sua inscrição. Depois de inscrita, vão te enviar à tesouraria da maternidade, onde você deverá apresentar seus números da seguridade e da mutuelle. Não se preocupe se ainda não tiver o número da seguridade. Eles não vão deixar de te atender por isso, vão apenas te dizer que traga assim que receber. Isso é importante, eles NUNCA vão te negar assistência, não podem, é lei aqui. Esse é também um bom momento para, caso você esteja tendo dificuldades com obter esse número, dizer a eles na maternidade. Eles podem te encaminhar ao serviço social, que vai te orientar e ajudar a fazer os pedidos e enviar a papelada.
          Por fim, depois de inscrita, seu acompanhamento passa a ser todo na maternidade. As consultas com a “sage-femme”, boa parte dos exames, fora o ultrasom. Eles também vão te propor um curso para grávidas – a “préparation à la naissance” – com várias informações, orientações e afins, tanto no que diz respeito à gravidez quanto ao parto, à amamentação, ao pós-parto… Existem lugares que oferecem curso com nutricionista, yoga e outras coisas. Tudo é bem bom, bem sério e te ajuda não apenas a tirar muitas dúvidas como, também, a ter momentos de troca com a equipe do serviço em que é atendida e com outras grávidas, o que é sempre divertido, ainda mais quando se é uma expatriada.
          Bom, tudo isso é, espero, tão reconfortante para vocês quanto tem sido para mim. A parte ruim é a burocracia e, além disso, o fato de que ninguém vai ficar te mimando por estar grávida. Aqui, as pessoas vêem a gravidez como algo normal, não fazem um circo em torno disso. Além disso, o francês é um povo bem reservado e mais frio do que a gente, o que significa que, na maternidade, nas consultas, nos exames, em todas essas situações do seu cotidiano de grávida, ninguém vai ficar te paparicando, nem sendo fofo contigo. Eles serão corretos, profissionais, gentis, educados, mas não calorosos. Está bom para você?
          Continuação desta discussão: aqui e aqui.