Gravidez na França… ainda

Ao longo da minha primeira gravidez, escrevi uma série de posts sobre como é estar grávida na França, abordando minhas descobertas dos meandros mais banais dessa experiência. De lá para cá, posso dizer que nada mudou em termos objetivos e práticos. Mas minha visão tornou-se muito mais crítica de como as coisas se dão por aqui. Então vamos a uma nova série das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil. Porque tem gente que pensa que é só luxo, poder e glamour pelas ruas de Paris. E que até cogita vir para cá parir seu rebentinho em terras charmosas do Velho Continente. Então, antes de fazer as malas, leve em conta o que se segue, tá?

Não entendo muito bem o porquê, mas parece existir algo da mentalidade francesa que tem a ver com uma irresistível atração por navegar contra a corrente. Basta algo de interessante existir noutro lugar que não na França para que se encontre a maior resistência em experimentá-lo por essas bandas. Como se os franceses tivessem que ser os inventores de tudo o que é bom, correto e digno de consideração nesse mundo. Naquilo que diz respeito à maternidade em geral, não é diferente. E é onde enxergo essa espécie de teimosia arrogante com mais força. Chega a ser exasperante conversar com a grande maioria dos franceses e, mais ainda, com os profissionais de saúde daqui sobre o assunto, tamanha é a recusa em se abrir para pensar e tamanhas são as certezas baseadas em clichês, em estereótipos e em informações ultrapassadas e questionáveis. Afffff, que fastio!

Senão vejamos. As recomendações da OMS para gravidez, parto, amamentação? Eles praticamente riem da sua cara. O que vale não é o que uma organização internacional de saúde propõe a partir de dados científicos recolhidos da maneira mais isenta possível e sempre atualizados. O que vale é o que propõem as instituições francesas, os conselhos de medicina, de ginecologia, de obstetrícia, de pediatria daqui. Patrocinados, claro, pela indústria farmacêutica, pela indústria de alimentos para a primeira infância e por outros atores poderosos dessa lógica que transforma saúde em mercado. O que vale é o que essas instituições dizem e não se vê quase nenhum questionamento sobre os interesses por trás daquilo que dizem.

Não interessa por aqui que todos os vizinhos da França que possuem índices melhores de todos os indicadores de saúde ligados à gravidez, parto, puerpério e amamentação tenham em comum algumas diretrizes como favorecer parto natural humanizado, diminuir drasticamente as intervenções durante o parto, diminuir drasticamente a medicalização da gravidez, o número de exames, o uso de ultrassom, favorecer parto domiciliar, desaconselhar ou abolir episiotomia, incentivar formas alternativas de controle da dor, privilegiar o parto com equipe paramedical, favorecer e incentivar a amamentação, desaconselhar o uso de mamadeira ou chupeta ou a prescrição de complemento por parte dos pediatras… Enfim, tudo isso que encontramos como pontos comuns no que diz respeito à maneira de acompanhar gravidez, parto e puerpério em países como o Reino Unido, a Holanda, a Suíça e a Alemanha são menosprezados pelos franceses. Por que eles saberiam mais ou fariam melhor do que nós, não? Doulas na França? Sim, se você fizer um parto domiciliar. Em meio hospitalar, é praticamente impossível, pois elas são consideradas as “inimigas n° 1” das enfermeiras obstétricas.

Como consequência, temos um país em que o incentivo ao parto normal não significa a favorização de um parto humanizado. Gravidez e parto são momentos extremamente medicalizados na França, cheios de intervenções, de mandos e desmandos sobre o corpo das mulheres e de muita violência obstétrica. Sim, por incrível que pareça, num país em que se diz respeitar muito o direito das mulheres, a violência obstétrica é assunto tabu, pouco nomeado e apenas recentemente tornado assunto de discussão e pesquisa, ainda bastante vinculado ao tema mais amplo da violência ginecológica, que pode acontecer ligada ou não às situações de gravidez e parto.

Nascer por aqui é nascer em meio hospitalar, com anestesia, em posição ginecológica, tendo pouco ou nenhum espaço para opinar sobre o que quer que seja. As sage-femmes (enfermeiras obstétricas) infelizmente adotam em sua maioria a postura intervencionista e ultramedicalizante do médico, optando por impor um mesmo esquema para toda e qualquer gestante, independente da sua singularidade. Justificativa? Nas grandes cidades e nos grandes centros hospitalares vocês atrapalha o andamento do trabalho quando quer “fazer diferente”. Ou, dito de outro modo: gravidez e parto devem desenrolar-se segundo o que facilita a vida de médicos, enfermeiras obstétricas e equipes, não segundo o que mãe e bebê precisam, podem ou gostariam. Você quer algo diferente? Prepare-se para o percurso do combatente.

Ainda que o parto humanizado tenha algum eco por aqui, encontrar opções de serviços um pouco mais abertos a um acompanhamento mais respeitoso e humano não é tarefa fácil. É necessário encontrar uma maternidade que tenha a opção de um parto humanizado. E elas são minoria. Existem um projeto de casas de parto que foi recentemente aprovado na França e alguns espaços-piloto que começam a funcionar. Mas, como no caso do parto domiciliar, as exigências são enormes e quase impeditivas para que a coisa avance no ritmo da necessidade e da demanda de um grupo crescente de mulheres.

Pior ainda, mesmo que o parto domiciliar exista e seja assegurado como direito das mulheres, tudo é feito para inviabilizar cada vez mais essa opção e para que ela deixe de existir. Para se ter uma idéia, as enfermeiras obstétricas que trabalham com parto domiciliar precisam, desde o começo dos anos 2000, pagar um seguro de um valor tão astronômico e desproporcional ao que elas ganham que muitas se vêem impedidas de continuar a exercer suas atividades por razões financeiras. Além disso, o que certamente acontece, do mesmo modo que em meio hospitalar, e a diferença estatisticamente nem é tão significativa e favorece o parto em casa – o que vemos é uma mídia que se inflama, processos que surgem, profissionais que são sumariamente condenadas a não mais exercerem sua profissão e todo um grupo de profissionais de saúde que quer o fim do parto domiciliar comemorando alegremente a extinção daquilo que eles dizem abertamente ser uma “aberração”, tendo em vista que temos tanta tecnologia hoje em dia para acompanhar, controlar e remediar qualquer imprevisto. Na França, contra todas as reflexões de ponta sobre o assunto e nadando ainda arrogantemente contra a maré, chegamos ao ápice da idéia de que gravidez e parto são territórios das intervenções médicas necessárias para controlar e corrigir um acontecimento que, deixado à própria sorte, só pode terminar mal. Como é que a humanidade sobreviveu até o surgimento da medicina e até o nascimento ter se tornado uma intercorrência médica, não? On se demande bien.

Não me parece que essas intervenções e usos tecnológicos tenham melhorado tanto assim os índices de intercorrências durante gravidez e parto aqui na França, assim como em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, a partir de um certo ponto, eles não funcionam mais para ajudar a diminuir intercorrências, nem mesmo a mortalidade materna ou infantil, como se têm visto no resultado de muitas pesquisas mundo afora. Servem justamente ao seu contrário. Veja essa pesquisa, por exemplo, em que o autor afirma textualmente que a mudança do local de nascimento para os hospitais e maternidades não o tornou mais seguro para mulheres que não apresentassem nenhuma condição médica pré-existente justificando tal indicação. Pelo contrário, diz o autor, as intervenções e a ênfase na tecnologia aumentaram consideravelmente o risco de intercorrências, inclusive de morte materna e neonatal.

Mas, quem é que vai processar o doutor que precisou extrair o bebê à fórceps de uma mulher que estava naquela posição ginecológica super apropriada para que um bebê que tem que descer precise fazer uma curva para cima na reta final, sendo obrigada a um puxo dirigido a cada vez que lhe diziam para fazê-lo, mesmo antes do bebê ter descido totalmente e os puxos espontâneos terem começado, não? Quem vai questionar o doutor? Ele salvou a pátria, o bebê não descia, não encaixava, ela é que era muito estreita, imagina se ele não estivesse lá. Ainda bem que essa mulher estava ali no hospital, hein? Que o bebê nasça mal e possa ter sequelas, que a mulher fique lacerada e traumatizada com a violência do parto, tudo isso parece uma consequência aceitável de algo que foi feito única e exclusivamente no melhor interesse de ambos. Ou não?

Pois então, se você engravidar na França e decidir ter o seu bebê aqui, posso te dizer com bastante segurança que há uma grande probabilidade de que seu acompanhamento da gravidez seja hipermedicalizado, que você se veja inserida em um esquema de muitos exames e que o seu parto – normal – seja cheio de intervenções. Uma decepção, sobretudo em um país que tem todas as condições de oferecer bem mais e bem melhor do que isso.

Segue abaixo uma lista não-exaustiva de links, sites e grupos para quem quiser se aventurar pelo maravilhoso mundo da “maternidade alternativa” na França:

  • Lista de sage-femmes (enfermeiras obstétricas) que ainda fazem parto domiciliar ou parto naquilo que chamam plateau technique, o que significa parto em meio hospitalar mas em condições humanizadas: aqui.
  • Recomendações da OMS para gravidez, parto puerpério e amamentação, em francês: aqui.
  • Grupos de apoio ao parto domiciliar na França: aqui, aqui e aqui.
  • Doulas de France: aqui.
  • Carta de direitos da pessoa hospitalizada na França, que garante seus direitos à informação, à decisão e à recusa de procedimentos: aqui.
  • Sinopse do recente documentário Entre leurs mains, que discute justamente essa hipermedicalização dos nascimentos na França e a caça às bruxas realizada contra o parto domiciliar: aqui
  • AFAR – Alliance francophone pour l’accouchement respecté: site aqui.

Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil parte III

Para quem não acompanhou essa saga, já escrevi um pouco a respeito da gravidez e do parto na França nesse post aqui e nesse aqui. Tem um passo-a-passo das burocracias para ter acesso ao acompanhamento médico durante esse período, mesmo sendo estrangeira, além de um bocado de considerações sobre como esse acompanhamento aqui, onde se privilegia o parto normal é, não obstante, extremamente medicalizado e baseado na idéia de risco. Não se trata de um guia exaustivo, mas do que tenho descoberto na prática sobre esse acompanhamento e que, talvez, possa ser útil a outras pessoas que também estão grávidas e tendo seus bebês por aqui.

Onde ter informação?

O que constatei ser o mais difícil, na França, é o acesso à informação. Como é tudo muito burocrático e cheio de meandros, você leva um bom tempo até entender como funcionam as coisas. Mas, uma vez conseguindo ingressar no sistema de seguridade social francês, como eu havia explicado aqui, a coisa melhora e muito. E você pode constatar que o acompanhamento à gravidez e ao parto aqui é bem cuidadoso, bem completo. Mesmo pendendo e muito para um excesso médico, o fato é que eles se ocupam bem das mulheres grávidas e dos nascimentos. Quero dizer, em comparação com o Brasil, eles se ocupam efetivamente de gestação e parto de forma universal e irrestrita, como questões de saúde pública e de dever do Estado. Tudo o que, infelizmente, a gente sabe que em nosso país se promete e não se cumpre. Bom, aqui a coisa funciona. Então, segue mais uma lista de observações que tenho feito a respeito.

O site da seguridade social tem muitas informações sobre gravidez, o acompanhamento, os procedimentos a seguir, os benefícios. Em caso de dúvida, é sempre uma boa referência: aqui. Também para o acompanhamento que eles oferecem, por meio de visita domiciliar no pós-parto, as informações estão aqui.

Outra boa fonte de informação são os inúmeros libretos que eles te fornecem em vários momentos ao longo da gravidez: quando você se inscreve na caixa de auxílio à família, a CAF, que é quem paga os benefícios aos quais as mães têm direito, você recebe um material informativo sobre procedimentos burocráticos e sobre a gestação; quando você se inscreve em uma maternidade, normalmente te entregam um material de leitura, digamos, oficial, onde explicam muitas coisas a respeito da gravidez, do parto, das mudanças, dos exames, do acompanhamento médico, dos cuidados com a alimentação, das medidas administrativas a serem tomadas. Isso pelo sistema público, pois no sistema privado também te entregam todo esse material, mas ele é um pouco diferente, mais cheio de firula, de propaganda e afins.

Essas espécies de cartilhas são interessantes, eu devo ter ao menos umas três diferentes, porque a enfermeira obstetriz que me acompanha e que trabalha como autônoma também me forneceu uma pasta de material informativo. Li todos. E constatei que têm coisas bem úteis no meio de muita coisa inútil. Mas que seria bem bom se no Brasil a gente tivesse algo do tipo, um ponto de partida para compilar todas as informações das quais você vai precisar em algum momento e que fosse dado a você na sua gravidez, para que você saiba onde e como procurar o que necessita. É como se você estivesse frente a um desses livros mais clássicos sobre gravidez e parto: não vai ter nada que fuja muito ao padrão e as informações sempre vão tender para uma ênfase bastante médica. Mas, com um pouco de discernimento, é possível aproveitar justamente para entender melhor aquilo que eles explicam sobre os procedimentos a seguir aqui na França. E algumas dicas e informações são boas e úteis. Então, dê uma olhada nesse material que receber da CAF, na maternidade ou no acompanhamento com as “sage-femmes”, tem coisa bem aproveitável no meio de um monte de publicidade de loja, de leite em pó e de todo o comércio que circunda a maternidade. Porque, claro, não vamos nos iludir, essas cartilhas e esses materiais são organizados pelo serviço público, mas eles tem patrocínio e apoio do setor privado. E apoio significa publicidade, o que significa que você recebe um quilo de papel de onde tira uma ou outra coisa que vão realmente te informar e te ajudar em algo. E mais um monte de amostra grátis de tudo o que você pode imaginar e até do que não pode. E mais uma tonelada de cupões de desconto para comprar um monte de coisas, na sua maioria inúteis. Mas toda essa papelada você pode jogar na lixeira da reciclagem. E aproveitar as boas informações.

Bom, estando garantida a informação mínima para você saber onde ir, como proceder, quem procurar, como fazer… e estando garantido o seu acompanhamento e o pagamento desse acompanhamento pela seguridade social, tudo caminha forma bem prática e eficaz. As consultas são reembolsadas, consultas, atendimentos, medicamentos e tudo o que se relaciona à gravidez passam a ter cobertura completa à partir do 5° ou 6° mês, você apresenta sua carteirinha e não coloca mais a mão no bolso… enfim, tudo corre muito bem. É realmente de se espantar, dadas as referências que temos. Penso que é o real significado da palavra assistência, ou da palavra acompanhamento: você está acompanhada. E ponto. Não precisa se preocupar em ter que garantir o que é seu direito. Isso é algo muito estranho para uma brasileira, vocês nem imaginam.

Mas, e se você for como eu que, além de um atendimento de qualidade, estiver em busca de um atendimento mais humano para a sua gestação e o seu parto?

Onde ter alternativas?

Bom, isso são outros quinhentos. E nada, nada simples. Como eu disse, aqui o acompanhamento é extremamente centralizado na idéia de que gravidez e parto são situações de risco que devem ser cuidadas enquanto tal. Muitos exames, muitas despistagens, muita medicalização da saúde, como é de praxe em boa parte do mundo. O parto normal é a norma, mas isso não significa que ele seja isento de muitas e muitas intervenções que estão cristalizadas, mas que não são exatamente necessárias, como o uso majoritário de peridural, o constrangimento de parir na posição ginecológica, o monitoramento ininterrupto do bebê e da mãe… E, para fazer frente a isso, a melhor opção é escolher muito bem a maternidade na qual pretende dar à luz.

Em Paris, a única (veja bem, eu disse única mesmo) maternidade que propõe um parto dito fisiológico, ou seja, mais humano e respeitoso do ritmo e do protagonismo da mãe e do bebê é a Maternidade “Les Bluets”. E ela esteve ameaçada recentemente de intervenção, justamente por isso, porque a qualidade dos serviços que ela oferece, a ideologia de um parto humanizado na qual se baseia, a oferta de diversos serviços, dos ateliers, dos grupos de discussão, de informação, das diferenças de acompanhamento e tudo o mais custam caro e rendem pouco. E até aqui na França a saúde fica constantemente assombrada pela questão econômica do lucro, ou de minimizar os gastos e os prejuízos. Então, a coisa é tensa, como é possível constatar nessa matéria recente. Tenho uma amiga grávida que é acompanhada lá e conheço outras pessoas que tiveram seus filhos lá e que falam muito bem dessas opções de acompanhamento ao longo da gravidez e de um parto respeitoso. Um alento.

Essa é a única maternidade que tem o selo “amiga dos bebês” em Paris, uma iniciativa francesa para incentivar e reconhecer os estabelecimentos de saúde que promovem não apenas o aleitamento materno, quanto também o respeito ao parto humanizado, ao ritmo e ao protagonismo mãe-bebê. Existem outras 17 pela França, você pode consultar aqui. São boas referências. Mas a fila de espera, na Bluets por exemplo, é imensa. Então, nem sempre você consegue garantir pela inscrição na maternidade a certeza de um parto humanizado.

E fora essas, há alternativas? Bom, pelo que pude pesquisar, o parto domiciliar é algo raríssimo, alvo de muitas críticas e ataques violentos, a ponto de as enfermeiras obstetrizes que o fazem, as sage-femmes, terem praticamente desaparecido do mapa. Veja matéria aqui. Como as sage-femmes trabalham vinculadas a um departamento, a uma região, por vezes tem lugares que ainda contam com essa possibilidade e outros não mais. É preciso procurar muito, correr muito atrás em fóruns e no boca-a-boca com outras mães. A França está na contramão de seus vizinhos, para os quais o parto domiciliar é o mais incentivado, o mais simples, menos custoso e garantido para todas as mulheres que queiram e possam tê-lo. Aqui, o melhor é começar a procurar muito cedo, no começo da gravidez se essa for sua opção. Algumas informações: aqui.

Outra possibilidade é dar sorte em encontrar as pessoas “certas”. E forçar a sorte um pouquinho também. Nas maternidades e hospitais que cuidam da gravidez e do parto por aqui, são as “sage-femmes” que acompanham toda a sua gestação, examinam, pedem os exames. Você raramente vê o médico. E também não o verá no dia do parto, a menos que algo fora do usual aconteça. E esse modo de acompanhamento é justamente o que pode contar a seu favor. Pois as enfermeiras obstetrizes francesas, as “sage-femmes”, têm formação médica mas, ao mesmo tempo, podem trabalhar como autônomas, podem cuidar de vários aspectos da gravidez e do parto. E, com isso, elas fazem várias especializações interessantes: algumas trabalham com acupuntura, homeopatia, sofrologia (que são exercícios de respiração e relaxamento), yoga e por aí vai. Já encontrei uma porção delas, porque o acompanhamento é feito de forma bem impessoal na maior parte dos serviços e posso dizer que já vi de tudo um pouco, de gente bem rígida que não topa sair do padrão a gente que não presta atenção em você e apenas segue um protocolo apressado a gente bem humana e aberta à escutar, capaz de sanar muitas dúvidas e de te tranquilizar frente a várias situações. Mas, no geral, percebo uma abertura maior por parte das “sage-femmes” para um respeito ao parto natural. E, como elas é que te recebem e te acompanham no dia do parto, a sorte está lançada de você cair nas mãos de alguém mais humana e cuidadosa.

Mas não é apenas sorte. Aqui, você pode escrever um projeto de nascimento, um projeto de parto e entregar no dia para a equipe que vai te atender, ao chegar na maternidade. Você tem o direito de escrever uma espécie de carta dizendo como gostaria de viver o seu parto. E, ao mesmo tempo, quando você chega na maternidade, você pode entregar esse documento que fica arquivado no seu prontuário, e comunicar à equipe o que tem ali (para o caso de eles não terem tempo de ler, o que é possível, pois estamos falando de estruturas grandes, que fazem 2000, 3000 partos por mês). Pelo que tenho entendido, as equipes são bem sensíveis a esse plano de parto e costumam tentar respeitá-lo. No que diz respeito à peridural, por exemplo, eles sempre acatam quando você diz que não quer tomar. Para a episiotomia pode haver um pouco mais de resistência, mas os índices são baixos por aqui e você tem como decidir. Você tem como insistir na sua decisão. Na maior parte dos casos que tenho ouvido, o mais difícil é a decisão de parir em outra posição que não a ginecológica. As intervenções e exames que se seguem com o bebê recém-nascido também parecem meio inquestionáveis. Mas isso é especialmente rígido nos locais onde o médico obstetra aparece apenas nesse momento para dar um oi e cobrar pelo procedimento. Ah, e se você quiser a peridural vai ter o monitoramento permanente e vai ficar na posição do frango assado, sem poder se mexer e encontrar opções confortáveis. Uma coisa vai se associando à outra, numa bola de neve de caminhos pré-estabelecidos. Por outro lado, a possibilidade do corpo-a-corpo e de amamentar logo após o nascimento também são mais respeitadas.  É preciso insistir nisso.

Tem “sage-femme” que não quer fazer nada de diferente porque atrapalha o esquema de trabalho dela. Como se um parto tivesse que ser calcado nisso, no que é mais prático para o médico, para a enfermeira obstétrica e para a equipe e não no que é melhor para a mãe. Ou seja, terão pessoas que vão resistir mais do que outras. Por isso é sempre bom pesquisar bastante, especialmente nos fóruns, as opiniões e experiências das mães em cada maternidade. Você logo percebe que esses relatos dão boas dicas sobre as posições das instituições quanto ao que você pode vir a pedir ou não. Mesmo não sendo posições formalizadas, elas existem. E aparecem no modo como as pessoas contam os partos e como as equipes cuidaram delas. Melhor ler nas entrelinhas. E levar seu plano de parto. E fazer questão de entregá-lo, insistir nisso. Enfim, tudo questão de negociação e conversa. E de ter um certo tato na conversa para não criar hostilidade. Até porque, no dia do parto não vai dar para ficar brigando, né? Dicas para projetos de parto bem escritos e que serão considerados: aqui.

E o que fazer com a mentalidade francesa frente à gravidez e ao parto?

Olha, é um belo de um paradoxo.

As francesas são totalmente adeptas do parto normal, mas totalmente avessas à idéia da dor do parto. Os índices de anestesia são altíssimos por aqui em todas as instituições. Muita peridural com tudo aquilo que ela acarreta em termos de intervenções posteriores. E nos cursos de preparação ao nascimento, isso é sempre abordado como uma evidência, a de que você não vai querer sentir dor e vai tomar uma anestesia. Eu falei disso aqui e aqui. Não sei até que ponto essa posição é uma consequência desse feminismo que às vezes se excede ao confundir o direito da mulher a gerir seu corpo de modo a não sentir dor, não sofrer, evitar qualquer experiência que lhe seja violenta e até não conceber com uma idéia – que é bem machista, por sinal – de que parto é sofrimento e que esse sofrimento pode e deve ser evitado pela renúncia que a mulher faça de sua participação ativa nesse momento. Ou se é justamente uma apropriação perversa que esse poder médico de controle e gerenciamento dos corpos fez dessa reivindicação feminista para fazer valer sua própria agenda. Trocar o protagonismo da mulher pela supressão da dor. E a mulherada caiu nessa sem pensar muito a respeito, sem muito senso crítico, de um modo quase ingênuo. E as francesas estão bem convictas de que isso é uma boa troca e não se colocam muitas questões a respeito. Portanto, quando você fala de parto sem anestesia, as pessoas ficam tentando te convencer que você não precisa sofrer, que não precisa sentir dor e de que isso é bom. Sem nunca falar da quantidade de intervenções médicas que virão como consequência disso, como o uso da ocitocina, todo o tipo de aceleramento artificial do parto, as posições obrigatórias e até a episiotomia. Enfim, é uma escolha de cada mulher, mas aqui isso é pouco questionado.

Outro paradoxo curioso e que revela a influência dessa medicalização forte e dessa falta de questionamento frente às condutas generalizadas para gravidez e parto aqui na França é a questão da amamentação. A grande maioria das mulheres não amamenta por opção. E isso também lhes parece o exercício de um direito sobre seus corpos. E é colocado como um direito, como uma opção, como algo que elas podem e devem decidir, mas sem muita ênfase na importância ou na diferença que isso faz para o bebê. Existe uma insistência grande para que as maternidades, os cursos de preparação para o nascimento e todos os livros e cartilhas falem da amamentação. Uma insistência em mudar um pouco dessa mentalidade que parece tão arraigada. Nos grupos dos quais fiz parte, a grande maioria das mães queria saber sobre mamadeiras, leite em pó, horários das mamadas e afins. No curso de aleitamento materno havia apenas eu e mais uma outra mãe. Me deu uma tristeza enorme. E isso também ninguém questiona. Sob pretexto da volta ao trabalho ou de não se sentir confortável, sob a desculpa da carreira, da autonomia, da deformação dos seios (oi?) ou até sob o argumento de que é um ato egoísta, porque o pai, os avós, toda a família quer ter esse contato privilegiado com o bebê  e que é um absurdo a mãe querer manter essa exclusividade (oi?)… a grande maioria das mulheres aqui não amamenta, não quer amamentar ou concebe fazê-lo apenas por um período o mais breve possível e por desencargo de consciência.

Enfim, como vocês podem ver, estamos muito longe de uma situação confortável e cuidadosa no que diz respeito à maternidade na França. Mas, isso é inegável, estamos há anos luz do Brasil em alguns pontos desse percurso.

 

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil – parte II

Diálogo de uns dias atrás, durante uma das sessões de preparação para o parto com a enfermeira-obstetra:

– Vamos falar do trabalho de parto hoje. É o momento mais medicalizado do parto. Vocês sabem me dizer por quê? Porque vocês vão tomar a peridural.

– E quem não pretende tomar peridural?

Olhares estranhos de todas as barrigudas na sala.

– Bem, 90% dos partos são feitos com analgesia peridural. E para nós, é bem complicado quando tem que fazer algo diferente. Então, provavelmente, vão te dar um soro e te colocar no monitoramento como todo mundo. E você vai ter menos mobilidade, ainda que possa se movimentar, o que não acontece com quem toma a peridural. Mas, para nós, é complicado ter que te tirar do monitoramento e te colocar novamente, a cada hora.

Silêncio.

– Então, vou falar de como acontece esse momento do trabalho de parto sob peridural, ok?

Ok, a França é bem mais respeitosa no que diz respeito ao parto do que o Brasil. Parto normal, aqui, é normal e cesariana nem é considerada como parto, mas como intervenção de urgência. E, no tal curso, eles até explicam o que pode levar a uma cesariana e são apenas dois ou três motivos. Bebê nasce sentado? Nasce por parto normal. Bebê nasce enrolado no cordão? Nasce por parto normal e eles desenrolam. Bebê, aqui, nasce. O que não quer dizer que a medicalização não passou por aqui e não normatizou algo que em nada seria patológico. Muito pelo contrário: a França é um país extremamente medicalizado e patologizante.

Essa história de patologização das subjetividades é bem antiga. Não começou com o novo DSM-V que tanta gente, com razão, está gritando que nos fez acordar todos doentes mentais (tem um texto ótimo a respeito aqui e outro aqui). Lamento, mas já acordamos doentes mentais há bem mais tempo do que isso e pouca gente havia se dado conta. Tristeza e luto tornaram-se depressão praticamente desde o momento em que os manuais psiquiátricos inventaram o conceito. Porque o que existia antes era melancolia. É muito interessante acompanhar a evolução dos diagnósticos nos manuais de psicopatologia, ver como eles foram se subdividindo, se multiplicando, se especializando até chegar às raias do detalhe, contemplando cada vez mais e mais campos da subjetividade humana. Até chegar em nossos dias, em que tudo é patologia, tudo é doença, tudo foge à regra. E o que se deve fazer com o que desvia? Endireitar, colocar nos trilhos, normalizar, adaptar. Medicalizar. Para quem se interessa pelo assunto, a melhor referência é o bom e velho Michel Foucault, que mostra magistralmente que isso começou há pelo menos 200 anos atrás, quando a loucura foi a primeira tonalidade subjetiva a se transformar em doença, abrindo espaço para tudo o que seria patologizado depois dela. Além disso, ele ajuda a entender como transformar pessoas em doentes mentais não é algo inofensivo, mas algo que serve a uma certa idéia de norma, a um certo modo de conceber normal e patológico que está – e sempre estará – a serviço de um jogo de poder. Nesse caso, o biopoder, o poder de transformar pessoas em organismos, em meros pedaços de carne dos quais podemos dispor como coisas, para melhor controlá-los. Foucault nunca foi tão atual, infelizmente.

Voltando à França.

Claro que a França, país em que existe um sistema de saúde público, universal e que funciona, não teria como escapar incólume àquilo que oferece a seus cidadãos. E existe uma maneira de pensar saúde e doença aqui – como em todos os países – que orienta suas políticas públicas e o que se oferece como assistência. E o que se oferece como assistência em saúde na França passa por uma concepção de doença bastante patologizante e normalizadora. Basta dizer que este é um dos países com um dos maiores índices de depressão no mundo e, consequentemente, um dos maiores consumidores de medicamentos antidepressivos também. Um modo de pensar o ser humano como doente, uma conduta medicalizadora desse ser humano. Não tem crise na indústria farmacêutica aqui.

E o que isso tem a ver com gravidez e parto?

Tem a ver na medida em que gravidez e parto, aqui, estão sob a jurisdição da medicina tanto quanto no Brasil. Se existe uma diferença significativa e importante na concepção dos franceses de que parto é por via vaginal, isso infelizmente não caminha junto com uma postura menos medicalizada e patologizante desse momento. O corpo da mulher ainda é capaz de parir por aqui – não é o corpo totalmente incapacitado das brasileiras que precisam ser ajudadas integralmente naquilo que se assume que elas não sabem fazer. Mas esse corpo capaz de parir é, segundo as concepções, os protocolos e as condutas de médicos e enfermeiras obstetrizes francesas em sua grande maioria, um corpo imperfeito, meio defeituoso, que precisa ser controlado em permanência durante a gravidez e auxiliado no momento do parto.

Se não, vejamos:

– exames constantes desde a constatação da gravidez buscam averiguar se seu corpo funciona bem: doenças, disfunções, irregularidades, tudo é monitorado em permanência a cada consulta, quer você seja acompanhada por uma enfermeira obstetriz – o mais comum – quer por um médico obstetra. A idéia de um perigo permanente de que algo esteja errado contigo ou com o bebê te assombra, na medida em que a ênfase das consultas é colocada exatamente em avaliar riscos, medi-los, controlá-los. Acompanhar uma gravidez, aqui na França, parece ser concebido como manejar uma ameaça constante, à qual apenas a tecnologia médica teria condições de fazer frente.

– a preparação pré-natal, que poderia ser uma alternativa a essas consultas extremamente direcionadas aos riscos de uma gravidez que pouquíssimas vezes é, de fato, arriscada, parece cair no mesmo discurso medicalizante e patologizante da insuficiência do corpo feminino em ligar com uma gestação e um parto. Esse curso, feito com uma enfermeira obstétrica da maternidade em que você está inscrita ou de forma independente, teria por objetivo explicar às gestantes o que acontece durante o trabalho de parto, o parto, o pós-parto, o aleitamento e por aí vai. Informação, oportunidade de encontrar outras grávidas, discutir, esclarecer dúvidas, descobrir possibilidades… Não é bem assim. Como mostra o diálogo do começo deste post, o que impera é aquilo que é melhor para nós. E, nesse caso, nós não somos as mães, nem nossos bebês. Nós são os funcionários de um sistema de saúde na maior parte das vezes superlotado, em que maternidades usinas devem seguir os protocolos e trazer ao mundo uma quantidade imensa de bebês do jeito que for mais prático para eles. E onde a diferença e a singularidade de cada mãe, de cada bebê, de cada parto atrapalham e devem ser uniformizadas.

Então, falemos de peridural e de todas as intervenções médicas que parecem evidentes e que ninguém coloca em questão, mesmo aqui na França. Onde o sistema de seguridade social paga por tudo isso: por seu acompanhamento, por seu parto, por sua preparação… E  ainda te ajuda nas despesas com gravidez e filhos. Desde que você não saia dos trilhos. Desde que você se encaixe docilmente naquilo que eles concebem como sendo gestar, parir ou criar filhos. Uma normalização perversa, na medida em que é aliada à questão de quem paga a conta, criando ainda mais um motivo – econômico – para você se enquadrar. Não é apenas questão de que o médico sabe mais, de que seu corpo é falho, de que você precisa de ajuda naquilo que não sabe fazer sozinha, de que existem riscos, de que existe dor, de que algo pode dar errado. É também questão de dinheiro. E o dinheiro só sai se você se portar bem.

A França é um país excelente. Isso se você se adaptar aos protocolos deles. E não fizer muitas perguntas que te façam parecer absurda. A não ser que esteja disposta a brigar. E a batalhar por alternativas e exceções que, evidentemente, existem por aqui. Ainda bem. Muitos franceses têm uma grande dificuldade em pensar fora da caixinha. Entre médicos e equipe médica, pelo que tenho constatado, são poucos os que arriscam um pensamento clínico, um raciocínio fora do que está dito que devem fazer, uma opinião. Pensar, aqui na terra das luzes, parece que se tornou perigoso. Você pode ser processado. Você pode ser responsabilizado por sua opinião. Você pode ser punido. Não é bom ser diferente, singular. Melhor seguir estatísticas, diretrizes, normas de conduta. Melhor se adaptar. Isso vale para crianças, adultos, gestantes, bebês, estrangeiros, franceses… E, caso encontre dificuldades, tome um antidepressivo no final do dia, como a maioria das pessoas que te cercam.

Outras informações e reflexões sobre gravidez e parto na França: aqui e aqui.

Um outro texto…

… sobre cesárea, parto normal e dor, que recoloca em questão as dores posteriores à cesariana e aquelas ligadas ao parto normal, muito menores, a menos que ele seja permeado de muitas intervenções médicas desnecessárias. Parece que, para evitar a dor, a medicina criou estratégias que fazem com que soframos bem mais. Vai entender, né? O link, aqui.

Parir entre sangue e dor…

(version française de ce post ici.)

Noutro dia, reunião aqui em casa, discuto com os amigos minha opção por um parto natural que, na França, felizmente, não é sinônimo de parto normal – que o parto é normal, já está dado e eles ficam de cabelo em pé com nossa mentalidade cesárea – mas diz respeito, mais especificamente, àquilo que no Brasil chamamos parto humanizado, um parto normal com direito à recusa de várias intervenções médicas que são, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias e apenas atrapalham de maneira violenta mãe e bebê. Então uma amiga minha tira da cartola, depois de dizer que seu ideal de parto seria ser sedada, apagar e acordar apenas quando o bebê tivesse sido retirado de dentro dela – que essa opção de parto natural é uma escolha católica por parir entre sangue e dor e o quanto ela é absurdamente ideológica. Minha amiga é feminista. E inteligente. Parei para pensar. E percebi que não concordo com nada do que ela disse.

Primeiro, porque toda e qualquer opção em relação a todo e qualquer tema em nossas vidas é ideológica, quer dizer, tem em si alguma ideologia, quer saibamos ou não. Ser ideológica não é argumento para uma escolha, é a constatação de uma condição do pensar humano. A questão poderia ser, então, que ideologia está por detrás de uma escolha de parto ou de outra? O que estamos apoiando ou defendendo quando preferimos isso à aquilo?

Parir entre sangue e dor foi a condenação dada por Deus a Eva depois dela comer o fruto proibido e ser expulsa do paraíso. Mas por que isso seria uma condenação? Não sou uma expert em estudos religiosos, não li a Bíblia inteira e, assim, não tenho como falar do lugar de sabichona no que diz respeito a esse tema. O que, talvez, seja bem melhor, porque permite que eu apenas faça aqui as questões e reflexões que me provocam desde o comentário dessa amiga. Vamos a elas.

Do ponto de vista de uma pretensa defesa feminista do direito a não parir entre sangue e dor e, com isso, não sucumbir ao legado machista católico que impõe às mulheres sangue, dor e sofrimento, acho o comentário dela especialmente equivocado: afinal, a Bíblia foi escrita por quem? Por homens. Até Deus, o figura, é definido no masculino, herança e testemunho dos séculos e séculos de patriarcado que estabeleceram o homem no lugar da razão e a mulher como ser menor, incapaz, relegada às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos. A Bíblia apenas prolonga uma mentalidade que era aquela dos gregos antigos, herdada pelo império romano, do homem como cidadão, centro da pólis, senhor do pensamento. Então, minha pergunta, mesmo sabendo que o Antigo Testamento não foi estabelecido pelos seguidores de Jesus, mas bem antes: a que serve que um livro desses estabeleça a mulher como pecadora e a condene a parir entre sangue e dor?

Existiam homens e mulheres antes disso, não? Bom, talvez para os católicos não, homens e mulheres tenham surgido com Adão e Eva. Mas antes do surgimento da Bíblia como livro sagrado do catolicismo que diz que homens e mulheres surgiram de Adão e Eva e que dá a opção às pessoas de acreditarem nessa versão da história como mito das origens, já existiam homens e mulheres nesse mundo, não? Que não acreditavam ou não sabiam da tal verdade que é Adão e Eva. E que nem sabiam que o modo como viviam a depender de seu trabalho e a se reproduzir e parir entre sangue e dor era consequência do pecado original. Podemos achar que eles eram apenas ignorantes da verdade que os fazia serem como são. Ou podemos pensar que essa verdade é apenas uma versão das coisas que diz mais a respeito dela mesma e do por que ela foi construída desse modo do que acerca de como as coisas realmente são.

Como as mulheres antes da Bíblia pariam? Provavelmente, naquilo que é essencial, do mesmo jeito que nós fazemos hoje. Então, não foi a Bíblia que inventou o parto entre sangue e dor, ele já existia antes dela. Ela apenas inventou que ele seria consequência de uma condenação. Quer dizer, ela associou parto, sangue e dor à um castigo. Aí é que está o problema.

Por que será que interessa a alguém associar parto com dor a um castigo? Se formos pensar em um argumento radicalmente feminista, será que não seria o caso de considerar que interessa apenas aos homens – esses mesmos que instituíram o patriarcado nesse mundo – que um ato exclusivamente feminino, em que a mulher tem todo o poder sobre o seu corpo e sobre uma vida além da dela mesma, em que ela pode dar origem a um outro ser – coisa que apenas inventando um Deus homem os homens conseguiram remediar – enfim, que esse ato exclusivamente feminino seja considerado como um castigo e, assim, desapropriado? Desqualificado? Tornado impuro, menor, feio? Apenas uma idéia que me ocorreu. E que não me pareceu tão absurda se, seguindo por essa veia mais radical e paranóica formos pensar que, milhares e milhares de anos depois, a opção que se criou para as mulheres e seu procriar e seu parir de segunda categoria foi uma em que elas se desfazem totalmente de qualquer poder sobre o seu corpo, tornando-se objetos que, voltando às palavras da minha amiga, são botadas para dormir, têm seus corpos manipulados e decididos por outros, têm seus bebês extraídos delas e devolvidos a elas quando, como belas adormecidas, elas acordam de um sonho encantado com seus filhinhos no colo, sem nenhuma participação naquilo que trouxe ao mundo essa nova vida.

Então, tá. Ser objeto, um corpo objeto das decisões de outro a respeito da vida de seu filho é a alternativa feminista para o parto condenado entre sangue e dor? Não ser sujeito, não estar ali presente no momento em que a experiência acontece é fazer valer seu direito de ser mulher, ser independente, ser autonoma e não participar? Muito bem, o feminismo nos trouxe e nos trás conquistas incontestáveis e deve ser defendido enquanto houver nesse mundo uma pessoa que pense e aja de maneira violenta contra uma mulher pelo simples fato dela ser mulher. E defendeu o nosso direito sobre nossos corpos, sobre a concepção, sobre a alternativa de não ter filhos frente à obrigação de tê-los, sobre a opção de interromper uma gestação e tantas outras coisas mais. O feminismo defendeu até nosso direito de nos alienarmos em um conjunto de atos médicos para não participarmos do momento do parto de nossos filhos. E, ok, pode ser que para muitas mulheres isso seja uma opção. E defendo o direito que elas adquiriram de escolher isso.

Mas, apenas uma questão, essa escolha, tão ideológica quanto a minha por um parto natural, defende qual ideologia mesmo?

Em nome de nosso “direito” à não ter dor, não ter sangue, não ter sofrimento, parece que entramos em uma corrida para extirpar essas experiências de nossa condição humana. Como se fosse possível uma vida sem dor, sem sangue e sem sofrimento. E como se essas coisas fossem ruins, um castigo, um calvário pelo qual temos que passar para pagarmos os pecados de sabe-se-lá-quem-ou-o-quê. As pessoas parecem que têm mais medo da dor do que ela pode doer realmente. E em nome desse medo, jogam para fora da vida muitas experiências que são tudo, menos um castigo e uma condenação.

Poder parir um filho entre sangue, dor e muitas outras coisas que ainda não consigo imaginar me parece um privilégio, uma consequência coerente de uma escolha de alguém que decide que, em sua vida, cabe o projeto de dar vida a um outro alguém. Vida, em que também existe sangue e dor. E riso, e alegria, e um mundo todo de descobertas. Vida que não foge do dito ruim para tentar ficar apenas com o que pareceria bom, como se sentir fosse perigoso, como se sofrer fosse uma ameaça, como se as dores da vida não ensinassem e não formassem tanto quanto os seus prazeres.

Eu quero parir minha filha. Não quero que outros o façam por mim.

Bom texto sobre a episiotomia…

aqui. Porque não faz muito sentido acreditar que todo e qualquer procedimento médico durante o parto é simplesmente normal apenas porque ele foi instituído como algo comum e imprescindível nessa situação, né? Melhor pensar no que deseja e no que se dispõe a fazer ao longo de sua gravidez e parto antes que outras cabecinhas decidam por você e por seu bebê. Porque essa naturalização de gravidez e parto como atos médicos, questões médicas, mais ligadas ao risco e à patologia são uma deturpação recente de algo que sempre foi natural e fez parte da vida. E se todo esse “cuidado” traz, em alguns casos, um real benefício para mães e bebês, na grande maioria é apenas excesso aplicado a um acontecimento que poderia muito bem se passar sem ele.

Eu te digo o que é que você deve fazer.

Demorou um tempinho entre saber que estou grávida e decidir tomar as coisas em mãos. Precisamente o tempo suficiente para me lembrar de todos os amigos e familiares que tiveram filhos em um período recente. Quando comecei a pensar no que muitos deles viveram, entrei em pânico. Não quero isso para mim, nem para o meu bebê. Isso o que? Todas essas pequenas, cotidianas e violentas arbitrariedades das quais você e o pequeno são objeto a partir do momento em que se constata sua gravidez. A palavra é boa e precisa – objeto – pois é aquilo em que você se transforma quando entra em cena todo o aparato médico que vai se desdobrar para cuidar da sua condição.

A coisa já começa esquisita. Se pararmos para pensar, essa história de gravidez e parto serem associadas ao cuidado médico é bem recente. No Brasil, apenas nos anos 70 é que se institucionaliza o acompanhamento médico para gravidez e parto e a preferência para que o segundo aconteça no contexto de um hospital. Até então – e olha que temos aí para trás alguns milhares de anos de experiência – gravidez fazia parte da vida e parto era feito em casa, com a ajuda de alguém que pudesse te acompanhar nessa experiência. 

Ok, existiam riscos, existiam complicações, existiam desconhecimentos, existiam seqüelas, existiam perdas. E quem sabe a medicina ajudou eficazmente a diminuir tudo isso instituindo meios de prevenção, previsão, precaução e afins. E talvez isso tenha melhorado a qualidade de vida da mãe que dá à luz, assim como dos bebês que nascem. Que bom que seja assim.

Mas acontece que não é apenas isso que essa medicalização da gravidez traz. Sob o pretexto da prevenção e do cuidado, muitas arbitrariedades são feitas, muitas pequenas grandes violências são cometidas ao longo do percurso a ponto de tornar aquilo que sempre foi parte da vida em algo perigoso, arriscado, para o qual a mulher nunca está suficientemente preparada e em que é necessário intervir. Intervir para controlar. Intervir para corrigir um desvio de rota.

Um exemplo: a cesariana. Por que é que o Brasil tem tanta cesariana? Será que é porque tantas mulheres assim apresentam algum risco ou complicação no final da gestação? Aqui na França, se qualquer hospital ou maternidade apresentasse a porcentagem de cesarianas que os hospitais e maternidades apresentam no Brasil, ele seria imediatamente auditado, multado e o escândalo apareceria em toda a mídia. E olha que os franceses adoram um protocolo médico e são tão ou mais tomados por essa tentativa de tudo controlar e tudo prevenir do que nós. Mas não passa pela cabeça deles que uma situação como uma gestação que, na maioria das vezes, se encaminha naturalmente para seu desfecho, deva ser manipulada para servir aos interesses dos médicos, das maternidades e dos equipamentos que precisam dar lucro e se pagar. Ou não é bem estranho que em meio aos altíssimos índices de cesarianas no Brasil os recordes sejam batidos pelos hospitais e maternidades particulares dos centros mais ricos do país?

Conclusão? Das duas uma: ou o brasileiro é um povo altamente doente que precisa de intervenções médicas nesse nível, porque nem parir mais sabe, ou houve uma tal inversão de valores que transformou em normal aquilo que deveria ser – como é em muitos e muitos outros cantos desse mundo – uma exceção.

Será que é algo cultural querer fazer uma cesariana? Querer programar, escolher dia a hora, agendar o buffet, escolher o signo do bebê, a melhor conjunção astral possível? Será uma tentativa de controle, de ter o melhor possível, de forçar que o melhor aconteça? Ou será o medo inculcado na cabeça da gente pelos filmes, pelas histórias, pelos médicos de que parto normal é horrível, dói, sangra e é coisa de masoquista? Quem vai querer passar por dor e sofrimento, não é não? Junte-se a isso a história de que seu períneo rasga, afrouxa e de que o seu companheiro não vai mais gostar de transar contigo depois e… pronto! Não há argumento que vença o combo sofrimento + risco de perder o amor do outro. Até ir para a faca parece melhor do que isso.

Tenho descoberto alguns textos que falam a esse respeito e tentam desconstruir esse estado de normalidade que se tornou considerar a gravidez e o parto como objetos da intervenção médica. Um dos mais interessantes é esse aqui. Recomendo, é um alento. Mas o assunto não é novo. Há umas boas décadas um tal de Michel Foucault escreveu uma obra prima a respeito de como caminhamos, ao longo das últimas centenas de anos, para uma medicalização generalizada da existência humana. Ele mostrou como isso se deu ao transformarmos a loucura em doença mental, lá nos idos do século XVII. Primeiro momento em que uma peculiaridade humana passa a ser vista como algo a ser segregado, tratado, curado. O louco foi o pai de todas as outras segregações de características humanas que se transformaram em problema, anomalia, doença. Tristeza virou depressão, infância virou inadaptação, gravidez virou risco. Apenas alguns exemplos. Fosse vivo, possivelmente Foucault teria uma ou duas palavrinhas a nos dizer sobre a maneira como essa patologização das subjetividades e sua consequente medicalização e normalização se estenderam por todos os cantos do existir humano. Até chegar à lugares tão improváveis e insuspeitos como a gravidez e o parto. Coisa triste…

Será que não estamos endossando essa pseudo-verdade de que tudo o que é humano é doente e problemático – e deveria ser corrigido – quando aceitamos sem pensar ou questionar tudo aquilo que o médico diz que temos que fazer ao longo de uma gestação ou no momento do parto, sob o pretexto de evitar riscos, prevenir problemas e garantir um maior controle sobre todos os imprevistos? Esse controle é real? E, mais ainda, ele nos convém realmente?

Hyeronimus Bosch: "A extração da pedra da loucura" (1475-80)
Hyeronimus Bosch: “A extração da pedra da loucura” (1475-80)