Tsunami

Sabem aqueles medos inexplicáveis que as pessoas têm? Tipo medo de barata, de multidão ou de unha raspando no quadro negro? Então, eu tenho 3 medos pânicos desse tipo e um deles é… tsunami. Sim, muito antes do que aconteceu na Tailândia ou no Japão há tempos atrás. E antes também de Impacto Profundo, o filme. E furacão? Não. Tornado? Não. Terremoto? Não. Vulcão? Nada, meu sonho é ver um em erupção. Não, minha gente, o medo não é da força incontestável da natureza que se revela nas mais variadas catástrofes naturais. O medo é de tsunami.

Eu perdi a conta de quantas e quantas vezes fiquei pensando no que faria se visse o mar recuar – o que, todo especialista sabe, pode ser o começo da tsunami – para onde iria, se correr seria suficiente, em que lugar alto poderia me abrigar… Porque uma tsunami não é como uma ondinha irritada de um mar de ressaca que implica em arrancar seu biquini ou te fazer comer areia. Uma tsunami é um muro colossal de água sem fim que avança, avança e avança carregando você, um transatlântico, as árvores, uma carreta, um prédio de cinco andares, uma vaca e tudo o mais que encontrar pelo caminho. Detalhe: sou paulistana e, hoje em dia, moro em Paris ou seja, para chegar uma onda por aqui teria que ser o apocalipse e, nesse caso, correr não adiantaria muito e o melhor seria ficar em casa twittando e comendo um belo pacote de chocolate… mas, putz! Tsunami, minha gente!!! Quem pode ser racional numa hora dessas?

Sempre tive um sonho recorrente, ou melhor, um modo de solucionar sonhos recorrente: quando a situação no sonho começava a se tornar angustiante, amedrontadora ou desconfortável eu pensava, sem acordar, que aquilo era apenas um sonho e que eu não queria que fosse daquele jeito. E assim, magicamente, eu fazia uma espécie de rewind no sonho e começava de novo, até sair da maneira que eu queria. Sim, e isso é mais antigo que o tsunami e bem anterior ao Feitiço do tempo, outro filme.

Confiem em mim, esse post vai para algum lugar e não é apenas para fazer graça para que os psicanalistas amigos e leitores tenham o que interpretar nas rodinhas de conversa. E, sim, essas duas coisas têm relação entre si e com a maternidade. Explico.

Quando as pessoas dizem que a maternidade é difícil, normalmente usam como justificativa argumentos como choros, noites mal dormidas, perda da liberdade que se tinha antes… enfim, esse blábláblá que toda mãe já ouviu da boca de tudo quanto é amigo, conhecido, desconhecido… Putz! A acreditar nessa gente, a maternidade seria uma passagem só de ida para dentro de O exorcista, mais um filme (estou cinéfila hoje, dêem um desconto). Detalhe: essas pessoas são as mesmas que dizem que é uma maravilha ser mãe. Como assim? Se é tão ruim, como é que é bom? Ou o bom é que é ruim? Coisa de masoquista essa tal de maternidade, então? Vai entender…

Nessa altura dos acontecimentos, do alto da minha vasta experiência de 5 meses como mãe, o que eu teria para dizer a respeito é: sim, a maternidade tem algo muito difícil. E, não, não é exatamente isso que as pessoas falam. Não é cuidar do bebê que é difícil. O difícil é a intensidade da experiência. Tsunami.

Pensa bem, vamos apostar no melhor dos mundos: você é uma mulher, adulta, dona do seu nariz, independente e consciente, na medida do possível, daquilo que quer. Tem uma vida que te traz alegrias, tem amigos, amores, trabalho, carreira, diversão, viagens. Sente-se satisfeita com aquilo que construiu, e boa parte do tempo dessa sua vida é investido em viver de acordo com o que você quer e precisa. Daí vem o bebê e acontece um turbilhão: você, que era centro do seu mundo, desloca-se para a periferia. E aquele serzinho tão pequeno, delicado e frágil passa a ocupar o lugar de destaque.

Não, isso não é papo de gente egoísta, narcisista e auto-centrada que não aguenta não ser o centro das atenções. Isso é uma questão do nosso tempo, em que boa parte do foco da vida de cada pessoa foi posto na realização pessoal e na criação de um percurso singular, que faça sentido e traga alegria para si. Isso no melhor dos mundos porque, no pior, singularidade virou sinônimo de sucesso, fama e outros afins, como se o que testemunhasse a felicidade de uma pessoa fosse aquilo que ela tem mas… enfim… distorções de uma época em que tudo e todos estão muito centrados em si, para o melhor e para o pior. E, numa época como a nossa, ser arrancado do centro da própria vida tem efeito de turbilhão. Tsunami. E frente ao muro de água que avança, avança e te engole, você tem duas alternativas: ou resiste (e é tragada do mesmo jeito) ou se deixa levar.

Gente egoísta, narcisista e auto-centrada, a meu ver, quando tem filhos simplesmente continua ocupando o mesmo lugar de antes, ancorada bem no meio da sua vida que, muito rapidamente, tem que “voltar a ser o que era”, como se nada de mais tivesse acontecido. É um estado de negação que se instala: mesmo corpo, mesma vida sexual, mesmos programas, mesmos projetos… Gente que ignora a mudança colossal que acaba de ocorrer na sua vida e que coloca o bebê para gravitar em torno de si, da própria rotina, dos próprios ritmos e interesses, esperando dele que se adapte e se enquadre naquilo que já existia. Uma violência com alguém que não tem muito recurso para se defender a não ser chorar e chorar e chorar. E, quanto mais chora, mais irrita aos adultos que não querem ser incomodados e que, consequentemente, responderão com estratégias ainda mais extremas de disciplinamento e por aí vai, numa bola de neve sem fim de incompreensão, opressão e choque. Têm pais que passam como tsunami na vida dos filhos.

Quando deveria ser o contrário.

Nesse nosso tempo, a segunda opção, que gosto de acreditar que não é apenas a minha, é se deixar tragar. E remar contra a maré, paradoxalmente. Quero dizer, ir contra o esperado socialmente e, de repente, se deixar levar. Ao contrário do sonho em que seria possível discordar dos rumos da história e recomeçar até que aconteça do jeito que queremos, a tsunami da maternidade vem sem que se possa voltar atrás. O que é absolutamente aterrador. E eu me arriscaria a dizer que nos primeiros meses da maternidade, juntamente com a privação de sono – que não à toa foi usada como método de tortura em todos os tempos, regimes e situações – e com a despossessão de si – seu deslocamento do centro – essa consciência de irreversibilidade da vida é aquilo que mais desestrutura. A vida mudou, alguém que não existia antes agora existe ali, por seu desejo e responsabilidade (juntamente com o da cara metade, o que não necessariamente alivia muita coisa) e você, de um jeito ou de outro, vai ter que encarar isso sem se desviar. Sem negociações, sem tergiversar, sem tentar engambelar a morte, como no magistral O sétimo selo, do Bergman. Quem não enlouquece com isso, nesses tempos em que tudo é líquido, fluído, deslizante, incerto? Tempos de modernidade líquida, como ponderou o sagaz Bauman… serão tempos em que algo tão definitivo quanto a maternidade é possível?

Não poder voltar atrás e, ainda por cima, ser o adulto da história, aquele que tem que sair de cena para o bebê existir, para conhecer esse bebê, entender o que ele quer e, ainda mais, confortá-lo, cuidá-lo, amá-lo. O desamparo de um bebê assusta e deixa a gente tão desamparada que são quase dois bebês chorando juntos, esperando quem os salve. Mas o adulto é você e é você quem tem que salvar. Você é quem tem que ser porto seguro, em um momento em que está arrancada do que sempre foi a sua vida e já nem consegue mais direito saber quem é.

Isso é uma perda profunda de referências junto com a demanda de ser referência para alguém, como se a água avançasse, avançasse e avançasse cobrindo tudo o que marcava um território e precisássemos, ali mesmo, construir uma casa. Construir uma casa segura enquanto o tsunami passa. Construir uma casa sobre um tsunami, frágil como um barquinho arrastado naquela imensa onda e que espera – tem a esperança – de que em algum ponto vai desembocar em algum lugar. São, salvo e sem ter a casinha destruída. Talvez as tais pessoas egoístas, narcisistas e egocêntricas sejam apenas pessoas apavoradas que, frente ao pânico da onda que chegou irremediavelmente, persistam em acreditar no sonho de refazer a vida a seu modo e retornar ao que era antes, tempo confortável em que tudo parecia conhecido. Negar até que se torne verdade. Negar até que o mundo se dobre à sua vontade. Ou ao seu medo. Tarefa hercúlea, não?

Não porque, além de ser arrancada da própria vida e ter que inventar a capacidade de dar a vida a alguém, cuidar e proteger no meio da tormenta, tem mais uma coisa que se instala junto com o tornar-se mãe. O medo ainda mais tenebroso de que a vida volte ao que era antes e aquele serzinho deixe de existir.

Noutro dia, fugi e fui ao cinema. Hehehehehe, eu diria. Depois de cerca de seis meses sem nem saber quais filmes estavam em cartaz e achando essa tal de sétima arte totalmente overrated (despeito de quem não pode sair e diz que, no fundo, nem queria, me julguem), saí numa noite em que estava previsto que eu teria uma reunião de trabalho, deixei a bebê com a babá (que, aqui, não tem nada a ver com o que entendemos como babá no Brasil, mas isso é outro assunto) e, no meio do caminho, me permiti mudar de idéia. Como era antes. Eu, sozinha, andando por essa linda cidade em que se pode andar nas ruas e experimentar o gosto de ser livre. E, como se não tivesse compromisso algum e, como se vivesse ainda aquela vida um pouco flâneur e, como se não tivesse que dar satisfação a ninguém fiz como fazia vez ou outra, quando saía da biblioteca após um dia de trabalho e entrava no cinema meio assim, como quem não quer nada, para ver onde iria parar. Parei em Philomena. Pior filme para quem tem uma criança pequena em casa. Ou o melhor, quem sabe? Pois além de me lembrar do quanto é bom sair à toa pela vida e parar em um cinema num final de tarde em Paris, e além de me lembrar de como Judi Dench é uma atriz fantástica e o quanto o cinema me permite pequenas grandes viagens que ajudam a entender melhor algo de mim mesma, como toda boa forma de arte, o que aconteceu de mais importante foi eu me instalar nesse tempo estranho do antes e do hoje. Uma confluência de tempos acontecendo ali, naquele cinema. E, por conta do filme, do enredo do filme e da situação em que fui vê-lo, entendi visceralmente uma coisa: não é mais concebível uma vida em que minha filha não exista. O antes é um tempo que eu não quero mais. Nem em sonho. Porque ter todo aquele conforto de uma época sem tumulto nem tsunami custaria o preço de não existir alguém que é simplesmente a pessoa sem a qual não há como meu mundo existir. Não há como eu existir mais sem ela, não há como eu existir sem que o nome “mãe” esteja colado na minha pele e na minha vida. Isso é o mais difícil da maternidade: uma vez nela, nunca mais existirá um segundo fora dela. E você, secretamente, espera mesmo que não, pois algo nela te define profundamente. Ainda que você não seja apenas mãe. Mas algo nesse acontecimento cria um antes e um depois. Para nunca mais. Algo em ser mãe se enraíza em você e não te larga. Uma raiz nesse muro colossal de água que avança, um fato inexplicável.

Ser mãe tem isso de bom: a gente se torna raiz flutuante.

Rapidinhas da maternidade

Mais descobertas sobre a maternidade entre fraldas, sonecas, banhos, sorrisos, brincadeiras e tudo o mais:

  • depois dos sorrisos dormindo, vêm os sorrisos acordada, olhando no olho, diretos para você… coisa de fazer o amor aumentar de forma exponencial, quando você imaginava que nem teria como amar mais aquele serzinho ali.
  • roupinhas se perdem de um dia para outro, nessa época em que 1cm a mais ou  menos faz uma enorme diferença.
  • quando você diz que depois da mamada vai tomar um banho, ou jantar, ou ambos, isso pode querer dizer dali a 5 horas. Ou no dia seguinte.
  • aliás, é bom relativizar tudo aquilo que você concebe como um prazo sensato para qualquer coisa: quando dizem que o bebê cria um ritmo e uma rotina, isso não significa que vai acontecer no tempo que você julga plausível para tanto, mas no tempo que o bebê precisa para isso. Quer dizer: é no ritmo dele, não no seu, ok?
  • das perguntas idiotas, “você já voltou a trabalhar?” está no meu top 3 da cretinice. De onde vêm essa necessidade das pessoas de te pressionar para que você retome uma vida que já mudou e que aja como se um acontecimento de tão grandes proporções como ter um filho pudesse ser equacionado em poucos meses a ponto de você voltar ao trabalho linda, leve e solta? Parece que acreditam que voltar ao trabalho sinalizaria que o furacão já passou e que tudo, inclusive você, já está de volta no quadradinho dos rótulos em que haviam te colocado.
  • outra do meu top 3, que normalmente segue a anterior: “mas você não se entedia? não faz alguma coisa para se ocupar?” Quer dizer que eu fico em casa de pernas pro ar o dia inteiro e preciso de ocupação, né? Pergunta que vem, usualmente, de pessoas que julgam que, já que você está em casa o dia inteiro, sem trabalhar, ao menos poderia fazer uma comidinha, dar uma adiantada na faxina, passar umas roupas… se ocupar, pô! Quer dizer, por que você não faria, não está trabalhando, está cheia de tempo livre…
  • frequentemente, as perguntas cretinas são feitas por pessoas que julgam a maternidade como um calvário que cada qual tem que suportar. Quer dizer, trabalhar é um prazer, férias são um prazer, a balada é um prazer, mas ter filhos não pode ser, entende? Assim, o sujeito fica ali testando o quanto você está tão mal nessa situação quanto ele está, ou quanto ele supõe que você deveria estar. Não passa pela cabeça desses seres que, talvez, para você ser mãe possa ser uma escolha, um prazer, uma alegria e que, mesmo descabelada e cansada, você está realmente bem com isso e não queria estar em outro lugar nesse momento.
  • aliás, diga à maior parte das pessoas, em resposta ao “como andam as coisas?”, que está cansada e ouvirá um sermão culpabilizante sobre as maravilhas da maternidade. Diga que está bem, tranquila e feliz e ouvirá um discurso sobre: 1) os erros que está cometendo, 2) tudo o que você está perdendo de legal, 3) como ter filhos é uma coisa tão chata e limitante.
  • a curva de crescimento é mais importante do que a constatação de que seu bebê está bem. Nenhuma conversa com mães escapa do momento: “ela pesa quanto?”, “ganhou quantos quilos?”, “mede quanto?”. De repente, todo mundo virou pós-doutor em estatística.
  • amamentar pode dar certo. Mas é preciso muito amor e paciência. Não só com o rebento mas, especialmente, consigo mesma. O ritmo é o dele, lembra? E, provavelmente, vai demorar mais par engrenar do que o prazo que você botou na sua cabeça. Ninguém manda ser acelerada em um mundo acelerado. A criança que acabou de chegar nem sabe disso – que bom! – e vai fazer as coisas conforme puder e precisar. Quem sabe seja uma boa oportunidade para desacelerar ritmos e expectativas, não?
  • se alguém anda precisando de argumentos pró-amamentação, e não se contenta com todos aqueles que falam em prol da saúde do bebê, só tenho uma coisa a dizer: 10 quilos perdidos em menos de 3 meses. Pense nisso.
  • o que são esses homens nojentos que ficam olhando enquanto você amamenta? Pois além dos olhares de censura, como se um peito para fora fosse mais pornográfico do que as imagens de guerra, miséria e corrupção com as quais somos bombardeados cotidianamente sem o menor pudor, existe o olhar bizarro de adultos tortuosos que babam enquanto você amamenta como se fossem psicopatas. Ainda estou tentando pensar em como Freud explicaria essa.
  • Paris é uma cidade hostil para mulheres grávidas e para mães de bebês e crianças de colo. Muitas escadas, muita gente, muito perrengue, espaço zero em restaurantes, bares, cafés, metrô, ônibus… Mas os parisienses se revelam em toda sua gentileza inesperada quando você carrega um bebê. Acho que todos sabem do perrengue que todos passamos no dia-a-dia não tão cor-de-rosa da cidade luz.
  • aliás, wrap, sling e todos os meios de portagem são essenciais por aqui (ainda vou escrever uma ode a eles). Tirando todos os benefícios que trazem em termos de reconforto e segurança par ao bebê, nada mais prático para circular por essa cidade do que algo que não triplique de tamanho o espaço que você ocupa nos lugares. Franceses parecem detestar gente muito espaçosa.
  • assim como parecem detestar bebês que choram, como se fosse uma aberração da natureza. Pois é, chorar é que é esquisito, não ter um dos maiores índices de consumo de antidepressivos do mundo. Acho que os franceses choram pouco, vai ver é isso. Excesso de discrição.
  • contudo, a França possui um sistema de acompanhamento do recém nascido durante toda a sua primeira infância que é IN-VE-JÁ-VEL. Mesmo.
  • amor de mãe só aumenta. E aumenta. E quando você acha que está no cume da montanha, aumenta ainda um pouco mais.

Outras descobertas: aqui.

Por vezes, o cansaço.

Os chatos de plantão adoram falar, desde que têm notícia da sua gravidez, que você nunca mais vai dormir, ter sossego, uma casa arrumada, tempo para si e por aí vai. Não dá para entender quem adora compartilhar o pior, ou te imaginar na lama tanto quanto eles… Enfim… Não é sobre isso que escrevo hoje, não é um “ei, vocês têm razão”, porque não penso que eles tenham. Se ter filhos fosse tão horrível assim, tão mais cheio de horrores do que de maravilhas, por que a humanidade continuaria existindo, não?

Não, quero escrever sobre o cansaço, como para conferir-lhe legitimidade nesse mundo cor-de-rosa que é a maternolândia. Porque, se por um lado todo mundo não para de te falar de tudo o que você vai perder, numa negação ignorante de que viver envolve escolhas e, consequentemente, implica perdas, paradoxalmente te exigem uma felicidade constante, sorriso estampado na cara e satisfação em permanência. Estranho, não?

Então nasce o rebento e você entra naquele estado segundo, naquela dimensão outra que é a dos primeiros meses com um bebê. Sem nem ao menos uma pausa para respirar, você sai do parto sendo mãe e tendo que dar conta de um universo de mamadas, fraldas, banhos, cuidados, carinho, colo, choros e afins. É um impacto mudar de estatuto em um segundo e ter que dar conta de uma série de coisas que se tornam realidades na sua vida. É um impacto o peso da responsabilidade de ter alguém totalmente dependente de você. E no início você está tomada pela occitocina, pela emoção do parto, pela enormidade desse acontecimento e você nem pensa. Apenas age a vai fazendo, como se sempre tivesse sido assim.

Curioso como um filho, no instante que chega, abre um rasgo na nossa vida que torna tudo até ali passado, outro tempo, outra vida. É uma mudança radical e você não consegue, no intervalo de um instante, conceber sua vida como se não houvesse existido. Aquela pessoa chega e se instala naquele lugar daquilo que é essencial. Como o ar que você respira, você não se pergunta muito. Apenas respira e toma o respirar como parte da vida, uma evidência. Ter filhos é assim: uma evidência. Basta um segundo e sua vida já não pode mais ser imaginada de outra maneira.

Em meio a essa enxurrada do que talvez possamos chamar de amor, você vai vivendo aquilo tudo que é novo e que, ao mesmo tempo, parece que sempre existiu. E, nesse estado meio alterado de consciência, por conta das emoções, do ritmo, das demandas, nem se dá muito conta dos dias e das noites, da passagem do tempo. Tudo acontece diferente, a rotina é pautada pelos acontecimentos, pelas necessidades do bebê, por choros e sonos. Até que vem o cansaço, o corpo assustado com o sono entrecortado, com os ritmos diferentes, com as caminhadas, com os tempos sentada amamentando, com o isolamento do mundo, com a imensa dedicação, com a imensa demanda, com tudo o que se dá sem mesmo saber que tinha … Um corpo alquebrado que, em alguns momentos, se junta à cabeça em plena exaustão.

E você chora, chora esse esgotamento do corpo e da alma, chora esse desfazimento de si, essa mudança de vida, essa troca de pele, esse desconhecido que se instaura no centro da sua vida. Chora de amor, chora de não saber, chora de insegurança, de medo pelo futuro, de preocupação, de querer fazer o melhor. Chora pelos choros todos dessa pequena que chora.

E ninguém fala disso. Não a fala jocosa e destrutiva do “você vai perder sua vida quando tiver filhos”, mas uma fala sobre esse cansaço, esse deslocamento, essa desterritorialização de corpo e alma. E você também não fala nada, ameaçada pela pressão de estar sempre feliz com a maternidade. Dizer que tem vontade de sair correndo algumas vezes pega mal, né?

É verdade que cada sorriso, cada acontecimento, cada descoberta, cada conquista desfazem como que por magia esse esgotamento e enchem de uma energia feroz os pulmões, os músculos e o cérebro, deixando-nos prontas para tudo. Até o próximo esgotamento, que se dissolverá em seguida em alegrias impensadas, que culminarão em alguma exaustão, que… Uma coisa não anula a outra, o amor, a felicidade, o estado de graça, a alegria da maternidade não impedem esse tilt no corpo e na cabeça. Tudo mudou, o ritmo da vida se alterou. É mesmo cansativo. É legítimo cansar-se. É autorizado. E não muda em nada a beleza desse momento. É tão somente pelo fato de sermos tão humanas, nós, as mães. E humanos também cansam.