Pelo direito de gestar

Logo que me descobri grávida, em conversas com um grande amigo, confidenciei que andava tendo muita dificuldade em manter minha rotina de trabalho, pesquisa, escrita, estudo. Todos esses afazeres obrigatórios para quem tem uma ocupação intelectual se tornaram mais lentos, mais penosos, menos interessantes. Os hormônios, o início da gestação, as mudanças… putz, quanta coisa! Trabalhadora que sou e que sempre fui, “workaholic” orgulhosa e convicta, isso que eu entendia como uma “leseira” me angustiava. Esse amigo acrescentou ainda mais lenha no fogareiro que andava a minha cabeça, me dizendo que eu tinha que conseguir fazer todas aquelas coisas, naquele ritmo, especialmente agora que estava esperando um filho e que ele dependeria de mim. Conclusão da conversa: às minhas dificuldades somou-se o peso imenso de me sentir relapsa frente ao bebê pelo qual sou, desde que foi concebido, responsável.

E lá vai a pessoa aflita tentando fazer, tentando ler, tentando pensar, tentando escrever, tentando cumprir prazos e ritmos que tornaram-se, a partir dessa mudança em minha vida, uma violência contra mim e contra o que eu estava vivendo. Não, no meu caso não deu certo forçar a barra não. Mas me fez pensar. Muito. Pensar sobre essa lógica estranha em que vivemos e que nos impõe dar conta de absolutamente tudo. E que rotula como preguiça, descaso ou irresponsabilidade cada atitude que uma pessoa tome contra o fazer tudo ao mesmo tempo agora.

Putz, vamos contra a corrente então. O que gostaria de defender aqui é exatamente isso: o direito de mudar de ritmo, o direito de mudar de prioridade, o direito de gestar. E o direito de que isso tudo seja tão valorizado quanto ser “workaholic”, intelectual ou qualquer outro valor de nossa sociedade atual. Me explico.

Tenho a impressão que alguma coisa do discurso feminista se engessou e se virou contra nós, mulheres. E passou a servir a um discurso dominante que busca, antes de mais nada, não favorecer e respeitar as escolhas e as singularidades mas, ao contrário, sujeitar todos a um mesmo caminho comum. Acéfalo, a-crítico, impotente. Caminho que, não por acaso, anula todos para o proveito de uns poucos. Sim, estou falando do discurso capitalista e do feminismo tendo sido cooptado por esse discurso capitalista e por outros tantos discursos dominantes bastante cruéis e perversos. Pois, se a luta do feminismo foi e é a dos direitos iguais, da igualdade de oportunidades e de condições, como é que isso tornou-se, em algum momento, uma pressão sobre as mulheres que se vangloria em ditar que algumas escolhas são melhores do que outras?

Então é assim hoje em dia: você trabalha, constrói uma carreira, dá o sangue, faz aquilo que gosta e tudo isso é extremamente valorizado socialmente pelos seus pares, pelas outras mulheres, pela sociedade (…ops, nem tanto, que ainda somos bem machistas, mas em vários meios é, sim, bastante valorizante a mulher intelectual, a mulher que pensa, a mulher que trabalha). Você é livre, exerce seus direitos, faz valer sua condição. Parabéns para você.

Em relação ao amor, você escolhe seus parceiros, você constrói junto com cada um deles maneiras singulares de estar junto, você exerce sua sexualidade com liberdade, você se bate contra os tabus da sua cabeça, dá de costas ao conservadorismo circundante e se permite ter prazer. Seu corpo, suas escolhas. Bom, muitos torcem o nariz, mas um tanto de gente te valoriza justamente por aquilo que muitos condenam. Outra estrelinha.

Então você encontra alguém, constrói uma relação amorosa, ou apenas vive uma relação de amor da qual engravida. Pouco importa para você essas definições, mesmo que para os outros isso tenha muita importância e os admiradores de toda aquela liberdade e daquela autonomia já estejam quase todos de cara amarrada que você tenha levado a sério essa idéia de construir um caminho pessoal, próprio, seu. Mas, mesmo assim, você ainda terá algum valor: mulher, livre, bem sucedida, com uma profissão, autônoma, viável financeiramente e, agora, com amor e com filhos. Way to go, girl! Você chegou no topo. Todo mundo te aplaude e te inveja.

Ou melhor. Depende.

Tudo isso é admirável e valorizado se, e somente se você for capaz de fazer a mulher biônica e der conta de todos esses investimentos ao mesmo tempo, num lapso de segundo da sua vida onde tudo conflui. Trabalho, amor, filhos. Você tem que arcar com isso tudo. E com brilhantismo. Afinal, não queria ter todos os direitos, oportunidades, condições?

Putz, aí vem a cilada. E quanto mais você é bem sucedida, quanto mais tenha construído um percurso que tenha, aos olhos dos outros, algum valor, mais as pessoas vão te tomar como uma traidora da causa no momento em que você cogitar fazer algo que, para elas, seja altamente suspeito de atentar contra esses tais valores.

O que, reduzir o seu trabalho, seu ritmo, sua produções para cuidar de filho? Que retrocesso!

Aqui na França, um dos berços do feminismo que deu certo, é quase uma heresia ousar pensar em algo parecido. Se der muita importância a isso, pode passar por iludida ou equivocada. Ingênua, no melhor dos casos. Vendida, no caso das radicalizações mais xiitas. Se disser que é prazeroso e realizador estar grávida ou ser mãe, então, capaz de ser apedrejada. Ou, ao menos, perder uma boa parte dos seus amigos. No Brasil, em muitos círculos, digamos, mais “intelectuais” e esclarecidos da nossa sociedade, não é muito diferente. Maternidade? Ok, mas sem muito engajamento. Não sei não, essa mentalidade esquisita me deixa com a pulga atrás da orelha…

Quando foi que uma defesa pelo direito de escolha tornou-se obrigação de uma única escolha? Quando foi que o discurso feminista tornou-se um radicalismo xiita que julga, desrespeitosamente, as mulheres como sendo melhores ou piores a partir do que elas, legitimamente, escolham para si? Um discurso que deveria ser o primeiro a validar que mulheres possam escolher não apenas não ser mãe, como também desejar sê-lo, não apenas trabalhar e conquistar autonomia intelectual e financeira como também priorizar outras coisas que não o trabalho? Onde foi que essa defesa de uma liberdade tornou-se uma prisão em uma única forma de ser mulher e de dar prova de que você é livre, esclarecida, bem-sucedida e feliz?

E desde quando a maternidade não é e não dá trabalho? Desde quando isso vale menos do que um trabalho formal? Talvez desde o momento em que fomos, feministas ou não, engolidas pelo discurso capitalista no qual o que vale é apenas o que é útil, produtivo, rentável. Ao defender mulheres que dão conta de tudo e ao condenar mulheres que escolham dar conta apenas de algumas coisas em detrimento de outras, cá estamos a legitimar o discurso de que pessoas – homens e mulheres – servem apenas quando são peças bem azeitadas de uma máquina cujo objetivo é produzir. Lucro. Veja bem: lucro vale mais do que gente. Produzir gente para continuar dando lucro, maravilha. Parabéns por ter filhos. Produzir gente e se preocupar em participar ativamente para que essa gente seja gente boa, pensante, afetuosa, amante, amada, cuidadosa, generosa, interessada, singular, ética… bom, aí você está produzindo problema, né? Relaxa, vai cuidar “das tuas coisas”, da tua carreira, do teu sucesso profissional. Isso tudo é que é importante. Deixa que a gente cuida do rebentinho para você. Hein?

Se você for uma mulher bem independente e autônoma e bem inserida nessa engrenagem na qual o seu trabalho, qualquer que seja, alimenta o poder nas mãos de um outro, nem pense em tentar se safar com essa idéia de dedicar-se à maternidade e de dedicar-se ao seu filho. Isso é absurdo, é andar para trás, é anti-feminista, é machista, é reacionário. Certo mesmo é não baixar a guarda, não abrir mão, não recuar naquilo que conquistou. Se não você vai perder tudo, viu? Mas a pergunta importante, nesse momento, seria: perder o que? Em nome do que?

Veja bem, se quer mesmo tanto ser mãe, vá lá. Mas faça do jeito certo: concilie tudo. Seja ainda mais máquina. Seja um automato pensando que é um autônomo… Todos vão te dar a maior força: vai, é assim, você consegue. E, o pior, você também acredita. E se o investimento no trabalho muda… culpa. E se não consegue, em meio à sua rotina insana, ainda dedicar-se à gravidez, curtir, estar feliz ou, depois, ser o que dizem que é “uma boa mãe”… culpa. A culpa é sua, minha senhora, que não está fazendo bem o bastante. Não ajustou as peças da maquininha que é você para funcionar direito. Você acredita que é possível, que tem que dar conta e, mais grave ainda, que é exatamente isso o que quer para você, para sua vida e para a do seu filho. Será mesmo que quer? Você parou para pensar o que quer com ser mãe?

Ao invés de dar conta, por que não dar as contas para essa lógica perversa?

Depois de mais de 15 anos trabalhando de sol a sol, depois de um percurso profissional muito bem sucedido, depois de duas especializações, uma formação, um mestrado, um doutorado, dois pós-doutorados, um fora do Brasil, artigos publicados, livros, palestras e afins… Depois de tanto trabalho e de tanta conquista, quando eu me descobri grávida e percebi que todas essas coisas ganhavam um outro lugar agora… (e olha que nem foi uma idéia de desistir, de largar tudo, apenas a constatação de que coisas, projetos e investimentos mudam de lugar…). Depois de todo esse percurso, tornei-me uma ameaça para várias pessoas apenas por cogitar viver minha gravidez, aproveitá-la, experimentá-la, descobrir com ela. Uma ameaça de retrocesso por pensar que isso, essa experiência, ter um filho pode ser tão bom e tão valioso quanto tudo o que fiz. E por querer me dedicar a isso do mesmo modo como sempre me dediquei a tudo, ou seja, intensamente.

Ainda bem que sempre têm algumas poucas pessoas que conseguem sair da caixinha pré-formatada e pensar com a própria cabeça e que são capazes de dizer: “viva isso, é legítimo tanto quanto tudo o mais que você já viveu” para te dar um alento, não? Parece que vira e mexe resvalamos em um clichê: do “a maternidade é uma benção” para o “seja mãe, mas não seja apenas isso” para o “seja independente e invista em você, na sua carreira, no seu futuro”… Arremessadas de um lado para o outro, sempre às voltas com algum imperativo sobre o que fazer, como fazer, como ser, como sentir, o que viver. Putz, alto lá!

Então, se eu posso dizer alguma coisa de útil é: “viva isso”. Não deixe de viver sua gravidez porque todo mundo, inclusive você, enfiaram na sua cabeça que é preciso dar conta de tudo, que não pode parar, diminuir, recuar, que tem que continuar independente, trabalhadora, bem-sucedida, o que quer que essas palavras signifiquem. Trabalhe, se isso faz sentido. Trabalhe mais, menos, mude de rumo. Mas não caia no engodo de que isso que você está vivendo é uma coisa banal e sem importância que não deveria alterar sua rotina, nem mudar seus projetos que, esses sim, são fundamentais. Pensar assim, a meu ver, é negar a realidade de que uma gestação muda sim seus planos, seus projetos, sua rotina, seus desejos, suas prioridades. Para o melhor e para o pior. De todo modo, algo muda. E qual o problema? Por que é que a maternidade não pode ser importante a ponto de mudar uma pessoa?

Talvez, para essa cultura do sucesso, do êxito, do reconhecimento a qualquer preço seja realmente um problema que, em algum ponto, as pessoas passem a se questionar se é isso mesmo o que importa. Mas, afinal, o que você prioriza na sua vida: ser aquilo que dizem que é o que vai te realizar e te fazer feliz ou tentar descobrir o que, na sua vida singular, te traz realmente alguma realização e alguma felicidade?

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984
George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães
D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

Você vai perder…

(version française ici.)

… noites de sono, seu sossego, sua liberdade, as baladas com os amigos, as viagens, os
momentos de intimidade apaixonada quando dá na telha… Você vai perder. Muito. Engravidou, vai ter um bebê e vai perder. Já começa perdendo. É o que dizem os abutres de plantão, por vezes disfarçados de parentes, amigos, conhecidos ou desconhecidos de boa vontade, sempre com um sorriso nos lábios, te felicitando pela sua gravidez. A sua vida vai mudar totalmente.

Sempre fico na dúvida nessas horas. Será uma total falta de bom senso que impulsiona esse tipo de comentário ou apenas um gostinho de vingança mal disfarçado de que aquela pessoa ali, aquela barriguda agora vai saber o que é a tal “vida de verdade” onde pessoas perdem. Bem vinda ao clube, amiga! Subentendendo-se: mais uma para partilhar da frustração que é essa vida. Como dizem por aí: “chuta que é macumba!”

Sai para lá com seu fel disfarçado de simpatia e de experiência. Que eu não preciso disso. No momento, o que preciso é cuidar da minha vida, da nossa vida e de garantir todo o bem estar e todo o conforto para a pequenina que está aqui na barriga. Logo mais, vou precisar de outras coisas. E deixo para logo mais o que é de logo mais. Nada disso te diz respeito. E nada disso cabe na sua máxima de “você vai perder”. Uma gravidez não necessariamente se encaixa na sua lógica de perdas e ganhos, sabia?

É curioso: porque será que quando alguém engravida tanta gente assim se regozija em anunciar tudo o que você vai perder com a maternidade? Por que essas pessoas não falam do que você vai ganhar? Será que é mesmo para te preparar para o quanto é difícil? Mas o quanto é difícil?

Eu fico mesmo é com o meu querido Freud – aquele, o tal do Sigmund – que, há pelo menos cem anos, indignou as pessoas e suas mentalidades com a constatação de que boa parte de nosso sofrimento tem justamente a ver com a dificuldade que temos em perder alguma coisa. Nós, os neuróticos comuns e banais, passamos a vida tentando fazer a contabilidade da existência da maneira mais mesquinha possível. Perder o mínimo. Perder nada. Perder parece um horror. Então, cada escolha da vida que envolva uma perda gera um sofrimento quase pânico e coloca a pessoa para trabalhar, para adoecer, para tentar achar uma saída que a impeça de perder. Só que perder nada é perder tudo.

Tem gente que fica colado no que está perdendo. O tempo todo de olho naquele centavo que se esvai. Como se escolher não fosse sinônimo de renunciar, de perder algo para ganhar outro algo. Que escolha não envolve perda? Que escolha não implica abrir mão? Que escolha não é aposta na possibilidade de “x” apesar de “y”?

E tem gente que fica em situação mais aprisionada ainda, acha que descobriu a pólvora e que, se não escolher nada, não perde nada. E daí vai, obssessivamente vida afora, nessa espécie de paralisa das escolhas, acreditando que sem se comprometer está evitando qualquer renúncia. E sem se dar conta de que, não tendo escolhido, perdeu para todos os lados. E que ficou sem nada. Tempos estranhos em que a imobilidade parece uma boa opção para não optar. Tempos estranhos em que o “jeitinho” parece uma estratégia eficaz para ter tudo.

Provavelmente, quando essa pessoa inconveniente curiosa se aproxima de uma grávida dizendo tudo o que você vai perder, não se trata nem de falta de noção, nem de má fé. É apenas ela dizendo o quanto é um mal perdedor. É apenas um jeito pobre de olhar para a vida, priorizando o que se perde no lugar do que se ganha, priorizando o que não se tem no lugar daquilo que se constrói. Pobreza de espírito que não permite à pessoa perceber nem o que ganhou com suas escolhas, quanto mais que possa ver nas escolhas dos outros alguma positividade. A maior parte das pessoas, infelizmente, prefere ficar colada naquilo que lhes falta.

Não estou pregando um olhar cor-de-rosa, onde a gravidez e a maternidade sejam apenas uma propaganda de doriana que se estende por toda a sua vida. Muito menos estou dizendo que não se deve falar sobre o que é difícil, penoso, sofrido nessas experiências. Não, é justamente o contrário. Estou dizendo que levar em conta uma escolha que se faz pela maternidade com TUDO aquilo que ela implica já inclui o “bom” e o “ruim”, o que se “ganha” e o que se “perde”. Ninguém precisa nos prevenir daquilo que já sabemos (quando já sabemos, é claro): que a maternidade, como tudo o que é da vida, traz perdas e ganhos. Pois é uma escolha e, como escolha, seu limite está dado no próprio ato de escolher. E, ainda assim, isso é tão relativo…

Quem sabe o que é bom ou ruim para uma outra pessoa? Quem sabe o que é um ganho ou uma perda para alguém? Posso achar que é uma renúncia terrível não poder mais sair à noite para a balada com os amigos, mas e se a barriguda ali detesta balada? Então, essa história do você vai perder já começa furada pelos valores e pelos preconceitos de cada um, os quais aquele que fala esquece que podem não ser os valores do outro. Falta de respeito pensar que o que eu acho que você vai perder é o que você vai perder realmente e que, ainda por cima, isso é uma tremenda catástrofe para você, do mesmo jeito que foi para mim. As pessoas gostam de falar como se pregassem, como se o mundo fosse apenas o reflexo do que elas são e como se elas soubessem o que você perde e o que você ganha quando decide ter filhos.

E, ainda, parecem desconsiderar que quem fez essa opção, de um jeito ou de outro, na medida em que foi capaz de escolher, já conta com renúncias. Mas também já escolheu passar por alguma coisa, viver algo que julga importante. A menos que tenha optado pela maternidade pensando que vai dar para não perder nada, e que acredite naquele ideal de mulher moderna que é simplesmente tudo e tudo muito bem. Mas, daí, já é outra história. Ou o reverso da medalha dessa mesma história de quem adora falar do que você vai perder quando te descobre grávida. Um sujeito colado na perda que não consegue se conformar em perder nada e uma outra colada na ilusão de plenitude de que vai dar para engravidar, ter filhos e não renunciar a nada. No fundo é a mesma coisa, tanto para um quanto para outro: um assombro, um medo pânico de perder que ou te deixa fixado nisso, contando os centavos de existência e lamentando ter que pagar por ela, ou te coloca em estado de negação, achando que vai dar para escapar, que você será a exceção à regra.

Você perde, eu só ganho… Será mesmo que ter filhos se inscreve nesse binômio empobrecido de ver e de viver a vida? Qual será o sentido de botar alguém nesse mundo já de cara com o peso de que ele te tirou alguma coisa, de que ele te obrigou a renunciar, de que você se sacrificou por ele? Ou de que ele te fez completa, plena, capaz de tudo, de que ele te deu ou tem que te dar tudo? Em nome das tuas perdas, ele vai ter que te compensar? Ele vai ter que te dar o que você perdeu e fazer valer suas renúncias? Não sei não, acho que nessa lógica contábil de olhar para a maternidade apenas pelo viés das perdas e ganhos, não apenas você sai esmagada pelos abutres de plantão que te fazem acreditar que você perde muito e que perder é muito ruim como o seu filho, que nem pode se defender, sai perdendo desde antes de sair da barriga, em dívida contigo pelo simples fato de existir, tendo que te compensar de uma coisa muito ruim que foi você ter abdicado de algo… Putz, que cilada! Será mesmo que a gente quer viver nessa lógica? Eu não, obrigada.

Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França
Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França

O sexo do bebê e sexo dos anjos…

Segundo ultrasom, antes ainda das 22 semanas – porque aqui na França, os obrigatórios e reembolsáveis pela seguridade social são os de 12, 22 e 32 semanas – e o médico lança, não antes de eu ter gentilmente perguntado: ah, isso é uma menina! Assim, como se fosse uma evidência. E isso, vulgo, meu bebê, virou minha bebê, nossa bebê(zinha).

Das coisas que trazem um senso de realidade, de concretude a uma gravidez, saber o sexo do bebê pode ser colocada ali nos “top 5” da lista. Ver o bebê, como já escrevi antes, ouvir seu coração e, agora, saber se é menino ou menina encarnam profundamente esse acontecimento no corpo. Ou, ao menos, encarnam profundamente a consciência de estar gestando dentro da sua cabeça, dos seus sentimentos, das suas fantasias, das suas representações. O que, já diria o bom e velho Freud, é a mesma coisa. Não existe corpo que não seja banhado de alma, de psiquismo, de subjetividade. Corpo organismo, assim, seco, objetivo, cru, apenas os médicos, esses seres estranhos, é que insistem em apregoar. Talvez mais como proteção do que por real convicção, afinal, se eles forem pensar o tempo todo que aquele corpo ali é uma pessoa, como é que vão abrir um tórax, um crânio, realizar uma cirurgia? Enfim…

Mas corpo não é isso, né? Um exemplo: basta ver uma mãe cuidando de um bebê para se dar conta de que o corpo é tudo menos uma objetividade, pois cada vez que um bebê é tratado apenas como um organismo, ele adoece. Uma mãe trocando uma fralda é um toque, um olhar, palavras, sorriso, carinho, calor. Ou até ansiedade, insegurança, cansaço, irritação, pressa… não estou discutindo a qualidade da troca, mas o fato de que ela existe e que ultrapassa o que seria um gesto objetivo, em que as particularidades e os afetos dos dois que estão ali não participariam. Ou seja, trocar uma fralda nunca é o mero ato técnico de cuidar do corpo do bebê esmerdeado. E as imagens do ultrasom, o som do coração do bebê batendo acelerado nunca são apenas os indícios de boa saúde, ou as boas medidas, os bons indicadores do tempo, dos progressos e do estado de uma gravidez. Mesmo que seja apenas isso que conste do relatório do médico, para você é muito mais.

Ainda bem. Porque enjôos, cansaço, sono são bem legais como sinais de gravidez mas, não, são horríveis. Quem gosta de passar três meses enjoando noite e dia, tendo como ruído de fundo permanente um corpo barulhento que se estranha com sua nova condição? Não come, enjoa, come, embola e tem azia, e assim seus dias passam a ser medidos pelos tempos e pelos intervalos entre enjôos e azias e você torce para que ao menos a tal história de que passa ao final do terceiro mês seja verdadeira e a cada vez que lê os relatos de gente que enjoou até um último segundo do último dia do último mês pensa em como vai resistir comendo apenas abacaxi, laranja, mexerica e maçã por todo esse tempo e já se imagina transformando-se em uma pessoa amarela e ácida como as frutas que você consegue comer e… afff…

Corpo bom é corpo quietinho de todas essas turbulências. Corpo em revolução por conta de uma gravidez dá uma trabalheira danada. E um baita mau humor. Até que as imagens, os sons, o sexo do bebê partem em seu socorro e te devolvem a dimensão de porque tudo aquilo está ocorrendo. E você olha para trás, um tempo bem recente, algo como um mês atrás e se diz: ah, nem foi tão ruim assim.

Gustav Klimt: Hope II / 1907/08
Gustav Klimt: Hope II / 1907/08

Fala com a barriga!

Aura Satz - Ventriloqua - 2003/4
Aura Satz – Ventriloqua – 2003/4

No começo achei estranho. Como se fosse um ser delirante daqueles com os quais vivo trombando pelas ruas ou metrôs dessa cidade, lembranças de um passado no qual convivia com eles, psicóloga recém-saída das fraldas da faculdade, em um serviço público de saúde mental que praticamente formou não apenas a psicanalista que sou, mas boa parte de minhas convicções sobre os seres humanos e suas subjetividades. Bons tempos aqueles em que conviver com loucos era a construção de uma possibilidade de existir… Mas, enfim, há loucos que, em meio a seu delírio, falam sozinhos, falam com as paredes, falam com o vento, com o ar, com o céu, com sabe-se-lá-o-que. E sabe-se-lá se obtém resposta.

Então, falar com a barriga? Com essa herança forjada pela minha história profissional? Tsc, tsc, não sei não…

Mas os livros, os sites, os blogs, os experts de ocasião todos aconselham: fala com o bebê! Mais uma daquelas imposições arbitrárias que supõem que todo mundo é mãe do mesmo jeito, ama do mesmo jeito e demonstra afeto do mesmo jeito. Que mãe desnaturada não vai querer falar com o seu pequeno?

Xiii, devo ser eu, porque mantive minha hesitação.

Mas, tenho que confessar que falo com as minhas gatas. Tudo bem, elas estão aí, fora de mim, eu posso vê-las, elas reagem com um miau ou com um simples olhar de profundo desdém pelo que quer que eu esteja dizendo. E olha que eu sempre tive medo de virar aquela lendária velha dos gatos: sozinha, meio louca, meio descabelada, falando com seus gatos como se fossem gente. Putz! Entre a velha dos gatos e falar com a barriga, até que a distância nem é tão grande, não?

Esse foi um bom argumento.

Mesmo sabendo que ali está uma outra pessoa, dentro de mim, que pode estar ouvindo o que digo, já disse em algum outro canto deste blog que sou uma mulher do tempo das imagens, um São Tomé contemporâneo, que precisa ver para crer e o que eu vejo é minha barriga, o bebê escondidinho ali dentro. Então, falar com o bebê é falar com a barriga. Quase um exercício de abstração para essa que vos fala e… putz! Eu falo com leitores no blog que nem sei quem são ou se existem, falo no twitter, no facebook… eu, como a maioria de nós, seres viventes nessa era virtual, falo sozinha! Socorro!!!

Frente à constatação de que, no nosso mundo atual, já falamos mais sozinhas, com as paredes, com as telas, com os celulares do que com gente de carne e osso ali na nossa frente, tive que capitular e tentar. E, há cerca de um mês, em uma noite de insônia durante a semana em que minha barriga decidiu que ia dar mostras de sua existência, fazendo com que eu perdesse em poucos dias todo o meu guarda-roupas, comecei a falar com ela. Comecei falando com a barriga e, quando dei por mim, estava falando com o bebê, contando a ele (ou ela) quem está aqui do lado de fora esperando por ele. Eu. Papai. Minha família. Sua família. Meus amigos queridos. As gatas… Se ele (ou ela) escuta ou não, o que escuta, o que entende do que escuta, eu não faço a menor idéia. Mas é uma bela maneira de tornar ainda mais real a existência desse serzinho que se guarda ali, nos mistérios de uma barriga de mamãe grávida.

Outras sobre o conversê com a barriga: aqui.

Um mundo de imagens

(version française: ici)

Não há dúvidas de que vivemos em um tempo de imagens, bombardeados por todos os lados por um excesso delas. O que aparece como imagem ganha ares de verdade, tanto a imprensa quanto a publicidade sabem bem disso. Ao longo de uma gravidez, não poderia ser diferente.

Não consigo imaginar como faziam as nossas avós. Ou até mesmo as nossas mães, antes da invasão desse mundo de imagens também para o que diz respeito à maternidade. Elas descobriam que estavam grávidas – sem teste de farmácia ou de sangue, vejam bem  – e a coisa toda devia acontecer ali, dentro delas, de um jeito bem enigmático. Os sinais deveriam se limitar apenas àqueles que o corpo dá: os enjôos, o cansaço, o ganho de peso, a barriga que aparece e muda de forma. Isso até o bebê começar a se mexer e esses movimentos sinalizarem da forma mais contundente que ali tem alguém. “Alive and kicking”. Até mesmo para saber o sexo do bebê era necessário confiar nesses indícios sinuosos, opacos, corporais, intuitivos… Barriga pontuda, barriga redonda e por aí vai.

Hoje em dia isso tudo virou praticamente lenda. Toda essa opacidade, todo esse mistério de uma gestação que envia seus sinais deu lugar à clareza, à contundência das imagens, dos exames, dos resultados. Como se tivéssemos jogado um feixe de luz intenso sobre os segredos de um corpo em gestação para, no lugar das dúvidas e das suposições, instalar certezas. Menino ou menina? Saiba antes, facilita na compra do enxoval e na escolha do nome. Claro que não serve apenas para isso, para o comércio, para o mercado, para ajudar no consumo. No entanto…

Um mundo de imagens nos invade ao longo da gravidez. Testes, exames, resultados, ultrasons. Tudo em nome de verificar a saúde e o bem-estar do bebê. Descartar problemas, descartar anomalias, descartar malformações… você entra em estado de alerta permanente, cada exame um risco, cada resultado um risco afastado. Como se a gravidez fosse um perigo constante de algo dar errado quando, na imensa maioria das vezes, ela simplesmente vai bem, obrigada. O que aconteceu para transformar uma gestação em uma situação de risco, a ser monitorada permanentemente, como se uma ameaça pairasse sobre a barriga de todas as grávidas e coubesse a esse mundo de imagens nos vigiar e evitar o pior? Quando foi que gravidez virou doença?

Fui ao tal ultrasom morfológico e o médico, muito gentilmente, me bombardeia com aquele excesso de clareza: o bebê tem duas mãos, cinco dedos em cada mão, dois braços, dois pés, duas pernas, dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca… Bom, mas é assim que tem que ser, não? Não ignoro que às vezes surgem problemas e que identificá-los a tempo pode fazer uma grande diferença para o bebê e para os pais. Não se trata aqui de um discurso obscurantista contra as vantagens de nosso tempo de luzes, longe disso. Mas, convenhamos que falar do que é o mais normal dessa maneira faz qualquer pessoa ficar com o coração apertado, sentindo que tem muita sorte de tudo estar tão bem… Mas não! É assim! É assim que as coisas são, ninguém está te fazendo um favor ou uma caridade de te dizer que teu bebê é “normal”. Mas ali, na sala de exame, você sente como se tivesse que agradecer essa concessão que o médico e o mundo das imagens te fizeram por não te anunciar algum dos inúmeros perigos que ameaçam a você e ao seu pequeno.

Mas, ainda bem, não é só isso. Em meio a essa perversão toda de como se pode viver uma gestação nos dias de hoje, algumas vezes as imagens e seu facho de luz conseguem servir a coisas mais interessantes. Nesse mesmo ultrasom, depois do choque inicial de ter que agradecer aos céus pelo bebê ter duas mãos, dois pés e etc, consegui ter sangue frio o suficiente para parar de prestar atenção no que o médico estava dizendo – pode fazer isso sem culpa, depois vai tudo escrito no laudo mesmo – e começar a ver aquilo para o que estava olhando… O bebê ali, todo bonitinho, sacudindo os braços, cruzando e descruzando as pernas, jogando pernas pro alto, balbuciando, chupando os dedos… em meio ao bombardeio, eis ali o bebê, o meu bebê, o nosso bebê todo faceiro, fazendo graça, brincando e se divertindo na barriga da mamãe, que é a barriga do bebê agora. Como não se emocionar com isso?

Não tem jeito, eu sou uma mulher da época das imagens. Eu trabalho com elas, as imagens das artes, as imagens dos meus pacientes, dia após dia, de seus mundos de sonhos. A imagem do bebê traz para mim mais senso de realidade do que os enjôos, o cansaço e todos aqueles sinais insondáveis que minha mãe e minhas avós sabiam tão bem ler e que eu perdi. O excesso traz, às vezes, a exceção, o caldo de imagens que consegue fazer com que algumas dentre elas se destaquem, fiquem mais importantes do que as outras e causem uma marca indelével em quem as viu. Acontece, às vezes, na arte. Acontece, às vezes, até mesmo em um ultrasom.

Ron Mueck: "A girl" (2006)
Ron Mueck: “A girl” (2006)

Todos os tempos da gravidez…

Sempre achei que o tempo não passa de forma linear, mas em blocos. Você passa boa parte da sua vida se percebendo com uma certa idade e, de quando em quando, toma um choque frente ao espelho, ou quando alguém te chama de senhora pela primeira vez, ou quando não faz idéia de quem seja Justin Bieber, ou em qualquer situação em que seu corpo ou sua cabeça dão mostras de que não acompanham mais tão agilmente o ritmo frenético dos acontecimentos de cada dia… Enfim, algo acontece e todo o peso dos anos passados desapercebidos cai sobre suas costas de uma vez só: tudo mudou, você é quem não tinha visto.

A persistência da memória - Salvador Dali - 1931
A persistência da memória – Salvador Dali – 1931

Na gravidez o tempo parece que passa também dessa forma engraçada, aos trancos e barrancos, seguindo ritmos de luas, de semanas, de sonos e sonhos… O corpo revoluciona e convulsiona e trabalha sem parar para se adaptar à todas as mudanças e isso dá um cansaço danado que faz com que tudo ande beeeem mais devagar. O corpo corre, o corpo pára. E a cabeça faz o mesmo, borbulha todos os pensamentos os melhores e os piores e cozinha tudo ali, o tempo todo, um caldo de idéias e sensações que fica de ruído de fundo para todos os pensamentos que têm que ser pensados, todos as ações que devem ser feitas, todo o cotidiano que deve ser cuidado e que não entra em modo “pause” somente porque você está grávida e precisa de tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo… Como ganhar tempo quando se tem prazo? Porque nem o bebê vai poder esperar você arrumar a sua vida, a sua cabeça, a sua casa, a sua relação… até porque sabemos bem que se o bebê e a vida fossem esperar o nosso momento ótimo, putz, coitados, né? O bebê completaria cem anos ali na barriga e a vida teria parado no homem de Neandertal, que estaria até agora pensando se estaria pronto ou não para se misturar com o homo sapiens…

 

Bom, se o tempo urge, também é reconfortante saber que temos ainda algum um tempo. Em poucos meses as coisas vão mudar ainda mais e o bebê vai precisar de muito mais do que aquilo que dá para garantir ali no quentinho da barriga sem precisar pensar muito porque o seu corpo sabe bem o que fazer. Ufa. Mas quando o pequeno estiver ali fora, no mundo, vai precisar de um pouco mais do que necessita hoje. Ou melhor, possivelmente vai precisar das mesmas coisas, mas de um outro jeito, no qual precisará um pouco mais de você. Deve ser quando o peso todo do mundo e da vida tomba novamente sobre as suas costas e você vira mãe. Vi isso acontecer uma vez, uma cena linda e tocante, quando meu sobrinho chorou no quarto da maternidade e apenas minha irmã e eu estávamos presentes. Nos entreolhamos, como quem se pergunta: cadê a mãe desse pequeno para nos acudir? E, em menos de um segundo, minha irmã passou da dúvida ao susto e desse à constatação de que a mãe era ela, de que não havia nenhuma outra, apenas ela para ser mãe daquele bebê ali, naquele instante. E acudir. Acho que ela envelheceu uns 10 anos em poucos segundos. E virou mãe também.

 

Atlas.
Atlas.

A nova matemática.

Street art - Vila Madalena, São Paulo, Brasil.
Street art – Vila Madalena, São Paulo, Brasil.

1+1=3 agora… matemática renovada. E não é a única conta que você vai ter que aprender a refazer.

Não interessa como você aprendeu a contar o tempo. Relógio, sol, lua, estrelas, ampulheta… horas, minutos, segundos. O tempo entre dois aniversários, dois acontecimentos importantes. O tempo entre um telefonema e um encontro. O tempo de uma sessão de análise. O tempo entre dois tweets, dois sms, uma postagem no facebook… Agora, nada disso tem mais serventia e você vai ter que contar em… semanas. Semanas, veja bem. Antes mesmo de um bebê existir dentro da sua barriga, ele já tem duas semanas. Hein? Alguém teve a brilhante idéia de contar o tempo de vida de um bebê durante a gravidez desde o momento em que ocorreu a última menstruação da sua progenitora. E alguém teve a brilhante idéia de determinar, para fins práticos, que a ovulação ocorre cerca de 15 dias depois do início dessa última menstruação. Ou seja, antes mesmo que você ovule, transe e engravide, pelas contas padrão, seu bebê tem duas semanas. Então, os livros começam todos pela terceira semana, que é quando o sujeitinho aconteceu ali, começou a existir. E colocam, para te ajudar, a idade gestacional e a idade real do bebê: a 3 semanas de gestação, bebê tem uma semana… Como assim? E essas tais de semanas, começam quando? No dia da última menstruação? Mas se você não ovulou com a precisão de um Big Ben londrino, em exatos 15 dias e se sua ovulação adiantou ou atrasou, ou se os espermatozóides do seu amorzinho ficaram ali no bem bom, curtindo uma onda, no quentinho, por um ou dois dias (pois é, bichinhos resistentes esses, quem diria!) você conta a partir de quando? Da data da última menstruação, da data calculada como o dia em que você engravidou… qual é a maldita data?

Ainda bem que alguns sites ou aplicativos – sim, eles existem também para grávidas e gravidez, senhores, tremei!!! – ainda bem que hoje em dia você pode colocar a data da última menstruação em algum lugar do cosmos digital e uma matemática programada também qualquer calcula para você em qual semana de gestação você está. Calcula, claro, sabendo que vai dar errado, porque pode ser um pouco mais para lá ou para cá, assim ou assado… enfim, as imprecisões da vida sempre nos atrapalhando quando precisamos acreditar que sabemos alguma coisa, nem que seja um reles número. E o pior é que cada pessoa com quem você falar vai te perguntar há quanto tempo você está grávida? Todos vão te perguntar com a seriedade e a propriedade de um connaisseur… E se você titubear, ou se arriscar responder: faz um mês, dois, um pouco mais de dois… nossa! Melhor acostumar-se a fazer contas, para dar a impressão que você está totalmente integrada em seu novo e agora único papel daquela que conta em semanas, em luas, em ciclos. As pessoas olham com desprezo e desconfiança para uma mãe que não conta em semanas, não fala sobre enjôos e não acaricia a barriga como quem posa para uma fotografia que retrate a imagem da pura felicidade. Horrorizadas com o “seu descaso”, parece que consideram se vão chamar o serviço social, no mínimo. Você engravidou, agora agüenta o baque, minha filha. Volta para a escola e refaça as contas da vida. E na hora da chamada oral, ao invés de responder direitinho quanto é 7×7, saiba dizer de pronto quanto é 1+1. Em semanas.

A enxurrada dos outros…

OK, a ficha caiu, você entendeu que está grávida, que é real, de verdade, encarnado nas entranhas, cotidiano, inesperado… Você percebeu que segue o curso da vida, que faz parte da vida, sem cena de filme, slow motion, música de fundo, happy ending e tudo o mais que o imaginário hollywoodiano perversamente ajudou a enfiar na sua cabeça, dando o falso nome de romantismo a todas essas expectativas infundadas… Você está quase segurando a própria onda, mas então vêm os outros. Já dizia o velho Sartre: “o inferno são os outros”. Para o melhor e para o pior. Na alegria e na tristeza. Putz…

Minhanossaparabénsquecoisalindaquemaravilhavocêquistantodeveestaremestadodegraça… (Oi? Calma, deixa eu respirar, respira um pouco também, toma um chá, fuma um cigarro.) Não, porque você não fuma, né? Porque agora, vai ter que parar. Tem que cuidar do seu bebê. Aliás, beber, não pode. Faz mal pro bebê. Comer peixe cru, é proibido, você não sabe? Carne crua então? Banida para todo o sempre amém até o fim da amamentação. Olha, esfrega os peitos com uma bucha para não rachar. Esfrega mesmo, não para ficar hidratado, mas para virar uma crosta. Você já sabe se é menino ou menina? (Dãh…) O que você prefere? Ah, que bonitinho, vai ser a cara da mãe, do pai, dos avós, dos irmãos, do cachorro, do papagaio, do padeiro. Sempre soube que você seria mãe, você nasceu para ser mãe. (Hein?) Vai ser bilíngüe, que belezinha, falando português e francês, que amor. Olha, tem que se alimentar direito, dormir bem, até mesmo porque, depois que nascer, você nunca mais vai dormir na sua vida.

Babel - Cildo Meireles - 2001
Babel – Cildo Meireles – 2001

Sério, de onde as pessoas tiram esses comentários? Elas querem comemorar com você ou te fazer se jogar pela janela? Nada pode, faça isso, faça aquilo, nunca mais, acabou sua vida de tranqüilidade, sossego, casa arrumada, viagem, festa, amigos, sono, pele boa. É o quê? Um parabéns às avessas? Uma sede de vingança? Porque eu custo a acreditar que as pessoas realmente pensem que aquilo que elas estão dizendo, as dicas, o compartilhamento de suas experiências as mais grotescas tratando de cocôs, vômitos, doenças, perebas, celulites, estrias, peitos caídos, sobrepeso, cansaço, falta de sono e mais enjôos e enjôos e enjôos… duvido que os próprios seres falantes acreditem do fundo de seus coraçõezinhos que esse conversê todo ajuda a quem está do outro lado da linha, ali, ouvindo. Deve ser uma forma de evacuar, uma catarse, um exorcismo: falar de todo o horror com um sorriso no rosto, o olhar cúmplice e o tom de voz reconfortante de um parabénsestoutãofelizporvocê… E você com olhos de terror. Pois, se você tem ouvidos e eles escutam bem, os olhos reagem de acordo e viram duas estrelas estaladas na sua cara, prontos para sair correndo junto com todo o resto do corpo se ao menos você conseguisse fazer suas pernas te levantarem e correrem, correrem, correrem para o mais longe possível.

E então vêm os livros, os sites, os blogs (ops!), os fóruns, os programas na TV, os filmes, o John Travolta, a Kirstie Alley e o bebezinho tagarela do Olha quem está falando e você se percebe mergulhada em uma Babel de falas, palavras, frases, línguas… um ruído ensurdecedor, enlouquecedor. Tentar acompanhar, seguir, se orientar em meio a isso vira uma tarefa hercúlea, fadada ao fracasso. As opiniões, conselhos, orientações, tudo se contradiz, ninguém sabe o que fazer… qual é o caminho certo? Qual é o único caminho certo, a verdade?

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Tem gente que se salva no médico e no saber médico nessas horas. Toma as palavras do médico como cânones religiosos e segue à risca tudo. Tudinho. Mas isso não garante nada, não é mesmo? Se garantisse, todos os casos de inseminação artificial – situação na qual a gravidez não poderia ser mais controlada, vigiada, manipulada e orientada pelo saber médico – seriam bem sucedidos. Se os médicos soubessem exatamente o que fazer, como fazer ou quando fazer para garantir que uma gravidez corra bem, não teríamos, em tempos de primazia do saber e do poder médico sobre os nossos corpos, nenhuma gravidez que vai mal. Mas não é bem assim. E a gente, na angústia de perceber nossa falta de garantias, nossa vulnerabilidade ao acaso em uma hora como essas, prefere se confortar imaginando que a gente não sabe, mas alguém sabe. Alguém há de saber que tudo há de correr bem: o médico, a ciência, a nutricionista, o padre, o astrólogo, o psicanalista, Deus… Outro bom e velho, o Freud, já dizia que nós, os neuróticos, quando não podemos mais negar a nossa própria insuficiência e falta de garantia sobre nossa própria vida, quando não podemos desviar mais os olhos, arrumamos ainda um último suspiro e, numa tacada de mestre, deslocamos para outra pessoa a onipotência que vamos nos vendo perder: eu não posso, mas alguém pode. A onipotência da mãe não castrada, frase difícil, mas tão simples e verdadeira como o senso comum que se apressa a dizer que sempre existe, em algum  lugar, uma festa incrível acontecendo, para a qual você não foi convidado. Você está excluído, mas alguém está lá. Então, é só questão de descobrir como fazer para estar lá você também, como tampar os buracos, como conseguir todas as garantias. Alguém já viu vida com atestado de garantia? “Se você viver assim, vai ser feliz para todo sempre…” Ah, sim, nos contos de fada e nos filmes acontece… oh, wait!

Bom, o fato é que os outros engatam a quinta marcha da verborragia e você não sabe mais nem o que pensar ou por onde começar. E tudo isso porque você tem que estar muito, muito, muito feliz. Ouvido de penico e sorriso estampado no rosto, a imagem do estado de graça. Tentando seguir todos os conselhos. E fazer tudo certo. Certo?

Não. Donald W. Winnicott, um psicanalista inglês que era, também, pediatra entendeu, para a nossa sorte – ou a minha, ao menos – que uma mãe boa é uma mãe que é suficiente. Suficiente. Não perfeita. Não total. Não inteiramente certa. Em suas consultas como pediatra e como psicanalista, ele se deparou com muitas situações envolvendo as mães e seus bebês e adiantou – visionário – o que ia se intensificar no nosso século, chegando às beiras do insuportável: temos um excesso de falas, um excesso de saberes, um excesso de ditos, uma cacofonia absurda e enlouquecedora a respeito da maternidade. Uma cobrança pela perfeição, em meio à todo esse barulho. Enquanto que, segundo ele, se deixarmos um espaço para que essa mãe exista, ela vai achar o seu caminho como mãe. Ela vai fazer o melhor. Ela vai ser suficiente. E suficiente, é bom. Menos barulho, menos informação, menos conselhos, menos dicas, talvez faça sentido o silêncio que me acomete nesse início de gravidez. Silenciar para gestar. Silenciar para encontrar o quê e como fazer. Shhhhh…

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A enxurrada.

Eu contei a ele. Ou melhor, mostrei o teste de farmácia e ele ficou bem mais calmo do que eu. Também, já tem três filhos e eu, marinheira de primeira viagem, entre o riso, o choro e a negação pura e simples. Isso é bom, isso é maravilhoso, isso é péssimo, isso é um pesadelo… E agora, o que faço das minhas viagens, trabalho, pesquisa, roupa de mergulho, balada com os amigos? O que faço dos projetos que eu tinha, ou do conforto acomodado de acreditar que eu sabia quais projetos tinha, o que iria fazer em seguida, onde estaria amanhã ou depois… o que fazer de todas essas certezas?

“Você está gestando. Está em estado de graça. É uma coisa maravilhosa.” Isso era a última coisa que eu precisava ouvir, esse chamado para o enquadramento, essa exigência da felicidade absoluta, esse fim de todas as questões. Porque antes de ficar feliz, alegre, eufórica com a notícia – ou ao mesmo tempo em que ficava feliz – eu precisava de espaço, de tempo e de autorização para ficar outras coisas também: tensa, indiferente, descrente, triste, irritada, preocupada, apavorada… Uma enxurrada de coisas, uma retrospectiva de toda a minha vida, de tantas vezes que desejei isso, de toda a minha história com ter filhos, dos tempos em que quis, não quis, quis de novo, não quis mais, tentei, desisti… E agora, justo agora?

Pois é, agora mesmo. Lembro de uma mulher que passou anos fazendo tratamento para engravidar. Anos. Ela tinha mais de 40 quando a conheci. E tentava. A vida girava em torno disso, era muito importante. Ela sofria horrores. Uma dor de alma a cada dia. E haviam dito para ela que na hora em que você relaxa, esquece, deixa para lá, a cosia acontece. E todos aqueles exemplos de mulher que não conseguia engravidar, adotou e ficou grávida no minuto seguinte. Ou daquela que separou e engravidou de uma aventura no minuto seguinte. No minuto seguinte à desistência, acaba acontecendo. Essa mulher tentava se convencer de que desistiu. Tentava desistir sem ter desistido, assim como quem tenta enganar a morte, como aquele sujeito do Sétimo Selo do Bergman… jogando xadrez, jogando xadrez, negociando. Ela tentou e tentou negociar, tentou fazer de conta, dar um truque. Não deu. O Bergman era genial, ele sabia que nunca dá, a gente nunca consegue contornar o que deseja para fazer de conta que não deseja para a vida passar distraída e nos dar o que queremos…

Levou uns bons dias para a “ficha cair”… ou melhor, umas boas provas de realidade. Don’t blame me. Vivemos em um mundo em que a imagem se substituiu a quase tudo e em que praticamente tudo pode ser e não ser ao mesmo tempo. O que garante a realidade de algo hoje em dia? Um teste de farmácia? Um exame de sangue? Enjôo? Cansaço? Eu precisei chegar até o primeiro ultrassom, oscilando entre saber e não saber, balançando entre lembrar e esquecer, entre pensar a vida como se nada fosse e pensar em como mudar a vida, entre querer, decidir querer e reclamar que não era bem assim que eu imaginava… Primeira consulta médica, primeiro ultrassom: está ali, existe. Pronto, para mim teve efeito de realidade. Estou grávida.

O Sétimo Selo - Ingmar Bergman
O Sétimo Selo – Ingmar Bergman