O oitavo mês

Nunca pensei que fosse usar uma imagem dessas em um post, mas acho que vocês vão me entender e perdoar minha licença poética brega assim que terminarem a leitura.

Sabe aquele malfadado filme, o Titanic, aquele mesmo do malfadado Di Caprio e da Kate diva que fez toda uma geração chorar oceanos gelados no cinema ouvindo aquela aguda daquela Celine Dion?

Então.

Sabe aquela cena um pouco antes do navio afundar de vez em que eles vão subindo feito uns malucos, escalando objetos, madeiras, gente e tudo o mais até chegar lá no topo de um navio bizarramente vertical?

Eis o oitavo mês de gestação.

É assim. É o pega pra capar. O salve-se quem puder.

Eu aceitaria feliz uma gravidez de elefante que durasse uns dois anos se a gente pudesse pular o oitavo mês. Quem em sã consciência inventou esse oitavo mês, minha gente? Foi a natureza querendo tirar uma com a nossa cara?

Explico-me.

Você acorda um dia e se olha no espelho e a sensação que tem é que a partir daquele momento, ali, em você, naquele seu corpitcho não cabe mais nem um suspiro. Não cabe mais nada ali dentro. E ainda falta um mês! Aonde é que vai caber mais um mês de bebê crescendo nessa barriga?

Aliás, você simplesmente nem mais suspira, porque o pequeno rebento, quando sente algum espacinho extra, alonga os pés nas suas costelas e daí, colega, é uma briga de foice para ver quem vai ficar com aquele vão que se desocupou quando o ar saiu de seus pulmões. É meu! Não, é meu, meus pulmões estavam aí primeiro, espertinho, eles voltam para aí assim que forem inspirar novamente!

Andar sem pensar na cena do T-Rex do Jurassic Park? E consciente de que o T-Rex é você? Oitavo mês. Pois é, eu disse que esse post estava infame em termos de referências filmográficas. Nenhum Bergman, nenhum Tarantino, nenhum Woody Allen. Só o T-Rex e você tentando pisar leve e não acordar a casa toda nas 50 vezes em que precisar fazer pipi.

Aliás, quem inventou o oitavo mês podia ter inventado o pipi que evapora ao invés de ter que sair pelas vias urinárias, né? Uma visita ao banheiro, para cada ml. de água consumido. Mas não é para ficar hidratada? Não pode mesmo tentar fazer o camelo e estocar água numa corcova qualquer para não ter que expelir? Ah, pois é, tinha esquecido, tem o bebê na corcova, não tem espaço pra estocar nenhuma água além do líquido amniótico que o rebentinho bebe e solta ali mesmo, sem ter que levantar para ir no banheiro 50 vezes por noite. Sortudo do caramba.

E fora a água, não tem mais muito o que possa entrar no corpão. Comida? Para por onde, minha gente? Entra um biscoito, seguem-se cinco horas de azia, tudo entalado na garganta, que o bebê ainda não conseguiu alongar as pernas até ali. Você já consegue se solidarizar com todos os seres com refluxo dessa terra, já considera que há alguma lógica na bulimia e tem absoluta certeza que seu estômago está mais comprimido que o ar daquele cilindro de mergulho que sempre te juraram que dava para usar por mais de uma hora, de tanto ar que tinha ali dentro compactado.

Hormônios? Hahaha, pelo menos aqui encaixo uma referência cult. Sabe o Jack do Iluminado? Ele sairia correndo de você com o rabinho entre as pernas. Oitavo mês, don’t mess with me. Nessa hora, cara-metade que for espertinho já entendeu que melhor não contrariar, melhor não argumentar, melhor nem existir muito. E continuar comprando papel higiênico, pão para o café da manhã e biscoitos. Porque, vai que, né? Dormiu bem? Conseguiu descansar, meu amor? Cuidado, você corre um sério risco de tornar-se a próxima vítima do Jack, the ripper.

E os olhares de piedade das pessoas a cada vez que te encontram? Nossa, você está enooooorme! Faz quanto tempo que a gente não se vê? Uma semana, dez dias? Sim, dez dias de oitavo mês, seus pentelhos. Aquela expressão de temor de que você exploda ali do lado a qualquer minuto e voe bebê, placenta e todos os biscoitos que ficaram entalados e que eles precisem ajudar em algo. Valeu, gente. Valeu, mesmo. Tô me sentindo bem melhor agora.

Ah, mas é o último mês… É a reta final…

Justamente, é como naquele game maneiro em que você chega na fase bonus master plus. Você é praticamente uma mestre Jedi da gravidez, já encarou enjôo, sono, ganho de peso, mudanças hormonais, desejos estranhos, exames mil, decisões importantes, apreensões desnecessárias, comentários infames? Lide com o oitavo mês, minha cara, e depois a gente conversa. Um mês sem enxergar seus artelhos, seus pentelhos, seus joelhos e vamos ver quem não pede para sair. Você pede, mas o bebê parece não estar nem um pouco apressado para sair da sua barrigota. Putz!

A loucura da faxina? Foi no sétimo mês. Você já varreu, já limpou, já montou o berço, já decorou o quarto, já lavou as roupas, secou, passou, separou por tamanho, depois tirou tudo, mediu uma por uma porque as numerações não significam nada, arrumou de novo, preparou a mala da maternidade, sentou, pensou na vida, tricotou um gorrinho, arrumou o quarto de novo que começava a pegar poeira, lembrou de umas três ou quatro coisas que faltavam… Nada mais para fazer a não ser esperar. O médico solta aquela pérola: à partir de agora, é com ele. Pois é. Oitavo mês.

Seria uma espécie de humor negro da natureza esse tal de oitavo mês? Um mês que dura uns 365 dias de 48 horas cada um não pode ser algo normal, vai…

Oito meses, barrigão e verão europeu…

… socorro! Fujam para as montanhas! Ou não, porque até nas montanhas o sol está de lascar. Ninguém deveria estar em final de gravidez em pleno verão. Ou ninguém em sã consciência. Mas queria o que, né? Fazer contas e calcular a melhor época do ano para ter o bebê, consultando a previsão do tempo, os astros, a programação cultural e a agenda dos movimentos sociais? Não, a vida não se calcula dessa maneira. Ainda bem. Sempre é bom constatar que existe lugar para o que foge ao controle, ao plano, ao pré-estabelecido. Não somos máquinas e a vida não segue o nosso script pré-formatado. Mas, putz!

Temperaturas acima dos 30°C + barrigão gigante = inchaço, cansaço, dificuldades mil. Como proceder?

Não sei, os miolos derreteram… Aliás, essa é uma das maravilhas da gravidez: os miolos derretem e você deixa de prestar atenção em uma porção de coisas. Bobas ou não. Especialmente no final, quando bate o cansaço e a cabeça se volta inteira para a expectativa frente aos próximos capítulos. Esquece o que te dizem antes de terminarem a frase. A tal da esquizofrenia da gravidez, da qual falei noutro post. Benção das bençãos.

Outra maravilha: a pequena decidiu virar atleta e faz alongamento toda hora na barriga. Tem horas em que acerta as costelas, tem horas em que amassa a bexiga, e noutras faz cócegas na cintura. Ok, ok, ela está se aperfeiçoando. Parece estranho, como uma cena qualquer daquele Alien que me aterrorizava tanto quanto a cara de terror da Sigourney Weaver mas, na verdade, é tão incrível! Sentir os movimentos de uma outra pessoa no seu corpo, movimentos alheios à sua vontade e completamente estrangeiros às possibilidades contidas nos seus movimentos, para alguém que fez todo o tipo de dança a vida inteira e que sempre prestou muita atenção àquilo que o corpo pode fazer, é algo da ordem do extraordinário. Extraterreno. Alien mesmo. É o momento em que a pequena dá sinais de vida e revela que, mesmo junto, já existe separada da mamãe e da barriga. Já tem lá sua singularidade, já faz seus gestos, já inventa suas coreografias, já procura seu espaço num barrigão que vai ficando pequeno para tanta vontade de ser, de existir, de se mover… Creio que, para mim, os movimentos da bebê e os momentos de encontro por meio da imagem do ultrasom foram os mais importantes para trazer realidade e corpo a essa pequena, tornando sua existência palpável, verdadeira, substancial. Um efeito colateral positivo da tecnologia, em um caso, uma das banalidades dessa experiência desde que o mundo é mundo e que mulheres engravidam, no outro. Dois extremos de um acontecimento que, hoje em dia, é permeado de natureza tanto quanto de técnica.

Ah, e não podemos nos esquecer do conversê, né? Falar com a barriga, aquilo que eu fazia de modo constrangido no começo, tornou-se a obviedade mais cotidiana desses meses. A bebê mexe, a gente conversa. Ou melhor, eu falo, ela faz sua dancinha. Pode ser no ônibus, no restaurante, na praia, no conforto do sofá. A gente se entende, naquele estado de loucura particular que é a gravidez, tão necessário para que a mãe e o bebê se conectem e que ela possa atender às necessidades do seu rebento, que vai depender tanto dela no início. Como diria o bom e velho Winnicott: existe uma loucura necessária à maternidade, que faz a mãe poder supor aquilo de que o bebê precisa. E entre essa aposta, os acertos e os erros, ela termina por compreender melhor esse bebê, assim como ele termina por saber comunicar melhor aquilo de que precisa. Conversa que começa assim, meio maluca, até que um consegue desvendar melhor o outro e um tanto de encontro entre esses dois diferentes se torna possível.

Junto com as maravilhas que fazem todo esse percurso ter momentos de muita alegria, emoção e deslumbramento – os movimentos, os papos, as imagens, o desencanar geral e até a conquista da possibilidade de dizer um dane-se e de fazer uma faxina em pessoas, projetos e valores que não contribuem mais em nada para a vida, – vem também a parte menos divertida: os temores de cada mês, de cada exame, de cada consulta, as ameaças de cada risco que médicos, leituras ou amigos da onça colocam na sua cabeça, o sobressalto com cada mudança, cada coisinha que acontece ou não acontece, os medos e inseguranças, o desconhecido, o peso que pesa no corpo e dificulta o movimento assim como o peso que pesa na alma e que traz a responsabilidade, a preocupação, o tentar antecipar e prever todos os perigos, a necessidade de proteger e cuidar, a busca de fazer o melhor. Inchaço, barriga grande, calor não são nada frente a tantas preocupações que decidem crescer na mesma proporção que o final da gravidez se aproxima e que você sabe que algo vai mudar, tudo vai mudar, em uma direção que você desconhece e para a qual nunca se preparou. Penso que não existe leitura que chegue, não existe preparação para o parto que dê conta, não existe curso que esclareça, não existe sonho que antecipe o que vem ali adiante, quando o barrigão virar bebê e a barriguda virar mãe.

Entre anseios, expectativas e risadas com pés nas costelas, o que resta é aproveitar o tempo. Esse tempo malemolente e arrastado de verão quente que deixa tudo lento, lesmento, gosmento, suado. Sol nos miolos dando ares de irrealidade ao tempo que passa, dando tempo ao tempo para que a pequena se prepare. E para que a mamãe se esqueça de tudo o que aprendeu e possa, enfim, viver o que só pode ser vivido.