As mudanças em ti, as mudanças nos outros.

Tenho uma amiga-irmã, grávida quase ao mesmo tempo que eu (porque amigas-irmãs compartilham quase tudo, menos marido e escova de dentes, hehehe) que deu a melhor definição de como se defender dos palpites e das invasões que nos assolam desde que as pessoas, próximas ou não, tomam conhecimento de que estamos grávidas. Sabe aquela invasão básica e desagradável, feita sob o pretexto da boa vontade e de querer ajudar, mas que é sempre inconveniente, despropositada e oprimente? Pois bem, essa amiga-irmã definiu sua estratégia de defesa: já que não dá simplesmente para mandar todo mundo guardar seus palpites para si ou simplesmente ir tomar naquele lugarzinho sombrio e úmido, ela criou um botão de liga-desliga que funciona muito bem e que permite que ela mergulhe numa bolha de proteção a cada vez que alguém começa com a ladainha. E chamou o botão, carinhosamente, de sua esquizofrenia.

Uma grávida esquizofrênica, não no sentido patológico do termo, faz mesmo muito sentido, já que aprendemos na marra ao longo desses 9 meses que é necessário cindir, separar, desligar-se do mundo em muitos momentos para proteger a si e à cria nesse complexo e introspectivo ato que é gestar um bebê. Vai ver que é por isso que ficamos tão distraídas, tão desligadas, tão desatentas, memória tão curta… tudo concentrado naquilo que é o mais importante: o bebê, seus sinais, seus movimentos, a gestação, seu corpo, o corpo dele… Se existe uma sabedoria na natureza é essa de fazer uma mulher grávida ser capaz de desligar de tudo o que é apenas tormenta e voltar-se para o que realmente importa.

E, acreditem, o que menos importa é aquilo que os palpiteiros têm a te dizer. Não há conselho estapafúrdio, história trágica de meter medo, história cor-de-rosa de fazer sentir que você é uma porcaria de mãe porque contigo nada é tão perfeito assim… não há palpite ruim que não possa ser encontrado em mais trezentas bocas de trezentas outras pessoas. Ou na internet. Ou em livros. Ou em blogs. Ou seja, não se preocupe em não prestar atenção porque você não há de perder nada que não será repetido mil vezes nas suas exaustas orelhas de gestante. E cada vez será tão inútil quanto na primeira. E tão nocivo, invasivo, aflitivo quanto. Então, esquizofrenia sem dó. Cisão. Separação. Palavras inúteis para um lado, você para o outro. Na sua bolha de gestar. E de cuidar do que realmente importa.

Acontece que tenho descoberto algo curioso em relação a essa invasão palpiteira. Aliás, duas coisas que têm me impressionado bastante e que compartilho aqui. Talvez o fato de estar em outro país torne essas constatações ainda mais gritantes. Vamos ver.

A primeira é que os palpiteiros de plantão parecem ser, por algum motivo que não mera coincidência, as pessoas menos próximas de você. Nunca é alguém com quem você compartilha de sua intimidade e de sua confiança. Nunca é o melhor amigo, ou o parente querido. Esses, na medida em que você gesta e em que sua vida muda, parecem entrar numa espécie de sintonia muito fina e cuidadosa contigo. São aquelas pessoas amadas que perguntam antes de afirmar, que querem saber, que têm ouvidos disponíveis e braços para abraços apertados, que falam com cuidado, que são generosos em seus dizeres, e que te deixam muito mais falar do que te obrigam a ouvir, ou que te acompanham nos seus silêncios.

Ao menos comigo, as pessoas que vêm palpitar já se destacam de cara por essa falta de proximidade, essa insensibilidade, essa falta de ouvido, essa pressa em vomitar suas verdades, esse desconhecimento e essa falta de interesse por aquela pessoa com quem estão falando. Elas não falam para mim, mas para si mesmas, para se convencerem de algo, para descarregarem algo, para imporem suas certezas que não toleram nenhuma diferença, nenhuma discordância. Não é conversa, é monólogo. E, como todo monólogo, é chato, desinteressante, enervante. E quando a gente engravida, nossa tolerância para esse tipo de coisa, felizmente, parece atingir o nível próximo de zero. Ainda bem! Liga-desliga. Esquizofrenia gravídica. Talvez fosse algo que merecesse até ser levado para a vida inteira, não?

Agora, como consequência direta dessa primeira constatação sobre os “cheio de opinião”, a outra coisa que descobri em relação a essa invasão palpiteira durante a gravidez e, dizem, mais ainda depois do nascimento do bebê (socorro!) é que ela te deixa, mulher grávida, em uma situação de imensa solidão. Porque conversa que não é conversa não alimenta, não faz companhia, não ajuda em nada e não permite troca alguma. Preenche apenas o tempo com um recheio inútil e que faz sofrer. E companhia de verdade nesses momentos, como talvez em todos os momentos da vida, é muitíssimo rara.

Não é só a gente que muda quando engravida. Os outros ao nosso redor também mudam muito, quer queiram ou não. Reagem de maneiras que provavelmente não fariam se parassem um segundo para pensar no que já viveram em suas próprias gestações, ou nas que viram outros viverem, ou em suas próprias experiências de vida e em seus valores, sendo pais ou não. Tem gente que se afasta como diabo que foge da cruz, como se de repente você não fosse mais parte daquele mundo hype e descolado em que todo mundo sempre está a viver coisas interessantíssimas, uma vida de luxo, poder e glamour bem diferente da perspectiva de um cotidiano de fraldas, mamadas e noites de sono entrecortado. Gente que sempre militou pelo respeito à diferença e às diferentes escolhas de vida passa a ter dificuldades com a sua mudança de vida. Assim como aqueles que sempre priorizaram o trabalho intelectual acima de tudo passam a ter dificuldades com a sua escolha em priorizar sua gestação nesse momento, como se você se tornasse uma traidora da causa do trabalho, da intelectualidade, do pensamento, do feminismo, da autonomia… E ainda tem gente que sempre te estranhou por não fazer parte do “status quo” e não seguir os caminhos padrão e que, agora, vêem na sua gestação uma escolha por se enquadrar que as tranquiliza. Você passa a fazer parte da turma e elas logo querem te integrar no maravilhoso mundo do que elas pensam ser a maternidade.

Assim como nós reagimos de modos os mais inusitados quando nos descobrimos grávidas, eis que as pessoas também reagem. Se afastam, nos deixam na promessa do papo, da visita, do email que nunca chega. Ou se aproximam, nessa tentativa tosca de te encaixar em algum lugar, te invadindo com as certezas que são delas a respeito de quem você é ou do que você quer. Mas quem se afasta a partir de estereótipos nos quais passa a te ver ou quem se aproxima por te encaixar em novos clichês, o que eles podem saber realmente a respeito daquilo que você vive?

Tenho pensado que o momento da gravidez é um momento de faxina geral, em que tudo se abala não apenas dentro como fora, na vida, com as pessoas. O que permite que a gente faça uma triagem e consiga separar o joio do trigo ao longo desses meses. Sem muito esforço, porque a excitação é tanta ao redor de uma grávida que as pessoas mostram escancaradamente a que vieram. E fica palpável quando você está sozinha na presença de alguém ou quando existe ali verdadeiramente uma presença de quem faz questão de estar ao seu lado. Momento de faxina providencial, até para saber com quem contar. Pois uma das alegrias desse momento de gestação é justamente que nas brechas entre a esquizofrenia e a solidão surgem algumas pessoas fundamentais que se revelam em palavras e gestos amorosos, generosos, amigos, companheiros. Uma mensagem breve enviada em um momento importante. Um telefonema. Um email. Uma visita. Um papo aqui, outro acolá. Gestos que fazem toda a diferença. E fazer a faxina, separar joio do trigo, trabalhar o liga-desliga são nada mais do que formas de fazer justiça a esses gestos. Cuidar do que realmente importa. Dentro e fora. Cuidar de quem realmente importa.

Outras sobre as mudanças em você, nesse post aqui.

Você vai perder…

(version française ici.)

… noites de sono, seu sossego, sua liberdade, as baladas com os amigos, as viagens, os
momentos de intimidade apaixonada quando dá na telha… Você vai perder. Muito. Engravidou, vai ter um bebê e vai perder. Já começa perdendo. É o que dizem os abutres de plantão, por vezes disfarçados de parentes, amigos, conhecidos ou desconhecidos de boa vontade, sempre com um sorriso nos lábios, te felicitando pela sua gravidez. A sua vida vai mudar totalmente.

Sempre fico na dúvida nessas horas. Será uma total falta de bom senso que impulsiona esse tipo de comentário ou apenas um gostinho de vingança mal disfarçado de que aquela pessoa ali, aquela barriguda agora vai saber o que é a tal “vida de verdade” onde pessoas perdem. Bem vinda ao clube, amiga! Subentendendo-se: mais uma para partilhar da frustração que é essa vida. Como dizem por aí: “chuta que é macumba!”

Sai para lá com seu fel disfarçado de simpatia e de experiência. Que eu não preciso disso. No momento, o que preciso é cuidar da minha vida, da nossa vida e de garantir todo o bem estar e todo o conforto para a pequenina que está aqui na barriga. Logo mais, vou precisar de outras coisas. E deixo para logo mais o que é de logo mais. Nada disso te diz respeito. E nada disso cabe na sua máxima de “você vai perder”. Uma gravidez não necessariamente se encaixa na sua lógica de perdas e ganhos, sabia?

É curioso: porque será que quando alguém engravida tanta gente assim se regozija em anunciar tudo o que você vai perder com a maternidade? Por que essas pessoas não falam do que você vai ganhar? Será que é mesmo para te preparar para o quanto é difícil? Mas o quanto é difícil?

Eu fico mesmo é com o meu querido Freud – aquele, o tal do Sigmund – que, há pelo menos cem anos, indignou as pessoas e suas mentalidades com a constatação de que boa parte de nosso sofrimento tem justamente a ver com a dificuldade que temos em perder alguma coisa. Nós, os neuróticos comuns e banais, passamos a vida tentando fazer a contabilidade da existência da maneira mais mesquinha possível. Perder o mínimo. Perder nada. Perder parece um horror. Então, cada escolha da vida que envolva uma perda gera um sofrimento quase pânico e coloca a pessoa para trabalhar, para adoecer, para tentar achar uma saída que a impeça de perder. Só que perder nada é perder tudo.

Tem gente que fica colado no que está perdendo. O tempo todo de olho naquele centavo que se esvai. Como se escolher não fosse sinônimo de renunciar, de perder algo para ganhar outro algo. Que escolha não envolve perda? Que escolha não implica abrir mão? Que escolha não é aposta na possibilidade de “x” apesar de “y”?

E tem gente que fica em situação mais aprisionada ainda, acha que descobriu a pólvora e que, se não escolher nada, não perde nada. E daí vai, obssessivamente vida afora, nessa espécie de paralisa das escolhas, acreditando que sem se comprometer está evitando qualquer renúncia. E sem se dar conta de que, não tendo escolhido, perdeu para todos os lados. E que ficou sem nada. Tempos estranhos em que a imobilidade parece uma boa opção para não optar. Tempos estranhos em que o “jeitinho” parece uma estratégia eficaz para ter tudo.

Provavelmente, quando essa pessoa inconveniente curiosa se aproxima de uma grávida dizendo tudo o que você vai perder, não se trata nem de falta de noção, nem de má fé. É apenas ela dizendo o quanto é um mal perdedor. É apenas um jeito pobre de olhar para a vida, priorizando o que se perde no lugar do que se ganha, priorizando o que não se tem no lugar daquilo que se constrói. Pobreza de espírito que não permite à pessoa perceber nem o que ganhou com suas escolhas, quanto mais que possa ver nas escolhas dos outros alguma positividade. A maior parte das pessoas, infelizmente, prefere ficar colada naquilo que lhes falta.

Não estou pregando um olhar cor-de-rosa, onde a gravidez e a maternidade sejam apenas uma propaganda de doriana que se estende por toda a sua vida. Muito menos estou dizendo que não se deve falar sobre o que é difícil, penoso, sofrido nessas experiências. Não, é justamente o contrário. Estou dizendo que levar em conta uma escolha que se faz pela maternidade com TUDO aquilo que ela implica já inclui o “bom” e o “ruim”, o que se “ganha” e o que se “perde”. Ninguém precisa nos prevenir daquilo que já sabemos (quando já sabemos, é claro): que a maternidade, como tudo o que é da vida, traz perdas e ganhos. Pois é uma escolha e, como escolha, seu limite está dado no próprio ato de escolher. E, ainda assim, isso é tão relativo…

Quem sabe o que é bom ou ruim para uma outra pessoa? Quem sabe o que é um ganho ou uma perda para alguém? Posso achar que é uma renúncia terrível não poder mais sair à noite para a balada com os amigos, mas e se a barriguda ali detesta balada? Então, essa história do você vai perder já começa furada pelos valores e pelos preconceitos de cada um, os quais aquele que fala esquece que podem não ser os valores do outro. Falta de respeito pensar que o que eu acho que você vai perder é o que você vai perder realmente e que, ainda por cima, isso é uma tremenda catástrofe para você, do mesmo jeito que foi para mim. As pessoas gostam de falar como se pregassem, como se o mundo fosse apenas o reflexo do que elas são e como se elas soubessem o que você perde e o que você ganha quando decide ter filhos.

E, ainda, parecem desconsiderar que quem fez essa opção, de um jeito ou de outro, na medida em que foi capaz de escolher, já conta com renúncias. Mas também já escolheu passar por alguma coisa, viver algo que julga importante. A menos que tenha optado pela maternidade pensando que vai dar para não perder nada, e que acredite naquele ideal de mulher moderna que é simplesmente tudo e tudo muito bem. Mas, daí, já é outra história. Ou o reverso da medalha dessa mesma história de quem adora falar do que você vai perder quando te descobre grávida. Um sujeito colado na perda que não consegue se conformar em perder nada e uma outra colada na ilusão de plenitude de que vai dar para engravidar, ter filhos e não renunciar a nada. No fundo é a mesma coisa, tanto para um quanto para outro: um assombro, um medo pânico de perder que ou te deixa fixado nisso, contando os centavos de existência e lamentando ter que pagar por ela, ou te coloca em estado de negação, achando que vai dar para escapar, que você será a exceção à regra.

Você perde, eu só ganho… Será mesmo que ter filhos se inscreve nesse binômio empobrecido de ver e de viver a vida? Qual será o sentido de botar alguém nesse mundo já de cara com o peso de que ele te tirou alguma coisa, de que ele te obrigou a renunciar, de que você se sacrificou por ele? Ou de que ele te fez completa, plena, capaz de tudo, de que ele te deu ou tem que te dar tudo? Em nome das tuas perdas, ele vai ter que te compensar? Ele vai ter que te dar o que você perdeu e fazer valer suas renúncias? Não sei não, acho que nessa lógica contábil de olhar para a maternidade apenas pelo viés das perdas e ganhos, não apenas você sai esmagada pelos abutres de plantão que te fazem acreditar que você perde muito e que perder é muito ruim como o seu filho, que nem pode se defender, sai perdendo desde antes de sair da barriga, em dívida contigo pelo simples fato de existir, tendo que te compensar de uma coisa muito ruim que foi você ter abdicado de algo… Putz, que cilada! Será mesmo que a gente quer viver nessa lógica? Eu não, obrigada.

Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França
Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França