Isso atrapalha!

Continuando a conversa sobre amamentação nessa semana mundial do aleitamento materno, uma lista dos conselhos e orientações que, na minha experiência, mais atrapalham do que ajudam nesse projeto de amamentar nossos bebês. Porque adoramos uma lista de vez em quando, né?

  • tomar nota: dos horários em que o bebê mama, em qual peito, por quanto tempo. Traz uma falsa sensação de controle, como se conseguíssemos garantir com isso que sabemos o que está acontecendo quando, na verdade, não. Anotar para contar para o pediatra, a enfermeira, a família ou afins para que eles digam se está tudo bem cria muita confusão, porque cada qual vai ter uma opinião diferente sobre o que está escrito ali. O bebê mama muitas vezes, poucas, por tempo demais, por tempo de menos… Tudo isso se baseia sobre a idéia de que haveria um ritmo ideal de mamadas o que, por sua vez, ignora que cada bebê é um e o ritmo ideal é aquele que melhor se adapta ao que ele precisa. Passei os primeiros meses feito doida anotando tudo e tentando achar um padrão. Sinceramente, é muito estresse e sofrimento até você finalmente se dar conta de que o melhor a fazer é justamente o inverso: se deixar guiar pela livre demanda e pelas solicitações do bebê.
  • controlar peso: aqui as pessoas têm uma obsessão ainda maior que no Brasil com o ganho de peso do bebê, a ponto de sugerirem que as mães aluguem balanças para controlar o peso em casa. Já cheguei a ver mãe, na PMI, que pedia para pesarem seu filho de poucos dias antes e depois da mamada, para ver se ele tinha se alimentado bem. Novamente, o que isso garante? Claro que é tranquilizador saber que seu bebê está ganhando peso, pois ficou instituído nas nossas cabeças e nos nossos corações que esse seria um indício de que tudo vai bem. Pode realmente ser, quando somado a uma série de outros indícios, pois ganho de peso em si não garante boa saúde nem para os bebês, nem para ninguém. Se fosse o caso, todos os obesos desse mundo estariam em ótimas condições, né?
  • impor intervalos: quaisquer que sejam, tentar guiar a alimentação do bebê pelo relógio me parece um projeto fadado ao fracasso. Sim, existem bebês que se adaptam a isso e mamam a cada três horas e isso fica parecendo novamente um bom sinal de que eles estão alimentados e de que a amamentação vai bem. Mas você come com hora marcada, mesmo sem fome? Então por que aplicar essa lógica ao seu bebê? Deveria ser a fome a guiar os momentos das refeições e o quanto se come, já que ela é a fonte mais confiável de informação sobre o que se passa ali, dentro de nós, não? Ou aprendemos a ouvir e respeitar nossos corpos também quando o assunto é alimentação – e transmitimos isso a nossos filhos respeitando-os também – ou abrimos caminho para maneiras desconectadas e arbitrárias de comer.
  • substituir mamadas por refeições: no momento da introdução alimentar, quando acreditamos que o fato do bebê comer outras coisas fará com que ele mame menos ou diminua o ritmo. Sim, isso eventualmente acontece, mas não no início. No começo o bebê nem percebe muito bem que aquela brincadeira e que aquelas coisas que coloca na boca também alimentam além de divertir. Ele não associa necessariamente as refeições com alimentar-se. Por isso, não adianta dar a papinha na hora em que o pequeno chora pedindo peito porque há grandes chances de que ele continue chorando e não coma nada. Demora até que comer se torne comer e, nesse meio tempo, esteja preparada para intercalar mamadas e refeições, às vezes ao mesmo tempo.

Penso que todas essas orientações servem para nos dar uma sensação de controle, de que sabemos e governamos aquilo que acontece ali com nossos bebês, em seus corpos, em seus estômagos. Temos a impressão de que precisamos controlar para que tudo fique bem e que eles fiquem saudáveis. Acreditamos que controlar = cuidar. Nos parece muito misterioso e insondável esse modo opaco como a amamentação funciona. Peito não é mamadeira, não é transparente, não tem colher de medida, nem indicação de mililitros. Não sabemos muito bem o que está acontecendo ali, enquanto o bebê mama. Temos dúvidas instiladas perversamente há décadas de que nossos corpos sejam capazes de alimentar e de dar conta das necessidades de nossos bebês. Acreditamos mais nas orientações externas, nas medidas externas, nas propagandas e naquilo tudo que dizem que funciona muito melhor do que nós mesmos e do que nossos filhos. Então seguimos essas orientações e fazemos da alimentação um processo penoso, em que ninguém escuta o outro, em que ficamos surdos aos nossos bebês e tentamos todo tipo de violência e de imposição para garantir o que estaria garantido se simplesmente os respeitássemos e nos respeitássemos.

O mais difícil em amamentar é que sempre estamos prontas a seguir o que quer que digam que devemos fazer, morrendo de medo que nossos filhos passem fome. E ao invés de olharmos para eles para tentarmos perceber a fome, a saciedade, as necessidades e os ritmos, pegamos emprestado essas orientações furadas, como se elas fossem regras de conduta, infalíveis. Quem sabe se tentarmos o mais difícil, que é aprender a escutarmos nossos bebês, isso nos traga alguma convicção íntima e profunda de que eles estão alimentados e bem?

Outros textos sobre o tema: aqui.

Amamentação: o que tem…

… e o que não tem funcionado. Para minha filha e eu, claro. Porque a singularidade dos envolvidos nesse ato certamente há de influenciar naquilo que dá certo ou não. Feita a ressalva, vamos em frente.

Acho que posso resumir em duas palavras aquilo que tem funcionado conosco: livre demanda.

No começo da amamentação, recebi as orientações mais desencontradas possíveis… E se tivesse persistido por um longo tempo nelas, certamente teria complicado ainda mais um começo tão delicado. Ou, talvez, até inviabilizado a amamentação. Então, vou falar sobre como descobrimos a duras penas o que é livre demanda através de tudo aquilo que não funcionou, ok?

Amamentar a cada 3 horas, por exemplo. Por que não funciona? Você come com hora marcada e em intervalos regulares? Pois é. E por conta desse intervalo imposto tinha choro que eu achava que não podia ser fome e ficava tentando enrolar – outra sugestão totalmente furada. E por que não dá certo enrolar e tentar seguir os horários? Porque o bebê fica chorando, com fome, estressado, pode até dormir um tempinho de cansaço e logo em seguida volta a chorar, mais estressado ainda. E quanto mais se perpetua esse ciclo, mais difícil de acalmá-lo. Uma tortura para ambos. O bichinho chorou ou começou a te cheirar, fazer boquinha, mamar o ar, a mão, o braço de quem está com ele no colo? Fome. Peito. Pronto.

Oferecer cada peito por 5 minutos, ou por 15 minutos, ou por x minutos quaisquer. Por que não funciona? Porque cada um tem seu ritmo para comer, não? Imagina se te dissessem que você deve comer em 5 minutos? Você engoliria tudo para passar mal depois? Ou seria arrancado da mesa e ficaria com fome até a refeição seguinte?Chegaram ao ponto de me orientar que x minutos era pouco, uma meia hora era bom e mais do que isso ela estaria perdendo, pelo esforço, tudo o que ganhou com a mamada. OK, então você pega um cronômetro, senta para amamentar seu bebê e reza para ele passar do ponto em que terá mamado pouco mas não ultrapassar a marca do perde tudo. Diga, alguém se alimenta assim? Penso que essa história de inventar tempo para amamentar é ranço de quem gosta mesmo é de uma mamadeirinha, onde a gente coloca uma quantidade determinada e o rebento que se vire para engolir o tanto que é o certo. Daí, basta tirar a média de tempo que os bebês levam para tomar a tal quantidade ideal e… voilà! Mamãe que amamenta só precisa que seu rebentinho siga a média. Mas como peito não é mamadeira e nem transparente para a gente calcular quanto o bebê está ingerindo, o que além de deixá-lo mamar quando precisar e pelo tempo que quiser poderia garantir uma quantidade suficiente? Nada. Então, peitos pra que te quero! Na hora em que o sujeitinho largar o peito, isso quer dizer que acabou.

Outra orientação capciosa é a que tenta cercar o número de mamadas… amamentar 8 vezes, 10, 12… Se não há como controlar pelo intervalo entre mamadas, nem por sua duração, vamos tentar pela quantidade, né? Por que não funciona? Justamente porque essa quantidade não se espalha de modo uniforme pelas 24 horas. E não significa que o bebê mama a mesma quantidade a intervalos regulares. Então, o que ela garante? Nada. Percebi que esse número varia de tempos em tempos, nos picos de crescimento, em dias mais tranquilos ou mais agitados… Ficava maluca pensando que ela não tinha mamado as dez vezes. O que fazer? Acordar? Enfiar o peito na boca? Fazer mamar à força? O bebê sabe mais do que nós sobre quando sente fome, melhor confiar nele.

E quanto a essa de acordar, tanto quando passa das tais lendárias três horas de intervalo quanto quando o bebê mamou por poucos minutos? Também tentei. Carinho na cabecinha, mexer na mãozinha, trocar a fralda… Não deixar o bebê dormir enquanto não tiver mamado o suficiente. Mas quanto é o suficiente? E caímos novamente nas medidas, nas médias, nas arbitrariedades que não dizem nada. Minha bebê não estava nem aí, afastava a minha mão e dormia. Mamar cansa, e muito. Não só a mãe, mas o bebê também. Principalmente no começo, quando eles ainda não sabem fazer isso muito bem juntos. Repare no rostinho do bebê mamando. Tudo mexe, todos os músculos. É um baita exercício e um esforço enorme até o sujeitinho virar craque. Então, tem horas que tem mesmo que dar um cochilo e recomeçar logo mais. Sim, isso atrapalha o sono da gente, que quer mais é que os pequenos mamem logo, tanto quanto possível, o mais rápido possível, para a gente poder dormir um pouco. Que desespero. Mas aporrinhar o sono do seu bebê não vai resolver isso, porque ele pode mamar demais e soltar tudo depois. Ou acordar, se irritar e chorar porque está exausto e precisa dormir. Melhor deixar o pequeno em paz e resolver o cansaço de outra maneira. O que vai resolver? O tempo, o bebê começar a espaçar as mamadas na medida em que vai se tornando expert nisso e consegue o máximo de leite, sem se exaurir, podendo fazer outras coisas com o tempo e a energia que lhe sobram como… dormir!

Então vem uma das minhas orientações prediletas: dá uma mamadeirona que ela dorme a noite inteira. Por que não funciona? Eu tenho apenas um comentário: foie gras. Sabe o foie gras, aquela iguaria francesa de fígado de ganso? Sabe como é feito? Os franceses descobriram que os gansos gordos tinham fígados gordos e um pouco inflamados e que isso era DE-LI-CI-O-SO. E tiveram a brilhante idéia de forçar os tais gansos a comer, para que eles ficassem mais gordos, com fígados mais inflamados e que tivesse mais foie gras pra galera. Essa alimentação forçada tem um nome aqui: a gavage, que fez com que eu deixasse de comer a iguaria, assim como muitas outras pessoas. Então, sempre que ouço essa historinha de dar uma mamadeirona para a minha filha ficar entupida de leite artificial e precisar passar horas dormindo para digerir algo que é muito mais indigesto que o leite materno, lembro da gavage. Por que não funciona? Pois é, parece até que funciona, mas eu pessoalmente não estou a fim de garantir minhas horas de sono a esse preço. Prefiro esperar o tempo da minha bebê alcançar essas noites dormidas por meio de seu próprio desenvolvimento.

Existem inúmeras pesquisas comprovando que a introdução da mamadeira (bem como da chupeta, por sinal) causa confusão de bicos e pode favorecer um desmame precoce. Então, se a mamadeira entope eficazmente e a chupeta acalma eficazmente, penso que o preço que se paga por essas eficácias não vale o benefício. No nosso caso. Não me interessa acalmar a todo custo ou sobrealimentar minha bebê e arriscar, com isso, a amamentação. Porque o leite materno é o melhor alimento para o começo de vida de um bebê humano. E porque a relação que se constrói a partir desse cotidiano de amamentação é de extrema importância. Para ambos.

Putz, mas isso quer dizer que eu tenho que ficar ali, à disposição? Pois é, amamentar exige mesmo essa disponibilidade de estar por conta do tempo do outro. E me parece que essa é uma das maiores dificuldades do nosso tempo: estar para o outro e não para si mesmo, priorizar um outro. Esse tempo de amamentação exclusiva é tão curto. E essa dedicação não é um fardo, se você pode encará-la como um prazer e vivê-la com a surpresa das descobertas. Surpreender-se quanto ao que você pode oferecer. Ser mamífera é uma constatação espantosa para nós, mulheres ocidentais burguesas do século XXI. Surpreender-se também quanto ao que seu bebê comunica. Conhecê-lo, criar proximidade, trocar afeto. Tantas coisas lindas acontecem ao longo dos primeiros seis meses, muitas das quais enquanto amamentamos. Será que vale arriscar tudo isso por uma necessidade de controle?

Correndo atrás de seguir receita de bolo de como dar de mamar, quase botei tudo a perder pois o que descobri, a duras penas, é que essas regras de ritmos, intervalos e duração das mamadas só servem para deixar as mães tensas. Anotar o horário das mamadas, o tempo de duração, procurar nos números alguma regularidade, uma luz, algum padrão em um momento inicial em que tudo é ensaio, tudo é improviso, tudo é descoberta? Não funciona. Ficar de olho no relógio e nos números não faz com que o bebê comece a se enquadrar neles. Pois, a única coisa que tais procedimentos almejam – como todos os outros que mencionei até agora – é o controle.

Saber, com certeza, quanto o bebê come, como se isso pudesse garantir a 100% seu bem estar, sua saúde ou – medida das medidas – seu peso. Peso virou sinônimo de saúde e controlando o peso acredita-se estar controlando e garantindo a saúde do bebê. E, como a amamentação escapa a esse controle das mamadeiras, dos horários e das quantidades, tenta-se fazer com que ela funcione do mesmo modo e segundo os mesmos parâmetros do aleitamento artificial. Estipulando intervalos, tempos e ritmos, nossos “orientadores”, e nós mesmas, acreditamos que estamos garantindo alguma coisa. Mas… não funciona. Não funciona, esse é um controle que está nas mãos – e no estômago – do bebê. Ele é o único que pode saber, com certeza, se e quando tem fome. E de quanto leite precisa. Aprendi a confiar na minha filha. Se ela está reclamando para mamar é porque tem fome e/ou precisa sugar. E ambas necessidades são válidas.

Amamentar em livre demanda é, a meu ver, um gesto de respeito ao pequeno ser que acaba de chegar ao mundo. Sinaliza que estamos ali, disponíveis, para acompanhá-lo e descobrir com ele como cuidar de suas necessidades. É algo muito bom para se oferecer a alguém que faz transbordar nosso peito de amor, não?

O que aprendi sobre a amamentação…

… até agora. (ou: uma resposta a um certo post de uma certa blogueira em uma certa revista que, de tão medíocres, não merecem nem ser citados, a não ser como instigadores de respostas boas)

Digamos que ele é como um ser vivo, extremamente delicado e sensível ao entorno, o ato de amamentar. Quer dizer, é algo poroso, que se contagia de tudo que o cerca – e que nos cerca, mãe e bebê. Ambiente ruim, gente dizendo coisas desencontradas, falas sobre leite fraco, pouco leite, baixo ganho de peso… tudo isso pesa, influencia, mexe no tênue equilíbrio que exige o amamentar. Aprendi que, sem apoio e – pior ainda – com gente próxima ou distante falando contra, duvidando, criticando, persistir na amamentação é quase que um ato de heroísmo.

Antigamente, até bem poucas décadas atrás, contávamos com a sabedoria dos mais velhos. Mulheres pariam cercadas de mulheres, mulheres criavam seus filhos entre outras mulheres, mulheres amamentavam sob os olhos cuidadosos de outras mulheres. Mulheres mais experientes estavam sempre por perto, cuidando daquilo que elas sabiam muito bem por experiência própria: conceber, gestar, parir, amamentar, cuidar… Ninguém ficava sozinha, sem cuidado e sem orientação numa hora dessas. Em alguns cantos do nosso mundo, ainda existe essa rede de cuidados. Mas, infelizmente para nós, mulheres do mundo ocidental capitalista, o discurso da experiência e da rede de apoio foi desacreditado em nome de um saber médico / técnico e científico que saberia e poderia mais sobre a maternidade. E – coisa estranha – nós mesmas compramos esse discurso que, na medida em que tirava o saber da experiência de nossas avós, mães e tias, o tirava também de nós. E ficamos sozinhas e ignorantes, todo esse saber depositado nas mãos de um outro: a medicina, a ciência, a indústria. São essas as companhias que temos, hoje em dia, para gestar, parir e alimentar nossos filhos. Então, quando eles dizem que nosso corpo é falho e que não somos mais capazes de fazermos o que sempre fizemos, na falta de uma rede de apoio e de cuidado que nos ajude a contestar essa nossa pretensa incapacidade, capitulamos. Fragilizadas, aceitamos justificativas duvidosas para todo tipo de intervenção. E não parimos mais. E não amamentamos mais. E acreditamos que é assim mesmo, que é “normal”. E nos confortamos na idéia de que dar mamadeira não é tão mal assim. Não é tão mal assim quando realmente se necessita. Como uma cesariana pode ser uma benção quando realmente se necessita. Mas na medida em que ficamos sozinhas e destituídas de qualquer poder frente aos donos desse poder que servem, prioritariamente, a outros interesses opostos e conflitantes com o bem-estar da mãe e do bebê, como saber quando é que realmente se necessita? Aprendi que, hoje em dia, nosso esforço é muito maior em encontrar uma rede de apoio e de acolhimento que faça as vezes da “voz da experiência” de nossas mães, avós, bisavós e afins. Ela pode estar na internet, no encontro com outras mães, no trabalho das doulas e das enfermeiras obstetrizes, na existência de consultoras de lactação… há substitutos possíveis. Mas há que se buscar ativamente essas outras vozes discordantes que te ajudem realmente a poder amamentar.

Nada de natural existe nisso. Amamentar é natural. Tão natural como parir. Mas acontece que nós, humanos no século XXI, passamos por tantas mediações em nossa formação como humanos que estamos muito, mas muito distanciados de nossa natureza. Então, não adianta ouvir dizer que é algo instintivo e acreditar que isso significa que você vai chegar lá, na hora H, e vai conseguir fazer, tomada e possuída pela força das suas próprias entranhas. Até pode ser que seja assim. Mas pode ser também que as suas entranhas fiquem submetidas à sua razão, ao seu pensamento, ao seu medo e a tudo aquilo que acostumamos a priorizar em nossas existências mais cotidianas. Se baseamos toda a nossa vida em conhecimentos, informações, pensamentos lógicos e  afins – ou, ao menos, se acreditamos que é assim que vivemos e que fazemos escolhas – o que faria com que, na hora de parir e de amamentar pudéssemos conseguir reverter toda essa racionalidade que rege nossa experiência e nos abandonarmos ao desconhecido, confiando apenas em nossa intuição e em nossa sabedoria ancestral? Aprendi que para poder acessar essa sabedoria ancestral e poder se abandonar nessas horas em que o abandono é necessário – e quanta entrega é necessária para amamentar! – precisamos justamente jogar com todas as armas que temos a favor disso. Informação, pesquisa, conversas, preparo do corpo… tudo, todas as ferramentas podem e devem ser usadas. Ficar sentada no sofá esperando que algo em você faça todo o serviço é pedir para dar errado. Porque do mesmo modo que ali dentro das entranhas existe um instinto capaz de fazer parir, de fazer amamentar e tudo o mais, também existe o medo, as dúvidas… E quem vai ganhar nesse jogo de forças? Melhor botar todas as chances do lado que você deseja, não?

Até mesmo porque, vira e mexe precisamos discutir com os outros. Ou, ao menos, ter bons argumentos que nos fortaleçam na hora em que nos dizem para dar complemento por baixo ganho de peso ou coisas afins. Precisamos saber que bebês são diferentes, que muitos perdem peso ou ganham pouco no início e que cada qual encontra seu ritmo de mamar e de ganhar peso. E que não é apenas a curva de peso que conta na hora de avaliar o estado de saúde de um bebê. Muitos outros fatores contam. Aprendi que, se o bebê vai bem, o ritmo com o qual ele ganha peso é apenas mais um dado daquela singularidade que ele é.

Aliás, até mesmo quando a preguiça ou a ignorância falam mais alto e o médico decide avaliar seu filho apenas pelo ganho de peso – quando ele deveria é estar fazendo um belo de um exame clínico bem geral e abrangente que incluísse até mesmo informações sobre o estado da mãe e uma observação da mamada com vistas a orientar em caso de dificuldade – são poucos os que sabem interpretar que “normal” é todo o bebê que está dentro da curva, seguindo o seu desenho. Da parte mais baixa à mais alta, tudo é “normal”. Ou seja, mesmo que seu bebê não ganhe um quilo por mês e não fique explodindo de dobrinhas, está na curva, está “normal”. Aprendi a interpretar curvas de crescimento e mais um tanto de coisas que me fariam uma PhD no assunto. Como a maioria das mães que conheço que precisam brigar para poder amamentar.

Aqui na França, amamentação passou muitas décadas fora de moda. Condenada mesmo como um fardo para as mulheres. E só voltou a ser levada em consideração, segundo me explicaram, quando foi associada à diminuição do câncer de mama. Veja só: que seja o melhor e mais completo alimento para seu bebê, isso não foi argumento suficiente para as francesas, que só reabilitaram esse ato “primitivo” quando foi aventado algum benefício para elas. Digo isso apenas para dar uma idéia da mentalidade que circula por aqui. Assim, quando fui com uma amiga no simpático Le Poussette Café noutro dia, que estava lotado de pequenos e grandes rebentos, eu era a única mulher amamentando. Todas as outras pessoas sacavam suas mamadeiras de suas sacolas cedo ou tarde. Ou seja, essa história de que amamentar está na moda é um argumento bem perverso de quem prefere ignorar a realidade e se deixar levar por discursos pré-fabricados justamente para desviar daquilo que um simples olhar pode constatar no dia-a-dia: a maior parte das mulheres não amamenta. Não quer, não pode, não sei. Mas não amamenta. E causa surpresa que uma entre elas tire o peito para fora e dê de mamar à sua bebê. Surpresa discreta porque os franceses são educados demais em sua grande maioria para praguejar contra o “politicamente correto” em voz alta. Fora os caras de mente tortuosa que ficam te encarando com olhos nada generosos, num país onde o topless na praia é permitido, vai entender… Mas isso é outra conversa. A questão, aqui, é a predominância do leite artificial e da mamadeira em todos os lugares por onde circulam pimpolhos franceses e suas mães. Isso porque, nas maternidades francesas, há um incentivo quase excessivo por parte de enfermeiras, sage-femmes e auxiliares de puericultura para que as mães amamentem. Mas basta ter alta e sair para o mundo e você vai topar com muitos profissionais de saúde tentados a te indicar leite artificial na primeira consulta. Assim como seus amigos, sua família, e todas as francesas que vão sempre te dizer que você não é obrigada a amamentar. Aprendi que, para amamentar, você tem que ter uma firmeza de intenções e uma clareza a toda prova. Porque será posta à prova o tempo todo.

E leva tempo! Como leva tempo! Quando dizem que existe um tempo de adaptação entre você e o bebê para que a amamentação entre em um certo piloto automático em que ela funciona bem, você pensa que esse tempo é o tempo até sair da maternidade, ou o tempo de alguns dias. Mas podem ser semanas. Ou meses. Cada bebê é um e cada mãe é uma e o tempo que cada qual vai precisar varia muito. Mas é sempre um bom tempo. E aprendi que quanto menos pressa temos, melhor e mais rápido a coisa engrena. Porque basta ficar tomada por aquela urgência estalando no peito para o bebê se inquietar. E bebê inquieto não mama bem, não descansa enquanto mama, não se apazigua com uma mãe botando pilha ali do lado. Do mesmo jeito que menos é mais para muitas coisas na vida, acho que na amamentação mais lento vai mais rápido do que ter pressa.

Pega, posição correta, tantas posições para amamentar… livre demanda, uma atenção aos sinais do bebê, às suas necessidades. Aprendi que o bebê sabe mais sobre mamar do que nós. Não apenas porque tem um reflexo de sucção, já que isso sozinho não garante nada, uma vez que tem a mãe ali do outro lado e o pequeno vai ter que se entender com ela para poder sugar e garantir que o leite do qual precisa seja produzido. Então, a mãe tem que confiar que o pequeno sabe quando tem fome, sabe quando precisa mamar, sabe onde lhe aperta o calo e quando precisa de aconchego, de calor, de companhia, de abrigo… e de leite. Se nos disponibilizarmos a atender essas demandas de nossos bebês, a amamentação transcorre de um jeito bem mais sossegado para ambos.

Não é um jogo de forças, você irritada porque sabe como tem que ser (um peito, outro peito, tanto tempo, a cada tantas horas, uma determinada quantidade) versus um bebê irritado porque precisa se encaixar em um ritmo que não é o dele e que ele ignora totalmente. Se você se aborrece porque não está funcionando, imagina o que ele sente ao ser alimentado quando e como você quer e não como ele precisa? Aprendi que amamentar é encontro, um encontro de duas pessoas que mal se conhecem e que precisam uma da outra de um modo muito íntimo. E que precisam se entender falando línguas desconhecidas um para o outro. Ou seja, um encontro quase impossível, a não ser que cada qual confie no outro e na sua capacidade de estar ali e de dar conta. Sem essa disponibilidade, amamentar vira um martírio. O que é uma pena, pois pode ser tão prazeroso, tão bonito como são todos os encontros de alma, os encontros verdadeiros e profundos.

Fico de coração partido a cada vez que ouço alguma história de alguém que parou de amamentar e passou à mamadeira. Por má informação, por falta de informação, por pressão dos outros, por falta de apoio… ou seja, por todos os motivos “errados”. Tenho uma amiga cujos olhos se enchem de lágrimas a cada vez que ela conta como se sentiu aterrorizada com a perspectiva de que a filha estivesse passando fome e passou ao leite artificial. Conheço uma outra que, a cada vez que me vê amamentando conta com tristeza como, mesmo sendo seu segundo filho e tendo amamentado a primeira, acreditou nas palavras do pediatra sobre pouco leite e baixo peso e passou à mamadeira. E o quanto se arrepende de ter ouvido a ele e não a si mesma. Por que nos despossuímos assim?

Tem um texto lindo da Anne Rammi do Super Duper sobre amamentação em que ela começa escrevendo sobre o que nós mulheres perdemos quando renunciamos sem motivos realmente impeditivos a essa experiência. Ela posta uma foto e fala de um olhar, um olhar do bebê que mama e que é só para a mãe. É esse encontro de almas do qual escrevi há pouco. Um bebê te olha no fundo da alma e faz teu coração revirar do avesso, de tanto sentimento que pode carregar em um mero olhar. E isso não acontece no comecinho, também leva um tempo, é a recompensa a ambos pelo trabalho bem feito. E esse olhar vem um dia. Por um instante todo o cansaço, as dificuldades, os conflitos passam. Parece piegas e parece mágica e, no entanto, acontece. É o tal encontro. Será que não vale o esforço?

Leia mais a respeito da amamentação nesse blog clicando aqui.