O pai participativo

Acho que posso contar nos dedos de uma mão apenas os pais que conheço que assumem plena e verdadeiramente a paternidade. A grande maioria defende-se ainda no mesmo lugar que nossos pais ou avós, para os quais ser pai, no melhor dos casos, era botar dinheiro / comida em casa e isso praticamente resolvia a questão. Ah, umas surras de vez em quando também podiam fazer parte do pacote, a cada vez que surgisse aquele ímpeto de educar amalgamado à disciplina que apenas um pai severo poderia aplicar nos seus filhos bestas-feras que a mãe era incapaz de controlar. Isso, no melhor dos casos, pois no pior o sujeito simplesmente se mandava – e ainda se manda – em algum momento da história como se não fosse com ele. Toma que o problema é seu. E segue com a vida. Mas há também uma outra tendência de pais que vem aumentando ultimamente, nas novas gerações, a do pai participativo. E é essa que tem me causado calafrios. E reflexões.

Pai participativo é um nome mais bonitinho para o pai que ajuda. É aquele carinha que troca uma fralda, dá uma mamadeira, dá um banho, troca uma roupinha. Levar para passear, no carrinho ou no sling, constitui-se no verdadeiro golpe de misericórdia desse tipo de pai, que arranca suspiros de admiração por onde passa, especialmente de mulheres e mães sobrecarregadas que olham e pensam: “ah, que exemplo de homem! Por que o meu traste não pode ser assim também?” Está feito o estrago: uma porção de mulheres desejosas do pai participativo e uma porção de homens pressionados a trocar ao menos uma fralda. E um bando de sujeitos que começam a vender sua imagem de pais sensacionais através da net, dos blogs, das fotos no Instagram, das postagens no Facebook.

Uma parte do segredo parece estar aí, nisso que passa desapercebido como um mero detalhe: o pai participativo é um pai público. E um pai que publica. Ele aparece na mídia na foto do pai que protege o filho da chuva em detrimento da sua própria figura molhada e atingida pelas intempéries inclementes. Ele é aplaudido por milhares de fãs quando advoga em prol de tratar sua filha como uma princesa. Ele se torna Deus quando é fotografado fazendo pele-a-pele com seu recém nascido. Qualquer uma dessas notícias e/ou imagens que tivesse no lugar do pai uma mãe não causaria – como em geral não causa – praticamente nenhum impacto. A mãe prioriza o filho em detrimento dela própria, ela advoga em prol de tratá-lo amorosamente e com respeito, ela cuida dele desde o nascimento, emprestando seu corpo, seus seios, seu calor, sua pele para acolhê-lo? Bem, isto não é mais do que sua obrigação.

Ser mãe não parece ser digno de nota até que o seja pelo seu contrário. Quando ela aborta, ou deixa a criança na portaria de um prédio de classe média alta, ou quando decide colocar na creche / na escola para voltar ao trabalho, ou quando decide deixar de trabalhar para cuidar da criança em casa… bem, aí aparecem muitas vozes para dizer que há algo errado. Já o pai não. Ele troca uma fralda, é ovacionado em praça pública e recebe o Nobel de pai do ano. Dois pesos, duas medidas, bem a cara dos nossos tempos e da nossa cultura, onde desigualdade de gênero é ainda onipresente e suscita poucas questões.

Fato é que para cada cem mulheres que falem seriamente sobre um assunto, será um homem que, dizendo o mesmo será reconhecido em sua sabedoria e apontado como o salvador da pátria. Basta ver, no meio acadêmico, em relação a qualquer tema em que existam muitas publicações e muitas reflexões feitas por mulheres, quem é que será considerado a referência no assunto. Grandes chances de que seja um homem. Quem será o professor livre docente chefe da cadeira do tema x, y ou z, a sumidade do assunto? Possivelmente, um homem. Mesmo que uma ou muitas mulheres tenham dito ou feito o mesmo antes.

Por que quando o assunto é mater / paternidade seria diferente? Criação com apego, quem são as referências? Uma série de mulheres. Mas o que “bomba na net” são as palavras de um homem.

Não estou aqui a defender um feminismo xiita no qual em nome do protagonismo feminino os homens deveriam ficar de boca fechada. Estou defendendo, tão somente, que aquilo que a maior parte desses tais pais participativos parece ter descoberto como a invenção da pólvora e que agora ficam bradando aos sete ventos como se fosse uma enormidade são apenas um básico, o mínimo, nada mais do que a obrigação. E que fica meio ridículo ficar se vangloriando por fazer o mínimo necessário por um filho. Ou não?

O pai participativo só pode existir e sair bem na foto porque, ao lado dele, na grande maioria dos casos, existe uma mãe sobrecarregada. Na sombra. Sem apoio. E sem nenhum reconhecimento.

Os poucos homens que conheço e dos quais falava no começo desse post como sendo aqueles que assumem de fato a paternidade não são esses pais participativos que jogam para a torcida. Na realidade, são até bem discretos. Na deles. Quase constrangidos como se tivessem que se desculpar por centenas e milhares de anos de desconsideração, de desrespeito, de desleixo, de negligência de todos os seus antecessores. São homens meio constrangidos que parecem finalmente ter entendido algo que a maioria das mulheres que são mães entendem tão rápido quanto um soco na cara, assim que o bebê nasce: que nós somos o tal do “último homem”, ou o “homem de frente”. Aquele que fica ali, no front ou no jogo, naquele lugar mais exposto, de total vulnerabilidade porque de responsabilidade absoluta. Depois de você, simplesmente não há. Não há para quem passar a bola, não há quem dê o tiro de defesa. Não há quem assuma o serviço no seu lugar.

Mulheres descobrem isso bem depressa e o peso inteiro do mundo recai sobre elas assim que o bebê nasce: se você não fizer, ninguém vai fazer. Você é aquela para quem todos se voltam a cada vez que for necessário lidar com algo que ninguém mais conseguiu. Que seja fome, sono, medo, mal-estar, tristeza, expectativa, frustração… o que quer que seja, ao fim e ao cabo, todo mundo sabe que, se não der para resolver, se cansar, se apertar, se a coisa ficar complicada, leva para a mãe que ela resolve. E a primeira vez que seu filho chora e vem parar no seu colo, você sente no fundo de você mesma que é assim: eis aí o limite, eis a situação em que toda a responsabilidade por esse sujeitinho e pelo que quer que esteja acontecendo com ele recai sobre mim.

Um pai, ou a maioria dos pais, nunca sentiu isso nas suas entranhas. Ele age com a leveza de quem tem sempre a quem recorrer em último caso. E assim pode se permitir chegar em casa no final do dia e decidir cuidar ou não da cria, dependendo do seu cansaço, da sua vontade, da sua paciência ou do que está passando na TV. Quantas mães podem se dar a esse luxo? Quantas mães podem ouvir o filho chorar e virar para o lado na cama se dizendo: “ah, deixa para lá, não vou não, estou cansada” sabendo que, de um jeito ou de outro, o bebê vai parar de chorar de exaustão ou porque outra pessoa foi lá acudir?

Sim, existem pais hoje em dia que fazem um enorme esforço para encontrar um lugar e uma maneira outra de serem pais, diferente daquela que viveram enquanto filhos, diferente da figura de autoridade para a qual disciplina equivale a violência. E, nessa busca, eles muitas vezes metem os pés pelas mãos. Do mesmo jeito que nós, mães, na medida em que buscamos também criar um outro modo de maternar mais cuidadoso e respeitoso com nossos filhos, fazemos. Pais e mães erram e acertam o tempo todo nessa caminhada. Então, qual o sentido de transformar as ações bem sucedidas em espetáculo? O que é mais importante: criar um modo de ser pai e viver essa experiência com os filhos ou criar cenas bonitas para gerar comentários, likes e admirações na web? Nessa hora percebemos claramente a diferença entre os pais que assumem e os pais “participativos”: uns focam nos filhos e na família, outros focam na torcida. Pai participativo é aquele que brinca com a criança quando tem visita em casa. Ou no parquinho. Um olho na criança e outro na audiência… Pffff…

Não, isso não é um texto contra pais que têm blogs ou que publicam imagens ou textos sobre sua experiência de paternidade na web. Conheço alguns bem legais, muito bons mesmo, com textos e imagens sempre tocantes e sensíveis. Isso é um texto de reflexão sobre porque, quando vejo alguns textos ou imagens de pais com seus filhos bombando na web, sinto um incômodo grande. Uma inquietude com aquele endeusamento que se segue a essas postagens, um incômodo com os comentários, especialmente das mulheres, muitas das quais mães, uma irritação mesmo com a idéia que fica por trás desse teatro todo de que qualquer coisinha que um homem faça basta. Não, meu caro, não basta. É preciso muito mais. É preciso se colocar no lugar do homem de frente. Do último homem. Qualquer coisa a menos do que isso, ainda por cima pedindo aplauso e adulação, ao menos para mim parece cinismo, arrogância e, pior de tudo, narcisismo. Deixem disso, meus caros. Façam melhor.

Todo mundo tem um pai…

 

… do mesmo jeito que tem uma mãe. Pai herói, pai presente, pai ausente, pai desconhecido, pai monstro, pai falecido, pai doador, dois pais, pai solteiro, pai tirano, pai avô… O pai, essa figura fundamental para que exista um filho, qualquer que seja a maneira como ele se encarne na experiência de cada um. Ele existe. E, a meu ver, não deveríamos ter tanta pressa assim em julgá-lo inepto e em destituí-lo de seu lugar.

Noutro dia li um belo texto da Dani Brito do Balzaca Materna a respeito da paternidade e do quanto, ainda hoje em dia, no Brasil, e no que diz respeito à grande maioria, essa função, quando bem exercida, parece algo extraordinário. Quase um milagre que hajam pais que sejam bons pais, tanto que vira até capa de revista. Machismo nosso de cada dia? Naturalização da mãe como sendo aquela que tem que dar conta de tudo no cuidado e na educação dos filhos, deixando ao pai um lugar de exceção? Pode ser. Pode ser que ainda estejamos marcados, em nossas mentalidades e em nossos imaginários, por aquela figura de pai provedor, que garante o sustento da casa e da família. E aí se finda sua contribuição. Criamos meninas para brincar de casinha e meninos que não podem nem lavar uma louça. Meninas precocemente hiper sexualizadas e meninos que entendem que meninas sexualizadas não merecem respeito. Sim, há algo bastante deturpado aí e a responsabilidade é nossa mesma. Ao criar crianças já tão enfiadas em certos padrões e clichês sociais altamente preconceituosos e fragmentários, estamos produzindo adultos plenos de preconceitos que ocuparão, por sua vez, posições bem estereotipadas em suas vidas e agirão segundo valores pré-concebidos e pobres de diversidade, inclusive ao se tornarem pais e mães.

Mas é só isso?

Penso que não e vou aproveitar do malfadado comércio chamado Dia dos Pais para compartilhar algumas reflexões. Vejamos.

Se deixarmos de lado, por um momento, essa massa de, digamos, “pais clichê” – se é que ela ainda existe de forma tão maciça assim – o que me parece é que tem muito homem bem perdido por aí. Os homens se confrontam com as novas exigências de seu papel de pai – que podem ser resumidas no bordão: “ser pai é participar” – e se mostram bem atrapalhados e sofridos. Vou direto ao ponto: reivindicamos pais presentes, ativos, participantes, afetivos, próximos, compartilhadores para nossos filhos. Mas será que deixamos realmente um espaço para que isso aconteça? Será que nós, mulheres, não mantemos também uma posição bastante ambígua de querer esses homens mais humanos e presentes ao nosso lado sem facilitar em nada para que isso aconteça?

Acredito que muitas de nós crescemos totalmente paramentadas de super heroínas e isso atinge seu clímax no momento da maternidade. Ser mãe é padecer no paraíso significando que ser mãe é se sacrificar, dar tudo, fazer tudo, ser tudo para um filho. Doação absoluta onde não cabe mais ninguém que queira ou possa doar-se também. Sim, somos nós que carregamos o bebê na barriga. Sim, somos nós que parimos. Sim, somos nós que amamentamos. E tudo isso é uma dádiva. Mas tudo isso também é poder. Talvez o único poder deixado às mulheres ao longo de tantos séculos de dominação masculina. E, mesmo assim, não foi fácil guardar esse para a gente, que vive tendo quem queira tirá-lo, sob pretextos médicos, comerciais ou de tantas outras fontes. Então, como é que a gente vai abrir mão disso, né? Dessa única função em que somos reconhecidas em um lugar valorizante para compartilhar algo desse valor com o “inimigo”?

Vejo muitas situações em que o pai é realmente o inimigo, declarado ou não. O “traste”, aquele que não serve para nada. E como isso se acentua até a crueldade nas situações em que os pais se divorciam. Todo o ódio de que uma mulher é capaz, toda a sede de vingança por responsabilidades que ela não quer assumir sobre as escolhas que fez na sua vida e que despeja nesse outro, confortavelmente banido da esfera familiar, como se apagar um pai resolvesse os problemas de uma mulher. Ou de seus filhos. Ou garantisse o ser feliz. Ou evitasse de envelhecer. Não estou dizendo que todas as separações partem ou desembocam nisso, mas muitas sim. Tão clichê como o lugar do pai é esse pai “inimigo” no momento em que o casal se separa. Uma pequena vingança, um acerto de contas jogado nas costas dos filhos que viram joguete nas mãos dos adultos, cada um mais preocupado em destruir a imagem do outro do que em se dar conta que, para os filhos, sempre haverão aquele pai e aquela mãe. E que quanto mais se destrói um ou outro, mais se destrói algo nos próprios filhos que estão ali. Mães podem ser muito cruéis às vezes, de uma crueldade destruidora.

Pais também podem ser cruéis. Pais que se ajustam à perfeição nesse lugar de tirano provedor e maltratam seus filhos desde sempre, agindo com violência ou com negligência extremas, apenas “porque podem”. Como se filho fosse direito adquirido e tivessem uso fruto daquele outro ser, podendo dispor de seus corpos, de suas mentes, de seus serviços. Filhos a serviço dos pais e da crueldade dos pais. Pais que quebram seus filhos de muitas maneiras que não apenas por meio da violência física. Por vezes, há uma mãe que defende. Noutras, bem piores, há uma mãe que goza da situação e que se sente também no direito de dispor desses filhos como se fossem objetos. De seus desejos, de seus caprichos, de sua violência. Pais e mães podem ser muito cruéis. Entre si e com os seus filhos.

Estou mencionando esses exemplos tão extremos para dizer que, a meu ver, é tão difícil ser pai quanto ser mãe e não há nada de natural tanto em um quanto em outro. Deixados à própria sorte e aos clichês que atravessam o ser pai e o ser mãe hoje em dia, acabam mais propensos às radicalidades da ausência, da negligência ou da violência tanto quanto as mães, se deixadas a si mesmas, acabam muitas vezes tomadas pela onipotência, pela violência e pela arbitrariedade. Para a psicanálise, a natureza (e o natural, se é que isso existe) é a violência. E tudo o que se faz para minimizá-la é fruto de um esforço de civilização. O contrário da idéia de que o homem é bom e a sociedade o corrompe. Se quisermos mais do que o clichê instituído, é preciso trabalhar bastante. Pessoal e socialmente.

Então, há homens que são tocados por essas questões e por essas demandas. E não querem ficar no clichê. E querem sinceramente inventar uma paternidade que faça sentido e que seja recheada de algo mais do que o estereótipo vazio do ser pai. E, então, vem a mulher e enche o sujeito de críticas, acaba com a criatividade e a espontaneidade dele, tudo castra. Não é assim que dá banho, comida… não é assim que cuida… não é assim que fala… Putz! E depois reclama de ter ali um homem acuado, distante, indiferente, pouco participativo. Bom, como faz? Afinal, o que realmente queremos? E estamos verdadeiramente dispostas a pagar o preço do que queremos que, nesse caso, é o preço de partilhar um poder? Cabe aqui a questão.

Tenho algumas sortes na vida. Uma delas é a de ter um excelente pai, amoroso como o quê. Mas que, por sua forma mais silenciosa de expressar esse amor do que minha mãe, me deu muito trabalho até que eu percebesse os gestos, as atitudes de carinho, as preocupações, os orgulhos, as partilhas. Foi meu pai quem me ensinou que, muitas vezes, a gente tem que aprender a decodificar os sinais do amor e do cuidado vindos do outro, pois eles não necessariamente aparecem do jeito que, para nós, seria o mais evidente. E esse pai se tornou um belo de um avô, de um coração transbordante, capaz de coisas inimagináveis para quem o conhece do lugar de filha e que, por sorte, minha pequena vai conhecer logo mais.

Tive também um avô maravilhoso, que parece ter sido um pai muito difícil, mas que soube tirar água de pedra de si mesmo e transformar toda sua dureza em um amor cálido, suave e generoso com os netos. De uma beleza ímpar e de gestos simples e grandiosos, ele nunca precisou dizer que amava o amor que era evidente que tinha por nós.

E, agora, tenho ao meu lado um homem incrível, que se engajou comigo em um projeto imenso de vida, que é esse de tornar-se pai e tornar-se mãe. De coração aberto, se jogou de cabeça, confiando que nós seríamos e seremos capazes de fazer três de dois e que isso seria uma experiência de felicidade. Não fosse por mais nada, o simples fato de fazer essa aposta junto comigo já mereceria todo o meu respeito e toda a minha gratidão. Gratidão não por se tratar de um favor ou de uma concessão que ele me tenha feito, mas porque penso que é questão de agradecer mesmo todas as escolhas não obrigatórias que fazemos ao dividir parte de nossa vida com um outro. No amor ou na amizade.

Mas ele é um desses “pais modernos”, desses que eu mencionei no começo e que parecem um milagre de capa de revista, lindos e bem resolvidos com essa vontade de ser pai. Mas um pouco perdido nessa posição. Como um homem curioso, ele se apaixona pela barriga que mexe e deve ficar imaginando quem é que vai sair dali. Discreto, ele tenta respeitar e apoiar as vivências intensas que a “dona da barriga” tem tido, nesses nove meses de quase possessão. Os gestos, os cuidados, as tentativas de partilha estão todos ali, para quem quiser e puder perceber. Acho que um homem como esse merece toda a generosidade de uma mulher para ele poder ser o pai que ele quer ser, não?

Cuidemos bem dos pais dos nossos filhos. Vários deles estão dispostos a se reinventarem de maneiras incríveis para ocupar esse lugar.