Rapidinhas da maternidade

Mais descobertas sobre a maternidade entre fraldas, sonecas, banhos, sorrisos, brincadeiras e tudo o mais:

  • depois dos sorrisos dormindo, vêm os sorrisos acordada, olhando no olho, diretos para você… coisa de fazer o amor aumentar de forma exponencial, quando você imaginava que nem teria como amar mais aquele serzinho ali.
  • roupinhas se perdem de um dia para outro, nessa época em que 1cm a mais ou  menos faz uma enorme diferença.
  • quando você diz que depois da mamada vai tomar um banho, ou jantar, ou ambos, isso pode querer dizer dali a 5 horas. Ou no dia seguinte.
  • aliás, é bom relativizar tudo aquilo que você concebe como um prazo sensato para qualquer coisa: quando dizem que o bebê cria um ritmo e uma rotina, isso não significa que vai acontecer no tempo que você julga plausível para tanto, mas no tempo que o bebê precisa para isso. Quer dizer: é no ritmo dele, não no seu, ok?
  • das perguntas idiotas, “você já voltou a trabalhar?” está no meu top 3 da cretinice. De onde vêm essa necessidade das pessoas de te pressionar para que você retome uma vida que já mudou e que aja como se um acontecimento de tão grandes proporções como ter um filho pudesse ser equacionado em poucos meses a ponto de você voltar ao trabalho linda, leve e solta? Parece que acreditam que voltar ao trabalho sinalizaria que o furacão já passou e que tudo, inclusive você, já está de volta no quadradinho dos rótulos em que haviam te colocado.
  • outra do meu top 3, que normalmente segue a anterior: “mas você não se entedia? não faz alguma coisa para se ocupar?” Quer dizer que eu fico em casa de pernas pro ar o dia inteiro e preciso de ocupação, né? Pergunta que vem, usualmente, de pessoas que julgam que, já que você está em casa o dia inteiro, sem trabalhar, ao menos poderia fazer uma comidinha, dar uma adiantada na faxina, passar umas roupas… se ocupar, pô! Quer dizer, por que você não faria, não está trabalhando, está cheia de tempo livre…
  • frequentemente, as perguntas cretinas são feitas por pessoas que julgam a maternidade como um calvário que cada qual tem que suportar. Quer dizer, trabalhar é um prazer, férias são um prazer, a balada é um prazer, mas ter filhos não pode ser, entende? Assim, o sujeito fica ali testando o quanto você está tão mal nessa situação quanto ele está, ou quanto ele supõe que você deveria estar. Não passa pela cabeça desses seres que, talvez, para você ser mãe possa ser uma escolha, um prazer, uma alegria e que, mesmo descabelada e cansada, você está realmente bem com isso e não queria estar em outro lugar nesse momento.
  • aliás, diga à maior parte das pessoas, em resposta ao “como andam as coisas?”, que está cansada e ouvirá um sermão culpabilizante sobre as maravilhas da maternidade. Diga que está bem, tranquila e feliz e ouvirá um discurso sobre: 1) os erros que está cometendo, 2) tudo o que você está perdendo de legal, 3) como ter filhos é uma coisa tão chata e limitante.
  • a curva de crescimento é mais importante do que a constatação de que seu bebê está bem. Nenhuma conversa com mães escapa do momento: “ela pesa quanto?”, “ganhou quantos quilos?”, “mede quanto?”. De repente, todo mundo virou pós-doutor em estatística.
  • amamentar pode dar certo. Mas é preciso muito amor e paciência. Não só com o rebento mas, especialmente, consigo mesma. O ritmo é o dele, lembra? E, provavelmente, vai demorar mais par engrenar do que o prazo que você botou na sua cabeça. Ninguém manda ser acelerada em um mundo acelerado. A criança que acabou de chegar nem sabe disso – que bom! – e vai fazer as coisas conforme puder e precisar. Quem sabe seja uma boa oportunidade para desacelerar ritmos e expectativas, não?
  • se alguém anda precisando de argumentos pró-amamentação, e não se contenta com todos aqueles que falam em prol da saúde do bebê, só tenho uma coisa a dizer: 10 quilos perdidos em menos de 3 meses. Pense nisso.
  • o que são esses homens nojentos que ficam olhando enquanto você amamenta? Pois além dos olhares de censura, como se um peito para fora fosse mais pornográfico do que as imagens de guerra, miséria e corrupção com as quais somos bombardeados cotidianamente sem o menor pudor, existe o olhar bizarro de adultos tortuosos que babam enquanto você amamenta como se fossem psicopatas. Ainda estou tentando pensar em como Freud explicaria essa.
  • Paris é uma cidade hostil para mulheres grávidas e para mães de bebês e crianças de colo. Muitas escadas, muita gente, muito perrengue, espaço zero em restaurantes, bares, cafés, metrô, ônibus… Mas os parisienses se revelam em toda sua gentileza inesperada quando você carrega um bebê. Acho que todos sabem do perrengue que todos passamos no dia-a-dia não tão cor-de-rosa da cidade luz.
  • aliás, wrap, sling e todos os meios de portagem são essenciais por aqui (ainda vou escrever uma ode a eles). Tirando todos os benefícios que trazem em termos de reconforto e segurança par ao bebê, nada mais prático para circular por essa cidade do que algo que não triplique de tamanho o espaço que você ocupa nos lugares. Franceses parecem detestar gente muito espaçosa.
  • assim como parecem detestar bebês que choram, como se fosse uma aberração da natureza. Pois é, chorar é que é esquisito, não ter um dos maiores índices de consumo de antidepressivos do mundo. Acho que os franceses choram pouco, vai ver é isso. Excesso de discrição.
  • contudo, a França possui um sistema de acompanhamento do recém nascido durante toda a sua primeira infância que é IN-VE-JÁ-VEL. Mesmo.
  • amor de mãe só aumenta. E aumenta. E quando você acha que está no cume da montanha, aumenta ainda um pouco mais.

Outras descobertas: aqui.

As mudanças em ti, as mudanças nos outros.

Tenho uma amiga-irmã, grávida quase ao mesmo tempo que eu (porque amigas-irmãs compartilham quase tudo, menos marido e escova de dentes, hehehe) que deu a melhor definição de como se defender dos palpites e das invasões que nos assolam desde que as pessoas, próximas ou não, tomam conhecimento de que estamos grávidas. Sabe aquela invasão básica e desagradável, feita sob o pretexto da boa vontade e de querer ajudar, mas que é sempre inconveniente, despropositada e oprimente? Pois bem, essa amiga-irmã definiu sua estratégia de defesa: já que não dá simplesmente para mandar todo mundo guardar seus palpites para si ou simplesmente ir tomar naquele lugarzinho sombrio e úmido, ela criou um botão de liga-desliga que funciona muito bem e que permite que ela mergulhe numa bolha de proteção a cada vez que alguém começa com a ladainha. E chamou o botão, carinhosamente, de sua esquizofrenia.

Uma grávida esquizofrênica, não no sentido patológico do termo, faz mesmo muito sentido, já que aprendemos na marra ao longo desses 9 meses que é necessário cindir, separar, desligar-se do mundo em muitos momentos para proteger a si e à cria nesse complexo e introspectivo ato que é gestar um bebê. Vai ver que é por isso que ficamos tão distraídas, tão desligadas, tão desatentas, memória tão curta… tudo concentrado naquilo que é o mais importante: o bebê, seus sinais, seus movimentos, a gestação, seu corpo, o corpo dele… Se existe uma sabedoria na natureza é essa de fazer uma mulher grávida ser capaz de desligar de tudo o que é apenas tormenta e voltar-se para o que realmente importa.

E, acreditem, o que menos importa é aquilo que os palpiteiros têm a te dizer. Não há conselho estapafúrdio, história trágica de meter medo, história cor-de-rosa de fazer sentir que você é uma porcaria de mãe porque contigo nada é tão perfeito assim… não há palpite ruim que não possa ser encontrado em mais trezentas bocas de trezentas outras pessoas. Ou na internet. Ou em livros. Ou em blogs. Ou seja, não se preocupe em não prestar atenção porque você não há de perder nada que não será repetido mil vezes nas suas exaustas orelhas de gestante. E cada vez será tão inútil quanto na primeira. E tão nocivo, invasivo, aflitivo quanto. Então, esquizofrenia sem dó. Cisão. Separação. Palavras inúteis para um lado, você para o outro. Na sua bolha de gestar. E de cuidar do que realmente importa.

Acontece que tenho descoberto algo curioso em relação a essa invasão palpiteira. Aliás, duas coisas que têm me impressionado bastante e que compartilho aqui. Talvez o fato de estar em outro país torne essas constatações ainda mais gritantes. Vamos ver.

A primeira é que os palpiteiros de plantão parecem ser, por algum motivo que não mera coincidência, as pessoas menos próximas de você. Nunca é alguém com quem você compartilha de sua intimidade e de sua confiança. Nunca é o melhor amigo, ou o parente querido. Esses, na medida em que você gesta e em que sua vida muda, parecem entrar numa espécie de sintonia muito fina e cuidadosa contigo. São aquelas pessoas amadas que perguntam antes de afirmar, que querem saber, que têm ouvidos disponíveis e braços para abraços apertados, que falam com cuidado, que são generosos em seus dizeres, e que te deixam muito mais falar do que te obrigam a ouvir, ou que te acompanham nos seus silêncios.

Ao menos comigo, as pessoas que vêm palpitar já se destacam de cara por essa falta de proximidade, essa insensibilidade, essa falta de ouvido, essa pressa em vomitar suas verdades, esse desconhecimento e essa falta de interesse por aquela pessoa com quem estão falando. Elas não falam para mim, mas para si mesmas, para se convencerem de algo, para descarregarem algo, para imporem suas certezas que não toleram nenhuma diferença, nenhuma discordância. Não é conversa, é monólogo. E, como todo monólogo, é chato, desinteressante, enervante. E quando a gente engravida, nossa tolerância para esse tipo de coisa, felizmente, parece atingir o nível próximo de zero. Ainda bem! Liga-desliga. Esquizofrenia gravídica. Talvez fosse algo que merecesse até ser levado para a vida inteira, não?

Agora, como consequência direta dessa primeira constatação sobre os “cheio de opinião”, a outra coisa que descobri em relação a essa invasão palpiteira durante a gravidez e, dizem, mais ainda depois do nascimento do bebê (socorro!) é que ela te deixa, mulher grávida, em uma situação de imensa solidão. Porque conversa que não é conversa não alimenta, não faz companhia, não ajuda em nada e não permite troca alguma. Preenche apenas o tempo com um recheio inútil e que faz sofrer. E companhia de verdade nesses momentos, como talvez em todos os momentos da vida, é muitíssimo rara.

Não é só a gente que muda quando engravida. Os outros ao nosso redor também mudam muito, quer queiram ou não. Reagem de maneiras que provavelmente não fariam se parassem um segundo para pensar no que já viveram em suas próprias gestações, ou nas que viram outros viverem, ou em suas próprias experiências de vida e em seus valores, sendo pais ou não. Tem gente que se afasta como diabo que foge da cruz, como se de repente você não fosse mais parte daquele mundo hype e descolado em que todo mundo sempre está a viver coisas interessantíssimas, uma vida de luxo, poder e glamour bem diferente da perspectiva de um cotidiano de fraldas, mamadas e noites de sono entrecortado. Gente que sempre militou pelo respeito à diferença e às diferentes escolhas de vida passa a ter dificuldades com a sua mudança de vida. Assim como aqueles que sempre priorizaram o trabalho intelectual acima de tudo passam a ter dificuldades com a sua escolha em priorizar sua gestação nesse momento, como se você se tornasse uma traidora da causa do trabalho, da intelectualidade, do pensamento, do feminismo, da autonomia… E ainda tem gente que sempre te estranhou por não fazer parte do “status quo” e não seguir os caminhos padrão e que, agora, vêem na sua gestação uma escolha por se enquadrar que as tranquiliza. Você passa a fazer parte da turma e elas logo querem te integrar no maravilhoso mundo do que elas pensam ser a maternidade.

Assim como nós reagimos de modos os mais inusitados quando nos descobrimos grávidas, eis que as pessoas também reagem. Se afastam, nos deixam na promessa do papo, da visita, do email que nunca chega. Ou se aproximam, nessa tentativa tosca de te encaixar em algum lugar, te invadindo com as certezas que são delas a respeito de quem você é ou do que você quer. Mas quem se afasta a partir de estereótipos nos quais passa a te ver ou quem se aproxima por te encaixar em novos clichês, o que eles podem saber realmente a respeito daquilo que você vive?

Tenho pensado que o momento da gravidez é um momento de faxina geral, em que tudo se abala não apenas dentro como fora, na vida, com as pessoas. O que permite que a gente faça uma triagem e consiga separar o joio do trigo ao longo desses meses. Sem muito esforço, porque a excitação é tanta ao redor de uma grávida que as pessoas mostram escancaradamente a que vieram. E fica palpável quando você está sozinha na presença de alguém ou quando existe ali verdadeiramente uma presença de quem faz questão de estar ao seu lado. Momento de faxina providencial, até para saber com quem contar. Pois uma das alegrias desse momento de gestação é justamente que nas brechas entre a esquizofrenia e a solidão surgem algumas pessoas fundamentais que se revelam em palavras e gestos amorosos, generosos, amigos, companheiros. Uma mensagem breve enviada em um momento importante. Um telefonema. Um email. Uma visita. Um papo aqui, outro acolá. Gestos que fazem toda a diferença. E fazer a faxina, separar joio do trigo, trabalhar o liga-desliga são nada mais do que formas de fazer justiça a esses gestos. Cuidar do que realmente importa. Dentro e fora. Cuidar de quem realmente importa.

Outras sobre as mudanças em você, nesse post aqui.