Gravidez na França… ainda

Ao longo da minha primeira gravidez, escrevi uma série de posts sobre como é estar grávida na França, abordando minhas descobertas dos meandros mais banais dessa experiência. De lá para cá, posso dizer que nada mudou em termos objetivos e práticos. Mas minha visão tornou-se muito mais crítica de como as coisas se dão por aqui. Então vamos a uma nova série das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil. Porque tem gente que pensa que é só luxo, poder e glamour pelas ruas de Paris. E que até cogita vir para cá parir seu rebentinho em terras charmosas do Velho Continente. Então, antes de fazer as malas, leve em conta o que se segue, tá?

Não entendo muito bem o porquê, mas parece existir algo da mentalidade francesa que tem a ver com uma irresistível atração por navegar contra a corrente. Basta algo de interessante existir noutro lugar que não na França para que se encontre a maior resistência em experimentá-lo por essas bandas. Como se os franceses tivessem que ser os inventores de tudo o que é bom, correto e digno de consideração nesse mundo. Naquilo que diz respeito à maternidade em geral, não é diferente. E é onde enxergo essa espécie de teimosia arrogante com mais força. Chega a ser exasperante conversar com a grande maioria dos franceses e, mais ainda, com os profissionais de saúde daqui sobre o assunto, tamanha é a recusa em se abrir para pensar e tamanhas são as certezas baseadas em clichês, em estereótipos e em informações ultrapassadas e questionáveis. Afffff, que fastio!

Senão vejamos. As recomendações da OMS para gravidez, parto, amamentação? Eles praticamente riem da sua cara. O que vale não é o que uma organização internacional de saúde propõe a partir de dados científicos recolhidos da maneira mais isenta possível e sempre atualizados. O que vale é o que propõem as instituições francesas, os conselhos de medicina, de ginecologia, de obstetrícia, de pediatria daqui. Patrocinados, claro, pela indústria farmacêutica, pela indústria de alimentos para a primeira infância e por outros atores poderosos dessa lógica que transforma saúde em mercado. O que vale é o que essas instituições dizem e não se vê quase nenhum questionamento sobre os interesses por trás daquilo que dizem.

Não interessa por aqui que todos os vizinhos da França que possuem índices melhores de todos os indicadores de saúde ligados à gravidez, parto, puerpério e amamentação tenham em comum algumas diretrizes como favorecer parto natural humanizado, diminuir drasticamente as intervenções durante o parto, diminuir drasticamente a medicalização da gravidez, o número de exames, o uso de ultrassom, favorecer parto domiciliar, desaconselhar ou abolir episiotomia, incentivar formas alternativas de controle da dor, privilegiar o parto com equipe paramedical, favorecer e incentivar a amamentação, desaconselhar o uso de mamadeira ou chupeta ou a prescrição de complemento por parte dos pediatras… Enfim, tudo isso que encontramos como pontos comuns no que diz respeito à maneira de acompanhar gravidez, parto e puerpério em países como o Reino Unido, a Holanda, a Suíça e a Alemanha são menosprezados pelos franceses. Por que eles saberiam mais ou fariam melhor do que nós, não? Doulas na França? Sim, se você fizer um parto domiciliar. Em meio hospitalar, é praticamente impossível, pois elas são consideradas as “inimigas n° 1” das enfermeiras obstétricas.

Como consequência, temos um país em que o incentivo ao parto normal não significa a favorização de um parto humanizado. Gravidez e parto são momentos extremamente medicalizados na França, cheios de intervenções, de mandos e desmandos sobre o corpo das mulheres e de muita violência obstétrica. Sim, por incrível que pareça, num país em que se diz respeitar muito o direito das mulheres, a violência obstétrica é assunto tabu, pouco nomeado e apenas recentemente tornado assunto de discussão e pesquisa, ainda bastante vinculado ao tema mais amplo da violência ginecológica, que pode acontecer ligada ou não às situações de gravidez e parto.

Nascer por aqui é nascer em meio hospitalar, com anestesia, em posição ginecológica, tendo pouco ou nenhum espaço para opinar sobre o que quer que seja. As sage-femmes (enfermeiras obstétricas) infelizmente adotam em sua maioria a postura intervencionista e ultramedicalizante do médico, optando por impor um mesmo esquema para toda e qualquer gestante, independente da sua singularidade. Justificativa? Nas grandes cidades e nos grandes centros hospitalares vocês atrapalha o andamento do trabalho quando quer “fazer diferente”. Ou, dito de outro modo: gravidez e parto devem desenrolar-se segundo o que facilita a vida de médicos, enfermeiras obstétricas e equipes, não segundo o que mãe e bebê precisam, podem ou gostariam. Você quer algo diferente? Prepare-se para o percurso do combatente.

Ainda que o parto humanizado tenha algum eco por aqui, encontrar opções de serviços um pouco mais abertos a um acompanhamento mais respeitoso e humano não é tarefa fácil. É necessário encontrar uma maternidade que tenha a opção de um parto humanizado. E elas são minoria. Existem um projeto de casas de parto que foi recentemente aprovado na França e alguns espaços-piloto que começam a funcionar. Mas, como no caso do parto domiciliar, as exigências são enormes e quase impeditivas para que a coisa avance no ritmo da necessidade e da demanda de um grupo crescente de mulheres.

Pior ainda, mesmo que o parto domiciliar exista e seja assegurado como direito das mulheres, tudo é feito para inviabilizar cada vez mais essa opção e para que ela deixe de existir. Para se ter uma idéia, as enfermeiras obstétricas que trabalham com parto domiciliar precisam, desde o começo dos anos 2000, pagar um seguro de um valor tão astronômico e desproporcional ao que elas ganham que muitas se vêem impedidas de continuar a exercer suas atividades por razões financeiras. Além disso, o que certamente acontece, do mesmo modo que em meio hospitalar, e a diferença estatisticamente nem é tão significativa e favorece o parto em casa – o que vemos é uma mídia que se inflama, processos que surgem, profissionais que são sumariamente condenadas a não mais exercerem sua profissão e todo um grupo de profissionais de saúde que quer o fim do parto domiciliar comemorando alegremente a extinção daquilo que eles dizem abertamente ser uma “aberração”, tendo em vista que temos tanta tecnologia hoje em dia para acompanhar, controlar e remediar qualquer imprevisto. Na França, contra todas as reflexões de ponta sobre o assunto e nadando ainda arrogantemente contra a maré, chegamos ao ápice da idéia de que gravidez e parto são territórios das intervenções médicas necessárias para controlar e corrigir um acontecimento que, deixado à própria sorte, só pode terminar mal. Como é que a humanidade sobreviveu até o surgimento da medicina e até o nascimento ter se tornado uma intercorrência médica, não? On se demande bien.

Não me parece que essas intervenções e usos tecnológicos tenham melhorado tanto assim os índices de intercorrências durante gravidez e parto aqui na França, assim como em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, a partir de um certo ponto, eles não funcionam mais para ajudar a diminuir intercorrências, nem mesmo a mortalidade materna ou infantil, como se têm visto no resultado de muitas pesquisas mundo afora. Servem justamente ao seu contrário. Veja essa pesquisa, por exemplo, em que o autor afirma textualmente que a mudança do local de nascimento para os hospitais e maternidades não o tornou mais seguro para mulheres que não apresentassem nenhuma condição médica pré-existente justificando tal indicação. Pelo contrário, diz o autor, as intervenções e a ênfase na tecnologia aumentaram consideravelmente o risco de intercorrências, inclusive de morte materna e neonatal.

Mas, quem é que vai processar o doutor que precisou extrair o bebê à fórceps de uma mulher que estava naquela posição ginecológica super apropriada para que um bebê que tem que descer precise fazer uma curva para cima na reta final, sendo obrigada a um puxo dirigido a cada vez que lhe diziam para fazê-lo, mesmo antes do bebê ter descido totalmente e os puxos espontâneos terem começado, não? Quem vai questionar o doutor? Ele salvou a pátria, o bebê não descia, não encaixava, ela é que era muito estreita, imagina se ele não estivesse lá. Ainda bem que essa mulher estava ali no hospital, hein? Que o bebê nasça mal e possa ter sequelas, que a mulher fique lacerada e traumatizada com a violência do parto, tudo isso parece uma consequência aceitável de algo que foi feito única e exclusivamente no melhor interesse de ambos. Ou não?

Pois então, se você engravidar na França e decidir ter o seu bebê aqui, posso te dizer com bastante segurança que há uma grande probabilidade de que seu acompanhamento da gravidez seja hipermedicalizado, que você se veja inserida em um esquema de muitos exames e que o seu parto – normal – seja cheio de intervenções. Uma decepção, sobretudo em um país que tem todas as condições de oferecer bem mais e bem melhor do que isso.

Segue abaixo uma lista não-exaustiva de links, sites e grupos para quem quiser se aventurar pelo maravilhoso mundo da “maternidade alternativa” na França:

  • Lista de sage-femmes (enfermeiras obstétricas) que ainda fazem parto domiciliar ou parto naquilo que chamam plateau technique, o que significa parto em meio hospitalar mas em condições humanizadas: aqui.
  • Recomendações da OMS para gravidez, parto puerpério e amamentação, em francês: aqui.
  • Grupos de apoio ao parto domiciliar na França: aqui, aqui e aqui.
  • Doulas de France: aqui.
  • Carta de direitos da pessoa hospitalizada na França, que garante seus direitos à informação, à decisão e à recusa de procedimentos: aqui.
  • Sinopse do recente documentário Entre leurs mains, que discute justamente essa hipermedicalização dos nascimentos na França e a caça às bruxas realizada contra o parto domiciliar: aqui
  • AFAR – Alliance francophone pour l’accouchement respecté: site aqui.

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil parte III

Para quem não acompanhou essa saga, já escrevi um pouco a respeito da gravidez e do parto na França nesse post aqui e nesse aqui. Tem um passo-a-passo das burocracias para ter acesso ao acompanhamento médico durante esse período, mesmo sendo estrangeira, além de um bocado de considerações sobre como esse acompanhamento aqui, onde se privilegia o parto normal é, não obstante, extremamente medicalizado e baseado na idéia de risco. Não se trata de um guia exaustivo, mas do que tenho descoberto na prática sobre esse acompanhamento e que, talvez, possa ser útil a outras pessoas que também estão grávidas e tendo seus bebês por aqui.

Onde ter informação?

O que constatei ser o mais difícil, na França, é o acesso à informação. Como é tudo muito burocrático e cheio de meandros, você leva um bom tempo até entender como funcionam as coisas. Mas, uma vez conseguindo ingressar no sistema de seguridade social francês, como eu havia explicado aqui, a coisa melhora e muito. E você pode constatar que o acompanhamento à gravidez e ao parto aqui é bem cuidadoso, bem completo. Mesmo pendendo e muito para um excesso médico, o fato é que eles se ocupam bem das mulheres grávidas e dos nascimentos. Quero dizer, em comparação com o Brasil, eles se ocupam efetivamente de gestação e parto de forma universal e irrestrita, como questões de saúde pública e de dever do Estado. Tudo o que, infelizmente, a gente sabe que em nosso país se promete e não se cumpre. Bom, aqui a coisa funciona. Então, segue mais uma lista de observações que tenho feito a respeito.

O site da seguridade social tem muitas informações sobre gravidez, o acompanhamento, os procedimentos a seguir, os benefícios. Em caso de dúvida, é sempre uma boa referência: aqui. Também para o acompanhamento que eles oferecem, por meio de visita domiciliar no pós-parto, as informações estão aqui.

Outra boa fonte de informação são os inúmeros libretos que eles te fornecem em vários momentos ao longo da gravidez: quando você se inscreve na caixa de auxílio à família, a CAF, que é quem paga os benefícios aos quais as mães têm direito, você recebe um material informativo sobre procedimentos burocráticos e sobre a gestação; quando você se inscreve em uma maternidade, normalmente te entregam um material de leitura, digamos, oficial, onde explicam muitas coisas a respeito da gravidez, do parto, das mudanças, dos exames, do acompanhamento médico, dos cuidados com a alimentação, das medidas administrativas a serem tomadas. Isso pelo sistema público, pois no sistema privado também te entregam todo esse material, mas ele é um pouco diferente, mais cheio de firula, de propaganda e afins.

Essas espécies de cartilhas são interessantes, eu devo ter ao menos umas três diferentes, porque a enfermeira obstetriz que me acompanha e que trabalha como autônoma também me forneceu uma pasta de material informativo. Li todos. E constatei que têm coisas bem úteis no meio de muita coisa inútil. Mas que seria bem bom se no Brasil a gente tivesse algo do tipo, um ponto de partida para compilar todas as informações das quais você vai precisar em algum momento e que fosse dado a você na sua gravidez, para que você saiba onde e como procurar o que necessita. É como se você estivesse frente a um desses livros mais clássicos sobre gravidez e parto: não vai ter nada que fuja muito ao padrão e as informações sempre vão tender para uma ênfase bastante médica. Mas, com um pouco de discernimento, é possível aproveitar justamente para entender melhor aquilo que eles explicam sobre os procedimentos a seguir aqui na França. E algumas dicas e informações são boas e úteis. Então, dê uma olhada nesse material que receber da CAF, na maternidade ou no acompanhamento com as “sage-femmes”, tem coisa bem aproveitável no meio de um monte de publicidade de loja, de leite em pó e de todo o comércio que circunda a maternidade. Porque, claro, não vamos nos iludir, essas cartilhas e esses materiais são organizados pelo serviço público, mas eles tem patrocínio e apoio do setor privado. E apoio significa publicidade, o que significa que você recebe um quilo de papel de onde tira uma ou outra coisa que vão realmente te informar e te ajudar em algo. E mais um monte de amostra grátis de tudo o que você pode imaginar e até do que não pode. E mais uma tonelada de cupões de desconto para comprar um monte de coisas, na sua maioria inúteis. Mas toda essa papelada você pode jogar na lixeira da reciclagem. E aproveitar as boas informações.

Bom, estando garantida a informação mínima para você saber onde ir, como proceder, quem procurar, como fazer… e estando garantido o seu acompanhamento e o pagamento desse acompanhamento pela seguridade social, tudo caminha forma bem prática e eficaz. As consultas são reembolsadas, consultas, atendimentos, medicamentos e tudo o que se relaciona à gravidez passam a ter cobertura completa à partir do 5° ou 6° mês, você apresenta sua carteirinha e não coloca mais a mão no bolso… enfim, tudo corre muito bem. É realmente de se espantar, dadas as referências que temos. Penso que é o real significado da palavra assistência, ou da palavra acompanhamento: você está acompanhada. E ponto. Não precisa se preocupar em ter que garantir o que é seu direito. Isso é algo muito estranho para uma brasileira, vocês nem imaginam.

Mas, e se você for como eu que, além de um atendimento de qualidade, estiver em busca de um atendimento mais humano para a sua gestação e o seu parto?

Onde ter alternativas?

Bom, isso são outros quinhentos. E nada, nada simples. Como eu disse, aqui o acompanhamento é extremamente centralizado na idéia de que gravidez e parto são situações de risco que devem ser cuidadas enquanto tal. Muitos exames, muitas despistagens, muita medicalização da saúde, como é de praxe em boa parte do mundo. O parto normal é a norma, mas isso não significa que ele seja isento de muitas e muitas intervenções que estão cristalizadas, mas que não são exatamente necessárias, como o uso majoritário de peridural, o constrangimento de parir na posição ginecológica, o monitoramento ininterrupto do bebê e da mãe… E, para fazer frente a isso, a melhor opção é escolher muito bem a maternidade na qual pretende dar à luz.

Em Paris, a única (veja bem, eu disse única mesmo) maternidade que propõe um parto dito fisiológico, ou seja, mais humano e respeitoso do ritmo e do protagonismo da mãe e do bebê é a Maternidade “Les Bluets”. E ela esteve ameaçada recentemente de intervenção, justamente por isso, porque a qualidade dos serviços que ela oferece, a ideologia de um parto humanizado na qual se baseia, a oferta de diversos serviços, dos ateliers, dos grupos de discussão, de informação, das diferenças de acompanhamento e tudo o mais custam caro e rendem pouco. E até aqui na França a saúde fica constantemente assombrada pela questão econômica do lucro, ou de minimizar os gastos e os prejuízos. Então, a coisa é tensa, como é possível constatar nessa matéria recente. Tenho uma amiga grávida que é acompanhada lá e conheço outras pessoas que tiveram seus filhos lá e que falam muito bem dessas opções de acompanhamento ao longo da gravidez e de um parto respeitoso. Um alento.

Essa é a única maternidade que tem o selo “amiga dos bebês” em Paris, uma iniciativa francesa para incentivar e reconhecer os estabelecimentos de saúde que promovem não apenas o aleitamento materno, quanto também o respeito ao parto humanizado, ao ritmo e ao protagonismo mãe-bebê. Existem outras 17 pela França, você pode consultar aqui. São boas referências. Mas a fila de espera, na Bluets por exemplo, é imensa. Então, nem sempre você consegue garantir pela inscrição na maternidade a certeza de um parto humanizado.

E fora essas, há alternativas? Bom, pelo que pude pesquisar, o parto domiciliar é algo raríssimo, alvo de muitas críticas e ataques violentos, a ponto de as enfermeiras obstetrizes que o fazem, as sage-femmes, terem praticamente desaparecido do mapa. Veja matéria aqui. Como as sage-femmes trabalham vinculadas a um departamento, a uma região, por vezes tem lugares que ainda contam com essa possibilidade e outros não mais. É preciso procurar muito, correr muito atrás em fóruns e no boca-a-boca com outras mães. A França está na contramão de seus vizinhos, para os quais o parto domiciliar é o mais incentivado, o mais simples, menos custoso e garantido para todas as mulheres que queiram e possam tê-lo. Aqui, o melhor é começar a procurar muito cedo, no começo da gravidez se essa for sua opção. Algumas informações: aqui.

Outra possibilidade é dar sorte em encontrar as pessoas “certas”. E forçar a sorte um pouquinho também. Nas maternidades e hospitais que cuidam da gravidez e do parto por aqui, são as “sage-femmes” que acompanham toda a sua gestação, examinam, pedem os exames. Você raramente vê o médico. E também não o verá no dia do parto, a menos que algo fora do usual aconteça. E esse modo de acompanhamento é justamente o que pode contar a seu favor. Pois as enfermeiras obstetrizes francesas, as “sage-femmes”, têm formação médica mas, ao mesmo tempo, podem trabalhar como autônomas, podem cuidar de vários aspectos da gravidez e do parto. E, com isso, elas fazem várias especializações interessantes: algumas trabalham com acupuntura, homeopatia, sofrologia (que são exercícios de respiração e relaxamento), yoga e por aí vai. Já encontrei uma porção delas, porque o acompanhamento é feito de forma bem impessoal na maior parte dos serviços e posso dizer que já vi de tudo um pouco, de gente bem rígida que não topa sair do padrão a gente que não presta atenção em você e apenas segue um protocolo apressado a gente bem humana e aberta à escutar, capaz de sanar muitas dúvidas e de te tranquilizar frente a várias situações. Mas, no geral, percebo uma abertura maior por parte das “sage-femmes” para um respeito ao parto natural. E, como elas é que te recebem e te acompanham no dia do parto, a sorte está lançada de você cair nas mãos de alguém mais humana e cuidadosa.

Mas não é apenas sorte. Aqui, você pode escrever um projeto de nascimento, um projeto de parto e entregar no dia para a equipe que vai te atender, ao chegar na maternidade. Você tem o direito de escrever uma espécie de carta dizendo como gostaria de viver o seu parto. E, ao mesmo tempo, quando você chega na maternidade, você pode entregar esse documento que fica arquivado no seu prontuário, e comunicar à equipe o que tem ali (para o caso de eles não terem tempo de ler, o que é possível, pois estamos falando de estruturas grandes, que fazem 2000, 3000 partos por mês). Pelo que tenho entendido, as equipes são bem sensíveis a esse plano de parto e costumam tentar respeitá-lo. No que diz respeito à peridural, por exemplo, eles sempre acatam quando você diz que não quer tomar. Para a episiotomia pode haver um pouco mais de resistência, mas os índices são baixos por aqui e você tem como decidir. Você tem como insistir na sua decisão. Na maior parte dos casos que tenho ouvido, o mais difícil é a decisão de parir em outra posição que não a ginecológica. As intervenções e exames que se seguem com o bebê recém-nascido também parecem meio inquestionáveis. Mas isso é especialmente rígido nos locais onde o médico obstetra aparece apenas nesse momento para dar um oi e cobrar pelo procedimento. Ah, e se você quiser a peridural vai ter o monitoramento permanente e vai ficar na posição do frango assado, sem poder se mexer e encontrar opções confortáveis. Uma coisa vai se associando à outra, numa bola de neve de caminhos pré-estabelecidos. Por outro lado, a possibilidade do corpo-a-corpo e de amamentar logo após o nascimento também são mais respeitadas.  É preciso insistir nisso.

Tem “sage-femme” que não quer fazer nada de diferente porque atrapalha o esquema de trabalho dela. Como se um parto tivesse que ser calcado nisso, no que é mais prático para o médico, para a enfermeira obstétrica e para a equipe e não no que é melhor para a mãe. Ou seja, terão pessoas que vão resistir mais do que outras. Por isso é sempre bom pesquisar bastante, especialmente nos fóruns, as opiniões e experiências das mães em cada maternidade. Você logo percebe que esses relatos dão boas dicas sobre as posições das instituições quanto ao que você pode vir a pedir ou não. Mesmo não sendo posições formalizadas, elas existem. E aparecem no modo como as pessoas contam os partos e como as equipes cuidaram delas. Melhor ler nas entrelinhas. E levar seu plano de parto. E fazer questão de entregá-lo, insistir nisso. Enfim, tudo questão de negociação e conversa. E de ter um certo tato na conversa para não criar hostilidade. Até porque, no dia do parto não vai dar para ficar brigando, né? Dicas para projetos de parto bem escritos e que serão considerados: aqui.

E o que fazer com a mentalidade francesa frente à gravidez e ao parto?

Olha, é um belo de um paradoxo.

As francesas são totalmente adeptas do parto normal, mas totalmente avessas à idéia da dor do parto. Os índices de anestesia são altíssimos por aqui em todas as instituições. Muita peridural com tudo aquilo que ela acarreta em termos de intervenções posteriores. E nos cursos de preparação ao nascimento, isso é sempre abordado como uma evidência, a de que você não vai querer sentir dor e vai tomar uma anestesia. Eu falei disso aqui e aqui. Não sei até que ponto essa posição é uma consequência desse feminismo que às vezes se excede ao confundir o direito da mulher a gerir seu corpo de modo a não sentir dor, não sofrer, evitar qualquer experiência que lhe seja violenta e até não conceber com uma idéia – que é bem machista, por sinal – de que parto é sofrimento e que esse sofrimento pode e deve ser evitado pela renúncia que a mulher faça de sua participação ativa nesse momento. Ou se é justamente uma apropriação perversa que esse poder médico de controle e gerenciamento dos corpos fez dessa reivindicação feminista para fazer valer sua própria agenda. Trocar o protagonismo da mulher pela supressão da dor. E a mulherada caiu nessa sem pensar muito a respeito, sem muito senso crítico, de um modo quase ingênuo. E as francesas estão bem convictas de que isso é uma boa troca e não se colocam muitas questões a respeito. Portanto, quando você fala de parto sem anestesia, as pessoas ficam tentando te convencer que você não precisa sofrer, que não precisa sentir dor e de que isso é bom. Sem nunca falar da quantidade de intervenções médicas que virão como consequência disso, como o uso da ocitocina, todo o tipo de aceleramento artificial do parto, as posições obrigatórias e até a episiotomia. Enfim, é uma escolha de cada mulher, mas aqui isso é pouco questionado.

Outro paradoxo curioso e que revela a influência dessa medicalização forte e dessa falta de questionamento frente às condutas generalizadas para gravidez e parto aqui na França é a questão da amamentação. A grande maioria das mulheres não amamenta por opção. E isso também lhes parece o exercício de um direito sobre seus corpos. E é colocado como um direito, como uma opção, como algo que elas podem e devem decidir, mas sem muita ênfase na importância ou na diferença que isso faz para o bebê. Existe uma insistência grande para que as maternidades, os cursos de preparação para o nascimento e todos os livros e cartilhas falem da amamentação. Uma insistência em mudar um pouco dessa mentalidade que parece tão arraigada. Nos grupos dos quais fiz parte, a grande maioria das mães queria saber sobre mamadeiras, leite em pó, horários das mamadas e afins. No curso de aleitamento materno havia apenas eu e mais uma outra mãe. Me deu uma tristeza enorme. E isso também ninguém questiona. Sob pretexto da volta ao trabalho ou de não se sentir confortável, sob a desculpa da carreira, da autonomia, da deformação dos seios (oi?) ou até sob o argumento de que é um ato egoísta, porque o pai, os avós, toda a família quer ter esse contato privilegiado com o bebê  e que é um absurdo a mãe querer manter essa exclusividade (oi?)… a grande maioria das mulheres aqui não amamenta, não quer amamentar ou concebe fazê-lo apenas por um período o mais breve possível e por desencargo de consciência.

Enfim, como vocês podem ver, estamos muito longe de uma situação confortável e cuidadosa no que diz respeito à maternidade na França. Mas, isso é inegável, estamos há anos luz do Brasil em alguns pontos desse percurso.