O quarteto

Todo mundo diz que cada gravidez é uma e que cada parto é um parto. É verdade. Mas é aquele tipo de verdade que mesmo que você saiba, só entende mesmo na prática. Do nascimento da minha filha há dois anos e meio atrás até o nascimento do meu filho há alguns dias, um mundo de experiências, de descobertas, de alegrias e dificuldades se descortinou. Minha vida tornou-se outra, uma vida reinventada, em que a alegria de ser mãe da minha pequena, dessa minha “pequena ela mesma”, surpreendeu-me em cada mínimo detalhe do mais simples acontecimento cotidiano. Ser mãe dessa menina… que sorte, que privilégio. Poderia ter passado a vida sem ter filhos e nunca saberia o que teria perdido. E talvez isso não fosse um problema. Mas depois que ela chegou, impossível conceber a vida sem que minha menina faça parte dos planos, dos pensamentos e dos anseios. Parte fundamental, daquelas como um coração, ou um cérebro, ou um fígado. Você não vive sem.

Então, com o fim da segunda gravidez se aproximando, para minha surpresa comecei a sentir medo. Medo da mudança dessa vida tão repleta de alegrias, medo dessa “ordem” que eu sabia que iria desaparecer tão logo o rebentinho botasse a cabeça para fora do seu cafofo e começasse a respirar. Porque, sim, todo mundo diz que muda. E muda. E quem é que não vai ter medo de mudar algo que está tão bom? Quem mexe em time que está ganhando, né?

Nós mexemos e o pequenino ia ter que sair cedo ou tarde, de um jeito ou de outro. Causa, consequência. A não ser que ele decidisse ficar por ali até completar 18 anos e saísse direto para a faculdade mas, tendo em vista que eu e minha pancinha de 8 meses estávamos pedindo água, melhor que fosse logo.

Quando as contrações começaram no final da madrugada, passei um longo tempo olhando a pequena e o cara-metade que dormiam sem saber que aquela nossa vida tinha terminado. Para eles ainda era ontem, enquanto que para mim havia chegado o amanhã. Coisa estranha essa diferença de tempos. Coisa estranha colocar uma criança no mundo em tempos tão difíceis para onde quer que se olhe. Coisa estranha ficar feliz e triste ao mesmo tempo.

Quando o cara-metade acordou e me perguntou o que havia, me olhou bem e disse: “do jeito que você está calma, vai parir é hoje mesmo”. Aquela calma que invade a gente no dia do parto, quantas de nós a sentimos? Uma serenidade, um sorriso no rosto, aquela confiança de que tudo vai correr bem. Isso tudo é mais presente que o medo, a nostalgia, as preocupações. E é o que faz a gente confiar até o fim.

Como o segundo é diferente do primeiro, não tinha mala da maternidade preparada (hahaha, olha a “menas main” aí). Foi negligência ou uma vontade que durou até o finalzinho de ter o bebê ali em casa mesmo, apenas com a família, sem acompanhamento de nenhum profissional, já que isso se revelou impossível nesse canto onde moramos? Até o fim a esperança de um parto domiciliar. Para que sair de casa? Para que ir à maternidade? Para que colocar complicações em algo que pode ser tão simples? Perguntas que nunca pude responder totalmente e, sem poder ter certeza, e sem que o cara-metade bancasse junto para criar uma certeza forte e consistente, naquela madrugada decidi que na maternidade seria.

Uma das artes de parir nos nossos tempos e nas nossas condições, a meu ver, é conseguir o delicado equilíbrio entre saber e desconhecer. A partir do momento em que você decide fazer algo fora do padrão, precisa se informar. Pois são as informações que garantem aumentar suas chances de conseguir o parto humanizado que julga ser o melhor para o bebê e para você. Então, você passa o tempo todo coletando informações, aprendendo, pensando nas possibilidades, em onde ir, em como argumentar, em como fazer. Todo um trabalho cotidiano do que as pessoas chamam hoje em dia de “emponderamento”, que significa tomar decisões consciente do que está implicado nelas.

Mas, ao mesmo tempo, parir implica em se deixar levar por outra coisa em si que não o pensamento. Não é o que sabemos que faz o parto, não é o raciocínio, não é o que controlamos. É o que acontece ali, na brecha do que sabemos, na forma de uma ação que nos escapa. Ou seja, é preciso saber para poder parir e é preciso esquecer ou desconhecer para poder parir. Como é que faz, né?

Enquanto a noite ainda deixava tudo escuro lá fora e o silêncio das respirações dos sonolentos ali de casa faziam barulho de fundo, teve mala feita, teve banho, teve até café da manhã. E mais um longo cochilo. Até que o dia clareou e a pequena acordou. “Hoje é o dia em que seu irmão vai sair da barriga”. Lá foi ela para a casa da melhor amiga comendo um pãozinho. Lá fomos para a maternidade.

Domingão, dia de plantão. Não era o meu médico quem estava de guarda nesse dia, alguém que escolhi com muito cuidado porque aqui onde estamos são os obstetras que aparecem no final do parto, para o expulsivo apenas, enquanto as sage-femmes fazem todo o acompanhamento. Escolhi um sujeito bastante flexível e ao longo do pré-natal fui contando para ele em doses homeopáticas como gostaria que as coisas fossem no dia D. Ele pareceu aberto e disposto a deixar bebê e eu tranquilos, o que já é bastante coisa. O médico de plantão era, como disse gentilmente a enfermeira obstétrica que nos recebeu, “o oposto do Dr. Gente Boa”. Jeito suave de dizer que era o plantão de um obstetra que adora ser ator principal do parto alheio, adora romper bolsa, dar ocitocina sintética para acelerar trabalho de parto que corre bem, fazer fórceps… Eu fiquei tensa, com medo desse sujeito surgir na sala de parto e de eu ter que ter forças de brigar com ele, de dizer não. Conclusão: essa preocupação ficou ali junto com as informações e os saberes como um ruído de fundo que me acompanhou praticamente ao longo do parto inteiro, dificultando essa entrega para o desconhecido tão necessária.

sage-femme, pelo contrário, foi o anjo da guarda que caiu do céu para cuidar da gente. Um misto de enfermeira obstétrica comme il faut com doula por intuição, ela entendeu rapidamente e muito bem como queríamos viver esse parto e nos deu o que precisávamos: tomou para si a responsabilidade de não avisar o plantonista até depois do parto terminado, deixou-nos em paz, tranquilos, na sala de parto natural, sem luz hospitalar, com banheira, bola e copo d’água, sem monitoramento, sem nenhuma intervenção. Passou para nos ver duas vezes e depois voltou apenas quando chamamos… ah, a sorte dá uma mãozinha às vezes, não?

Dentro da barriga, o pequeno trabalhou como um valente. Descendo pouquinho a pouquinho a cada contração, lá foi ele se aproximando da hora de nos encontrarmos. Sem saber, sem conhecer, vivendo tudo pela primeira vez. Essa coisa incrível da primeira vez de tudo… como são corajosos os bebês que se lançam nessa de nascer sem terem lido um calhau de referências bibliográficas antes.

Respirar, abrir-se, deixar o bebê descer, deixar acontecer. Banheira, água quente, respiração… eis a magia de um parto sem anestesia e com dor no limite do suportável. Ou a magia do que funcionou nas duas vezes para mim. Isso e o milagre da posição deitada de lado…

Deitada de lado, quem diria que essa seria uma posição maravilhosa para fazer o bebê descer e nascer? Como a bolsa não rompeu até o último minuto, o pequeno desceu aos pouquinhos, bem malemolente, ao contrário da irmã com quem a bolsa rompeu de cara e ela logo desceu para apoiar a cabeça direto no meu colo. O pequeno não, ele veio na maciota, as contrações mais leves, o trabalho mais longo… Tudo diferente, assim eu não sabia parir.

É engraçado como a gente sempre precisa se apoiar em alguma coisa para brigar um pouco contra o desconhecido. Se não é nos saberes e nas informações, é no que viveu. A bolsa não rompeu, há que se confiar às contrações. Bebê desce aos poucos? Há que se confiar às contrações. E se abrir.

Sim, cada parto é um confronto entre você e seus próprios demônios. O bebê e você. E seus fantasmas. Do parto anterior, dos ideais, dos saberes…

Eu respirava, basculava a bacia e me abria. E pensava que o médico poderia chegar e querer usar um fórceps e tinha medo e me fechava. O pequeno descendo e eu no abre e fecha. Vem pra vida, meu filho, não vem não. Quem bota um filho num mundo desses?

Lá pelos 8 de dilatação as contrações mudam. O pequeno está ali embaixo, apoiado na bolsa que apóia no meu colo. Chamamos a sage-femme, ela sugere que eu sente no balão para ajudá-lo a descer. Cadê essa bolsa que não estoura? Estoura, explode, medo vai, medo vem, chega aquele momento do qual todo mundo fala, mas que a gente só entende quando vive. E depois esquece para lembrar no parto seguinte. Cansei, quero desistir, tira esse menino daí, quem teve a brilhante idéia de não querer anestesia, quero dormir, tô cansada, só quero que isso acabe, não chega não, seu plantonista, cara-metade, me faz um cafuné aqui, tô cansada, esse menino não vem não, chama o plantonista, por favor, tô delegando, lavo minhas mãos, quero nem saber… Tudo isso dentro da cabeça, por fora eu parecia a expressão mais perfeita da calma, da beatitude e da respiração profunda.

sage-femme anjo vem novamente e sugere um segundo milagre, deitar de lado sobre o lado esquerdo e respirar. Eu, querendo tirar um cochilo, topo experimentar. Deito de lado, três contrações no máximo e… tchibum… lá se vai a bolsa e, com ela, todos os medos, freios e afins.

Como é libertador berrar o filho que nasce. É o fundo mais profundo de quem você é, suas entranhas, sua vida. A vida que renasce e recomeça.

Ele nasce direto para os meus braços. Ele grita. Ele é… lindo. Aquele amor que inunda as narinas do cheiro do seu rebento, aquele que agora parece que sempre esteve ali. Aquele que você acaba de conhecer. Ele procura o peito e já começa a testar aquele delicioso encontro tão apaziguante de cheiros, de pele, de boca e peito, de calores, de leite. Tudo pela primeira vez.

Médico chegou depois que até mesmo a placenta já tinha saído. Quis reclamar com a sage-femme que deu uma resposta atravessada para ele. Como adoro essa capacidade tão francesa de responder à altura e sem subserviência…

8 horas de trabalho de parto. 5 para a minha pequena. Não é tanta diferença assim, mas o tempo é tão elástico, não? Ele se dobra e se desdobra com nossos sentimentos, nossos medos, nossos anseios, nossos freios e nossas aberturas. Um tempo tão diferente, um parto tão diferente. Mas igualmente maravilhoso. E igualmente desconhecido. E assustador. E maravilhoso. E maravilhoso. E maravilhoso.

Foi assim que a vida que parece valer tão pouco em nossos dias recomeçou aqui em casa. Provando que o amor e a vida persistem, insistem, existem. Há que se lutar por um mundo que faça jus a essa vida e a receba com generosidade, cuidado, carinho e respeito. Há que se lutar por que essas vidas façam jus a um mundo melhor e participem da criação dele. Muitas lutas ainda por vir, numa vida que esses dois pequenos fazem valer à pena.

O trio virou quarteto. Bem vindo, filho!

 

A espetacularização do nascimento

Tem uma coisa que me incomoda um bocado, que é essa espetacularização do nascimento que temos hoje em dia. E que não deixa de fora os partos normais humanizados, muito pelo contrário.

Talvez vocês se lembrem daquela matéria que apareceu nos jornais pelos idos de 2012 sobre uma maternidade carioca que revolucionava sua oferta de serviços colocando um telão para que os parentes pudessem acompanhar o parto. Sim, um telão mostrava o parto – cesariana, na sua maioria – naquilo que uma cesariana tem de possível de ser mostrada: mãe deitada, amarrada, envelopada, panos cobrindo a “área de trabalho” dos médicos, bebê saindo embrulhado, bebê aproximado da mãe para ela dar um beijinho, já que não pode carregar, primeiros “cuidados” e por aí vai. Os convidados todos ali no salão, em frente à tela, assistindo em tempo real a esse nascimento, com direito a um buffet, comes e bebes, festa e muita diversão. Lembro do quanto essa “excelente idéia” gerou comentários e discussões na época, muitas em torno disso que estou citando agora, essa idéia da espetacularização. A imagem que fica mais importante do que a experiência, a exposição máxima que deixa de escanteio toda a intimidade, toda uma possível necessidade de privacidade, o superficial tomando conta de um acontecimento em que o foco deveria ser naquilo que realmente importa.

Guardadas as devidas proporções – e as devidas diferenças, que são muitas – algo dessa mentalidade do espetáculo respinga também em muitos dos partos humanizados.

Criou-se uma moda, a partir do momento em que o parto normal, natural, humanizado começou a aparecer mais e mais nas discussões sobre parto e no desejo das mulheres em garantir um nascimento digno e respeitoso para seus filhos, de que esse tal parto humanizado deveria acontecer de um certo jeito. Em casa. Na água. Com o pai ali do lado, de mão dada, junto na piscina, enfim, participando ativamente. E com alguma espécie de registro visual da beleza da coisa toda. Fotos. Vídeos. Pronto. O pacote parto humanizado ideal passou a incluir a enfermeira obstétrica, a piscina inflável, a doula, a fotógrafa e o pai da criança como itens de igual importância e todos de extrema necessidade.

Penso que, num campo tão novo, tão cheio de dificuldades, em que conseguir um parto digno revelou-se um percurso do combatente para as poucas mulheres que toparam o desgaste de passar por vezes uma gravidez inteira brigando contra o mundo, era importante buscar modelos, pontos de apoio, possibilidades de compartilhar desejos, anseios, angústias, informações, alternativas. E que bom que isso aconteceu e que hoje em dia dispomos de mais e mais sites, grupos, fóruns, blogs, lugares, pessoas, referências e escritos sobre o tema. Temos essa demanda de pensar o nascimento de nossos filhos, de desejar algo diferente, de buscar uma possibilidade mais humana de viver uma gravidez e um parto. E temos a quem recorrer para isso. Cada vez mais. E cada vez de maneira mais formalizada. Isso é um feito!

Pode ser que, para muitas dessas pioneiras do nosso tempo, um dos modos justamente de partilha e de apoio às outras mulheres que desejariam também viver a experiência de um parto humanizado tenha sido essa espécie de statement que a imagem pode oferecer: além de contar os partos, por que não mostrá-los? Um parto normal tem muito mais o que mostrar do que uma cesariana. Um parto sem violência tem muita beleza a desvelar. Nessa nossa época em que imagens falam mais do que palavras, essas imagens dos partos circulando por aí, que poder elas teriam?

Um imenso poder. Um poder de convencimento, um poder de exemplo, um poder de inspiração. A imagem é poderosa, sabemos disso. Basta lembrar da recente imagem do menino sírio morto numa praia da Turquia e da comoção que isso causou no mundo inteiro, influenciando inclusive em uma série de movimentos populares por toda a Europa que pressionou por uma maior abertura na acolhida de refugiados em todo o continente para se dar conta que, sim, as imagens têm um imenso poder de persuasão. E que as mulheres gestantes, parturientes decidam usar disso para gritar para os quatro cantos do mundo que, sim, é possível parir e parir dignamente mesmo no Brasil dos dias de hoje, bem, isso é legítimo e louvável.

Minha questão não tem nada a ver com esse uso político da imagem e da imagem do parto humanizado. E não é uma crítica a quem faça ou tenha feito uso dessa estratégia. Meu incômodo é com a maneira como certas coisas, especialmente quando ligadas à imagem, se tornam rapidamente uma necessidade de mercado.

Me explico. Vendo essas imagens, muitas de nós, mulheres grávidas buscando um nascimento digno para nossos filhos e um atendimento cuidadoso da nossa própria experiência de gestantes e de parturientes, pudemos absorver, além da inspiração e da idéia de que é possível parir, uma espécie de receita de como isso deveria acontecer quando “acontece direito”.

Quando vemos as imagens dos partos naturais que desfilam em profusão pela net, podemos constatar que existem alguns recorrentes que praticamente criam uma receita: parto na água, marido ali do lado, toda equipe na borda da piscina observando a mulher, expressão de dor, expressão de êxtase, bebê peladinho no colo da mãe. E a pergunta que pode vir daí é: tem que ser assim?

Tenho visto muitas mulheres extremamente preocupadas com onde vão comprar a piscina para o nascimento. E onde vão colocá-la. Tenho visto muitas imagens muito parecidas, como se todos os partos humanizados fossem a mesma coisa. E tenho visto muitas imagens. Uma invasão de imagens que praticamente se torna uma injunção: “veja, é assim que se faz!” Será?

Talvez sejamos incapazes de viver sem uma imagem à qual nos agarrar e, na medida em que recusamos a imagem da mulher asséptica amarrada na maca da sala de cirurgia em muitos tons de azul enquanto seu filho é extraído dela e exibido alegremente para a galera do telão tenhamos que nos agarrar a uma alternativa. Uma imagem alternativa, que nos oriente em como as coisas devem ser. E isso tem uma tal pregnância que, rapidamente, a imagem se torna mais importante que o conteúdo e nos vemos de novo na cilada do espetáculo, daquilo que tem que ser mostrado, do superficial e acessório tomando o lugar do que deveria ser o foco. Vivemos na sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde tudo é rapidamente tragado pela lógica da exibição. Exibição que garante a perpetuação de um jogo de poder.

Quem ganha com essa história de substituir uma imagem por outra? Um modo de um parto acontecer por outro? Uma regra por outra?

Ainda que nós mulheres e nossos filhos possamos lucrar e muito com a garantia de escolher um parto normal humanizado, até que ponto isso mesmo que conquistamos não se vê ameaçado pelo estabelecimento de uma receita?

Michel Odent fala de maneira bastante crítica desse modus operandi que se instaurou como tendência no parto humanizado. Para ele, essas diretrizes de parto na água, marido presente, registro fotográfico e todos os afins que acompanham o pacote devem ser pensados com muito, muito cuidado. O fundamental, para que um parto seja humanizado e que tudo corra bem para a mãe e para o bebê é que eles possam viver isso do jeito que precisarem.

Isso quer dizer, basicamente, que ao longo de todo o processo de parto o que deveria prevalecer é aquela parte mais primitiva do cérebro da mulher que a faz parir. E parir bem. Eis o que deveria ser favorecido e respeitado. Que a mulher possa entrar nesse estado outro e ficar ali. Que ela seja ajudada a ficar nesse estado. Calor, silêncio, pouca luz. É o que basta. Tudo o mais é acessório. Pode servir ou pode apenas atrapalhar o processo. E não deveria ser posto como artigo de primeira necessidade.

Nesse estado outro, que nenhuma mulher conhece antes dele se instaurar, não dá para prever se ela vai querer entrar na piscina, se vai querer sair da piscina, se vai querer o marido perto, se vai querer ele longe, se vai fazer assim ou assado. Ninguém tem como saber e projetar tudo isso serve, no fim das contas, apenas como um modo de se apaziguar acreditando que existe algum controle e alguma previsibilidade desse momento que é, antes de tudo, um desconhecimento absoluto, um vácuo de imagens.

Por vezes, ouço ou leio histórias de partos que corriam muito bem, até que empacaram e se tornaram lentos, lentos, lentos. Alguma coisa ali naquele cenário dificultou à mulher poder entrar ou ficar nesse seu estado segundo. Pode ser algo do encontro dela com ela mesma, aquelas coisas subterrâneas que teimam em aparecer justamente nessa hora, nossas assombrações, nossos medos, nossos desafios que encaramos ou não junto com o ato de parir. Mas muitas vezes o que dificulta – e muito – são exatamente esses modos obrigatórios de fazer as coisas que ficam martelando ali no fundo da cabeça ou na boca das pessoas em volta, cobrando da mulher que ela siga um plano que ela mesma construiu, desejou e pôs em prática. Então ela sai do seu casulo para pensar que deveria entrar na banheira, afinal, compraram a bendita da banheira que custou uma fortuna. E é melhor não sair da banheira, porque o bebê vai nascer na água, não é mesmo? Mesmo que a água tenha ficado fria e que o frio faça os músculos contraírem e o parto ficar mais lento… E melhor ficar ali onde está a banheira, porque é mais fácil para fazer as fotos do que se ela seguir aquele seu impulso intenso de ir se esconder no banheiro, longe de toda aquela gente. E toda aquela gente ali, olhando, olhando, esperando… começa a dar uma sensação de pressa, de ter que fazer algo, de ter que ir bem. E o marido tem que ficar ali do lado, apoiando, segurando a mão, abraçando, dizendo palavras bonitas, mesmo que isso gere uma irritação… Pronto, eis aí a receita, o “jeito ideal” de fazer tomando o lugar daquilo que aquela mulher, naquele momento, realmente precisa. Eis aí o parto novamente parasitado por fórmulas, por obrigações, pela necessidade de reproduzir aquela imagem linda que vimos na internet.

Tem mulheres que dão à luz muito bem no banheiro, debaixo do chuveiro, de porta fechada sem deixar ninguém entrar. Tem mulheres que mandam o marido ir catar coquinho e preparar uma sopa ou o que quer que seja. Tem mulheres que dão à luz quando a doula e o obstetra estão dormindo no sofá da sala. Tem mulheres que dão à luz embaixo do chuveiro, dentro da banheira, em cima da cama, no tapete da sala… até mesmo dentro do carro. Tem mulheres que dão à luz no escuro, num calor de 40°C, debaixo das cobertas. Ninguém sabe como vai ser até a hora em que acontece. E o melhor que podemos fazer é garantir que cada uma dessas mulheres possa ter aquilo que precisa, do jeito que precisa, da maneira mais respeitosa, cuidadosa e amorosa possível.

Podemos, nós que acompanhamos essa mulher e esse bebê, garantir que não há modelo, que não há receita e que, sim, ela pode fazer confiança em que ela vai saber o que fazer e vai fazer o que precisam ela e seu filho.E que isso será a prioridade que todos em volta buscarão respeitar e acompanhar. Ok fazer um plano de parto, ok ter um plano se isso tranquiliza o seu coração e a sua cabeça. Mas o melhor que pode acontecer é a cabeça esquecer o plano na hora H e deixar o mais primitivo em si agir. Dá um medo de se pelar, mas quem disse que é o nosso raciocínio e o nosso entendimento das coisas que faz um parto acontecer?

Posto isso, tudo o mais é acessório. Ou inspiração tornando-se rapidamente mercadoria. E pressão. E opressão. O contrário do apoio e da libertação que todas nós buscamos.

Isso é, a meu ver, o que pode ser de melhor um parto humanizado. O respeito por esse desconhecimento, por esse vácuo de imagens, por esse silêncio, por essa intimidade em grau máximo. A foto? Para quê? Deixa a foto para a caixola da memória guardar e o peito abrigar ali onde é tão quentinho e tão bom.

Bibliografia básica para parto humanizado

Hehehehehe, quem tem vício de trabalho acadêmico adora uma bibliografia no final, né? Mas, sem querer intelectualizar demais a coisa, aqui vão algumas leituras que descobri ao longo desse tempo e que me ajudaram muito na época da gravidez ou até mesmo depois, para entender melhor o que havia vivido. Depois dos textos sobre parto de anteontem e ontem, é o último da série. Por enquanto.

Tem uma enfermeira obstétrica americana, chamada Ina May Gaskin, que foi minha primeira grande descoberta nesse mundo do parto humanizado. Ela é incrível, muito sábia e experiente e fala muito bem sobre o parto, o medo no parto, as dores, o que atrapalha, o que ajuda. Acho que foi quem mais me esclareceu sobre o quanto o medo é importante para delimitar o que você vai viver na experiência de parto. Então, se você entende bem inglês, eu assisti uma série de palestras dela via internet que adorei. Aqui, alguns dos episódios: sobre a ocitocinasobre o medo no partosobre a dor no parto. Você pode ver toda a série de videos pelo youtube, eu recomendo.

Outra “leitura” obrigatória é o documentário O renascimento do parto. Desse eu participei do crowdfunding, mas só fui ver o filme mesmo depois que a pequena tinha nascido. É muito esclarecedor e ajuda a pensar na importância para nossos filhos e para o mundo de cuidarmos da forma como eles vêm ao mundo. Tem até uma palhinha no youtube. Ou você pode comprar o DVD. Funciona como um livro de cabeceira e é um dos meus melhores argumentos para gente que defende a cesárea porque “se as famosas fazem, a gente quer também” (juro, já ouvi isso). Esse filme, a Gisele Bündchen e a Kate Middleton, claro.

Outra autora de quem gosto muito, para pensar a maternidade e o parto, é a Laura Gutman. Pena que só fui ler há uns dois meses, mas ela traduz maravilhosamente muitas das nossas vivências durante a gestação, o parto e o puerpério. Vários lugares na net publicam trechos dos livros dela, eis aqui alguns que têm mais a ver com a questão do parto e que acho que podem ajudar a pensar: no site Mamatraca e no livro dela “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, em que o capitulo 2 é sobre o parto. E caso se interesse por essa abordagem mais psicanalítica da maternidade, recomendo vivamente a leitura da obra de Françoise Dolto, com quem a Gutman se formou e do bom e velho D.W.Winnicott, minha referência de coração e mente para pensar a maternagem.

Esse site é muito bom em informações também. Tem ótimas informações sobre parto no Brasil, além de sobre trabalho de parto, parto humanizado, o papel do pai…

Um texto bem interessante sobre a dor do parto.

Esse texto aqui, da Melania Amorim, virou rapidamente minha referência para as justificativas fajutas para uma cesariana. Não que isso ocorra tanto aqui na França, mas acho importante saber. Porque ela nos ajuda a perceber que a maior parte dos motivos dados para cesariana são falsos e, com isso, nos ajuda a perceber que são poucos os verdadeiros motivos para algo dar errado e um médico ter que intervir no parto. Isso traz mais segurança sobre o quanto somos capazes de parir, o quanto os riscos, perigos e problemas são a exceção e não a regra e o quanto são imensas as chances de que tudo simplesmente corra bem.

No âmbito dos relatos de parto – que eu adorava ler enquanto estava grávida, porque me enchiam de coragem e continuo gostande de ler hoje porque me emocionam, invariavelmente – o pessoal do GAMA, um grupo de São Paulo que apoia o parto humanizado, tem vários relatos de parto bem interessantes. Outros relatos de parto aqui, no Vila Mamífera. Tem o meu próprio relato, claro. Noutro dia li esse relato lindo, também, que fala de um parto rápido, consciente e apropriado… E esse outro bastante sensível, falando das coisas que não sabemos e deveríamos, para sermos mais senhoras de nossas escolhas. Enfim, tem para todos os gostos, é muita inspiração na web.

Outra referência quando o assunto é parto, o Michel Odent, que coloca as coisas em termos bem simples e claros. Além dos livros dele, há várias entrevistas e pequenos textos espalhados pela web, vale a busca.

Por fim, tem a bela iniciativa do Projeto Clarear, da Ceila Santos do Desabafo de Mãe, que lançou uma “campanha” no portal Mamatraca perguntando o que as grávidas querem saber agora. Uma porta aberta para a troca de informações que sejam coerentes com aquilo que realmente pensamos, sentimos e nos perguntamos durante a gravidez, bem distante da maioria dos pitacos inoportunos que ouvimos ao longo de todo o período. Visite o portal e dê sua contribuição!

Quem tiver mais dicas de leituras, vídeos, sites e afins, coloca nos comentários, por favor.

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Em tempo: a Gabi Ramalho lembrou, nos comentários, dos grupos no Facebook, verdadeiras redes de informação e solidariedade para grávidas, parturientes, mães e afins. Indicou o Cesárea? Não, obrigada! que eu coloco em link aqui, para quem se interessar. Valeu, Gabi!

 

Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (partes 1 e 2)

Obrigada à Clarissa do blog:  A mãe que quero ser pela tradução do excelente texto de Alice Dreger mostrando que o parto mais científico e seguro é o menos tecnológico. Vale a leitura.

O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (parte 1).

O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (parte 2).

via A mãe que quero ser.

Parto da barriga

Ela foi dormir, ela e a barriga sapeca, que insistia em se alongar em formatos estranhos, dando ainda bundadas e chutinhos, mesmo estando há alguns dias mais baixa. As contrações desde a sexta-feira eram mais dolorosas, mas irregulares e esporádicas. Ela foi dormir com a barriga grande, pesada, aquela que aprendeu a amar e acariciar durante nove meses, a barriga com a qual conversou ao longo de muitos dias e noites, algumas tantas insones. A barriga que se transformou pouco a pouco até parecer que sempre esteve ali, como se nunca houvesse sido diferente. A gente se acostuma com os saltos, com os sobressaltos, com essa presença de um outro tão perto, com esse conhecer intimamente sem ver…

Uma noite como qualquer outra das mais recentes.

Às seis horas da manhã ela acorda de um susto e de uma sensação, como quem perde o ar. Ela sabe, mas mesmo assim levanta da cama e confirma: a água escorre com ela até o banheiro, trilhando um caminho que a faz sorrir. E, então, ela fica extremamente calma. Sente uma alegria profunda e silenciosa. Acorda ele que, também calmo e um pouco atordoado, tenta secar o rastro às custas de todos os Kleenex da casa. Surpresas esperadas tornam as pessoas engraçadas em suas ações.

Eles avisam a mãe dela, que chegou de longa viagem na véspera. E que se alarma no fuso horário confuso, enquanto eles tranquilamente comem algo e se preparam, jogando as últimas coisas na mala. As pessoas dizem e repetem: rompeu a bolsa, saia correndo para o hospital. Correr para que? Não se trata de uma maratona, nem de se jogar às pressas nas mãos dos experts para que eles cuidem de tudo… Não, ela e a barriga têm outros planos: nascer e fazer nascer uma bebê e sua mamãe.

Da porta ao carro, do carro à maternidade, é a última vez que fazem aquele caminho daquela maneira. Aquele caminho que não mais a reconhece e para o qual ela olha com olhos inéditos, olhos de desconhecido, de silêncio e de calma.

Na maternidade, um primeiro exame: contrações ainda fracas, subir para o quarto e aguardar um novo exame no final da manhã. Sobem ela, a barriga, ele e a mãe dela. Ele sai para voltar dali a uma hora, ela se instala aguardando um longo dia de trabalho de parto.

Uma hora depois, as contrações aumentaram muito em intensidade. Aquelas que começaram pela manhã com a ruptura da bolsa não eram tão doloridas. Ou talvez seja o intervalo entre elas que diminuiu para cerca de dois minutos o que as torna mais intensas. Ela não sabe ao certo, apenas busca respirar profundamente, mudar de posição, bascular a bacia… Pensa no curso de sofrologia que fez ao longo dos últimos meses e que a ajuda agora com isso. Pensa que o objetivo dessas contrações é preparar o útero para ajudar a pequena a sair. Pensa que cada contração aproxima mais o encontro entre elas, entre eles todos. Pensar como uma forma de se reassegurar que esse é o bom caminho. Ela luta um pouco contra si mesma, insiste em que é pensando que vai gerenciar o seu corpo que agora corre solto à sua revelia, ela que sempre dançou a vida inteira e que orgulhosamente sempre soube o alcance de cada gesto seu… Nessa uma hora depois ela percebe que seu corpo age e que ela pode brigar para manter as rédeas ou pode confiar e se deixar levar. No final das contas, essa é uma falsa questão de escolha, porque quem vai levar o jogo é ele, isso é certo. Naquilo que é vital, apenas o nosso corpo sabe o que fazer. Só ele tem a resposta, só ele sabe para onde ir, então é melhor confiar e se abandonar. Constatações desse corpo que rege a cada dois minutos…

A enfermeira aparece para levá-la novamente à sala de parto. Seu útero já se modificou muito, 1 cm de dilatação, ela vai para a banheira de água quentinha que sua mãe prepara, todos ainda aguardando muitas e boas horas de trabalho pela frente. 1 cm por hora, é o que dizem. Ainda mais para um primeiro.

Ele chega. Ela, na banheira, aliviada pelo calor da água, respira em silêncio. Não quer falar, os olho semi-abertos, apenas sensações. Sensações que escapam, que restam, que invadem… Sem pensamentos, apenas estar presente ali e viver tudo aquilo.

Outra hora e meia e aquilo que eram contrações vira outra coisa. Não se trata mais de dor, não é dor que ela sente, apenas uma força descomunal que começa a tomar conta do corpo dela a cada contração. Ela decide que tem que sair dali e se alongar em algum lugar. Ele a ajuda, olhando bonito aquilo que ela vive. Ora segura sua mão, ora lhe massageia as costas, ora partilha seu silêncio… ele espera o tempo passar lentamente. Um tempo em suspenso.

Apenas alongada e a enfermeira obstétrica constata com espanto a dilatação completa. Sai para chamar a equipe e se preparar, mas ela e a barriga já encontram-se em outro plano. Aquela força muscular sobrenatural faz tremer as pernas, faz gritar de dentro da alma… Duas… ela sente a pequena que se aproxima e a faz queimar… Três… Quatro… Ele diz: “estou vendo muitos cabelos pretos”.

A equipe mal tem tempo de entrar na sala e pegar desajeitadamente a bebê que sai por sua própria vontade, no seu tempo. Sai um ombro, sai outro, alguém dia a ela que pegue sua bebê. Ela a pega pelos ombros e traz para a barriga. O lado de fora da barriga de onde ela acaba de sair. Os olhos semi-fechados, ela não consegue acreditar na pequena ali, na sua frente. Ela olha para a bebê, ela olha para ele, ele olha para a bebê, eles se amam, eles a amam… assim… sem dor e com tanta força.

Ele corta o cordão. A pequena acaba de partir da barriga para o mundo. E o melhor é cuidá-la e amá-la para que ela tenha o melhor possível em seu mundo. Ela é cuidada e examinada ali mesmo e volta para os braços dela.

A pequena fica aninhada nos seus braços. Ela mama, ela olha para a mamãe e para o papai. Ela vai para os braços do papai. Ele a veste. Ela olha tudo em sua volta… então é isso? Então são vocês? Então, eis você! Talvez ela estivesse tão curiosa quanto eles por esse encontro, encontro de quem já se conhecia há tantos meses, encontro de quem, desde que chegou, pareceu ter estado sempre ali. Uma evidência.

5 horas e 22 minutos de um trabalho conjunto para vir ao mundo. 5 horas e 22 minutos de uma experiência inatingível para as palavras. 5 horas e 22 minutos para mudar uma barriga em mãe. Uma barriga em bebê. Um homem em pai. 5 horas e 22 minutos de respeito, de escuta, de amor e de coerência com a vida. Com o melhor da vida.

Bem vinda, pequena. Estamos aqui, presentes e em festa para você.

O que não me contaram sobre a gravidez

Uma comadre da blogosfera materna, a Carol do Meu Parasita Querido, postou sobre o tema ontem e eu gostei da idéia de fazer uma lista dessas. Aí vão as minhas 15 descobertas, com um toque de humor e outro de mau humor:

  1. Ninguém me disse que logo que você engravida você começa a sentir um cansaço monstruoso. De férias no Brasil, eu achava que tinha me desacostumado do calor, do verão, do feijão com arroz, de tanto que só conseguia pensar em dormir. E isso dura ao menos pelos três primeiros meses, quando você consegue dormir até em pé ao lado da caixa de som da boate com seu dj preferido tocando techno. Não que tenha acontecido comigo, mas… 
  2. Também não me falaram que enjôo de grávida não é como naqueles dias em que você come um pastel na feira e fica meio virada depois. Não, enjôo de grávida começa de manhã, vira azia depois que você toma o café da manhã, volta a virar enjôo depois que você consegue digerir tudo o que comeu, volta a virar azia depois do almoço, quando você comeu para tentar debelar o enjôo, e vira enjôo depois que o almoço arruma um lugar no seu corpinho combalido, e azia depois do jantar. E assim por diante. Incessantemente. Por ao menos três meses. Vai ver é por isso que se dorme tanto. Afinal, o que dá para fazer além de dormir estando tão enjoada assim?
  3. Ninguém me disse que desejo de grávida podia não fazer parte do programa. Passei todo esse tempo esperando ter alguma vontade enlouquecida de algo extremamente bizarro. Nada. Nadica de nada. Fora o dia em que devorei um pacote de Haribo (umas balas de criança que existem aqui na França e que foram o mais perto de bala de goma que consegui chegar). Mas não sei se isso conta, já que não envolveu misturas esdrúxulas, nem ninguém saindo de madrugada para tentar achar um mercado aberto. Putz, que frustrante!
  4. Ah, também não estava sabendo que gravidez dá tanto o que pensar. Antes do bebê nascer, você já deu a volta ao mundo mil vezes, tanto para o passado, revendo sua vida, suas escolhas, suas relações, sua família, quanto para o futuro, tentando imaginar o que e como fazer. Entender de onde veio, buscar projetar um futuro. Além de dormir – e mesmo dormindo e sonhando – acho que é esse o trabalho que mais nos ocupa cotidianamente.
  5. E, na categoria pensar, não imaginava que gravidez também desse tanto o que pensar sobre ela mesma. Não apenas passado e futuro, mas o presente vira questão. Tem gente que se deixa levar e vai vivendo, mas para mim tem sido a revolução cotidiana de pensar como viver essa gravidez, como cuidar dela, como ser ativa frente a essa experiência, tomando minhas decisões sobre a gestação e o parto da maneira mais consciente possível. Gravidez vivida, onde se batalha por um certo tipo de cuidado, por um certo tipo de acompanhamento e por um certo tipo de parto. Que trabalheira! E quanta responsabilidade ao perceber que é preciso tomar decisões e que não dá para se alienar e se abandonar nas mãos de ninguém quando o assunto é esse. Sob pena de acabar vivendo uma gestação e um parto que estejam muito distantes daquilo que você julgue humano. E como é trabalho com prazo limitado, a gente sai correndo atrás de informação, de alternativas, de lugares, referências e pessoas para tentar criar as melhores condições possíveis. Definitivamente, dá para entender por que é preciso dormir tanto e pensar tanto, né?
  6. Outra da categoria pensar é que ninguém te conta que, entre tantos pensamentos, revisões de vida, projetos de futuro e afins, há também um bocado de angústia, um monte de dúvidas, vários momentos de solidão e tristeza em que não se fala com ninguém. Todo mundo do lado de fora vivendo o clichê de que a gravidez é uma maravilha e te cobrando estar em estado de graça permamente. E você enjoada, com sono, pensativa, sem saber se é o melhor mesmo, com medo de que algo aconteça e você perca o bebê, com medo de ter o bebê, com medo de tanta coisa que parece que uma nuvem negra navega sobre a sua cabeça 24 horas por dia. E tendo pesadelos à noite, para completar. Tendo momentos em que lamenta estar grávida e pensa que vai perder muita coisa. E tendo momentos de culpa avassaladora por pensar nisso e não viver “como todo mundo”, achando tudo uma maravilha. Acho que uma grávida é uma pessoa dilacerada por dentro entre aquilo que dizem e cobram que ela viva – inclusive quem já passou por isso e até ela mesma – e aquilo que ela realmente vive e guarda lá dentro do coraçãozinho. Mesmo que não seja nada tão negro e obscuro assim, qualquer senão já é motivo para culpa, vergonha e autocrítica. Ah, vale dormir mais um pouco para tentar escapar dessa…
  7. Outra coisa que não sabia é que entre sono, pensamentos e ações cotidianas para dar conta de viver bem uma gravidez e o nascimento do bebê, o seu tempo fica totalmente tomado por isso. Você vira um monotema, sua cabeça vira um monotema e não é fácil desligar e fazer outras coisas. Trabalho, marido, amigos… onde? Como? Nossa, é um esforço hercúleo para se manter conectada e não se fechar totalmente. Mas você acaba se encasulando, ficando mais quietinha e na sua do que antes. A não ser quando encontra outras grávidas que querem falar das mesmas coisas que você. Daí é o paraíso e faltam horas no relógio para o tanto que se pode matraquear…
  8. Ninguém me preveniu, também, que quando a gente engravida fica meio burrinha. Não, meio desligada. Quer dizer, é tanta coisa passando na cabeça – como vocês podem constatar pelo começo dessa lista – e mais uma revolução de hormônios igualmente gigantesca, que o cérebro fica a ponto de dar bug. Não funciona direito. O meu, pelo menos, funciona bem mal e porcamente para tudo o que não seja relativo à gestação. Hehehe, é uma lerdeza seletiva, confesso. Mas o pior é que acontece. (Perguntem à minha manicure, ela certamente terá vários relatos de diálogos impossíveis para contar… putz). Esquecer coisas que acabaram de me falar é praxe. Esquecer, aliás, virou parte da vida. Confundir, então, nem se fala. Pessoas, horários, compromissos… Dar foras. Quem está ao redor já acostumou e espera pela próxima gafe ansiosamente. Eu espero apenas que meu sorriso amarelo e minha frase: “desculpe, sabe como grávida é distraída, né?” continue angariando a simpatia de todos com quem tenho tido que lidar ultimamente.
  9. Ah, e essa história de revolução hormonal, então? Por que é que ninguém diz que é mais ou menos como uma TPM que dura nove meses e que é elevada à milésima potência? Não, você não fica instável emocionalmente, você vira uma mistura de Darth Vader com Felícia (sim, gente, aquela do Pernalonga, que adora gatinhos). Você ama, você chora, você se emociona com tudo. Você quer engolir de tanto amor. Mas quando se irrita, não é uma irritaçãozinha não. Você tem vontade de matar alguém. Tirem as crianças da sala! Ai de quem for inconsequente o bastante para provocar uma grávida. Nós nos tornamos máquinas de respostas atravessadas (finalmente!) e de olhares fulminantes. Não, uma grávida furiosa é como o Godzilla, melhor ficar de sobreaviso e ser bem bonzinho por 9 meses, ouviu?
  10. Pior é que ninguém diz também que, mesmo uma grávida sendo esse ser em permanente estado de pré-explosão, isso não evita que a maior parte das pessoas encha o saco sempre que puderem. Os palpites… ai, os palpites. É tanta gente com tanto palpite e tanta vontade de botar a mão na sua barriga e te dizer o que fazer, que acabo acreditando que nós, grávidas, somos na verdade umas santas dignas de canonização imediata. A gente consegue gerenciar os pensamentos, as angústias, os cuidados com a gravidez, as decisões sobre a vida e a panela de pressão de hormônios sem estapear ninguém e ainda tem que aguentar os palpiteiros? Deve ser algum tipo de karma que cai automaticamente na conta de cada mulher assim que o teste de farmácia aparece positivo, não?
  11. Outra que não me disseram é que sentir o bebê mexer dentro da barriga é tão, mas tão emocionante. Já escrevi a esse respeito mil vezes e acho que nunca vou cansar de escrever. Porque, sim, todo mundo sabe que o bebê mexe, mas por que ninguém conta que é interativo? Bebê responde, chega perto da mão que acaricia a barriga, dá chute quando você vira do lado e aperta alguma parte da pança em que ele tinha se ajeitado, responde ao papai, responde à mamãe e, sapequice das sapequices, para tudo cada vez que você pega o telefone para tentar filmar as acrobacias. É ou não é incrível experimentar algo assim?
  12. Ah, ninguém te avisa também que verão e gravidez não combinam. Ainda mais se for o final da gravidez. Calor escaldante e mulher grávida, pesada, andando com dificuldade e tendo que dar conta de mil e uma tarefas antes do nascimento do bebê é pedir para o Godzilla dar as caras, minha gente. Não é humano isso não.
  13. Outra que ninguém diz: andar com uma melanciazinha na barriga é difícil. Cansa rápido se você fica em pé, e sentada ou deitada é quase milagre encontrar posição. Levantar é uma tarefa bem engraçada, que pode durar uns 10 minutos. E abaixar para pegar algo que caiu no chão… bem… para que, né? Nem está atrapalhando ou sujando tanto assim. A única hora em que você se encontra minimamente com alguma desenvoltura corporal é quando nada. Daí o peso some e você se sente novamente bailarina, podendo saltitar pela piscina como se pesasse poucos quilos… Maravilha!
  14. Essa ninguém diz mas todo mundo sabe. Acho que é um silêncio solidário, porque, convenhamos, roupa de grávida é muito feia, vai?! Eu uso bem contente de que existam calças e shorts com elástico que sirvam em mim. Mas, putz! Sair vestida de barril o tempo todo não ajuda muito na auto-estima não. Ou você consegue estar muito bem com as mudanças do seu corpo, se sentindo poderosa, bonita e orgulhosa da sua barriga, ou acaba passando ao menos a parte final da gravidez escondida dentro de casa, deixando o marido se aproximar apenas de noite, com a luz apagada. Bônus extra que descobri com essa crise fashion: vestidinhos. Vestidinhos de não grávida em corte envelope, por exemplo, são muito dignos e vestem super bem. Nessas horas, tive que agradecer o verão, estão vendo como a gente é paradoxal?
  15. E a última da minha lista de coisas que não me disseram sobre a gravidez é que, mesmo antes de acabar, dá aquela vontadezinha de começar tudo de novo. Putz!

 

Mas, sim, existe uma diferença.

Li hoje um dos excelentes posts da comadre de blogosfera, a Carol do Meu Parasita Querido, em que ela fala sobre parto. Vale a pena dar uma olhada.

O que achei curioso, e é algo que eu percebo cada vez que alguém escreve sobre parto natural, parto humanizado e defende como posição própria o direito de fazer essa escolha, é que sempre aparecem os comentários de pessoas que passaram por uma cesárea dizendo que não são menos mães por isso, que elas têm o direito de escolher e por aí vai. Como se a escolha de uma mulher pelo parto normal fosse uma crítica e um desmerecimento a quem fez uma cesariana. Mas aí eu me pergunto: por que será que para algumas pessoas a carapuça serve e elas se sentem atacadas assim?

Eu acho que é porque o simples fato de existirem pessoas que pensam diferente e defendem posições diferentes revela que, sim, existe mesmo uma diferença entre parto normal e cesárea. E que exista uma diferença e que isso faça com que outras mães escolham caminhos diferentes de uma cesariana, isso automaticamente parece colocar quem optou por isso para repensar suas decisões. Mesmo a contragosto.

Antes de ir adiante, é importante esclarecer que estou falando aqui das cesarianas desnecessárias, e não daquelas que existem e salvam vidas. Isso é óbvio. E também estou falando das pessoas que, frente à própria experiência com uma cesariana ou com a escolha de uma cesariana se incomodam quando alguém defende o parto normal. Isso também é óbvio. Porque tem um monte de gente que fez ou escolheu fazer uma cesariana e que está bem com isso. Maravilha. Então, estou me questionando sobre quem se sente diminuída por ter feito ou escolhido uma cesárea a cada vez que surge outra mãe defendendo o parto normal e humanizado, ok? Porque é isso que acho curioso. (Acho curioso quem não se questiona também, mas isso é vício de profissão e incapacidade de conceber que tem gente que consegue viver sem pensar a respeito do que faz com a própria vida… enfim…)

Ser mais ou menos mãe?

Quando as pessoas falam que são mãe igual, que argumento é esse? Mulheres adotam crianças e são mães dessas crianças. Assim como, por vezes, mulheres têm filhos e não são mães deles. Ser mãe é algo que se constrói na delicada, cotidiana e singular relação com cada filho, é um processo que pode começar na barriga, antes da barriga, depois da barriga… Enfim, pode começar, nem sempre começa, mas muitas vezes começa e para cada uma começa de um jeito diferente. Então, parto normal, cesariana, adoção ou sei lá quais outras maneiras de maternar se encontre ou se invente, não é o jeito como a criança veio ao mundo que te faz mãe ou não mãe. Mas, de todo modo, você não é mãe igual a ela porque, simplesmente, essa história de que mãe é tudo igual é uma balela sem tamanho. Mãe é tudo diferente. Tão diferente quanto existem pessoas diferentes nesse mundo.

Mesmo passando por tantas coisas semelhantes – afinal, não existem tantas questões existenciais assim para nós humanos e nem sofrimentos tão variados – acho fascinante como cada pessoa é capaz de criar uma solução única, um percurso singular, um mix, uma colagem, uma junção de tantas coisas para inventar o seu jeito de lidar com aquilo. E penso que é assim também com ser mãe: no geral, as coisas se passam mais ou menos do mesmo modo e os desafios são aqueles que se colocam para nós todas. Mas como é que cada uma inventa a si mesma e a seu jeito de maternar? Singularmente.

Então, você não é menos mãe ou mais mãe do que aquela mãe que defende o parto normal. Você é mãe diferente. E a escolha do modo como se coloca uma criança no mundo pode fazer parte dessa diferença. E isso não é um julgamento de valor, é a constatação da diferença. Por que isso ofende? Por que deveríamos todos passar pelas coisas da mesma maneira?

Eu penso que temos um medo imenso de tudo aquilo que foge à regra, à homogeneização das pessoas e de suas experiências que é tão típica dos nossos tempos. Saiu do padrão, já nos incomoda. Porque quando alguém sai do padrão, automaticamente bota em questão tudo aquilo que é considerado normal. Não é assim? A gente achava normal até uns tempos atrás matar uma mulher que traísse o marido e isso se chamava “legítima defesa da honra” e justificava assassinato. Até que alguém começou a pensar diferente, ou a se perguntar por que seria assim. E quando um pergunta, mesmo quem estava acomodado nessa situação anterior acaba tendo que se mexer. O diferente obriga a gente a pensar.

Talvez aconteça o mesmo em relação ao parto. Ironicamente, o parto que é chamado normal não tem mais nada de normal no Brasil. E isso não é porque descobriu-se que outro tipo de parto é melhor do que esse. Porque não é. E esse é um dos fatores que parece que incomodam tanto a tanta gente: para a grande maioria das mulheres e seus bebês, na imensa maioria dos casos, o melhor parto é o parto normal. Não existe nenhuma pesquisa que contradiga isso. E se os números de cesarianas só faz aumentar em nosso país, indo na contramão do que afirmam todas as pesquisas acerca do tema, é porque deve ter algo errado nisso, não?

Questão de escolha?

Aliás, é estranho demais que no Brasil a cesariana seja escolha e seja defendida como uma escolha, como se fosse um direito adquirido pela mulher. Você pode escolher ter parto normal ou cesariana? Como assim? Na grande maioria dos países, isso não é questão de escolha. Parto equivale a parto normal, com mais ou menos intervenções médicas, mais ou menos humanizados, mais ou menos respeitosos dos meios e das condições de cada mãe e de cada bebê. Cesariana não é nem chamada de parto, ela é uma intervenção médica de urgência quando um parto não é possível. Então, o que acontece que cesariana vira parto e vira escolha no Brasil? E isso serve para que? Será mesmo uma grande conquista e uma imensa vantagem a ponto de podermos nos vangloriar de “escolher” uma cesariana? Se fosse um procedimento assim, tão excelente que merecesse ser estendido para todas as situações em que não é necessário, acho que vários países do mundo estariam agora nos copiando e a OMS não nos criticaria tanto nesse ponto, não? Não sei não, mas acho que aí tem uma lógica bem perversa agindo e que nos impede de ver que nosso discurso defende uma posição que não se sustenta em praticamente nenhum outro lugar do mundo e em nenhuma outra época. E se, como indivíduos, estamos defendendo essa mesma posição e a nossa escolha por uma cesariana, será que não vale mesmo nenhuma reflexão a respeito?

Quando uma mulher defende publicamente o parto normal e humanizado, num país como o nosso, ela certamente deve ter percorrido um longo caminho para chegar até essa decisão. Justamente porque ela não tem mais nada de normal, justamente porque ela virou a exceção e não a regra. E essa pessoa passa a incomodar porque, possivelmente, ela pensou muito mais a respeito do que a imensa maioria das mulheres que seguem o fluxo da cesariana. Porque, sim, é mais fácil seguir o fluxo, não se questionar e deixar as coisas acontecerem, sendo guiada por alguém a quem você delega as decisões a respeito de você, do seu bebê e do seu parto. Não digo que é melhor ou pior. Mas é certamente mais fácil do que parar e pensar. Daí, quando chegam essas mulheres cheias de idéias, de informações e de alternativas, isso dá um chacoalhão e obriga à indagação: o que é que estou fazendo? Será que é realmente o melhor? Mas se eu for botar isso em questão agora, onde fico com  minhas decisões? Fico sem chão, fico sem referências, nem sei por onde começar… Pânico. Sofrimento. E ataque como resposta.

Penso que ignorar as diferenças é a melhor maneira de se isentar de pensar sobre as coisas. E de ter que se responsabilizar pelas escolhas que fazemos. E de ter o trabalho de agir a partir delas, assumindo-as ou mudando de rumo.

Então, sim, existe uma diferença. Um parto normal é diferente de uma cesariana que é diferente de uma adoção. Nenhuma dessas escolhas garante em nada que haverá uma mãe e um bebê depois. Nenhuma delas garante o que vem em seguida. Nenhuma delas diz de quem será mais ou menos mãe. Mas são escolhas diferentes e dentro de cada uma delas ainda existe uma imensidão de diferenças. E penso que, sim, infelizmente, nos dias de hoje, no Brasil, da forma como gravidez e parto são tratados, escolher uma cesariana é algo que merece muita reflexão. Muita. Sobre o que está sendo escolhido quando se decide por isso. Sobre o porque está sendo escolhido. Porque não é uma escolha inócua – como também não é uma escolha de parto normal – e vai trazer, sim, consequências para você, para seu filho, para a história de vocês. Você está ciente disso?

Isso é uma coisa ruim? Que suas escolhas tenham consequências na sua vida e na dos seus filhos? Espero que não porque, quaisquer que sejam elas, pelo que tenho aprendido e ouvido acerca da gravidez e da maternidade, ficamos para sempre assombradas com a dúvida sobre se fizemos mesmo o melhor. E essa interrogação não vai sair da sua cabeça se você atacar alguém que escolheu diferente de você. Em relação aos nossos fantasmas, só nos resta encará-los.

Enquanto isso, nos E.U.A…

Ina May Gaskin é uma enfermeira obstétrica norte-americana fundadora de uma bela casa de parto humanizado no Tennessee, chamada The Farm. Ela escreve e dá palestras sobre o assunto pelo mundo afora e aqui está uma série de vídeos de uma palestra que ela fez na Suécia em 2012, onde fala sobre a medicalização do parto, o excesso de tecnologia e intervenções, a peridural, a episiotomia, o desrespeito à mulher e ao tempo de cada parto… E também sobre a importância de rir, de se divertir durante o parto, por incrível que pareça. Vale a pena assistir. E não se restringe apenas à realidade norteamericana. Está em inglês: