Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

Mas, sim, existe uma diferença.

Li hoje um dos excelentes posts da comadre de blogosfera, a Carol do Meu Parasita Querido, em que ela fala sobre parto. Vale a pena dar uma olhada.

O que achei curioso, e é algo que eu percebo cada vez que alguém escreve sobre parto natural, parto humanizado e defende como posição própria o direito de fazer essa escolha, é que sempre aparecem os comentários de pessoas que passaram por uma cesárea dizendo que não são menos mães por isso, que elas têm o direito de escolher e por aí vai. Como se a escolha de uma mulher pelo parto normal fosse uma crítica e um desmerecimento a quem fez uma cesariana. Mas aí eu me pergunto: por que será que para algumas pessoas a carapuça serve e elas se sentem atacadas assim?

Eu acho que é porque o simples fato de existirem pessoas que pensam diferente e defendem posições diferentes revela que, sim, existe mesmo uma diferença entre parto normal e cesárea. E que exista uma diferença e que isso faça com que outras mães escolham caminhos diferentes de uma cesariana, isso automaticamente parece colocar quem optou por isso para repensar suas decisões. Mesmo a contragosto.

Antes de ir adiante, é importante esclarecer que estou falando aqui das cesarianas desnecessárias, e não daquelas que existem e salvam vidas. Isso é óbvio. E também estou falando das pessoas que, frente à própria experiência com uma cesariana ou com a escolha de uma cesariana se incomodam quando alguém defende o parto normal. Isso também é óbvio. Porque tem um monte de gente que fez ou escolheu fazer uma cesariana e que está bem com isso. Maravilha. Então, estou me questionando sobre quem se sente diminuída por ter feito ou escolhido uma cesárea a cada vez que surge outra mãe defendendo o parto normal e humanizado, ok? Porque é isso que acho curioso. (Acho curioso quem não se questiona também, mas isso é vício de profissão e incapacidade de conceber que tem gente que consegue viver sem pensar a respeito do que faz com a própria vida… enfim…)

Ser mais ou menos mãe?

Quando as pessoas falam que são mãe igual, que argumento é esse? Mulheres adotam crianças e são mães dessas crianças. Assim como, por vezes, mulheres têm filhos e não são mães deles. Ser mãe é algo que se constrói na delicada, cotidiana e singular relação com cada filho, é um processo que pode começar na barriga, antes da barriga, depois da barriga… Enfim, pode começar, nem sempre começa, mas muitas vezes começa e para cada uma começa de um jeito diferente. Então, parto normal, cesariana, adoção ou sei lá quais outras maneiras de maternar se encontre ou se invente, não é o jeito como a criança veio ao mundo que te faz mãe ou não mãe. Mas, de todo modo, você não é mãe igual a ela porque, simplesmente, essa história de que mãe é tudo igual é uma balela sem tamanho. Mãe é tudo diferente. Tão diferente quanto existem pessoas diferentes nesse mundo.

Mesmo passando por tantas coisas semelhantes – afinal, não existem tantas questões existenciais assim para nós humanos e nem sofrimentos tão variados – acho fascinante como cada pessoa é capaz de criar uma solução única, um percurso singular, um mix, uma colagem, uma junção de tantas coisas para inventar o seu jeito de lidar com aquilo. E penso que é assim também com ser mãe: no geral, as coisas se passam mais ou menos do mesmo modo e os desafios são aqueles que se colocam para nós todas. Mas como é que cada uma inventa a si mesma e a seu jeito de maternar? Singularmente.

Então, você não é menos mãe ou mais mãe do que aquela mãe que defende o parto normal. Você é mãe diferente. E a escolha do modo como se coloca uma criança no mundo pode fazer parte dessa diferença. E isso não é um julgamento de valor, é a constatação da diferença. Por que isso ofende? Por que deveríamos todos passar pelas coisas da mesma maneira?

Eu penso que temos um medo imenso de tudo aquilo que foge à regra, à homogeneização das pessoas e de suas experiências que é tão típica dos nossos tempos. Saiu do padrão, já nos incomoda. Porque quando alguém sai do padrão, automaticamente bota em questão tudo aquilo que é considerado normal. Não é assim? A gente achava normal até uns tempos atrás matar uma mulher que traísse o marido e isso se chamava “legítima defesa da honra” e justificava assassinato. Até que alguém começou a pensar diferente, ou a se perguntar por que seria assim. E quando um pergunta, mesmo quem estava acomodado nessa situação anterior acaba tendo que se mexer. O diferente obriga a gente a pensar.

Talvez aconteça o mesmo em relação ao parto. Ironicamente, o parto que é chamado normal não tem mais nada de normal no Brasil. E isso não é porque descobriu-se que outro tipo de parto é melhor do que esse. Porque não é. E esse é um dos fatores que parece que incomodam tanto a tanta gente: para a grande maioria das mulheres e seus bebês, na imensa maioria dos casos, o melhor parto é o parto normal. Não existe nenhuma pesquisa que contradiga isso. E se os números de cesarianas só faz aumentar em nosso país, indo na contramão do que afirmam todas as pesquisas acerca do tema, é porque deve ter algo errado nisso, não?

Questão de escolha?

Aliás, é estranho demais que no Brasil a cesariana seja escolha e seja defendida como uma escolha, como se fosse um direito adquirido pela mulher. Você pode escolher ter parto normal ou cesariana? Como assim? Na grande maioria dos países, isso não é questão de escolha. Parto equivale a parto normal, com mais ou menos intervenções médicas, mais ou menos humanizados, mais ou menos respeitosos dos meios e das condições de cada mãe e de cada bebê. Cesariana não é nem chamada de parto, ela é uma intervenção médica de urgência quando um parto não é possível. Então, o que acontece que cesariana vira parto e vira escolha no Brasil? E isso serve para que? Será mesmo uma grande conquista e uma imensa vantagem a ponto de podermos nos vangloriar de “escolher” uma cesariana? Se fosse um procedimento assim, tão excelente que merecesse ser estendido para todas as situações em que não é necessário, acho que vários países do mundo estariam agora nos copiando e a OMS não nos criticaria tanto nesse ponto, não? Não sei não, mas acho que aí tem uma lógica bem perversa agindo e que nos impede de ver que nosso discurso defende uma posição que não se sustenta em praticamente nenhum outro lugar do mundo e em nenhuma outra época. E se, como indivíduos, estamos defendendo essa mesma posição e a nossa escolha por uma cesariana, será que não vale mesmo nenhuma reflexão a respeito?

Quando uma mulher defende publicamente o parto normal e humanizado, num país como o nosso, ela certamente deve ter percorrido um longo caminho para chegar até essa decisão. Justamente porque ela não tem mais nada de normal, justamente porque ela virou a exceção e não a regra. E essa pessoa passa a incomodar porque, possivelmente, ela pensou muito mais a respeito do que a imensa maioria das mulheres que seguem o fluxo da cesariana. Porque, sim, é mais fácil seguir o fluxo, não se questionar e deixar as coisas acontecerem, sendo guiada por alguém a quem você delega as decisões a respeito de você, do seu bebê e do seu parto. Não digo que é melhor ou pior. Mas é certamente mais fácil do que parar e pensar. Daí, quando chegam essas mulheres cheias de idéias, de informações e de alternativas, isso dá um chacoalhão e obriga à indagação: o que é que estou fazendo? Será que é realmente o melhor? Mas se eu for botar isso em questão agora, onde fico com  minhas decisões? Fico sem chão, fico sem referências, nem sei por onde começar… Pânico. Sofrimento. E ataque como resposta.

Penso que ignorar as diferenças é a melhor maneira de se isentar de pensar sobre as coisas. E de ter que se responsabilizar pelas escolhas que fazemos. E de ter o trabalho de agir a partir delas, assumindo-as ou mudando de rumo.

Então, sim, existe uma diferença. Um parto normal é diferente de uma cesariana que é diferente de uma adoção. Nenhuma dessas escolhas garante em nada que haverá uma mãe e um bebê depois. Nenhuma delas garante o que vem em seguida. Nenhuma delas diz de quem será mais ou menos mãe. Mas são escolhas diferentes e dentro de cada uma delas ainda existe uma imensidão de diferenças. E penso que, sim, infelizmente, nos dias de hoje, no Brasil, da forma como gravidez e parto são tratados, escolher uma cesariana é algo que merece muita reflexão. Muita. Sobre o que está sendo escolhido quando se decide por isso. Sobre o porque está sendo escolhido. Porque não é uma escolha inócua – como também não é uma escolha de parto normal – e vai trazer, sim, consequências para você, para seu filho, para a história de vocês. Você está ciente disso?

Isso é uma coisa ruim? Que suas escolhas tenham consequências na sua vida e na dos seus filhos? Espero que não porque, quaisquer que sejam elas, pelo que tenho aprendido e ouvido acerca da gravidez e da maternidade, ficamos para sempre assombradas com a dúvida sobre se fizemos mesmo o melhor. E essa interrogação não vai sair da sua cabeça se você atacar alguém que escolheu diferente de você. Em relação aos nossos fantasmas, só nos resta encará-los.

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil – parte II

Diálogo de uns dias atrás, durante uma das sessões de preparação para o parto com a enfermeira-obstetra:

– Vamos falar do trabalho de parto hoje. É o momento mais medicalizado do parto. Vocês sabem me dizer por quê? Porque vocês vão tomar a peridural.

– E quem não pretende tomar peridural?

Olhares estranhos de todas as barrigudas na sala.

– Bem, 90% dos partos são feitos com analgesia peridural. E para nós, é bem complicado quando tem que fazer algo diferente. Então, provavelmente, vão te dar um soro e te colocar no monitoramento como todo mundo. E você vai ter menos mobilidade, ainda que possa se movimentar, o que não acontece com quem toma a peridural. Mas, para nós, é complicado ter que te tirar do monitoramento e te colocar novamente, a cada hora.

Silêncio.

– Então, vou falar de como acontece esse momento do trabalho de parto sob peridural, ok?

Ok, a França é bem mais respeitosa no que diz respeito ao parto do que o Brasil. Parto normal, aqui, é normal e cesariana nem é considerada como parto, mas como intervenção de urgência. E, no tal curso, eles até explicam o que pode levar a uma cesariana e são apenas dois ou três motivos. Bebê nasce sentado? Nasce por parto normal. Bebê nasce enrolado no cordão? Nasce por parto normal e eles desenrolam. Bebê, aqui, nasce. O que não quer dizer que a medicalização não passou por aqui e não normatizou algo que em nada seria patológico. Muito pelo contrário: a França é um país extremamente medicalizado e patologizante.

Essa história de patologização das subjetividades é bem antiga. Não começou com o novo DSM-V que tanta gente, com razão, está gritando que nos fez acordar todos doentes mentais (tem um texto ótimo a respeito aqui e outro aqui). Lamento, mas já acordamos doentes mentais há bem mais tempo do que isso e pouca gente havia se dado conta. Tristeza e luto tornaram-se depressão praticamente desde o momento em que os manuais psiquiátricos inventaram o conceito. Porque o que existia antes era melancolia. É muito interessante acompanhar a evolução dos diagnósticos nos manuais de psicopatologia, ver como eles foram se subdividindo, se multiplicando, se especializando até chegar às raias do detalhe, contemplando cada vez mais e mais campos da subjetividade humana. Até chegar em nossos dias, em que tudo é patologia, tudo é doença, tudo foge à regra. E o que se deve fazer com o que desvia? Endireitar, colocar nos trilhos, normalizar, adaptar. Medicalizar. Para quem se interessa pelo assunto, a melhor referência é o bom e velho Michel Foucault, que mostra magistralmente que isso começou há pelo menos 200 anos atrás, quando a loucura foi a primeira tonalidade subjetiva a se transformar em doença, abrindo espaço para tudo o que seria patologizado depois dela. Além disso, ele ajuda a entender como transformar pessoas em doentes mentais não é algo inofensivo, mas algo que serve a uma certa idéia de norma, a um certo modo de conceber normal e patológico que está – e sempre estará – a serviço de um jogo de poder. Nesse caso, o biopoder, o poder de transformar pessoas em organismos, em meros pedaços de carne dos quais podemos dispor como coisas, para melhor controlá-los. Foucault nunca foi tão atual, infelizmente.

Voltando à França.

Claro que a França, país em que existe um sistema de saúde público, universal e que funciona, não teria como escapar incólume àquilo que oferece a seus cidadãos. E existe uma maneira de pensar saúde e doença aqui – como em todos os países – que orienta suas políticas públicas e o que se oferece como assistência. E o que se oferece como assistência em saúde na França passa por uma concepção de doença bastante patologizante e normalizadora. Basta dizer que este é um dos países com um dos maiores índices de depressão no mundo e, consequentemente, um dos maiores consumidores de medicamentos antidepressivos também. Um modo de pensar o ser humano como doente, uma conduta medicalizadora desse ser humano. Não tem crise na indústria farmacêutica aqui.

E o que isso tem a ver com gravidez e parto?

Tem a ver na medida em que gravidez e parto, aqui, estão sob a jurisdição da medicina tanto quanto no Brasil. Se existe uma diferença significativa e importante na concepção dos franceses de que parto é por via vaginal, isso infelizmente não caminha junto com uma postura menos medicalizada e patologizante desse momento. O corpo da mulher ainda é capaz de parir por aqui – não é o corpo totalmente incapacitado das brasileiras que precisam ser ajudadas integralmente naquilo que se assume que elas não sabem fazer. Mas esse corpo capaz de parir é, segundo as concepções, os protocolos e as condutas de médicos e enfermeiras obstetrizes francesas em sua grande maioria, um corpo imperfeito, meio defeituoso, que precisa ser controlado em permanência durante a gravidez e auxiliado no momento do parto.

Se não, vejamos:

– exames constantes desde a constatação da gravidez buscam averiguar se seu corpo funciona bem: doenças, disfunções, irregularidades, tudo é monitorado em permanência a cada consulta, quer você seja acompanhada por uma enfermeira obstetriz – o mais comum – quer por um médico obstetra. A idéia de um perigo permanente de que algo esteja errado contigo ou com o bebê te assombra, na medida em que a ênfase das consultas é colocada exatamente em avaliar riscos, medi-los, controlá-los. Acompanhar uma gravidez, aqui na França, parece ser concebido como manejar uma ameaça constante, à qual apenas a tecnologia médica teria condições de fazer frente.

– a preparação pré-natal, que poderia ser uma alternativa a essas consultas extremamente direcionadas aos riscos de uma gravidez que pouquíssimas vezes é, de fato, arriscada, parece cair no mesmo discurso medicalizante e patologizante da insuficiência do corpo feminino em ligar com uma gestação e um parto. Esse curso, feito com uma enfermeira obstétrica da maternidade em que você está inscrita ou de forma independente, teria por objetivo explicar às gestantes o que acontece durante o trabalho de parto, o parto, o pós-parto, o aleitamento e por aí vai. Informação, oportunidade de encontrar outras grávidas, discutir, esclarecer dúvidas, descobrir possibilidades… Não é bem assim. Como mostra o diálogo do começo deste post, o que impera é aquilo que é melhor para nós. E, nesse caso, nós não somos as mães, nem nossos bebês. Nós são os funcionários de um sistema de saúde na maior parte das vezes superlotado, em que maternidades usinas devem seguir os protocolos e trazer ao mundo uma quantidade imensa de bebês do jeito que for mais prático para eles. E onde a diferença e a singularidade de cada mãe, de cada bebê, de cada parto atrapalham e devem ser uniformizadas.

Então, falemos de peridural e de todas as intervenções médicas que parecem evidentes e que ninguém coloca em questão, mesmo aqui na França. Onde o sistema de seguridade social paga por tudo isso: por seu acompanhamento, por seu parto, por sua preparação… E  ainda te ajuda nas despesas com gravidez e filhos. Desde que você não saia dos trilhos. Desde que você se encaixe docilmente naquilo que eles concebem como sendo gestar, parir ou criar filhos. Uma normalização perversa, na medida em que é aliada à questão de quem paga a conta, criando ainda mais um motivo – econômico – para você se enquadrar. Não é apenas questão de que o médico sabe mais, de que seu corpo é falho, de que você precisa de ajuda naquilo que não sabe fazer sozinha, de que existem riscos, de que existe dor, de que algo pode dar errado. É também questão de dinheiro. E o dinheiro só sai se você se portar bem.

A França é um país excelente. Isso se você se adaptar aos protocolos deles. E não fizer muitas perguntas que te façam parecer absurda. A não ser que esteja disposta a brigar. E a batalhar por alternativas e exceções que, evidentemente, existem por aqui. Ainda bem. Muitos franceses têm uma grande dificuldade em pensar fora da caixinha. Entre médicos e equipe médica, pelo que tenho constatado, são poucos os que arriscam um pensamento clínico, um raciocínio fora do que está dito que devem fazer, uma opinião. Pensar, aqui na terra das luzes, parece que se tornou perigoso. Você pode ser processado. Você pode ser responsabilizado por sua opinião. Você pode ser punido. Não é bom ser diferente, singular. Melhor seguir estatísticas, diretrizes, normas de conduta. Melhor se adaptar. Isso vale para crianças, adultos, gestantes, bebês, estrangeiros, franceses… E, caso encontre dificuldades, tome um antidepressivo no final do dia, como a maioria das pessoas que te cercam.

Outras informações e reflexões sobre gravidez e parto na França: aqui e aqui.