O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (partes 1 e 2)

Obrigada à Clarissa do blog:  A mãe que quero ser pela tradução do excelente texto de Alice Dreger mostrando que o parto mais científico e seguro é o menos tecnológico. Vale a leitura.

O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (parte 1).

O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (parte 2).

via A mãe que quero ser.

Parto da barriga

Ela foi dormir, ela e a barriga sapeca, que insistia em se alongar em formatos estranhos, dando ainda bundadas e chutinhos, mesmo estando há alguns dias mais baixa. As contrações desde a sexta-feira eram mais dolorosas, mas irregulares e esporádicas. Ela foi dormir com a barriga grande, pesada, aquela que aprendeu a amar e acariciar durante nove meses, a barriga com a qual conversou ao longo de muitos dias e noites, algumas tantas insones. A barriga que se transformou pouco a pouco até parecer que sempre esteve ali, como se nunca houvesse sido diferente. A gente se acostuma com os saltos, com os sobressaltos, com essa presença de um outro tão perto, com esse conhecer intimamente sem ver…

Uma noite como qualquer outra das mais recentes.

Às seis horas da manhã ela acorda de um susto e de uma sensação, como quem perde o ar. Ela sabe, mas mesmo assim levanta da cama e confirma: a água escorre com ela até o banheiro, trilhando um caminho que a faz sorrir. E, então, ela fica extremamente calma. Sente uma alegria profunda e silenciosa. Acorda ele que, também calmo e um pouco atordoado, tenta secar o rastro às custas de todos os Kleenex da casa. Surpresas esperadas tornam as pessoas engraçadas em suas ações.

Eles avisam a mãe dela, que chegou de longa viagem na véspera. E que se alarma no fuso horário confuso, enquanto eles tranquilamente comem algo e se preparam, jogando as últimas coisas na mala. As pessoas dizem e repetem: rompeu a bolsa, saia correndo para o hospital. Correr para que? Não se trata de uma maratona, nem de se jogar às pressas nas mãos dos experts para que eles cuidem de tudo… Não, ela e a barriga têm outros planos: nascer e fazer nascer uma bebê e sua mamãe.

Da porta ao carro, do carro à maternidade, é a última vez que fazem aquele caminho daquela maneira. Aquele caminho que não mais a reconhece e para o qual ela olha com olhos inéditos, olhos de desconhecido, de silêncio e de calma.

Na maternidade, um primeiro exame: contrações ainda fracas, subir para o quarto e aguardar um novo exame no final da manhã. Sobem ela, a barriga, ele e a mãe dela. Ele sai para voltar dali a uma hora, ela se instala aguardando um longo dia de trabalho de parto.

Uma hora depois, as contrações aumentaram muito em intensidade. Aquelas que começaram pela manhã com a ruptura da bolsa não eram tão doloridas. Ou talvez seja o intervalo entre elas que diminuiu para cerca de dois minutos o que as torna mais intensas. Ela não sabe ao certo, apenas busca respirar profundamente, mudar de posição, bascular a bacia… Pensa no curso de sofrologia que fez ao longo dos últimos meses e que a ajuda agora com isso. Pensa que o objetivo dessas contrações é preparar o útero para ajudar a pequena a sair. Pensa que cada contração aproxima mais o encontro entre elas, entre eles todos. Pensar como uma forma de se reassegurar que esse é o bom caminho. Ela luta um pouco contra si mesma, insiste em que é pensando que vai gerenciar o seu corpo que agora corre solto à sua revelia, ela que sempre dançou a vida inteira e que orgulhosamente sempre soube o alcance de cada gesto seu… Nessa uma hora depois ela percebe que seu corpo age e que ela pode brigar para manter as rédeas ou pode confiar e se deixar levar. No final das contas, essa é uma falsa questão de escolha, porque quem vai levar o jogo é ele, isso é certo. Naquilo que é vital, apenas o nosso corpo sabe o que fazer. Só ele tem a resposta, só ele sabe para onde ir, então é melhor confiar e se abandonar. Constatações desse corpo que rege a cada dois minutos…

A enfermeira aparece para levá-la novamente à sala de parto. Seu útero já se modificou muito, 1 cm de dilatação, ela vai para a banheira de água quentinha que sua mãe prepara, todos ainda aguardando muitas e boas horas de trabalho pela frente. 1 cm por hora, é o que dizem. Ainda mais para um primeiro.

Ele chega. Ela, na banheira, aliviada pelo calor da água, respira em silêncio. Não quer falar, os olho semi-abertos, apenas sensações. Sensações que escapam, que restam, que invadem… Sem pensamentos, apenas estar presente ali e viver tudo aquilo.

Outra hora e meia e aquilo que eram contrações vira outra coisa. Não se trata mais de dor, não é dor que ela sente, apenas uma força descomunal que começa a tomar conta do corpo dela a cada contração. Ela decide que tem que sair dali e se alongar em algum lugar. Ele a ajuda, olhando bonito aquilo que ela vive. Ora segura sua mão, ora lhe massageia as costas, ora partilha seu silêncio… ele espera o tempo passar lentamente. Um tempo em suspenso.

Apenas alongada e a enfermeira obstétrica constata com espanto a dilatação completa. Sai para chamar a equipe e se preparar, mas ela e a barriga já encontram-se em outro plano. Aquela força muscular sobrenatural faz tremer as pernas, faz gritar de dentro da alma… Duas… ela sente a pequena que se aproxima e a faz queimar… Três… Quatro… Ele diz: “estou vendo muitos cabelos pretos”.

A equipe mal tem tempo de entrar na sala e pegar desajeitadamente a bebê que sai por sua própria vontade, no seu tempo. Sai um ombro, sai outro, alguém dia a ela que pegue sua bebê. Ela a pega pelos ombros e traz para a barriga. O lado de fora da barriga de onde ela acaba de sair. Os olhos semi-fechados, ela não consegue acreditar na pequena ali, na sua frente. Ela olha para a bebê, ela olha para ele, ele olha para a bebê, eles se amam, eles a amam… assim… sem dor e com tanta força.

Ele corta o cordão. A pequena acaba de partir da barriga para o mundo. E o melhor é cuidá-la e amá-la para que ela tenha o melhor possível em seu mundo. Ela é cuidada e examinada ali mesmo e volta para os braços dela.

A pequena fica aninhada nos seus braços. Ela mama, ela olha para a mamãe e para o papai. Ela vai para os braços do papai. Ele a veste. Ela olha tudo em sua volta… então é isso? Então são vocês? Então, eis você! Talvez ela estivesse tão curiosa quanto eles por esse encontro, encontro de quem já se conhecia há tantos meses, encontro de quem, desde que chegou, pareceu ter estado sempre ali. Uma evidência.

5 horas e 22 minutos de um trabalho conjunto para vir ao mundo. 5 horas e 22 minutos de uma experiência inatingível para as palavras. 5 horas e 22 minutos para mudar uma barriga em mãe. Uma barriga em bebê. Um homem em pai. 5 horas e 22 minutos de respeito, de escuta, de amor e de coerência com a vida. Com o melhor da vida.

Bem vinda, pequena. Estamos aqui, presentes e em festa para você.

Mas, sim, existe uma diferença.

Li hoje um dos excelentes posts da comadre de blogosfera, a Carol do Meu Parasita Querido, em que ela fala sobre parto. Vale a pena dar uma olhada.

O que achei curioso, e é algo que eu percebo cada vez que alguém escreve sobre parto natural, parto humanizado e defende como posição própria o direito de fazer essa escolha, é que sempre aparecem os comentários de pessoas que passaram por uma cesárea dizendo que não são menos mães por isso, que elas têm o direito de escolher e por aí vai. Como se a escolha de uma mulher pelo parto normal fosse uma crítica e um desmerecimento a quem fez uma cesariana. Mas aí eu me pergunto: por que será que para algumas pessoas a carapuça serve e elas se sentem atacadas assim?

Eu acho que é porque o simples fato de existirem pessoas que pensam diferente e defendem posições diferentes revela que, sim, existe mesmo uma diferença entre parto normal e cesárea. E que exista uma diferença e que isso faça com que outras mães escolham caminhos diferentes de uma cesariana, isso automaticamente parece colocar quem optou por isso para repensar suas decisões. Mesmo a contragosto.

Antes de ir adiante, é importante esclarecer que estou falando aqui das cesarianas desnecessárias, e não daquelas que existem e salvam vidas. Isso é óbvio. E também estou falando das pessoas que, frente à própria experiência com uma cesariana ou com a escolha de uma cesariana se incomodam quando alguém defende o parto normal. Isso também é óbvio. Porque tem um monte de gente que fez ou escolheu fazer uma cesariana e que está bem com isso. Maravilha. Então, estou me questionando sobre quem se sente diminuída por ter feito ou escolhido uma cesárea a cada vez que surge outra mãe defendendo o parto normal e humanizado, ok? Porque é isso que acho curioso. (Acho curioso quem não se questiona também, mas isso é vício de profissão e incapacidade de conceber que tem gente que consegue viver sem pensar a respeito do que faz com a própria vida… enfim…)

Ser mais ou menos mãe?

Quando as pessoas falam que são mãe igual, que argumento é esse? Mulheres adotam crianças e são mães dessas crianças. Assim como, por vezes, mulheres têm filhos e não são mães deles. Ser mãe é algo que se constrói na delicada, cotidiana e singular relação com cada filho, é um processo que pode começar na barriga, antes da barriga, depois da barriga… Enfim, pode começar, nem sempre começa, mas muitas vezes começa e para cada uma começa de um jeito diferente. Então, parto normal, cesariana, adoção ou sei lá quais outras maneiras de maternar se encontre ou se invente, não é o jeito como a criança veio ao mundo que te faz mãe ou não mãe. Mas, de todo modo, você não é mãe igual a ela porque, simplesmente, essa história de que mãe é tudo igual é uma balela sem tamanho. Mãe é tudo diferente. Tão diferente quanto existem pessoas diferentes nesse mundo.

Mesmo passando por tantas coisas semelhantes – afinal, não existem tantas questões existenciais assim para nós humanos e nem sofrimentos tão variados – acho fascinante como cada pessoa é capaz de criar uma solução única, um percurso singular, um mix, uma colagem, uma junção de tantas coisas para inventar o seu jeito de lidar com aquilo. E penso que é assim também com ser mãe: no geral, as coisas se passam mais ou menos do mesmo modo e os desafios são aqueles que se colocam para nós todas. Mas como é que cada uma inventa a si mesma e a seu jeito de maternar? Singularmente.

Então, você não é menos mãe ou mais mãe do que aquela mãe que defende o parto normal. Você é mãe diferente. E a escolha do modo como se coloca uma criança no mundo pode fazer parte dessa diferença. E isso não é um julgamento de valor, é a constatação da diferença. Por que isso ofende? Por que deveríamos todos passar pelas coisas da mesma maneira?

Eu penso que temos um medo imenso de tudo aquilo que foge à regra, à homogeneização das pessoas e de suas experiências que é tão típica dos nossos tempos. Saiu do padrão, já nos incomoda. Porque quando alguém sai do padrão, automaticamente bota em questão tudo aquilo que é considerado normal. Não é assim? A gente achava normal até uns tempos atrás matar uma mulher que traísse o marido e isso se chamava “legítima defesa da honra” e justificava assassinato. Até que alguém começou a pensar diferente, ou a se perguntar por que seria assim. E quando um pergunta, mesmo quem estava acomodado nessa situação anterior acaba tendo que se mexer. O diferente obriga a gente a pensar.

Talvez aconteça o mesmo em relação ao parto. Ironicamente, o parto que é chamado normal não tem mais nada de normal no Brasil. E isso não é porque descobriu-se que outro tipo de parto é melhor do que esse. Porque não é. E esse é um dos fatores que parece que incomodam tanto a tanta gente: para a grande maioria das mulheres e seus bebês, na imensa maioria dos casos, o melhor parto é o parto normal. Não existe nenhuma pesquisa que contradiga isso. E se os números de cesarianas só faz aumentar em nosso país, indo na contramão do que afirmam todas as pesquisas acerca do tema, é porque deve ter algo errado nisso, não?

Questão de escolha?

Aliás, é estranho demais que no Brasil a cesariana seja escolha e seja defendida como uma escolha, como se fosse um direito adquirido pela mulher. Você pode escolher ter parto normal ou cesariana? Como assim? Na grande maioria dos países, isso não é questão de escolha. Parto equivale a parto normal, com mais ou menos intervenções médicas, mais ou menos humanizados, mais ou menos respeitosos dos meios e das condições de cada mãe e de cada bebê. Cesariana não é nem chamada de parto, ela é uma intervenção médica de urgência quando um parto não é possível. Então, o que acontece que cesariana vira parto e vira escolha no Brasil? E isso serve para que? Será mesmo uma grande conquista e uma imensa vantagem a ponto de podermos nos vangloriar de “escolher” uma cesariana? Se fosse um procedimento assim, tão excelente que merecesse ser estendido para todas as situações em que não é necessário, acho que vários países do mundo estariam agora nos copiando e a OMS não nos criticaria tanto nesse ponto, não? Não sei não, mas acho que aí tem uma lógica bem perversa agindo e que nos impede de ver que nosso discurso defende uma posição que não se sustenta em praticamente nenhum outro lugar do mundo e em nenhuma outra época. E se, como indivíduos, estamos defendendo essa mesma posição e a nossa escolha por uma cesariana, será que não vale mesmo nenhuma reflexão a respeito?

Quando uma mulher defende publicamente o parto normal e humanizado, num país como o nosso, ela certamente deve ter percorrido um longo caminho para chegar até essa decisão. Justamente porque ela não tem mais nada de normal, justamente porque ela virou a exceção e não a regra. E essa pessoa passa a incomodar porque, possivelmente, ela pensou muito mais a respeito do que a imensa maioria das mulheres que seguem o fluxo da cesariana. Porque, sim, é mais fácil seguir o fluxo, não se questionar e deixar as coisas acontecerem, sendo guiada por alguém a quem você delega as decisões a respeito de você, do seu bebê e do seu parto. Não digo que é melhor ou pior. Mas é certamente mais fácil do que parar e pensar. Daí, quando chegam essas mulheres cheias de idéias, de informações e de alternativas, isso dá um chacoalhão e obriga à indagação: o que é que estou fazendo? Será que é realmente o melhor? Mas se eu for botar isso em questão agora, onde fico com  minhas decisões? Fico sem chão, fico sem referências, nem sei por onde começar… Pânico. Sofrimento. E ataque como resposta.

Penso que ignorar as diferenças é a melhor maneira de se isentar de pensar sobre as coisas. E de ter que se responsabilizar pelas escolhas que fazemos. E de ter o trabalho de agir a partir delas, assumindo-as ou mudando de rumo.

Então, sim, existe uma diferença. Um parto normal é diferente de uma cesariana que é diferente de uma adoção. Nenhuma dessas escolhas garante em nada que haverá uma mãe e um bebê depois. Nenhuma delas garante o que vem em seguida. Nenhuma delas diz de quem será mais ou menos mãe. Mas são escolhas diferentes e dentro de cada uma delas ainda existe uma imensidão de diferenças. E penso que, sim, infelizmente, nos dias de hoje, no Brasil, da forma como gravidez e parto são tratados, escolher uma cesariana é algo que merece muita reflexão. Muita. Sobre o que está sendo escolhido quando se decide por isso. Sobre o porque está sendo escolhido. Porque não é uma escolha inócua – como também não é uma escolha de parto normal – e vai trazer, sim, consequências para você, para seu filho, para a história de vocês. Você está ciente disso?

Isso é uma coisa ruim? Que suas escolhas tenham consequências na sua vida e na dos seus filhos? Espero que não porque, quaisquer que sejam elas, pelo que tenho aprendido e ouvido acerca da gravidez e da maternidade, ficamos para sempre assombradas com a dúvida sobre se fizemos mesmo o melhor. E essa interrogação não vai sair da sua cabeça se você atacar alguém que escolheu diferente de você. Em relação aos nossos fantasmas, só nos resta encará-los.

Parir entre sangue e dor…

(version française de ce post ici.)

Noutro dia, reunião aqui em casa, discuto com os amigos minha opção por um parto natural que, na França, felizmente, não é sinônimo de parto normal – que o parto é normal, já está dado e eles ficam de cabelo em pé com nossa mentalidade cesárea – mas diz respeito, mais especificamente, àquilo que no Brasil chamamos parto humanizado, um parto normal com direito à recusa de várias intervenções médicas que são, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias e apenas atrapalham de maneira violenta mãe e bebê. Então uma amiga minha tira da cartola, depois de dizer que seu ideal de parto seria ser sedada, apagar e acordar apenas quando o bebê tivesse sido retirado de dentro dela – que essa opção de parto natural é uma escolha católica por parir entre sangue e dor e o quanto ela é absurdamente ideológica. Minha amiga é feminista. E inteligente. Parei para pensar. E percebi que não concordo com nada do que ela disse.

Primeiro, porque toda e qualquer opção em relação a todo e qualquer tema em nossas vidas é ideológica, quer dizer, tem em si alguma ideologia, quer saibamos ou não. Ser ideológica não é argumento para uma escolha, é a constatação de uma condição do pensar humano. A questão poderia ser, então, que ideologia está por detrás de uma escolha de parto ou de outra? O que estamos apoiando ou defendendo quando preferimos isso à aquilo?

Parir entre sangue e dor foi a condenação dada por Deus a Eva depois dela comer o fruto proibido e ser expulsa do paraíso. Mas por que isso seria uma condenação? Não sou uma expert em estudos religiosos, não li a Bíblia inteira e, assim, não tenho como falar do lugar de sabichona no que diz respeito a esse tema. O que, talvez, seja bem melhor, porque permite que eu apenas faça aqui as questões e reflexões que me provocam desde o comentário dessa amiga. Vamos a elas.

Do ponto de vista de uma pretensa defesa feminista do direito a não parir entre sangue e dor e, com isso, não sucumbir ao legado machista católico que impõe às mulheres sangue, dor e sofrimento, acho o comentário dela especialmente equivocado: afinal, a Bíblia foi escrita por quem? Por homens. Até Deus, o figura, é definido no masculino, herança e testemunho dos séculos e séculos de patriarcado que estabeleceram o homem no lugar da razão e a mulher como ser menor, incapaz, relegada às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos. A Bíblia apenas prolonga uma mentalidade que era aquela dos gregos antigos, herdada pelo império romano, do homem como cidadão, centro da pólis, senhor do pensamento. Então, minha pergunta, mesmo sabendo que o Antigo Testamento não foi estabelecido pelos seguidores de Jesus, mas bem antes: a que serve que um livro desses estabeleça a mulher como pecadora e a condene a parir entre sangue e dor?

Existiam homens e mulheres antes disso, não? Bom, talvez para os católicos não, homens e mulheres tenham surgido com Adão e Eva. Mas antes do surgimento da Bíblia como livro sagrado do catolicismo que diz que homens e mulheres surgiram de Adão e Eva e que dá a opção às pessoas de acreditarem nessa versão da história como mito das origens, já existiam homens e mulheres nesse mundo, não? Que não acreditavam ou não sabiam da tal verdade que é Adão e Eva. E que nem sabiam que o modo como viviam a depender de seu trabalho e a se reproduzir e parir entre sangue e dor era consequência do pecado original. Podemos achar que eles eram apenas ignorantes da verdade que os fazia serem como são. Ou podemos pensar que essa verdade é apenas uma versão das coisas que diz mais a respeito dela mesma e do por que ela foi construída desse modo do que acerca de como as coisas realmente são.

Como as mulheres antes da Bíblia pariam? Provavelmente, naquilo que é essencial, do mesmo jeito que nós fazemos hoje. Então, não foi a Bíblia que inventou o parto entre sangue e dor, ele já existia antes dela. Ela apenas inventou que ele seria consequência de uma condenação. Quer dizer, ela associou parto, sangue e dor à um castigo. Aí é que está o problema.

Por que será que interessa a alguém associar parto com dor a um castigo? Se formos pensar em um argumento radicalmente feminista, será que não seria o caso de considerar que interessa apenas aos homens – esses mesmos que instituíram o patriarcado nesse mundo – que um ato exclusivamente feminino, em que a mulher tem todo o poder sobre o seu corpo e sobre uma vida além da dela mesma, em que ela pode dar origem a um outro ser – coisa que apenas inventando um Deus homem os homens conseguiram remediar – enfim, que esse ato exclusivamente feminino seja considerado como um castigo e, assim, desapropriado? Desqualificado? Tornado impuro, menor, feio? Apenas uma idéia que me ocorreu. E que não me pareceu tão absurda se, seguindo por essa veia mais radical e paranóica formos pensar que, milhares e milhares de anos depois, a opção que se criou para as mulheres e seu procriar e seu parir de segunda categoria foi uma em que elas se desfazem totalmente de qualquer poder sobre o seu corpo, tornando-se objetos que, voltando às palavras da minha amiga, são botadas para dormir, têm seus corpos manipulados e decididos por outros, têm seus bebês extraídos delas e devolvidos a elas quando, como belas adormecidas, elas acordam de um sonho encantado com seus filhinhos no colo, sem nenhuma participação naquilo que trouxe ao mundo essa nova vida.

Então, tá. Ser objeto, um corpo objeto das decisões de outro a respeito da vida de seu filho é a alternativa feminista para o parto condenado entre sangue e dor? Não ser sujeito, não estar ali presente no momento em que a experiência acontece é fazer valer seu direito de ser mulher, ser independente, ser autonoma e não participar? Muito bem, o feminismo nos trouxe e nos trás conquistas incontestáveis e deve ser defendido enquanto houver nesse mundo uma pessoa que pense e aja de maneira violenta contra uma mulher pelo simples fato dela ser mulher. E defendeu o nosso direito sobre nossos corpos, sobre a concepção, sobre a alternativa de não ter filhos frente à obrigação de tê-los, sobre a opção de interromper uma gestação e tantas outras coisas mais. O feminismo defendeu até nosso direito de nos alienarmos em um conjunto de atos médicos para não participarmos do momento do parto de nossos filhos. E, ok, pode ser que para muitas mulheres isso seja uma opção. E defendo o direito que elas adquiriram de escolher isso.

Mas, apenas uma questão, essa escolha, tão ideológica quanto a minha por um parto natural, defende qual ideologia mesmo?

Em nome de nosso “direito” à não ter dor, não ter sangue, não ter sofrimento, parece que entramos em uma corrida para extirpar essas experiências de nossa condição humana. Como se fosse possível uma vida sem dor, sem sangue e sem sofrimento. E como se essas coisas fossem ruins, um castigo, um calvário pelo qual temos que passar para pagarmos os pecados de sabe-se-lá-quem-ou-o-quê. As pessoas parecem que têm mais medo da dor do que ela pode doer realmente. E em nome desse medo, jogam para fora da vida muitas experiências que são tudo, menos um castigo e uma condenação.

Poder parir um filho entre sangue, dor e muitas outras coisas que ainda não consigo imaginar me parece um privilégio, uma consequência coerente de uma escolha de alguém que decide que, em sua vida, cabe o projeto de dar vida a um outro alguém. Vida, em que também existe sangue e dor. E riso, e alegria, e um mundo todo de descobertas. Vida que não foge do dito ruim para tentar ficar apenas com o que pareceria bom, como se sentir fosse perigoso, como se sofrer fosse uma ameaça, como se as dores da vida não ensinassem e não formassem tanto quanto os seus prazeres.

Eu quero parir minha filha. Não quero que outros o façam por mim.