Um outro texto…

… sobre cesárea, parto normal e dor, que recoloca em questão as dores posteriores à cesariana e aquelas ligadas ao parto normal, muito menores, a menos que ele seja permeado de muitas intervenções médicas desnecessárias. Parece que, para evitar a dor, a medicina criou estratégias que fazem com que soframos bem mais. Vai entender, né? O link, aqui.

Parir entre sangue e dor…

(version française de ce post ici.)

Noutro dia, reunião aqui em casa, discuto com os amigos minha opção por um parto natural que, na França, felizmente, não é sinônimo de parto normal – que o parto é normal, já está dado e eles ficam de cabelo em pé com nossa mentalidade cesárea – mas diz respeito, mais especificamente, àquilo que no Brasil chamamos parto humanizado, um parto normal com direito à recusa de várias intervenções médicas que são, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias e apenas atrapalham de maneira violenta mãe e bebê. Então uma amiga minha tira da cartola, depois de dizer que seu ideal de parto seria ser sedada, apagar e acordar apenas quando o bebê tivesse sido retirado de dentro dela – que essa opção de parto natural é uma escolha católica por parir entre sangue e dor e o quanto ela é absurdamente ideológica. Minha amiga é feminista. E inteligente. Parei para pensar. E percebi que não concordo com nada do que ela disse.

Primeiro, porque toda e qualquer opção em relação a todo e qualquer tema em nossas vidas é ideológica, quer dizer, tem em si alguma ideologia, quer saibamos ou não. Ser ideológica não é argumento para uma escolha, é a constatação de uma condição do pensar humano. A questão poderia ser, então, que ideologia está por detrás de uma escolha de parto ou de outra? O que estamos apoiando ou defendendo quando preferimos isso à aquilo?

Parir entre sangue e dor foi a condenação dada por Deus a Eva depois dela comer o fruto proibido e ser expulsa do paraíso. Mas por que isso seria uma condenação? Não sou uma expert em estudos religiosos, não li a Bíblia inteira e, assim, não tenho como falar do lugar de sabichona no que diz respeito a esse tema. O que, talvez, seja bem melhor, porque permite que eu apenas faça aqui as questões e reflexões que me provocam desde o comentário dessa amiga. Vamos a elas.

Do ponto de vista de uma pretensa defesa feminista do direito a não parir entre sangue e dor e, com isso, não sucumbir ao legado machista católico que impõe às mulheres sangue, dor e sofrimento, acho o comentário dela especialmente equivocado: afinal, a Bíblia foi escrita por quem? Por homens. Até Deus, o figura, é definido no masculino, herança e testemunho dos séculos e séculos de patriarcado que estabeleceram o homem no lugar da razão e a mulher como ser menor, incapaz, relegada às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos. A Bíblia apenas prolonga uma mentalidade que era aquela dos gregos antigos, herdada pelo império romano, do homem como cidadão, centro da pólis, senhor do pensamento. Então, minha pergunta, mesmo sabendo que o Antigo Testamento não foi estabelecido pelos seguidores de Jesus, mas bem antes: a que serve que um livro desses estabeleça a mulher como pecadora e a condene a parir entre sangue e dor?

Existiam homens e mulheres antes disso, não? Bom, talvez para os católicos não, homens e mulheres tenham surgido com Adão e Eva. Mas antes do surgimento da Bíblia como livro sagrado do catolicismo que diz que homens e mulheres surgiram de Adão e Eva e que dá a opção às pessoas de acreditarem nessa versão da história como mito das origens, já existiam homens e mulheres nesse mundo, não? Que não acreditavam ou não sabiam da tal verdade que é Adão e Eva. E que nem sabiam que o modo como viviam a depender de seu trabalho e a se reproduzir e parir entre sangue e dor era consequência do pecado original. Podemos achar que eles eram apenas ignorantes da verdade que os fazia serem como são. Ou podemos pensar que essa verdade é apenas uma versão das coisas que diz mais a respeito dela mesma e do por que ela foi construída desse modo do que acerca de como as coisas realmente são.

Como as mulheres antes da Bíblia pariam? Provavelmente, naquilo que é essencial, do mesmo jeito que nós fazemos hoje. Então, não foi a Bíblia que inventou o parto entre sangue e dor, ele já existia antes dela. Ela apenas inventou que ele seria consequência de uma condenação. Quer dizer, ela associou parto, sangue e dor à um castigo. Aí é que está o problema.

Por que será que interessa a alguém associar parto com dor a um castigo? Se formos pensar em um argumento radicalmente feminista, será que não seria o caso de considerar que interessa apenas aos homens – esses mesmos que instituíram o patriarcado nesse mundo – que um ato exclusivamente feminino, em que a mulher tem todo o poder sobre o seu corpo e sobre uma vida além da dela mesma, em que ela pode dar origem a um outro ser – coisa que apenas inventando um Deus homem os homens conseguiram remediar – enfim, que esse ato exclusivamente feminino seja considerado como um castigo e, assim, desapropriado? Desqualificado? Tornado impuro, menor, feio? Apenas uma idéia que me ocorreu. E que não me pareceu tão absurda se, seguindo por essa veia mais radical e paranóica formos pensar que, milhares e milhares de anos depois, a opção que se criou para as mulheres e seu procriar e seu parir de segunda categoria foi uma em que elas se desfazem totalmente de qualquer poder sobre o seu corpo, tornando-se objetos que, voltando às palavras da minha amiga, são botadas para dormir, têm seus corpos manipulados e decididos por outros, têm seus bebês extraídos delas e devolvidos a elas quando, como belas adormecidas, elas acordam de um sonho encantado com seus filhinhos no colo, sem nenhuma participação naquilo que trouxe ao mundo essa nova vida.

Então, tá. Ser objeto, um corpo objeto das decisões de outro a respeito da vida de seu filho é a alternativa feminista para o parto condenado entre sangue e dor? Não ser sujeito, não estar ali presente no momento em que a experiência acontece é fazer valer seu direito de ser mulher, ser independente, ser autonoma e não participar? Muito bem, o feminismo nos trouxe e nos trás conquistas incontestáveis e deve ser defendido enquanto houver nesse mundo uma pessoa que pense e aja de maneira violenta contra uma mulher pelo simples fato dela ser mulher. E defendeu o nosso direito sobre nossos corpos, sobre a concepção, sobre a alternativa de não ter filhos frente à obrigação de tê-los, sobre a opção de interromper uma gestação e tantas outras coisas mais. O feminismo defendeu até nosso direito de nos alienarmos em um conjunto de atos médicos para não participarmos do momento do parto de nossos filhos. E, ok, pode ser que para muitas mulheres isso seja uma opção. E defendo o direito que elas adquiriram de escolher isso.

Mas, apenas uma questão, essa escolha, tão ideológica quanto a minha por um parto natural, defende qual ideologia mesmo?

Em nome de nosso “direito” à não ter dor, não ter sangue, não ter sofrimento, parece que entramos em uma corrida para extirpar essas experiências de nossa condição humana. Como se fosse possível uma vida sem dor, sem sangue e sem sofrimento. E como se essas coisas fossem ruins, um castigo, um calvário pelo qual temos que passar para pagarmos os pecados de sabe-se-lá-quem-ou-o-quê. As pessoas parecem que têm mais medo da dor do que ela pode doer realmente. E em nome desse medo, jogam para fora da vida muitas experiências que são tudo, menos um castigo e uma condenação.

Poder parir um filho entre sangue, dor e muitas outras coisas que ainda não consigo imaginar me parece um privilégio, uma consequência coerente de uma escolha de alguém que decide que, em sua vida, cabe o projeto de dar vida a um outro alguém. Vida, em que também existe sangue e dor. E riso, e alegria, e um mundo todo de descobertas. Vida que não foge do dito ruim para tentar ficar apenas com o que pareceria bom, como se sentir fosse perigoso, como se sofrer fosse uma ameaça, como se as dores da vida não ensinassem e não formassem tanto quanto os seus prazeres.

Eu quero parir minha filha. Não quero que outros o façam por mim.

Eu te digo o que é que você deve fazer.

Demorou um tempinho entre saber que estou grávida e decidir tomar as coisas em mãos. Precisamente o tempo suficiente para me lembrar de todos os amigos e familiares que tiveram filhos em um período recente. Quando comecei a pensar no que muitos deles viveram, entrei em pânico. Não quero isso para mim, nem para o meu bebê. Isso o que? Todas essas pequenas, cotidianas e violentas arbitrariedades das quais você e o pequeno são objeto a partir do momento em que se constata sua gravidez. A palavra é boa e precisa – objeto – pois é aquilo em que você se transforma quando entra em cena todo o aparato médico que vai se desdobrar para cuidar da sua condição.

A coisa já começa esquisita. Se pararmos para pensar, essa história de gravidez e parto serem associadas ao cuidado médico é bem recente. No Brasil, apenas nos anos 70 é que se institucionaliza o acompanhamento médico para gravidez e parto e a preferência para que o segundo aconteça no contexto de um hospital. Até então – e olha que temos aí para trás alguns milhares de anos de experiência – gravidez fazia parte da vida e parto era feito em casa, com a ajuda de alguém que pudesse te acompanhar nessa experiência. 

Ok, existiam riscos, existiam complicações, existiam desconhecimentos, existiam seqüelas, existiam perdas. E quem sabe a medicina ajudou eficazmente a diminuir tudo isso instituindo meios de prevenção, previsão, precaução e afins. E talvez isso tenha melhorado a qualidade de vida da mãe que dá à luz, assim como dos bebês que nascem. Que bom que seja assim.

Mas acontece que não é apenas isso que essa medicalização da gravidez traz. Sob o pretexto da prevenção e do cuidado, muitas arbitrariedades são feitas, muitas pequenas grandes violências são cometidas ao longo do percurso a ponto de tornar aquilo que sempre foi parte da vida em algo perigoso, arriscado, para o qual a mulher nunca está suficientemente preparada e em que é necessário intervir. Intervir para controlar. Intervir para corrigir um desvio de rota.

Um exemplo: a cesariana. Por que é que o Brasil tem tanta cesariana? Será que é porque tantas mulheres assim apresentam algum risco ou complicação no final da gestação? Aqui na França, se qualquer hospital ou maternidade apresentasse a porcentagem de cesarianas que os hospitais e maternidades apresentam no Brasil, ele seria imediatamente auditado, multado e o escândalo apareceria em toda a mídia. E olha que os franceses adoram um protocolo médico e são tão ou mais tomados por essa tentativa de tudo controlar e tudo prevenir do que nós. Mas não passa pela cabeça deles que uma situação como uma gestação que, na maioria das vezes, se encaminha naturalmente para seu desfecho, deva ser manipulada para servir aos interesses dos médicos, das maternidades e dos equipamentos que precisam dar lucro e se pagar. Ou não é bem estranho que em meio aos altíssimos índices de cesarianas no Brasil os recordes sejam batidos pelos hospitais e maternidades particulares dos centros mais ricos do país?

Conclusão? Das duas uma: ou o brasileiro é um povo altamente doente que precisa de intervenções médicas nesse nível, porque nem parir mais sabe, ou houve uma tal inversão de valores que transformou em normal aquilo que deveria ser – como é em muitos e muitos outros cantos desse mundo – uma exceção.

Será que é algo cultural querer fazer uma cesariana? Querer programar, escolher dia a hora, agendar o buffet, escolher o signo do bebê, a melhor conjunção astral possível? Será uma tentativa de controle, de ter o melhor possível, de forçar que o melhor aconteça? Ou será o medo inculcado na cabeça da gente pelos filmes, pelas histórias, pelos médicos de que parto normal é horrível, dói, sangra e é coisa de masoquista? Quem vai querer passar por dor e sofrimento, não é não? Junte-se a isso a história de que seu períneo rasga, afrouxa e de que o seu companheiro não vai mais gostar de transar contigo depois e… pronto! Não há argumento que vença o combo sofrimento + risco de perder o amor do outro. Até ir para a faca parece melhor do que isso.

Tenho descoberto alguns textos que falam a esse respeito e tentam desconstruir esse estado de normalidade que se tornou considerar a gravidez e o parto como objetos da intervenção médica. Um dos mais interessantes é esse aqui. Recomendo, é um alento. Mas o assunto não é novo. Há umas boas décadas um tal de Michel Foucault escreveu uma obra prima a respeito de como caminhamos, ao longo das últimas centenas de anos, para uma medicalização generalizada da existência humana. Ele mostrou como isso se deu ao transformarmos a loucura em doença mental, lá nos idos do século XVII. Primeiro momento em que uma peculiaridade humana passa a ser vista como algo a ser segregado, tratado, curado. O louco foi o pai de todas as outras segregações de características humanas que se transformaram em problema, anomalia, doença. Tristeza virou depressão, infância virou inadaptação, gravidez virou risco. Apenas alguns exemplos. Fosse vivo, possivelmente Foucault teria uma ou duas palavrinhas a nos dizer sobre a maneira como essa patologização das subjetividades e sua consequente medicalização e normalização se estenderam por todos os cantos do existir humano. Até chegar à lugares tão improváveis e insuspeitos como a gravidez e o parto. Coisa triste…

Será que não estamos endossando essa pseudo-verdade de que tudo o que é humano é doente e problemático – e deveria ser corrigido – quando aceitamos sem pensar ou questionar tudo aquilo que o médico diz que temos que fazer ao longo de uma gestação ou no momento do parto, sob o pretexto de evitar riscos, prevenir problemas e garantir um maior controle sobre todos os imprevistos? Esse controle é real? E, mais ainda, ele nos convém realmente?

Hyeronimus Bosch: "A extração da pedra da loucura" (1475-80)
Hyeronimus Bosch: “A extração da pedra da loucura” (1475-80)