Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.

O quarteto

Todo mundo diz que cada gravidez é uma e que cada parto é um parto. É verdade. Mas é aquele tipo de verdade que mesmo que você saiba, só entende mesmo na prática. Do nascimento da minha filha há dois anos e meio atrás até o nascimento do meu filho há alguns dias, um mundo de experiências, de descobertas, de alegrias e dificuldades se descortinou. Minha vida tornou-se outra, uma vida reinventada, em que a alegria de ser mãe da minha pequena, dessa minha “pequena ela mesma”, surpreendeu-me em cada mínimo detalhe do mais simples acontecimento cotidiano. Ser mãe dessa menina… que sorte, que privilégio. Poderia ter passado a vida sem ter filhos e nunca saberia o que teria perdido. E talvez isso não fosse um problema. Mas depois que ela chegou, impossível conceber a vida sem que minha menina faça parte dos planos, dos pensamentos e dos anseios. Parte fundamental, daquelas como um coração, ou um cérebro, ou um fígado. Você não vive sem.

Então, com o fim da segunda gravidez se aproximando, para minha surpresa comecei a sentir medo. Medo da mudança dessa vida tão repleta de alegrias, medo dessa “ordem” que eu sabia que iria desaparecer tão logo o rebentinho botasse a cabeça para fora do seu cafofo e começasse a respirar. Porque, sim, todo mundo diz que muda. E muda. E quem é que não vai ter medo de mudar algo que está tão bom? Quem mexe em time que está ganhando, né?

Nós mexemos e o pequenino ia ter que sair cedo ou tarde, de um jeito ou de outro. Causa, consequência. A não ser que ele decidisse ficar por ali até completar 18 anos e saísse direto para a faculdade mas, tendo em vista que eu e minha pancinha de 8 meses estávamos pedindo água, melhor que fosse logo.

Quando as contrações começaram no final da madrugada, passei um longo tempo olhando a pequena e o cara-metade que dormiam sem saber que aquela nossa vida tinha terminado. Para eles ainda era ontem, enquanto que para mim havia chegado o amanhã. Coisa estranha essa diferença de tempos. Coisa estranha colocar uma criança no mundo em tempos tão difíceis para onde quer que se olhe. Coisa estranha ficar feliz e triste ao mesmo tempo.

Quando o cara-metade acordou e me perguntou o que havia, me olhou bem e disse: “do jeito que você está calma, vai parir é hoje mesmo”. Aquela calma que invade a gente no dia do parto, quantas de nós a sentimos? Uma serenidade, um sorriso no rosto, aquela confiança de que tudo vai correr bem. Isso tudo é mais presente que o medo, a nostalgia, as preocupações. E é o que faz a gente confiar até o fim.

Como o segundo é diferente do primeiro, não tinha mala da maternidade preparada (hahaha, olha a “menas main” aí). Foi negligência ou uma vontade que durou até o finalzinho de ter o bebê ali em casa mesmo, apenas com a família, sem acompanhamento de nenhum profissional, já que isso se revelou impossível nesse canto onde moramos? Até o fim a esperança de um parto domiciliar. Para que sair de casa? Para que ir à maternidade? Para que colocar complicações em algo que pode ser tão simples? Perguntas que nunca pude responder totalmente e, sem poder ter certeza, e sem que o cara-metade bancasse junto para criar uma certeza forte e consistente, naquela madrugada decidi que na maternidade seria.

Uma das artes de parir nos nossos tempos e nas nossas condições, a meu ver, é conseguir o delicado equilíbrio entre saber e desconhecer. A partir do momento em que você decide fazer algo fora do padrão, precisa se informar. Pois são as informações que garantem aumentar suas chances de conseguir o parto humanizado que julga ser o melhor para o bebê e para você. Então, você passa o tempo todo coletando informações, aprendendo, pensando nas possibilidades, em onde ir, em como argumentar, em como fazer. Todo um trabalho cotidiano do que as pessoas chamam hoje em dia de “emponderamento”, que significa tomar decisões consciente do que está implicado nelas.

Mas, ao mesmo tempo, parir implica em se deixar levar por outra coisa em si que não o pensamento. Não é o que sabemos que faz o parto, não é o raciocínio, não é o que controlamos. É o que acontece ali, na brecha do que sabemos, na forma de uma ação que nos escapa. Ou seja, é preciso saber para poder parir e é preciso esquecer ou desconhecer para poder parir. Como é que faz, né?

Enquanto a noite ainda deixava tudo escuro lá fora e o silêncio das respirações dos sonolentos ali de casa faziam barulho de fundo, teve mala feita, teve banho, teve até café da manhã. E mais um longo cochilo. Até que o dia clareou e a pequena acordou. “Hoje é o dia em que seu irmão vai sair da barriga”. Lá foi ela para a casa da melhor amiga comendo um pãozinho. Lá fomos para a maternidade.

Domingão, dia de plantão. Não era o meu médico quem estava de guarda nesse dia, alguém que escolhi com muito cuidado porque aqui onde estamos são os obstetras que aparecem no final do parto, para o expulsivo apenas, enquanto as sage-femmes fazem todo o acompanhamento. Escolhi um sujeito bastante flexível e ao longo do pré-natal fui contando para ele em doses homeopáticas como gostaria que as coisas fossem no dia D. Ele pareceu aberto e disposto a deixar bebê e eu tranquilos, o que já é bastante coisa. O médico de plantão era, como disse gentilmente a enfermeira obstétrica que nos recebeu, “o oposto do Dr. Gente Boa”. Jeito suave de dizer que era o plantão de um obstetra que adora ser ator principal do parto alheio, adora romper bolsa, dar ocitocina sintética para acelerar trabalho de parto que corre bem, fazer fórceps… Eu fiquei tensa, com medo desse sujeito surgir na sala de parto e de eu ter que ter forças de brigar com ele, de dizer não. Conclusão: essa preocupação ficou ali junto com as informações e os saberes como um ruído de fundo que me acompanhou praticamente ao longo do parto inteiro, dificultando essa entrega para o desconhecido tão necessária.

sage-femme, pelo contrário, foi o anjo da guarda que caiu do céu para cuidar da gente. Um misto de enfermeira obstétrica comme il faut com doula por intuição, ela entendeu rapidamente e muito bem como queríamos viver esse parto e nos deu o que precisávamos: tomou para si a responsabilidade de não avisar o plantonista até depois do parto terminado, deixou-nos em paz, tranquilos, na sala de parto natural, sem luz hospitalar, com banheira, bola e copo d’água, sem monitoramento, sem nenhuma intervenção. Passou para nos ver duas vezes e depois voltou apenas quando chamamos… ah, a sorte dá uma mãozinha às vezes, não?

Dentro da barriga, o pequeno trabalhou como um valente. Descendo pouquinho a pouquinho a cada contração, lá foi ele se aproximando da hora de nos encontrarmos. Sem saber, sem conhecer, vivendo tudo pela primeira vez. Essa coisa incrível da primeira vez de tudo… como são corajosos os bebês que se lançam nessa de nascer sem terem lido um calhau de referências bibliográficas antes.

Respirar, abrir-se, deixar o bebê descer, deixar acontecer. Banheira, água quente, respiração… eis a magia de um parto sem anestesia e com dor no limite do suportável. Ou a magia do que funcionou nas duas vezes para mim. Isso e o milagre da posição deitada de lado…

Deitada de lado, quem diria que essa seria uma posição maravilhosa para fazer o bebê descer e nascer? Como a bolsa não rompeu até o último minuto, o pequeno desceu aos pouquinhos, bem malemolente, ao contrário da irmã com quem a bolsa rompeu de cara e ela logo desceu para apoiar a cabeça direto no meu colo. O pequeno não, ele veio na maciota, as contrações mais leves, o trabalho mais longo… Tudo diferente, assim eu não sabia parir.

É engraçado como a gente sempre precisa se apoiar em alguma coisa para brigar um pouco contra o desconhecido. Se não é nos saberes e nas informações, é no que viveu. A bolsa não rompeu, há que se confiar às contrações. Bebê desce aos poucos? Há que se confiar às contrações. E se abrir.

Sim, cada parto é um confronto entre você e seus próprios demônios. O bebê e você. E seus fantasmas. Do parto anterior, dos ideais, dos saberes…

Eu respirava, basculava a bacia e me abria. E pensava que o médico poderia chegar e querer usar um fórceps e tinha medo e me fechava. O pequeno descendo e eu no abre e fecha. Vem pra vida, meu filho, não vem não. Quem bota um filho num mundo desses?

Lá pelos 8 de dilatação as contrações mudam. O pequeno está ali embaixo, apoiado na bolsa que apóia no meu colo. Chamamos a sage-femme, ela sugere que eu sente no balão para ajudá-lo a descer. Cadê essa bolsa que não estoura? Estoura, explode, medo vai, medo vem, chega aquele momento do qual todo mundo fala, mas que a gente só entende quando vive. E depois esquece para lembrar no parto seguinte. Cansei, quero desistir, tira esse menino daí, quem teve a brilhante idéia de não querer anestesia, quero dormir, tô cansada, só quero que isso acabe, não chega não, seu plantonista, cara-metade, me faz um cafuné aqui, tô cansada, esse menino não vem não, chama o plantonista, por favor, tô delegando, lavo minhas mãos, quero nem saber… Tudo isso dentro da cabeça, por fora eu parecia a expressão mais perfeita da calma, da beatitude e da respiração profunda.

sage-femme anjo vem novamente e sugere um segundo milagre, deitar de lado sobre o lado esquerdo e respirar. Eu, querendo tirar um cochilo, topo experimentar. Deito de lado, três contrações no máximo e… tchibum… lá se vai a bolsa e, com ela, todos os medos, freios e afins.

Como é libertador berrar o filho que nasce. É o fundo mais profundo de quem você é, suas entranhas, sua vida. A vida que renasce e recomeça.

Ele nasce direto para os meus braços. Ele grita. Ele é… lindo. Aquele amor que inunda as narinas do cheiro do seu rebento, aquele que agora parece que sempre esteve ali. Aquele que você acaba de conhecer. Ele procura o peito e já começa a testar aquele delicioso encontro tão apaziguante de cheiros, de pele, de boca e peito, de calores, de leite. Tudo pela primeira vez.

Médico chegou depois que até mesmo a placenta já tinha saído. Quis reclamar com a sage-femme que deu uma resposta atravessada para ele. Como adoro essa capacidade tão francesa de responder à altura e sem subserviência…

8 horas de trabalho de parto. 5 para a minha pequena. Não é tanta diferença assim, mas o tempo é tão elástico, não? Ele se dobra e se desdobra com nossos sentimentos, nossos medos, nossos anseios, nossos freios e nossas aberturas. Um tempo tão diferente, um parto tão diferente. Mas igualmente maravilhoso. E igualmente desconhecido. E assustador. E maravilhoso. E maravilhoso. E maravilhoso.

Foi assim que a vida que parece valer tão pouco em nossos dias recomeçou aqui em casa. Provando que o amor e a vida persistem, insistem, existem. Há que se lutar por um mundo que faça jus a essa vida e a receba com generosidade, cuidado, carinho e respeito. Há que se lutar por que essas vidas façam jus a um mundo melhor e participem da criação dele. Muitas lutas ainda por vir, numa vida que esses dois pequenos fazem valer à pena.

O trio virou quarteto. Bem vindo, filho!

 

A espetacularização do nascimento

Tem uma coisa que me incomoda um bocado, que é essa espetacularização do nascimento que temos hoje em dia. E que não deixa de fora os partos normais humanizados, muito pelo contrário.

Talvez vocês se lembrem daquela matéria que apareceu nos jornais pelos idos de 2012 sobre uma maternidade carioca que revolucionava sua oferta de serviços colocando um telão para que os parentes pudessem acompanhar o parto. Sim, um telão mostrava o parto – cesariana, na sua maioria – naquilo que uma cesariana tem de possível de ser mostrada: mãe deitada, amarrada, envelopada, panos cobrindo a “área de trabalho” dos médicos, bebê saindo embrulhado, bebê aproximado da mãe para ela dar um beijinho, já que não pode carregar, primeiros “cuidados” e por aí vai. Os convidados todos ali no salão, em frente à tela, assistindo em tempo real a esse nascimento, com direito a um buffet, comes e bebes, festa e muita diversão. Lembro do quanto essa “excelente idéia” gerou comentários e discussões na época, muitas em torno disso que estou citando agora, essa idéia da espetacularização. A imagem que fica mais importante do que a experiência, a exposição máxima que deixa de escanteio toda a intimidade, toda uma possível necessidade de privacidade, o superficial tomando conta de um acontecimento em que o foco deveria ser naquilo que realmente importa.

Guardadas as devidas proporções – e as devidas diferenças, que são muitas – algo dessa mentalidade do espetáculo respinga também em muitos dos partos humanizados.

Criou-se uma moda, a partir do momento em que o parto normal, natural, humanizado começou a aparecer mais e mais nas discussões sobre parto e no desejo das mulheres em garantir um nascimento digno e respeitoso para seus filhos, de que esse tal parto humanizado deveria acontecer de um certo jeito. Em casa. Na água. Com o pai ali do lado, de mão dada, junto na piscina, enfim, participando ativamente. E com alguma espécie de registro visual da beleza da coisa toda. Fotos. Vídeos. Pronto. O pacote parto humanizado ideal passou a incluir a enfermeira obstétrica, a piscina inflável, a doula, a fotógrafa e o pai da criança como itens de igual importância e todos de extrema necessidade.

Penso que, num campo tão novo, tão cheio de dificuldades, em que conseguir um parto digno revelou-se um percurso do combatente para as poucas mulheres que toparam o desgaste de passar por vezes uma gravidez inteira brigando contra o mundo, era importante buscar modelos, pontos de apoio, possibilidades de compartilhar desejos, anseios, angústias, informações, alternativas. E que bom que isso aconteceu e que hoje em dia dispomos de mais e mais sites, grupos, fóruns, blogs, lugares, pessoas, referências e escritos sobre o tema. Temos essa demanda de pensar o nascimento de nossos filhos, de desejar algo diferente, de buscar uma possibilidade mais humana de viver uma gravidez e um parto. E temos a quem recorrer para isso. Cada vez mais. E cada vez de maneira mais formalizada. Isso é um feito!

Pode ser que, para muitas dessas pioneiras do nosso tempo, um dos modos justamente de partilha e de apoio às outras mulheres que desejariam também viver a experiência de um parto humanizado tenha sido essa espécie de statement que a imagem pode oferecer: além de contar os partos, por que não mostrá-los? Um parto normal tem muito mais o que mostrar do que uma cesariana. Um parto sem violência tem muita beleza a desvelar. Nessa nossa época em que imagens falam mais do que palavras, essas imagens dos partos circulando por aí, que poder elas teriam?

Um imenso poder. Um poder de convencimento, um poder de exemplo, um poder de inspiração. A imagem é poderosa, sabemos disso. Basta lembrar da recente imagem do menino sírio morto numa praia da Turquia e da comoção que isso causou no mundo inteiro, influenciando inclusive em uma série de movimentos populares por toda a Europa que pressionou por uma maior abertura na acolhida de refugiados em todo o continente para se dar conta que, sim, as imagens têm um imenso poder de persuasão. E que as mulheres gestantes, parturientes decidam usar disso para gritar para os quatro cantos do mundo que, sim, é possível parir e parir dignamente mesmo no Brasil dos dias de hoje, bem, isso é legítimo e louvável.

Minha questão não tem nada a ver com esse uso político da imagem e da imagem do parto humanizado. E não é uma crítica a quem faça ou tenha feito uso dessa estratégia. Meu incômodo é com a maneira como certas coisas, especialmente quando ligadas à imagem, se tornam rapidamente uma necessidade de mercado.

Me explico. Vendo essas imagens, muitas de nós, mulheres grávidas buscando um nascimento digno para nossos filhos e um atendimento cuidadoso da nossa própria experiência de gestantes e de parturientes, pudemos absorver, além da inspiração e da idéia de que é possível parir, uma espécie de receita de como isso deveria acontecer quando “acontece direito”.

Quando vemos as imagens dos partos naturais que desfilam em profusão pela net, podemos constatar que existem alguns recorrentes que praticamente criam uma receita: parto na água, marido ali do lado, toda equipe na borda da piscina observando a mulher, expressão de dor, expressão de êxtase, bebê peladinho no colo da mãe. E a pergunta que pode vir daí é: tem que ser assim?

Tenho visto muitas mulheres extremamente preocupadas com onde vão comprar a piscina para o nascimento. E onde vão colocá-la. Tenho visto muitas imagens muito parecidas, como se todos os partos humanizados fossem a mesma coisa. E tenho visto muitas imagens. Uma invasão de imagens que praticamente se torna uma injunção: “veja, é assim que se faz!” Será?

Talvez sejamos incapazes de viver sem uma imagem à qual nos agarrar e, na medida em que recusamos a imagem da mulher asséptica amarrada na maca da sala de cirurgia em muitos tons de azul enquanto seu filho é extraído dela e exibido alegremente para a galera do telão tenhamos que nos agarrar a uma alternativa. Uma imagem alternativa, que nos oriente em como as coisas devem ser. E isso tem uma tal pregnância que, rapidamente, a imagem se torna mais importante que o conteúdo e nos vemos de novo na cilada do espetáculo, daquilo que tem que ser mostrado, do superficial e acessório tomando o lugar do que deveria ser o foco. Vivemos na sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde tudo é rapidamente tragado pela lógica da exibição. Exibição que garante a perpetuação de um jogo de poder.

Quem ganha com essa história de substituir uma imagem por outra? Um modo de um parto acontecer por outro? Uma regra por outra?

Ainda que nós mulheres e nossos filhos possamos lucrar e muito com a garantia de escolher um parto normal humanizado, até que ponto isso mesmo que conquistamos não se vê ameaçado pelo estabelecimento de uma receita?

Michel Odent fala de maneira bastante crítica desse modus operandi que se instaurou como tendência no parto humanizado. Para ele, essas diretrizes de parto na água, marido presente, registro fotográfico e todos os afins que acompanham o pacote devem ser pensados com muito, muito cuidado. O fundamental, para que um parto seja humanizado e que tudo corra bem para a mãe e para o bebê é que eles possam viver isso do jeito que precisarem.

Isso quer dizer, basicamente, que ao longo de todo o processo de parto o que deveria prevalecer é aquela parte mais primitiva do cérebro da mulher que a faz parir. E parir bem. Eis o que deveria ser favorecido e respeitado. Que a mulher possa entrar nesse estado outro e ficar ali. Que ela seja ajudada a ficar nesse estado. Calor, silêncio, pouca luz. É o que basta. Tudo o mais é acessório. Pode servir ou pode apenas atrapalhar o processo. E não deveria ser posto como artigo de primeira necessidade.

Nesse estado outro, que nenhuma mulher conhece antes dele se instaurar, não dá para prever se ela vai querer entrar na piscina, se vai querer sair da piscina, se vai querer o marido perto, se vai querer ele longe, se vai fazer assim ou assado. Ninguém tem como saber e projetar tudo isso serve, no fim das contas, apenas como um modo de se apaziguar acreditando que existe algum controle e alguma previsibilidade desse momento que é, antes de tudo, um desconhecimento absoluto, um vácuo de imagens.

Por vezes, ouço ou leio histórias de partos que corriam muito bem, até que empacaram e se tornaram lentos, lentos, lentos. Alguma coisa ali naquele cenário dificultou à mulher poder entrar ou ficar nesse seu estado segundo. Pode ser algo do encontro dela com ela mesma, aquelas coisas subterrâneas que teimam em aparecer justamente nessa hora, nossas assombrações, nossos medos, nossos desafios que encaramos ou não junto com o ato de parir. Mas muitas vezes o que dificulta – e muito – são exatamente esses modos obrigatórios de fazer as coisas que ficam martelando ali no fundo da cabeça ou na boca das pessoas em volta, cobrando da mulher que ela siga um plano que ela mesma construiu, desejou e pôs em prática. Então ela sai do seu casulo para pensar que deveria entrar na banheira, afinal, compraram a bendita da banheira que custou uma fortuna. E é melhor não sair da banheira, porque o bebê vai nascer na água, não é mesmo? Mesmo que a água tenha ficado fria e que o frio faça os músculos contraírem e o parto ficar mais lento… E melhor ficar ali onde está a banheira, porque é mais fácil para fazer as fotos do que se ela seguir aquele seu impulso intenso de ir se esconder no banheiro, longe de toda aquela gente. E toda aquela gente ali, olhando, olhando, esperando… começa a dar uma sensação de pressa, de ter que fazer algo, de ter que ir bem. E o marido tem que ficar ali do lado, apoiando, segurando a mão, abraçando, dizendo palavras bonitas, mesmo que isso gere uma irritação… Pronto, eis aí a receita, o “jeito ideal” de fazer tomando o lugar daquilo que aquela mulher, naquele momento, realmente precisa. Eis aí o parto novamente parasitado por fórmulas, por obrigações, pela necessidade de reproduzir aquela imagem linda que vimos na internet.

Tem mulheres que dão à luz muito bem no banheiro, debaixo do chuveiro, de porta fechada sem deixar ninguém entrar. Tem mulheres que mandam o marido ir catar coquinho e preparar uma sopa ou o que quer que seja. Tem mulheres que dão à luz quando a doula e o obstetra estão dormindo no sofá da sala. Tem mulheres que dão à luz embaixo do chuveiro, dentro da banheira, em cima da cama, no tapete da sala… até mesmo dentro do carro. Tem mulheres que dão à luz no escuro, num calor de 40°C, debaixo das cobertas. Ninguém sabe como vai ser até a hora em que acontece. E o melhor que podemos fazer é garantir que cada uma dessas mulheres possa ter aquilo que precisa, do jeito que precisa, da maneira mais respeitosa, cuidadosa e amorosa possível.

Podemos, nós que acompanhamos essa mulher e esse bebê, garantir que não há modelo, que não há receita e que, sim, ela pode fazer confiança em que ela vai saber o que fazer e vai fazer o que precisam ela e seu filho.E que isso será a prioridade que todos em volta buscarão respeitar e acompanhar. Ok fazer um plano de parto, ok ter um plano se isso tranquiliza o seu coração e a sua cabeça. Mas o melhor que pode acontecer é a cabeça esquecer o plano na hora H e deixar o mais primitivo em si agir. Dá um medo de se pelar, mas quem disse que é o nosso raciocínio e o nosso entendimento das coisas que faz um parto acontecer?

Posto isso, tudo o mais é acessório. Ou inspiração tornando-se rapidamente mercadoria. E pressão. E opressão. O contrário do apoio e da libertação que todas nós buscamos.

Isso é, a meu ver, o que pode ser de melhor um parto humanizado. O respeito por esse desconhecimento, por esse vácuo de imagens, por esse silêncio, por essa intimidade em grau máximo. A foto? Para quê? Deixa a foto para a caixola da memória guardar e o peito abrigar ali onde é tão quentinho e tão bom.

Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.

Coisas curiosas e outras tantas incompreensíveis

Acho que um dos motivos que me fez querer ser psicóloga é que não entendo as pessoas. Não apenas não entendo a mim mesma, o que já seria motivo suficiente para uma grande perplexidade, mas não para querer ser psicóloga e sim para ir buscar análise. Não entendo os outros também, de maneira geral e quase irrestrita. Tudo bem que o outro é, por definição, opaco. Tendo em vista que nós só podemos olhar para os outros e para o mundo de nossa própria perspectiva, sempre teremos uma idéia muito parcial e tendenciosa do que seja estar na pele ou na vida de outro alguém. É por isso que existe a idéia e a experiência da empatia, que seria tentar se colocar no lugar do outro e olhar por sua perspectiva. Tentar. Tentar imaginar como o outro vive, como se sente e por que é como é. Difícil ter empatia, ainda mais em tempos tão áridos para as relações humanas. Por vezes não conseguimos nem ter empatia com os próprios filhos, que dirá com desconhecidos.

Daquilo que não entendo nas pessoas de maneira geral, uma das coisas que me deixa mais perplexa é essa característica de deixar nas mãos de um outro algo acerca da própria vida. Deixar que decidam, que digam, que saibam no seu lugar enquanto você não sabe nada, ignora, nem quer saber, se envolver, escolher ou decidir… eis um modo de ser que me deixa completamente estupefata. Quem em sã consciência pode preferir que outra pessoa decida no seu lugar sobre qualquer coisa? E quando essa coisa sobre a qual se decide tem imensa importância, então fico ainda mais perplexa.

Ok que alguém decida por você qual a cor do papel higiênico que terá no seu banheiro. Afinal, desde que nos tornamos adultos somos bombardeados com uma tal quantidade de escolhas a fazer que é sempre um alento não precisar pensar em tudo. Mas, e quando a decisão é algo um pouquinho mais importante do que isso, E quando é, por exemplo, algo que envolve sua vida e sua saúde? E quando envolve a vida e a saúde do seu filho?

Talvez nossa primeira tendência seria responder: ah, não! Claro que eu não deixaria alguém decidir no meu lugar sobre coisas tão fundamentais como a minha saúde ou a do meu filho. Eu quero o melhor para mim e para ele, quero o melhor para minha família e para aqueles que eu amo. Então, é claro, sou eu que vou escolher e vou escolher o melhor. E então, desse lugar de quem vai fazer uma escolha essa pessoa, muitas vezes, escolhe deixar sua saúde, sua vida e a do seu filho nas mãos de um outro. Entrega a si e aos seus a uma outra pessoa. Essa é a sua escolha. Essa é sua decisão. Aquilo que La Boétie chamou de servidão voluntária: eu, do alto da minha liberdade de escolha decido ser escravo do outro.

Não vou discutir aqui por que razões uma pessoa faz essa opção. Não vou discutir se é alienação, ignorância ou apenas a vontade de não ter que decidir sobre si para não ter nenhuma responsabilidade sobre o que acontecer depois. Não vou discutir sobre o conforto de ter sempre um outro a quem atribuir a culpa e nem sobre a falsa tranquilidade em poder dizer “não fui eu que fiz”. Muitos podem ser os motivos e todos eles podem ser compreensíveis e compreendidos. E que haja um motivo e que seja humano, isso não diminui minha perplexidade em nada. Será que a responsabilidade de falar em nome próprio é tão grande, tão pesada, tão oprimente que se largar na mão do outro parece uma melhor opção? Será que é tanta a angústia por essa impossibilidade de termos certeza absoluta sobre o que é a melhor escolha o que nos impede de decidirmos? Por medo do erro, de mudar de idéia, da culpa ou da impossibilidade de voltarmos atrás preferimos abdicar da decisão?

Vira e mexe leio alguns comentários que dizem: Deus decide, deixo nas mãos de Deus. Ou outros que dizem: o médico sabe, o médico decide. A mesma lógica de deixar para um outro uma decisão que seria de sua inteira responsabilidade. Sim, muita coisa nos escapa nessa vida e não conseguimos controlar quase nada, mas daí a colocar nas mãos de Deus uma decisão sobre sua vida e a do seu filho… como assim? E nas mãos dos médicos então? Então não é preciso fazer nada, informar-se sobre nada, tentar conseguir o melhor, lutar por algo que pareça humano porque Deus e seu emissário, o médico, cuidam de tudo?

Não, realmente não consigo entender.

Cagar regra ou tomar posição?

Uma das coisas que mais admiro nos franceses é a capacidade que eles têm de discordar. Foi na universidade que me dei conta disso pela primeira vez. Enquanto que, no Brasil, a grande maioria das discussões universitárias ou atividades afins se resume a uma conversinha estéril onde um elogia o outro, faz um comentário de trinta minutos para mostrar erudição e termina com uma pergunta retórica, aqui as pessoas não têm medo de discutir realmente o tema em torno do qual se agrupam. É até uma demonstração de respeito pelas idéias apresentadas, desde que você lhes dê algum valor, discuti-las e, se for o caso, discordar, argumentar, questionar. Os franceses adoram uma boa conversa e debater é com eles mesmos.

No Brasil, discordância é sinônimo de briga e já testemunhei nas mais diversas circunstâncias situações em que pessoas discordavam, ousavam dizer isso em voz alta e quem estava ao redor – e até mesmo as próprias pessoas – descreviam o acontecido como um conflito. Lembro de uma das melhores defesas de doutorado que assisti, em que um professor querido defendia sua tese e, na banca, ao menos três luminares da psicanálise debatiam com gosto suas idéias. Bem no estilo francês, coisa rara de se ver, muito longe do rapapé usual, chato e imbecilizante. Um colega que estava ao meu lado comentou, em certo momento: “mas eles estão brigando”. Respondi: “não, eles estão é se divertindo pra caramba”. E estavam. Debater idéias que julgamos serem boas dá um prazer imenso. Pensar é muito prazeroso e discutir pode ser extremamente divertido. E nada disso tem lugar na unanimidade forçada dessa nossa mentalidade cordial, em que nada é dito a não ser pelas costas.

Pois bem, essa associação entre discordância e rivalidade que eu presenciei na universidade milhares de vezes é apenas um reflexo, a meu ver, de algo que traduz bem o modo de ser usual da grande maioria de nós, brasileiros: frente à diferença, silenciamos, “deixamos quieto”. Ou, se dizemos algo, fazemos isso no nível da briga. Porque entendemos que o fato de alguém pensar diferente de nós é um ataque pessoal às nossas convicções, não uma diferença. E se o outro diz o que pensa e isso nos ataca, nossa resposta é atacarmos de volta.

A maior parte das discussões que vejo ou das quais participo nesse mundo maternália tem bem esse tom. Ou as pessoas se agrupam por seitas de iguais e cada um reforça o dito do outro com um elogio, um sorriso e mais do mesmo. Ou, pelo contrário, as pessoas de uma “seita” respondem a qualquer comentário publicado por algum diferente com um nível de violência e agressividade sem tamanho. O que foi escrito é tomado como um ataque pessoal e deve ser combatido à altura, a ponto de ser totalmente eliminado, para que a paz da igualdade volte a reinar. Assim como o silêncio.

Veja se não é estranho: uma pessoa lê um post, uma reportagem, uma publicação ou o que seja e entende que aquele sujeito – que ela nunca viu e que não a conhece – está criticando a ela, a seu modo de vida, às suas escolhas. Isso beira a prepotência, supor que uma pessoa escreva algo para te agredir, para te dizer que aquilo que você faz, o seu modo de criar seus filhos ou as suas escolhas em relação a isso são errados. Talvez não te ocorra pensar, especialmente porque nós temos muito pouca cultura e pouquíssimo hábito de debate, que a pessoa esteja apenas pensando, expondo uma idéia, qualquer que seja o valor e a relevância que ela tenha.

Então, quando mães defendem o parto normal, natural, humanizado, ou a amamentação, não estamos falando contra as mulheres que escolheram cesárea ou decidiram não amamentar os filhos. É como sempre digo: se você pensa a respeito de um assunto, se você se informa, se você tenta entender o que cada opção significa, se avalia os prós e contras e se decide por um certo caminho, parabéns. Assuma o que decidiu e vá ser feliz. Fique em paz. E tente considerar que ninguém está te condenando por suas decisões, ainda que existam pessoas nesse mundo que possam pensar que elas não são as melhores ou não são aquelas que essas pessoas fariam.

Ninguém é uma unanimidade. Nenhum modo de vida é “o certo”. O que podemos fazer de melhor é aprender a pensar, a questionar, a tentar entender o que significa aquilo que fazemos, o que decidimos, o que desejamos. Sondar o que está por trás do que acreditamos, do que defendemos, do que nos parece normal, ou melhor. E não ter medo de fazer essas perguntas. De ficar em dúvida. Nem de mudar de idéia. Essa é a posição de qualquer pensador, de todo cientista digno desse nome. E de qualquer pessoa que queira um pouco mais da vida do que passar por ela fazendo tudo no pilot automático, tomando o jeito como esse mundo é como uma obviedade, tendo certeza absoluta que tudo é do modo como pensa ser. De novo, muita prepotência acreditar que nós, em meio a tantos outros e no âmbito da imensidão que é esse mundo, esse universo e o tempo sejamos assim tão importantes para sabermos qual é a verdade. Mais realista ter um pouco de humildade, ser capaz de ouvir. E de debater.

Então, qual é a solução? Criar discursos neutros, que agradem a todos, bem leves, sem polêmica, para que ninguém se sinta atacado? É manter a nossa alma cordial reforçando o “deixa disso” e enchendo o mundo de idéias, textos e reflexões inócuas, irrelevantes e insossas? Isso equivale a dizer que sim, uma discordância é um ataque, uma diferença é uma ameaça e a melhor solução é chegarmos num pensamento único e nos pronunciarmos apenas dentro desse consenso. É dar razão para essa lógica de que debate é briga e que o pensamento é um ataque pessoal. Não conheço nada que tenha avançado num caldo da unanimidade, a não ser o fanatismo e a violência.

A solução é poder aguentar a discordância. E discutir quando achar que vale à pena. Lutar as boas batalhas. Sabendo que não é contigo ou comigo. É sobre algo que nos ultrapassa. Por isso, ao contrário do que fazemos tantas vezes quando queremos evitar conflitos, penso que o melhor seria assumir que eles existem e não vão desaparecer se formos gentis uns com os outros e falarmos apenas de assuntos superficiais. Melhor tomar posição e aprender a defendê-la. Mas o mais importante, ter em mente que, quando alguém publica algo em que defende uma posição, isso não é “cagar regra”, não é dizer como você deveria fazer, nem que aquilo que você faz é errado. Isso é, apenas, tomar uma posição. Baseada em muitas razões que talvez você desconheça mas que, possivelmente, existem. E precisamos de mais gente capaz de sair do discurso leve, elogioso e rapapé que tenta ficar “bonito na foto” com todo mundo. De mais gente capaz de dizer o que pensa e o porquê pensa assim. De mais gente que se dê ao trabalho de expor suas idéias. De mais discordâncias e mais consistência.

Não é contra você, mãe. É contra a lógica que governa muitas ações e escolhas nesse mundo da maternidade (talvez também as suas): a lógica da despossessão de si, da desvalorização da mulher, das potencialidades do seu corpo, do seu saber sobre si, sobre seu corpo, sobre seu bebê. É contra a medicalização daquilo que não é assunto médico, a não ser quando não ocorre como poderia: gravidez não é problema, nem doença, nem objeto da medicina. Isso é uma distorsão. Que aceitamos pacatamente, como se o médico pudesse mesmo saber mais do que nós mesmas sobre isso.

Assim como o parto, que também não é um assunto médico, a não ser quando há um problema. E os problemas são menores e em menor número do que dizem. Tudo isso virou assunto da medicina, por uma série de circunstâncias, mas não são assim em sua essência. Podem ser outra coisa, podem ser um espaço e uma experiência da mulher e do seu filho. Em que ambos sejam os principais agentes, os sujeitos da coisa toda.

Não é contra você, é contra a medicalização da gravidez, do parto, da maternidade, dos cuidados com o bebê, da infância. É contra mães e bebês tornados objetos de um saber que os exclui e os despreza. É contra não poder decidir e não poder saber de si.

Não é contra você, é contra a transformação da gravidez, do parto, da amamentação e da infância em uma indústria, em que o objetivo principal é gerar consumo, gastos, despesas. Em que o principal é consumir intervenções médicas, de preferência as mais caras e que pagam melhor. E leitos de hospitais. E mil e uma coisas que dizem que você precisa e que fazem melhor que você aquilo que dizem que você não tem competência para fazer. É consumir mamadeira, leite em pó, chupeta, brinquedos que deixem o bebê quietinho. É fazer a máquina rodar e mantê-la funcionando. A última prioridade é o seu bem estar. Ou o do seu filho. É contra essa inversão das prioridades.

Não há como ser cordial e defender uma posição. Defender uma posição é apresentar idéias, reflexões, informações, dados, argumentos. É assumir o risco de dizer que uma coisa é melhor que a outra. Ou que o que está por detrás de uma coisa é diferente do que parece e a torna suspeita e eticamente questionável. É correr esse risco. Não é um ataque. Não é cagar regra e tentar te dizer o que você deve fazer. Não é um julgamento da sua pessoa. É mais importante do que isso, do que eu e você. E vamos ter que lidar com essa nossa insignificância. Talvez discutindo?

Bibliografia básica para parto humanizado

Hehehehehe, quem tem vício de trabalho acadêmico adora uma bibliografia no final, né? Mas, sem querer intelectualizar demais a coisa, aqui vão algumas leituras que descobri ao longo desse tempo e que me ajudaram muito na época da gravidez ou até mesmo depois, para entender melhor o que havia vivido. Depois dos textos sobre parto de anteontem e ontem, é o último da série. Por enquanto.

Tem uma enfermeira obstétrica americana, chamada Ina May Gaskin, que foi minha primeira grande descoberta nesse mundo do parto humanizado. Ela é incrível, muito sábia e experiente e fala muito bem sobre o parto, o medo no parto, as dores, o que atrapalha, o que ajuda. Acho que foi quem mais me esclareceu sobre o quanto o medo é importante para delimitar o que você vai viver na experiência de parto. Então, se você entende bem inglês, eu assisti uma série de palestras dela via internet que adorei. Aqui, alguns dos episódios: sobre a ocitocinasobre o medo no partosobre a dor no parto. Você pode ver toda a série de videos pelo youtube, eu recomendo.

Outra “leitura” obrigatória é o documentário O renascimento do parto. Desse eu participei do crowdfunding, mas só fui ver o filme mesmo depois que a pequena tinha nascido. É muito esclarecedor e ajuda a pensar na importância para nossos filhos e para o mundo de cuidarmos da forma como eles vêm ao mundo. Tem até uma palhinha no youtube. Ou você pode comprar o DVD. Funciona como um livro de cabeceira e é um dos meus melhores argumentos para gente que defende a cesárea porque “se as famosas fazem, a gente quer também” (juro, já ouvi isso). Esse filme, a Gisele Bündchen e a Kate Middleton, claro.

Outra autora de quem gosto muito, para pensar a maternidade e o parto, é a Laura Gutman. Pena que só fui ler há uns dois meses, mas ela traduz maravilhosamente muitas das nossas vivências durante a gestação, o parto e o puerpério. Vários lugares na net publicam trechos dos livros dela, eis aqui alguns que têm mais a ver com a questão do parto e que acho que podem ajudar a pensar: no site Mamatraca e no livro dela “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, em que o capitulo 2 é sobre o parto. E caso se interesse por essa abordagem mais psicanalítica da maternidade, recomendo vivamente a leitura da obra de Françoise Dolto, com quem a Gutman se formou e do bom e velho D.W.Winnicott, minha referência de coração e mente para pensar a maternagem.

Esse site é muito bom em informações também. Tem ótimas informações sobre parto no Brasil, além de sobre trabalho de parto, parto humanizado, o papel do pai…

Um texto bem interessante sobre a dor do parto.

Esse texto aqui, da Melania Amorim, virou rapidamente minha referência para as justificativas fajutas para uma cesariana. Não que isso ocorra tanto aqui na França, mas acho importante saber. Porque ela nos ajuda a perceber que a maior parte dos motivos dados para cesariana são falsos e, com isso, nos ajuda a perceber que são poucos os verdadeiros motivos para algo dar errado e um médico ter que intervir no parto. Isso traz mais segurança sobre o quanto somos capazes de parir, o quanto os riscos, perigos e problemas são a exceção e não a regra e o quanto são imensas as chances de que tudo simplesmente corra bem.

No âmbito dos relatos de parto – que eu adorava ler enquanto estava grávida, porque me enchiam de coragem e continuo gostande de ler hoje porque me emocionam, invariavelmente – o pessoal do GAMA, um grupo de São Paulo que apoia o parto humanizado, tem vários relatos de parto bem interessantes. Outros relatos de parto aqui, no Vila Mamífera. Tem o meu próprio relato, claro. Noutro dia li esse relato lindo, também, que fala de um parto rápido, consciente e apropriado… E esse outro bastante sensível, falando das coisas que não sabemos e deveríamos, para sermos mais senhoras de nossas escolhas. Enfim, tem para todos os gostos, é muita inspiração na web.

Outra referência quando o assunto é parto, o Michel Odent, que coloca as coisas em termos bem simples e claros. Além dos livros dele, há várias entrevistas e pequenos textos espalhados pela web, vale a busca.

Por fim, tem a bela iniciativa do Projeto Clarear, da Ceila Santos do Desabafo de Mãe, que lançou uma “campanha” no portal Mamatraca perguntando o que as grávidas querem saber agora. Uma porta aberta para a troca de informações que sejam coerentes com aquilo que realmente pensamos, sentimos e nos perguntamos durante a gravidez, bem distante da maioria dos pitacos inoportunos que ouvimos ao longo de todo o período. Visite o portal e dê sua contribuição!

Quem tiver mais dicas de leituras, vídeos, sites e afins, coloca nos comentários, por favor.

*****

Em tempo: a Gabi Ramalho lembrou, nos comentários, dos grupos no Facebook, verdadeiras redes de informação e solidariedade para grávidas, parturientes, mães e afins. Indicou o Cesárea? Não, obrigada! que eu coloco em link aqui, para quem se interessar. Valeu, Gabi!

 

Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

Desmitificando…

… alguns mitos sobre gravidez, parto e maternidade. Porque as pessoas têm algumas crenças bem estranhas, que tomam como verdades, sem nem ao menos se dar ao trabalho de colocar certezas em questão.

Por exemplo, o mito de que o corpo fica deformado, despencado, feio depois de gravidez, parto e amamentação. Que é largamente reforçado pela mídia caça-celebridades que sempre estampa em suas manchetes mulheres que acabam de parir já com barriga tanquinho, peso de antes da gravidez, tintura do cabelo feita, unhas impecáveis e por aí vai. Tivemos recentemente um novo capítulo dessa discussão quando a princesa Kate Middleton decidiu sair da maternidade um dia após dar à luz de vestido azul e barriguinha pós-parto à mostra, o que muita gente achou criticável. Ainda bem que muitas outras acharam lindo, uma bela homenagem ao parto e à mulher “normal”. Me incluo entre essas.

Mas, será assim mesmo tão deteriorante para o corpo a experiência da gravidez e da maternidade a ponto de justificar que mulheres optem por uma cesariana para não tê-lo “danificado”?

A meu ver, isso se discute. E muito. Minha hipótese, baseada apenas na minha experiência e no que ouvi como relato de algumas outras mães, é que parir de um parto respeitoso e humanizado te devolve a seu corpo e te ajuda a fazer as pazes com ele, escapando dessa ditadura das aparências, das formas, das gorduras. Ou seja, eis mais uma vantagem do parto humanizado que periga desgostar o mercado que lucra em cima de nossa insegurança e de nosso desconforto em nossa própria pele: para que cirurgias estéticas, dietas absurdas, ditadura da magreza, obsessão com a boa forma se, através de uma experiência como parir você se der conta que tem um corpo – e não um vazio desagradável que tem que preencher e controlar – e que esse corpo é bom, bonito, potente e cheio de saúde? Putz! Guarda esse segredo aí, minha gente.

Eu fiz ballett clássico por toda a minha infância e adolescência e, em seguida, vários tipos de dança até a época em que comecei a trabalhar. Sempre fiz o estilo “tábua” antes de ser fashion. E nunca fui alta o bastante para ser modelo. E isso me incomodava sobremaneira, essa ausência de curvas. Porque, ao menos no Brasil e naquela época, desejável era ser mulher violão, né? Naquela época não, até hoje. Podemos pensar que eu destoava mas, na verdade, não fossem as curvas, seria outra coisa, os cabelos castanhos, ondulados, os olhos castanhos… vai saber. O que sei é que sempre haveria algo porque não existe uma mulher nesse mundo de hoje a quem não seja atribuído um defeito em relação à sua aparência. Ou seja, nenhuma mulher escapa de ter alguma de suas características que a tornam singular e contribuem para que ela seja quem é tachada de “defeito”, de feiúra, de inadequação a um dito padrão de beleza e desejabilidade. Padrão esse que nunca é posto em questão, como se fosse natural, evidente, obrigatório e estivesse estado aí desde a aurora dos tempos. Mas é gosto. E gosto se discute. Ou, ao menos deveria-se discutir porque, aqui em nosso mundo e em nosso tempo, ao invés de problematizar essas verdades do que se diz ser a beleza, joga-se o peso delas sobre cada indivíduo que, obviamente, não tem como fazer frente a um ideal. Já dizia o bom e velho Freud: o ideal é algo inalcançável que criamos apenas para nos atormentarmos eternamente em relação a ele.

Toda essa insanidade que recai sobre cada um e faz sofrer a todos só faz a alegria do mercado: em cima desse vazio criado pelo abismo entre seu ideal e você muita gente lucra, criando a ilusão de que um produto qualquer vai te ajudar a chegar lá onde você falhou. Dietas, cirurgias plásticas que deixam todo mundo com a mesma cara, produtos de beleza, roupas, sapatos, ginástica… uma corrida contra o tempo, as marcas da vida, o envelhecimento, as formas únicas de cada um. Como se ficar com a cara do Coringa (sim, aquele, o arqui-inimigo do Batman) e o corpo de uma anoréxica fosse te apaziguar das tuas aflições em não ser aquele ideal, aquele padrão, aquilo que não existe.

Pois é… o que tem o parto, a amamentação e afins a ver com essa história?

Gravidez, parto, amamentação incidem diretamente sobre o corpo. Eles acontecem no corpo e, me parece, quando não se passam de forma violenta, têm o poder de te devolver a quem você é. Na mesma medida em que escuto relato de cesarianas e partos normais repletos de violência, que alienam mais as mulheres de seus corpos, trazendo dor, sofrimento e trauma, tenho escutado também muitas histórias de partos em que as mulheres saem transformadas. Foi o que aconteceu comigo.

Engravidar, parir e amamentar trouxeram para mim – que sempre fui tão atenta ao corpo, meu e dos outros – uma percepção totalmente nova. No dia seguinte ao parto, me olhando no espelho, descobri um corpo do qual eu gostava. E muito. Um corpo que me deu orgulho, em que cada marca, curva, gordurinha ou o que seja contavam e contam a história dessa experiência tão importante. Um corpo que, pela primeira vez, não foi um corpo insuficiente e em dívida constante com esse fantasma do “deveria ser”. Um corpo bem legal. Um corpo capaz, potente o bastante para abrigar uma vida, para dar à luz, para alimentar um bebê. Fala sério, isso não deveria ser incluído naquelas listas que fazem sobre as vantagens de um parto normal humanizado? Algo do tipo: isso muda a percepção, a experiência e a imagem que você tem do seu corpo.

Então, não é certo que quem engravida, dá à luz e amamenta fica com um corpo pior do que era antes. Fica melhor. E penso que não sou a única a sentir-me assim. Sou?

O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (partes 1 e 2)

Obrigada à Clarissa do blog:  A mãe que quero ser pela tradução do excelente texto de Alice Dreger mostrando que o parto mais científico e seguro é o menos tecnológico. Vale a leitura.

O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (parte 1).

O parto mais científico costuma ser o menos tecnológico (parte 2).

via A mãe que quero ser.