Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984
George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães
D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

Todos os tempos da gravidez…

Sempre achei que o tempo não passa de forma linear, mas em blocos. Você passa boa parte da sua vida se percebendo com uma certa idade e, de quando em quando, toma um choque frente ao espelho, ou quando alguém te chama de senhora pela primeira vez, ou quando não faz idéia de quem seja Justin Bieber, ou em qualquer situação em que seu corpo ou sua cabeça dão mostras de que não acompanham mais tão agilmente o ritmo frenético dos acontecimentos de cada dia… Enfim, algo acontece e todo o peso dos anos passados desapercebidos cai sobre suas costas de uma vez só: tudo mudou, você é quem não tinha visto.

A persistência da memória - Salvador Dali - 1931
A persistência da memória – Salvador Dali – 1931

Na gravidez o tempo parece que passa também dessa forma engraçada, aos trancos e barrancos, seguindo ritmos de luas, de semanas, de sonos e sonhos… O corpo revoluciona e convulsiona e trabalha sem parar para se adaptar à todas as mudanças e isso dá um cansaço danado que faz com que tudo ande beeeem mais devagar. O corpo corre, o corpo pára. E a cabeça faz o mesmo, borbulha todos os pensamentos os melhores e os piores e cozinha tudo ali, o tempo todo, um caldo de idéias e sensações que fica de ruído de fundo para todos os pensamentos que têm que ser pensados, todos as ações que devem ser feitas, todo o cotidiano que deve ser cuidado e que não entra em modo “pause” somente porque você está grávida e precisa de tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo… Como ganhar tempo quando se tem prazo? Porque nem o bebê vai poder esperar você arrumar a sua vida, a sua cabeça, a sua casa, a sua relação… até porque sabemos bem que se o bebê e a vida fossem esperar o nosso momento ótimo, putz, coitados, né? O bebê completaria cem anos ali na barriga e a vida teria parado no homem de Neandertal, que estaria até agora pensando se estaria pronto ou não para se misturar com o homo sapiens…

 

Bom, se o tempo urge, também é reconfortante saber que temos ainda algum um tempo. Em poucos meses as coisas vão mudar ainda mais e o bebê vai precisar de muito mais do que aquilo que dá para garantir ali no quentinho da barriga sem precisar pensar muito porque o seu corpo sabe bem o que fazer. Ufa. Mas quando o pequeno estiver ali fora, no mundo, vai precisar de um pouco mais do que necessita hoje. Ou melhor, possivelmente vai precisar das mesmas coisas, mas de um outro jeito, no qual precisará um pouco mais de você. Deve ser quando o peso todo do mundo e da vida tomba novamente sobre as suas costas e você vira mãe. Vi isso acontecer uma vez, uma cena linda e tocante, quando meu sobrinho chorou no quarto da maternidade e apenas minha irmã e eu estávamos presentes. Nos entreolhamos, como quem se pergunta: cadê a mãe desse pequeno para nos acudir? E, em menos de um segundo, minha irmã passou da dúvida ao susto e desse à constatação de que a mãe era ela, de que não havia nenhuma outra, apenas ela para ser mãe daquele bebê ali, naquele instante. E acudir. Acho que ela envelheceu uns 10 anos em poucos segundos. E virou mãe também.

 

Atlas.
Atlas.