Existem homens que simplesmente não entendem.

Noutro dia, uma conversa acalorada com um amigo, pai de um adolescente, em que ele contava como, logo após o nascimento do filho, seu casamento passou por uma crise. Nas palavras dele, perdeu a esposa e não podia “ter o filho”, pois ela seria muito colada ao pequeno. Emendava a isso suas queixas sobre a falta de relação sexual nessa época e, ainda, todo um discurso sobre como o filho também era “dele”. Ou seja, reclamava do distanciamento da mulher, de não ser mais o centro das suas atenções e de nem ao menos ter o filho como uma espécie de consolo para tamanha frustração. Bom, por onde começar?

Talvez o que me pareça o mais chocante e triste dessa conversa seja a falta de empatia. Uma mulher tem um filho. Sua mulher tem o filho de vocês. E seu sentimento principal é o de passar a segundo plano. Nenhuma compreensão sobre a amplitude desse acontecimento, sobre o tumulto de mudanças que acaba da ocorrer para todos. Nenhuma consideração aos cuidados que essa mulher se dispõe a prestar a essa criança. Apenas a sensação chorosa de: “perdi alguma coisa, perdi meu lugar, perdi meu reinado”. E o ressentimento que segue.

Acho curioso como alguns homens vêem a dedicação de suas mulheres a seus filhos como algo problemático. Ao invés de orgulho e de admiração por alguém que trata daquele que também é sua cria com tanto amor e cuidado, apenas uma repulsa pela situação de dependência que isso cria. Dependência necessária e saudável nesse começo de vida. Mas que o sujeito vê como um obstáculo: a ligação intensa entre mãe e filho parece a esse pai como algo que o exclui. E que o faz perder a “posse” do corpo dessa mulher que nem ao menos transa mais com ele assim como a “posse” do corpo desse filho, para quem ele é menos importante.

Sua mulher não é sua “coisa”. Que ela não queira transar contigo depois de parir é dos acontecimentos mais corriqueiros. Pode ter razões hormonais, psicológicas e muitas outras. Talvez se você fosse capaz de se colocar no seu lugar, se batendo com cuidar do bebê, amamentar, não dormir e tudo o mais que a maternidade lhe trouxe, quem sabe se daria conta de que não sobra muita disponibilidade para o sexo. E que isso é temporário.

Seu filho também não é sua “coisa”. Ele é uma pessoa, com suas necessidades e seus sentimentos. Sua fragilidade é tão grande quanto menor ele seja e, se ele solicita intensamente, é porque sua vida depende de todos esses cuidados. Vocês não estão em condições de igualdade frente à vida e nem frente à sua mulher, a mãe dele. Você é um adulto que deveria ao menos ser capaz de dar conta de coisas que ele nem ao menos sonha que existem. Por que diabos o nascimento de um bebê se torna uma competição entre o pai e o filho por um lugar que nem ao menos é o mesmo?

Alguns homens vêem a dependência entre a mãe e seu filho como algo nocivo que deveria ser erradicado. Esse meu amigo conta como o grande feito da experiência dele de pai o dia em que tirou uma semana de férias, antes mesmo do seu filho ter um ano, e foi viajar sozinho com ele para algum lugar. Sim, no começo o menino estranhou. Sim, no começo ele chorou e foi difícil. Mas depois ficou ótimo, sorridente e feliz. Não dúvido. A capacidade de resiliência de uma criança, especialmente de um bebê pequeno, é enorme. Mas não entendo como é que um pai pensa que precisa reivindicar dessa maneira sua condição de pai.

Vejo frequentemente situações em que os pais acabam atravessando. Nessa busca por serem importantes, alguns entram em competição com suas esposas pelos cuidados com o bebê. A criança já está quase dormindo no colo da mãe e o pai vem e a pega. Ela chora copiosamente por muito tempo. O que importa para esse homem não é que sua filha durma. É que seja ele que a faça dormir. Sem prestar alguma atenção ao que está acontecendo, aos sinais, ao bebê que está ali ele simplesmente chega e interrompe algo. Não por ela. Não por sua mulher. Mas por ele. Porque ele precisa.

Esse amigo passou um bom tempo da discussão argumentando que tanto homens quanto mulheres podem se ocupar de um bebê muito bem. E que o amor é igual. E que os direitos são os mesmos. Não sem acrescentar muitas histórias sobre todas as vezes em que ele foi se ocupar de outra coisa enquanto sua mulher cuidava do filho deles. Acusando-a de se dedicar demais a esse filho. De sufocá-lo de tanta dedicação. E dela ser a única responsável por todos os graves problemas que o garoto teve ao longo da vida.

O que esse amigo parece não entender é que essa reivindicação ressentida de igualdade cai por terra no momento exato em que, na prática, as atitudes não são iguais. O amor é o mesmo, a capacidade é a mesma, os direitos são os mesmos. Mas existe alguém que está ali o dia inteiro, o tempo todo, fazendo o miúdo, o cuidado cotidiano. Existe alguém que prepara todo o terreno. E alguém que se gaba de uma semana de férias juntos. Mas que, no primeiro choro, na primeira dificuldade em colocar para dormir, na primeira virose sabe que pode passar o “abacaxi” para alguém. Que tem outro – ou melhor, uma outra – que vai fazer.

Essa é a diferença entre um pai e uma mãe. Ou entre as mentalidades do que se pensa que seja um pai e do que seja uma mãe. A mãe é aquela que é a última da linha de frente. Se “der merda”, ela não tem um outro a quem recorrer. Ela simplesmente tem que ficar ali e resolver. A mãe – quem quer que seja que esteja ali nessa função – é aquela que encarna a responsabilidade do cuidado, o que quer que isso implique. O pai é aquele que pode se dar ao luxo de estar disponível. Ou não. Assim, fica fácil reclamar do “excesso” de dedicação das mulheres, né?

Sei que existem homens que são os últimos da linha de frente. Sei que existem avós que exercem essa função. Mas na grande maioria das vezes, somos nós, mulheres e mães, que seguramos o rojão, por escolha, vontade, desejo, obrigação ou o que for. E ainda temos que ouvir que a relação de proximidade que estabelecemos com nossos filhos pequenos é que é um problema. Como se o problema não fosse muito maior para os bebês que – em nome de uma pretensa independência a ser conquistada desde sempre – acabam largados no mais total abandono. Gente rejeitada, abandonada e desamparada que, depois de adultos, se tornam paradoxalmente os maiores defensores de uma distância grande entre uma mãe e seu filho.

Existem uma pressa perversa nessa busca de uma separação precoce entre uma mãe e seu bebê. Pressa por vezes egoísta, em que muitos homens não admitem sair do centro nem em prol das próprias crias. Pressa que cria um discurso demonizador da relação que uma mãe estabelece com um filho. Pressa que solicita sem parar essa mulher para si, essa criança para si, qual um Cronos mitológico cuja preocupação é apenas a de devorar os próprios filhos para não arriscar seu reinado. E que se dispõe sempre a acusar e a culpabilizar essa mulher, dizendo que seu “excesso de zelo” ocorre por dificuldades dela, necessidades dela, impossibilidades dela. Sim, tudo isso comparece. Nunca estamos em nenhuma relação sem que algo ali reverta em nosso próprio benefício. Mas talvez aquilo que alguns desses homens acusem como excesso seja, tão somente, o que é necessário no início de uma vida. E eles não se dão conta porque, simplesmente, não conseguem olhar para além do próprio umbigo.

Texto interessante sobre a importância do pai na vida dos filhos: aqui.

Alguns pais que conseguem se colocar em um lugar diferente, sem menosprezar suas mulheres e seus filhos para tanto: aqui, aqui e aqui.

Os pais

Verdade seja dita, a imensa maioria da blogosfera materna é, como o nome mesmo diz, feminina. Assim como a imensa maioria das pessoas que encontro no parquinho, na praia, na praça cuidando dos filhos em um dia qualquer. Vemos menos pais por aqui nas consultas médicas ou na saída dos filhos da escola. Estranho arranjo que perdura e insiste em parecer normal.

Eles são mais comuns nas situações de lazer, nos finais de semana, junto com as mães ou, cada vez mais, sozinhos. Pais divorciados talvez, que encaram a tarefa de se ocupar dos pequenos por um período de tempo por conta própria e risco. Já vi pais trocando fraldas de forma estranha e desajeitada, já os vi brincando com os filhos enquanto falam no celular e toda sorte de esquisitice de um olhar desacostumado. E de pais também desacostumados de terem que se haver com as crias. Mas também já vi cenas bonitas de brincadeiras, de risos, de carinho e de proteção.

Hoje em dia exigimos um pai novo, um homem que participe ativamente da criação dos filhos desde o início, que troque fraldas, dê banho, alimente, entretenha, faça dormir, cuide, se ocupe, se preocupe… E que faça tudo isso como quem não faz mais do que a obrigação, como nós mães fazemos, sem esperar uma medalha no fim do dia ou um destaque na capa do jornal. Pai participativo é notícia, mãe que cuida dos filhos é lugar comum. Estranha divisão de tarefas.

Verdade seja dita, hoje em dia temos cada vez menos pessoas em torno de cada criança que nasce. E todas as exigência recaem sobre uma família cada vez menos e mais pressionada: uma mulher que se dedique, um homem que se envolva. O pai vira o único depositário de todas as exigências de ajuda da mãe que, por sua vez, fica totalmente isolada nos cuidados com seu bebê. A ela se demanda muita coisa, e ela despenca uma parte sobre esse homem. Pouca gente em volta, poucas redes de solidariedade, apenas duas pessoas para lidar com a chegada de um bebê e tudo de revolução que isso provoca. Não é justo para ninguém. E tem muito homem que enlouquece nesse ponto e cai fora, literalmente ou de maneiras mais subterrâneas e perversas, se enfiando no trabalho, se enchendo de compromissos e de indisponibilidade.

Ajudar já não é mais benvindo, é apenas obrigação. E o que bomba na blogosfera são aqueles pais inéditos, super engajados, por vezes tão participativos que chegam ao cúmulo de tirarem foto de gestante no lugar da mulher, tornando-se caricatura. Ou então aqueles pais tão incapazes que não sabem que ações geram consequências e que deixam o filho enfiar o braço na jaula de um tigre, sem considerar que isso pode causar um dano real. Vivemos em uma época em que muitas pessoas perderam a noção do peso de suas ações e de suas escolhas. E as crianças pagam no corpo esse desconhecimento perverso. Enquanto uns se divertem com filhos brincando com animais selvagens, outros brincam de serem pais magníficos na blogosfera, não pelo real e profundo questionamento do seu lugar e função mas pela mímica infantil daquilo que pensam que as mulheres querem, almejando o lugar de queridinhos da classe. Pouca gente com coragem e empenho para atuar fora do mundo da imagem, onde tudo marca e têm consequências. Triste.

Tenho gostado mais desses pais mais ou menos, esses cotidianos, que se surpreendem sendo pais e se descobrem amando seus filhos. Esses pais que se emocionam com os feitos do rebento e que não sabem o que fazer quando choram, que perdem noites de sono pensando em como educar as crianças e em como lhes garantir alguma proteção que os poupe do sofrimento e da precariedade no futuro.

Hoje é dia dos pais no Brasil, essa data tão besta quanto o dia das mães e que a gente insiste em lembrar. Uma data vazia de sentido em uma época em que os pais são tão diversos que talvez nem pudessem ser agrupados sob a mesma categoria. Data tola de celebração em um mundo em que o que se faz necessário é ainda demarcar o lugar das mulheres. E onde esse lugar muitas vezes é de oposição e de inimizade aos homens, pois parece não poder ser diferente. Um mundo em que os homens, quando não são omissos ou caricatos, se revelam machistas, violentos, desumanos. Um mundo em que homens matam mulheres e crianças. Ainda. Como se fosse possível.

Não há nada para ser comemorado na generalidade dessa categoria dos pais a não ser algo tão pequeno e singular quanto alguns poucos homens específicos, gente de carne osso, que são pais de carne e osso, de crianças de carne e osso. E que fazem no pequeno, no dia-a-dia, gesto contínuos e cotidianos de cuidado, de respeito e de amor.

 

Todo mundo tem um pai…

 

… do mesmo jeito que tem uma mãe. Pai herói, pai presente, pai ausente, pai desconhecido, pai monstro, pai falecido, pai doador, dois pais, pai solteiro, pai tirano, pai avô… O pai, essa figura fundamental para que exista um filho, qualquer que seja a maneira como ele se encarne na experiência de cada um. Ele existe. E, a meu ver, não deveríamos ter tanta pressa assim em julgá-lo inepto e em destituí-lo de seu lugar.

Noutro dia li um belo texto da Dani Brito do Balzaca Materna a respeito da paternidade e do quanto, ainda hoje em dia, no Brasil, e no que diz respeito à grande maioria, essa função, quando bem exercida, parece algo extraordinário. Quase um milagre que hajam pais que sejam bons pais, tanto que vira até capa de revista. Machismo nosso de cada dia? Naturalização da mãe como sendo aquela que tem que dar conta de tudo no cuidado e na educação dos filhos, deixando ao pai um lugar de exceção? Pode ser. Pode ser que ainda estejamos marcados, em nossas mentalidades e em nossos imaginários, por aquela figura de pai provedor, que garante o sustento da casa e da família. E aí se finda sua contribuição. Criamos meninas para brincar de casinha e meninos que não podem nem lavar uma louça. Meninas precocemente hiper sexualizadas e meninos que entendem que meninas sexualizadas não merecem respeito. Sim, há algo bastante deturpado aí e a responsabilidade é nossa mesma. Ao criar crianças já tão enfiadas em certos padrões e clichês sociais altamente preconceituosos e fragmentários, estamos produzindo adultos plenos de preconceitos que ocuparão, por sua vez, posições bem estereotipadas em suas vidas e agirão segundo valores pré-concebidos e pobres de diversidade, inclusive ao se tornarem pais e mães.

Mas é só isso?

Penso que não e vou aproveitar do malfadado comércio chamado Dia dos Pais para compartilhar algumas reflexões. Vejamos.

Se deixarmos de lado, por um momento, essa massa de, digamos, “pais clichê” – se é que ela ainda existe de forma tão maciça assim – o que me parece é que tem muito homem bem perdido por aí. Os homens se confrontam com as novas exigências de seu papel de pai – que podem ser resumidas no bordão: “ser pai é participar” – e se mostram bem atrapalhados e sofridos. Vou direto ao ponto: reivindicamos pais presentes, ativos, participantes, afetivos, próximos, compartilhadores para nossos filhos. Mas será que deixamos realmente um espaço para que isso aconteça? Será que nós, mulheres, não mantemos também uma posição bastante ambígua de querer esses homens mais humanos e presentes ao nosso lado sem facilitar em nada para que isso aconteça?

Acredito que muitas de nós crescemos totalmente paramentadas de super heroínas e isso atinge seu clímax no momento da maternidade. Ser mãe é padecer no paraíso significando que ser mãe é se sacrificar, dar tudo, fazer tudo, ser tudo para um filho. Doação absoluta onde não cabe mais ninguém que queira ou possa doar-se também. Sim, somos nós que carregamos o bebê na barriga. Sim, somos nós que parimos. Sim, somos nós que amamentamos. E tudo isso é uma dádiva. Mas tudo isso também é poder. Talvez o único poder deixado às mulheres ao longo de tantos séculos de dominação masculina. E, mesmo assim, não foi fácil guardar esse para a gente, que vive tendo quem queira tirá-lo, sob pretextos médicos, comerciais ou de tantas outras fontes. Então, como é que a gente vai abrir mão disso, né? Dessa única função em que somos reconhecidas em um lugar valorizante para compartilhar algo desse valor com o “inimigo”?

Vejo muitas situações em que o pai é realmente o inimigo, declarado ou não. O “traste”, aquele que não serve para nada. E como isso se acentua até a crueldade nas situações em que os pais se divorciam. Todo o ódio de que uma mulher é capaz, toda a sede de vingança por responsabilidades que ela não quer assumir sobre as escolhas que fez na sua vida e que despeja nesse outro, confortavelmente banido da esfera familiar, como se apagar um pai resolvesse os problemas de uma mulher. Ou de seus filhos. Ou garantisse o ser feliz. Ou evitasse de envelhecer. Não estou dizendo que todas as separações partem ou desembocam nisso, mas muitas sim. Tão clichê como o lugar do pai é esse pai “inimigo” no momento em que o casal se separa. Uma pequena vingança, um acerto de contas jogado nas costas dos filhos que viram joguete nas mãos dos adultos, cada um mais preocupado em destruir a imagem do outro do que em se dar conta que, para os filhos, sempre haverão aquele pai e aquela mãe. E que quanto mais se destrói um ou outro, mais se destrói algo nos próprios filhos que estão ali. Mães podem ser muito cruéis às vezes, de uma crueldade destruidora.

Pais também podem ser cruéis. Pais que se ajustam à perfeição nesse lugar de tirano provedor e maltratam seus filhos desde sempre, agindo com violência ou com negligência extremas, apenas “porque podem”. Como se filho fosse direito adquirido e tivessem uso fruto daquele outro ser, podendo dispor de seus corpos, de suas mentes, de seus serviços. Filhos a serviço dos pais e da crueldade dos pais. Pais que quebram seus filhos de muitas maneiras que não apenas por meio da violência física. Por vezes, há uma mãe que defende. Noutras, bem piores, há uma mãe que goza da situação e que se sente também no direito de dispor desses filhos como se fossem objetos. De seus desejos, de seus caprichos, de sua violência. Pais e mães podem ser muito cruéis. Entre si e com os seus filhos.

Estou mencionando esses exemplos tão extremos para dizer que, a meu ver, é tão difícil ser pai quanto ser mãe e não há nada de natural tanto em um quanto em outro. Deixados à própria sorte e aos clichês que atravessam o ser pai e o ser mãe hoje em dia, acabam mais propensos às radicalidades da ausência, da negligência ou da violência tanto quanto as mães, se deixadas a si mesmas, acabam muitas vezes tomadas pela onipotência, pela violência e pela arbitrariedade. Para a psicanálise, a natureza (e o natural, se é que isso existe) é a violência. E tudo o que se faz para minimizá-la é fruto de um esforço de civilização. O contrário da idéia de que o homem é bom e a sociedade o corrompe. Se quisermos mais do que o clichê instituído, é preciso trabalhar bastante. Pessoal e socialmente.

Então, há homens que são tocados por essas questões e por essas demandas. E não querem ficar no clichê. E querem sinceramente inventar uma paternidade que faça sentido e que seja recheada de algo mais do que o estereótipo vazio do ser pai. E, então, vem a mulher e enche o sujeito de críticas, acaba com a criatividade e a espontaneidade dele, tudo castra. Não é assim que dá banho, comida… não é assim que cuida… não é assim que fala… Putz! E depois reclama de ter ali um homem acuado, distante, indiferente, pouco participativo. Bom, como faz? Afinal, o que realmente queremos? E estamos verdadeiramente dispostas a pagar o preço do que queremos que, nesse caso, é o preço de partilhar um poder? Cabe aqui a questão.

Tenho algumas sortes na vida. Uma delas é a de ter um excelente pai, amoroso como o quê. Mas que, por sua forma mais silenciosa de expressar esse amor do que minha mãe, me deu muito trabalho até que eu percebesse os gestos, as atitudes de carinho, as preocupações, os orgulhos, as partilhas. Foi meu pai quem me ensinou que, muitas vezes, a gente tem que aprender a decodificar os sinais do amor e do cuidado vindos do outro, pois eles não necessariamente aparecem do jeito que, para nós, seria o mais evidente. E esse pai se tornou um belo de um avô, de um coração transbordante, capaz de coisas inimagináveis para quem o conhece do lugar de filha e que, por sorte, minha pequena vai conhecer logo mais.

Tive também um avô maravilhoso, que parece ter sido um pai muito difícil, mas que soube tirar água de pedra de si mesmo e transformar toda sua dureza em um amor cálido, suave e generoso com os netos. De uma beleza ímpar e de gestos simples e grandiosos, ele nunca precisou dizer que amava o amor que era evidente que tinha por nós.

E, agora, tenho ao meu lado um homem incrível, que se engajou comigo em um projeto imenso de vida, que é esse de tornar-se pai e tornar-se mãe. De coração aberto, se jogou de cabeça, confiando que nós seríamos e seremos capazes de fazer três de dois e que isso seria uma experiência de felicidade. Não fosse por mais nada, o simples fato de fazer essa aposta junto comigo já mereceria todo o meu respeito e toda a minha gratidão. Gratidão não por se tratar de um favor ou de uma concessão que ele me tenha feito, mas porque penso que é questão de agradecer mesmo todas as escolhas não obrigatórias que fazemos ao dividir parte de nossa vida com um outro. No amor ou na amizade.

Mas ele é um desses “pais modernos”, desses que eu mencionei no começo e que parecem um milagre de capa de revista, lindos e bem resolvidos com essa vontade de ser pai. Mas um pouco perdido nessa posição. Como um homem curioso, ele se apaixona pela barriga que mexe e deve ficar imaginando quem é que vai sair dali. Discreto, ele tenta respeitar e apoiar as vivências intensas que a “dona da barriga” tem tido, nesses nove meses de quase possessão. Os gestos, os cuidados, as tentativas de partilha estão todos ali, para quem quiser e puder perceber. Acho que um homem como esse merece toda a generosidade de uma mulher para ele poder ser o pai que ele quer ser, não?

Cuidemos bem dos pais dos nossos filhos. Vários deles estão dispostos a se reinventarem de maneiras incríveis para ocupar esse lugar.