Os homens piram

Começou com uma história, duas, três, até que ficou frequente demais para eu continuar achando que fossem casos isolados. E comecei a formar aqui na minha cabecinha uma idéia sobre uma categoria de homens bem difícil, aquela dos homens que piram.

O enredo pode ser começar bem banal: casal mais ou menos feliz, engravidam, vão ter um filho, todo mundo está contente. Esse acontecimento parece que fortalece o casal, começa ali uma família, é como se tivessem atravessado uma fronteira onde as perspectivas mudam e as prioridades se invertem.

Mas daí o bebê nasce. E do mesmo jeito que acontece alguma coisa no âmago dessa mulher que a muda radicalmente, algo acontece também nas entranhas desse homem. E nem sempre a mudança é para melhor.

O cara vai mais cedo para o trabalho, volta mais tarde. Chega em casa e esquece de perguntar como vão as coisas. Fala, fala, fala. De si, do seu trabalho, das suas preocupações, do mundo lá fora. Fala para uma mulher cansada, que possivelmente passou o dia inteiro entre mamadas, choros, sonos entrecortados. Uma mulher que talvez não tenha visto a luz do dia, que não sabe se faz sol lá fora, que talvez não tenha conseguido ir ao banheiro fazer um cocô.

O cara se espanta porque a mesa do café da manhã ainda está posta. E a cama não está feita. Faz uma crítica ou outra. Vai ver TV, vai para a frente do computador, vai para a internet. Está cansado, teve um dia cheio, precisa relaxar e desanuviar a cabeça.

Espera que o jantar apareça ali na sua frente. Espera que a louça saia da mesa e vá para o lava-louça. Espanta-se que a mulher esteja cansada: “mas como assim, você passou o dia inteiro em casa…”. Não pode cuidar muito do bebê à noite, precisa de uma boa noite de sono para poder sair para trabalhar amanhã. No dia seguinte se espanta com a cara de zumbi da esposa, afinal, o bebê nem chorou tanto assim, vai.

A mulher tenta explicar, tenta mostrar que seus dias são cheios, cansativos, estressantes. “Mas você não está feliz? Não era isso que você queria?” Sim, mas é difícil. Ele demonstra seu tédio profundo em ouvir falar de fraldas, de choros, de mamadas. Ela precisa de um abraço, de uma massagem nas costas, de alguém que segure o bebê para poder tomar um banho. Ele segura o bebê, e o leva para perto da porta do banheiro desde que ele começa a chorar. Ela sabe, ali dentro, que o bebê está chorando, não consegue relaxar, apressa o banho, deixa para lavar o cabelo dali um mês.

O cara quer transar. Quer que a mulher esteja afim. Ela perdeu a forma, precisa voltar a fazer exercícios, hein?! Ela só pensa no pouco tempo de sono que está perdendo com essa transa sem graça e sem vontade. Mas tem mais medo ainda de perdê-lo, então tenta fazer de conta que está gostando. E torce para acabar logo.

O tempo passa, ela está cada vez mais exausta. Ele não entende o que a cansa tanto. Quer que contrate uma babá? Propõe que viagem, propõe que saiam. Como se tudo isso não fosse ainda mais trabalho para ela, que tem que preparar tudo, prever mil cenários, fazer mochila de criança, estressar com o tempo, o vento, a chuva, o banho, o sono. Ele se diverte pra caramba, ela mal consegue ter uma conversa com começo, meio e fim com algum amigo, sempre interrompida pelo bebê, pelo choro, pela fralda. Ela volta para casa ainda mais exausta, enquanto ele se sente revigorado.

O cara sente ciúmes do tempo que ela passa com o bebê. Se sente deixado de lado, sente que não é mais a prioridade dela. Trocado, disputa com o rebento a atenção da mulher. Choro e mamadas noturna contra sexo. Ele quer a atenção dela, que ela escute seus problemas, que ouça suas histórias. Acha que essa história de amamentar é um jeito dela sequestrar o bebê, de não deixá-lo conviver e participar dos cuidados dele. Insiste em que passem para a mamadeira, em que dêem um jeito para que ele durma a noite toda, em que ele durma no seu quarto. Cada vez que ela diz estar cansada, ele a olha com desprezo e lembra a ela que se ela está assim é por conta das escolhas dela, que quis amamentar, fazer cama compartilhada, todas as histórias de respeitar o ritmo do bebê. Ela para de reclamar, porque suas queixas sempre se voltam contra ela, sempre se tornam acusação, e ela não sente que tem mais forças para se ver questionada em todas as suas decisões a todo momento.

Se cede à mamadeira, ele se ocupa por uma ou duas noites. E depois é ela quem volta a se ocupar, pois o sono dele é sagrado. Se cede a colocar o bebê no quarto, é ela quem passa a levantar e percorrer a distância entre um quarto e outro para se ocupar do bebê. Ela está ainda mais exausta, ele acha que finalmente as coisas estão progredindo, já que ela está fazendo tudo do jeito que ele acha melhor.

Ela se fecha, não fala mais nada, nem comenta nada de seu sofrimento com ninguém. Quem poderia entendê-la? Cada vez que estão em situações públicas, ele se mostra um pai maravilhoso. Cuida, brinca, pega no colo, dá risada, conta orgulhoso cada detalhe de cada mudança que ela relatou a ele. Quem iria acreditar que as coisas não são bem assim? Nem ela acredita, pensa que ele é um ótimo pai, não entende direito esse paradoxo.

Quando ela começa a respirar novamente, e que o bebê está mais crescidinho, dorme melhor e por mais tempo, começa a ir na creche ou coisa que o valha, vem a surpresa: as coisas não estão tão bem assim. Ele tem uma amante, está tendo um caso, trocando mensagens pela internet em um site de encontros. Toda aquela falação sem olhar nos olhos era para não falar do principal, de sua falta de honestidade, de sua covardia, de seu egoísmo. Ela percebe o abismo que se criou, sente-se culpada. Se ela tivesse se arrumado mais, estado mais disponível, se tivesse estado mais afim… Mas se sente tão cansada, como poderia ter forçado uma situação num circunstância dessas? Ela não é mais a mulher de antes, livre, cheia de iniciativas, aventureira. Ela se tornou pesada, preocupada, tensa. Talvez seja isso, talvez seja mesmo a culpa dela, de ter se tornado essa pessoa do corpo deformado pela gravidez, cheia de olheiras, monotemática.

Mas e o filho deles, não conta? E o cuidado, a dedicação, nada disso tem importância para ele? Não é razão o suficiente para que ele a ame, para que se orgulhe dela, para que valorize o que ela faz? Ela cria um filho dos dois, isso não vale nada?

Aparentemente não. O cara pirou, o cara compra um carro esporte de dois lugares para pagar de gostosão, o cara tem um caso, o cara se diverte em testar se é gostoso e desejado pela mulherada, o cara quer saber se ainda é capaz de seduzir, o cara quer atenção exclusiva, ele quer uma mulher só para ele, sempre pronta, sempre afim, sempre deslumbrada com todos os seus feitos.

Quantos caras você conhece que mostram o seu pior lado após se tornarem pais? Que abandonam, que negligenciam, que desmerecem, que menosprezam, que criticam? Quantos caras você conhece que, mesmo se tornando pais, continuam gravitando em torno do próprio umbigo?

Conheço algumas histórias de casamentos que explodiram depois que os filhos nasceram. Das amantes, dos caras que se fecharam no trabalho, nos filmes na TV ou nos sites de internet. Tenho uma amiga cujo agora ex-marido chegou ao ponto de sequestrar a filha de pouco mais de um ano por uma semana, forçando um desmame que vinha acontecendo da forma mais gradual e respeitosa possível. Dizia ele que queria passar mais tempo com a criança. Era verdade? Se levarmos em conta que durante essa semana ele continuou trabalhando e chamou a própria mãe para cuidar da filha, dá para duvidar das belas intenções do sujeito…

Quantos caras você conhece que, quando separados das mães de seus filhos, pegam os rebentos no final de semana para a amante, nova esposa, sei lá quem cuidar? E quantos você conhece que continuam exatamente com a mesma vida depois que se tornam pais?

Se você vive no mesmo mundo que eu, deve conhecer muitas histórias assim, dos casamentos que explodem e daqueles que não se desfazem apenas porque a mulher arca com tudo enquanto o cara continua vivendo a própria vida, tendo seu trabalho, seu tempo de lazer, suas horas de sono… Para a maior parte dos homens, quase nada muda depois da chegada dos filhos. E isso não os incomoda nem lhes causa estranhamento. A única coisa que parece os desagradar é aquela mulher chata e reclamona ali, que deixou de ser tão interessante. A maior parte dos caras passa boa parte da sua vida enquanto pais fazendo a mulher pagar por ter deixado de tê-los como prioridade absoluta. Eles se vingam das piores maneiras, criticando, não apoiando, diminuindo, fazendo piada, deixando-as sozinhas. Para cada homem que parece intocado pela paternidade, que parece estar tão bem disposto quanto antes, que parece estar animado cuidando de crianças felizes que chegam nos seus braços secas, alimentadas, agasalhadas, há uma mulher sobrecarregada, exausta, cuidando de tudo sozinha, terrivelmente solitária e em situação de isolamento.

Então, do mesmo jeito que a maternidade mexe e muda as mulheres, a paternidade também mexe e muda os homens. Eles também são expostos a duras provas e o casal passa por um teste pesado. Mas a pergunta que fica é: por que a maior parte dos homens, quando se tornam pais, reagem por esse viés do abandono e do egoísmo?

O pai participativo

Acho que posso contar nos dedos de uma mão apenas os pais que conheço que assumem plena e verdadeiramente a paternidade. A grande maioria defende-se ainda no mesmo lugar que nossos pais ou avós, para os quais ser pai, no melhor dos casos, era botar dinheiro / comida em casa e isso praticamente resolvia a questão. Ah, umas surras de vez em quando também podiam fazer parte do pacote, a cada vez que surgisse aquele ímpeto de educar amalgamado à disciplina que apenas um pai severo poderia aplicar nos seus filhos bestas-feras que a mãe era incapaz de controlar. Isso, no melhor dos casos, pois no pior o sujeito simplesmente se mandava – e ainda se manda – em algum momento da história como se não fosse com ele. Toma que o problema é seu. E segue com a vida. Mas há também uma outra tendência de pais que vem aumentando ultimamente, nas novas gerações, a do pai participativo. E é essa que tem me causado calafrios. E reflexões.

Pai participativo é um nome mais bonitinho para o pai que ajuda. É aquele carinha que troca uma fralda, dá uma mamadeira, dá um banho, troca uma roupinha. Levar para passear, no carrinho ou no sling, constitui-se no verdadeiro golpe de misericórdia desse tipo de pai, que arranca suspiros de admiração por onde passa, especialmente de mulheres e mães sobrecarregadas que olham e pensam: “ah, que exemplo de homem! Por que o meu traste não pode ser assim também?” Está feito o estrago: uma porção de mulheres desejosas do pai participativo e uma porção de homens pressionados a trocar ao menos uma fralda. E um bando de sujeitos que começam a vender sua imagem de pais sensacionais através da net, dos blogs, das fotos no Instagram, das postagens no Facebook.

Uma parte do segredo parece estar aí, nisso que passa desapercebido como um mero detalhe: o pai participativo é um pai público. E um pai que publica. Ele aparece na mídia na foto do pai que protege o filho da chuva em detrimento da sua própria figura molhada e atingida pelas intempéries inclementes. Ele é aplaudido por milhares de fãs quando advoga em prol de tratar sua filha como uma princesa. Ele se torna Deus quando é fotografado fazendo pele-a-pele com seu recém nascido. Qualquer uma dessas notícias e/ou imagens que tivesse no lugar do pai uma mãe não causaria – como em geral não causa – praticamente nenhum impacto. A mãe prioriza o filho em detrimento dela própria, ela advoga em prol de tratá-lo amorosamente e com respeito, ela cuida dele desde o nascimento, emprestando seu corpo, seus seios, seu calor, sua pele para acolhê-lo? Bem, isto não é mais do que sua obrigação.

Ser mãe não parece ser digno de nota até que o seja pelo seu contrário. Quando ela aborta, ou deixa a criança na portaria de um prédio de classe média alta, ou quando decide colocar na creche / na escola para voltar ao trabalho, ou quando decide deixar de trabalhar para cuidar da criança em casa… bem, aí aparecem muitas vozes para dizer que há algo errado. Já o pai não. Ele troca uma fralda, é ovacionado em praça pública e recebe o Nobel de pai do ano. Dois pesos, duas medidas, bem a cara dos nossos tempos e da nossa cultura, onde desigualdade de gênero é ainda onipresente e suscita poucas questões.

Fato é que para cada cem mulheres que falem seriamente sobre um assunto, será um homem que, dizendo o mesmo será reconhecido em sua sabedoria e apontado como o salvador da pátria. Basta ver, no meio acadêmico, em relação a qualquer tema em que existam muitas publicações e muitas reflexões feitas por mulheres, quem é que será considerado a referência no assunto. Grandes chances de que seja um homem. Quem será o professor livre docente chefe da cadeira do tema x, y ou z, a sumidade do assunto? Possivelmente, um homem. Mesmo que uma ou muitas mulheres tenham dito ou feito o mesmo antes.

Por que quando o assunto é mater / paternidade seria diferente? Criação com apego, quem são as referências? Uma série de mulheres. Mas o que “bomba na net” são as palavras de um homem.

Não estou aqui a defender um feminismo xiita no qual em nome do protagonismo feminino os homens deveriam ficar de boca fechada. Estou defendendo, tão somente, que aquilo que a maior parte desses tais pais participativos parece ter descoberto como a invenção da pólvora e que agora ficam bradando aos sete ventos como se fosse uma enormidade são apenas um básico, o mínimo, nada mais do que a obrigação. E que fica meio ridículo ficar se vangloriando por fazer o mínimo necessário por um filho. Ou não?

O pai participativo só pode existir e sair bem na foto porque, ao lado dele, na grande maioria dos casos, existe uma mãe sobrecarregada. Na sombra. Sem apoio. E sem nenhum reconhecimento.

Os poucos homens que conheço e dos quais falava no começo desse post como sendo aqueles que assumem de fato a paternidade não são esses pais participativos que jogam para a torcida. Na realidade, são até bem discretos. Na deles. Quase constrangidos como se tivessem que se desculpar por centenas e milhares de anos de desconsideração, de desrespeito, de desleixo, de negligência de todos os seus antecessores. São homens meio constrangidos que parecem finalmente ter entendido algo que a maioria das mulheres que são mães entendem tão rápido quanto um soco na cara, assim que o bebê nasce: que nós somos o tal do “último homem”, ou o “homem de frente”. Aquele que fica ali, no front ou no jogo, naquele lugar mais exposto, de total vulnerabilidade porque de responsabilidade absoluta. Depois de você, simplesmente não há. Não há para quem passar a bola, não há quem dê o tiro de defesa. Não há quem assuma o serviço no seu lugar.

Mulheres descobrem isso bem depressa e o peso inteiro do mundo recai sobre elas assim que o bebê nasce: se você não fizer, ninguém vai fazer. Você é aquela para quem todos se voltam a cada vez que for necessário lidar com algo que ninguém mais conseguiu. Que seja fome, sono, medo, mal-estar, tristeza, expectativa, frustração… o que quer que seja, ao fim e ao cabo, todo mundo sabe que, se não der para resolver, se cansar, se apertar, se a coisa ficar complicada, leva para a mãe que ela resolve. E a primeira vez que seu filho chora e vem parar no seu colo, você sente no fundo de você mesma que é assim: eis aí o limite, eis a situação em que toda a responsabilidade por esse sujeitinho e pelo que quer que esteja acontecendo com ele recai sobre mim.

Um pai, ou a maioria dos pais, nunca sentiu isso nas suas entranhas. Ele age com a leveza de quem tem sempre a quem recorrer em último caso. E assim pode se permitir chegar em casa no final do dia e decidir cuidar ou não da cria, dependendo do seu cansaço, da sua vontade, da sua paciência ou do que está passando na TV. Quantas mães podem se dar a esse luxo? Quantas mães podem ouvir o filho chorar e virar para o lado na cama se dizendo: “ah, deixa para lá, não vou não, estou cansada” sabendo que, de um jeito ou de outro, o bebê vai parar de chorar de exaustão ou porque outra pessoa foi lá acudir?

Sim, existem pais hoje em dia que fazem um enorme esforço para encontrar um lugar e uma maneira outra de serem pais, diferente daquela que viveram enquanto filhos, diferente da figura de autoridade para a qual disciplina equivale a violência. E, nessa busca, eles muitas vezes metem os pés pelas mãos. Do mesmo jeito que nós, mães, na medida em que buscamos também criar um outro modo de maternar mais cuidadoso e respeitoso com nossos filhos, fazemos. Pais e mães erram e acertam o tempo todo nessa caminhada. Então, qual o sentido de transformar as ações bem sucedidas em espetáculo? O que é mais importante: criar um modo de ser pai e viver essa experiência com os filhos ou criar cenas bonitas para gerar comentários, likes e admirações na web? Nessa hora percebemos claramente a diferença entre os pais que assumem e os pais “participativos”: uns focam nos filhos e na família, outros focam na torcida. Pai participativo é aquele que brinca com a criança quando tem visita em casa. Ou no parquinho. Um olho na criança e outro na audiência… Pffff…

Não, isso não é um texto contra pais que têm blogs ou que publicam imagens ou textos sobre sua experiência de paternidade na web. Conheço alguns bem legais, muito bons mesmo, com textos e imagens sempre tocantes e sensíveis. Isso é um texto de reflexão sobre porque, quando vejo alguns textos ou imagens de pais com seus filhos bombando na web, sinto um incômodo grande. Uma inquietude com aquele endeusamento que se segue a essas postagens, um incômodo com os comentários, especialmente das mulheres, muitas das quais mães, uma irritação mesmo com a idéia que fica por trás desse teatro todo de que qualquer coisinha que um homem faça basta. Não, meu caro, não basta. É preciso muito mais. É preciso se colocar no lugar do homem de frente. Do último homem. Qualquer coisa a menos do que isso, ainda por cima pedindo aplauso e adulação, ao menos para mim parece cinismo, arrogância e, pior de tudo, narcisismo. Deixem disso, meus caros. Façam melhor.

Existem homens que simplesmente não entendem.

Noutro dia, uma conversa acalorada com um amigo, pai de um adolescente, em que ele contava como, logo após o nascimento do filho, seu casamento passou por uma crise. Nas palavras dele, perdeu a esposa e não podia “ter o filho”, pois ela seria muito colada ao pequeno. Emendava a isso suas queixas sobre a falta de relação sexual nessa época e, ainda, todo um discurso sobre como o filho também era “dele”. Ou seja, reclamava do distanciamento da mulher, de não ser mais o centro das suas atenções e de nem ao menos ter o filho como uma espécie de consolo para tamanha frustração. Bom, por onde começar?

Talvez o que me pareça o mais chocante e triste dessa conversa seja a falta de empatia. Uma mulher tem um filho. Sua mulher tem o filho de vocês. E seu sentimento principal é o de passar a segundo plano. Nenhuma compreensão sobre a amplitude desse acontecimento, sobre o tumulto de mudanças que acaba da ocorrer para todos. Nenhuma consideração aos cuidados que essa mulher se dispõe a prestar a essa criança. Apenas a sensação chorosa de: “perdi alguma coisa, perdi meu lugar, perdi meu reinado”. E o ressentimento que segue.

Acho curioso como alguns homens vêem a dedicação de suas mulheres a seus filhos como algo problemático. Ao invés de orgulho e de admiração por alguém que trata daquele que também é sua cria com tanto amor e cuidado, apenas uma repulsa pela situação de dependência que isso cria. Dependência necessária e saudável nesse começo de vida. Mas que o sujeito vê como um obstáculo: a ligação intensa entre mãe e filho parece a esse pai como algo que o exclui. E que o faz perder a “posse” do corpo dessa mulher que nem ao menos transa mais com ele assim como a “posse” do corpo desse filho, para quem ele é menos importante.

Sua mulher não é sua “coisa”. Que ela não queira transar contigo depois de parir é dos acontecimentos mais corriqueiros. Pode ter razões hormonais, psicológicas e muitas outras. Talvez se você fosse capaz de se colocar no seu lugar, se batendo com cuidar do bebê, amamentar, não dormir e tudo o mais que a maternidade lhe trouxe, quem sabe se daria conta de que não sobra muita disponibilidade para o sexo. E que isso é temporário.

Seu filho também não é sua “coisa”. Ele é uma pessoa, com suas necessidades e seus sentimentos. Sua fragilidade é tão grande quanto menor ele seja e, se ele solicita intensamente, é porque sua vida depende de todos esses cuidados. Vocês não estão em condições de igualdade frente à vida e nem frente à sua mulher, a mãe dele. Você é um adulto que deveria ao menos ser capaz de dar conta de coisas que ele nem ao menos sonha que existem. Por que diabos o nascimento de um bebê se torna uma competição entre o pai e o filho por um lugar que nem ao menos é o mesmo?

Alguns homens vêem a dependência entre a mãe e seu filho como algo nocivo que deveria ser erradicado. Esse meu amigo conta como o grande feito da experiência dele de pai o dia em que tirou uma semana de férias, antes mesmo do seu filho ter um ano, e foi viajar sozinho com ele para algum lugar. Sim, no começo o menino estranhou. Sim, no começo ele chorou e foi difícil. Mas depois ficou ótimo, sorridente e feliz. Não dúvido. A capacidade de resiliência de uma criança, especialmente de um bebê pequeno, é enorme. Mas não entendo como é que um pai pensa que precisa reivindicar dessa maneira sua condição de pai.

Vejo frequentemente situações em que os pais acabam atravessando. Nessa busca por serem importantes, alguns entram em competição com suas esposas pelos cuidados com o bebê. A criança já está quase dormindo no colo da mãe e o pai vem e a pega. Ela chora copiosamente por muito tempo. O que importa para esse homem não é que sua filha durma. É que seja ele que a faça dormir. Sem prestar alguma atenção ao que está acontecendo, aos sinais, ao bebê que está ali ele simplesmente chega e interrompe algo. Não por ela. Não por sua mulher. Mas por ele. Porque ele precisa.

Esse amigo passou um bom tempo da discussão argumentando que tanto homens quanto mulheres podem se ocupar de um bebê muito bem. E que o amor é igual. E que os direitos são os mesmos. Não sem acrescentar muitas histórias sobre todas as vezes em que ele foi se ocupar de outra coisa enquanto sua mulher cuidava do filho deles. Acusando-a de se dedicar demais a esse filho. De sufocá-lo de tanta dedicação. E dela ser a única responsável por todos os graves problemas que o garoto teve ao longo da vida.

O que esse amigo parece não entender é que essa reivindicação ressentida de igualdade cai por terra no momento exato em que, na prática, as atitudes não são iguais. O amor é o mesmo, a capacidade é a mesma, os direitos são os mesmos. Mas existe alguém que está ali o dia inteiro, o tempo todo, fazendo o miúdo, o cuidado cotidiano. Existe alguém que prepara todo o terreno. E alguém que se gaba de uma semana de férias juntos. Mas que, no primeiro choro, na primeira dificuldade em colocar para dormir, na primeira virose sabe que pode passar o “abacaxi” para alguém. Que tem outro – ou melhor, uma outra – que vai fazer.

Essa é a diferença entre um pai e uma mãe. Ou entre as mentalidades do que se pensa que seja um pai e do que seja uma mãe. A mãe é aquela que é a última da linha de frente. Se “der merda”, ela não tem um outro a quem recorrer. Ela simplesmente tem que ficar ali e resolver. A mãe – quem quer que seja que esteja ali nessa função – é aquela que encarna a responsabilidade do cuidado, o que quer que isso implique. O pai é aquele que pode se dar ao luxo de estar disponível. Ou não. Assim, fica fácil reclamar do “excesso” de dedicação das mulheres, né?

Sei que existem homens que são os últimos da linha de frente. Sei que existem avós que exercem essa função. Mas na grande maioria das vezes, somos nós, mulheres e mães, que seguramos o rojão, por escolha, vontade, desejo, obrigação ou o que for. E ainda temos que ouvir que a relação de proximidade que estabelecemos com nossos filhos pequenos é que é um problema. Como se o problema não fosse muito maior para os bebês que – em nome de uma pretensa independência a ser conquistada desde sempre – acabam largados no mais total abandono. Gente rejeitada, abandonada e desamparada que, depois de adultos, se tornam paradoxalmente os maiores defensores de uma distância grande entre uma mãe e seu filho.

Existem uma pressa perversa nessa busca de uma separação precoce entre uma mãe e seu bebê. Pressa por vezes egoísta, em que muitos homens não admitem sair do centro nem em prol das próprias crias. Pressa que cria um discurso demonizador da relação que uma mãe estabelece com um filho. Pressa que solicita sem parar essa mulher para si, essa criança para si, qual um Cronos mitológico cuja preocupação é apenas a de devorar os próprios filhos para não arriscar seu reinado. E que se dispõe sempre a acusar e a culpabilizar essa mulher, dizendo que seu “excesso de zelo” ocorre por dificuldades dela, necessidades dela, impossibilidades dela. Sim, tudo isso comparece. Nunca estamos em nenhuma relação sem que algo ali reverta em nosso próprio benefício. Mas talvez aquilo que alguns desses homens acusem como excesso seja, tão somente, o que é necessário no início de uma vida. E eles não se dão conta porque, simplesmente, não conseguem olhar para além do próprio umbigo.

Texto interessante sobre a importância do pai na vida dos filhos: aqui.

Alguns pais que conseguem se colocar em um lugar diferente, sem menosprezar suas mulheres e seus filhos para tanto: aqui, aqui e aqui.

Os pais

Verdade seja dita, a imensa maioria da blogosfera materna é, como o nome mesmo diz, feminina. Assim como a imensa maioria das pessoas que encontro no parquinho, na praia, na praça cuidando dos filhos em um dia qualquer. Vemos menos pais por aqui nas consultas médicas ou na saída dos filhos da escola. Estranho arranjo que perdura e insiste em parecer normal.

Eles são mais comuns nas situações de lazer, nos finais de semana, junto com as mães ou, cada vez mais, sozinhos. Pais divorciados talvez, que encaram a tarefa de se ocupar dos pequenos por um período de tempo por conta própria e risco. Já vi pais trocando fraldas de forma estranha e desajeitada, já os vi brincando com os filhos enquanto falam no celular e toda sorte de esquisitice de um olhar desacostumado. E de pais também desacostumados de terem que se haver com as crias. Mas também já vi cenas bonitas de brincadeiras, de risos, de carinho e de proteção.

Hoje em dia exigimos um pai novo, um homem que participe ativamente da criação dos filhos desde o início, que troque fraldas, dê banho, alimente, entretenha, faça dormir, cuide, se ocupe, se preocupe… E que faça tudo isso como quem não faz mais do que a obrigação, como nós mães fazemos, sem esperar uma medalha no fim do dia ou um destaque na capa do jornal. Pai participativo é notícia, mãe que cuida dos filhos é lugar comum. Estranha divisão de tarefas.

Verdade seja dita, hoje em dia temos cada vez menos pessoas em torno de cada criança que nasce. E todas as exigência recaem sobre uma família cada vez menos e mais pressionada: uma mulher que se dedique, um homem que se envolva. O pai vira o único depositário de todas as exigências de ajuda da mãe que, por sua vez, fica totalmente isolada nos cuidados com seu bebê. A ela se demanda muita coisa, e ela despenca uma parte sobre esse homem. Pouca gente em volta, poucas redes de solidariedade, apenas duas pessoas para lidar com a chegada de um bebê e tudo de revolução que isso provoca. Não é justo para ninguém. E tem muito homem que enlouquece nesse ponto e cai fora, literalmente ou de maneiras mais subterrâneas e perversas, se enfiando no trabalho, se enchendo de compromissos e de indisponibilidade.

Ajudar já não é mais benvindo, é apenas obrigação. E o que bomba na blogosfera são aqueles pais inéditos, super engajados, por vezes tão participativos que chegam ao cúmulo de tirarem foto de gestante no lugar da mulher, tornando-se caricatura. Ou então aqueles pais tão incapazes que não sabem que ações geram consequências e que deixam o filho enfiar o braço na jaula de um tigre, sem considerar que isso pode causar um dano real. Vivemos em uma época em que muitas pessoas perderam a noção do peso de suas ações e de suas escolhas. E as crianças pagam no corpo esse desconhecimento perverso. Enquanto uns se divertem com filhos brincando com animais selvagens, outros brincam de serem pais magníficos na blogosfera, não pelo real e profundo questionamento do seu lugar e função mas pela mímica infantil daquilo que pensam que as mulheres querem, almejando o lugar de queridinhos da classe. Pouca gente com coragem e empenho para atuar fora do mundo da imagem, onde tudo marca e têm consequências. Triste.

Tenho gostado mais desses pais mais ou menos, esses cotidianos, que se surpreendem sendo pais e se descobrem amando seus filhos. Esses pais que se emocionam com os feitos do rebento e que não sabem o que fazer quando choram, que perdem noites de sono pensando em como educar as crianças e em como lhes garantir alguma proteção que os poupe do sofrimento e da precariedade no futuro.

Hoje é dia dos pais no Brasil, essa data tão besta quanto o dia das mães e que a gente insiste em lembrar. Uma data vazia de sentido em uma época em que os pais são tão diversos que talvez nem pudessem ser agrupados sob a mesma categoria. Data tola de celebração em um mundo em que o que se faz necessário é ainda demarcar o lugar das mulheres. E onde esse lugar muitas vezes é de oposição e de inimizade aos homens, pois parece não poder ser diferente. Um mundo em que os homens, quando não são omissos ou caricatos, se revelam machistas, violentos, desumanos. Um mundo em que homens matam mulheres e crianças. Ainda. Como se fosse possível.

Não há nada para ser comemorado na generalidade dessa categoria dos pais a não ser algo tão pequeno e singular quanto alguns poucos homens específicos, gente de carne osso, que são pais de carne e osso, de crianças de carne e osso. E que fazem no pequeno, no dia-a-dia, gesto contínuos e cotidianos de cuidado, de respeito e de amor.

 

Para um amigo que vai ser pai

Querido amigo,

Falta pouco agora para você tornar-se pai. Quer dizer, pai você já é. E a pequena na barriga da sua esposa é uma realidade da qual você se dará conta de maneira contundente assim que botar os olhos nela pela primeira vez. Não sei como é essa sensação de tornar-se pai. Sei como é a de tornar-se mãe. Mas decidi te escrever para te dar todos os conselhos dos quais você não necessita. Apenas porque você me é caro. E porque quero que seja feliz.

  • no dia D, deixe o celular desligado. E deixe as fotos para lá. Deixe tudo o que é obstáculo de lado. Não coloque nenhuma barreira entre você e o que vai viver, não se proteja. Vá vulnerável, vá fragilizado, vá em carne viva, como sua mulher. E sinta cada sentimento e cada sensação com todo o seu corpo e toda a sua alma. Nessa hora em que tudo é acontecimento, tudo é presente, tudo é intensidade, há quem prefira se esconder. Porque dá medo demais. Não estamos mais acostumados a sentir, fugimos disso. Então, se puder, esteja presente. Ali e só ali. Te garanto que para além do medo tem uma experiência incrível a ser vivida, que pode até mesmo mudar você profundamente.
  • tenha em mente que sua mulher se sente ainda mais vulnerável que você. Proteja-a, cuide dela com carinho ao longo de todo o processo. Esteja perto, ajude-a a não desistir na hora em que ela estiver esgotada. Lembre-a e lembre-se de tudo o que quiseram que esse momento fosse. Diga palavras carinhosas e sinceras. Seja para ela fortaleza, pois ela estará sendo o mesmo ao parir a filha de vocês.
  • não é verdade que você não pode fazer nada além de assistir e esperar. Você pode fazer tanto por sua mulher quanto ela fará por sua filha. Isso é algo que muitos homens parecem não entender, querendo estar ali onde não é possível, cegos para aquilo em que são necessários.
  • confie em vocês dois. Confie na capacidade que sua mulher tem de parir. Confie na capacidade que você tem de ajudá-la. Confie na capacidade que sua filha tem de nascer. Confie em vocês três acima de tudo o que pensem, de todos os medos, de todas as dúvidas. Confie apesar dos outros. E tenha toda a garra e toda a força dessa confiança.
  • passe todo o tempo que puder com sua mulher e sua filha. Não apenas porque tudo muda muito depressa e porque filhos crescem rápido, mas porque é um verdadeiro deleite vê-los descobrirem o mundo. E apresentar o mundo a eles. E descobrir-se nesse lugar de pai e mãe, com tudo o que isso tumultua e agita em nós.
  • passe todo o tempo que puder com sua mulher e sua filha também porque elas vão precisar muito de você. O começo é quando um bebê precisa mais, não aos 15 anos quando você percebe que não estava presente e decide recuperar o tempo perdido.
  • sua filha vai precisar muito da mãe dela. Não fique com ciúmes e nem se sinta rejeitado. Nem por uma, nem por outra. É assim, bebês precisam demais de suas mães. E muitos homens sentem nisso uma competição e atormentam suas mulheres com exigências de atenção totalmente sem sentido. O melhor que você pode fazer é reconhecer essa necessidade da sua filha como verdadeira e legítima e apoiá-la nisso. Como? Apoiando sua mulher para que ela possa estar com a bebê o tanto que for preciso. E do modo como for preciso.
  • perceba que cuidar da sua filha é cuidar da sua esposa. Nesse começo, uma mulher cuidada e protegida fica muito mais segura e tranquila para se deixar levar por esse tsunami que é a maternidade. E para amamentar. E para passar o dia naquele ritmo de mamadas, sonos, falta de sono e tudo o mais que desorientam totalmente uma pessoa sã. Então, se puder, cuide de todo o resto. Da casa, da comida, da roupa suja, das visitas. Ou chame para perto quem possa cuidar: família, amigos próximos, gente que saiba que o que vocês precisarão nesse momento é de silêncio e calma para se aclimatarem na nova vida. E uma jantinha quente, uma ajuda com a faxina e uma mãozinha na hora de ir na farmácia comprar fraldas que acabaram.
  • não se espante com as mudanças de humor da sua mulher, com os estados de êxtase, com a tristeza profunda, com a desorientação, com a raiva, com o luto, com a fragilidade. Coloque tudo na conta dos hormônios. E da imensa mudança de vida. Mas leve à sério. E leve à sério também o turbilhão de sentimentos contraditórios que vão te invadir. Não pense que precisa ter certezas nessa hora. Porque será tudo novo e incerto. Saiba que aos poucos tudo se ajeita, mesmo que pareça impossível. E que em pouco tempo essa imensa angústia do começo se acalma e o coração pode aproveitar melhor toda a alegria de estar ali.
  • nunca se envergonhe de quem você é e do que pode oferecer. Dinheiro está longe de ser aquilo de que sua filha mais necessitará e, isso posso garantir, será o que menos vai impressioná-la. Não dê dinheiro e bens no lugar de afeto. Dê todo o afeto de que seu coração é capaz, porque sempre brota ainda mais amor sabe-se-lá-de-onde. E cada instante dessa afeição vai ajudá-la a ser uma garota segura de ser querida e amada, tranquila por saber que tem quem a acompanhe em seus passos quando ela precisar.
  • toque violão, conte sua história, torne presentes aqueles que se foram. Deixe ela descobrir o vento batendo no rosto, a água salgada do mar, o som de uma bela canção, que cair acontece e que é possível levantar-se. Proteja-a, mas deixe-a livre para descobrir a vida. Nisso os pais são muito mais eficazes do que as mães, nós sempre temos medo de que “algo aconteça”. Vocês sempre conseguem sair sem levar um casaco, perder um sapato no meio do caminho, trocar a fralda num banco de praça, alimentar com um pedaço de pão e incrivelmente tudo dá sempre certo. Isso nos aterroriza, nos indigna e nos alivia. Precisamos desse desapego, filhos e mães.
  • diga à sua mulher do orgulho que você sente pela filha que têm, do quanto valoriza o seu esforço em amamentar, do quanto admira o cuidado e a dedicação com os quais ela se empenha cotidianamente enquanto você trabalha. Dê valor ao que tem muito valor, dê valor em voz alta, reconheça para ela e para todos. Veja com olhos amorosos a barriguinha, os quilos a mais, as marcas no corpo de um corpo que acolheu a sua filha. Não faça piada, não tire sarro, nessa época ficamos tão sensíveis que vocês nem imaginam. Essa generosidade de uma mulher que concebe e dá luz à uma vida nunca é por demais lembrada.

Ser pai não deve ser fácil. Deve ser uma invenção trabalhosa, como a de ser mãe. Provavelmente deve pesar em muitos momentos. Mas eu penso que é um acontecimento que pode mudar a sua vida. Você vai envelhecer, certamente. Muitos cabelos brancos vão brotar na sua cabeça. Dificilmente haverá um dia em que você não se sentirá ainda mais concernido pelos rumos políticos, pela violência, pela destruição da natureza, pela busca de uma alimentação saudável, por idéias de educação mais humanas e criativas. Provavelmente você passará muitos minutos preciosos de suas noites mal  dormidas acordado, rolando na cama, tentando pensar nisso tudo, buscando a segurança e o controle perdidos no exato momento em que sua filha nascer. Não vai encontrar, te adianto. Pensará em ser durão, terá medo de criar mais uma criança tirana entre as tantas que vemos por aí. Pensará em estabelecer limites e em fazer funcionar a função paterna.

Posso te dizer? Deixa isso tudo para lá. Na verdade é bem mais simples do que a gente pensa antes de nos tornarmos pais e mães: em caso de dúvida, pense em como você se sentiria e acrescente uma intensidade multiplicada por mil, dada a pequeneza e a precariedade de um bebê. Assim terá uma remota idéia do que pode estar se passando e do que aquela miudeza precisa. E, o mais importante de tudo: face a qualquer dificuldade ou a qualquer desconhecido, escolha sempre a opção do coração. Sempre.

Boa sorte a vocês três. E que seu coração fique repleto da alegria terna que apenas os filhos nos trazem.

Com carinho, A.

 

Todo mundo tem um pai…

 

… do mesmo jeito que tem uma mãe. Pai herói, pai presente, pai ausente, pai desconhecido, pai monstro, pai falecido, pai doador, dois pais, pai solteiro, pai tirano, pai avô… O pai, essa figura fundamental para que exista um filho, qualquer que seja a maneira como ele se encarne na experiência de cada um. Ele existe. E, a meu ver, não deveríamos ter tanta pressa assim em julgá-lo inepto e em destituí-lo de seu lugar.

Noutro dia li um belo texto da Dani Brito do Balzaca Materna a respeito da paternidade e do quanto, ainda hoje em dia, no Brasil, e no que diz respeito à grande maioria, essa função, quando bem exercida, parece algo extraordinário. Quase um milagre que hajam pais que sejam bons pais, tanto que vira até capa de revista. Machismo nosso de cada dia? Naturalização da mãe como sendo aquela que tem que dar conta de tudo no cuidado e na educação dos filhos, deixando ao pai um lugar de exceção? Pode ser. Pode ser que ainda estejamos marcados, em nossas mentalidades e em nossos imaginários, por aquela figura de pai provedor, que garante o sustento da casa e da família. E aí se finda sua contribuição. Criamos meninas para brincar de casinha e meninos que não podem nem lavar uma louça. Meninas precocemente hiper sexualizadas e meninos que entendem que meninas sexualizadas não merecem respeito. Sim, há algo bastante deturpado aí e a responsabilidade é nossa mesma. Ao criar crianças já tão enfiadas em certos padrões e clichês sociais altamente preconceituosos e fragmentários, estamos produzindo adultos plenos de preconceitos que ocuparão, por sua vez, posições bem estereotipadas em suas vidas e agirão segundo valores pré-concebidos e pobres de diversidade, inclusive ao se tornarem pais e mães.

Mas é só isso?

Penso que não e vou aproveitar do malfadado comércio chamado Dia dos Pais para compartilhar algumas reflexões. Vejamos.

Se deixarmos de lado, por um momento, essa massa de, digamos, “pais clichê” – se é que ela ainda existe de forma tão maciça assim – o que me parece é que tem muito homem bem perdido por aí. Os homens se confrontam com as novas exigências de seu papel de pai – que podem ser resumidas no bordão: “ser pai é participar” – e se mostram bem atrapalhados e sofridos. Vou direto ao ponto: reivindicamos pais presentes, ativos, participantes, afetivos, próximos, compartilhadores para nossos filhos. Mas será que deixamos realmente um espaço para que isso aconteça? Será que nós, mulheres, não mantemos também uma posição bastante ambígua de querer esses homens mais humanos e presentes ao nosso lado sem facilitar em nada para que isso aconteça?

Acredito que muitas de nós crescemos totalmente paramentadas de super heroínas e isso atinge seu clímax no momento da maternidade. Ser mãe é padecer no paraíso significando que ser mãe é se sacrificar, dar tudo, fazer tudo, ser tudo para um filho. Doação absoluta onde não cabe mais ninguém que queira ou possa doar-se também. Sim, somos nós que carregamos o bebê na barriga. Sim, somos nós que parimos. Sim, somos nós que amamentamos. E tudo isso é uma dádiva. Mas tudo isso também é poder. Talvez o único poder deixado às mulheres ao longo de tantos séculos de dominação masculina. E, mesmo assim, não foi fácil guardar esse para a gente, que vive tendo quem queira tirá-lo, sob pretextos médicos, comerciais ou de tantas outras fontes. Então, como é que a gente vai abrir mão disso, né? Dessa única função em que somos reconhecidas em um lugar valorizante para compartilhar algo desse valor com o “inimigo”?

Vejo muitas situações em que o pai é realmente o inimigo, declarado ou não. O “traste”, aquele que não serve para nada. E como isso se acentua até a crueldade nas situações em que os pais se divorciam. Todo o ódio de que uma mulher é capaz, toda a sede de vingança por responsabilidades que ela não quer assumir sobre as escolhas que fez na sua vida e que despeja nesse outro, confortavelmente banido da esfera familiar, como se apagar um pai resolvesse os problemas de uma mulher. Ou de seus filhos. Ou garantisse o ser feliz. Ou evitasse de envelhecer. Não estou dizendo que todas as separações partem ou desembocam nisso, mas muitas sim. Tão clichê como o lugar do pai é esse pai “inimigo” no momento em que o casal se separa. Uma pequena vingança, um acerto de contas jogado nas costas dos filhos que viram joguete nas mãos dos adultos, cada um mais preocupado em destruir a imagem do outro do que em se dar conta que, para os filhos, sempre haverão aquele pai e aquela mãe. E que quanto mais se destrói um ou outro, mais se destrói algo nos próprios filhos que estão ali. Mães podem ser muito cruéis às vezes, de uma crueldade destruidora.

Pais também podem ser cruéis. Pais que se ajustam à perfeição nesse lugar de tirano provedor e maltratam seus filhos desde sempre, agindo com violência ou com negligência extremas, apenas “porque podem”. Como se filho fosse direito adquirido e tivessem uso fruto daquele outro ser, podendo dispor de seus corpos, de suas mentes, de seus serviços. Filhos a serviço dos pais e da crueldade dos pais. Pais que quebram seus filhos de muitas maneiras que não apenas por meio da violência física. Por vezes, há uma mãe que defende. Noutras, bem piores, há uma mãe que goza da situação e que se sente também no direito de dispor desses filhos como se fossem objetos. De seus desejos, de seus caprichos, de sua violência. Pais e mães podem ser muito cruéis. Entre si e com os seus filhos.

Estou mencionando esses exemplos tão extremos para dizer que, a meu ver, é tão difícil ser pai quanto ser mãe e não há nada de natural tanto em um quanto em outro. Deixados à própria sorte e aos clichês que atravessam o ser pai e o ser mãe hoje em dia, acabam mais propensos às radicalidades da ausência, da negligência ou da violência tanto quanto as mães, se deixadas a si mesmas, acabam muitas vezes tomadas pela onipotência, pela violência e pela arbitrariedade. Para a psicanálise, a natureza (e o natural, se é que isso existe) é a violência. E tudo o que se faz para minimizá-la é fruto de um esforço de civilização. O contrário da idéia de que o homem é bom e a sociedade o corrompe. Se quisermos mais do que o clichê instituído, é preciso trabalhar bastante. Pessoal e socialmente.

Então, há homens que são tocados por essas questões e por essas demandas. E não querem ficar no clichê. E querem sinceramente inventar uma paternidade que faça sentido e que seja recheada de algo mais do que o estereótipo vazio do ser pai. E, então, vem a mulher e enche o sujeito de críticas, acaba com a criatividade e a espontaneidade dele, tudo castra. Não é assim que dá banho, comida… não é assim que cuida… não é assim que fala… Putz! E depois reclama de ter ali um homem acuado, distante, indiferente, pouco participativo. Bom, como faz? Afinal, o que realmente queremos? E estamos verdadeiramente dispostas a pagar o preço do que queremos que, nesse caso, é o preço de partilhar um poder? Cabe aqui a questão.

Tenho algumas sortes na vida. Uma delas é a de ter um excelente pai, amoroso como o quê. Mas que, por sua forma mais silenciosa de expressar esse amor do que minha mãe, me deu muito trabalho até que eu percebesse os gestos, as atitudes de carinho, as preocupações, os orgulhos, as partilhas. Foi meu pai quem me ensinou que, muitas vezes, a gente tem que aprender a decodificar os sinais do amor e do cuidado vindos do outro, pois eles não necessariamente aparecem do jeito que, para nós, seria o mais evidente. E esse pai se tornou um belo de um avô, de um coração transbordante, capaz de coisas inimagináveis para quem o conhece do lugar de filha e que, por sorte, minha pequena vai conhecer logo mais.

Tive também um avô maravilhoso, que parece ter sido um pai muito difícil, mas que soube tirar água de pedra de si mesmo e transformar toda sua dureza em um amor cálido, suave e generoso com os netos. De uma beleza ímpar e de gestos simples e grandiosos, ele nunca precisou dizer que amava o amor que era evidente que tinha por nós.

E, agora, tenho ao meu lado um homem incrível, que se engajou comigo em um projeto imenso de vida, que é esse de tornar-se pai e tornar-se mãe. De coração aberto, se jogou de cabeça, confiando que nós seríamos e seremos capazes de fazer três de dois e que isso seria uma experiência de felicidade. Não fosse por mais nada, o simples fato de fazer essa aposta junto comigo já mereceria todo o meu respeito e toda a minha gratidão. Gratidão não por se tratar de um favor ou de uma concessão que ele me tenha feito, mas porque penso que é questão de agradecer mesmo todas as escolhas não obrigatórias que fazemos ao dividir parte de nossa vida com um outro. No amor ou na amizade.

Mas ele é um desses “pais modernos”, desses que eu mencionei no começo e que parecem um milagre de capa de revista, lindos e bem resolvidos com essa vontade de ser pai. Mas um pouco perdido nessa posição. Como um homem curioso, ele se apaixona pela barriga que mexe e deve ficar imaginando quem é que vai sair dali. Discreto, ele tenta respeitar e apoiar as vivências intensas que a “dona da barriga” tem tido, nesses nove meses de quase possessão. Os gestos, os cuidados, as tentativas de partilha estão todos ali, para quem quiser e puder perceber. Acho que um homem como esse merece toda a generosidade de uma mulher para ele poder ser o pai que ele quer ser, não?

Cuidemos bem dos pais dos nossos filhos. Vários deles estão dispostos a se reinventarem de maneiras incríveis para ocupar esse lugar.