Por que eu não faria uma cesariana

Começo com a ressalva, para evitar mal-entendidos: se você fez uma cesariana ou quer fazer e está bem com isso, esse texto não é para você. Se você fez uma cesariana ou quer fazer e não está bem com isso, ou está em dúvida, ou insegura, ou com a pulga atrás da orelha, talvez esse texto seja para você. Mas já adianto que não é um texto muito condescendente e talvez te irrite, te aborreça, te deixe com raiva. Em qualquer dos casos, desculpe-me de antemão. Minha intenção não é te agredir. Apenas pensar em voz alta, por escrito, segundo meus valores e minhas crenças…

Um dos textos mais lindos e delicados sobre parto que eu já li é de uma mulher que ainda não pariu, a Juliana. Ela explica por que quer um parto normal, natural e humanizado para trazer ao mundo seu bebê. E concordo integralmente com o que ela diz.

Tive a sorte de ter um parto humanizado. E não apenas a sorte, visto que só foi possível ser assim após muita reflexão, informação e trabalho. Mesmo aqui na França, os partos são normais mas nada humanizados. E pouca gente parece se preocupar com isso. Mas eu me preocupei e consegui entrar em umas brechas do sistema e ter o parto que considerava o mais respeitoso e cuidadoso para minha filha.

Quando qualquer um escreve defendendo o parto humanizado, imediatamente pipocam centenas de comentários, na maior parte das vezes de mulheres que são mães e tiveram seus filhos por cesariana, defendendo essa via de nascimento com unhas e dentes. Porque isso não as faz menos mães. Como se alguém tivesse dito o contrário. Mas essas mulheres, empurradas para um procedimento cirúrgico desnecessário, altamente invasivo e debilitante e não sem consequências para ela e para o bebê parecem ter a necessidade de acreditar que sua opção não foi tão ruim assim. Mas sempre fica uma pulga atrás da orelha cutucando e corroendo o coração e o pensamento, né? E isso dói muito, cada vez que alguém toca no assunto.

Conheço mulheres que passaram por cesarianas de emergência sob os mais diversos argumentos. Sempre bom lembrar que existem poucos reais argumentos para uma cesariana e centenas de falsos pretextos, frutos da ganância do sistema hospitalar, da conveniência e da incompetência dos médicos e – por que não? – da desinformação e dos valores de mães, pais e da sociedade em geral. Ainda assim, tem gente que passa por uma cesariana de emergência por algum real motivo. E gente que passa por isso sem motivo algum. E até mesmo gente que escolhe passar por isso. Por quê? Não faço idéia. Ou melhor, tenho algumas idéias a respeito.

Mas isso fica para outra hora. Aqui, apresento a minha lista de por que eu não faria uma cesariana, a não ser que fosse realmente necessário.

  • porque nós mulheres parimos desde que a espécie humana existe e nunca precisamos de nenhuma intervenção para garantir que continuaríamos existindo. Ou seja, sabemos parir e podemos fazê-lo há milhares de anos.
  • porque não vejo nenhum sentido em utilizar um recurso quando ele não é necessário: por que optar por uma cirurgia se o bebê tem todas as condições de nascer naturalmente?
  • porque detesto intervenções médicas. Não faço plástica, não faço nada que não seja preciso. Não tenho a menor vontade de dar chance para o azar de um erro médico.
  • porque os médicos erram e a medicina é falível. Embora nunca nos digam, os médicos erram e a medicina é uma ciência totalmente apoiada em acertos e erros. E eu não tenho nenhuma intenção de constatar essa falibilidade da medicina na hora de botar um filho no mundo.
  • porque, ao contrário do que se diz, existem mais mortes de mães e de bebês por conta da cesariana e de outras intervenções praticadas no hospital do que por conta de partos normais que deram errado. Quer dizer: há mais cesarianas que dão errado do que partos normais, que tal?
  • porque um hospital, mesmo uma maternidade, é um terreno fértil para vírus, bactérias e toda sorte de porcarias que podem acabar te dando de brinde, além da cirurgia, uma bela infecção hospitalar.
  • porque não tenho a menor vontade de passar por um cirurgia imensa, em que todas as camadas até o meu útero serão cortadas e depois costuradas. E não tenho nenhuma vontade de passar pela recuperação dessa cirurgia depois.
  • porque, ao contrário do que dizem, você passa os dias seguintes com dor, sem conseguir se mexer direito, correndo risco dos pontos abrirem, infeccionarem, entupida de remédios… é uma cirurgia, minha gente, sacou?
  • porque não tenho a menor vontade de passar os primeiros momentos com o meu bebê amarrada, sem poder mexer os braços, sem poder tocá-lo, acolhê-lo, confortá-lo. O bebê chorando ali desesperado, precisando de mim e eu ali, toda aberta, anestesiada, sem poder fazer nada, tendo que me contentar em dar um beijinho e vendo ele ser levado para longe de mim, para poder revê-lo apenas muitas e muitas horas depois? Se isso não é de uma crueldade sem tamanho, então não sei o que poderia ser.
  • porque não quero que a primeira experiência que o meu bebê tenha desse mundo seja ser arrancado da minha barriga sem prévio aviso, por mãos indiferentes, para uma sala gelada e super iluminada, cheia de rostos estranhos e sem nenhum acolhimento. E que ele seja furado, esticado e virado do avesso em procedimentos que não precisam acontecer nesse momento e que apenas aumentam a violência com que é recebido. Para finalizar indo para um berçário, sendo lavado, vestido e deixado ali com outros bebês a chorar, naquele ambiente totalmente inóspito. Quem em sã consciência quer apresentar o mundo a seu filho dessa maneira quando tem outra opção?
  • porque parto normal dói menos do que cesariana. A prova? Não existe cesariana sem anestesia, né? Enquanto que um parto normal pode dispensá-la e, ainda assim, ter muito pouca dor.
  • porque quero ser agente do meu parto. Quero poder decidir, quero poder seguir o meu ritmo e o ritmo do meu bebê. E não ser objeto e deixá-lo ser objeto nas mãos de uma terceira pessoa que vai decidir tudo por nós sem nos consultar e sem considerar quem somos e o que queremos, apenas baseado naquilo que julga que precisamos.

Eu te digo o que é que você deve fazer.

Demorou um tempinho entre saber que estou grávida e decidir tomar as coisas em mãos. Precisamente o tempo suficiente para me lembrar de todos os amigos e familiares que tiveram filhos em um período recente. Quando comecei a pensar no que muitos deles viveram, entrei em pânico. Não quero isso para mim, nem para o meu bebê. Isso o que? Todas essas pequenas, cotidianas e violentas arbitrariedades das quais você e o pequeno são objeto a partir do momento em que se constata sua gravidez. A palavra é boa e precisa – objeto – pois é aquilo em que você se transforma quando entra em cena todo o aparato médico que vai se desdobrar para cuidar da sua condição.

A coisa já começa esquisita. Se pararmos para pensar, essa história de gravidez e parto serem associadas ao cuidado médico é bem recente. No Brasil, apenas nos anos 70 é que se institucionaliza o acompanhamento médico para gravidez e parto e a preferência para que o segundo aconteça no contexto de um hospital. Até então – e olha que temos aí para trás alguns milhares de anos de experiência – gravidez fazia parte da vida e parto era feito em casa, com a ajuda de alguém que pudesse te acompanhar nessa experiência. 

Ok, existiam riscos, existiam complicações, existiam desconhecimentos, existiam seqüelas, existiam perdas. E quem sabe a medicina ajudou eficazmente a diminuir tudo isso instituindo meios de prevenção, previsão, precaução e afins. E talvez isso tenha melhorado a qualidade de vida da mãe que dá à luz, assim como dos bebês que nascem. Que bom que seja assim.

Mas acontece que não é apenas isso que essa medicalização da gravidez traz. Sob o pretexto da prevenção e do cuidado, muitas arbitrariedades são feitas, muitas pequenas grandes violências são cometidas ao longo do percurso a ponto de tornar aquilo que sempre foi parte da vida em algo perigoso, arriscado, para o qual a mulher nunca está suficientemente preparada e em que é necessário intervir. Intervir para controlar. Intervir para corrigir um desvio de rota.

Um exemplo: a cesariana. Por que é que o Brasil tem tanta cesariana? Será que é porque tantas mulheres assim apresentam algum risco ou complicação no final da gestação? Aqui na França, se qualquer hospital ou maternidade apresentasse a porcentagem de cesarianas que os hospitais e maternidades apresentam no Brasil, ele seria imediatamente auditado, multado e o escândalo apareceria em toda a mídia. E olha que os franceses adoram um protocolo médico e são tão ou mais tomados por essa tentativa de tudo controlar e tudo prevenir do que nós. Mas não passa pela cabeça deles que uma situação como uma gestação que, na maioria das vezes, se encaminha naturalmente para seu desfecho, deva ser manipulada para servir aos interesses dos médicos, das maternidades e dos equipamentos que precisam dar lucro e se pagar. Ou não é bem estranho que em meio aos altíssimos índices de cesarianas no Brasil os recordes sejam batidos pelos hospitais e maternidades particulares dos centros mais ricos do país?

Conclusão? Das duas uma: ou o brasileiro é um povo altamente doente que precisa de intervenções médicas nesse nível, porque nem parir mais sabe, ou houve uma tal inversão de valores que transformou em normal aquilo que deveria ser – como é em muitos e muitos outros cantos desse mundo – uma exceção.

Será que é algo cultural querer fazer uma cesariana? Querer programar, escolher dia a hora, agendar o buffet, escolher o signo do bebê, a melhor conjunção astral possível? Será uma tentativa de controle, de ter o melhor possível, de forçar que o melhor aconteça? Ou será o medo inculcado na cabeça da gente pelos filmes, pelas histórias, pelos médicos de que parto normal é horrível, dói, sangra e é coisa de masoquista? Quem vai querer passar por dor e sofrimento, não é não? Junte-se a isso a história de que seu períneo rasga, afrouxa e de que o seu companheiro não vai mais gostar de transar contigo depois e… pronto! Não há argumento que vença o combo sofrimento + risco de perder o amor do outro. Até ir para a faca parece melhor do que isso.

Tenho descoberto alguns textos que falam a esse respeito e tentam desconstruir esse estado de normalidade que se tornou considerar a gravidez e o parto como objetos da intervenção médica. Um dos mais interessantes é esse aqui. Recomendo, é um alento. Mas o assunto não é novo. Há umas boas décadas um tal de Michel Foucault escreveu uma obra prima a respeito de como caminhamos, ao longo das últimas centenas de anos, para uma medicalização generalizada da existência humana. Ele mostrou como isso se deu ao transformarmos a loucura em doença mental, lá nos idos do século XVII. Primeiro momento em que uma peculiaridade humana passa a ser vista como algo a ser segregado, tratado, curado. O louco foi o pai de todas as outras segregações de características humanas que se transformaram em problema, anomalia, doença. Tristeza virou depressão, infância virou inadaptação, gravidez virou risco. Apenas alguns exemplos. Fosse vivo, possivelmente Foucault teria uma ou duas palavrinhas a nos dizer sobre a maneira como essa patologização das subjetividades e sua consequente medicalização e normalização se estenderam por todos os cantos do existir humano. Até chegar à lugares tão improváveis e insuspeitos como a gravidez e o parto. Coisa triste…

Será que não estamos endossando essa pseudo-verdade de que tudo o que é humano é doente e problemático – e deveria ser corrigido – quando aceitamos sem pensar ou questionar tudo aquilo que o médico diz que temos que fazer ao longo de uma gestação ou no momento do parto, sob o pretexto de evitar riscos, prevenir problemas e garantir um maior controle sobre todos os imprevistos? Esse controle é real? E, mais ainda, ele nos convém realmente?

Hyeronimus Bosch: "A extração da pedra da loucura" (1475-80)
Hyeronimus Bosch: “A extração da pedra da loucura” (1475-80)