As mudanças em ti, as mudanças nos outros.

Tenho uma amiga-irmã, grávida quase ao mesmo tempo que eu (porque amigas-irmãs compartilham quase tudo, menos marido e escova de dentes, hehehe) que deu a melhor definição de como se defender dos palpites e das invasões que nos assolam desde que as pessoas, próximas ou não, tomam conhecimento de que estamos grávidas. Sabe aquela invasão básica e desagradável, feita sob o pretexto da boa vontade e de querer ajudar, mas que é sempre inconveniente, despropositada e oprimente? Pois bem, essa amiga-irmã definiu sua estratégia de defesa: já que não dá simplesmente para mandar todo mundo guardar seus palpites para si ou simplesmente ir tomar naquele lugarzinho sombrio e úmido, ela criou um botão de liga-desliga que funciona muito bem e que permite que ela mergulhe numa bolha de proteção a cada vez que alguém começa com a ladainha. E chamou o botão, carinhosamente, de sua esquizofrenia.

Uma grávida esquizofrênica, não no sentido patológico do termo, faz mesmo muito sentido, já que aprendemos na marra ao longo desses 9 meses que é necessário cindir, separar, desligar-se do mundo em muitos momentos para proteger a si e à cria nesse complexo e introspectivo ato que é gestar um bebê. Vai ver que é por isso que ficamos tão distraídas, tão desligadas, tão desatentas, memória tão curta… tudo concentrado naquilo que é o mais importante: o bebê, seus sinais, seus movimentos, a gestação, seu corpo, o corpo dele… Se existe uma sabedoria na natureza é essa de fazer uma mulher grávida ser capaz de desligar de tudo o que é apenas tormenta e voltar-se para o que realmente importa.

E, acreditem, o que menos importa é aquilo que os palpiteiros têm a te dizer. Não há conselho estapafúrdio, história trágica de meter medo, história cor-de-rosa de fazer sentir que você é uma porcaria de mãe porque contigo nada é tão perfeito assim… não há palpite ruim que não possa ser encontrado em mais trezentas bocas de trezentas outras pessoas. Ou na internet. Ou em livros. Ou em blogs. Ou seja, não se preocupe em não prestar atenção porque você não há de perder nada que não será repetido mil vezes nas suas exaustas orelhas de gestante. E cada vez será tão inútil quanto na primeira. E tão nocivo, invasivo, aflitivo quanto. Então, esquizofrenia sem dó. Cisão. Separação. Palavras inúteis para um lado, você para o outro. Na sua bolha de gestar. E de cuidar do que realmente importa.

Acontece que tenho descoberto algo curioso em relação a essa invasão palpiteira. Aliás, duas coisas que têm me impressionado bastante e que compartilho aqui. Talvez o fato de estar em outro país torne essas constatações ainda mais gritantes. Vamos ver.

A primeira é que os palpiteiros de plantão parecem ser, por algum motivo que não mera coincidência, as pessoas menos próximas de você. Nunca é alguém com quem você compartilha de sua intimidade e de sua confiança. Nunca é o melhor amigo, ou o parente querido. Esses, na medida em que você gesta e em que sua vida muda, parecem entrar numa espécie de sintonia muito fina e cuidadosa contigo. São aquelas pessoas amadas que perguntam antes de afirmar, que querem saber, que têm ouvidos disponíveis e braços para abraços apertados, que falam com cuidado, que são generosos em seus dizeres, e que te deixam muito mais falar do que te obrigam a ouvir, ou que te acompanham nos seus silêncios.

Ao menos comigo, as pessoas que vêm palpitar já se destacam de cara por essa falta de proximidade, essa insensibilidade, essa falta de ouvido, essa pressa em vomitar suas verdades, esse desconhecimento e essa falta de interesse por aquela pessoa com quem estão falando. Elas não falam para mim, mas para si mesmas, para se convencerem de algo, para descarregarem algo, para imporem suas certezas que não toleram nenhuma diferença, nenhuma discordância. Não é conversa, é monólogo. E, como todo monólogo, é chato, desinteressante, enervante. E quando a gente engravida, nossa tolerância para esse tipo de coisa, felizmente, parece atingir o nível próximo de zero. Ainda bem! Liga-desliga. Esquizofrenia gravídica. Talvez fosse algo que merecesse até ser levado para a vida inteira, não?

Agora, como consequência direta dessa primeira constatação sobre os “cheio de opinião”, a outra coisa que descobri em relação a essa invasão palpiteira durante a gravidez e, dizem, mais ainda depois do nascimento do bebê (socorro!) é que ela te deixa, mulher grávida, em uma situação de imensa solidão. Porque conversa que não é conversa não alimenta, não faz companhia, não ajuda em nada e não permite troca alguma. Preenche apenas o tempo com um recheio inútil e que faz sofrer. E companhia de verdade nesses momentos, como talvez em todos os momentos da vida, é muitíssimo rara.

Não é só a gente que muda quando engravida. Os outros ao nosso redor também mudam muito, quer queiram ou não. Reagem de maneiras que provavelmente não fariam se parassem um segundo para pensar no que já viveram em suas próprias gestações, ou nas que viram outros viverem, ou em suas próprias experiências de vida e em seus valores, sendo pais ou não. Tem gente que se afasta como diabo que foge da cruz, como se de repente você não fosse mais parte daquele mundo hype e descolado em que todo mundo sempre está a viver coisas interessantíssimas, uma vida de luxo, poder e glamour bem diferente da perspectiva de um cotidiano de fraldas, mamadas e noites de sono entrecortado. Gente que sempre militou pelo respeito à diferença e às diferentes escolhas de vida passa a ter dificuldades com a sua mudança de vida. Assim como aqueles que sempre priorizaram o trabalho intelectual acima de tudo passam a ter dificuldades com a sua escolha em priorizar sua gestação nesse momento, como se você se tornasse uma traidora da causa do trabalho, da intelectualidade, do pensamento, do feminismo, da autonomia… E ainda tem gente que sempre te estranhou por não fazer parte do “status quo” e não seguir os caminhos padrão e que, agora, vêem na sua gestação uma escolha por se enquadrar que as tranquiliza. Você passa a fazer parte da turma e elas logo querem te integrar no maravilhoso mundo do que elas pensam ser a maternidade.

Assim como nós reagimos de modos os mais inusitados quando nos descobrimos grávidas, eis que as pessoas também reagem. Se afastam, nos deixam na promessa do papo, da visita, do email que nunca chega. Ou se aproximam, nessa tentativa tosca de te encaixar em algum lugar, te invadindo com as certezas que são delas a respeito de quem você é ou do que você quer. Mas quem se afasta a partir de estereótipos nos quais passa a te ver ou quem se aproxima por te encaixar em novos clichês, o que eles podem saber realmente a respeito daquilo que você vive?

Tenho pensado que o momento da gravidez é um momento de faxina geral, em que tudo se abala não apenas dentro como fora, na vida, com as pessoas. O que permite que a gente faça uma triagem e consiga separar o joio do trigo ao longo desses meses. Sem muito esforço, porque a excitação é tanta ao redor de uma grávida que as pessoas mostram escancaradamente a que vieram. E fica palpável quando você está sozinha na presença de alguém ou quando existe ali verdadeiramente uma presença de quem faz questão de estar ao seu lado. Momento de faxina providencial, até para saber com quem contar. Pois uma das alegrias desse momento de gestação é justamente que nas brechas entre a esquizofrenia e a solidão surgem algumas pessoas fundamentais que se revelam em palavras e gestos amorosos, generosos, amigos, companheiros. Uma mensagem breve enviada em um momento importante. Um telefonema. Um email. Uma visita. Um papo aqui, outro acolá. Gestos que fazem toda a diferença. E fazer a faxina, separar joio do trigo, trabalhar o liga-desliga são nada mais do que formas de fazer justiça a esses gestos. Cuidar do que realmente importa. Dentro e fora. Cuidar de quem realmente importa.

Outras sobre as mudanças em você, nesse post aqui.

Sétimo mês? Putz!

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E a gente começa a se perguntar se já não é o suficiente. Porque sim, eu sei, esse último trimestre é extremamente importante para a pequena ganhar peso, desenvolver os pulmões e ficar linda e saudável e prontinha para nascer. Mas a questão que me assola é: onde é que vai caber mais bebê dentro desse corpinho limitado e pelos próximos dois meses? A barriga já cresceu para todos os lados, os músculos dão sinais de estarem em sua extensão máxima, tudo parece caminhar para uma explosão iminente. Sabe aquelas brincadeiras de criança em que você enche a bexiga até ela estourar e tem um momento em que parece que não vai dar mais e a bichinha distende, distende, fica fininha, fininha, transparente e… bum! Então… E como nessa busca por espaço cada milímetro deve ser otimizado, a pequena achou por bem alojar seus belos pezinhos sob as minhas costelas. O que significa cócegas nas costelas, dedadas nas costelas, alongamentos nas costelas, chutes nas costelas… socorro! Aliás, eu que nunca entendi direito para que as tais costelas serviam, acho que finalmente captei: são a barra de exercícios do bebê na barriga, as danadas.

E todos os órgãos que se alojavam confortavelmente nesse espaço? Bom, minha teoria é que agora todos se acumulam no espaço entre meu osso externo e a minha garganta. O estômago, por exemplo, foi parar na garganta, tenho certeza absoluta. Basta comer qualquer coisa tão infinitamente pequena como um amendoim e ele já dá sinais de vida ali, na garganta, onde tudo entala e permanece por horas e horas e horas e horas… E como conciliar a fome com o embolamento do estômago que você sabe que vai vir a cada vez que você comer porque, simplesmente, ele deve estar morando ali na sua garganta junto com as suas amídalas, seu coração, seus pulmões, seus rins, seu pâncreas, seu fígado… Todo mundo enlatado feito sardinha no ônibus do final do dia.

E a bebê nas suas costelas. E você já não enxerga mais nada abaixo da sua barriga. E seus pés se tornaram seres distantes e alienígenas qual um E.T. com quem você passou a ter grande dificuldade de fazer contato. E.T. phone home. Venham, venham para casa pezinhos, venham para a mamãe que existem unhas a serem cortadas. Bom, além de entender a utilidade verdadeira das costelas, renovei meus amores pela manicure.

A sorte é que no sétimo mês a gente se diverte arrumando o quarto, as coisas do bebê, brincando de decoradora, arquiteta, pintora, personal stylist, lavadeira, passadeira. Deve ser o modo de adiantar tudo para tentar adiantar o tempo e acreditar que é para logo em breve. O tempo, ah, esse senhor que se revela em toda a sua complexidade quando estamos grávidas, passando tão depressa e tão devagar a ponto de deixar qualquer um maluco. Einstein devia ser uma mulher grávida quando inventou a teoria da relatividade.

E a tal curiosidade? Como será o rostinho dela? Será o nariz da mamãe ou do papai? O sorriso da mamãe ou do papai? E as mãozinhas? Os pezinhos, esses danados que eu vou morder muito depois que a pequena nascer, só para descontar o dano costelento provocado. E o cabelo? Será que vai ter muito cabelo? E os olhos? E nisso se vai uma bela meia hora de devaneios, sonhos e tentativas de antecipar o tempo e saber do futuro que está logo ali, pés nas costelas e dois meses adiante. Esse futuro que tem nome, sobrenome, lugar, quarto, berço, roupas, fraldas, cortador de unhas, aspirador de nariz. E amor, amor de todas as partes e de tantas gentes que ela nem imagina.

Fica mais um pouco na barriga, bebê. Vamos cuidar desse pulmãozinho para você respirar bem esse ar fresco que tem feito aqui fora. E, por favor, nada de estragar esse belo trabalho que mamãe e papai fizeram virando fumante, ok? Ai, putz…

Um mundo de imagens

(version française: ici)

Não há dúvidas de que vivemos em um tempo de imagens, bombardeados por todos os lados por um excesso delas. O que aparece como imagem ganha ares de verdade, tanto a imprensa quanto a publicidade sabem bem disso. Ao longo de uma gravidez, não poderia ser diferente.

Não consigo imaginar como faziam as nossas avós. Ou até mesmo as nossas mães, antes da invasão desse mundo de imagens também para o que diz respeito à maternidade. Elas descobriam que estavam grávidas – sem teste de farmácia ou de sangue, vejam bem  – e a coisa toda devia acontecer ali, dentro delas, de um jeito bem enigmático. Os sinais deveriam se limitar apenas àqueles que o corpo dá: os enjôos, o cansaço, o ganho de peso, a barriga que aparece e muda de forma. Isso até o bebê começar a se mexer e esses movimentos sinalizarem da forma mais contundente que ali tem alguém. “Alive and kicking”. Até mesmo para saber o sexo do bebê era necessário confiar nesses indícios sinuosos, opacos, corporais, intuitivos… Barriga pontuda, barriga redonda e por aí vai.

Hoje em dia isso tudo virou praticamente lenda. Toda essa opacidade, todo esse mistério de uma gestação que envia seus sinais deu lugar à clareza, à contundência das imagens, dos exames, dos resultados. Como se tivéssemos jogado um feixe de luz intenso sobre os segredos de um corpo em gestação para, no lugar das dúvidas e das suposições, instalar certezas. Menino ou menina? Saiba antes, facilita na compra do enxoval e na escolha do nome. Claro que não serve apenas para isso, para o comércio, para o mercado, para ajudar no consumo. No entanto…

Um mundo de imagens nos invade ao longo da gravidez. Testes, exames, resultados, ultrasons. Tudo em nome de verificar a saúde e o bem-estar do bebê. Descartar problemas, descartar anomalias, descartar malformações… você entra em estado de alerta permanente, cada exame um risco, cada resultado um risco afastado. Como se a gravidez fosse um perigo constante de algo dar errado quando, na imensa maioria das vezes, ela simplesmente vai bem, obrigada. O que aconteceu para transformar uma gestação em uma situação de risco, a ser monitorada permanentemente, como se uma ameaça pairasse sobre a barriga de todas as grávidas e coubesse a esse mundo de imagens nos vigiar e evitar o pior? Quando foi que gravidez virou doença?

Fui ao tal ultrasom morfológico e o médico, muito gentilmente, me bombardeia com aquele excesso de clareza: o bebê tem duas mãos, cinco dedos em cada mão, dois braços, dois pés, duas pernas, dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca… Bom, mas é assim que tem que ser, não? Não ignoro que às vezes surgem problemas e que identificá-los a tempo pode fazer uma grande diferença para o bebê e para os pais. Não se trata aqui de um discurso obscurantista contra as vantagens de nosso tempo de luzes, longe disso. Mas, convenhamos que falar do que é o mais normal dessa maneira faz qualquer pessoa ficar com o coração apertado, sentindo que tem muita sorte de tudo estar tão bem… Mas não! É assim! É assim que as coisas são, ninguém está te fazendo um favor ou uma caridade de te dizer que teu bebê é “normal”. Mas ali, na sala de exame, você sente como se tivesse que agradecer essa concessão que o médico e o mundo das imagens te fizeram por não te anunciar algum dos inúmeros perigos que ameaçam a você e ao seu pequeno.

Mas, ainda bem, não é só isso. Em meio a essa perversão toda de como se pode viver uma gestação nos dias de hoje, algumas vezes as imagens e seu facho de luz conseguem servir a coisas mais interessantes. Nesse mesmo ultrasom, depois do choque inicial de ter que agradecer aos céus pelo bebê ter duas mãos, dois pés e etc, consegui ter sangue frio o suficiente para parar de prestar atenção no que o médico estava dizendo – pode fazer isso sem culpa, depois vai tudo escrito no laudo mesmo – e começar a ver aquilo para o que estava olhando… O bebê ali, todo bonitinho, sacudindo os braços, cruzando e descruzando as pernas, jogando pernas pro alto, balbuciando, chupando os dedos… em meio ao bombardeio, eis ali o bebê, o meu bebê, o nosso bebê todo faceiro, fazendo graça, brincando e se divertindo na barriga da mamãe, que é a barriga do bebê agora. Como não se emocionar com isso?

Não tem jeito, eu sou uma mulher da época das imagens. Eu trabalho com elas, as imagens das artes, as imagens dos meus pacientes, dia após dia, de seus mundos de sonhos. A imagem do bebê traz para mim mais senso de realidade do que os enjôos, o cansaço e todos aqueles sinais insondáveis que minha mãe e minhas avós sabiam tão bem ler e que eu perdi. O excesso traz, às vezes, a exceção, o caldo de imagens que consegue fazer com que algumas dentre elas se destaquem, fiquem mais importantes do que as outras e causem uma marca indelével em quem as viu. Acontece, às vezes, na arte. Acontece, às vezes, até mesmo em um ultrasom.

Ron Mueck: "A girl" (2006)
Ron Mueck: “A girl” (2006)

Todos os tempos da gravidez…

Sempre achei que o tempo não passa de forma linear, mas em blocos. Você passa boa parte da sua vida se percebendo com uma certa idade e, de quando em quando, toma um choque frente ao espelho, ou quando alguém te chama de senhora pela primeira vez, ou quando não faz idéia de quem seja Justin Bieber, ou em qualquer situação em que seu corpo ou sua cabeça dão mostras de que não acompanham mais tão agilmente o ritmo frenético dos acontecimentos de cada dia… Enfim, algo acontece e todo o peso dos anos passados desapercebidos cai sobre suas costas de uma vez só: tudo mudou, você é quem não tinha visto.

A persistência da memória - Salvador Dali - 1931
A persistência da memória – Salvador Dali – 1931

Na gravidez o tempo parece que passa também dessa forma engraçada, aos trancos e barrancos, seguindo ritmos de luas, de semanas, de sonos e sonhos… O corpo revoluciona e convulsiona e trabalha sem parar para se adaptar à todas as mudanças e isso dá um cansaço danado que faz com que tudo ande beeeem mais devagar. O corpo corre, o corpo pára. E a cabeça faz o mesmo, borbulha todos os pensamentos os melhores e os piores e cozinha tudo ali, o tempo todo, um caldo de idéias e sensações que fica de ruído de fundo para todos os pensamentos que têm que ser pensados, todos as ações que devem ser feitas, todo o cotidiano que deve ser cuidado e que não entra em modo “pause” somente porque você está grávida e precisa de tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo… Como ganhar tempo quando se tem prazo? Porque nem o bebê vai poder esperar você arrumar a sua vida, a sua cabeça, a sua casa, a sua relação… até porque sabemos bem que se o bebê e a vida fossem esperar o nosso momento ótimo, putz, coitados, né? O bebê completaria cem anos ali na barriga e a vida teria parado no homem de Neandertal, que estaria até agora pensando se estaria pronto ou não para se misturar com o homo sapiens…

 

Bom, se o tempo urge, também é reconfortante saber que temos ainda algum um tempo. Em poucos meses as coisas vão mudar ainda mais e o bebê vai precisar de muito mais do que aquilo que dá para garantir ali no quentinho da barriga sem precisar pensar muito porque o seu corpo sabe bem o que fazer. Ufa. Mas quando o pequeno estiver ali fora, no mundo, vai precisar de um pouco mais do que necessita hoje. Ou melhor, possivelmente vai precisar das mesmas coisas, mas de um outro jeito, no qual precisará um pouco mais de você. Deve ser quando o peso todo do mundo e da vida tomba novamente sobre as suas costas e você vira mãe. Vi isso acontecer uma vez, uma cena linda e tocante, quando meu sobrinho chorou no quarto da maternidade e apenas minha irmã e eu estávamos presentes. Nos entreolhamos, como quem se pergunta: cadê a mãe desse pequeno para nos acudir? E, em menos de um segundo, minha irmã passou da dúvida ao susto e desse à constatação de que a mãe era ela, de que não havia nenhuma outra, apenas ela para ser mãe daquele bebê ali, naquele instante. E acudir. Acho que ela envelheceu uns 10 anos em poucos segundos. E virou mãe também.

 

Atlas.
Atlas.

Mas para que esse blog?

"O sono da razão produz monstros", Francisco Goya, 1799
“O sono da razão produz monstros”, Francisco Goya, 1799

Então é assim: você descobre que está grávida e as portas de um novo mundo se abrem para você. Bem-vinda ao seleto clube! Cinco minutos de espera para o teste de farmácia e sua vida muda. Ou melhor, já tinha mudado e você tem a confirmação. Parabéns! É o que todos vão te dizer. Eu inclusive. E imediatamente te encaixam em uma nova categoria: a grávida. Deal with it. Você não é mais aquela pessoa singular que sempre foi, você não é mais os seus projetos, suas esperanças, sua vida, sua história. Você é a grávida e encarna – literalmente – uma imagem padrão que todos acham que entendem e com a qual todos vão se relacionar de agora em diante. Vão conversar com a grávida, vão te contar histórias de grávida. E vão assumir que sabem exatamente quem você é e o que você sente porque sua condição de grávida passa magicamente a definir todo o seu ser. Não sobra espaço para nenhuma individualidade. Putz…

E então, o que é que você faz com tudo aquilo que você é e sente, especialmente agora? Porque, convenhamos, você descobre que está grávida e a cabeça, o corpo, o coração… tudo vira um turbilhão, uma avalanche de intensidades. Mas, como na nossa sociedade, na nossa cultura e no imaginário de cada um de nós estar grávida e ser mãe significam apenas a mais pura experiência de felicidade que um ser humano pode ter, qualquer coisa que escape disso está condenada ao silêncio. Ninguém fala. As mães não falam. Ficam abandonadas e sozinhas com tudo aquilo que convulsiona dentro delas, todos os medos, todas as ambigüidades, todas as dificuldades, todas as incertezas… Imagino que para os pais seja parecido. Todos têm que estar felizes. Muito. E apenas felizes. Nada mais. Entendeu?

Ninguém nos disse, ninguém vai nos dizer e, quando chegar a nossa vez, também não diremos a ninguém. Psicanalista que sou, com mais de uma década de experiência em consultório, eu sei bem o que é o conflito dilacerante que se instala em cada um quando temos que ser adaptados a um ideal que, no fundo, no fundo, ninguém consegue atingir a não ser nas aparências. Já testemunhei muita gente destroçada por não conseguir ser o que “deveria” e por não se autorizar a ser aquilo que pode, quer, aquilo que faz sentido. Construir um caminho singular e respeitar essa singularidade é sempre o mais difícil, custa caro, exige assumir uma responsabilidade por si mesmo e se tratar com um tal respeito que, na maior parte das vezes, não estamos dispostos a oferecer a nós mesmos. E as pessoas ao redor também não ajudam. Pressionadas que são a vida toda por também se enquadrarem, dificilmente elas podem oferecer outra coisa que não a imposição devolvida de que você faça o mesmo.

Se isso é verdadeiro para tudo o que somos nessa vida, o que dizer dos momentos ditos importantes, decisivos? Escolher uma profissão, ter um relacionamento, ter filhos. Nessas horas, a pressão pesa a ponto de esmagar e você vira gado, vira aquilo que faz, vira uma condição, um estado… Nada de ser você e ter alguma liberdade para entender como você fica no meio dessa história. Ou o que você quer. Ou como quer. Não cause problemas, não invente moda. Cale-se. O silêncio que todos os outros foram obrigados a depositar nesse mesmo altar pesa mais do que o mundo nas costas de Atlas e, de você, espera-se tão somente o mesmo.

Uma vez que você engravida, e que a novidade se torna pública, toda e qualquer pessoa da face da Terra terá uma opinião e/ou uma “ótima” dica para te dar. Mesmo quem não te conhece. Porque você é a grávida, lembra? Então qualquer um sabe quem você é, o que sente, do que precisa, o que é bom para você. E ninguém vai se furtar a te dizer isso. Todas as dicas do mundo, todas as opiniões do mundo, “faça isso”, “coma aquilo”, “não faça isso”, “é assim”… Todas as dicas do mundo, todos os livros que te explicam minuciosamente o que está acontecendo – sério? – todos os sites, blogs, fóruns… Não encontrei praticamente nenhum em que alguém dissesse alguma coisa que fugisse ao padrão: “momento lindo”, “milagre”, “estado de graça” (e quando encontro, indico aqui). Ah, claro, pode ser que você se sinta diferente disso, mas daí se enquadra no item “depressão” e isso é doença, algo que tem que ser tratado, que é para você ficar logo como todo mundo e não criar problemas. Para você, para o bebê, para os outros… E a culpa por criar problemas? E o medo de que o mero ato de pensar ou de sentir prejudique teu filho? Afff… impensável. Melhor passar 9 meses dormindo e esperar que tudo isso que cozinha ali dentro saia e desapareça. Não sei como, mas de preferência de um modo inodoro, incolor e imperceptível. O problema é que gente não funciona assim, né? Gente não vem com botão de “delete” e muito menos com comando para reformatar. Droga…

Eu penso que dizer que algo não é normal ou que não deveria existir não faz com que aquilo desapareça. Muito pelo contrário. Apenas te deixa sozinha com aquilo que te assombra e te faz sofrer calada, às vezes mais, às vezes menos, mas sempre de uma maneira dolorosa. É exatamente por isso que até hoje eu tive muito com o que trabalhar, porque tudo aquilo que fica jogado em baixo do tapete não desaparece… e retorna, retorna, retorna… Não seria melhor encarar não?

As mães não falam porque nos foi ensinado que falar é errado, que o certo é viver apenas o lado bom da maternidade. E, sinceramente, ele existe. Mas eu me propus a voltar a escrever um blog, depois de tantos anos e de tantas vidas vividas porque, ao menos aqui, posso deixar marcado o que eu sinto, o que eu penso, o que eu estranho nesse momento, o que me surpreende, e o que me choca. Não apenas em parte, não apenas o que todo mundo quer ouvir e espera, porque para isso ninguém precisa de um novo blog, já tem um bilhão de coisas escritas, vamos poupar olhos e ouvidos de tanta repetição das mesmas informações, né? Então, como disclaimer a meu respeito e a respeito desse blog que inicio junto com essa história dentro da minha história que começa agora, quero dizer que:

  • sim, estar grávida é uma coisa maravilhosa e poucas coisas nesse mundo proporcionam uma sensação de plenitude, de alegria e de aposta na vida com tanta intensidade quanto a perspectiva da maternidade…
  • mas isso todo mundo sabe, é o que todo mundo diz e espera de você… é como todo mundo inclusive você mesma querem que você viva essa experiência…
  • só que ela não é apenas isso e, como cada coisa importante da vida, tem infinitas facetas, contraditórias, complexas, estranhas, subterrâneas…
  • e ninguém fala disso porque parece errado e feio…
  • e a gente fica em silêncio esperando que passe e que a gente passe a sentir como todo mundo…
  • até mesmo porque, tem tanta coisa boa acontecendo, por que olhar para esses “pequenos detalhes”, né?
  • e ninguém fala disso…

Então, falo eu.