Ter irmão…

Enquanto me arrumo, a pequena sentada no chão cola adesivos em uma grande folha de papel, cantando e conversando. O pequeno ali perto, cantarola olhando um tanto as folhas agitando raios de sol pela janela, um tanto os brinquedos ao seu redor, um tanto a irmã. O tempo passa, ela concentrada em sua obra, ele se impacienta. Resmunga, resmunga, começa a querer chorar. Chora um pouco, ela concentrada. Chora mais um pouco, ela na dela. Penso em pedir para ela ir até ele levar um brinquedo, mas fico quieta e me apresso em terminar o famigerado banho.

Ela se levanta e desaparece do meu campo de visão lá para os lados dele. Silêncio. Pé ante pé vou dar uma olhada, segurando um: “o que vocês estão fazendo?” que espera alguma molecagem do outro lado. Ainda bem.

Eles não me vêem, mas eu os vejo. Ela faz um cafuné na cabeça dele, ele olha para ela chupando um dedo e dando risada, ela dá risada e um beijinho na cabeça dele, ele ri alto e se balança feliz. Ela volta para sua colagem, senta e continua falando, cantarolando e colando seus geometrismos coloridos. Ele resmunga de novo, ela vai ali para os lados dele e diz algo como: “não precisa chorar”. Ele sorri, outro cafuné, ela volta para a colagem. E decide que é divertido correr de um lado para o outro. Corre até ele, corre de volta para sua colagem. Ele decide que isso é extremamente engraçado e gargalha. Ela decide que é muito divertido fazer ele gargalhar e continua correndo. Eles se entendem.

E estão apenas no começo.

Ter irmãos é muita sorte.

Ele está criando, mamãe! – parte 2

Então, o post anterior era para ser sobre bilinguismo. Porque se tem uma coisa na qual a gente pensa bastante, quando é mãe na gringa, é em como vai ser quando os filhos começarem a falar. E, mesmo quando não pensa, sempre aparece alguém para pensar pela gente.

  • Você fala português com eles?
  • E o pai fala francês?
  • E eles falam que língua?
  • As duas?
  • E não dá confusão não?
  • Não demora mais para falar?

Ora, ora, ora. Não sou linguista, nem fonoaudióloga, nem especialista em bilinguismo. Tudo o que sei é que, aqui, desde a gravidez da primeira, estava claro que falaríamos as duas línguas com ela. Porque vivemos na França e seu pai é francês. E eu sou brasileira.

Não se trata apenas da aparente vantagem nesse mundo capitalista e competitivo em ter um filho imerso em duas línguas desde o berço. Vantagem essa que faz muitos pais procurarem escolas bilingues, creches bilingues, babás bilingues… afe! O que motivou essa decisão foram considerações afetivas e não mercadológicas.

A primeira coisa que levei em consideração é que uma língua é mais do que um instrumento de comunicação. É toda uma cultura, um modo de sentir e de ver as coisas, um jeito de se relacionar com o mundo. Quem estuda outras línguas sabe disso. É a saudade que só se diz em português, é um ritmo, um tom… Não falar a minha língua com meus filhos seria privá-los de conhecer essa cultura, essa musicalidade, esse jeito de ser e de se expressar. Privá-los pois, diferentemente de quando decidimos que o filho vai ser bilingue em uma segunda língua que não é a dos pais ou a do país em que vivemos simplesmente porque aquela língua é importante para o futuro dele (oi?), o que se privilegia é partilhar com eles algo que faz parte de suas origens. E a língua é fundamental na transmissão dessas origens.

Sim, existem pessoas que não querem transmitir suas origens. Por vergonha, muitas vezes. Mas também por intimidação, por confundir integração em um outro país com tornar-se idêntico àqueles que dali são originários, por preconceito sentido, por julgarem que não falar outra língua com os filhos vai fazê-los falar melhor, integrar-se mais e mais rapidamente, sair-se melhor nessa vida tão dura de imigrante. Não é verdade. Uma língua não transmitida vira uma espécie de tabu, algo inacessível que muitas vezes impede a criança de saber sobre si, sobre sua história, sobre a história dos seus pais. Impede-a de perguntar, de saber e dificulta, consequentemente, seu acesso à cultura e à língua do país em que vive. Se não temos como saber de onde viemos, como podemos ser alguém ou estar em algum lugar?

Noutro dia ouvi uma história de um menininho que não falava aos dois ou três anos. Os pais, de língua árabe, falavam mal o francês. Receberam a orientação no serviço de saúde de que deveriam falar apenas em francês com ele, para não atrapalhar seu desenvolvimento escolar. Coisa muito comum, orientação das mais corriqueiras, dada por aqui por pediatras, cuidadores de crianças de todo tipo, professores… Um grande equívoco, na opinião de muitos especialistas, seja em linguagem, seja em transculturalismo ou em migração. A última coisa que se deve fazer no caso de crianças bilingues é condenar ou impedir o uso da língua materna ou paterna.

Resumo da ópera: o menino não falava. Na creche em que foi acolhido, era silêncio. E isso só começou a mudar quando as educadoras, muito sensíveis e acertadamente, começaram a falar algumas palavras em árabe com ele. Bom dia. Tudo bem? Tchau… O suficiente para o garoto perceber que a língua da família era possível, aceita e valiosa. Ele podia ser quem ele é, não tinha que soterrar uma parte sua num canto qualquer em nome de integração ou de falar bem o francês. Até mesmo porque o resultado era o contrário do que se pretendia: o menino não falava mais e melhor, falava menos. Voltou a falar. Francês com quem fala francês, árabe com quem fala árabe.

Então, aqui em casa, julguei fundamental transmitir minha língua aos meus filhos. E com isso minha cultura, meu jeito de ver o mundo, de pensar, de existir.

Segundo aspecto que pesou na decisão: minha família é brasileira e vive no Brasil. Como seria triste ir passar as férias lá com as crianças ou ter minha família aqui para uma visita e eles não conseguirem se comunicar. Já pensou não compreender os mimos de avós? Já pensou eles não entenderem as gracinhas dos pequenos e não poderem contar orgulhosos aos amigos?

Imaginei-os encontrando os filhos dos meus amigos queridos sem poder trocar uma palavra, sem poder fazer aquelas aproximações tímidas que as crianças pequenas adoram fazer “qual o seu nome?” “aquela é sua mãe?” “vamos brincar?”. Não, uma língua é uma riqueza e mesmo que não vivamos no Brasil, o Brasil vive na gente por meio dessas pessoas e do que elas dizem.

terceira coisa em que pensei foi bem banal. Imagina que você está passeando na rua com os rebentos, todo mundo feliz. O pequeno vai andando na frente e chega perto da rua. Você vai lembrar de gritar: “attention! arrête!”? Não, minha gente, em situações extremas a gente volta para a nossa língua de origem, por mais fluente que seja em outra. E daí vai gritar “para! cuidado!”. E é melhor que o pimpolho entenda, né?

Assim como não dá para fazer sexo em outra língua, nem falar palavrão quando estamos furiosos, ou contar piada… tem coisas que só dá para comunicar a um filho na nossa língua materna. Algo urgente quando há um risco, um susto. Mas também uma canção de ninar. Ou os sons que os animais fazem. Cachorro aqui não faz au-au, faz ouaf-ouaf… pode? Não, não pode não.

Então, aqui em casa, os pequenos escutam português da mamãe e francês do papai. A pequena fala as duas línguas. Desde o princípio. O português ganhava em vocabulário no começo, ficou um pouco para trás quando ela começou a conviver com outras crianças, voltou a se enriquecer quando passou um tempão de férias com a família. E assim vamos vivendo. E conversando. Eu falo em português com ela, a não ser em conversas compartilhadas com outras pessoas que não falem nossa língua, pois sempre detestei essa coisa de duas pessoas falando uma língua que os outros não compreendem e deixando outros excluídos da conversa. Acho falta de educação e de consideração. Lemos histórias em português. E em francês. O mesmo com as canções. A pequena demorou um tempo para entender que cada coisa tem duas palavras para ela. Mas agora me diz algo e traduz em seguida para o pai, mesmo que ele tenha entendido, o que o deixa bem zangado. De brincadeirinha, claro, ele já se conformou que ela fala melhor o português que ele.

No fim das contas, ela fala português, francês, tudo junto e misturado e alguma coisa no meio disso tudo absolutamente incompreensível. E conjuga os verbos franceses na conjugação do português, como na frase do título. Ele está criando é o irmão gritando (crier, em francês). Mas não é que ela tem razão nas duas línguas?

Sites e blogs sobre bilinguismo:

 

 

Ele está criando, mamãe!

Quando a pimpolha começou a falar, há um bom ano e meio atrás… que deleite! Palavras, uma a uma, conquistadas pelo árduo trabalho cotidiano de buscar se exprimir. Pois, não se enganem, se tem algo que as crianças almejam mais que tudo é poder se comunicar e serem entendidos.

O choro comunica, mas tão precariamente… Com o choro, um bebê pode informar que algo não vai nada bem. Mas ele expressa apenas as linhas gerais do seu mal-estar. Os detalhes e sutilezas… bom, para isso ele precisa aprender a falar.

Um bebê sente frio, fome, sono, tédio, carência, sede, necessidade de carinho, frustração por não conseguir fazer algo, irritação na gengiva… ele chora. Mas como passa disso para “eu quero a saia violeta, mamãe?” Vocês já pararam para pensar no quão sofisticado é poder dizer que quer colocar a saia violeta? Ou que adora a saia violeta?

Para poder falar, uma criança precisa ter toda uma condição e uma maturidade física e neurológica. Mas também precisa ter um desejo e uma necessidade de comunicar sutilezas.

Os choros viram gritinhos e barulhos de alegria ou de prazer. Ensaios de palavras, sons familiares são interpretados pelos adultos como “mamãe”, “papai”, “bebê”. Eventualmente esses esboços se tornam palavras e a princípio, eles fazem milagre com tão pouco vocabulário… uma proeza!

Os bichos são seus sons “au au”, “miau”… Depois tudo vira um nome só. Todos os bichos são “gatinho”, tudo o que voa é passarinho, tudo o que nada é peixe. E a coisa se sofistica ainda mais quando podem haver gatos, cães e cavalos. Galinhas, patos, pássaros e borboletas. Peixes, tubarão e tartaruga. Depois vêm as cores, tudo era vermelho, depois podia ser também violeta, depois juntou-se o rosa, o azul, o verde, o laranja… Pequenas frases, “qué”, “não”, “qué água”, “qué pão”.

A coisa vai num crescendo até que parece que explode e a pequena, de repente, já tem muitas palavras, muitas frases. Em duas línguas. Francês e português que se confundem a princípio, muito mais fácil falar a língua materna no começo dessa falação toda. Mas o convívio com outras crianças torna o francês igualmente importante e as palavras e frases vão surgindo, se acumulando e começam a sair por todos os poros.

Parece que no momento em que a criança entende que pode comunicar algo e que um adulto atento pode ouvi-la e atendê-la ou responder a ela, isso opera uma pequena revolução. Eles querem falar… Finalmente poderão sentir-se incluídos e participantes daqueles infindáveis almoços em família, finalmente poderão dizer algo também ao longo das conversas, finalmente serão ouvidos e as pessoas reagirão ao que dizem… oba! Mas como a coisa não é fácil, a criança vai falando daquilo que já sabe falar. E muitas vezes a tentativa de dizer algo termina em uma impossibilidade frustrante: “mamãe, nho nhé nho nha nhi?” “O que, filha? Do que você está falando?” “Nho nhé nho nha nhi?” “Aqui? O que aqui, filha?” A coisa se complica, ela desiste. Puxa…

Vêm então as perguntas, deliciosa faculdade do querer saber, exercício prazeroso da curiosidade, que deixa mães e pais malucos, mas que é tão importante para os pequenos em plena descoberta do mundo. “Mãe, que é isso?”. A gente responde e os bichinhos parecem um computador superaquecendo de tanto trabalho. “E por que?”

“Olha, apagou, mamãe!” “O que, filha?” “O céu apagou, mamãe! Por quê?” “Ah, ficou escuro, é de noite. O sol se pôs.” “Ele foi onde, mamãe?” “Ele se escondeu agora que ficou de noite, ele volta amanhã”. Essa foi a pergunta maravilhosa feita pela minha pequena há uns dias atrás. Ela tinha acabado de descobrir a noite. E queria saber como funcionava essa luz que apaga deixando tudo escuro. No dia seguinte, no final do dia, ela foi contar ao pai que o sol tinha desligado, que era de noite, que era hora de dormir. E ficou muito feliz em saber que o sol voltava no dia seguinte, na hora de acordar.

Talvez por vício da profissão ou porque sempre fui uma curiosa perguntadeira, as perguntas da minha filha só fazem me encantar. Com ela, com a descoberta dela pensando o mundo em que vive, com essa pessoa sendo cada vez mais pessoa na medida em que se descobre a descobrir, a perguntar. E a afirmar.

Não sei se podemos considerar que um sujeito fala se ele não for capaz de se colocar dentro do seu discurso. Sem que exista alguém que diga “eu quero”, quem é que quer? Pois um passo essencial nessa falação toda é a criança poder dizer “eu” e “você”. E, para chegar nisso, ter efetuado o colossal trabalho de saber-se um “eu”. E de enunciar algo em nome próprio.

Vocês já imaginaram o quanto uma criança já caminhou numa certa consciência de que ela existe quando chega ao ponto de dizer: “tô triste”, “tô brava”, “tô contente”? Aí já não é mais fome, sono, calor, sede… são estados de alma, coisas que muitas vezes nós adultos temos dificuldades em perceber e em expressar.

Ou seja, palavras, frases, por quês e estados de almas ditos pelas crianças deveriam ser comemorados como grandes conquistas que são. E não tomados como encheção de saco, imposição da sua vontade, tirania ou qualquer outra interpretação infeliz que fazemos de nossas crianças no momento em que elas começam a dar provas contundentes de que estão ali, de que pensam, de que sentem e de que existem. E tem gente que se incomoda, se irrita, acha melhor que elas se calem, que parem de perguntar, que parem de falar tanto.

Eu adoro conversar com minha filha de dois anos e meio. Ela tem umas sacadas maravilhosas, como essa do sol da qual falei logo acima. E muitas outras que eu deveria anotar mas não anoto, pois não quero estragar o momento de partilha com uma preocupação em correr atrás de papel, gravar no celular ou o que quer que seja.

Agora, além de dizer que está triste, feliz ou brava, ela deu para perguntar como estamos. Nós, os outros. E, mais do que isso, deu para consolar, apoiar. “Calma, irmão. Não chora, não fica triste. Vai ficar tudo bem. Você quer um abraço?”

Crianças descobrindo o mundo através da palavra. Tão precária e tão maravilhosa palavra. Que permite chegar ao outro. Mesmo capenga. Mesmo com falhas e malentendidos. Palavra que é tão frágil quanto a nossa humanidade. E, por isso mesmo, tão preciosa.

Vou ali comemorar com minha pequena que descobriu que o sol desliga à noite. E volto daqui a pouco porque esse post, nas suas origens, era para falar sobre bilinguismo. Eita palavra que desliza por caminhos tortuosos!

Ontem e hoje…

… você saiu andando e foi olhar pela janela. Uma menina feita. Suas expressões, seus sorrisos, sua ânsia em comunicar… tudo aponta para a menina que você é, outra que a mamãe, outra que qualquer outro, tornando-se uma pessoa única e surpreendente. Tão novinha e já é gente, minha avó diria. É gente, é gente, é uma boa gente.

… você pega um dos livros do seu pai e senta na beira da cama. Durante muitos minutos, em silêncio, folheia o livro, olhando os desenhos cuidadosamente, como se eles te contassem uma história. Que história te contam que você escuta assim, tão concentrada?

… andar não é mais suficiente. É preciso tentar correr. Mesmo caindo, é preciso tentar correr. Ou ao menos andar depressa. Especialmente quando você pega alguma coisa que a mamãe pede que devolva. Daí é andar rapidinho, segurando firme, até chegar em algum canto sem saída e ficar dando voltas, como se pudesse fazer um helicóptero e levantar vôo.

… aliás, quantos nãos! E quantos olhares sapecas e sorrisos marotos para tentar transformá-los em sins.

… agora levanta do berço, desce, pega os sapatos e vêm andando me procurar. E, por vezes, decide que quer outros sapatos, especialmente os vermelhos. Meninas e seus sapatos vermelhos.

… e os livros? Ah, os livros! Podemos passar uma manhã toda lendo. Um atrás do outro, você busca na estante e senta ao meu lado para lermos a história. A vaca faz mu, o gato faz miau, o pato diz quaquá, a galinha diz cocoricó, o cachorro diz au-au. O leão faz grrrr. E a ovelha faz bá. E noutro dia, quando um mar de ovelhas estava na beira da estrada, você foi ali ver. E ficou ali no meio delas, meio assustada, meio fascinada, as bichinhas chegaram até a lamber sua mão. Imagino o coração batendo acelerado nesse mundo imenso de ovelhas gigantes e você ali no meio, tão pequenina e tão desamparada e tão curiosa e tão corajosa…

… pegou uma boneca e abraçou delicadamente, balançando de um lado para o outro. Falou: nana, neném, nana. E desde então coloca todas as bonecas pra dormir. Até mesmo o curupira que tem as pernas ao contrário, o cabelo cor de fogo e a boca gigante. Até mesmo o curupira nana neném.

… a cada vez que escuta o barulho da porta embaixo no térreo abrindo, pergunta: “papa?”. Papai está trabalhando. Faz tchau com a mão, tchau, papai. Bom trabalho.

… aponta o canguru quando quer passear. E noutro dia pegou um copo de plástico, chegou no meu lado, me cutucou e disse “ága”, mostrando o dito cujo. Mais clara, impossível.

… aprendeu a dizer “aqui”. Da maneira mais doce e sorridente do mundo. Como se o sorriso tivesse o som do aqui. Mas ainda não entendeu para que serve. A palavra, pois o sorriso que se derrete em aqui serve para fazer a vida feliz.

… como o “não”, que anda servindo para quando não quer mais comer como, também, para quando está aguardando a próxima colherada. Ou quando não quer água. Ou quando quer água.

… parece que você decidiu que todas as roupas se vestem pela cabeça. E assim calças, meias e até fios de lã viram cachecóis, todos em torno do pescoço. E os algodões viram algodão doce. Só que com gosto ruim. E o pente vira um excelente mordedor. Como a pasta de dente. E a cabeça da boneca.

… noutro dia teve mais um encontro com um cachorrinho, dessa vez um filhote. Acarinhou, abraçou, deitou na barriga dele. Os animais te cativam. As plantas e as flores também. Basta estar ao ar livre para estar feliz. E sorri quando o vento chacoalha os seus cabelos.

… ainda faz a simpaticona séria e a simpaticona sorridente. Mas não faz mais a sapinha no colo, só quando dorme na cama. E quando dorme, é a paz encarnada.

… escovar os dentes é um dos highlights do dia. Como o banho. De chuveiro. Tipo menina grande. Essa menina que parece gente, e que é uma gente tão boa, tão divertida, tão curiosa e tão amada.

… sua carinha de choro e seu olhar de desespero arrebentam o coração da mamãe. E seu sorriso ilumina uma vida toda.

… aprendeu a mandar beijo, a dar abraço e a fazer tchau. Tudo com um delay de alguns minutos. Assim, os amigos sempre perdem a melhor parte.

… na praia, quis botar os pés na água fria do mar. E estranhou a textura da areia. Pegou conchinhas. E pedrinhas. Tudo serve como presente, que você nos oferece. Ou às crianças do parquinho, que nem sempre percebem o valor da sua oferta e te deixam falando sozinha, perplexa. Mas alguns aceitam teu sorriso e sorriem de volta. E agora que você virou craque em subir nos brinquedos e descer no escorregador, então… quem te segura, cheia de confiança, toda pequena entre os grandes, andando agarrada às grades para chegar no alto dos brinquedos. Do alto de seu ano e dois meses.

Frio na barriga

E lá fomos nós ao parque. E lá se foi você, andando sozinha até os brinquedos. Da última vez que ali estivemos, você precisava se apoiar ou engatinhar. E eis que um ano e um mês apenas depois de nascida você sai do colo assim, andando, toda cheia de sorrisos e alegria de reencontrar seu parque. Olha para trás uma vez e sorri para mim.

Pela primeira vez você sobe no brinquedo que leva ao escorregador. Sobe e desce as rampas, apoiada nas grades laterais, grudada nelas. Cada vez que um pezinho procura um apoio meu coração gela. Tenho medo que você caia, que se machuque. Tenho medo por você. O mais difícil é não me precipitar em te proteger e deixar você descobrir as coisas. O mais estranho é essa ambivalente sensação de orgulho, alegria e tristeza em te ver superando obstáculos. Você é marruda e insiste, vai se agarrando e consegue percorrer o brinquedo todo. Chega no escorregador orgulhosa e me sorri. Te ajudo a escorregar. Você recomeça tudo novamente.

Cada criança que passa você abre um largo sorriso, nariz franzido, carinha aberta e iluminada, sua maneira de dizer olá. Alguns sorriem de volta e você fica nesse jogo dos sorrisos trocados. Outros não te olham, mas você insiste. A maior parte das crianças é mais velha, mas você não se inibe. Se intromete em brincar junto, se aproxima, não tem medo.

Um garoto pequeno vem com uma mamadeira em punho te dar um abraço. Você perde o equilíbrio e os dois caem no chão. Ele levanta e você fica ali deitada, carinha estupefata, não sabe se quer levantar de novo ou ficar por ali mesmo. Não ri, não chora, apenas fica ali deitada na grama. A vida é surpreendente.

Um ano

Um ano é um tempo no tempo. Um tempo curto, um tempo longo. Borboletas não duram nem um ano. Elefantes duram mais de uma centena. O universo nem se importa com um mísero ano. Mas você fez um ano. E um ano é uma vida inteira de alegrias, descobertas e invenções. Têm coisas que não se dizem. Em um ano, a maioria das coisas não há como dizer. Sentimos. Vivemos. Estávamos lá. Estamos aqui.

Poderíamos falar de um ano em um ano de acontecimentos. Daquela noite em que mamou pela primeira vez me olhando nos olhos. Dos momentos de paz e plenitude dormindo no sling. Do primeiro banho de mar com a vovó. Das histórias que o papai lê para você em português com sotaque. Das exposições de arte e dos piqueniques. Dos cuidados da Jurema. E das roupas de astronauta para esquentar no inverno. Do seu sorriso num dia de sol, chapeuzinho na cabeça, corada, na beira do mar. Do dia que engatinhou para frente pela primeira vez, depois de engatinhar de ré um tempão. Do primeiro mamãe, ao acordar, no Brasil. Do discurso que fez no avião, falando na sua língua bebezística, dedinho levantado, metade das pessoas encantadas. De sair no terraço e gritar pra todo mundo ouvir. Das sonecas deliciosas no colo do vovô ou da tatavó. Da titia te inventando apelidos. Das gatinhas que te encantam e que fizeram você falar “cat” (gato com chat) e “lolô”. Da carinha de sapeca sorridente. Da carinha de simpaticona séria. Do chorinho de diva, jogando a cabeça para trás. Você atenta descobrindo algo. A comedora de livros. A ouvidora de histórias. A contadora de histórias. O riso estampado no rosto, a gargalhada. O cheirinho, o beijo estalado. O abraço. Você engatinhando sem tocar os joelhos no chão. Ou com apenas três apoios. As idas ao parque e seu encontro com outras crianças. Sua alegria em descobrir outras crianças. Seu jeito divertido de dançar. Os pés descalços. Seu amor pela música. E pelo “parabéns pra você”. Sua surpresa ao ver formigas. A água que você gosta de beber no copo e que virou “apa”. Mamar fazendo alongamento. Mamar sorrindo. Rir das minhas palhaçadas. As descobertas culinárias. Seu gosto por mangas, bananas, melancia, morangos, cerejas, pêssegos, ameixas, abricots, abacaxis, laranjas… Sua cara lambuzada de iogurte. Seu amor bem francês por tudo quanto é queijo. E pelos pães. E por tomates, pimentões, peixe e espinafre. Os dentes coçando na boca. As gavetas abertas com tudo esparramado pelo chão. O dia em que você aprendeu a guardar, tirar e por. O dia em que aprendeu a apontar. Comer uma flor. Descobrir as folhas secas no chão. O vento batendo nos seus cabelos e você tranquila dormindo. Não. Um ano de acontecimentos não são tradução suficiente deste tempo.

Você pegou uma sacola de presente e saiu andando sozinha sem apoio nenhum pela primeira vez na sua festa de um ano. Festa em que estávamos todos presentes, ali. Sua família, os amigos-irmãos, os filhos dos amigos que, espero, amigos serão também. A Cecília e você batendo papo de bebê. Como sempre. A Bebel que te adora. O Davi, seu primeiro amor. A Luíza, miudinha, pequenina e olhando tudo bem atenta. O Marquinhos correndo para todo lado, montando e desmontando a festa, fazendo banda e brincando com os mais velhos. Você andando apoiada numa bicicletinha do seu primo, que te ajudou a abrir todos os presentes. Atenta, sorridente, séria, simpática. Feliz. Teve festa e festejamos. Festejamos esse seu tempo. Festejamos essa eternidade de um ano. O melhor tempo.

Te amo, minha filha. Parabéns!

Mesversário

Essa foi a última vez que contamos a idade da nossa pequena em meses. Mesversário, palavra engraçada, mas cheia de sentido, já que cada mês desse primeiro ano de vida equivale certamente a um ano qualquer. Acontecimentos, descobertas, intensidade concentrada em um mês, encantamento para uma vida inteira. Difícil traduzir em palavras o que é o primeiro ano da vida de um filho, onde tudo é novo, tudo é surpresa, tudo é deleite, tudo é amor. Sim, a intensidade traz também dificuldades imensas e elas doeram um bocado. Mas e cada sorriso? E os dentes aparecendo na boca sorridente? E as mãozinhas pegando cada macarrão para levar à boca? E a cantinela da hora de comer frutas?

Posso dizer sem muito medo de exagerar que quase todo dia desse último ano teve ao menos uma surpresa, um acontecimento, uma novidade, um gesto, um momento de profundo silêncio e emoção incontida que me fizeram indagar se será mesmo que antes já havia sido feliz? Sim, claro que já fui feliz antes. E claro que já amei. Mas nem tudo o que conhecia sobre amor e felicidade haviam me preparado para esse olhar no fundo dos olhos, esse olhar que sorri e se ilumina e sorri com o rosto inteiro e quase que com o corpo todo e vira uma risada alegre, tornando a felicidade tão fácil, os dias tão azuis e ensolarados, a vida tão bela quanto uma brisa que agita as folhas das árvores em um fim de tarde, criando luzes e sombras que se movimentam estroboscópicas, refletidas na parede do seu quarto e que você tanto gosta de olhar.

A cada mesversário eu olho no relógio e penso o que estava acontecendo nesse mesmo dia, há meses atrás. Penso no que vivi e te conto o que aconteceu naquele dia em que você nasceu. Você olha atenta e séria, com aquela sua carinha simpática, compenetrada, absorta, como quem absorve com cuidado cada palavra. E agora, diferente dos outros meses, você se vira e desce da cama sozinha, do jeito que seu pai te ensinou. E engatinha do seu modo assimétrico até o terraço e fica em pé apoiada nas grades e cantarola e grita mil sons diferentes, como quem canta para o mundo todo alguma coisa muito boa e muito feliz. Parece que você quer participar a cada passante da rua sua existência, sua graça, suas descobertas. Não me espantaria se boa parte deles se deslumbrasse, você sabe cativar quem quer que esteja por perto.

Danada, agora deu também para querer comer tudo sozinha, levando a colher na própria boca. E noutro dia acordou, desceu da cama e foi tomar água da sua garrafa ali no tapete. Entro no quarto e ali está você, toda autônoma, toda feliz, quieta e entretida com as próprias capacidades. Orgulho de te descobrir assim tão cheia de possíveis e pontada no coração de não ser mais necessária em algumas coisas. Nós, mães, temos dificuldades tantas em ter alguém que depende integralmente de nós sob nossos cuidados, mas temos ainda mais dificuldades em ver essa dependência, essa necessidade, essa precisânsia (acabei de inventar, é precisão + ânsia, não é bonito?) deixar de ser naqueles lugares em que finalmente tínhamos nos acostumado. E aparecerem noutros lugares. Ou simplesmente deixarem de ser para nunca mais. Novos desafios a cada dia, somos postas em cheque permanentemente. E isso dói na mesma medida em que nos enche de surpresa, de orgulho e de gratidão.

Minha menina, não é verdade que tudo passou tão rápido. Verdade é que foram tantas e tantas coisas. Como um furacão em slow motion olho ao redor pela casa e vejo brinquedos, livros, roupas, sapatos, fraldas, bagunça… E percebo que tudo está no seu devido lugar.

Mês que vem passaremos a te festejar em anos. E as únicas coisas que posso desejar é que sejam muitos e muitos. E que eu possa te acompanhar e participar de muitos e muitos deles.

Te amo.

Mais por aqui do que por lá.

Esta semana, você completou oficialmente mais tempo fora do que dentro da barriga. E quando te vejo toda serelepe explorando a casa inteira com um sorriso no rosto e mil sons na boca, só consigo me abismar e pensar: “nossa!” As pessoas costumam dizer que passa muito rápido, mas tenho a impressão de que passa em um tempo bem paradoxal: rápido, pois cada dia é uma revolução de descobertas e mudanças, e devagar, pois esse começo de vida é um tempo sem tempo, ao sabor da maré das mamadas, das sonecas, das brincadeiras, dos movimentos que desconsideram relógio ou agenda. O tempo da maternidade é um tempo ditado por necessidades e ritmos dessa bebê. E isso é tão fascinante quanto difícil.

Não teria como escolher um momento favorito. A cada dia, há pelo menos um momento sublime, daqueles em que o tempo para e você se percebe totalmente presente no presente, ali, vivendo algo incrível com essa pessoa inacreditável que está ali na sua frente. E nesse momento você mal pode acreditar na sorte que tem. Poder ter uma filha, que privilégio.

Mas existem também momentos ruins, quando a paciência se esgota, o cansaço fala mais alto e a vontade é de gritar, explodir, sair correndo… Quase sempre são coisas tão banais os estopins desse esgotamento. E, quase sempre, pouco têm a ver realmente com a pequena ali na sua frente. São as consequências das suas escolhas, suas dificuldades e limites jogados ali na sua cara, como se a vida te perguntasse: “e aí, vai encarar?”. Intensa convivência e amor imenso têm esse corolário: a gente sempre tende a descontar no outro aquilo que não cabe a ninguém além de nós mesmos. E, com um bebê que precisa, que demanda, que depende, o aprendizado é cotidiano para não pesar sobre ele tudo aquilo que não lhe cabe.

As pessoas também dizem que o começo é o mais difícil. Não sei se concordo. O começo tem as dificuldades do começo: a novidade, o desconhecimento, a reviravolta na vida. Mas, pouco a pouco, o bebezinho do começo ali quietinho deitado no berço, comendo, dormindo e fazendo cocô e xixi torna-se mais e mais um bebê acordado, curioso, atento, explorador. Começa a querer se mexer, começa a querer se virar, a levantar o pescoço, a olhar o mundo. Quer pegar, quer saber que gosto tem, quer ir até lá, quer engatinhar, ficar em pé, andar, comer… As dificuldades residem em que cada conquista é um recomeço: quando você começa a se entender com aquela pessoinha ali, ela muda e você tem que se reinventar de novo como mãe.

Mãe de recém-nascido não é a mesma mãe de uma bebê de nove meses. Mãe de bebê de nove meses tem que fazer comidinha, pensar no que vai cozinhar, virar chef de cozinha e tirar receitas da memória, das amigas, dos blogs e de onde mais puder… Tem que ligar o radar para possíveis perigos em cada lugar que vai, tampar tomadas, esconder fios, sumir com objetos pequenos… Tem que pensar em roupas confortáveis que permitam à pequena explorar esse mundo todo sem se enroscar nas próprias pernas nem escorregar nas próprias meias… Tem que aguentar a angústia de saber que existem tombos, existem topadas, existem arranhões em cada móvel, em cada degrau, em cada quina e que, mesmo assim, é preciso deixar andar… Tem que antecipar portas e gavetas que fecham sobre dedos e roladas de sofás mesmo com adultos por perto… Tem que acreditar que tudo o que vai ser temperado pelo chão antes de ir parar na boca entra como conhecimento em um corpinho protegido por litros e mais litros de anticorpos de leite materno.

Acho que mãe sente mesmo na carne esse tal dilema entre querer proteger e querer que seu filho descubra a vida. E que a vida descubra seu filho de maneira generosa e feliz. Porque a cada passo dá uma sensação doída de que mais uma conquista traz consigo mais um monte de riscos. E que você não vai poder proteger essa criança de tudo. Droga.

Mas, olha só, dá também um orgulho danado. Uma alegria verdadeira que explode em lágrimas quando cada conquista aparece. O sorriso no seu rosto quando consegue se equilibrar em pé sem apoio por cinco segundos traduz toda a sua satisfação. E eu não tenho como não transbordar de amor e de ternura.

Penso em tudo o que já caminhamos em apenas nove meses. Penso nessa construção cotidiana de uma mãe e de uma filha que, além de ser filha, se constrói como pessoa, como criança, como bebê. Quantos feitos, minha filha! Espero estar sendo um aconchego para você. Um porto seguro e uma fonte de alegria e de carinho. Esse é o meu trabalho cotidiano, que batalho a cada momento com o mesmo esforço com o qual você batalha seus primeiros passos e suas primeiras palavras.

Ter uma filha dá uma vontade imensa de ser alguém melhor.

 

Ontem e hoje…

… você acordou falando “mamain”. Sim, um “mamain” repetido e treinado durante minutos seguidos, há quase um mês atrás e que quase parou meu coração. Então ontem você achou por bem falar “daidai” também. Para o papai não ficar tão chateado. Mamãe tem um mês de prerrogativa sobre o papai. E uma língua inteira, porque essas palavrinhas estão banhadas na malemolência do português, viva!

… agora que engatinha, achou por bem também ficar em pé. Que é para nem dar tempo da gente se acostumar com essa filha que virou outra e ela já vira outra de novo. Engatinhando sobre três apoios você corre o mundo, o apartamento, o restaurante e tudo o mais que se apresentar. Em pé vai mais cabreira, olhando ao redor e investigando coisas.

… e como investiga! Curiosa, nenhum livro passa desapercebido. Faminta de histórias, devora ainda uns nacos dos seus prediletos, que é para ninguém dizer que não tem fome de intelectual.

… seu rosto são milhares de expressões e de sorrisos. Meu favorito é aquele de boca aberta, sorriso de rosto inteiro, mostrando os dentes e se aproximando do meu rosto para aquele beijinho de ventosa na bochecha. Ou no nariz, se me pegar desprevenida.

… já faz a francesa, resmungando enquanto brinca. Enquanto engatinha. Enquanto come. Enquanto mama. Resmungando ou contando uma interminável história, fica a dúvida. História para o peito, para os livros, para os brinquedos, para o chão, para a comida. E por vezes, bufa, como bufa! Bufa com carinha blasée, no melhor estilo “vocês são nuls“. Temo a adolescência.

… decidiu que a vida é muito curta para ficar parada enquanto troca de fraldas. Ou de roupa. Socorro! E que nenhuma tomada e nenhum fio são impedimentos o suficiente para suas explorações. Não, que palavra é essa mesmo?

… mamando, troca olhares cheio de vida. E quando dorme, tem a expressão mais tranquila deste mundo. Faz as caras mais engraçadas quando fica surpresa ou perplexa. Tem uma expressão bonachona quando está concentrada. Ruge como uma leoazinha quando tem um objetivo. Vive uma aventura a cada refeição. E gargalha com tanta verdade que me faz gargalhar junto. Chorando. O coração doído de tanta emoção.

Não sei se os filhos deixam as mães bobas. Ou se revelam beleza em coisas tão simples.

Ela gosta de música.

Mais ainda, gosta que cantem para ela. De preferência bem alto, com sons demorados e repetitivos como mantras. Gosta tanto que abre um sorriso imenso de dois dentes na boca. E coloca as mãos no rosto de quem canta. Chega o rosto meio vesguinha, sorrindo com os dois dentinhos e mergulha naquele som, naquela voz, naquela boca. Ela quer engolir a música! Menina que tudo o que ama tenta conhecer pela boca achou que era uma boa idéia degustar a canção. E ela tenta e ri e tenta e ri e tenta e ri, sempre surpresa com esse som tão saboroso que ela não consegue pegar. Menina linda entendeu tudo. Música é coisa que alimenta.

E sai sacolejando o esqueleto que bambeia mas para em pé. E cantando mil sons novos que sempre misturam espanto e alegria.