It takes a village…

… to raise a child. É o que diz o provérbio africano. Ou muitos provérbios africanos que levam a essa mesma conclusão: para criar  uma criança é necessário toda uma comunidade.

Não, isso não quer dizer que criança dá trabalho demais, embora dê. Quer dizer que cada criança precisa de todo um entorno que se ocupe dela e que lhe garanta os cuidados, a proteção e a atenção das quais ela necessita. Cuidando diretamente de cada criança ou dando aos pais todas as condições e toda a atenção para que eles se sintam cuidados e apoiados no cuidado que prestam aos filhos, o que uma comunidade faz – ou deveria fazer – é direcionar muito do seu investimento às suas crianças.

Sempre me surpreendo com o paradoxo escandaloso em nossa sociedade atual, que cuida mal do seu futuro e de sua própria preservação e perpetuação: uma sociedade em que crianças são deixadas sozinhas desde muito cedo, largadas à própria sorte diante de telas, mamadeiras e brinquedos ultra sofisticados, e onde tudo aquilo que lhes é mais peculiar e natural causa incômodo e deve ser eliminado o mais rapidamente possível. Sociedade essa que abandona as crianças e seus pais para se virarem logo que elas nascem: sem apoio para cuidar, sem orientação para amamentar, sem incentivo para estar junto. Que cada pai e mãe, ou que cada mãe sozinha, com seu bebê, resolvam-se por si mesmos na intimidade de seu lar. De preferência silenciosamente. E sem dar muitas notícias de suas dificuldades e de seu sofrimento. Afinal, não podemos ser incomodados com essas pequenezas, não é mesmo?

Nos anos 70, a psicanalista Françoise Dolto criou, junto com uma equipe, um dispositivo chamado Maison Verte. Trata-se de um espaço de acolhimento de bebês e crianças pequenas, junto com seus pais ou cuidadores. Um lugar em que as pessoas podem ir com suas crianças para passar um tempo juntos, conversar entre pais e com a equipe que acompanha esse momento, trocar idéias e experiências. E onde os pequenos podem brincar, encontrar outras crianças e se deparar com esse instigante mundo do outro que se oferece ali, a eles, para sua exploração e para sua curiosidade, em um ambiente seguro e na companhia de seus pais. Dolto entendeu perfeitamente aquilo de que carecia a sociedade extremamente individualista e distante de sua época, especialmente os pais e seus recém-nascidos: precisavam de um lugar para falar, respirar, trocar, se relacionar, ouvir… A coisa deu tão certo que a Maison Verte se espalhou por toda França e por muitos outros lugares do mundo. E, ainda na França, deu origem a muitas outras iniciativas semelhantes, dentre as quais os espaços de acolhimento das PMIs, os serviços de Proteção Materno Infantil que, entre outras coisas, oferece justamente um espaço de acompanhamento e de troca, cuidado por alguns membros de sua equipe e frequentado por quem quer que assim o deseje. Trata-se de um serviço público, gratuito e espalhado por toda a França, no qual para realizar sua inscrição é necessário apenas morar na região abrangida por sua PMI de referência.

Por inúmeros motivos, não fui com minha filha à PMI logo que ela nasceu, especialmente porque eles têm a conduta de pesar semanalmente os recém-nascidos, o que acho desnecessário e estressante, visto que baseia toda a avaliação do bebê no ganho de peso. Mas há cerca de dois meses, começamos a frequentar o serviço para o acompanhamento médico de rotina da minha filha. E, mais recentemente ainda, decidi levá-la nesses dias livres, em que as crianças vão apenas para brincar umas com as outras.

Vinha percebendo que minha pequena ficava muito melhor nos dias em que saíamos para dar uma volta e muito mais irritada quando passávamos muito tempo em casa, mesmo com atenção, brinquedos e entretenimento. E com a chegada do verão, finalmente pudemos invadir parques e praças especialmente montadas para crianças. Tem sido uma experiência e tanto. Além do deleite de poder tomar um ar e sentir o sol batendo no rosto (de chapéu, claro), ela mostrou-se muito interessada em tudo a seu redor, folhas, flores, grama e… gente. Todas as gentes e em particular as mini gentes como ela. Não vou colocá-la em uma creche tão cedo e menos ainda na escola. Então, o serviço de acolhimento da PMI me pareceu uma boa opção.

Que agradável surpresa. Tudo cuidado, pensado para receber as crianças e oferecer atividades adequadas a cada idade. Mães (pois na maioria das vezes são as mães e apenas elas que acompanham seus filhos) ficam ali com as crianças, brincam junto, conversam entre si. Funciona. Claro, como em toda comunidade, as tensões e conflitos do lado de fora não deixam de estar presentes: os preconceitos, os racismos, as intolerâncias. Mas não apenas isso, como também uma certa amabilidade, uma boa dose de abertura e bons momentos de troca. E a pequena está encantada em descobrir outras crianças e seus feitos.

Aqui tem gente preocupada em criar comunidades. Embora saibamos muito pouco sobre como é viver em uma.

As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Depois da saga sobre a gravidez na França, que apresentei nesses posts aqui, começamos a descobrir como é ser mãe no país das luzes. E, como primeira impressão, poderia dizer que é fácil, só que não.

A facilidade está em que a maternidade é tão protegida quanto a gravidez, contando com assistência e serviços de qualidade. E a complicação está aí também, pois esse cuidado acolhedor chega a ser excessivamente intrusivo e contraproducente em certos momentos. Me explico.

Na França, você passa cerca de 4 ou 5 dias na maternidade, mesmo que tenha tido um parto normal e uma excelente recuperação. Eles costumam esperar que o bebê volte a ganhar peso para dar alta. E aí vem o meu primeiro senão: os franceses são obcecados com curvas de peso. Eles pesam o bebê todos os dias e, ao sair da maternidade, aconselham os pais a pesarem seus rebentos todas as semanas. Há pessoas que chegam a alugar ou comprar balanças apenas para pesar seus bebês, como se o peso fosse o único indício palpável de que vai tudo bem com o rebento. Tanto mais se você amamenta, porque daí não tem como saber mesmo o quanto o bebê mama, se é o suficiente, se ele está bem. Então alguém teve a grande idéia de tentar controlar isso por meio do ganho de peso e deu no que deu: mães enlouquecidas com bebês que ganham pouco, nenhum ou perdem peso no começo da vida e profissionais de saúde orientando precipitada e equivocadamente essas mães a darem mamadeira e leite artificial. Em um país em que a amamentação passou anos e anos em desuso, sendo até mal vista e condenada, essa pressão toda sobre mães e seus bebês acaba sendo um desserviço a ambos.

De todo modo, em termos de serviços prestados, é importante saber que:

  • ainda na maternidade, sage-femmes e enfermeiras especializadas em puericultura te acompanham e dão todas as orientações a respeito do bebê: banho, troca de fraldas, posição correta para amamentar e etc.
  • mesmo depois da alta, você pode retornar à maternidade para conversar com puericultrices e sage-femmes sobre dúvidas que tenha em relação ao cuidado com o bebê. Muitas maternidades oferecem, ainda, uma visita domiciliar de um desses profissionais, o que é bom nos primeiros dias, pois especialmente no que diz respeito à amamentação e à rotina dos cuidados, as dúvidas mesmo começam a surgir quando você chega em casa e tem que lidar com o pequeno por conta própria.
  • uma outra possibilidade é chamar uma sage-femme que trabalhe como como autônoma para esse acompanhamento domiciliar. A seguridade social cobre essas visitas e se você fez algum curso de preparação para o parto, possivelmente terá sido com uma sage-femme que atende como profissional liberal (nem todas as maternidades oferecem esses cursos in loco, elas indicam uma lista de pessoas as quais procurar). Pois então, se você fez algum acompanhamento ou curso durante a gravidez, possivelmente conhece já uma sage-femme e, se gostou do modo como ela trabalha, pode pedir que ela faça o acompanhamento domiciliar pós-parto também. Nessas visitas domiciliares, elas examinam o bebê, seus reflexos, seu estado geral, pesam e orientam quanto à amamentação e aos cuidados.
  • se as dificuldades e dúvidas foram a respeito da amamentação, além desses recursos, você pode ir às reuniões do La Leche League ou do IBCLC. Ambas as instituições têm consultoras que, além de grupos, fazem visitas domiciliares. Eu aconselho recorrer a elas caso esteja com alguma dificuldade que sage-femmes, puericultrices e pediatras não tenham conseguido sanar, o que não é difícil, visto que esses profissionais dão informações muito desencontradas e muito centradas sobre a curva de peso, o que não equivale necessariamente a um índice de saúde do bebê. No que me diz respeito, apenas as puericultrices foram atentas ao meu desejo de amamentar e me deram sugestões nesse sentido quando tivemos dificuldades.
  • você e o bebê saem da maternidade com as prescrições necessárias para cada um e a indicação de visita ao pediatra ou generalista para a consulta de um mês do bebê e a consulta de seis semanas sua ao ginecologista.
  • na França, o acompanhamento do bebê se faz uma vez por mês, com pediatra ou clínico geral especializado em atender crianças. A vantagem do segundo é que é totalmente coberto pela seguridade social, enquanto para os pediatras, apenas as consultas mensais são integralmente cobertas, todas as outras sendo apenas parcialmente reembolsadas. Na França, a cultura do médico generalista e de família é priorizada em relação à consulta com especialistas.
  • o bebê sai da maternidade com um “carnet de santé”, onde constam todos os dados dele, do parto, das consultas e intervenções que eventualmente tenha sofrido. Ali estão orientações para todos os meses e consultas, o carnê de vacinação, as curvas de crescimento onde vão anotar peso e medidas do bebê. Cada profissional com o qual seu filho consultar vai pedir esse carnê e fazer anotações nele. É o melhor jeito de centralizar informação.
  • por fim, existe um serviço na França que é a PMI – Protection Maternelle et Infantile – em que se agrupam serviços de saúde e serviços sociais. Eles dispõem de centros, divididos por região, onde você conta com atendimentos de assistentes sociais, médicos, sage-femmes e puericultrices. É um bom lugar para fazer o acompanhamento da sua gravidez, caso não tenha um médico particular no início e/ou não queira ou não possa fazer esse acompanhamento na maternidade onde pretende dar à luz. Mesmo que não tenha feito isso, ao longo da gravidez, estando inscrita na seguridade social, eles te enviarão uma carta convite para uma reunião, em que te explicam todos os procedimentos pós-nascimento, cuidados, dicas, inscrição em creche e por aí vai. Por fim, te indicam qual o centro mais próximo do seu endereço e quais os serviços e horários que oferecem para o pós-parto: consultas médicas, consultas com a sage-femme, plantão das puericultrices para tirar dúvidas… Tudo muito organizado e eficiente. O único senão é que a PMI é um dos lugares em que dirão para ir com o bebê pesá-lo uma vez por semana (!), caso você não tenha ido na onda de alugar uma balança. E, se você topa a loucura da pesagem semanal, eles vão te aporrinhar com hora marcada caso seu bebê destoe da famigerada curva de peso. Foi o que eu disse: excessos que, por vezes, estressam e oprimem ao invés de ajudar. Você iria?

Em tempo, se você está inscrita na seguridade social, desde que seu bebê é registrado (muitas maternidades têm esse serviço no próprio local, uma maravilha) você pode mandar uma cópia da certidão de nascimento e eles incluem o rebento na sua “carte vitale“. Com isso, consultas e medicamentos são custeados total ou parcialmente pelo estado, inclusive vacinas.