Um mundo de imagens

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Não há dúvidas de que vivemos em um tempo de imagens, bombardeados por todos os lados por um excesso delas. O que aparece como imagem ganha ares de verdade, tanto a imprensa quanto a publicidade sabem bem disso. Ao longo de uma gravidez, não poderia ser diferente.

Não consigo imaginar como faziam as nossas avós. Ou até mesmo as nossas mães, antes da invasão desse mundo de imagens também para o que diz respeito à maternidade. Elas descobriam que estavam grávidas – sem teste de farmácia ou de sangue, vejam bem  – e a coisa toda devia acontecer ali, dentro delas, de um jeito bem enigmático. Os sinais deveriam se limitar apenas àqueles que o corpo dá: os enjôos, o cansaço, o ganho de peso, a barriga que aparece e muda de forma. Isso até o bebê começar a se mexer e esses movimentos sinalizarem da forma mais contundente que ali tem alguém. “Alive and kicking”. Até mesmo para saber o sexo do bebê era necessário confiar nesses indícios sinuosos, opacos, corporais, intuitivos… Barriga pontuda, barriga redonda e por aí vai.

Hoje em dia isso tudo virou praticamente lenda. Toda essa opacidade, todo esse mistério de uma gestação que envia seus sinais deu lugar à clareza, à contundência das imagens, dos exames, dos resultados. Como se tivéssemos jogado um feixe de luz intenso sobre os segredos de um corpo em gestação para, no lugar das dúvidas e das suposições, instalar certezas. Menino ou menina? Saiba antes, facilita na compra do enxoval e na escolha do nome. Claro que não serve apenas para isso, para o comércio, para o mercado, para ajudar no consumo. No entanto…

Um mundo de imagens nos invade ao longo da gravidez. Testes, exames, resultados, ultrasons. Tudo em nome de verificar a saúde e o bem-estar do bebê. Descartar problemas, descartar anomalias, descartar malformações… você entra em estado de alerta permanente, cada exame um risco, cada resultado um risco afastado. Como se a gravidez fosse um perigo constante de algo dar errado quando, na imensa maioria das vezes, ela simplesmente vai bem, obrigada. O que aconteceu para transformar uma gestação em uma situação de risco, a ser monitorada permanentemente, como se uma ameaça pairasse sobre a barriga de todas as grávidas e coubesse a esse mundo de imagens nos vigiar e evitar o pior? Quando foi que gravidez virou doença?

Fui ao tal ultrasom morfológico e o médico, muito gentilmente, me bombardeia com aquele excesso de clareza: o bebê tem duas mãos, cinco dedos em cada mão, dois braços, dois pés, duas pernas, dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca… Bom, mas é assim que tem que ser, não? Não ignoro que às vezes surgem problemas e que identificá-los a tempo pode fazer uma grande diferença para o bebê e para os pais. Não se trata aqui de um discurso obscurantista contra as vantagens de nosso tempo de luzes, longe disso. Mas, convenhamos que falar do que é o mais normal dessa maneira faz qualquer pessoa ficar com o coração apertado, sentindo que tem muita sorte de tudo estar tão bem… Mas não! É assim! É assim que as coisas são, ninguém está te fazendo um favor ou uma caridade de te dizer que teu bebê é “normal”. Mas ali, na sala de exame, você sente como se tivesse que agradecer essa concessão que o médico e o mundo das imagens te fizeram por não te anunciar algum dos inúmeros perigos que ameaçam a você e ao seu pequeno.

Mas, ainda bem, não é só isso. Em meio a essa perversão toda de como se pode viver uma gestação nos dias de hoje, algumas vezes as imagens e seu facho de luz conseguem servir a coisas mais interessantes. Nesse mesmo ultrasom, depois do choque inicial de ter que agradecer aos céus pelo bebê ter duas mãos, dois pés e etc, consegui ter sangue frio o suficiente para parar de prestar atenção no que o médico estava dizendo – pode fazer isso sem culpa, depois vai tudo escrito no laudo mesmo – e começar a ver aquilo para o que estava olhando… O bebê ali, todo bonitinho, sacudindo os braços, cruzando e descruzando as pernas, jogando pernas pro alto, balbuciando, chupando os dedos… em meio ao bombardeio, eis ali o bebê, o meu bebê, o nosso bebê todo faceiro, fazendo graça, brincando e se divertindo na barriga da mamãe, que é a barriga do bebê agora. Como não se emocionar com isso?

Não tem jeito, eu sou uma mulher da época das imagens. Eu trabalho com elas, as imagens das artes, as imagens dos meus pacientes, dia após dia, de seus mundos de sonhos. A imagem do bebê traz para mim mais senso de realidade do que os enjôos, o cansaço e todos aqueles sinais insondáveis que minha mãe e minhas avós sabiam tão bem ler e que eu perdi. O excesso traz, às vezes, a exceção, o caldo de imagens que consegue fazer com que algumas dentre elas se destaquem, fiquem mais importantes do que as outras e causem uma marca indelével em quem as viu. Acontece, às vezes, na arte. Acontece, às vezes, até mesmo em um ultrasom.

Ron Mueck: "A girl" (2006)
Ron Mueck: “A girl” (2006)

Querer ter um filho…

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Para mim, foi há cerca de um mês, depois do primeiro ultrasom que encarnou a realidade da gravidez na minha cabeça e no meu corpo. Todo mundo diz… ah, quantos todo mundo diz quando se está grávida, tem todo mundo diz para tudo… Enfim, todo mundo diz que é melhor não anunciar a gravidez antes do final do primeiro trimestre. Porque a maior parte dos abortos espontâneos acontecem no primeiro trimestre e, depois, você não vai querer ficar explicando até para a sua manicure o que houve. Coisas do bom senso, esperar a gravidez “pegar”… Mas você está grávida do seu primeiro filho e quer contar isso para todo mundo. Porque está feliz, porque quer poder falar disso, porque falar, partilhar dá um senso de realidade para aquilo que você está vivendo. Enquanto fica tudo ali na sua cabecinha, a sua gravidez tem a mesma consistência dos seus devaneios com qualquer outro assunto. Quando você conta, você assume o que está acontecendo com você e tudo parece mais real. Além do mais, como imaginar que você vai encontrar com os seus melhores amigos, com sua família, com as pessoas com as quais você sempre dividiu aquilo que era realmente importante para você e, quando eles te perguntarem quais as novidades, você vai falar de outra coisa? Como assim? Talvez isso funcione para as pessoas para quem a amizade e o amor não passem pela conversa, pelas palavras trocadas, pela intimidade cotidiana de dizer o que te vai fundo na alma. Eu sou psicanalista, testemunho diariamente a profundidade delicada daquilo que se compartilha falando, não posso conceber calar, para as pessoas que amo, a intimidade de algo assim.

Mas tinham me dito outra coisa, ainda no quesito quando contar sobre a gravidez. Uma outra justificativa para essa postura de esperar o final do primeiro trimestre, dessa vez dada pela cabala. Seria bom esperar porque, nesse tempo, a alma do bebê está decidindo se quer ou não ficar. Achei bonito quando ouvi isso. Poético. E também um excelente apoio para aquela forma de defesa, que todos nós temos, de não se envolver muito com alguma coisa que sabemos ter o risco de perder. Para que investir no que é incerto, né? Para que se apaixonar pelo carinha que você sabe que vai embora, para que se empolgar com uma gravidez que pode não vingar? Proteger-se de uma possível perda justifica todas as precauções, as distâncias, os investimentos pela metade, a economia de si. E nós somos craques nisso. E quando vemos alguém que se joga demais na vida, tomamos ele por um imaturo, quando não um doido varrido. Só que na vida e no amor não é bem assim que a coisa acontece, né?

Economizar-se é um ato de bom senso e de proteção, mas é também uma avareza, uma mesquinhez consigo mesmo e com a vida. Como a história do melhor vestido que a gente nunca usa que eu falei noutro dia. Essa economia de si que se guarda para o momento de poder se entregar, só que o momento vem e você não consegue porque nunca antes se entregou, passou a vida toda se evitando e evitando qualquer perigo e já não sabe mais como é que faz para fazer diferente. De tanta proteção, você não sabe mais como abrir uma brecha. E sente a dor dilacerante de estar preso em uma carapaça dura, rígida, que te impede de se envolver.

Então, há cerca de um mês, estávamos no auge do inverno aqui e fazia um frio de lascar, um dia cinza após o outro e começou a neve. A neve caindo sobre prédios, ruas e árvores cria uma cena linda. Sempre. Quando neva, tudo fica silencioso e, paradoxalmente, mais quente. Deve ser porque esquenta os olhos e esquenta a alma ver a neve cair. E os flocos têm muitas formas e se assentam delicadamente uns sobre os outros, deixando suas camadas de branco por todo lugar. Eu amo a neve. E fiquei olhando a neve cair pela janela da minha sala. E me dei conta que, se o bebê estava decidindo se queria ficar ou não eu, de minha parte, também poderia decidir. Eu quero que você fique. Eu quero ter esse bebê.

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Guillaume Nery base jumping at Dean’s Blue Hole: http://youtu.be/uQITWbAaDx0