O dia em que fiquei com raiva do Freud por ele ter razão

Aqui, o segundo atentado em Paris em um mesmo ano mata mais de 120 pessoas e fere mais de 250. O 2015 que começou com Charlie Hebdo e os reféns do supermercado kasher termina com um tipo de terrorismo em que o alvo é qualquer um em qualquer lugar. Não importa mais mirar em mensagens que vão contra nossa ideologia ou em grupos-alvo historicamente visados. O que importa é semear a certeza de que ninguém está seguro em lugar nenhum. Nem na mesa de um restaurante, nem no terraço de um café, nem em um show de rock num clube de uma grande cidade, nem em um estádio… Você pode até mesmo estar na bela, romântica e glamourosa Paris e receber um tiro gratuito no meio das ventas. Mundo, estranho vasto mundo imundo.

Aí, um pseudo-acidente faz romper uma barragem de uma grande mineradora e cidades são invadidas por uma lama podre, envenenada, que leva gente, bicho e natureza embora. Um rio morre para sempre. Tudo e todos que dependem desse rio morrem ou estão condenados. Lama podre e envenenada, a imagem perfeita de um país inteiro que vira as costas rapidamente e volta seu olhar para cá, para a nossa “elegante” desgraça.

Aqui, três horas depois do início do massacre, um presidente fala na televisão para todos os cidadãos. Quatro horas depois do massacre, ele e seus principais ministros estão no local mais atingido. Jogo de cena. Mas a imagem é fundamental nessa hora, para dar ao menos a ilusão de que não se está sozinho.

Aí, uma semana depois da catástrofe, uma presidente nem ao menos visitou o local do crime. Os donos da empresa divulgam notas. Cada qual culpa um outro pelo acontecido. Multas vergonhosamente insignificantes serão pagas naquele que é reconhecido como o Fukushima brasileiro em termos de gravidade. Toda uma área é impedida de acesso até mesmo pelo poder público. Ninguém sabe nada. Ninguém sabe da gravidade do acidente. Ninguém sabe o que ele acarreta. Ninguém tem água para beber. A água podre virou cimento em vários cantos, a muitos quilômetros de distância. Ninguém está nem aí. Palavras que significam mais do que querem dizer falam em “acidente”, “fatalidade”. Contra o acaso, quem senão Deus pode algo, não?

O que me parece que os franceses estão descobrindo de maneira contundente, ou o que estão sendo obrigados a recordar e que nós, aí, já sabemos há tanto tempo de maneira inequívoca, é que a vida não vale absolutamente nada nesse mundo que criamos. Ou melhor, nós sabemos não. Pois nós, a elite, pensávamos há até bem pouco tempo que éramos tão intocáveis quanto os franceses nos cafés de Paris. E estamos levando  porrada da vida quase ao mesmo tempo que nossos modelos de vida e de civilidade, os franceses. A vida que não valia nada era essa de 90% da população: os índios, os negros, os pobres, as mulheres, os homossexuais, os loucos… Mas até então, quem se importava? Eles que se fodessem, como sempre ocorreu, desde que escolhemos como mito de fundação a falácia de um país descoberto há 500 anos.

Aí, praticamente em todo canto não cercado de arame, vigias, guaritas, alarmes, câmeras e vidros blindados, a vida já não vale nada há umas boas centenas de anos. As pessoas protestam contra o aumento das passagens de ônibus? Bota a polícia na rua. As pessoas se insurgem contra os gastos astronômicos e fraudulentos de um campeonato de futebol? Manda a polícia arrebentar. Mas longe dos estádios e das câmeras. Que o Brasil é o país da alegria e do carnaval. Os alunos de escolas que ameaçam serem fechadas por uma pretensa reforma do ensino ocupam essas escolas em protesto? Manda a polícia para a porta das escolas. Reintegração de posse.

A quem pertence o poder? É isso que está em jogo, não? Em uma São Paulo sem água em que governador recebe prêmio por gestão hídrica, o que está em jogo é claro: em nome da segurança-pública, vamos bater até dobrar. Todos vocês. Se tivéssemos um mínimo de memória, lembraríamos com certeza de como os militares dobraram seus opositores, de como os colonizadores dobraram seus escravos, de como os “descobridores” dobraram os índios. Não, não é necessário lembrar nada. Aprendemos com todos esses que nos antecederam a fazer o que têm que ser feito para dobrar o inimigo. Aprendemos a sermos o pior.

Aí, o estado laico tornou-se uma licença-poética. Legislam sobre o corpo da mulher como sempre o fizeram, mas de maneira ainda mais crua, cruel e abjeta, pois nosso tempo assim o permite: o estupro tem que ser provado pela vítima. Assistimos às manifestações explícitas de incentivo à pedofilia em cadeia nacional e ainda tem quem ache graça. O primeiro assédio da devastadora maioria das mulheres brasileiras posto a nu em plena web escancara o nosso descaso com aquelas vidas que nunca valeram nada mesmo, aquelas que deixam de valer primeiro, as primeiras a serem sacrificadas: mulheres e crianças. Alguns debocham, outros desdenham o feminismo, outros ainda mais perversos respondem com um meaculpa hipócrita, ao invés de irem para a cadeia. O racismo antes e sempre escondido atrás da imagem do país de todas as raças, de todas as cores, de todas as crenças cai por terra. Pessoas se permitem insultos racistas em plena luz do dia, sob a proteção da tela de um computador que as faz crer serem inatingíveis. A tecnologia autorizou o monstro dentro de nós a mostrar todos os seus dentes, todas as suas garras, todo o seu horror, toda a sua agressividade, todo o seu ódio, ódio, ódio, ódio. Contra tudo e contra todos. O que incomodar, a gente extirpa da face da terra. Pessoas se permitem apedrejar alguém de outra religião em nome do seu deus. Pessoas se permitem linchamentos. Pessoas se permitem acreditar que tudo será melhor quando crianças forem para a cadeia. E quando o governo cair. E quando o dólar baixar. Pessoas em algum lugar devem rir da nossa cara.

Aqui, ninguém ri de mais nada há um bom tempo. O país do pensamento, da abertura, das luzes foi engolido por uma espessa treva, consequência direta de seus atos, de sua política externa, de sua arrogância frente ao outro, de sua incapacidade de integrar, de sua resistência a se colocar em questão, do seu medo em se posicionar criticamente, de sua covardia em seguir a maré, navegar a onda do que dizem os bancos, o dinheiro, os grandes interesses de mercado e as grandes indústrias do medo e da guerra. Esses sim, os verdadeiros donos do poder. Ninguém ri de mais nada nessa guinada cada vez mais clara à direita, ao conservadorismo, ao estrangeiro como inimigo, ao outro como bode expiatório inevitável. É isso ou perder o poder. E ninguém quer perder poder nenhum, nem sair do conforto desse lugar tão conhecido onde estão há décadas ou séculos: França, país da liberdade, da igualdade, da fraternidade, do droit de l’homme, da defesa dos direitos humanos. Da defesa do humano no homem. Será mesmo?

Aqui, as guerras criadas nesse mundo em que vivemos e que servem apenas a uns poucos, especialmente a europeus e americanos, finalmente apresentam a conta: pessoas percebem que é mais seguro entrar numa “barca furada” e atravessar um oceano de desespero com família, mulher e filhos do que ficar onde estão. Quem nesse mundo pode chegar a apostar que uma travessia em um barco lotado é melhor do que sua própria casa? O horror, o horror traduzido em gente, em corpos, em crianças mortas na praia. O pior do humano chega no velho mundo com uma fatura alta para cobrar: o preço é impagável.

Aí, fazemos de conta que a conta não existe. Rimos da conta, debochamos da conta. Sem lei que somos, assumimos que a conta não é nossa e seguimos com a vida que nada vale, em que nenhuma violência mais tem peso o suficiente para criar o horror e fazer gritarem as pessoas. Um urro de desespero, de indignação. Uma tentativa de mudança. Seguimos anestesiados nesse “deixa disso” eterno, nessa tentativa de conciliação pelas aparências. Somos os experts da indiferença. E da covardia. Ninguém quer pagar o preço da conta.

Aqui, não dá para fazer de conta que a conta não existe. Um certo pudor, um certo constrangimento, um certo lastro de uma vergonha na cara tão necessária ao humano ainda parece existir. As fronteiras se abrem. Os refugiados entram. Jogo lindo entre abrir-se ao outro e o discurso do medo do outro, da ameaça do outro. Jogo lindo que dura pouco. Bombas explodem fora do estádio onde o jogo acontece. Amistoso França e Alemanha. Para quem gosta do poder simbólico das imagens…

Quem atira de metralhadora em pessoas no terraço de um restaurante? Quem atira em pessoas em um lugar fechado, no meio de um show de música? Quem manda a polícia para cima dos seus cidadãos, para cima de suas crianças? Quem torna a vida tão inviável que faz ser melhor partir morrer noutro lugar? Quem joga de maneira inconsequente a culpa no outro? Quem mascara negligência em acidentes, negócios milionários em guerras, fanatismo religioso em projeto de lei?

No final da vida, Freud estava refugiado um Londres, para onde se mudou às pressas por conta de perseguição aos judeus que tomava proporções mais e mais perigosas lá na sua Áustria natal. Áustria fim de século, berço do pensamento mais sofisticado de toda a Europa e do mundo ocidental por consequência. A língua alemã que falava com orgulho e defendia com convicção, a língua de todo o pensamento moderno, a língua em que escreveu seu otimismo em acreditar possível curar as neuroses. Freud otimista que pensava que o homem estava às voltas com o seu desejo, com os seus conflitos e cisões por conta do desejo, por conta das intensidades que o atravessavam.

Esse Freud que, no final da vida, e por conta da própria vida, teve que reconhecer que seu otimismo, sua crença no homem, no desejo e na força civilizatória eram por demasiado condescendentes com aquilo que o humano trazia dentro de si. Freud que viu, na sua língua, nascer a possibilidade de um humano excluído da possibilidade de toda a humanidade. O horror, essa nossa experiência do horror inominável nasceu ali, nessa época e nesse otimismo de Freud e da sua geração. O melhor nos deu a conhecer o pior.

Freud escreveu o meu livro predileto, Mal-estar na civilização, nos anos 30. Um pouco antes do pior se instaurar. Mas com uma lucidez e uma dor de fundo das quais não cesso de compartilhar desde a primeira vez que o li. É como se ele baixasse os braços sem entregar os pontos realmente. Ali, no mal-estar, ele entende que o pior do homem não é o seu desejo, mas sua propensão ao pior, a deixar-se levar pelo pior, a chafurdar prazerosamente na lama do pior. O pior do homem é o que ele chama de pulsão de morte, uma espécie de tendência ao zero, ao vazio de desejo, à anulação das intensidades. Uma tendência da vida em direção à morte que nos atravessa e que, no melhor dos casos, ao invés de nos afogar rapidamente sai em direção ao outro como agressividade e destruição.

Para pagarmos o preço da vida, precisamos agir em permanência contra essa tendência de destruir ou de se autodestruir, aceitando um compromisso civilizatório no qual ninguém se autodestrói, apostando em que construir uma vida é mais desejável do que se deixar definhar e, também, em que ninguém destrói ninguém e todos inventam outros destinos para essa força bruta que pode virar qualquer coisa: literatura, ciência, trabalho, arte… O mundo civilizado seria exatamente fruto da briga entre esse escorrer para a morte e essa teimosia da vida. Mundo civilizado, construção possível, invenção do homem que poderia apostar em pagar um preço para ser o melhor. Tempos de Freud, apostas possíveis nos tempos de Freud, compromissos possíveis dos homens possíveis nos tempos de Freud.

Hoje em dia, pagar o preço da civilização seria ainda possível? Pagar o preço – e a conta – da nossa humanidade, seria algo que ainda poderíamos nos prontificar a fazer? Nesse mundo em que pessoas atiram nos seus semelhantes sem mais nenhuma justificativa além da ação pura e simples de matar, nesse mundo em que o ódio às crianças, às mulheres, aos negros, aos homossexuais, aos estrangeiros, aos que têm outras convicções religiosas pode ser bradado sem vergonha e sem constrangimento aos quatro ventos sem que nada nos delimite uma fronteira à partir da qual não se pode mais falar ou agir por se tratar de um crime… nesse mundo onde pessoas são tocadas como gado em barcos, dentro e fora de fronteiras, marcadas como gado, exiladas de sua língua, de sua vida e privadas de qualquer olhar de empatia… Será que nesse mundo existe ainda lugar para algo além do pior de cada um?

Sou psicanalista há pouco mais de 20 anos. Entre consultório e instituições, o que sempre me moveu a persistir – na vida e na profissão – foi o encontro com algumas pessoas, cada vez mais raras, que fizeram e fazem o imenso esforço cotidiano de pagar o preço da vida. São pessoas que, muitas vezes contra tudo e contra todos, contra sua própria história, contra seus pais, sua família, seu entorno, sua cultura, contra tudo o que viveram lutam e pagam – a longo de suas análises e em todas as dimensões da sua existência – o preço de apostar na vida. Essas pessoas, que parecem estar em vias de extinção, se recusam a chafurdar na lama imunda do pior que poderiam ser. Recusam-se a seguir o caminho que lhes foi traçado e a seguirem como gado para o abatedouro. Essas pessoas recusam-se a não questionar, a não pensar e a apenas reagir com o pior do ódio em que vivem e o qual legitimamente sentem, negam-se à vingança, rejeitam a resposta cruel. São pessoas de imenso valor, que me ensinam cotidianamente sobre o pouco que resta do melhor do ser humano, da sua capacidade de humanidade, de seu imenso esforço, todos os dias, para acordar e lutar contra tudo nelas mesmas até conseguir extrair dali algo de diferente.

São pessoas que me impedem de desistir do ser humano, de desistir da humanidade em mim mesma, de deixar-me levar pela impotência, pelo cansaço, pela desesperança e pela vergonha. E pelo ódio. Especialmente pelo ódio.

Poderia ser qualquer outro acontecimento. O mundo está infestado de acontecimentos terríveis. Poderia ser pelo rio Doce tanto quanto por qualquer uma das muitas mulheres que morrem assassinadas por seus maridos. Poderia ser pelo menino amarrado ao poste e linchado. Poderia ser pelos milhares de comentários que transbordam todos os dias as redes sociais: comentários contra os outros, comentários que buscam apenas chegar como uma saraivada de balas que acerte seu alvo até ele simplesmente deixar de existir. Poderiam ser muitos fatos, muitos acontecimentos, muitas demonstrações do pior do ser humano, muitos exemplos do quanto Freud estava desesperadoramente certo em nos alertar sobre nossa dificuldade em aceitarmos pagar a conta da vida.

Freud dizia, ainda nesse texto magistral, que o homem pode se entristecer com os percalços e limites impostos pela natureza ou pelo próprio corpo. Pode se entristecer, se afligir, se revoltar. Mas aceita como inevitável esses que são limites da vida. O que o homem não engole, o que ele não consegue suportar são os limites impostos pelo outro, pela necessidade de conviver e de ceder ao outro uma parcela da sua crença de que ele é o centro do mundo e que tudo deveria girar em torno daquilo que é o seu desejo. O homem não tolera os limites impostos pelo viver coletivo, ele urra de ódio por ter que renunciar a algo que se julga no direito de ter para que um outro também possa ter um pouco e, assim, todos possam ter um pouco e que ninguém fique privado da possibilidade de ter. De ter uma existência, quero dizer. Para um poder existir, todos precisam poder existir dignamente. Se isso não fica garantido por uma espécie de pacto em que todos renunciam à satisfação absoluta, então estamos no pior dos mundos, em meio ao caos e à barbárie, no lugar onde as palavras não valem mais nada, onde o cinismo impera e onde cada qual pode exercer sua própria lei perversa.

Será esse o ponto a que chegamos? Será essa a fronteira que estamos atravessando cega e negligentemente nos nossos tempos? Será que já somos, tantos de nós, outra espécie de humanos desprovidos da capacidade de humanidade? E gozando disso? Que aterradora banalidade do mal é essa que se instaurou como modo de existir em nosso tempo? Como podemos resistir?

Quem consegue ter filhos hoje em dia sem se sentir na obrigação de lutar, não apenas por eles, mas pelo mundo inteiro? Que sentido faz a maternidade em nossos tempos sem uma tomada contundente de posição?

Talvez porque tenha um bebê aqui na barriga que vai chegar em pouco tempo a esse mundo. Talvez porque tenha uma pequena aqui do meu lado que insiste em dançar, cantar e olhar a vida com um olhar de encantamento… talvez por isso tenha sido a sexta-feira 13 de ontem que fez o copo transbordar. A revolta contra esse caminhar cego do mundo me arrebenta por dentro. A vergonha pesa, pois sinto em cada atrocidade dessas o peso da minha responsabilidade. Responsabilidade em ter feito tão pouco, em não ter lutado o suficiente, em não ter oferecido resistência hercúlea a tudo o que está aí, agora, instaurado e mais difícil de combater. Responsabilidade que divido com todos que me cercam, com todos da minha espécie.

Aqui, no dia de hoje, andamos cabisbaixos de vergonha. Vergonha pelo nosso comodismo. Vergonha pela nossa fácil desistência.

E medo. Medo pelo mundo que vamos deixar aos nossos filhos. Medo pelos filhos que estamos deixando para esse mundo. Medo de não termos feito o suficiente, nem pelo mundo, nem pelos filhos. Medo porque, no mundo todo, descobrimos o que boa parte do mundo já sabia: que não estamos a salvo em lugar nenhum.

Meu cara-metade chorou hoje ao descobrir que não pode proteger nossos filhos desse mundo. Eu chorei por esse mundo tão triste, tão sombrio, tão cruel, tão injusto.

E por aí? Como vão vocês?

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984
George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães
D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

Você vai perder…

(version française ici.)

… noites de sono, seu sossego, sua liberdade, as baladas com os amigos, as viagens, os
momentos de intimidade apaixonada quando dá na telha… Você vai perder. Muito. Engravidou, vai ter um bebê e vai perder. Já começa perdendo. É o que dizem os abutres de plantão, por vezes disfarçados de parentes, amigos, conhecidos ou desconhecidos de boa vontade, sempre com um sorriso nos lábios, te felicitando pela sua gravidez. A sua vida vai mudar totalmente.

Sempre fico na dúvida nessas horas. Será uma total falta de bom senso que impulsiona esse tipo de comentário ou apenas um gostinho de vingança mal disfarçado de que aquela pessoa ali, aquela barriguda agora vai saber o que é a tal “vida de verdade” onde pessoas perdem. Bem vinda ao clube, amiga! Subentendendo-se: mais uma para partilhar da frustração que é essa vida. Como dizem por aí: “chuta que é macumba!”

Sai para lá com seu fel disfarçado de simpatia e de experiência. Que eu não preciso disso. No momento, o que preciso é cuidar da minha vida, da nossa vida e de garantir todo o bem estar e todo o conforto para a pequenina que está aqui na barriga. Logo mais, vou precisar de outras coisas. E deixo para logo mais o que é de logo mais. Nada disso te diz respeito. E nada disso cabe na sua máxima de “você vai perder”. Uma gravidez não necessariamente se encaixa na sua lógica de perdas e ganhos, sabia?

É curioso: porque será que quando alguém engravida tanta gente assim se regozija em anunciar tudo o que você vai perder com a maternidade? Por que essas pessoas não falam do que você vai ganhar? Será que é mesmo para te preparar para o quanto é difícil? Mas o quanto é difícil?

Eu fico mesmo é com o meu querido Freud – aquele, o tal do Sigmund – que, há pelo menos cem anos, indignou as pessoas e suas mentalidades com a constatação de que boa parte de nosso sofrimento tem justamente a ver com a dificuldade que temos em perder alguma coisa. Nós, os neuróticos comuns e banais, passamos a vida tentando fazer a contabilidade da existência da maneira mais mesquinha possível. Perder o mínimo. Perder nada. Perder parece um horror. Então, cada escolha da vida que envolva uma perda gera um sofrimento quase pânico e coloca a pessoa para trabalhar, para adoecer, para tentar achar uma saída que a impeça de perder. Só que perder nada é perder tudo.

Tem gente que fica colado no que está perdendo. O tempo todo de olho naquele centavo que se esvai. Como se escolher não fosse sinônimo de renunciar, de perder algo para ganhar outro algo. Que escolha não envolve perda? Que escolha não implica abrir mão? Que escolha não é aposta na possibilidade de “x” apesar de “y”?

E tem gente que fica em situação mais aprisionada ainda, acha que descobriu a pólvora e que, se não escolher nada, não perde nada. E daí vai, obssessivamente vida afora, nessa espécie de paralisa das escolhas, acreditando que sem se comprometer está evitando qualquer renúncia. E sem se dar conta de que, não tendo escolhido, perdeu para todos os lados. E que ficou sem nada. Tempos estranhos em que a imobilidade parece uma boa opção para não optar. Tempos estranhos em que o “jeitinho” parece uma estratégia eficaz para ter tudo.

Provavelmente, quando essa pessoa inconveniente curiosa se aproxima de uma grávida dizendo tudo o que você vai perder, não se trata nem de falta de noção, nem de má fé. É apenas ela dizendo o quanto é um mal perdedor. É apenas um jeito pobre de olhar para a vida, priorizando o que se perde no lugar do que se ganha, priorizando o que não se tem no lugar daquilo que se constrói. Pobreza de espírito que não permite à pessoa perceber nem o que ganhou com suas escolhas, quanto mais que possa ver nas escolhas dos outros alguma positividade. A maior parte das pessoas, infelizmente, prefere ficar colada naquilo que lhes falta.

Não estou pregando um olhar cor-de-rosa, onde a gravidez e a maternidade sejam apenas uma propaganda de doriana que se estende por toda a sua vida. Muito menos estou dizendo que não se deve falar sobre o que é difícil, penoso, sofrido nessas experiências. Não, é justamente o contrário. Estou dizendo que levar em conta uma escolha que se faz pela maternidade com TUDO aquilo que ela implica já inclui o “bom” e o “ruim”, o que se “ganha” e o que se “perde”. Ninguém precisa nos prevenir daquilo que já sabemos (quando já sabemos, é claro): que a maternidade, como tudo o que é da vida, traz perdas e ganhos. Pois é uma escolha e, como escolha, seu limite está dado no próprio ato de escolher. E, ainda assim, isso é tão relativo…

Quem sabe o que é bom ou ruim para uma outra pessoa? Quem sabe o que é um ganho ou uma perda para alguém? Posso achar que é uma renúncia terrível não poder mais sair à noite para a balada com os amigos, mas e se a barriguda ali detesta balada? Então, essa história do você vai perder já começa furada pelos valores e pelos preconceitos de cada um, os quais aquele que fala esquece que podem não ser os valores do outro. Falta de respeito pensar que o que eu acho que você vai perder é o que você vai perder realmente e que, ainda por cima, isso é uma tremenda catástrofe para você, do mesmo jeito que foi para mim. As pessoas gostam de falar como se pregassem, como se o mundo fosse apenas o reflexo do que elas são e como se elas soubessem o que você perde e o que você ganha quando decide ter filhos.

E, ainda, parecem desconsiderar que quem fez essa opção, de um jeito ou de outro, na medida em que foi capaz de escolher, já conta com renúncias. Mas também já escolheu passar por alguma coisa, viver algo que julga importante. A menos que tenha optado pela maternidade pensando que vai dar para não perder nada, e que acredite naquele ideal de mulher moderna que é simplesmente tudo e tudo muito bem. Mas, daí, já é outra história. Ou o reverso da medalha dessa mesma história de quem adora falar do que você vai perder quando te descobre grávida. Um sujeito colado na perda que não consegue se conformar em perder nada e uma outra colada na ilusão de plenitude de que vai dar para engravidar, ter filhos e não renunciar a nada. No fundo é a mesma coisa, tanto para um quanto para outro: um assombro, um medo pânico de perder que ou te deixa fixado nisso, contando os centavos de existência e lamentando ter que pagar por ela, ou te coloca em estado de negação, achando que vai dar para escapar, que você será a exceção à regra.

Você perde, eu só ganho… Será mesmo que ter filhos se inscreve nesse binômio empobrecido de ver e de viver a vida? Qual será o sentido de botar alguém nesse mundo já de cara com o peso de que ele te tirou alguma coisa, de que ele te obrigou a renunciar, de que você se sacrificou por ele? Ou de que ele te fez completa, plena, capaz de tudo, de que ele te deu ou tem que te dar tudo? Em nome das tuas perdas, ele vai ter que te compensar? Ele vai ter que te dar o que você perdeu e fazer valer suas renúncias? Não sei não, acho que nessa lógica contábil de olhar para a maternidade apenas pelo viés das perdas e ganhos, não apenas você sai esmagada pelos abutres de plantão que te fazem acreditar que você perde muito e que perder é muito ruim como o seu filho, que nem pode se defender, sai perdendo desde antes de sair da barriga, em dívida contigo pelo simples fato de existir, tendo que te compensar de uma coisa muito ruim que foi você ter abdicado de algo… Putz, que cilada! Será mesmo que a gente quer viver nessa lógica? Eu não, obrigada.

Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França
Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França

O sexo do bebê e sexo dos anjos…

Segundo ultrasom, antes ainda das 22 semanas – porque aqui na França, os obrigatórios e reembolsáveis pela seguridade social são os de 12, 22 e 32 semanas – e o médico lança, não antes de eu ter gentilmente perguntado: ah, isso é uma menina! Assim, como se fosse uma evidência. E isso, vulgo, meu bebê, virou minha bebê, nossa bebê(zinha).

Das coisas que trazem um senso de realidade, de concretude a uma gravidez, saber o sexo do bebê pode ser colocada ali nos “top 5” da lista. Ver o bebê, como já escrevi antes, ouvir seu coração e, agora, saber se é menino ou menina encarnam profundamente esse acontecimento no corpo. Ou, ao menos, encarnam profundamente a consciência de estar gestando dentro da sua cabeça, dos seus sentimentos, das suas fantasias, das suas representações. O que, já diria o bom e velho Freud, é a mesma coisa. Não existe corpo que não seja banhado de alma, de psiquismo, de subjetividade. Corpo organismo, assim, seco, objetivo, cru, apenas os médicos, esses seres estranhos, é que insistem em apregoar. Talvez mais como proteção do que por real convicção, afinal, se eles forem pensar o tempo todo que aquele corpo ali é uma pessoa, como é que vão abrir um tórax, um crânio, realizar uma cirurgia? Enfim…

Mas corpo não é isso, né? Um exemplo: basta ver uma mãe cuidando de um bebê para se dar conta de que o corpo é tudo menos uma objetividade, pois cada vez que um bebê é tratado apenas como um organismo, ele adoece. Uma mãe trocando uma fralda é um toque, um olhar, palavras, sorriso, carinho, calor. Ou até ansiedade, insegurança, cansaço, irritação, pressa… não estou discutindo a qualidade da troca, mas o fato de que ela existe e que ultrapassa o que seria um gesto objetivo, em que as particularidades e os afetos dos dois que estão ali não participariam. Ou seja, trocar uma fralda nunca é o mero ato técnico de cuidar do corpo do bebê esmerdeado. E as imagens do ultrasom, o som do coração do bebê batendo acelerado nunca são apenas os indícios de boa saúde, ou as boas medidas, os bons indicadores do tempo, dos progressos e do estado de uma gravidez. Mesmo que seja apenas isso que conste do relatório do médico, para você é muito mais.

Ainda bem. Porque enjôos, cansaço, sono são bem legais como sinais de gravidez mas, não, são horríveis. Quem gosta de passar três meses enjoando noite e dia, tendo como ruído de fundo permanente um corpo barulhento que se estranha com sua nova condição? Não come, enjoa, come, embola e tem azia, e assim seus dias passam a ser medidos pelos tempos e pelos intervalos entre enjôos e azias e você torce para que ao menos a tal história de que passa ao final do terceiro mês seja verdadeira e a cada vez que lê os relatos de gente que enjoou até um último segundo do último dia do último mês pensa em como vai resistir comendo apenas abacaxi, laranja, mexerica e maçã por todo esse tempo e já se imagina transformando-se em uma pessoa amarela e ácida como as frutas que você consegue comer e… afff…

Corpo bom é corpo quietinho de todas essas turbulências. Corpo em revolução por conta de uma gravidez dá uma trabalheira danada. E um baita mau humor. Até que as imagens, os sons, o sexo do bebê partem em seu socorro e te devolvem a dimensão de porque tudo aquilo está ocorrendo. E você olha para trás, um tempo bem recente, algo como um mês atrás e se diz: ah, nem foi tão ruim assim.

Gustav Klimt: Hope II / 1907/08
Gustav Klimt: Hope II / 1907/08

A enxurrada dos outros…

OK, a ficha caiu, você entendeu que está grávida, que é real, de verdade, encarnado nas entranhas, cotidiano, inesperado… Você percebeu que segue o curso da vida, que faz parte da vida, sem cena de filme, slow motion, música de fundo, happy ending e tudo o mais que o imaginário hollywoodiano perversamente ajudou a enfiar na sua cabeça, dando o falso nome de romantismo a todas essas expectativas infundadas… Você está quase segurando a própria onda, mas então vêm os outros. Já dizia o velho Sartre: “o inferno são os outros”. Para o melhor e para o pior. Na alegria e na tristeza. Putz…

Minhanossaparabénsquecoisalindaquemaravilhavocêquistantodeveestaremestadodegraça… (Oi? Calma, deixa eu respirar, respira um pouco também, toma um chá, fuma um cigarro.) Não, porque você não fuma, né? Porque agora, vai ter que parar. Tem que cuidar do seu bebê. Aliás, beber, não pode. Faz mal pro bebê. Comer peixe cru, é proibido, você não sabe? Carne crua então? Banida para todo o sempre amém até o fim da amamentação. Olha, esfrega os peitos com uma bucha para não rachar. Esfrega mesmo, não para ficar hidratado, mas para virar uma crosta. Você já sabe se é menino ou menina? (Dãh…) O que você prefere? Ah, que bonitinho, vai ser a cara da mãe, do pai, dos avós, dos irmãos, do cachorro, do papagaio, do padeiro. Sempre soube que você seria mãe, você nasceu para ser mãe. (Hein?) Vai ser bilíngüe, que belezinha, falando português e francês, que amor. Olha, tem que se alimentar direito, dormir bem, até mesmo porque, depois que nascer, você nunca mais vai dormir na sua vida.

Babel - Cildo Meireles - 2001
Babel – Cildo Meireles – 2001

Sério, de onde as pessoas tiram esses comentários? Elas querem comemorar com você ou te fazer se jogar pela janela? Nada pode, faça isso, faça aquilo, nunca mais, acabou sua vida de tranqüilidade, sossego, casa arrumada, viagem, festa, amigos, sono, pele boa. É o quê? Um parabéns às avessas? Uma sede de vingança? Porque eu custo a acreditar que as pessoas realmente pensem que aquilo que elas estão dizendo, as dicas, o compartilhamento de suas experiências as mais grotescas tratando de cocôs, vômitos, doenças, perebas, celulites, estrias, peitos caídos, sobrepeso, cansaço, falta de sono e mais enjôos e enjôos e enjôos… duvido que os próprios seres falantes acreditem do fundo de seus coraçõezinhos que esse conversê todo ajuda a quem está do outro lado da linha, ali, ouvindo. Deve ser uma forma de evacuar, uma catarse, um exorcismo: falar de todo o horror com um sorriso no rosto, o olhar cúmplice e o tom de voz reconfortante de um parabénsestoutãofelizporvocê… E você com olhos de terror. Pois, se você tem ouvidos e eles escutam bem, os olhos reagem de acordo e viram duas estrelas estaladas na sua cara, prontos para sair correndo junto com todo o resto do corpo se ao menos você conseguisse fazer suas pernas te levantarem e correrem, correrem, correrem para o mais longe possível.

E então vêm os livros, os sites, os blogs (ops!), os fóruns, os programas na TV, os filmes, o John Travolta, a Kirstie Alley e o bebezinho tagarela do Olha quem está falando e você se percebe mergulhada em uma Babel de falas, palavras, frases, línguas… um ruído ensurdecedor, enlouquecedor. Tentar acompanhar, seguir, se orientar em meio a isso vira uma tarefa hercúlea, fadada ao fracasso. As opiniões, conselhos, orientações, tudo se contradiz, ninguém sabe o que fazer… qual é o caminho certo? Qual é o único caminho certo, a verdade?

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Tem gente que se salva no médico e no saber médico nessas horas. Toma as palavras do médico como cânones religiosos e segue à risca tudo. Tudinho. Mas isso não garante nada, não é mesmo? Se garantisse, todos os casos de inseminação artificial – situação na qual a gravidez não poderia ser mais controlada, vigiada, manipulada e orientada pelo saber médico – seriam bem sucedidos. Se os médicos soubessem exatamente o que fazer, como fazer ou quando fazer para garantir que uma gravidez corra bem, não teríamos, em tempos de primazia do saber e do poder médico sobre os nossos corpos, nenhuma gravidez que vai mal. Mas não é bem assim. E a gente, na angústia de perceber nossa falta de garantias, nossa vulnerabilidade ao acaso em uma hora como essas, prefere se confortar imaginando que a gente não sabe, mas alguém sabe. Alguém há de saber que tudo há de correr bem: o médico, a ciência, a nutricionista, o padre, o astrólogo, o psicanalista, Deus… Outro bom e velho, o Freud, já dizia que nós, os neuróticos, quando não podemos mais negar a nossa própria insuficiência e falta de garantia sobre nossa própria vida, quando não podemos desviar mais os olhos, arrumamos ainda um último suspiro e, numa tacada de mestre, deslocamos para outra pessoa a onipotência que vamos nos vendo perder: eu não posso, mas alguém pode. A onipotência da mãe não castrada, frase difícil, mas tão simples e verdadeira como o senso comum que se apressa a dizer que sempre existe, em algum  lugar, uma festa incrível acontecendo, para a qual você não foi convidado. Você está excluído, mas alguém está lá. Então, é só questão de descobrir como fazer para estar lá você também, como tampar os buracos, como conseguir todas as garantias. Alguém já viu vida com atestado de garantia? “Se você viver assim, vai ser feliz para todo sempre…” Ah, sim, nos contos de fada e nos filmes acontece… oh, wait!

Bom, o fato é que os outros engatam a quinta marcha da verborragia e você não sabe mais nem o que pensar ou por onde começar. E tudo isso porque você tem que estar muito, muito, muito feliz. Ouvido de penico e sorriso estampado no rosto, a imagem do estado de graça. Tentando seguir todos os conselhos. E fazer tudo certo. Certo?

Não. Donald W. Winnicott, um psicanalista inglês que era, também, pediatra entendeu, para a nossa sorte – ou a minha, ao menos – que uma mãe boa é uma mãe que é suficiente. Suficiente. Não perfeita. Não total. Não inteiramente certa. Em suas consultas como pediatra e como psicanalista, ele se deparou com muitas situações envolvendo as mães e seus bebês e adiantou – visionário – o que ia se intensificar no nosso século, chegando às beiras do insuportável: temos um excesso de falas, um excesso de saberes, um excesso de ditos, uma cacofonia absurda e enlouquecedora a respeito da maternidade. Uma cobrança pela perfeição, em meio à todo esse barulho. Enquanto que, segundo ele, se deixarmos um espaço para que essa mãe exista, ela vai achar o seu caminho como mãe. Ela vai fazer o melhor. Ela vai ser suficiente. E suficiente, é bom. Menos barulho, menos informação, menos conselhos, menos dicas, talvez faça sentido o silêncio que me acomete nesse início de gravidez. Silenciar para gestar. Silenciar para encontrar o quê e como fazer. Shhhhh…

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